II – O Baroco e o
Classicismo
O século XVII francês
concentra as transformações em curso na Europa de modo exemplar. Trata-se de
uma época em que as contradições expressam a circulação de forças que devem, na
transformação de seu equilíbrio, balizar o caminho da ocidentalização que nesse
momento assume o projeto absolutista.
Mas esse projeto
encontra obstáculos. A observação da relação aparentemente conflituosa entre o
barroco e o classicismo francês é particularmente ilustrativa desse fato. Mas
deve-se ampliar a impressão. Não se trata apenas da transição ao absolutismo
moderno que se choca com as aspirações ainda vivas de uma nobreza feudal, mas
de transições que afetam nada menos do que a transposição de mundos.
Carpeaux expressa bem
isso, a propósito de John Donne: “homem de transição entre duas épocas, imbuído
da escolástica e erudição medievais e fortemente impregnado dos conceitos da
nova geografia, astronomia e filosofia”, a que se deve somar a “ambiguidade
religiosa” entre catolicismo e protestantismo.
O que considero
importante notar aqui é que o caráter antitético que informa os valores dessa
época não são apenas decorrentes da diacronia, como se estivessem limitados à
tensão entre o velho e o novo, reminiscência renascentista e afirmação de
modernidade.
Mas sim que as
contradições se instalam no interior dessa mesma afirmação, que deve ser menos
visada como um bloco de verdades novas ou doutrinas consagradas do que o fluxo
de informações que se processam – vertiginosamente comparando-se à marcha usual
das descobertas até então – gerando uma espécie de consciência da perplexidade
expressa na correspondência entre os “savants” – aqueles que participam dos
processos em curso na epistèmê. A epistolografia é, aliás, um gênero importante
e característico dessa época.
A relação entre
barroco e classicismo se ilumina mais ao tratar o barroco sem acentuar demasiado
o seu caráter de ruptura e, inversamente, enfatizando as linhas de
prolongamento em relação ao humanismo, conforme Carpeaux. Assim o exemplo de
Luigi Tansillo e o destaque do pré-barroco italiano. Se a coloração de sua
poesia pode se localizar no contexto renascentista do humanismo, a lírica já é
bem baroca.
A transição parece a
princípio bem nítida, fácil de se descrever. O humanismo é o ideal da perfeição
monótona, do maravilhoso dentro do mundo mas sentido como comunhão de todas as
partes no seio da mesma natureza festiva, onde a própria negatividade se põe a
nu, como em Masachio, pela simplicidade, pelo patético, revertendo as
ressonâncias românticas da cena religiosa, qualquer apelo sugestivo da
impossibilidade de atingir o fato puro do que se vê.
Já o barroco é a
impossibilidade da perfeição, a expressão da natureza antitética das coisas
naquilo em que jamais se revelam na positividade do seu acontecimento mas
apenas deixam, como traços em meio a sombras, as marcas de suas verdades
conflitantes, o seu cerne ambíguo.
O que pode haver de
atenuante a esse contraste de humanismo e barroco é o gosto pelo ornamento,
pelo explorar puro das possibilidades de invenção da linguagem, mais a
conservação do espírito de uma época, seus valores, seu modo de sentir. Nesse
caso trata-se dos valores da nobreza feudal com sua aspiração de monarquia
universal, que havia tipificado ainda o século XV “flamboyant” a que se
relaciona, na Espanha do “cinquecento”, o projeto universalista de Carlos V.
Mas esse projeto se
converteu no nascimento da Espanha barroca, a estrutura político-estatal
pioneira de substituição da nobreza pela burocracia, do ideal universalista
pelo absolutismo nacionalista. É já nesse momento plenamente renascentista que
se comprova a existência do pré-barroco, cujo representante espanhol é o Libro
Áureo del Emperador Marco Aurélio (1529) do franciscano Antonio Guevara. Na
Inglaterra a consequência da tradução de Guevara é o eufuísmo de Lilly,
presente também nas comédias de Shakespeare, estilo “afetado e conceituoso”, de
evasão, em que as metáforas como que substituem a realidade.
Através desse
percurso se pode apreciar o barroco como “consequência lógica” do estilo da
Renascença aristocrática, conforme Carpeaux. Apenas, enquanto na Renascença se
tem ainda confiança nas aparências da sociedade cristã em que almas “naturaliter
paganas” podem em boa consciência refugiar-se na solidão íntima, no barroco a
evasão já é uma forma de resistência heróica daqueles que não podem vislumbrar,
na sociedade ou na religião dilaceradas, garantias para uma tal confiança.
A transição do
quinhentos ao século XVII se reveste dessas formas de expressão, o culteranismo
de Marino, o conceptismo de Quevedo, o hermetismo de Gôngora. Assim na França,
já no início do século há a arte marinista dos “precieux” e das “precieuses”,
notadamente Voiture, Chapelain e o Duque de Montausier, marido de Julie d’Angenes,
que se reúnem nos salões do célebre Hotel da marquesa de Ramboillet, Catherine
de Vivonne.
Carpeaux procura
atenuar o contraste entre esse preciosismo e o classicismo de Malherbe. Se as
formas não poderiam ser mais irredutíveis, Malherbe antecipando as regras de
clareza, sobriedade e pureza da língua, que se situam como antípodas da pompa e
da criatividade alusiva do barroco, Carpeaux observa que o preciosismo mesmo é
obra de escritores que haviam antecipado a transformação da nobreza feudal e
guerreira em “aristocracia de corte e salão”, isto é, plenamente integrada na
ambiência do absolutismo consolidado, que não deixa nenhuma independência real
aos cortesãos.
Mas Carpeaux também
afirma o que separa profundamente essas correntes. O preciosismo é assim uma
tentativa de manter na França “o estilo hedonista da nobreza”, cujo limite só
pode ser o poder absoluto da monarquia que a subjuga de certo modo. Ora, esse
poder monárquico já é expressão da ascenção da burguesia. Assim, conservando a
ambiguidade, a elite da época oscila entre a identificação com o ideal da
epopéia heróica “preciosa” ao mesmo tempo em que o próprio Chapelain é também
um dos preparadores do classicismo acadêmico de substância burguesa, antitética
desse gênero.
Enquanto o
classicismo vai ganhando terreno de modo a superar pouco a pouco a epopéia
heróica, a época celebra, contudo, a epopéia herói-cômica (Tassoni ) e
principalmente o romance heróico-galante (Saint-Sorlin, Gomberville).
O Romance Picaresco é
também importante, acompanhando a transição do quinhentos ao século XVII: o
anônimo “Lazarillo de Tormes” é de 1554. O “ Guzmán de Alfarache”, de Mateo
Alemán, o mais importante título do gênero na perspectiva da crítica literária,
é de 1599. O Quixote de Cervantes, o mais popular, é publicado sete anos mais
tarde e nele já confluem com os elementos humorísticos da figura de Dom
Quixote, o viés realista na figura de Sancho Pansa.
Com efeito, o romance
realista, como “ Le Roman Bourgeois” de Furetiere (1666), apreende a técnica
novelística do picaresco em que se pode observar a deriva dos círculos da
cultura oficial aos temas populares, mesmo à ambientação do bas-fond, voltado
como é à realidade vivida pelo povo. Assim o romance picaresco que sobrevive
durante o século XVII assinala a transição ao romance burguês que substitui,
por sua vez, a epopéia, grosso modo tipificando-se a transição das formas
culturais mais representativas do antigo e do moderno.
À idealização dos
heróis substitui-se a descrição do tipo humano comum. O herói do romance
realista é representativo da sociedade com suas misérias ao invés de veículo da
perfeição modelar de uma “raça” miticamente fundamentada pela origem divina.
Exemplo notável é o Simplicissimus de Grimmelshausen, que acompanha o
crescimento de um menino até a maturidade antecipando de certo modo os “romances
de formação” de Goethe e Rousseau.
A partir dessa
vertente realista já se instala o cenário “clássico” em sentido estrito, com o
classicismo de Racine e Moliére consagrando a planificação absolutista burguesa
nas formas “limpas” da linguagem, planificação que agrega porém a nobreza na
côrte. A provisoriedade desse arranjo pode ser sentida, e o é por vezes de modo
agudo.
Manifesta-se, por
exemplo, na célebre polêmica acerca do jansenismo. Esse movimento religioso
irradia-se do convento de Port-Royal, fundado por Angelique Arnauld bem no
princípio do século XVII, conforme rígidos preceitos de vida monástica. Mais
tarde torna-se confessor em Port-Royal o abade de Saint Cyran, que suplementou
o rigorismo de Angelique pela introdução da doutrina de Jansenius, bispo de
Ypres.
Jansenius opõe-se
frontalmente à interpretação jesuítica da doutrina da Graça, acusando-a de
constituir um tipo de pelagianismo ao aceitar que o ser humano pode alcançar a
salvação por meio de boas obras. Jansenius exigia a observação dos preceitos
agostinianos acentuando o caráter puramente gratuito da eleição, por Deus,
daqueles que se destinam a ser salvos.
Enquanto os jesuítas
valiam-se de sua influência junto ao papa, de modo a impugnar a doutrina de
Jansenius, em Port-Royal a reforma monástica se radicalizava tornando-se o
convento uma espécie de centro de um movimento místico e ascético, inclusive
fundando uma colônia de eremitas, os “solitaires”, no vale de Chèvreuse – entre
os quais Arnault, parente de Angelique, e Nicole, que publicaram a célebre “Logique
de Port – Royal”.
Segue-se um período
de polêmica entre os jesuítas e os jansenistas representados por Arnault que
escreveu um livro condensando a doutrina de Jansenius contra a interpretação
jesuítica . A essa altura a querela já havia emocionado e envolvido toda a
França, sobressaindo a atitude de Pascal que publica as Cartas Provinciais,
defendendo os jansenistas e satirizando as posições jesuíticas.
Já no início do
século XVIII os jesuítas logram o fechamento de Port-Royal, sendo tão dramática
quanto inútil a resistência dos religiosos jansenistas. Mas a posição de
influência dos jesuítas, somando-se ao prestígio intelectual de alguns “solitaires”,
fizeram com que progressivamente as simpatias tendessem ao jansenismo que
prosseguiram suas atividades na clandestinidade.
Produziu-se assim uma
curiosa situação. Os jansenistas, promotores da maior severidade de costumes
contra a liberalidade jesuítica, foram vistos como precursores do
livre-pensamento e da Revolução enquanto os jesuítas tipificaram, aos olhos da
opinião pública, o poder eclesiástico que os intelectuais combatiam.
Essas vertentes em
conflito podem, como vimos, se agrupar conforme o antagonismo do antigo e do
novo, mas isso que é agora o “antigo” reveste interesses e instituições de
certo modo tão representativas do século XVII – por exemplo o jesuitismo – como
o que é aí o “novo” – a ascenção dos valores da burguesia.
Compreende-se talvez
um pouco mais, observando esse fato, o desconcertante anacronismo pelo qual o
ascetismo de Port-Royal, complementando o do classicismo em geral, pareceu mais
libertário na época do que o sensualismo e a criatividade exacerbada do
barroco, de certo modo sendo equacionado, por Carpeaux, ao conjunto das forças
que se expressam no exercício de poder das instituições que a burguesia
precisava demolir para conquistar a hegemonia.
Tudo isso isola a
época clássica entre as pinças do mundo antigo-medieval e do mundo efetivamente
burguês, pós-Revolução. Os aspectos dessa situação singular poderão ser bem
enfatizados ao observarmos mais detidamente as linhas da epistémê que aí se
desenvolvem.
Pode-se com esse
intuito estender um continuun entre as produções artísticas e científicas do
século XVII – que, porém, quanto à cientificidade precisa ser focalizado sempre
como uma curva que envolve o século XVIII como na produção de um mesmo panorama
epistemológico.
Sem limitar nosso
intento a uma enumeração de produções artísticas e científicas, será muito
oportuno utilizar a teorização de Bachelard que em certa medida ilumina
amplamente o sentido do clássico, as decisões que aí se operam. Mas esa
utilização não se faz sem que problemas inerentes à própria epistemologia,
enquanto região separada de pensamento, tenham que ser evidenciados.
Assim, para de algum
modo introduzir a problemática, caberia propor a questão: será que o “eu” se
transforma assim como o “espírito científico”? Ora, essa questão no interior do
eixo de referência que lhe é próprio, a epistemologia do “novo”, de Bachelard,
rigorosamente não tem sentido. Trata-se de um puro disparate. Mas ele parece
paradoxalmente medir o reverso do que se enuncia como o sentido preciso dessa
novidade.
Parece. Na verdade o
que ele mede é uma convergência, ou melhor, um novo modo de convergir. Assim
inicialmente temos o “não” que restringe o termo dessa filosofia. Justamente o que
não apenas separa, como um hiato entre duas seções de um mesmo e único real,
mas marca o evento de uma transformação ontológica, mudança de real, do que é
real, ou do que se postula como sendo real, é que a pergunta só poderia ser,
com sentido, cartesianamente formulada.
O “Eu penso” não
apenas faz ultrapassar o momento da dúvida, mas ele funda filosoficamente o
estilo da certeza. Pois o pensar não poderia excogitar um tal ultrapassamento
se fosse apenas um verbo na generalidade esparsa do seu infinitivo. Não. Tanto
ele é correlato ao que o age, a “coisa” que “pensa”, quanto esse “eu” do pensar
é aquele mesmo que sente, quer, ama, detesta. Essa coisa pensa. Ora, pensar
funda todo pensamento.
Se existe algo como
conhecimento, palavra que traduz aí eficazmente “ciência”, nesse caso então ele
é, está ou se constitui no domínio do pensamento. A matéria não pode pensar. E
mesmo que ela pudesse, pela intervenção do Onipotente, como em Locke, todo o
conhecimento permaneceria no âmbito do pensamento já que só pode ser concebido,
nesse quadro clássico, como objetivação de suas idéias e das relações entre
elas.
Assim essa questão
poderia ser posta no clássico. O espírito científico é aquilo que o pensamento
pode ser. Mas pensamento se fundou no “eu”. Portanto ele é o que o “eu” pode
ser. Nada poderia causar mais espanto do que supor que pode haver qualquer
sombra de mudança ou devir no mesmo dessa substância pensante ou, no pólo que
lhe é simétrico, no modo de ser das idéias e de suas ligações.
Se o sábio dessa época
tivesse que confrontar a hipótese de Bachelard, de um “espírito científico”
capaz de se transformar, então isso acarretaria a questão suscitada, isso
colocaria em jogo o “eu”.
O “Não” dessa
filosofia incide aqui. Justamente quando essa hipótese pode ser apresentada sem
espanto ou estranheza, bem inversamente, quando ela é mesmo tão
contextualizada, seus princípios tão enraizados na espistemê contemporânea, um
dos motivos pelos quais ela não causa verdadeiro alarde é o fato de que não
redunda de modo algum numa problematização qualquer do “eu”.
Se a ruptura do
clássico é entre espírito e natureza, toda a intervenção ideológica de sutura
precisando instaurar um qualquer remendo nessa brecha, no contemporâneo ela se
enuncia, bem mais profundamente, entre o Eu e o Espírito. E a lógica dessas
epistemes é tão incompatível que dessa vez qualquer tentativa de restaurar a
continuidade precisa trazer embutido justamente um ataque à ideologia, um
impulso de revertê – la ao menos na denunciação de sua axiomática.
Creio que essas
metáforas do abrir e do fechar, ou ao menos as intenções que lhes correspondem,
permitem situar as demarches – e a irredutibilidade entre elas – de Bachelard e
Foucault. Mas por enquanto o que precisamos ver é que a novidade do “espírito”
, conforme a terminologia de Bachelard, já se faz notar pelo modo de convergir,
dialetizando o “não” inicial pela conciliação a que se deve imediatamente
proceder. A filosofia do “Não” justamente não deve induzir à recusa mas à
reconciliação. É assim que o método cartesiano, isso que ainda não separou o Eu
penso do Eu sou, e que por isso mesmo não comporta nem história, nem devir, nem
mudança, ora, isso é, se não mais a regra metódica do “novo espírito científico”
– o nep – ao menos ainda a sua regra de polidez.
A regra de polidez
que todo procedimento científico necessariamente observa: conduzir seus
pensamentos por ordem, ter sempre presente ao espírito as verdades científicas
básicas que ele cultiva. Foucault deveria sorrir desse “necessariamente”. Mas
se aqui ainda nos mantemos na perspectiva de Bachelard, o que deve ser
enfatizado é o seguinte. Isso que está relacionado à natureza peculiar desse
novo convergir é, sobretudo, que a superação da atitude de por a dúvida atrás,
quando o que o pensamento científico de hoje deve é por incessantemente “sua
própria constituição em jogo”, não implica o não-cartesianismo mas sim o “cartesianismo
completado”: pois o resultado é sempre que se deve guardar uma “espécie de
dúvida recorrente” estendendo-se ao passado dos conhecimentos tidos como
certos.
Reservando-se para
mais tarde os problemas decorrentes dessa abordagem, aquele continuun que
desejamos estender é propiciado por Bachelard a partir de sua noção de “perfil
epistemológico” que opera a transversalidade entre ciência e filosofia.
No traçado dos perfis
epistemológicos delineia-se no eixo das abcissas as sucessivas filosofias
descritíveis de um conceito, enquanto que as ordenadas medem a importância
relativa das concepções quanto ao seu papel numa psicanálise do espírito
científico. Assim observa-se a sucessão de realismo ingênuo, empirismo claro,
racionalismo clássico, racionalismo completo da relatividade e racionalismo
discursivo da mecânica quântica.
Assim temos uma
progressão descontínua que engloba três momentos filosóficos principais:
realismo, empirismo e racionalismo. Já a progressão dos racionalismos –
clássico, relativista e quântico – assinala o sentido do percurso que é de
racionalismo crescente. Cada momento acaba por apresentar um feixe de
obstáculos assinaláveis, que o seguinte precisa ter ultrapassado efetivamente
para se impor.
Quanto a esse sentido
de percurso é interessante notar que ele desempenha um papel importante na
perspectiva de Bachelard, decisivo mesmo na constituição de sua epistemologia.
Tentando contornar por ora o ônus da tarefa de crítica daquilo que me parece
extremamente limitante nesse aporte, o que se pode enfatizar é que o novo
espírito científico que Bachelard tenta descrever emerge precisamente da
tendência contemporânea de ultrapassamento do dilema que estamos agora, na
ambiência da modernidade estrita, vendo nascer.
Trata-se das
alternativas de empirismo e racionalismo que, para Bachelard, na
contemporaneidade estariam convergindo em um pensamento científico que já lida
com a necessidade de compreender o empirismo e aplicar experimentalmente o
racionalismo.
Assim Bachelard
expressa essa tendência sincrética em uma frase que parece forjada para
funcionar como a desiderata do cientista contemporâneo ao mesmo tempo em que
resume o método da única filosofia da ciência que lhe é adequada nesse melhor
dos mundos em que a distância entre essas áreas, filosofia e ciência, se
aboliu: o valor de uma lei empírica prova-se fazendo dela a base de um
raciocínio enquanto que legitima-se um raciocínio fazendo dele a base de uma
experiência.
Propõe-se assim a
inadequação atual tanto daquele espírito científico que só via a possibilidade
da filosofia da ciência no reino dos fatos quanto daquele espírito filosófico
que nunca via essa possibilidade aí mas apenas no alcance da atividade
harmoniosa das funções espirituais.
Bachelard justifica
sua crítica argumentando que essas respectivas valorizações, ora do a
posteriori, ora do a priori, se fazem “abstraindo das transmutações dos valores
epistemológicos que o pensamento científico contemporâneo opera permanentemente
entre o a priori e o a posteriori, entre os valores experimentais e os valores
racionais”.
Ora, o pecado da
filosofia seria assim menos o limitar-se ao harmonioso das funções quanto a querer
fazer a análise das funções espirituais “sem a ciência, antes da ciência”, isto
é, desinteressando-se dos “problemas da aplicação efetiva” que constituem o
real exercício da ciência e o móvel de sua história. Contudo, ao invés de
concluir-se daí que o que a filosofia tem a fazer é inventariar experiências,
trata-se de ver que ela tem que ser bipolar, empirista-racionalista, para dar
conta da física e nesse sentido ela é necessária a essa ciência que se define
como “soma de provas e experiências, soma de regras e de leis, soma de
evidências e de fatos”.
O que privilegia o
sentido do empirismo ao racionalismo, não o inverso, se conserva justamente ao
observar que a consistência do espírito científico progride à medida que
ultrapassa os obstáculos epistemológicos “coisistas”, demasiado simplistas – as
tendências do espírito ingênuo na valorização a-crítica da experiência inicial,
as perspectivas filosóficas como realismo e animismo, ou mesmo psicanalíticos
como a identificação libidinal dos e com os elementos como na alquimia ou no
exemplo de Bachelard de um texto do século XVII em que as reações do ácido com
o álcali são descritos em termos romanescos.
Esses obstáculos são
entrevistos como em uma espécie de escala de recorrência do senso comum. Assim
o novo espírito só merece o qualificativo de científico porque destruindo o que
ele não é decepa ao mesmo tempo todas as cabeças da mesma hidra, pluralidade
que expressa a multiplicidade de domínios de que provém os obstáculos de modo
que na mesmidade monstruosa homogeneíza-se os erros como suas fontes.
Invertendo a crítica de Husserl, para Bachelard é a filosofia tradicional que
comunga com o common sense, é sua preguiça que a ciência deve vir a corrigir.
Bachelard está certo
pelo menos nisso pelo que critica um certo viés da concepção de ultrapassagem
da distâncias entre filosofia e ciências pela utilização de exemplos
científicos sem desenvolve-los, apenas generalizando-os ou servindo-se de
metaforizações e analogias para cristalizar teorias especializadas em verdades
gerais dogmáticas, como na transformação frequente da Relatividade em
relativismo.
Mas o papel que o
sentido realçado – do empirismo ao racionalismo – desempenha na epistemologia
de Bachelard torna-se assim evidenciado pois a descrição do progresso das
noções e da criação dos objetos da ciência, de sua fenomenotécnica, deve
desfazer a impressão ingênua de que esse progresso expressa apenas o sempre
crescente poder de ver. Ele é bem mais o incremento do papel da teoria, o
progresso real sendo correlativo à multiplicação das vias de convergência entre
matemática e experiência.
Assim, para
compreender a constutividade científica do objeto – que não preexiste ao meio
de sua emergência nem se propõe como coisas concretas mas sim objetos de
pensamento – é preciso forjar também conceitos epistemológicos que estendem a
transversalidade interceptando os caminhos de ciência e filosofia. A
matematização, o poder crescente da teoria que cria possibilidades
experimentais, só pode ser traduzida em termos de “espírito científico”, ações
e progressos desse espírito, se seus resultados interferem filosoficamente.
É interessante
observar que grande parte da reflexão do neo-empirismo do século XX se
desenvolveu justamente no sentido de apreender o novo e cada vez mais
importante papel da teoria. Mas também que o conceito de “obstáculo
epistemológico” , como vimos, abrange essas idéias que nos servem mais frequentemente,
que se incrustam no conhecimento e isso de acordo com tendências espirituais
tão arraigadas que esclarecem as resitências que pensadores, inicialmente
revolucionários, exibem frente à posterioridade, por vezes, de seus próprios
resultados – o exemplo seria o de Eistein frente ao indeterminismo quântico,
mas a quantidade de casos semelhantes não parece ser desprezível.
Ora, retornando ao
desenvolvimento dos perfis epistemológicos, o que se observa sobrepondo os dois
perfis relativos aos conceitos de massa e energia é que a concepção
predominante, o eixo ordenado mais alto, é a mesma, em ambos os casos pertencendo
ao racionalismo clássico, o da mecânica de Newton que a relatividade e a física
quântica subvertem justamente instaurando o “nep” – o “novo espírito científico”.
O que se desenvolve entre os séculos XVII e XVIII sendo precisamente a entrada
nesse racionalismo.
E pode-se por esse
meio visar o continuun com o que observamos em Carpeaux, já que o instituído
pelo clássico foi uma determinação de objetividade correlata ao mecanicismo.
Assim se o clássico planifica as formas da linguagem, se ele privilegia a
pureza no sentido da estrita observância das regras do vernáculo ao invés da
invenção verbal do barroco, concomitantemente ele elimina os vestígios de uma
constituição de “seres” em proveito de uma demarcação das propriedades de “objetos”.
A própria concepção
de sujeito só se insere como objetivo epistêmico na medida que nele se pode
obter uma estrutura de conveniência com o objeto, as idéias, inatas ou não.
Nesse sentido a dialética da convergência que vimos praticada por Bachelard
funciona realmente, pois se o Ego é o que funda a inteligibilidade, ele mesmo
só é inteligível enquanto função daquilo que intelege.
Não mais se atribui,
no clássico, a qualidade como definida pela forma ou ser, procura-se os modos
de estruturação dos corpos, as partículas que explicam suas qualidades
fundamentais do mesmo modo que é preciso definir as regras pelas quais o
espírito como que salta de sua aptidão natural à apreensão das coisas a uma
atitude prospectiva de sua legalidade. É o que se pode bem observar nas rupturas
analisadas por Bachelard quanto à noção de massa.
No realismo ingênuo
ela é sempre derivável no sentido animista, algo inerente à interioridade das
coisas como sua concentração íntima, sua carga de ser. Já quando intervém a
conduta da balança se está no âmbito empirista de um jogo prático com o
conceito, como se o instrumento funcionasse naturalmente, ele mesmo como lei da
natureza que mede, precedendo toda teoria. A correlação de pensar e pesar,
pesar e pensar, como em Lord Kelvin, marca o limite desse quadro
realista-empirista.
Com Newton já se
penetra no racionalismo, no âmbito da solidariedade nocional. Massa, força,
aceleração, são noções que só têm sentido no interior da fórmula que expressa o
modo de sua correlação, indo assim das coisas às leis, ou conforme a expressão
de Bachelard “do realismo ds coisas ao realismo das leis”. Assim os momentos
seguintes, de progressão do racionalismo, assinalam a liquidação desse realismo
residual.
A solidariedade
nocional que marca o momento clássico, sua ruptura com o coisismo anterior, só
pode por sua vez ser forjada na base de uma correlação de átomos nocionais,
como no conceito de massa. Cada noção tem que existir por si mesma, isto
é, concretamente, de modo absolutamente simples, determinado. Qualquer objeto
ou noção real, dentro dos quadros do mecanicismo, têm que estar no espaço,
constar no tempo, e é por ser simples, concreto, independente, que ele é útil,
relacionável, definível ou, resumindo, mensurável.
Observa-se a
coextensividade residual desse racionalismo clássico com o que lhe é anterior.
Pois “mensurável” ainda pode ser correlato a “pesável” uma vez que ter-se-ia
dificuldade em pensar o “peso” sem uma atribuição correlativa, isto é, no puro
ser-em-si, ao passo que pesar é sempre de algum modo comparar. Bachelard
assinala a seguir os momentos de ultrapassagem desse racionalismo realista
newtoniano tão correlato à filosofia de Kant.
Com Einstein o átomo
nocional se decompõe, não se pode mais utilizar noções absolutas que se opõem
como características próprias do objeto. Ao invés de independente a massa é
função da velocidade, ao invés de simples ela se define de modos relativos
conforme as acelerações sejam tangencial ou normal. Na mecânica de Dirac a
noção já comporta a polaridade desdobrando-se da massa positiva uma massa
negativa.
Bachelard enfatiza
que essas aquisições da física impõem a deriva, desde uma atitude filosófica do
“como se” àquela do “por que não”? Ele o expressa do seguinte modo: “é o
pensamento científico que permite estudar o mais claramente o problema
psicológico da objetivação”. Podemos agora conceber algo como a massa negativa,
isto é, lida-se com uma quantidade negativa aceitando-a ao modo de uma massa, o
que seria inconcebível no panorama realista manifesto, latente ou residual.
Segue-se que nossa idéia de natureza deve ultrapassar o dilema entre a
imediatez e o transcendental, no sentido de uma mediatez teórico-técnica.
Assim o prognóstico
de Bachelard é que a deriva do conhecimento vai no sentido da filosofia
científica, doravante substituindo-se os temas, desde as “metafísicas
intuitivas” às retificadas objetivamente. Ao invés da realidade tal como
aparece, o dado a pensar é já o produto do laboratório. Parece-me que o
continuun proposto se implementou suficientemente de modo que podemos agora
arcar com a tarefa de pensar esse ultra-racionalismo cientificista.
Ora, o grande
problema de Bachelard é a superação do já superado. É possível constatar, em
vários registros contemporâneos, que a questão, há muito, já não está no dilema
de realismo e racionalismo, ainda que sua evidenciação seja instrutiva do ponto
de vista histórico. O problema mais atual pode ser visado, por exemplo, na
perspectiva da legitimação, como em Lyotard, ou mais precisamente na comparação
da noção simples de “descontinuidade” com a de a priori epistêmico, conforme
Foucault.
Mas ambas as questões
só podem ser enunciadas revertendo-se o paradigma da física de modo a inserir a
constitutividade do pensamento no âmbito da linguagem e do poder, logo
inserindo-se a problemática já como pensamento humano. E com isso teremos uma
ótima via de penetração no pensamento de Foucault
III – A Representação
e a ordem
Algo que se poderia
antepor à afirmação de que o dilema de experiência e razão – que Bachelard
procura ultrapassar por um racionalismo experimental ou uma experiência
racionalizada – estava já ultrapassado é que o vemos reposto na própria
linguagem. Entre, por exemplo, a alternativa de Chomsky ou Labov, universais da
linguagem como a priori do sistema de invariantes formais ou o sistema sendo
pensado já ele mesmo de variações e inteiramente visado nas conjunções
pragmáticas de sua realização.
O que me parece
importante nessa alternativa porém não está tanto no a priori mas na maneira de
compreender a própria ciência da linguagem. Saussure não necessitava da
hipótese a priorística para formalizar a análise nas constantes, nas
invariâncias formais dicotômicas, resumindo, na língua (langue) de modo a supor
a fala (parole) no exterior do inteligível a não ser naquilo em que se deixa
reduzir ao sistema invariável – ou às regras de variação.
Quanto à alternativa
clássica, empirismo ou racionalismo, o realismo sendo introduzido como o ônus
do empírico, penso que se pode mostrar que ao longo do século XX já se havia deslocado
a questão. Não se tratava mais de escolher um dos lados mas de como se fazia a
junção, o continuun de experiência e teoria.
Assim na frente ampla
do período, que congregava neo-empirismo, pragmatismo, operacionalismo,
neo-realismo e mesmo realismo crítico, por exemplo, procurou-se a junção ora,
de modo semelhante ao proposto por Bachelard, na prática científica mesma, a do
laboratório, ora, como ocorreu mais tarde, aproximando-se o meio do século, nos
modelos orgânicos. Neste segundo aporte ocorre a tendência de pensar a
atividade conceitual ao modo de comportamento, inserido e não separável da
correlação organismo-meio, destacando-se aí Whitehead e Roy Sellars.
É interessante
observar que paralelamente desenvolvia-se a trajetória pessoal de Heidegger
movendo-se da fenomenologia à hermenêutica. Com o conceito-chave de Dasein –
cuja história de tradução constitui por si um tema importante – ilumina-se
notavelmente o foco de convergência do pensamento filosófico desde Nietzche.
Não que isso tenha “começado” com Nietzche, mas que nele esse foco faz a
ruptura em sentido contemporâneo.
Na verdade penso que
a transformação que fez coalescer essa consistência na qual veio a se
desenvolver toda formação conceitual filosófica não pertence a uma obra
localizada, não possui um começo datado. O que provocou a irrupção desse meio
novo se confunde com ele, constituindo-se modernidade.
Na modernidade, como
destaquei anteriormente, pensa-se a existência desse ser humano aqui numa
abrangência equivalente `aquela que desfrutava o ser ou natureza, num grau de
generalidade equivalente àquele da espécie, no espaço antigo-medieval. Esse
mundo que se experimenta – e que se pensa agora – não se dá sem o ser da
experiência. Mas esse ser é sempre “aí”. Assim, desde o Cogito trata-se de
enunciar que é esse “aí”, e em que sentido essa experiência se valida ou
produz.
O Cogito o designa “Ego”.
O empirismo o designará “Espírito”. Uma longa trajetória de desenvolvimento
deverá arcar com a tarefa de ampliar suas possibilidades, aparar as arestas dos
primitivos dualismos, sendo o constitutivo do meio mesmo a cisão fundamental
entre mundo experimentado e aquilo que “faz” a experiência.
Ora, o que ocorre
após os anos cinquenta, penso, é uma convergência “histórica” daquela frente
ampla com os resultados da hermenêutica de Heidegger, de modo que o
inconsciente maquínico de Deleuze faz a junção empírico-transcendental
utilizando o novo “modelo” do inorgânico – ou o corpo visado num novo tipo de
síntese – para pensar o devir como experiência mais autêntica desse ser que é “aí”.
Pulveriza-se a diferença ontológica – entre o ser e todos os entes – pelas
micropercepções, lá onde as conjugações de fluxos abolem a alternativa
homem-máquina, orgânico – inorgânico. Nesse nível, onde o que opera as conjugações
é o desejo ou energia, emergem as singularidades.
Tudo isso está bem à
frente do clássico, é verdade, sendo já bastante contemporâneo. Também não nego
que esse bosquejo se traçou com linhas talvez muito grossas, carecendo de
nuances, de exemplos, demonstrações, mesmo noções intermediárias, e teremos que
voltar a esses temas posteriormente de modo mais pormenorizado. Apenas o inseri
aqui para de certo modo localizar a demarche de Bachelard.
Ora, Einstein mesmo
já havia antecipado que seu trabalho envolvia tanto matemática quanto
criatividade para só então se poder tratar de “experiência”. Quanto à noção de
descontinuidade, ela também está bem ambientada na contemporaneidade,
lembrando-se aqui inevitavelmente a “Estrutura das Revoluções Científicas”,
onde se revela que Kuhn já compreendia a irredutibilidade entre teorias de
complexidade crescente como as de Newton e Einstein.
Assim não se devia
mais falar de precursores como também não de simples progressão do poder
explicativo entre uma e outra teoria e sim de universos teóricos que
desenvolvem âmbitos irredutíveis dentro dos quais o poder explicativo ele mesmo
se especifica, as anomalias mostrando as fronteiras dessa irredutibilidade, os
canais dessa mudança de natureza, convergindo possivelmente aí a transposição
que Popper fez intervir do critério de verificabilidade ao de falseabilidade e
lançando, em termos de Bachelard, a dúvida para a frente, ou a constutividade
da crise em ciência ao invés de sua mera provisoriedade nesse domínio.
O que pretendo com
isso não seria tão designável como “criticar” Bachelard quanto mostrar que
aquilo que ele enuncia – às vezes como se fosse uma novidade bombástica – na
realidade funciona como resenha do que vinha se desenvolvendo um pouco por
todos os lugares ao longo do século XX. Mas há também o seu “balanço” das “propriedades
demonstrativas” das linguagens utilizadas mais e mais pelas ciências – essas
linguagens que desafiam “a razão dos clássicos” com suas regras de adesão ao “valor
denotativo” dos enunciados científicos – como enfatizou Lyotard a propósito de
Bachelard.
Lyotard sublinha
assim o limite desse balanço, que já não esgota o poder de inovação nesse
campo. Mas penso que isso não nega a penetração dessas reversões apontadas, seu
valor instrutivo, ao menos na faixa que havia por ver naquele momento. Contudo,
o que me parece mais importante é que aquela convergência explosiva que apontei
como estando na base – mas de modo algum como um qualquer determinismo – da
filosofia de Gilles Deleuze, parece-me ter orientado também a perspectiva dos
trabalhos de Michel Foucault.
Sabe-se que Foucault
revoluciona a história. Mas pela extensão de uma tal afirmação já se deve
aquilatar a impropriedade de reduzir esse feito a mais um empreendimento
teórico do descontinuísmo.
Justamente se poderia
observar aqui o papel normativo que Bachelard atribui à sua própria “psicologia
do espírito científico”, pois por ela se poderia refletir que “as leis
descobertas na experiência são pensamento sob forma de regras aptas para descobrir
fatos novos”. Isso implica limitar o objetivo da análise à observação da
coordenação dessas leis de modo a gerar procedimentos indutivos. Para isso é
preciso desprezar a erudição empírica, pensar a experiência sempre como método
confirmado.
Quanto a Foucault,
como vimos, o cerco das condições de emergência de enunciados depende
justamente da recuperação das enunciações marginalizadas. Isso porque o a
priori histórico pode ser lido como fundação de uma epistemologia autêntica
naquilo em que não subsumida a uma descrição ideologicamente comprometida com
seu objeto. Ou seja, uma epistemologia inteiramente não tradicional.
Assim a subjetivação
intervém na positividade da constituição epistêmica, revertendo a “neutralidade”
possível do “penso” em relação ao “sou” – não no sentido da circularidade
microcósmica, obviamente, mas sim no sentido de que o “penso” produz o “sou”,
inevitavelmente. Mas nisso o proprio “sou”, tanto quanto o “penso”, já não
estão no sentido do “ego” e sim na constitutivide do social.
Mostra-se, ao
inverso, a impossibilidade dessa neutralidade mas não porque o conhecimento se
funda numa qualquer “coisa” ou “substância” e sim porque não há espírito
científico isolável no exterior de uma formação de poder que institui a
partilha entre o pensar e o ser.
Contudo as consequências
dessa irredutibilidade de Foucault à epistemologia tradicional envolvem,
relativamente aos nossos propósitos, o fato de que o a priori histórico é
efetivamente a criação de um objeto conceitual epistemológico enquanto que a
noção de “obstáculo” , de Bachelard, permanece em nível puramente descritivo.
Então o que se pode
observar é que esses conceitos “epistemológicos” na verdade não são objetos
novos de uma filosofia das ciências e sim o cientismo em filosofia. Os objetos
científicos são aceitos como objetos epistemologicamente analisáveis em si,
isto é, aceitos não enquanto epistemologicamente construídos, mas já como se
construíram no interior da região de especialização na qual emerge – assim,
haveria uma história do flogístico que não fosse ingênua?
Muito
superficialmente penso que se poderia marcar a oposição que estou enfatizando
do seguinte modo: há por um lado a identificação de “epistemológico” e “relativo
a conhecimento” ou a simplesmente “operatório”, isto é, “científico”, processo
puro de descoberta, criação ou aquisição de conhecimentos. Nesse sentido se
poderia utilizar a pesquisa epistemológica de Piaget, por exemplo, mas de certo
modo também de Bachelard e tudo aquilo que designei epistemologia tradicional.
Mas há também a inserção da epistemologia na autenticidade desse domínio seu
que só pode ser visado na perspectiva crítica do pensamento humano, como já
afirmei anteriormente.
A epistemologia não
se restringe por isso à psicanálise da criação científica sem permanecer,
fundamentalmente, não crítica, ou mais precisamente, sob a sujeição da mesma
metafísica que Bachelard, com seus ataques à filosofia, pensava estar
descartando na ilusão de que poderia, de um salto, se instalar no interior da
prática mesma da ciência.
Assim quanto ao
problema da objetivação, cujo estudo, como vimos, Bachelard creditava
exclusivamente à ciência, na base de uma investigação psicológica. Ora, se o
problema fosse subsumível unicamente à essa psicologia do espírito científico,
a consequência, que Bachelard propõe explicitamente, seria de atribuir apenas à
descoberta científica o progresso descontinuísta do espírito. Mas o que fica
como um mistério continua sendo esse progresso mesmo, o modo de sua
positividade como se fosse a ciência a fonte da inteligibilidade mas ela mesma
impensável – a não ser no parâmetro de sua própria cientificidade.
Já o enunciado de
Foucault, em “As Palavras e as Coisas”, sobre a constituição do objeto do
pensamento humano, situa a questão epistemológica – no sentido da epistemologia
crítica – com precisão. No interior de uma problemática envolvendo a
constituição das Ciências Humanas, isto é, a emergência desse novo objeto – “o
Homem” – que se constitui na cultura ocidental desde o século XIX como “o que é
necessário pensar e o que se deve saber”, a questão se põe do seguinte modo:
quais são as “novas normas impostas” para que se constitua uma ciência como a
psicologia, que já pode se ocupar do “homem” como seu objeto?
Foucault insere em
seguida a questão na ambiência mais adequada ao seu desenvolvimento. Já que se
trata de um “acontecimento na ordem do saber”, sua produção só pode ser
avaliada como efeito da transformação geral da epistémê. Ora, é verdade que
logo Foucault vai mostrar que o novo campo epistêmico deverá apresentar-se como
espaço de contestação entre as três vertentes mais opostas, ciências naturais,
ciências humanas e filosofia. Mas o que me parece importante é destacar que
nesse pequeno trecho de “As Palavras e as Coisas” pode-se delinear o caminho da
pesquisa epistemológica a partir da designação da episteme como vertente em que
vem confluir tudo o que é decisivo ao Compreender, de modo que a relação com os
imperativos sociais é assim não só preservada mas constitutiva, tanto quanto a relação
entre as regiões assim definidas.
A epistémê se produz
como uma vertente objetual, algo que convém mais nesse sentido do que
simplesmente o “objeto” da ciência específica de que seria preciso acompanhar o
surgir. Nesse trecho de Foucault define-se portanto o que me parece
contrastante com a abordagem de Bachelard de modo tal que se pode visualizar o
problema que designei como sendo a sua ingenuidade – de modo algum sendo essa
uma exigência de fundamentação.
Mais geralmente, esse
trecho define a irredutibilidade do simples descontinuísmo das epistemologias
tradicionais ao alcance da noção de a priori histórico. Assim temos já a via
pela qual se pode introduzir a visão de Foucault sobre a epistémê da Idade
Clássica, ou modernidade. No entanto, será proveitoso observar ainda alguns
aspectos do cartesianismo que se relacionarão posteriormente com a perspectiva
de Foucault, notadamente em As Palavras e as Coisas.
a) Descartes e Locke
Nota-se a sutileza de
Descartes. Nos “Postulados” “Que Provam a Existência de Deus”, “em quinto Lugar”,
ele utiliza a expressão “não lhes será menos claro e evidente”, entre a certeza
de que Deus existe e aquela da atribuição de par ou ímpar a dois ou três.
Pode-se pensar que
ele está afirmando que a existência pertence a Deus assim como a paridade ao
número dois. Mas pode-se bem desdobrar, tendo em vista aquilo que o texto
enunciou anteriormente, essa aplicação do “assim como”.
Pois o que se “fez”
até aí, operação que constitui o percurso da “dúvida” e que se repõe nos postulados,
foi o deslocamento do papel daquilo que se considera normalmente como sendo a
prova. E com esse deslocamento, ocorre a transformação da consistência ou meio
do que é pensar.
O que o início do
texto exige é que se desloque o papel da prova, desde o ter que ser provada a
dever ser exercitada. A realidade da distinção substancial entre corpo e
espírito, nos Postulados, assim como a auto-evidência do Sou ao Penso nas
Meditações, deve ser exercitada, vivida, ao invés de simplesmente constatada
como uma verdade lógica.
Ora, isso se estende
à prova da existência de Deus, de modo que Descartes pode, finalmente, de certo
modo, excusar-se da acusação de ter cometido um círculo.
Pois o percurso da
filosofia cartesiana se relaciona à postulação básica de que “Nós não podemos
ter nenhum conhecimento das coisas a não ser pelas idéias que concebemos a seu
respeito e, por conseguinte, não devemos julga-las a não ser segundo estas
idéias e até pensar que tudo quanto repugna estas idéias é absolutamente
impossível e implica contradição”, conforme a carta a Gibieuf. Assim a questão
que se coloca inevitavelmente, e que se torna central, é o critério de validez
das idéias, ou seja, aquilo que designaremos a questão da existência.
Essa questão pode ser
ainda enunciada pelo desdobramento da essência, bastante utilizado na idade
clássica, conforme o seu ser objetivo ou formal. O ser objetivo da essência é
relativo ao seu conteúdo “ideal”, o ser formal é relativo ao seu conteúdo “atual”
no sentido da existência ou natureza efetiva daquilo que ela se representa
idealmente, isto é, objetivamente. Então a questão pode ser enunciada assim: se
todo o nosso conhecimento das coisas só pode ter lugar como conhecimento das
nossas idéias, como julgar o seu valor formal, como não atribuir a todas elas,
de direito, enquanto idéias, apenas o seu ser objetivo?
Vê-se a propriedade e
o alcance da dúvida, tal como enunciada por Descartes. A dúvida põe essa
questão: por enquanto, uma vez tendo-se descoberto que aquilo que conhecemos
são idéias, não coisas, nada poderia garantir que tudo o que cremos existir não
seja apenas quimérico ou puramente ideal.
Até então, na medida
em que o ser das coisas mesmas se identificava como aquilo que explicava o seu
aparecer como tal, essa questão não poderia surgir, não teria sentido. O ser da
coisa, eis o que a razão captava como forma ideal assim como o olho capta a
aparência como forma visual ou imagem. A idéia era concebida como uma espécie
de imagem inteligível mas sua realidade estava na coisa. Ora, uma vez que se
reduz, pelo exercício da dúvida, toda a operação do conhecer apenas àquilo de
que se tem a evidência, o resíduo limitando-se assim ao fato de pensar, a idéia
se destaca da sua – agora apenas provável – origem na coisa, ela é puramente
oferecida no pensar.
A existência não
poderia estar assegurada apenas pela facticidade da coisa, precisando de algum
critério de validez tão a priorístico, tão auto-evidente quanto o pensamento é
ao ser que pensa.
Vimos que a questão
central da existência deriva do postulado básico do conhecimento como sendo
relativo às idéias. Esse postulado, ele mesmo, é exercitado como auto-evidência
do pensar, e por isso funda a legalidade da distinção entre corpo e espírito.
Assim se reverte todo o pensar apenas ao pensar. Como se pode então perceber, o
existir é necessário ao pensar enquanto pensar. Mas não àquilo que é pensado.
O empirismo nasce
desse problema. Ele o resolve, como em Locke, pela origem das idéias e pela
distinção na origem. Assim basicamente a idéia permanece sendo relativa à
captação da coisa mas o espírito, não sendo totalmente passivo, acresce a essa
repectividade dos data sense uma ordenação, uma atividade reflexa. A oposição
que Locke introduz entre idéias de sensação e idéias de reflexão realizam a
partilha moderna entre experiência e espírito, ou melhor, dota a experiência
mesma do seu sentido moderno de ser de algum modo espírito.
Mas o modo como
Descartes reduziu a evidência impede uma tal via, uma vez tendo fundado a
completa irredutibilidade entre o corpo e o que dele deriva como dos sentidos,
e o pensamento. Ou tendo reduzido toda sensação a ser já pensamento de modo que
sua origem extramental não tem nenhum meio de ser de direito assegurada.
Pode-se fazer aqui uma incisão, aprofundando o sentido desse desacordo. Para
isso basta observar como se o desenvolve entre os Ensaios de Locke e os Novos
Ensaios de Leibniz, quando se trata da questão das máximas ou princípios.
Locke afirma
inicialmente que todas as idéias têm o mesmo grau de evidência. Leibniz-Teófilo,
defendendo o inatismo das idéias ao invés de sua origem na captação dos
sentidos, se contrapõe a isso utilizando a orientação básica do cartesianismo
pela qual há diferença de natureza entre o princípio ou máxima, por exemplo A =
A, A ¹ B, e o exemplo a que
ele se aplica, por exemplo, vermelho não é azul. Ora o que Filaleto-Locke
poderia responder senão que a máxima é uma generalização daquilo que assim se
considerou, posteriormente, como sendo o exemplo?
Voltaremos a Leibniz
mais tarde. Mas essa incisão apenas mostra que o postulado cartesiano possui
uma legitimidade formal a que o empirismo só pode contrapor outro postulado,
que faz uso de um outro sentido do termo “evidência” . A evidência empirista
envolve as coisas, a do cartesianismo as exclui. A evidência empirista é a
experiência atual do mundo, a do cartesianismo é a experiência atual do Eu a si
mesmo. O que é mais inegável? Não se pode responder sem ter se colocado no
interior da perspectiva que torna essas alternativas excludentes, mas dentro
dessa perspectiva a formalidade do método cartesiano permanece impecável apesar
de que talvez para o comum das pessoas só a evidência empirista pareça ser
razoável.
Ora, desenvolvendo as
consequências formais do postulado, a questão da existência daquilo que é
pensado parece insolúvel, a não ser que aquilo mesmo que é pensado ofereça um
grau de evidência equivalente ao fato de pensar. Assim a prova ontológica da
existência de Deus se enuncia: “ aquilo que concebemos clara e distintamente
pertencer à natureza ou essência de alguma coisa, pode ser afirmado
verdadeiramente dessa coisa; mas tendo cuidadosamente inquirido o que Deus é,
nós concebemos clara e distintamente que pertence à sua verdadeira e imutável
natureza que ele existe; assim podemos afirmar verdadeiramente que ele existe”.
O que permite o
deslocamento do papel da prova é a necessidade – de que se deriva seu alcance
ontológico. A existência é necessariamente envolvida em Deus, logo é
necessariamente envolvida em algum pensável. Conhece-se a imediatez da objeção:
do caráter objetivo da idéia não se tem ainda fundamento do ser formal da
essência. Pelo fato de que proponho, em pensamento, que há o ser cuja
existência é necessária, não significa ainda que ele existe em si, independente
do eu que o pensou.
Mas se compreendemos
o raciocínio cartesiano, a objeção não se endereçou àquilo que realmente se
afirmou. E o que se afirmou foi a idéia de uma existência necessária,
previamente a ter se colocado a implicação do seu referente. A existência
necessária é uma idéia que não pode não existir, pois a tenho. Sim, mas é só
uma idéia, objeta-se. Mas, responde-se, não se trata de uma qualquer outra
idéia que depende de uma relação com o objeto para ser provada. O critério da
existência está nessa mesma idéia, o ser que existe necessariamente não pode
não ser ou não existir – necessariamente.
Ora, uma vez
mostrando-se que há algum pensável tão auto-evidente quanto o pensar, a questão
da existência pode ser resolvida e a prova da existência de Deus recebe esse novo
papel de prova da Existência mesma, em geral. Revela-se assim a sutileza
daquele “não lhes será menos claro e evidente” – “sem outra prova”. Pois que os
princípios e máximas existem independentemente dos exemplos, que dois é par e
três é ímpar, só se torna “manifesto” efetivamente porque a existência
necessária é postulável de Deus, não apenas “como se”.
Um “ser manifesto”
(ser par ou ímpar) depende do outro (a existência necessária de Deus), não
apenas “assim como” não tendo dificuldade para conceber um não precisamos ter
problemas para conceber outro. Observe-se a importância da expressão conhecer “sem
provas”, nesse trecho. Pois o que pareceria é que Descartes deveria estar
provando suas afirmações, contra as objeções apontadas por Mersenne. Mas a impecabilidade
do método cartesiano depende, para ser alcançada, da compreensão de como ele
age, o que desloca e como isso se comporta no papel novo que se lhe reservou,
depende principalmente de ser exercitado mais do que simplesmente envolver uma
questão de “raciocínio”.
O ser objetivo
depende assim do ser formal, quanto ao critério da existência que vimos, por
intermédio da idéia de Deus, se tornar imanente ao pensamento mesmo. Descartes
o torna particularmente explícito no exemplo do céu azul.
A propriedade de ser “produzida
por seu objeto” que certas idéias, como a do céu azul, exibem, se apresenta
geralmente como condição de seu valor formal, da validação de sua existência
extramental. Mas o que Descartes mostra, como enfatiza Gueroult citado pr
Lebrun, é que a ligação causal dessa propriedade como fundamento formal de
existência é ela mesma um princípio de todo conhecimento, mesmo de qualquer
experiência sensível. O princípio de causalidade, ele mesmo interno ao pensar,
liga toda idéia a uma existência de um certo modo determinado. Assim o objetivo
pode e deve ser causado pelo formal sem que seja preciso por isso afirmar a
preminência da experiência sobre o espírito, isto é, sem que seja preciso negar
o inatismo de nossas idéias.
Parece-me que a prova
a posteriori da existência de Deus – a idéia que temos de um ser mais perfeito
que nós deve necessariamente ter sido posta em nós por um ser efetivamente mais
perfeito – não desempenha a mesma função, no interior do cartesianismo, do que
a prova ontológica.
Pois a prova
ontológica resolve, como vimos, a questão da existência na imanência do pensar
reservando a existência necessária à idéia nuclear de Deus. Nesse sentido ela
mesma é ou funciona como o princípio mais geral da existência imanente ao
pensável de modo que todas as outras existências de todos os outros princípios
pensáveis dependem dela. Mas não assim a derivação causal do criador por sua
idéia no ser criado. Aqui a prova é tão aplicada como qualquer outra derivação
do objetivo pelo formal na imanência do pensar.
Há contudo uma
relação, creio, como que de dependência entre essas duas provas. É que a prova
ontológica implica um paradoxo na sua negação, é certo, mas não tem como
escapar da acusação de ter posto em evidência apenas um ente de razão, como a
figura geométrica cuja existência é sua definição.
É verdade que aquilo
que o cartesianismo afirma é que o conceito de Deus abrange mais do que uma
definição geométrica. A existência necessária não seria uma definição do mesmo
tipo do que ter certo número de lados. Ela tem uma força apodítica, assim como
o Ego, na empostação da filosofia cartesiana. Mas Descartes assume as consequências
dessa certeza, tanto quanto da sempre presente objeção, pois ele crê poder
fazer ver que tendo sido absolutamente ou necessariamente estabelecida a
existência de Deus, é possível encontrar aquele algo mais que permite
reencontrar Deus assim como se está acostumado a pensar nele, não apenas como o
sujeito de uma definição geométrica, um ser de razão.
Deus criador é reencontrado
no argumento por causalidade – deve haver mais perfeição na causa do que no
efeito, nós que somos imperfeitos temos a idéia do ser perfeito, portanto ela
só pode ter sido colocada em nós por Deus que nos criou. Esse argumento não “deriva”
do anterior mas vemos que repousa de certo modo sobre algo mais constringente
que se expressa como prova ontológica. Mas assim se mostra que o argumento a
posteriori não se pôs de modo supérfluo e que, bem inversamente, ele permite
evidenciar a face humana do cartesianismo, por exemplo, por que se pode afirmar
que não se trata de um simples deísmo, ainda que o deísmo se tenha proposto
tantas vezes como derivado de Descartes.
Penso que se pode
afirmar que Descartes funda o uso husserliano do termo “imanência” ao localizar
aquilo que mais tarde se conceitua como o dasein heideggeriano na espessura do
Cogito, na transcendentalidade do Ego. Assim Descartes abre a via dessa
imanência transcendental na modernidade. Husserl, nisso fazendo lembrar a
atitude de Bachelard, também considerava que sua própria filosofia não
ultrapassava as limitações do cartesianismo sem na verdade conceder-lhe um
acabamento radical. Assim ele estende mesmo o epíteto de neocartesianismo à sua
fenomenologia já definida como “um novo tipo de filosofia transcendental”.
A justificação dessa
opção se encontra algumas linhas à frente, bem no início das “Meditações
Cartesianas”. Trata-se da atualidade, como do “sentido eterno” do pensamento de
Descartes, pois o que esse pensamento operou foi o “novo” da filosofia, sua
transformação integral desde o “objetivismo ingênuo” ao “subjetivismo
transcendental” de modo que Husserl vê no inacabado moderno dessa transformação
a tarefa contemporânea de todo pensar.
Engloba-se aí a
exigência de uma fundamentação das ciências que elas mesmas não logram
fornecer, mais a crítica do viés positivista que separa filosofia e ciência em
unidades autônomas irredutíveis. O que se propõe assim como tarefa é nada menos
do que a consecução de uma ciência universal. Mas essa tarefa – contra a “fé”
da multiplicidade irredutível de disciplinas e objetos que se estava
consolidando no alvorecer da modernidade – estaria já, na origem, como
revolução do cartesianismo em filosofia.
Ora, a fundação dessa
separação da ciência, com o corolário de seu ideal de crescente especialização,
está bastante reclacionada com o empirismo. Pode-se afirmar que se apresenta
como resultado histórico da separação de fé e razão que vimos vir se
implementando desde a pós-escolástica.
A autonomia da razão,
desde aí, já envolvia a complexidade de investimentos que se iam
progressivamente especializando e se aproximando da formulação do método
experimental por Galileu. Assim creio ser precipitado creditar a essa autonomia
o primado da experiência que o empirismo e a prática científica acabaram por
instituir. Ou o seu inverso. Mas sim que ambos os fatores se desenvolvem como
um feixe de influências, envolvendo a efetividade das transformações que estão
no alvorecer do mundo moderno.
Podemos distinguir
esses fatores mas não devemos procurar estabelecer qualquer um como causa dos
outros e sim conservar a sua interdependência no tempo.
A construção desse
empirismo, porém, envolve momentos historicamente precisos. Como já enunciava
Francis Bacon, seus momentos evoluem de modo duplo, pars destruens e pars
construens. Destruição dos “ídolos”: os da “tribo” (superstições que se mantém
pela recusa preguiçosa de observar os casos de predição errônea, como na
astrologia), os da “caverna” (conservação de hábitos apenas derivados da
tradição), os da “praça pública” (erros derivados do uso inadequado ou
pervertido das palavras), os do “teatro” (erros derivados da aceitação sem
crítica dos preceitos de “autoridades” como autores famosos, pessoas de posição
social prestigiosa, etc.). E construção do método científico, que em Bacon é
bastante detalhado mas não chega à clareza sintética que se observa em Galileu.
Bacon mesmo se
notabiliza assim mais por seu destruens do que pela positividade do método que
ainda prescreve como objetivo epistêmico o atingir da forma ou essência, a
coisa em si, localizando-se portanto mais na continuidade de pós-escolástica e
Renascimento do que na modernidade estrita. A linha de demarcação pode então
ser traçada entre Bacon e Galileu como percurso da destruição dos ídolos à
consecução positiva do método experimental. Já o objetivo epistêmico do método
de Galileu é o enunciado da lei que prescreve o comportamento do fenômeno.
Mas é somente com
Locke que o empirismo pode ser efetivamente afirmado – enquanto doutrina
filosófica consistente. Pois não se trata apenas de fornecer uma descrição da
prática científica, que assim como a escada de Wittgenstein deve-se inutilizar
após o uso, isto é, que só serve enquanto atuada nessa mesma prática. Com Locke
há uma atividade conceitual aplicada às questões rigorosamente filosóficas do
conhecimento.
Assim o pars
destruens lockeano se dirige às idéias inatas, a todo o arcabouço puramente
lógico-dedutivístico que dominava até esse momento a imagem do pensamento
válido. É na verdade um ato de importância incalculável. Não que se posa
afirmar que seus enunciados jamais se propuseram anteriormente, mas sim devido
à síntese que aí se produz, ao novo modo pelo qual esses enunciados recebem
seus pesos no interior do sistema.
Em todo caso o que
ocorre a partir daí é que os fatores atividade teórica ou fundamentação
epistemológica das ciências especializadas – talvez um epíteto mais adequado do
que apenas “experimentais” – e a prática mesma dessas ciências se tornam cada
vez mais autônomos e independentes enquanto regiões de conhecimento até
resultar na cisão das próprias ciências em naturais e humanas.
A filosofia subsiste,
sem dúvida, mas com frequentes incursões em territórios eles mesmos já em vias
de especialização, principalmente dentro da área das humanidades, de modo que
se criaram núcleos ambíguos. Assim como na teoria literária em relação à
literatura ou a epistemologia em relação às ciências. A filosofia atravessa
esses campos, é responsável por eles informando-os de dentro mas não tem como
circunscreve-los ao modo de uma rubrica disciplinar definitiva.
Pode-se afirmar que a
epistemologia não deve ser justaposta à teoria literária, pois a epistemologia
tem sido arrolada como disciplina filosófica, o que não é o caso da teoria. Mas
como considerar Piaget filósofo, ele que realiza – e deseja expressamente que
se o considere assim – pesquisa experimental? Os exemplos se multiplicam. A
unidade da filosofia poderia mesmo ser posta em questão. Como reunir ontologia
e epistemologia sob seu domínio unívoco? Se a epistemologia por vezes anuncia
pretender efetivamente solapar a legitimidade de toda metafísica enquanto
pretensão de “filosofia primeira” – já que como tão bem expressou Canguilhem,
não existem verdades primeiras, no início estava o erro.
Retornando `a questão
de Husserl e sua tarefa enunciada de uma ciência universal, pode-se observar a
adequação do epíteto neocartesianismo relativamente a seu empreendimento. O
percurso da “introdução à fenomenologia” como que replica aquele das meditações
de Descartes. Os três ângulos dessa replicação poderiam ser designados: o ter
que ser exercitado da pretensão à evidência absoluta, aquilo que lhe é
correlato, a saber, a afirmação de “evidência” no sentido racionalista, como
inerente a princípios apodíticos, isto é, independentes da experiência, logo, a
proposição da tarefa de construção da ciência desses princípios, e por isso “universal”.
O centro desse triângulo seria então a subjetividade transcendental como
evidência “pura”.
Ora, é justamente
aqui que incide o “neo” de Husserl, como também o sentido de sua
contemporaneidade. Pois na perspectiva de Husserl o Cogito que centraliza o
percurso de Descartes não teria se elevado efetivamente ao transcendental,
permanecendo na atribuição meramente geométrica do apodítico.
“Realismo
transcendental” cartesiano, esse “contra-senso”, conforme a expressão de
Husserl, na verdade falseia o sentido da transcendentalidade por conceber o
caráter apodítico do Cogito à maneira de substância espiritual real alinhada à
realidade outra da substância material. Descartes teria permanecido demasiado
empírico, seu espírito é “mente” ao invés de princípio de uma idealidade
absolutamente irredutível a qualquer realidade dada “posterior” à subjetividade
transcendental.
É interessante notar
que aquilo que observamos sobre o alcance ontológico da prova da existência de
Deus, assim como o caráter exercitado do “Eu Penso”, parecem conduzir a uma
apreciação mais favorável à Descartes, nisso pelo que parece que se pode
deduzir de seus escritos que ele tinha plena consciência do que separava esse
tipo de certeza daquelas decorrentes apenas da constringência lógica. Creio
mesmo que esse é o problema filosófico de suas meditações. Pois essa intuição
que ele parecia querer por força comunicar não tem como se “comprovar”. Aqui se
atinge a margem do conceito, mais propriamente, da filosofia mesma.
O percurso vivido por
Husserl poderia ilustrar o que estou querendo enfatizar. Sabe-se que ele muitas
vezes hesitou quanto aos resultados teóricos da fenomenologia. Algo dessa
insegurança se entrevê pela expressão “sempre novos e insuficientes” aplicada,
no texto que estamos observando, a todos os escritos que tratam de conduzir ao
idealismo subjetivista, incluindo Descartes. Husserl por um lado vê a
dificuldade, por outro sabe, ou pensa, que ela deriva da ilusão infinitamente
constrangedora do que considera o objetivismo “ingênuo”.
Ora, o problema se
torna agudo quando se pretende derivar da presentação conceitual (filosófica) a
exigência epistemológica (científica). Pois a intuição de que há algo mais
apodítico do que a mera implicação lógico-geométrica é usada como fundamento de
uma exigência que quer desqualificar a pretensão à validez das ciências
realmente existentes porque derivada de um pretenso saber absoluto. Mas esse
saber absoluto não pode ser demonstrado – daí o ter que ser exercitado da
prova, a recorrência da insuficiência dos argumentos, etc. Mais, esses mesmos
argumentos só podem ser transpostos na forma de constringência lógica, sendo a
isto que afinal se reduz toda evidência de qualquer princípio.
O “logo” que liga o “penso”
ao “sou” se pretende mais do que uma definição geométrica ao mesmo tempo que o
que funda a exigência dessa anterioridade sobre a evidência empírica é ser
exclusivamente lógica e por aí auto-evidente. A ambiguidade se instala nesse “auto”
da evidência. Exercitando o pensar transpomos o mero raciocínio e atingimos o
ser. Contudo, não se vê como a dúvida que atinge tudo – mesmo a verdade
matemática, na hipótese do Deus falseador – não atinge a ligação de inerência
do Eu ao Sou. O “logo”do Cogito parece infirmar qualquer empreendimento “fenomenológico”,
pelo menos no sentido idealista de Husserl.
Contudo a formulação
do transcendental pode ser bem conduzida por vias que não se instalam na mera
denegação da evidência empírica, ou melhor, que não se fundam na duplicidade do
termo evidência. Assim o transcendental kantiano já se instaura sobre um outro
estilo de filosofar, integrando de algum modo a positividade do empirismo, ou
melhor, ultrapassando realmente a distinção de empirismo e racionalismo. Em
sentido contemporâneo é Heidegger quem opera definitivamente essa ultrapassagem
que Kant ainda mantém numa inserção metafísica.
Mas se essas demarches já apontam para desenvolvimentos posteriores de pesquisa, por ora é preciso reconduzir à ambiência do cartesianismo e estender a problemática desse locus de nascimento das alternativas empirista e racionalista. Quanto a isso poder-se-ia inserir aqui a observação da filosofia de Leibniz já que ela desenvolve uma confrontação explícita do racionalismo com as implicações do texto de Locke. Mas essa observação poderá ser feita com mais base após certas considerações envolvendo o a priori histórico do clássico, assim como conceituado por Foucault.
b. Cartesianismo e modernidade
Certos aspectos da
crítica de Husserl a Descartes se reencontram, na contemporaneidade, voltadas
ao próprio Husserl. É importante situar bem as perspectivas. A questão não é
fazer de Descartes o precursor de Kant, o Cogito o “mesmo” que o
Transcendental, apenas com outros termos. São conceitos que coalescem em planos
epistêmicos – unindo assim de algum modo a Epistémê de Foucault e o plano de
imanência deleuziano – irredutíveis.
A noção de
transcendental como o que é independente da experiência surge na Escolástica.
Ens, res, unun, aliquid, bonun, verun (ser, substância, uno, algo, bom,
verdadeiro), são os seis transcendentais listados por São Tomás que, conforme
Abbagnano, designam “propriedades que as coisas têm em comum, e que por isso
excedem ou transcendem as diversidades dos gêneros” a que se pode atribuí-las.
Kant utiliza o termo
de modo inteiramente outro, como condição da própria experiência, reduzindo-os
como formas a priori da razão: “chamo transcendental todo conhecimento que se
ocupa, não dos objetos mas do nosso modo de conhecer os objetos”. Assim nem
todo conhecimento a priori é transcendental. Pois esse último não se aplica a
tudo o que é simplesmente independente da experiência e sim só o que a antecede
sem ser porém “destinado a outra coisa senão a tornar possível o mero
conhecimento empírico”.
Observa-se assim a
irredutibilidade de Kant a Descartes. O transcendental torna possível o
empírico mas de modo algum está nele diretamente acessível. Só se pode alcançar
sua realidade conceitualmente, ele é pensável mas de modo algum como uma
experiência do fato mesmo de se estar atualmente pensando, enquanto a evidência
do cogito, como vimos, exige a adesão empírica, o ser exercitado, para ser
demonstrado mesmo como realidade conceitual.
Mas a crítica que se
endereça, de muitos lugares, a Husserl, e que relança a crítica de Husserl a
Descartes, de certo modo prolonga também a crítica que Deleuze enuncia sobre
Kant.Trata-se sempre da acusação de ter decalcado o transcendental do empírico,
ou com relação a Descartes, de ter recolocado aquilo que refutava a dúvida
sobre aquilo mesmo que ela excluía.
Penso, logo existe o
ser – seria uma consequência boa, mas antiga. Penso, logo existe pensamento – é
uma consequência boa e contemporânea que ao mesmo tempo em que é lançada
desloca o domínio de toda “evidência”, põe no mesmo lance o tema do
inconsciente. O pensamento de modo algum se reduz à região de visibilidade que
é a do “eu”. Ao invés de explicar, o Ego precisa ser explicado. Mas penso, logo
(eu) sou, eis aí uma consequência que parece duvidosa e que no entanto é bem
clássica.
Ora, isso pode desde
já iluminar uma tese cara a Foucault, aquela que se apresenta em As Palavras e
as Coisas. Pois, como vimos anteriormente, o que se enuncia aí é que o “homem”
é na contemporaneidade, não antes, sendo correlato das ciências humanas que o
criam enquanto objeto de saber. Mas essa contemporaneidade mesma, que se
instala a partir do século XIX, surge com o limite epistêmico que sela o fim da
modernidade como período que se estende entre os séculos XII e XVIII, isto é,
surge com o tema do inconsciente. Já vimos como Foucault utiliza a terminologia
dessas épocas, designando o contemporâneo como o “moderno” e o moderno como o “clássico”.
Para evitar repetições incômodas ou sobreposição de termos, utilizarei
normalmente contemporâneo e moderno como se costuma aplicar, salvo quando a
exposição depender explicitamente das consequências da conceituação de
Foucault.
Assim o “sou”
cartesiano não seria a surgência do “homem” que o enuncia mas tão somente a do
sujeito de pensamento correlato aos objetos do mundo. O sujeito moderno não
corresponde ao “homem” contemporâneo, corresponde sim à dobradura do mundo em
signos ou idéias e matérias ou coisas.
Heidegger estava
certo quando hesitava quanto à inserção do aristotelismo na rubrica
onto-teo-lógica que sem dúvida se aplica a Platão. O “pré-socratismo” de
Aristóteles se vê nisso pelo que seu mundo permanece uno, é de modo genuíno o
da physis grega. A teleologia não arrasta os seres ao pensamento sem ter estado
sempre inscrita na sua mais íntima constituição enquanto substância composta,
real, efetivamente subsistente.
O mundo platônico não
subsiste, precisamente, como tal, sua não sub-sis-tância sendo o que há para
revelar, para desmascarar, através de Sócrates. O platonismo instaura dois
mundos? Na verdade ele desloca o ser do mundo, não é o mesmo significado a
recobrir essa homonímia “mundo das aparências”, “mundo das idéias”. Um pouco
como no cristianismo, o mundo é das aparências, o que é das idéias é o real que
não é deste mundo. Porque a realidade puramente ideal sempre se defrontou,
desde esse início no pensar, com o mesmo problema. Ela não pode se dar como concretude
fenomênica, mas seu estatuto transcendente, independente da experiência, só
pode ser conceituado sobre a rubrica do cognoscível, logo decalcando-se sobre o
fenomênico.
Mas também sob certo
ponto de vista se pode afirmar que sim, são dois mundos o que instaura a
filosofia platônica pois o mundo das aparências também possui uma alma, também
tem o caráter do fundado naquilo em que não pode se furtar ao real de que
deriva, de que depende como de sua necessidade – intrínseca, pois a metéxis, a
participação na idéia é aí constitutiva da coisa.
E eis que o mundo
moderno se instala numa duplicação que não se afirma numérica mas
qualitativamente. O mundo da vida realmente se reduplicou no momento mesmo em
que se tornou esférico. A Eurásia encontrou seu Ou(t)ro, a América. Mas esse
duplo material precisa ser idealmente dominado pelo que lhe sobreveio assim de
fora. O que a Epistémê moderna instaura, o a priori histórico do clássico, pode
começar a ser visado nesse ser dobrado de um mesmo mundo que se desdobra em
duas metades – tema que se reencontrará desde Descartes, em Leibniz, em Spinoza
e mesmo no Empirismo. Mas note-se como o transcendental kantiano representará o
limite dessa (des)dobradura.
E é aí também que se
pode inserir as críticas a Husserl – de Cavailles, Granel e Foucault. Ora, o
que Foucault mostra é que a aparente cisão maior que pôde ser polemicamente
afirmada entre positivismo, marxismo e fenomenologia, na verdade não chega a
ocorrer. Pois a religação sempre se restitui na imanência arqueológica do que
Foucault designa o “postulado antropológico”, isto é, essa ambiência
contemporânea que é a do pensamento do “homem”.
Assim a análise do
vivido, a fenomenologia, protesta sua antecedência de direito sobre tudo aquilo
que o positivismo e o marxismo reclamarão como dados imediatos, a natureza e a
história. A fenomenologia busca falar da experiência originária, subjetividade
(Husserl) ou corporeidade (Merleau-Ponty), anterior à natureza assim como a
experiência da vida recolhe o que nela se oculta e/ou se mostra enquanto
cultura ou “espessura semântica”. No entanto, como afirma Foucault, não é isso
justamente preencher ainda mais cuidadosamente “as exigências apressadas que
foram postas quando se pretendeu fazer valer, no homem, o empírico pelo transcendental”?
Essa pretensão é
porém a marca do contemporâneo naquilo pelo que nossa época se localiza no “pós”
em relação ao kantismo. Isto é, quando a questão, desde o século XIX, não está
mais na fundamentação de uma ciência da natureza, como ainda era a motivação
essencial de Kant, mas sim nesses novos domínios que as empiricidades novas –
da vida, do trabalho e da linguagem – descobriram. O homem pensa o que ele não
pensa, anima essa vida cuja rede é inapreensível à sua consciência, produz no
entrelaçamento de forças produtivas cujas leis não se derivam da imediatez de
suas decisões, utiliza uma linguagem cujo sistema manifesta sua autonomia
irredutível a toda prática do falante.
Esse quádruplo
deslocamento em relação a Kant (da verdade ao ser, da natureza ao homem, do
conhecimento prévio ao desconhecimento prévio, do não-fundado filosófico frente
ao fato científico à consciência filosófica do não-fundado científico) assinala
a entrada no contemporâneo, esse domínio do impensado, que é o do ser humano enquanto
duplo empírico-transcendental.
Mas como no kantismo
esse duplo empírico-transcendental continua a ser aquele em que, nele, “se
tomará conhecimento do que torna possível o conhecimento”. Assim se vê a
co-pertença desses partidos que na aparência se defrontam, pois essas condições
de possibilidade se determinam: a) seja pela positividade das condições de
conhecimento formalizadas pela natureza biológica e corpórea (positivismo) ; b)
seja pela positividade das condições de conhecimento formalizadas pela história,
sociedade ou economia (escatologia, marxismo); c) seja pelo que a análise do
vivido tentou restituir, numa teoria do sujeito – a subjetividade desempenhando
o triplo papel de reconduzir à pureza do transcendental em relação ao empírico,
reconstituir a interconexão presente dessas duas instâncias, reintegrar as
experiências do corpo e da cultura.
É nessa superposição
de atribuições que a fenomenoogia repõe o Cogito, pôde se propor como
neocartesianismo. Granel já o observa, como identidade de situações entre
Husserl e Descartes. Assim se a crítica de Husserl é que Descartes
substancializou a consciência, logo não se elevou ao transcendental, Husserl
mesmo não teria feito mais do que estender ao infinito o horizonte da
substância, esvaziando-a ao modo de sujeito puro mas instituindo-a como espaço
teórico mesmo. Pois a redução do mundo só se faz sob a evidência do mundo
subsistente.
Isso ressoa ainda na
crítica de Cavailles, que numa démarche epistemológica bastante próxima de
Bachelard e Canguilhem, enfatizando o papel das rupturas no progresso
científico ao analisar o devir das matemáticas, irá mostrar que o posterior não
mantém com o anterior o caráter de unidade que prescreve a consciência
fenomenológica enquanto evidência justificadora única de todo conhecimento –
justamente o que implica renunciar ao “primado do Cogito” pela aceitação de que
“o que marca a história é a submissão do transcendental às suas etapas”.
Pode-se assim mostrar
como essa observação de Cavailles ajusta sua démarche na localização da
Epistémê contemporânea, assim como conceituada por Foucault, já pela
consideração do transcendental inteiramente constituída como duplo do empírico.
Pois aí onde o empírico só manifesta o prolongamento de palavras, as
continuidades ou desenvolvimentos de domínios, o que se atua é a ruptura, o
corte, o rasurar. Mas o que atua essas rupturas, o transcendental de Cavailles,
não se poderia identificar como o espírito humano que a ciência intermedia ao
em-si, mas sim como esse objeto “original em sua própria essência, autônomo em
seu movimento”, absoluto elemento “no sistema dos existentes”, isto é, a
ciência mesma.
Em todo caso na
contemporaneidade trata-se sempre de pensar o impensado, iluminar o empírico
pelo transcendental. Mas vê-se o modo como isso é o inverso do empreendimento
clássico. Para Descartes, com efeito, o corpo e o mundo são uma espécie de
fuga. O tema são as idéias inatas que só estão no espírito, no pensamento. Mas
as variações e fugas podem se ramificar, extravasar a centralidade do tema.
Assim Gassendi é só “carne”, Descartes é só “espírito”, mas ambos são reduções.
Na prática, como Descartes antepõe a Gassendi na carta, é impossível evitar a
fuga, o prolongar das variações.
Mas na ordem das
razões, isto é, para dar conta do real, só as reduções importam, a obra se
define pelo tema, o ser pelas idéias. A extensão é irredutível ao espírito mas
isso porque o extenso é o mensurável não o sensível. Ora, na contemporaneidade,
que seria do processo sem o sintoma, da ruptura sem o erro que a condiciona, do
para-si independente do em-si, da langue sem nenhuma parole? Não só não seria
conceituável mas não seria, simplesmente. A natureza dupla do ser humano
contemporâneo se mantém, efetivamente, sem que seja possível reconduzi-la ao
simples jogo de essência e aparência.
Ora, o que importa
agora, então, é perguntar: mas como reservar aí, por menor que seja, algum
espaço de contestação? Se a fenomenologia nunca pôde conjurar “o insidioso
parentesco” com as análises empíricas sobre o humano, onde está a verdadeira
contestação do positivismo, do cientismo ou da escatologia determinista? O que
Foucault vai responder envolve o qualificativo “aberrante” restringindo o termo
“questão”. O aparentemente aberrante da questão se deve a que ela desloca isso
que é o a priori mesmo de nosso pensar. Nietzsche o formulou: trata-se de
indagar se esse objeto dos saberes, o “humano” – existe.
Trata-se, como na
pesquisa arqueológica de Foucault, de mostrar como ele sobreveio, como ele não
esteve sempre lá, como ele não se confunde com a “velha palavra” – homem – que
o designa. Observa-se aí também a propriedade da terminologia de Foucualt. Pois
se o que habitualmente se chama o contemporâneo é o que ele conceitua como o
moderno, pensar o sobre-humano, o super-humano, o ?-humano é instalar-se,
precisamente, na pós-modernidade.
Ora, isso envolve
inevitavelmente a questão da verdade. Pois sem dúvida a crítica fenomenológica
configurou esse território epistemológico “moderno” numa fratura que põe lado a
lado problematizações profundamente divergentes daquilo que se designa verdade.
Pode-se afirmar que a fenomenologia contesta o que é, para Bachelard e
Canguilhem, axiomático, a saber, que a verdade é de competência exclusivamente
científica, e que à verdade científica, somente, compete eliminar o falso.
Mas se a própria
ciência não pode exibir o horizonte único de sua inteligibilidade, se ela se
funda no erro, na retificação, na dependência do objeto, como é que ela poderia
protestar essa competência, ela, que vive sob o signo da crise e do provisório?
Para Husserl a verdade é o absoluto – a idéia é um “objeto eterno”, para usar a
terminologia de Whitehead. Husserl não teria dificuldade em reverter dessa
crítica à falta de princípios da ciência atual, a uma postulação da fenomenologia
como o seu remédio, já que o que a redução à subjetividade transcendental
implica é uma eidética ou ciência mais universal desses objetos enquanto
essências.
Ora, todo e qualquer
objeto, com relação à consciência, para Husserl é transcendente. O Cogito
cartesiano fornece uma via de acesso à descrição das percepções e domínios que
lhe correspondem, conforme as “Investigações Lógicas”. O Cogito demonstra assim
a evidência da existência dos objetos da percepção interna e o caráter
puramente fenomenal ou intencional dos objetos da percepção externa que não
seria, portanto, de todo percepção do ser-efetivo do objeto.
Assim, se a percepção
externa experimenta exclusivamente os fenômenos físicos, a interna é a única a
ter evidência e infalibilidade e lida apenas com os fenômenos psíquicos.
Husserl, como vimos, afirma que o caráter epistemológico é absolutamente o
mesmo em ambos, pois em todo caso o objeto é transcendente relativamente à
consciência. O que a atitude fenomenológica visa é precisamente inibir os
posicionamentos transcendentes.
Todo fenômeno é
vivência do “eu”, todas as vivências podem vir a ser objetos das intuições
reflexivas internas. Assim fenomenologia é a doutrina das vivências em geral.
Neste sentido é fenomenologia “pura” pois não trata de fatos psicológicos ou
leis da natureza mas apenas das puras possibilidades e necessidades do Cogito
puro, os atos que se manifestam como essenciais à constitutividade dos objetos
na consciência.
Compreende-se pois, a
crítica de Cavailles, partindo do ponto de vista de uma epistemologia do
conceito. Ali onde Husserl vê uma atividade absoluta como subjetividade
transcendental, a epistemologia do conceito que reúne grosso modo Cavaillés,
Bachelard e Canguilhem, vê apenas a subjetividade empírica hipostasiada, ou,
como em Granel, infinitizada, já que o transcendental não tem o caráter de
nenhuma subjetividade. É o “espírito científico”, metáfora de uma atividade que
só pertence à ciência mesma, na temporalidade puramente lógica da pesquisa.
Assim um conceito não poderia de modo algum ser enunciado não importando o
tempo ou o lugar, no interior de uma disciplina, assim como deveria ser
possível se concebido ao modo da espontaneidade pura dos atos da consciência
transcendental.
A epistemologia do
conceito também não é a da teoria. A teoria é certo sistema de conceitos mas o
que a epistemologia do conceito busca são as mutações que certas noções sofrem
de modo a produzir-se como objeto científico que de modo algum preexiste como “essência”,
sendo sempre “da ordem do construído”, conforme a expressão de Fichant – sem
que isso implique qualquer “sujeito construtor”. Efeito sem causa, resultado ou
artefato, assim são os objetos da física, como o “efeito Zeeman” , no exemplo
de Fichant.
Em todo caso, como na
fenomenologia, o objeto está numa relação com o ato mas muito inversamente ao
horizonte de uma subjetividade de que se pode apreender absolutamente os
eternos atos fundadores, a dispersão se encontra no âmago da criação científica
pois esses atos dependem aí de uma temporalidade, imanente a cada ciência, que
reúne instrumentos, pré-conceitos, horizontes de pesquisa, contribuições
pessoais, etc.
As implicações desse
uso do termo epistemologia “do conceito” devem ainda ser problematizadas,
porém. O próprio Canguilhem o notou, ao propor o termo “perceito”, que se
define como objeto de percepção, sem referência a uma realidade ou coisa em si.
Assim, se “conceito” equivalendo a “noção” está ainda na região “epistemológica”
da visibilidade, da evidência e do “livresco”, a entrada no perceito já se
realiza no âmbito da “fenomenotécnica”, da produção da experiência, do “laboratorial”.
Ora, esse problema terminológico também está relacionado com a questão da
verdade. Pois mesmo distinguindo-se quanto as suas condições de emergência,
conceito e perceito guardam uma mesma relação de forma e conteúdo com a
verdade.
Pode-se enunciar o
problema desse modo: como conceito poderia ainda guardar uma relação com a
validez, se ele não se instaura nos quadros da cientificidade, como no caso do
conceito filosófico? Lembra-se aqui o postulado do neoempirismo pelo qual tudo
o que não se verifica pela experiência, enquanto enunciado, como por exemplo as
proposições metafísicas, rigorosamente não tem sentido.
Mas seria o caso de
perguntar, que é então a verdade? Pois esse cientismo de modo algum sequer
propôs a questão, pressupondo, ao que parece, sempre que se trata de uma mera
adequação à coisa, ou à verdade do fato. O que se torna produzido são apenas as
condições de emergência dessa verdade enquanto tal. Nesse âmbito qual seria o
espaço teórico da indagação: que é mais verdade, o produzido/encontrado da
ciência ou o horizonte absoluto da subjetividade fenomenológica?
Ora, deslocando-se a
questão na perspectiva do a priori histórico vemos que “a verdade” não pode ser
reputada como de competência exclusiva da ciência. Pois o descontínuo das
epistemologias do conceito nunca se põe na perspectiva crítica de sua própria
emergência, ele apenas descreve a série de rupturas e os meios que lhe são manifestamente
correlatas.
Contudo só mais tarde
poderemos desenvolver as implicações dessa questão. Por ora, devemos reconduzir
à ambiência do clássico. O que se deve inserir aqui é o problema: de que modo,
se o transcendental kantiano assinala os limites da epistémê do clássico, se
pode caracterizar essa epistémê? Se o Cogito não é o Transcendental, o que ele
é? O que se instala no vinco dessa dobra – que se redobra, do lado do
pensamento e do lado da extensão?
A resposta pode ser muito geralmente enfeixada sob o termo “representação” mas também envolve esse outro termo “ordem”. Agora devemos examinar como se articulam essas rubricas na epistémê clássica e por esse meio teremos mais base para nos aproximar da filosofia de Leibniz.
c.
A Idade da Razão
o
A Epistemê
Foucault enumera os
sinais do deslocamento que se verificam entre o Renascimento e o Clássico, no
âmbito de Les Mots et Les Choses, publicado em 66, como que sobrepondo essa
enumeração em dois registros. Há inicialmente uma incursão à esfera do que se
costuma tratar em “história da filosofia” , especialmente ocupando o capítulo
III. Em seguida aprofunda-se o campo de observação sobre aquilo que se poderia
atribuir como domínio de uma “história das ciências”.
Foucault mesmo já
havia afirmado, na Arqueologia do Saber, não proceder por dedução linear, e sim
por círculos concêntricos, ora no sentido da periferia, ora do centro – assim o
cerne sendo a singularidade, a periferia poderia ser os agrupamentos
enigmáticos, as formações discursivas. Mas isto deveria provocar o refluxo no
sentido do centro, já que o enigma desses grupamentos iria obrigar a uma
reconsideração da singularidade. O que significa, se não ter construído um
modelo teórico, ao menos ter estabelecidoa sua possibilidade se, e somente se, “tiver
conseguido fechar o círculo” e mostrar que as formações podem centrar-se
naquilo que as delimita como singularidades, a saber, o enunciado, de cuja
definição trataremos mais à frente.
Essa sobreposição de
registros é significativa. Ela enuncia problemas, designa o que está em
questão. Quanto ao que pode haver de problemático nessa relação com a história
da filosofia, especialmente o que poderia interessar numa confrontação com o
conceito de “história das idéias”, não é ainda o lugar de análise. Por ora
aquilo que vem se enunciando comporta mais a focalização no interior desse
domínio que se poderia designar história das ciências pois trata-se assim, já
pela forma da exposição, da caracterizaçãoexemplar do conceito epistemológico
de a priori histórico que orienta, como um princípio, a démarche de As Palavras
e as Coisas.
Ora, o problema é
sustentar a posição desse conceito, já que ele vai lidar com uma realidade que
se instala em outro nível por relação àquele em que se desenvolvem os
horizontes da pesquisa específica de cada domínio de conhecimento considerado.
No clássico, os domínios de “história natural”, “análise das riquezas” e “gramática
geral”. Na modernidade, biologia, economia e estudo da linguagem.
O problema se agrava
se notarmos que essas disciplinas atravessam as fronteiras mais solidamente
estabelecidas como de ciências naturais e humanas. Não se resolve essa
implicação pela simples constatação de que justamente o que Foucault pretende
afirmar é que tal fronteira ou partição disciplinar de natureza e cultura,
humano e natural, é posterior a esse momento da pesquisa em que se está
delineando a Epistémê do clássico.
Pois mesmo quando,
após esse momento, a pesquisa penetra na espessura da modernidade, persise a
originalidade da partição que parece ter sua necessidade no interior do
sistema. É´ o caso de considerar os três modelos, as três “regiões
epistemológicas” que cobrem o domínio mesmo das ciências humanas, a saber,
biologia, economia e estudo da linguagem englobando filologia e linguística.
Foucault vai destacar assim que no interior de cada um desses três modelos
originam-se pares como categorias fundamentais que “cobrem, por completo, o
domínio inteiro do conhecimento do homem”.
Essas categorias são
função e norma (biologia), conflito e regra (economia), significação e sistema
(linguagem). Elas se estendem às ciências humanas permitindo a formação de
fenômenos interligados ao modo de “objetos” de saber, respectivamente, da
psicologia, da sociologia e das análises literária e de mitos.
O termo “categoria” é
aí utilizado no sentido rigoroso do conceito filosófico habitualmente
relacionado ao kantismo. Esses pares conceituais que se originam nos três
modelos de vida, trabalho e linguagem asseguram a ligação dos objetos nas
empiricidades mas oferecendo-os à experiência “já ligados entre si”, isto é,
atuando como condição de possibilidade da mera visualização disciplinar desses
objetos enquanto tais. Ao mesmo tempo em que fornecem um “critério formal”
tanto para se localizar o domínio – psicologia ou sociologia ou teoria
literária ou antropologia ou etnografia – quanto para se identificar os
momentos em que se psicologiza ou sociologiza a análise literária ou de mitos.
Um dos aspectos do
problema pode ser enunciado do seguinte modo. Sabe-se que atualmente as
ciências humanas já abandonaram o paradigma das ciências naturais, a importação
de conceitos ao modo de metáforas, etc. Assim, como ainda assegurar o
formalismo foucaultiano? Ora, Foucault não ignora essa questão. Ele a enuncia
efetivamente ao mostrar que esses modelos constituintes não desempenham em
ciências humanas o papel de técnicas de formalização ou meios para,
ingenuamente, “imaginar processos”. Esses procedimentos são exemplificados
pelas metáforas: organicistas da sociologia do século XIX, energéticas em
Janet, geométricas e dinâmicas em Lewin.
Foucault enfatiza
assim que o sentido dos modelos constituintes que ele destaca não funciona
desse modo. Resta que o a priori histórico permite encontrar o critério pelo
qual o desenvolvimento de uma Epistémê se efetiva, singularizando-se. Assim a
temporalidade imanente a cada disciplina, como já observada por Bachelard e
Canguilhem, não seria irredutível àquilo que atua como fator determinante da
positividade do seu domínio epistêmico mesmo.
Pode-se então
enunciar o outro aspecto do problema do seguinte modo. Canguilhem, ao estudar a
formação do movimento reflexo, desde sua suposta enunciação por Descartes, pôde
afirmar que Willis, não Descartes, se inscreve na origem da definição dessa
noção. Ora, se Willis se localiza na década de setenta do século XVII, pode-se
afirmar que Canguilhem observa uma continuidade conceitual que ignora o corte
epistêmico foucaultiano na medida em que institui uma mesma relação,
conceitual, de verdade que atravessa desde o domínio que ainda se propunha
pré-científico até a realidade formalizada da fisiologia. Mais, essa
continuidade é formadora da própria cientificidade da fisiologia.
A questão é complexa
pois Canguilhem tampouco pretende, como demonstra Roberto Machado em “Ciência e
Saber”, reduzir a epistemologia a uma história das ciências no sentido de uma
história das disciplinas. Seu objetivo prende-se à historicidade do conceito
enquanto “elemento que expressa a verdade científica”. As inter-relações conceituais
são assim chamadas a definir a própria racionalidade das teorias. Mas como
observa também Machado, nem a importância que Canguilhem não deixa de assinalar
à relação entre conceito e práticas sociais, nem a não limitação de sua
história conceitual ao interior de uma ciência, são efetivamente
representativos de suas análises.
Por exemplo,
Canguilhem não acentua a distinção, tão decisiva em Bachelard, entre
não-científico e científico (pós século XVIII). Mas sim a que Bachelard
estabelece entre fenomenológico e fenomenotécnico. Assim, independentemento do
fato da enunciação de Willis sobre o movimento reflexo se localizar num âmbito
não-científico, ocorre que sua definição é válida como originária na evolução
dessa noção/conceito que se tornará autenticamente fisiológica. A definição de
Willis, como se pode ver, não deixa de integrar a verdade que a fisiologia vai
subscrever como sua.
A ciência efetivaria
desse modo seu progresso, em Canguilhem, pelo desenvolvimento dos conceitos
elementares, pela enunciação de verdades que se completam por sobre a
descontinuidade dos domínios e as rupturas com os erros, ao invés de
oferecer-se a análise do a priori supostamente constitutivo dessas enunciações.
O corte que
Canguilhem institui portanto entre Descartes e Willis é rigorosamente “conceitual”
, portanto, já que Descartes ainda se expressando em termos de “espíritos
animais”, isto é, algo como eflúvios emanados do sangue, como causa eficiente
do mecanismo de movimentação corporal , só concebe um único sentido de atuação
dos “espíritos” enquanto que Willis propõe o que Canguilhem identifica como o
cerne da verdade do conceito tal como a fisiologia o consagrará, isto é, que o
movimento é “reflexo” justamente por se fazer em dois sentidos. Ou na expressão
de Canguilhem, citado por Machado: “o essencial do conceito de reflexão não é
apenas conter o elemento ou o resumo de uma explicação mecânica do movimento
muscular, é admitir que parte da periferia do organismo o abalo, qualquer que
seja sua natureza, que, depois de reflexão em um centro, retorna para esta
mesma periferia”.
O interesse da
pesquisa estaria então na identificação desses pontos de ruptura mais do que na
dispersão dos domínios. Trata-se de detectar os obstáculos à cientificidade.
Nesse exemplo do movimento reflexo pode-se observar que Descartes não apenas “errou”
na definição que propôs mas instituiu um verdadeiro obstáculo. Sua definição
impede a enunciação científica, isto é, real, do conceito já que para se
efetivar ele depende da “reflexividade”, do duplo sentido do percurso enquanto
Descartes institui como verdade que o sentido do movimento, na perspectiva
mecanicista, deveria ser único.
Mesmo que Canguilhem
adote tão frequentemente a orientação de Bachelard, percebe-se por que a macro
oposição entre o que é científico e o que não é não teria assim tanta
pertinência. Mais importante é notar que realmente se pode constatar que
Canguilhem utiliza “conceito” como termo “operatório” autenticamente
epistemológico, de certo modo transpondo a limitação que enfatizei
anteriormente do nível meramente descritivo. Pois ele não apenas descreve,
decalcando do discurso da ciência sobre sua própria instituição, o que
efetivamente ocorre no interior das disciplinas em vias de constituição mas usa
uma categoria epistemológica – o conceito – de forma que se pode instalar uma
região de visibilidade aí onde as fronteiras disciplinares faziam entrever
apenas uma ruptura fundamental, fundadora, com o seu “fora”.
Mas justamente a
articulação da ciência com o saber é o que permite contornar a hipnose da
epistemologia tradicional ou do discurso da cientificidade, sua miragem. Não
teria sido esse o “grito” de Foucault, para utilizar o termo deleuziano que
melhor nomeia a descoberta ou a criação de um filósofo?
Pareceria assim,
contudo, que lá onde Foucualt institui um corte, Canguilhem detecta uma
continuidade mais profunda e inversamente, ali onde Foucualt estabelece uma
identidade de direito, Canguilhem encontra uma autêntica ruptura. Mas isso não
fica desapercebido por Foucault. Machado faz referência ao fato de que
inicialmente Foucault teria pensado seu projeto numa certa continuidade com
Canguilhem a quem Jean Hipollite o havia recomendado para orientar sua tese (“Histoire
de la follie” ).
Na Arqueologia do
Saber, texto de 69 no qual Foucault realiza como que um balanço de sua
atividade, que até aí abarcava as pesquisas propriamente marcadas pela
ambiência da epistemologia, ele se expressa em termos amistosos relativamente à
démarche de Canguilhem. No entanto, por sobre o reconhecimento do caráter
rigoroso da pesquisa do conceito de movimento reflexo, há o posicionamento
claro de Foucualt quanto àquilo que separa as perspectivas. Sobretudo parece-me
que há a intenção de assinalar uma margem de tolerância, não como uma concessão
ou como a constatação de algo não já visto mas como interior à especificidade
da “arqueologia” mesma.
Justamente porque o
traçado arqueológico não poderia ter sido exaustivo ele faz espaço para novas
localizações de rupturas e continuidades que não precisam recobrir os já
instituídos. Mas, mais profundamente, há uma base teórica que é preciso situar
e essa é a tarefa que Foucault desenvolve na Arqueologia do Saber.
Assim a leitura desse
livro fornece uma visão ampla sobre a própria epistemologia – termo que
Foucault não investiu como rótulo de sua própria circunscrição. O que pode ser
observado aí é uma espécie de confronto entre três vertentes de “História das
Ciências”.
Uma delas é sugestiva
da proximidade Husserl-Hegel. Aí onde o transcendental se põe na estranha
aventura de reinstituir a autonomia da decisão e da ação consciente enquanto
subjetividade – não apenas no domínio da moralidade – o que não deixa de
subsistir é a reflexão dessa subjetividade ideal como motor da história, o
Espírito absoluto mantendo a sua identidade no desenrolar da manifestação de
que a história faz a decupagem. Foucault aproxima essa orientação idealista
daquilo que designa “análise recorrencial” e que se desenvolve no âmbito
privilegiado da história das matemáticas.
Isso porque a
matemática é o caso único em que não se pode distinguir limiares: de
positividade (momento em que certo sistema de enunciados se torna autônomo), de
epistemologização (momento em que uma positividade assim constituída recebe um
status ou função em relação ao fundo do saber), de cientificidade (quando acima
das regras arqueológicas de formação a positividade reconhece critérios
formais, leis de construção de proposições) e finalmente o limiar de
formalização (quando o logos científico já constituído já pode definir os
axiomas, elementos, transformações e mais geralmente todo o arcabouço formal
que institui).
Assim não ocorre que
se possa demarcar rigorosamente grandes conjuntos periodológicos que viessem
reunir todas as positividades num mesmo gradiente evolutivo de limiares.As
várias positividades observáveis não epistemologizam ou cientifizam todas ao
mesmo tempo. Mas a matemática se conserva como o caso único em que esses
limiares não se diferenciam no tempo. Por isso ela é tão valorizada que pôde
ser proposta como o próprio princípio racional de historicidade científica, o
modelo meta-histórico que seria o horizonte ideal de todas as ciências.
No entanto Foucault
mostra que se esse caso não pode se estender a todos os outros domínios, se
todas as positividades exceto a matemática desenvolvem historicamente seus
limiates por fases irredutíveis no tempo – e irredutivelmente umas em relação
às outras – não se pode ver sentido algum nesse princípio ideal de
meta-historicidade da análise referencial.
Ora, subsiste o fato
pelo qual em História das Ciências algo deve ser reservado a esse caso único,
sendo então situada a análise recorrencial como apropriada apenas à matemática.
Nesse âmbito o antes não constitui obstáculo ao depois, mas “continua” – recorre
– nele assim como o método grego das exaustões se conserva, apenas em um nível
de maior simplicidade ou ingenuidade, no moderno cálculo integral.
Contudo, como já
repetimos, não se pode utilizar a análise recorrencial como um paradigma em
História das Ciências. Foucault observa que uma análise de tipo recorrencial
poderia ser utilizada no exterior da matemática apenas no caso de ciências
constituídas “uma vez transposto seu limiar de formalização”. Assim Foucualt
identifica o outro tipo de análise, a de Gaston Bachelard e Georges Canguilhem,
que ele designa “história epistemológica” da ciência. Sendo uma história da
superação dos erros ela não poderia ser recorrencial
Nesta exposição
sumária dos “tipos de história das ciências” Foucault reserva à história
epistemológica apenas o caráter mais saliente, o de ser uma análise do limiar
da cientificidade em cada caso. Mas ao longo da “arqueologia” há todo um outro
nível latente de diálogo que me parece travar-se com a história epistemológica
já situando-se na faixa de diferenciação que assinalamos entre Bachelard e
Canguilhem. Assim o capítulo intitulado “O Original e o Regular” trata da
ilusão da precedência de modo tal que a crítica já não se prende ao fato da
grande oposição do científico e do não científico ser demasiado ampla para
permitir visualizar o que realmente ocorre com respeito às relações entre
ciência e saber.
Creio que se pode
detectar alguma ironia no título desse capítulo se relançado no campo de
surgimento do título “O Normal e o Patológico” – estudo de Canguilhem sobre o
desenvolvimento do conceito de normal nos campos de fisiologia, patologia
clínica e sociologia. Ora, Foucault começa por afirmar que só seria legítimo
indagar sobre questões de originalidade “em séries muito exatamente definidas,
em conjuntos cujos limites e domínio foram estabelecidos, entre marcos que
limitam campos discursivos suficientemente homogêneos”, salientando
expressamente ser este o caso da “sequência de proposições que, de Willis a
Prochaska, permitiu a definição do movimento reflexo”, estabelecida por
Canguilhem.
E até aqui podemos
efetivamente sobrepor as informações de Fichant quanto à crítica de Canguilhem
à figura do precursor – pela qual as teorias heliocêntricas grega e de
Copérnico são irredutíveis, não formam uma continuidade, devido à “singularidade
histórica do contexto teórico” – à expressão de Foucault pela qual a a
positividade enquanto singularidade permite mostrar porque não se pode dizer
que Diderot falava a mesma coisa que Darwin, o mesmo valendo para os
fisiocratas e Jevons, Van Swieten e Laenec.
A questão aqui é que,
como afirma Fichant, o conceito não é a mesma coisa que a palavra “pois
introduzir um conceito é formular uma problemática” ou, conforme Foucault, “o
fato de duas enunciações serem exatamente idênticas, formadas pelas mesmas
palavras usadas no mesmo sentido, não autoriza a que as identifiquemos de
maneira absoluta”.
Mas se com isso
Foucault pretende mostrar que uma descoberta, do ponto de vista enunciativo,
não seria “menos regular” do que os textos que a repetem e divulgam, segue-se
que a regularidade é tão operante, eficaz e ativa em uma banalidade quanto em
uma formação insólita. Já Fichant, na exposição da perspectiva de Canguilhem,
prossegue no sentido de mostrar que a análise do movimento reflexo permitiu
corrigir o erro histórico pelo qual se julgava pertencer a Descartes a
originalidade da formulação do conceito.
Ora, a que se devia
tal erro, conforme Canguilhem? Ao fato de que desde o século XIX o conceito de
movimento reflexo “releva de uma teoria mecanista do comportamento do ser vivo”,
na expressão de Fichant, e por isso pensava-se que a origem do conceito devia
provir de um contexto igualmente mecanista como o de Descartes. Já Willis
situa-se em uma perspectiva vitalista e Canguilhem irá afirmar que o vitalismo,
como “reconhecimento da originalidade do fato vital” não apenas circunscreve a
origem real do conceito de movimento reflexo mas assegura o contexto
epistemológico que proporciona, na expresão de Fichant, “à biologia o
racionalismo aplicado que lhe convém”.
Isso prolonga a
observação de Machado pela qual se, por um lado, a “perspectiva em que se
situam Bachelard e Canguilhem não aceita a existência de critérios de
cientificidade válidos universalmente para todos os tempos” ou “um tempo único
e homogêneo da ciência”, por outro não é menos certo que Canguilhem exige a “atitude
normativa” que faz a história ser “epistemológica”. Trata-se de avaliar a
ciência “quanto à produção de verdade”.
Voltando a Foucault,
o que se observa é que se deveria confrontar a observação de que a pesquisa de
Canguilhem de fato se estabeleceu em campos discursivos suficientemente
homogêneos com a que, algumas páginas à frente, afirma que a arqueologia não
considera a série de acontecimentos homogêneos ou formulações individuais como
critério de produção do discurso mas procura os planos de acontecimentos
possíveis: planos da emergência dos enunciados, do aparecimento dos objetos,
dos tipos de enunciação, dos conceitos, das escolhas estratégicas, da derivação
de novas regras de formação a partir das que já se encontram em uso, e
finalmente o plano de substituição da formação discursiva como limite histórico
da vigência de uma positividade.
Nesse último nível, o
de substituição, o que ocorre é que os enunciados começam a obedecer a novas
regras de formação, não que todos os objetos, conceitos, enunciações e escolhas
teóricas mudam subtamente ou desaparecem de modo abrupto. Assim é por essa
atualização das regras que se pode avaliar o sentido dos fenômenos de
continuidade que podem se verificar ao nível desses elementos dos planos de
acontecimentos.
A regra de formação é
o princípio de multiplicidade e coexistência problemática dos elementos, não “
a determinação de um objeto, nem a caracterização de um tipo de enunciação, nem
a forma ou o conteúdo de um conceito”. Entre os fenômenos de continuidade
descritos por Foucualt encontra-se nominalmente arrolado o caso de “elementos
que se constituem, se modificam, se organizam em uma formação discursiva e que,
afinal estabilizados, figuram em outra”. Esse, conforme Foucault nesse trecho é
exatamente o caso “do conceito de movimento reflexo, cuja formação na ciência
clássica de Willis a Prochaska e, depois a entrada na fisiologia moderna foram
mostradas por Canguilhem”.
O que essa
confrontação revela é que Foucault tem necessidade de se reservar a
caracterização de um terceiro tipo de história das ciências, o que ele
efetivamente investe. Foucault aí observa precisamente que se o “ponto de
ataque” do que ele designa “história arqueológica” é o limiar de
epistemologização, então “nesse nível a cientificidade não serve como norma”.
Trata-se, inversamente, do “ponto de clivagem” entre as formações discursivas
por sua posição e figuras epistemológicas que não são todas, forçosamente
ciências ou que jamais chegam a sê-lo. O que se procura revelar são as práticas
discursivas mas apenas por darem lugar a um saber que, ele, “assume o status e
o papel da ciência”.
Vê-se assim que não
há sucessividade, na forma da continuidade, da formação discursiva ao saber que
se fará ciência como se da noção “verdadeira”, se devesse extrair lentamente,
historicamente, isto é, na datação de seus momentos, a canga pré-científica.
Machado informa sobre
o artigo em que Canguilhem procura “integrar aquisições metodológicas das
démarches de Althusser e de Foucault”. Nesse artigo (“Qu’est-ce qu’une
idéologie scientifique?”) a questão de Canguilhem se torna não mais limitar a
história epistemológica a ser apenas história da verdade mas observar a
inter-relação da ciência com sua exterioridade. Mas isto na medida em que esta
é sempre pensada como ideologia científica –que extrapola o campo operatório e
de exigências metodológicas de uma ciência como no exemplo da ideologia
evolucionista que se deriva de modo ilegítimo da biologia.
Assim tratar-se-ia
agora de observar não só o sentido pelo qual a ideologia científica é obstáculo
à ciência mas também aquele outro pelo qual ela pode ser condição de
possibilidade, em certos casos, para a constuição da ciência. Ora, quanto à
questão da ideologia, Foucault deverá situa-la na Arqueologia do Saber, não
diretamente na relação com a ciência e sim, mais amplamente, com o saber.
A questão ideológica
por excelência, no âmbito da arqueologia, é da articulação do saber com a
ciência, do lugar que no interior do saber se reserva à ciência, justamente
como no caso do conhecimento médico sobre a loucura, trata-se de indagar como e
quando ele mudou, desde um tipo de saber ao lado dos outros, para se tornar o
modelo e a instância de decisão “científica”.
Parece-me que todas
essas escanções entre a história epistemológica associada ao racionalismo
aplicado e a história arqueológica convergem afinal na oposição básica entre
conceito e enunciado. O conceito evolui num horizonte de cientificidade, de
modo que talvez se pudesse aplicar aqui o preceito que Foucault nega da
arqueologia: o idêntico e o contínuo como aquilo que seria preciso reencontrar
no fim da análise. Assim o que formaliza o conceito é sua relação com a verdade
posterior – se ele “nasce” em qualquer lugar, só se torna legítimo no interior
da cientificidade já desde sempre instituída como lugar da verdade.
Ora, o enunciado não
é o conceito, nem a enunciação, nem a proposição, nem a forma lógica nela
atualizada. O enunciado é aquilo que faz de um conjunto de letras ou de marcas
um conjunto de signos portadores de uma qualquer legibilidade. O exemplo
clássico é A Z E R T . Ser enunciado é aquilo que tranforma esse grupo de
letras em algo não aleatório mas “legível” como o enunciado do grupamento das
teclas de máquina de escrever nos manuais de datilografia. Uma fórmula
algébrica, um diagnóstico são igualmente exemplos de enunciados. Uma formulação
genérica em uma língua também é exemplo de enunciado se considerado o gênero, o
contexto e o lugar prévio de sua enunciação.
Assim do enunciado às
formações discursivas, destas às positividades, daí ao saber, às figuras
epistemológicas e finalmente às ciências, obtêm-se os elementos no itinerário
de visualização de uma Epistémê – nem visão de mundo nem estilo de época, mas “o
conjunto de relações que podem unir, em uma dada época, as práticas discursivas
que dão lugar a figuras epistemológicas, a ciências, eventualmente a sistemas
formalizados”. Mais geralmente “é o conjunto das relações que podem ser
descobertas entre as ciências em uma época”. Se não compõe “um” estilo é
justamente porque se trata de analisar dispersões, de observar os desníveis e
confrontos de que, no entanto, a Epistémê fornece a possibilidade.
Trata-se então, entre
outras consequências, de compreender “o jogo das coações e limitações que, em
um momento determinado, se impõe ao discurso”, o que, por outro lado, implica
em compreender “aquilo que nas práticas discursivas torna possível a existência
das figuras epistemológicas e das ciências”. Ao invés de endereçar a questão às
condições de legitimidade de uma ciência, indaga-se sobre aquilo que ela já põe
na efetividade de seu existir.
O que se deveria
então, observando o traçado concêntrico da démarche a que fizemos menção no
início, é desse núcleo teórico cerrado saltar à periferia que atualiza a
prática arqueológica. Isso que instala a Epistémê do clássico, por exemplo, sem
que se tenha necessidade de perseguir as implicações do verdadeiro projetando-as
como uma sombra sobre o que aí se enuncia como válido.
No entanto considero
importante observar que meu propósito nesse paralelo de Canguilhem e Foucualt
tem muito mais a ver com o resgate da perspectiva crítica da arqueologia do que
com a nengação do imenso valor instrutivo das pesquisas de Canguilhem, tanto
quanto das de Bachelard. Pois esse valor permanece inegável e mais, a ele se
acresce o fato de que a história epistemológica, assim como também as
perspectivas de Althusser e Koyré, se alinham efetivamente com a “arqueologia”
de Foucault no sentido da comum oposição à concepção de que o desenrolar
teleológico da história das ciências oferece a prova do Mesmo quanto à
atividade transcendental, espírito ou subjetividade.
Quanto à questão
terminológica – uma vez que conservo a rubrica epistemologia estendendo-a à
obra de Foucault, e a vejo aí como autêntica, – deve ser reservada para um
momento mais adequado já que agora trata-se de finalmente procurar delinear as
fronteiras da Epistémê da Idade Clássica.
· Epistémê Clássica
O capítulo III de As
Palavras e As Coisas faz o marco inicial da Epistémê clássica surgir de um
corte, precedido por um limiar de entrada que, ao modo de um pórtico, assinala
o lugar desses guardiões do umbral, as figuras simétricas do louco e do poeta.
Essas figuras não se
postam sem algo de misterioso envolto na clareza aparente do que anunciam, a
completa superação do meio de similitude característico da época anterior. Mas
o que parece restar de enigma nessa simetria pode ser visado aomodo de um elo
relacionado, no conjunto da obra, a algo mais, alhures. Nesse contexto fechado
que é o de Les mots e les choses, sua provisoriedade de limiar, de
figuras de portal, remetem à imediatez do que se deve logo encontrar no
interior, o corte.
Entre Bacon e
Descartes. Pois se Bacon, com sua crítica dos ídolos, dessa “doutrina do quiproquó”
que eles envolvem, é ainda o pensamento do Renascimento “inquietando-se diante
de si mesmo”, começando a se afastar de suas figuras costumeiras, Descartes é
já o pensamento clássico excluindo a similitude como experiência fundamental do
saber.
Foucault agrupa os
ídolos: os da caverna e do teatro fazem crer que as coisas se assemelham às
teorias que formamos, àquilo que aprendemos. Os outros ídolos fazem crer que as
coisas se assemelham entre elas mesmas. A penetração do espírito será então o
apanágio da renúncia à ligeireza, da compreensão das diferenças entre as coisas
da natureza.
Mas Descartes não
visa a recusa da semelhança como misto confuso, apenas para fazer intervir o
que difere. Ele inclui a identidade, universaliza o ato da comparação no qual
introduz os termos da medida e da ordem. Assim tanto a identificação das
naturezas simples no sujeito (figura, extensão, movimento, etc. ) quanto a
própria dedução lógica (todo A é B, todo B é C, logo todo A é C) são
comparações entre termos.
Ora, as duas formas
de comparação existentes são a medida (contínua ou de grandezas, descontínua ou
de multiplicidades) e a ordem ( por exemplo, entre A e B qual é o mais simples,
qual mais complexo). Mas toda operação de medida pode ser finalmente reduzida
às operações da ordem. Mesmo os valores da aritmética são ordenáveis conforme
uma série. O método consiste pois em reduzir toda medida a uma colocação em
série, desde o mais simples ao mais complexo, conforme os graus de
complexidade, isto é, a uma ordenação.
A simplicidade não
concerne ao ser da coisa mas à ordem do conhecimento de modo que algo pode bem
ser simples e absoluto sob certo aspecto mas relativo e complexo sob outro. Em
relação ao pensamento a ordem é necessária. Em relação às coisas ela é
arbitrária.
Após esse corte, que
institui Descartes como verdadeiro inceptor da ordem clássica, Foucault
introduz uma tábua de transformações em que se assinala o principal quanto às
mudanças do Renascimento ao Clássico: a) substituição da hierarquia lógica pela
análise; b) ultrapassamento da infinitude no jogo das semelhanças pela
completude da enumeração ou totalização do domínio estudado; c) substituição do
provável pelo certo; d) substituição do critério de aproximação das coisas pelo
da avaliação de sua heterogeneidade; e) instituição de uma normatividade sobre
o campo do saber de modo a separar conhecimento e erudição, ciência e “história”.
O que se segue
permite recolocar o corte inicial, dessa vez fazendo-o intervir sobre conceitos
para situar o terreno sobre o qual se está jogando o clássico : mecanicismo,
matematização do empírico e Mathêsis (ciência universal da medida e da ordem).
Se tradicionalmente a história oscila entre assimilar “clássico” a “mecânico e
calculável” ou a identificar no interior do classicismo aquilo que lhe é
oposto, a saber o “reduto do não-racionalizável”, natureza ou vida, Foucault
pretende mostrar que só se pode compreender o que está se desenvolvendo aí
através de um corte conceitual. Pois se mecanicismo e matematização, assim como
as vicissitudes históricas, são fenômenos de superfície é por que o fundamental
da Epistémê clássica é a relação que manterá com a Mathêsis por todo o período
de sua vigência.
Duas vertentes se
podem observar quanto a essa relação. Aquela que se estabelece no sentido de
uma sucessão ordenada, domínio da análise; e aquela que estabelece o sentido de
novas regiões, não diretamente relacionadas ao mecanicismo ou à matematização,
domínio do sistema de signos . É nesse segundo domínio que vêm se inserir a
gramática geral, análise das riquezas e história natural, as “ciências da ordem”
no âmbito respectivo das palavras, das necessidades e dos seres. “Empiricidades”
coextensivas ao clássico, que só se puderam constituir nessa relação
fundamental com a Mathêsis.
Assim poder-se-ia
acrescentar na tábua precedente: f) substituição do conhecimento fundamentado
na Interpretação pelo conhecimento fundado na Ordem. Mas vemos que o procedimento
talvez não fosse tão aplicável. Pois essa substituição não simplesmente se
acrescenta às outras, ela as torna exequível.
E, traço mais
importante, rastreável de tudo o que precede: não se poderia afirmar que esse
deslocamento da interpretação à ordem é o que funda isso que se pode designar,
na região da epistemologia, conhecimento? Pois o que muda assim é a abrangência
mesma na qual se faz a partilha das competências. A do saber não se atribui
mais à adivinhação, e eis a interpretação tornada supérflua. A competência do
saber se transfere ao conhecer como capacidade de fornecer e utilizar algum
sistema racional formalizado de ordenação.
Ora, essa versão só
poderia ser bem estabelecida se visássemos de modo definido o termo
conhecimento. Sim seria a resposta dentro da ideologia clássica e já a partir
dela. Mas a questão de Foucault será justamente mostrar que “conhecimento” não
se prescreve ao modo de forma imutável à qual uma performance determinada viria
atualizar.
Retornando a Les mots
et les choses, deve-se conduzir à observação desse âmbito novo – que é
prerrogativa da “arqueologia” ter descoberto nesse nível de funcionamento – o
do sistema de signos. E quanto a isso a referência é bastante representativa.
Trata-se da Logique de Port-Royal, daquilo que ela introduz como revolucionário
em termos de sistema de signos.
O estudo da lógica de
Port-Royal se desenvolve em dois momentos. Inicialmente trata-se daquilo que
concerne às três variáreis que a Logique define para o signo, em seguida
tratar-se-á da própria teoria da representação que ela enuncia. Foucault
analisa pormenorizadamente as consequências de cada uma dessas rubricas.
No estudo das
variáveis do signo destaca-se inicialmente aquela que se relaciona à certeza da
ligação, o signo podendo ser constante e certo como a respiração é signo do ser
vivo, ou provável, como a palidez o é da gravidez A consequência a observar
aqui é que o rompimento entre adivinhar e conhecer se manifesta pela
incorporação da significância no interior do conhecer, ou melhor, como ato
mesmo de conhecer.
O signo não
pré-existe por si mesmo, antes ou depois, como marca depositada na coisa, à
espera apenas de sua revelação. São os laços que o espírito estende entre as
coisas sob a forma de juízo, por sua própria força de espírito ou pelo concurso
de Deus (sobre o sentimento em Malebranche, ou a sensação em Berkeley) que
facultam a relação de significância. A crítica de Hume sobre a causalidade
vista como laço das coisas nelas mesmas torna-se assim possível. Foucault insere
aqui, portanto, a possibilidade do empirismo.
Quanto ao tipo de
ligação o signo pode pertencer ao conjunto designado, como a boa fisionomia
significa a boa saúde, ou ser separado dele, como as figuras do Antigo
Testamento são signos do Novo Evangelho. Substitui-se assim à circulação
sempiterna que inclui a leitura como seu momento, o desdobramento infinito que
implica a junção na coisa da característica que o espírito separa por meio da
análise. Foucault nesse nível situa as teorias dos “ideólogos”, Destutt de
Tracy mas também Condillac e Gerando, que enfatizam no conhecimento a função da
análise que em geral caracterizará a produção do saber até Kant.
Leibniz seria aí a
figura essencial, ainda que não nomeada, pois Foucault mostra que o
desdobramento do mundo, das coisas em seus substitutos “com os quais pensamos”
, tem por correlato tanto uma análise quanto uma combinatória tornando o mundo
inteiramente ordenável.
Quanto à origem da
ligação o signo pode ser natural como a imagem de um espelho ou convencional
como uma palavra. A substituição agora é da ênfase no natural, de modo que a
convenção devia ser como fundada pelo que havia de direito na significância por
si mesma, pela ênfase no artificial ou convencional. É por que o espírito
institui com o mundo das coisas o seu processo de significância, arbitrária no
sentido de ser autônoma em relação a ele, que se pode ainda destacar o que é
preciso e identificar na coisa o signo que convém ao espírito no caso do signo
ser “natural”. O modelar no processo da significância torna-se agora, portanto,
o convencional, o artificial.
Mas a arbitrariedade
assim se instala como funcionalidade, de modo algum como o fruir das coisas
mesmas numa relação de significância que seria da ordem da materialidade. Seria
interessante, quanto a isso, aproximar a observação de Foucault com a oposição
que Julia Kristeva assinala entre o simbólico e o semiótico, oposição parece
que derivada de Freud.
O simbólico abrange a
ordem do signo: nominação, sintaxe, significação, sentido, denotação, verdade,
ciência, autoridade patriarcal. O semiótico abrange o que é transversal e
anterior ao simbólico: cora platônica, ritmo pré-socrático, jogo de palavras,
não-senso, a fala do outro, o descentramento que a prática da linguagem por sua
interatividade impõe como antítese à tese da linguagem enquanto pura
positividade de sentido, assim como o vazio oposto ao cheio, o materno, o
feminino.
O que vejo de
produtivo nessa aproximação é que se Kristeva localiza o simbólico como pólo de
dominação política desde Platão, pela sua vontade de negação do pólo semiótico,
Foucault permite demonstrar que o que restava até aí de “natureza” a ser
não-neutralizada como tal pelo saber, a nomeação da Cora, a coincidência do
mundo consigomesmo no microcosmos humano, a própria existência autônoma do
signo como marca muda nas coisas mesmas, tudo isso só deixa de permanecer no
espaço do clássico.
Assiste-se aqui
justamente o surgimento dessa correlação estrita entre verdade, significação,
ciência. E o que Foucault está afirmando é que ciência como sistema ordenado de
signos, como legitimação de um processo de significância, como “operação” no
sentido epistemologicamente rigoroso do termo, não existe anteriormente ao
século XVII.
O operatório consiste
nesse cálculo universal garantido por uma linguagem arbitrária que des-dobra a
natureza, processo cuja legitimidade é autorizada pela des-dobradura do mundo
em suas metades ideal e material. Leibniz o enuncia perfeitamente ao afirmar a
dobra interna ao ser do mundo, conforme Deleuze. Assim a matéria se redobra
internamente ao infinito, o espírito redobra a idéia no signo – dobras
anímicas, pequenas percepções que vão ao infinito ou mesmo ao insensível e que
asseguram contudo a conexão do espírito consigo mesmo ao modo de uma alma, por
um lado, e dobras orgânicas, mecanismo vibratório dos órgãos de percepção, o
infinitamente pequeno material, por outro.
A novidade dessa
perspectiva é notada por Deleuze quando, analisando a relação que Leibniz faz
intervir entre pequenas percepções/vibrações da matéria e percepção consciente/
órgão, assinala que assim “é sobretudo o sentido da semelhança que muda
completamente de função” pois é como se agora, ao invés de se julgar o
semelhante pelo semelhado – como se a relação fosse inerente às coisas
independentemente do espírito – é a relação de semelhança mesma que impõe a
matéria ser aquilo a que ela se assemelha, as qualidades sensíveis, a percepção
mas também o signo. Quanto a isso, posteriormente deveremos nos aproximar do
pensamento de Leibniz com mais vagar. Aqui deve-se registrar ainda, contudo, o
movimento do conceito pelo qual Foucault circunda todo o terreno filosófico do
clássico, uma vez que as variáveis do signo abrangem, por suas consequências,
tanto a possibilidade do empirismo quanto a do racionalismo.
Retendo a conclusão
de Foucault sobre esse exame das variáveis dos signos instituídas pela Logique
de Port– Royal: naquilo em que esse fenômeno é coextensivo à separação entre o
signo e a semelhança no início do século XVII, pode-se ver nele o que torna
arqueologicamente possível o pensamento clássico em que se estende “como numa
rede única de necessidades” a probabilidade, a análise, a combinatória, o
sistema e a língua universal.
Assim encontramos o
pólo seguinte da exposição sobre a Logique, aquele em que se desenvolve a
apresentação e as consequências da teoria do signo enquanto representação. A
novidade aqui, bastante relacionada com o novo lugar da relação de
significância, sua deriva desde o ser das coisas mesmas ao interior do conhecer,
é a teoria dual que substitui a trindade instituída até aí.
Se desde a Antiguidade
– Foucault cita os estóicos e os pioneiros gramáticos gregos – o marcado, o
marcante e o que permitia ver nisso a marca daquilo, agrupavam os elementos da
relação de significância, Port-Royal institui apenas dois elementos como
essenciais a essa relação, duas idéias, a da coisa que representa e a da coisa
representada. A reduplicação da representação consiste nisso pelo que a coisa
que representa só se manifesta enquanto representando, isto é, “como”
representante de outro objeto. O desenho – mapa ou quadro, torna-se o exemplo
ideal de signo pois “só tem por conteúdo o que ele representa”.
Assim poderíamos
recolocar a observação de Kristeva. Até a Idade Clássica, o outro semiótico
persistia na mudez da marca. É´ então aí que se institui, conforme Focuault, o
simbólico enquanto domínio completamente formalizado. Não seria pois inconsequência
nomear as éticas de discurso, de Apel ou Habermas, precisamente, “neo-iluministas”.
Manifesta-se assim, também, a defasagem na qual incorrem, pois ao situar o
contra-ideológico no espaço do simbólico puro o que fazem é justamente a
operação ideológica definida como tal – que consiste na supressão ou
escamoteamento teórico da espessura semiótica. / 1 /
Foucault destaca três
consequências da introdução da teoria dual do signo desde Port-Royal. Uma delas
é a interpenetração total entre análise da representação e teoria do signo,
isto é, entre pensamento e signo, conhecer e significar. Aqui intervém
numerosos exemplos: ligação entre idéia abstrata ou imaginação e percepção
concreta, da idéia geral com as idéias singulares, das sensações entre si
(Condillac, Berkeley, Hume, Gerando, Destutt de tracy).
Há também a consequência
negativa, a impossibilidade de um problema da significação com uma teoria que
lhe viesse resolver. Já que conhecer é representar, todas as representações se
interligam na “imensa rede” que recobre o mundo mas não sem constituir sua
realidade mesma pensável, sua cognoscibilidade intrínseca ou sua correlação ao
espírito. O simbólico se institui como o ser único do pensar. Antes se poderia
afirmar: não há conhecimento a não ser do universal. Mas agora, penso que se
poderia propor: não há o não-universal de que se poderia afirmar ou negar
conhecimento. Nenhuma opacidade entre signo e conteúdo, nada se interpondo
entre ambos.
Se “semiologia” e “hermenêutica”
continuam se interpenetrando de modo que não há como a significação se oferecer
como problema, não se pode constatar que continua a ser do mesmo modo que até
aí. Isto é, não mais pela união que perfazem no elemento da semelhança ou
similitude, mas por ligarem-se neste poder da representação de se
auto-representar. A teoria dos signos (semiologia) é o mesmo que a análise do
sentido (hermenêutica) , a ciência do signo vale pelo discurso imediato do
significado.
A consequência que
resta é a ligação da teoria do signo com a teoria geral da representação, essas
teorias das idéias, ou “ideologia”, que são tão características do clássico. A
similitude tem ainda uma relação com o signo mas como a aparência que está para
a esência e esta, cabe à análise localizar nas operações do conhecimento:
analítica da imaginação ou da natureza, respectivamente, do linear ( imagem,
impressão, memória ) no simultâneo (o aparecer do que semelha nos dados
sensíveis), numa sequência coerente de representações.
Esse operatório da
análise, em que a imaginação da semelhança desempenha papel tão preponderante,
articula a oposição do racionalismo com o empirismo, nomeadamente Descartes,
Malebranche, Spinoza por um lado, Condillac e Hume por outro. Assim se o
racionalismo trata de atribuir o jogo da aparência à função menor da imaginação
que, contudo, por essa minoridade mesma serve ao entendimento, o empirismo
redobra o poder da representação na imaginação que atua como potência de
conexão por sobre o indiferenciado das coisas que se parecem. Configura-se a
Epistémê, em todo caso, pelo ajuste das naturezas – das coisas e do ser humano.
É desse ajuste que emergem as “ciências da ordem”.
Mas é ele também que
permite a Foucault enunciar essa grande novidade, isolando de direito as
ciências da ordem no momento clássico, impedindo que se instituam como
protótipos de domínios epistêmicos atuais: o fato bastante evidente de que “vida”
, “natureza”, “homem”, são domínios que, enquanto epistêmicos, só podem ser
considerados na produção de saber em que se constituem e quanto às ciências da
ordem, nenhuma delas se constitui nesses domínios mas todas em correlação com a
análise da representação pela teoria dos signos, dispondo em quadros ordenados
as identidades e as diferenças: ordenação de naturezas simples pela Mathêsis
(método algébrico) e de naturezas complexas ou representações pela taxonomia
(sistemas de signos) mas também análise da constituição das ordens desde as sequências
empíricas, o que implica uma gênese.
Se a Mathêsis é
ciência da atribuição de juízos, da verdade e das igualdades (apofânsis) , a
taxonomia é ciência das identidades e das diferenças, do saber dos seres,
alojando por isso a possibilidade da gênese. Pois a taxonomia se instala pela
suposição da plenitude, do continuun entre as coisas sem que subsista qualquer
interstício ou vazio entre elas. Mathêsis-apofântica, taxonomia-ontologia. Mas
taxonomia-semiologia, gênese-história. Foucault mostra como essas relações se
tornaram quase irrecuperáveis pois desde o kantismo elas se alteraram de modo
que apofântica e ontologia se agruparam agora em torno da Mathêsis enquanto que
semiologia e história se uniram nas disciplinas de interpetração como a
hermenêutica de Shleiermacher, a genealogia de Nietzsche, a psicanálise de
Freud.
Quanto às “ciências”
no clássico, seus traços essenciais abrigam o projeto de uma exaustiva “colocação
em ordem”, a formação do quadro como centro do saber, exposição do conhecimento
dos elementos simples e sua progressiva composição. Essa rede de saber empírico
que interliga autores representativos de deteminado domínio a vários outros
domínios no espaço clássico, é o das ordens não-quantitativas. Assim se
Port-Royal fornece a lógica, também não deixa de fornecer a gramática. A
Enciclopédia reúne, na autoria dos verbetes, contribuições que não se
caracterizam pela especialização disciplinar dos autores e Tourgot escreve o “etimologia”
assim como Quesnay o “evidência”, ambos representativos, porém, da análise das
riquezas. Há vários exemplos nesse sentido.
A terminologia é aí
versátil. A “positividade” do clássico se relaciona com as “positividades” que
nele se constituem como que estriando o seu espaço: a gramática geral ordena a
linguagem ao modo de discurso, a análise das riquezas ordena os fenômenos de
valor como variáveis de trocas e a história natural ordena os seres ao modo de
um quadro. Vamos examinar o que há de importante em cada um desses domínios.
História Natural –
O estudo da história
natural de As Palavras e as Coisas institui o corte arqueológico inicial entre
Aldrovandi e Jonston. Aldrovandi é pré-história natural, confunde observação,
documento e fábula, inclui lendas na descrição de um animal. Jonston destaca
apenas doze itens nessa descrição, nenhum deles, para nosos padrões, bizarro.
Lineu os reduzirá à metade: nome, teoria, gênero, espécie, atributos e Litteraria,
esse último acrescentando-se ao modo de um suplemento como que para
alegorizar o liame entre o que realmente importa ao conhecimento e a linguagem,
as operações regradas de classificação que o autorizam enquanto saber,
expressas nos itens precedentes.
Assim se há mudança
na qualidade do saber, que se restringe agora ao estritamente relevante, há
mudança também no regime de visibilidade: do espetáculo ao gabinete, ver já não
consiste no simples estar diante mas em observar, estudar. Com efeito, Foucault
define essa história natural nascente como a nomeação do visível. Mas essa
nomeação, para ser ordenação, deve ter critérios, valores que permitem
descrever a composição dos seres da natureza, animais e plantas. As teorias da
estrutura e do caráter fornecem os critérios sistemáticos de nomeação.
Forma e quantidade
dos elementos, forma relativa de distribuição espacial, grandeza relativa de
cada ser em relação aos outros são o conjunto de variáveis da estrutura. Essas
variáveis definem a estrutura, isto é, a tornam transvasável na linguagem.
Lineu pensava mesmo em utilizar módulos tipográficos especiais, caracteres que
reproduzissem as plantas como se, transpondo-se na linguagem, elas pudessem
exibir a forma pura de sua natureza mesma. No entanto a mesma instituição de
variáveis encontra-se também em Tournefort e Buffon.
Assim a relação da
estrutura com o enunciável opera em dois sentidos, numa certa circularidade. A
estrutura só é visível por ser enunciável mas só é enunciável porque sempre se
reencontra naquilo que se pode ver. Na história natural a estrutura tem uma
função de reunir aquilo que mais tarde veremos especificado na gramática geral,
a proposição e a articulação, isto é, a forma verbal vazia que define o espaço
proposicional e a generalização dos nomes que permitirá preencher essa forma.
Mas essa reunião de
forma e conteúdo, apenas enquanto estrutura, iria funcionar ao modo de uma “pura
e simples” designação quando o necessário seria tornar visível também a origem
do nome, o modo pelo qual ele emerge na estrutura. Ora, até aí esse nome
funcionaria sem generalidade, como nome próprio, pois para que alguma
generalização intervenha de um modo não apenas vinculado à pura imaginação,
como ocorre na linguagem comum, isto é, para garantir “cientificamente” a
nomeação, seria necesário: a) que se garantisse a origem do nome no sistema
mesmo da natureza, isto é, que desvendasse o seu próprio nomear como designação
certa e b) uma derivação que restituísse, ao modo de uma linguagem
forjada especialmente para esse uso, o espaço ideal dessa inserção.
Assim se a estrutura
das partes supõe uma reunião no todo, sendo a estrutura a designação simples do
visível, é pelo estabelecimento do caráter que se deverá garantir ao mesmo
tempo a designação certa ou nomeação e a derivação controlada como acolhimento
regrado de toda nomeação no espaço científico dessa linguagem forjada.
Veremos o alcance
dessas rubricas, proposição, articulação, designação e nomeação, na gramática
geral. Por ora, basta observar que a designação se relaciona com a
generalização do nome a partir da origem, enquanto a derivação se constitui
como a adequação da linguagem enquanto espaço de designação. E também que a
estrutura funciona ao mesmo tempo como uma forma (proposição) para tudo aquilo
que a preenche, e como conteúdo, a articulação, que preenche essa forma pela
nomeação que ela permite instituir. Assim compreende-se que o caráter vem
completar a necessidade de cientificidade desse ato de nomeação ao garantir ao
mesmo tempo a designação e a derivação. As teorias da estrutura e do caráter permitem
que a história natural seja essa linguagem bem feita, sistema científico de
designação certa, a partir da estrutura das partes do que assim se designa, e
espaço controlado de derivação.
Sistema e Método são
as formas concorrentes de estabelecer o caráter. Pelo sistema se utiliza um
dado conjunto de traços, como critério de constância ou variação para todos os
indivíduos observados (Lineu, Tournefort, Césalpin). Pelo método remonta-se dos
indivíduos observados a um conjunto de traços pertinentes à sua generalização
(Adanson, Buffon, Bonnet, Jussieu).
A constutividade da
história natural como conhecimento rigoroso ou “ciência” depende, também, tanto
da continuidade (rede contínua dos seres) quanto das séries de acontecimentos
(revoluções naturais que marcam seus limites e transformações no tempo). Assim
não há fixismo versus evolucionismo ainda, as espécies não se opõem como o que
é sempre dado como tal ao que se transforma evoluindo mas sim modos de fazer a
junção entre o tema de um conjunto totalizante e aquele de séries de
identidades regradas por intervalos catastróficos.
O conjunto contínuo
dos seres é assim conceituado de vários modos, ora como uma escala linear
(Bonnet), ora como uma trama (Buffon), ou como um poliedro (Pallas) ou ainda
como um conjunto de três níveis (Hermann). Quanto à constituição das
descontinuidades ora se a propõe como séries que implementam um aperfeiçoamento
gradativo (Bonnet) ora como uma variação de caracteres para melhor adaptação a
uma troca de meios (Maillet). Nessa perspectiva da variação, propõe-se que ela
seja casual (Maupertius) ou teleologicamente orientada de modo a constituir-se
alguma espécie final mais complexa e perfeita (Robinet).
Os monstros tornam
compreensível a continuidade temporal das variações, assim como as intempéries,
associadas ao espaço. Já os fósseis atuam como documentos dos esboços que a
natureza efetivou até a consecução da forma atual e mais aperfeiçoada. O que
permite configurar esse tema do descontínuo de modo bastante irredutível ao do
evolucionismo, pois não se trata jamais de um desenvolvimento interno aos
organismos e sim de como assegurar “a continuidade inteira da natureza”, o
conjunto completo e designável dos seres – o quadro – numa estrutura que não
supõe “evolução” interna mas transformações explicáveis sempre do exterior.
Assim sistema e
método, tanto quanto as formas possíveis de desconinuidade natural formam as
teorias que garantem, como versões possíveis, o quadro. Seres interiamente
descritíveis por traços dados, ou seres que sem dúvida garantem a implementação
de traços relevantes, ora uma corrente sem lacunas, ora as disposições sem
contiguidade. Em todo caso deve ser a continuidade mesma da natureza, não as
aproximações vagas da imaginação, aquilo que garante a operação da estrutura, a
atuação nuclear da história natural, isto é, o ato de classificar. É essa
continuidade que a classificação deve permitir estabelecer como o espaço do
quadro geral dos seres.
Análise das Riquezas
O estudo da análise
das riquezas encontra algo de singular em relação ao da gramática geral e de
história natural. Pois a formação da análise relaciona-se de modo decisivo com
práticas não discursivas como circulação de mercadorias e manipulação
monetária, entre outros fatores. Isso acarreta que o processo de sua
instauração durou por mais de um século enquanto que nos outros dois casos as
transformações puderam ser instauradas num interregno de pouco mais de duas
décadas. É interessante quanto a isso notar que em As Palavras e as Coisas, no
tocante à análise das riquezas, Foucault procede como se houvesse uma
superposição completa de teoria e prática tendo como a priori a Epistémê. Assim
a reforma monetária de 1527 e o mercantilismo, são fatores de “mesmo suporte
arqueológico” que as teorias de Davanzatti, Bouterou, Petty ou Cantillon.
O corte arqueológico
inicial se demarca entre metalismo e mercantilismo. Assim, se no Renascimento a
natureza da moeda e a qualificação do preço estão em correspondência absoluta
com ometal que serve de lastro, possuindo assim o metal um valor intrínseco de
ser “precioso”, o século XVII substitui esse valor intrínseco pelo valor de
troca.
Assim como o signo
representa a coisa, o metal representa o valor da moeda. Mas é a estimativa, o
juízo humano, que confere valor, conforme critérios de utilidade, prazer ou
raridade, esse valor de que o metal será, ele mesmo, signo.Ora, tudo isso só
funciona porque “tem curso”, conforme Barbon. O esquema é o seguinte. Os
metais, ouro e prata, possuem certas qualidades que os torna adequados para
representar todas as riquezas. A moeda representa o metal, o monetiza devido à
marca da autoridade que o institui. O valor do ouro é sua monetização, não o
inverso. A relação da riqueza com a moeda se estabelece pela circulação, troca,
comércio, tudo isso que ela torna exequível sem ser, contudo, ela mesma, uma
mercadoria.
Quanto ao valor, que
se estabelece porque há desejo, pode-se estender sua análise de dois modos.
Surge assim a oposição clássica entre a “teoria psicológica” (Condillac,
Graslin, Galliane), ou utilitarismo (Tourgot) e a fisiocracia (Quesnay,
Mirabeau). Ora analisa-se o valor de troca de objetos úteis, sendo o critério a
sua necessidade, ora se o faz portando o valor como definido ele mesmo pela
troca, sendo então o critério o excedente.
No caso do
utilitarismo, a necessidade dos objetos sendo o critério de estimativa do seu
valor, a troca produz uma espécie de sobre-utilização. Este homem tem certa
mercadoria de que não precisa, aquele, que precisa dessa mercadoria, tem aquela
outra de que tampouco necessita. Assim aquilo de que eles não precisam encontra
uma utilidade – ainda que para o outro. O preço se institui pela variação que
se negocia entre o que se concordará existir de mais ou menos valioso entre o
que assim eles trocam.
No caso dos
fisiocratas a argumentação procede daquilo de que cada um necessita e possui
como bem particular. Mas aquilo que sobra e de que o outro necessita é o
trocável e daí é que vem a riqueza ou o valor. Mas para que esse trocável não
seja apenas permuta de algo por algo, ou equivalência pura, é preciso que os
bens sejam convertidos em artigos trocáveis. Ora, sendo assim todo o sistema de
produção seria vicioso pois comércio, indústria e agricultura só constituem
objetos de troca enquanto bens a serem utilizados por consumidores.No entanto a
agricultura tem essa vantagem pela qual se constitui no único domínio em que o
crescimento do valor devido à produção não iguala a manutenção do produtor,
excedendo-a.
Assim a fisiocracia
concede maior importância teórica e prática à posse de terras e à renda que daí
provém pois permite converter bens em valores. Enquanto que o utilitarismo deve
associar o aumento do valor ao deslocamento e transformação da produção
natural, logo na economia de mercado.
Mas Foucault mostra
que em todo caso os elementos teóricos são os mesmos, pois a riqueza se funda
na produção natural, o valor se relaciona à troca, a moeda representa as
riquezas em circulação e essa deve ser a mais simples e completa possível.
Gramática Geral
Na exposição da
gramática geral há de início um fator como que em evidência, que inflete o
sentido de todo o contexto dessa positividade no clássico. É que se a linguagem
se retirou do ser das coisas não foi para se instituir como um problema da
significação ou do sentido mas sim porque se tornou, e se manteve assim por
todo esse período, homogênea ao pensamento enquanto operação de representação.
Apagamento do texto
primeiro, como do mistério da Palavra. Tudo o que faz a linguagem é
representar, portanto quando se trata de fazer a linguagem redobrar-se sobre
seu próprio ser ela não mais será glosa do que foi dito mas discurso ou
crítica, análise da forma visível da relação representativa.
A crítica incide
sobre palavras (necessidade de língua analítica e de gramática
aperfeiçoada) ou sobre formas retóricas (figuras ou tropos),
podendo ainda ser exegética e apresentar, por exemplo, novos critérios à
leitura de textos religiosos.
É interessante quanto
a isso comparar os posicionamentos de Foucault e Kristeva quanto a obras como
as de Mallarmé. Kristeva vê aí a irrupção do semiótico subvertendo o simbólico
e a verdadeira inspiração do que deve ser revolucionário. Foucault detecta uma
alternância entre as formas profundamente discordantes da glosa (Renascimento)
e da crítica (Idade Clássica). Mallarmé seria assim um retour du refoullé da
glosa. Essa alternância parece a Foucault ser incontornável enquanto a
linguagem mantiver “em nossa cultura” uma relação de dependência com a
representação.
O que Foucault afirma
aí é que o clássico instaura o apagamento da linguagem na representação.
Portanto se a glosa supõe que existe linguagem, a crítica elide essa “existência
maciça e intrigante” . A linguagem deixa de perseverar na exterioridade para se
tornar identificada ao pensamento mesmo. O objeto da crítica não seria
justamente “uma” linguagem – na materialidade que nos damos a pensar, na
contemporaneidade, como definidora dessa unidade – mas sim tão somente um
funcionamento, o da representação.
É essa a crítica
profunda que me parece ter Foucault embutido na ligeireza aparente da
observação da alternância entre glosa e crítica. Futar-se à desmaterialização
da linguagem efetivada pela crítica não seria o ato que subverte o simbólico?
Resta assim, porém as consequências da relação instituída entre a
caracterização do que se furta ou subverte como glosa, o que é sem dúvida um
tema bastante amplo que evito aqui. Mas também seria o momento de antepor as
consequências da relação que Kristeva institui entre essa materialidade revolucionária
e as perspectivas de Freud e Hegel, por exemplo, ver no transfert psicanalítico
uma reposição semiótica ou estabelecer a relação entre o simbólico e o
semiótico como sendo de natureza dialética. O que ocorre é que se a oposição
desses dois níveis me parece extremamente fecunda, a relação com a dialética ou
com a psicanálise poderia ser contornada pela relação dessa oposição, por
exemplo, à cartografia dos regimes de signos de Deleuze. Mas esse tema terá uma
inserção mais adequada quando se tratar da contemporaneidade.
Quanto ao clássico,
Foucault associa à elisão da existência da linguagem a subsistência na
represenação de seu funcionamento enquanto discurso – representação
representada por signos verbais. Hobbes e Locke instituem a relação da palavra
com a representação. A palavra é signo arbitrário da idéia que representa a
coisa.
E Condillac
acrescenta seu caráter peculiar de ser linearmente ordenada. Se o espírito se
representa o fenômeno com todas as suas nuances numa só apreensão ou, na hipótese
de Destutt de Tracy, de modo tão veloz que se torna impossível decidir de sua
ordenação, a proposição enuncia cada qualidade por vez. A linguagem analisa o
que no pensamento se encontra conjunto. A gramática geral se define, portanto,
como estudo da ordem verbal em relação à simultaneidade que essa ordem
representa.
Seu objeto é o
discurso, sequência de signos verbais. Nesse sentido a linguagem reflete a
representração, torna-se a filosofia inerente ao espírito. As consequências
asociadas são agora enumeradas:
a) se a retórica
trata do modo como inevitavelmente nesses signos verbais a linguagem se
espacializa por figuras e tropos, a gramática pressupõe a retórica sem
confundir-se com ela. A gramática tratará apenas da articulação e da ordem, do
modo pelo qual a representação se analisa na sucessividade; b)mas assim
definida a gramática mantém uma dupla relação com o universal, ora enquanto
língua, ora enquanto discurso. A língua universal seria, misto de
característica e combinatória, a produção de uma língua capaz de atribuir toda
e qualquer representação ou ordenação. O discurso universal seria a definição
da marcha natural de composição das representações e combinações no espírito,
algo como o fundamento de todo saber na “ideologia” (Destutt de Tracy).
Percebe-se então c) o
estreito liame que o clássico institui entre conhecimento e linguagem, ambos
encontrando o mesmo princípio de funcionamento e a mesma origem na
representação. E deriva daí a idéia de que a ciência é uma língua bem cultivada
do mesmo modo que a língua é uma ciência inculta que deve ser retificada pela
gramática prescritiva para que transpareça a sua vocação analítica, a sua
aptidão ao conhecimento das coisas. Daí também o nexo de gramática e lógica, a
noção de que, conforme Diderot, o vocabulário de uma língua é como uma bíblia
dos conhecimentos do povo que a pratica.
A história dos homens
se deposita na língua, nos sons e na sintaxe, nisso pelo que seu
aperfeiçoamento registra o desenvolvimento que nela se realizou. A Enciclopédia
“se aloja na forma da linguagem” ao invés de ser metódica ou conforme a
ordenação interna de cada arte ou saber. Ao invés da preocupação que até aí se
verificava quanto ao estabelecimento das origens, a língua adâmica que seria
talvez o hebraico, com o problema correlato de sua derivação nas outras
línguas, agora nega-se mesmo os parentescos mais estreitos, como do italiano ou
o francês com o latim, para tornar o tempo imanente à língua, o lugar e o modo
de sua análise.
Novo horizonte de
publicidade pois ao inverso do segredo intrínseco ao círculo dos iniciados, no
regime da adivinhação que era o do Renascimento, agora a idade clássica
institui essa comunidade entre conhecimento e linguagem pela qual a ciência se
torna espaço do verbalmente comunicável e a linguagem se torna, ela mesma,
saber.
Novamente Foucault
observa o afastamento dessa disposição clássica frente ao fenômeno do
modernismo pois enfatiza que a “literatura” que se instituiu desde o século XIX
desfaz todo laço de conhecimento e linguagem, reintroduzindo nessa última a
espessura do esotérico, do enigmático.
Penso que se pode ver
aí a referência ao modernismo uma vez que o realismo pós-romântico procura
ainda a qualquer preço preservar a transparência do conhecimento, o saber, na
linguagem, o falar, o que acarreta o terceiro termo nessa aliança tão
característica do clássico entre falar, esclarecer e saber. Assim parece-me que
a sugestão da alternância necessária instituída desde o clássico entre glosa e
crítica se relança com mais força e que isso afirma ainda algo que se deriva
daí, isto é, que no exterior de seu domínio os traços de um saber se deslocam,
mudam de sentido. Algo tão interno ao conhecimento, no clássico, se torna
marginal no moderno, como veremos a propósito ainda da obra de Mallarmé.
Em todo caso daí se
observa d) que as línguas não se derivam por séries de que seria preciso
identificar os termos como no Renascimento ou, de modo mais preciso, na
contemporaneidade, mas se agrupam no clássico conforme tipologias. Tipos de
sintaxe: grupos que empregam o esquema sujeito-ação-objeto (ex: francês ou
inglês) e grupos que utilizam a ordem ação – modo ou objeto – sujeito (ex:
latim) ou ainda grupos que mesclam esses tipos precedentes (ex: grego). Tipos
de ordem representativa: línguas transpositivas que se declinam, línguas
análogas que obedecem à ordem linear utilizando artigos para designar número e
gênero do substantivo.
As mudanças são
sempre devidas a fatores extralinguísticos, jamais se propondo ao modo de
derivações internas. O que é temporal e interno é a ordem de sua tipologia o
que parece mais natural e precede, como as transpositivas, o que sucede como o
mais racional e elaborado, como as análogas.
Essas consequências
apontam para a constituição da gramática, enquanto “geral”, enraizada na
representação. Sua “generalidade” não se associa de modo algum à estrutura
gramatical de todas as línguas mas sim, nas línguas, à articulação interior à
representação, isto é, o que une as representações umas às outras. Assim essa
generalidade não exclui o particular já que o modo de união pode variar entre
as diversas línguas.
A taxonomia deverá,
em cada língua, definir o sistema de identidades e diferenças instituído entre
os “caracteres”, modos dessa união que se deve previamente ordenar. Assim as
teorias resultantes, internas à gramática geral serão: da proposição e do verbo
(nexo que vincula as palavras conjuntamente) e da articulação (tipologia das
palavras, de sua distinção e de sua relação com a representação). Mas também no
âmbito da reduplicação da representação, o caráter de ser signo do signo, as
duas teorias associadas: a da origem e da raiz ( poder de designação das
palavras) e a do espaço retórico e da derivação (sua capacidade do desvio,
extensão e reorganização). Essas teorias formam o quadrilátero da linguagem,
definindo o clássico: verbo, articulação, designação e derivação.
A teoria do verbo
assinala a juntura de lógica e linguagem, a razão de sua conexão no interior do
clássico. É que se a unidade da linguagem é a proposição, não a palavra
isolada, a essência ou aquilo que assegura o funcionamento da proposição é o
verbo, com ainda essa ressalva de que todo verbo pode ser conversível no verbo
ser – todo verbo é afirmação da ação que enuncia.
O ser reduz-se à
cópula da proposição. Reencontra-se a fórmula do heideggerianismo, condenatória
da metafísica. Mas de que modo se pode mostrar que essa redução, tal como
efetuada no clássico, é irredutível a tudo que se produziu até então? Foucault
o situa no fato do liame se estabelecer agora como repondo a operação de
representação como definidora do pensamento, o verbo ser assegurando a conexão
dos signos, o modo de coexistência das idéias.
Há uma ontologia
implícita na linguagem que só pode existir a partir da existência do verbo mas
o verbo só subsistindo como ser da linguagem porque a representação é o modo de
ser do pensamento. O ser não se põe como existência mas como relação de
coexistência, tampouco pertence àquilo que em si se pode afirmar que é ou não
é. Apenas assinala os limites pelos quais se pode representar a relação pela
qual as coisas se enunciam. Mas isso que no ser se enuncia vai formar o domínio
da teoria da articulação, cujo tema principal é o nome geral, sua constituição
e origem.
Naturalmente os nomes
generalizam, não podendo fornecer a cada objeto tomado singularmente um signo
que o diferenciasse do seu similar. Esse agrupamento, como é feito?
Desdobrando-se a representação a linguagem a representa. Representar a
representação é, para a linguagem, admitir desníveis de modo que a generalidade
do nome, encontrada tanto no substantivo, signo de coisas, como no adjetivo,
signo de modos, pode substantivar um adjetivo ou tomar um nome por uma
qualidade. O essencial aqui é como a proposição se articula conforme os meios
da representação e como faz da representação discurso. Mas a partir daí surge a
questão de como a palavra ou o som ascede ao poder ser signo.
Assim como na
história natural opunha-se conjunto e série ou sistema e método, assim como na
análise das riquezas opunha-se utilitarismo e fisiocracia, mas sempre no
interior de um mesmo espaço epistêmico que fornecia o sentido dessas oposições
a partir de pressupostos comuns, agora o “ponto de heresia” da gramática geral
vai opor as teorias que atribuem a significância a partir de um limiar material
de funcionamento da linguagem (por ex: Harris) e aquelas que a pensam como
atribuível a todo e qualquer elemento ou partícula (por ex: Port-Royal).
As teorias que
designo “do limiar” são de certo modo identificadas por Foucault com o
fortalecimento do papel da sintaxe até que a ruptura com o clássico a
autonomiza de moto tal que assistir-se-á a separação de lógica e gramática. Já
as teorias que designo “da plenitude” irão desenvolver no clássico essa figura
positiva do saber que é a procura da função nominal que deveria estar oculta em
todos os elementos não suscetíveis de uma identificação na análise mais
superficial da proposição.
Foucault observa,
porém, como essa busca permanece de certa forma, mesmo já no pós-clássico, no âmbito
da filologia, adotando no entanto o sentido marginal de uma experiência
esotérica da linguagem que seria ainda a de Mallarmé e Roussel na
contemporaneidade. É interessante que Foucault instale essa busca, com a idéia
correlata de um sentido subjacente a todo elemento da linguagem, mesmo à letra
ou à sílaba, no “negativo de toda ciência moderna das línguas” enquanto as
teorias do limiar estariam associadas de algum modo ao fortalecimento do papel
da sintaxe. Pois quanto às outras positividades, suas oposições teóricas não
aparecem marcadas por esse tipo de aproximação com a atualidade, de modo a se
poder localizar qualquer pólo numa espécie de contiguidade com o que virá a
constituir o campo de cientificidade “moderno”.
Mas essas teorias da
plenitude do sentido, ou conforme Foucault, da “nomeação generalizada”, estão
profundamente enraizadas na concepção clássica que assinala o funcionamento da
linguagem como desdobramento da representação, já que no limite a linguagem
nomeia, não tanto afirma ou nega na forma do juízo. A teoria da designação
deverá portanto se ocupar da origem desses nomes, da origem da linguagem, e o
fará através de uma análise da linguagem de ação, cuja ênfase é a dessemelhança
entre signo e referente, e o estudo das raízes, que enfatiza, inversamente, a
relação profunda entre o som e o sentido.
Na linguagem de ação
analisa-se o modo pelo qual o gesto, o grito, o trejeito, se transformam em
signo, supondo-se assim que o liame originário da nomeação é a interjeição.
Ora, essa transformação assinala a passagem do estado de natureza ao da
cultura, observando-se porém que a linguagem de ação elide o problema dessa
transposição. É que se o gesto se faz sob a forma da dessemelhança ele é no
entanto premido por uma necessidade receptível pelos outros, que também podem
sentir o mesmo. O que já se estabelece como acordo, a escolha do signo que
fixará o sentido do gesto e o modo de encadeamento dos signos, vê instalar no
espaço da cultura a liberdade da convenção que pode não coincidir em todos os casos,
em todos os povos. Mas essa convenção mesma, na sua necessidade, é universal.
As raízes
correspondem pois a esses signos coagidos pela ex-pressão do gesto e por isso
supõe-se que sua coincidência seja previsível entre as várias línguas que podem
se dispor, como num quadro, pela proximidade ao que seria a raiz original.
Assim a variedade dessa aproximação deve também ser explicada, o que vem a ser
tarefa da teoria da derivação.
Se as mudanças de
forma não têm como se estabilizar sob a forma de regras definidas, as
alterações de sentido podem autorizar uma “ciência etiológica”. Assim há uma
história interior à língua cujos princípios podem concernir à semelhança ou à
contiguidade das coisas ou ao modo como se registra a linguagem. Foucault
enuncia a partir daí a versão do clássico de uma história da escrita que opõe
figura e letra de modo que entre ambas as formas de escrita se constata um
progresso cujo critério pode ser reconduzido à ambiência do clássico por
equivaler à posse de uma linguagem de análise: a linguagem evolui da figura à
letra pelo maior grau de liberdade de destacamento, nas coisas, daquilo que as
acompanha e pode servir de signo formando-se assim uma imensa rede de tropos –
a linguagem como espaço tropológico.
Ora, esse
quadrilátero teórico da linguagem apresenta relações laterais: relações de
apoio como da teoria da articulação com a do verbo, que ela preenche. Ou da
designação com a derivação que a esclarece. Mas também relações de oposição,
como entre designação e articulação, derivação e designação. Há ainda relações
diagonais, como de articulação e derivação, do verbo com a designação. Mas o
ponto de cruzamento é o nome. E toda a gramática geral converge para a nomeação
como o ato soberano da linguagem.
Aqui Foucault enraíza
mais uma oposição, dessa vez estilística. Preciosismo e classicismo são assim
ambos identificados como respostas possíveis à tarefa retórica de nomear e
contornar o esgotamento que toda nomeação acarreta, já que o nome finda o
discurso, sendo o seu termo. A retórica “todo esse espaço que rodeia o nome” é
portanto o que localiza preciosismo e classicismo em um mesmo continuun. Mas se
o preciosismo contorna o fim do discurso pelo renomear indefinidamente
extensível, isto é, pela acumulação das figuras, não haveria ainda a
possibilidade de atingir a nomeação precisa, revelar o que até então estivera
oculto pelo próprio ser tropológico desse e(x)tender-se da linguagem, como no
classicismo?
Assim como Carpeaux
acentua a importância de se suavizar o contraste entre preciosismo e
classicismo, ambos enraizando-se em um mesmo contexto histórico, Foucault
afirma que “Hugo cumpriu a promessa de Voiture”.
Ao longo das
exposições sobre a História Natural e Análise das Riquezas, Foucault não deixou
de assinalar relações encontráveis, no movimento conceitual dessas
positividades, com a Gramática Geral que lhes serve de fundo teórico comum. O
essencial a reter dessas relações se dispõe em um “Quadro Geral” que delimita “
a organização geral das ordens empíricas”.
Assim o valor que se
obtém pela estimação – seja pela igualdade entre o que se troca ou pela
analogia das necessidades – corresponde à função atributiva do verbo como
limiar fundante de toda linguagem. Mas a delimitação dos valores no interior do
sistema já constituído de trocas corresponde à articulação, ao papel dos
elementos que se reúnem na proposição permitindo assim a atuação do verbo. Ao
mesmo tempo verbo e nome, o valor ocupa na análise das riquezas a posição da
estrutura na história natural, ambos associados às teorias do verbo e da
articulação. Mas a estrutura só poderia assegurar essa junção por atuar como
designação pura, ao caráter atribuindo-se então a função de reunir designação e
derivação, origem estrutural do nome e fundação de uma linguagem funcional.
Já a teoria da moeda
e do comércio corresponderá à análise das raízes e da linguagem de ação, a
moeda funcionando ainda, em relação às riquezas, como o caráter em relação aos
seres naturais.
Essa relação das
empiricidades com a linguagem, no clássico, é assegurada ora pelo enraizamento
aí das ordens da natureza e das riquezas no mesmo modo de ser da ordem da
representação manifesta na linguagem, ora porque o sistema de signos,
particularmente os verbais, funciona para as taxonomias assim como a álgebra
para a Mathêsis.
Mas o que garante a
irredutibilidade desses três domínios, de modo que não se confundem uns com os
outros e guardam assim a sua especificidade? Inicialmente o fato de que a
gramática precisa lidar com o desvio do espontâneo, os graus de afastamento que
as línguas naturais podem apresentar em relação à capacidade
reflexivo-analítica da linguagem em si, no clássico sempre pensada como
discurso. Deriva daí o propósito da língua universal e da Ars Combinatória,
como vimos. Nada disso se interpõe no caminho da natureza ou das riquezas,
assim como efetivamente se oferecem, na sua vigência mesma, à observação. Aí
não ocorre desvio de teoria e prática, se a teoria é boa, mesmo que a
aplicação, no caso da riqueza, deva levar em conta o intervalo da atividade
humana.
Se as relações
estabelecidas reenviam sempre ao quadrilátero da linguagem, nele se encontra “o
momento cientificamente forte” do clássico. Mas de modo que esse momento se
acha estreitamente relacionado àquele outro, o “ontologicamente forte” que caracteriza
o pensamento clásico pela metafísica do continuun – não há lacuna entre os
seres, ou entre necessidades e meios de as satisfazer, como entre as
representações na imaginação. Essa ontologia se define “negativamente pela
ausência do nada” e positivamente pela representatividade geral do ser na
presença.
Essa presença da
representação, eis o que manifesta o ser, no espaço epistêmico do clássico. A
transformação que atinge esse espaço, assinalando a mutação epistêmica que o
limita, no final do século XVIII, deverá ser observada quando se tratar de
compreender a emergência das ciências humanas que Foucault associa à apuração
de um novo espaço filosófico, conjuntamente aos novos objetos que se definem no
espaço dessa cientificidade nascente. É esse vínculo de ciência e filosofia que
me parece tão intrínseco ao projeto da “arqueologia”.
Observação inatual:
Não se costuma
introduzir numa seção da história aquilo que pertence a outro domínio no
desenrolar dos fatos. Mas seria o caso de lembrar aqui que não me parece que a
obra de Foucault seja apenas isso – história? Em todo caso, para efeito de
comparação ou referência, no que se segue, penso que seria interessante
introduzir aqui, exatamente nesse eixo de conexão pelo qual se deve articular
ao mesmo tempo o devir da obra de Foucault e o que se implementa ainda de
clássico nessa mesma obra, algumas reflexões sobre a contemporaneidade.
Penso que se poderia
utilizar os elementos formais daquilo que precede, o exame do capítulo III de
Les mots e les choses, para compreender o que ocorreu entre os séculos XVIII e
XIX e que compromete tão severamente o saber clássico. Sobre isso estendo
algumas considerações que não se deduzem diretamente da leitura de Foucault mas
que creio não ser inteiramente afastado de suas conclusões mais importantes.
Uma referência
fundamental nesse processo de transformação seria Nietzsche, por ter mudado
inteiramente o sentido teórico do conceito de força. Assim se Leibniz já havia,
ao propor essa noção, como veremos posteriormente de modo mais aproximado, se
instalado num pensamento que lidava com o infinito, sua filosofia não contrasta
com a Epistémê do clássico, uma vez que a harmonia pré-estabelecida continua a
desempenhar o papel de armação ideológica, fechando a brecha entre espírito e
matéria, idéia e coisa, nesse mundo dado à cognoscibilidade por sua natureza
mesma, constituído pelo desdobramento do ser no conhecer.
E reencontra-se aqui
o sentido daquele círculo com que já havíamos nos deparado, da estrutura com o
ver e o nomear. O des-dobramento do mundo com suas duas metades torna
compreensível a relação gramática-lógica a qual poderia fornecer-se
ontologicamente fundando a metafísica como problema do conhecimento que supõe o
sujeito.
Já o problema
contemporâneo se torna fazer ver, porque o mundo, ao invés de duas metades
recíprocas, transparentes uma à outra, fundando o sujeito no ser do conhecer,
agora se tornou uma complexão de níveis ou melhor um des-nível do visível pelo
invisível. Assim a força, como pensa Nietzsche, já se instala como esse nível
subjacente que não se propõe como espírito mas como camadas internas ao mundo
que se vê e que o explica – assim como os conceitos que surgem na ciência,o
átomo, a célula, mas também nas condutas, e veremos como Foucault desenvolverá
amplamente esse tema que não precisa ser detalhado agora.
Já se está, no âmbito
do século XIX, na sociedade de populações, sociedade governamentalizada. Ao
invés da oposição colônia-metrópole, a organização das relações
periferia-centro.
O problema do
sujeito, como garantir a transparência das metades, isto é, a metafísica do
conhecimento, deixou de ter qualquer sentido. Pode surgir Freud, pois a questão
do Ego já não tem como se instalar aomodo de uma questão onto-gnoseológica,
precisando assim fundar uma região, que será a psicanalítica.
Penso que a
fenomenologia de Husserl e a hermenêutica de Heidegger herdam o problema do
conhecimento, desde Nietzsche evoluindo no exterior do problema do sujeito.
Husserl e Heidegger tentam dar conta da quebra do visível na linguagem, mas
ainda inserindo-o como problema epistemológico. O visível agora só se torna
assim por meio do formalismo, a ciência contemporânea existe por meio dessa
quebra da linguagem comum. A “atitude natural” que Husserl quer suspender é
paradoxalmente a atitude da contemporaneidade que aceita o invisível material,
reservando o saber ao formal da ciência, e incorpora o não-saber na forma da
fruição técnica. Com isso também se poderia relacionar os temas da alienação, o
inautêntico – heideggeriano ou marxista.
Assim tanto a
fenomenologia quanto a hermenêutica tentam reintegrar a unidade gnoseológica,
daí o cartesianismo de Husserl, mas Heidegger ao invés da redução, retorno
possível ao moderno ainda que pelo viés do “neo”, intenta fundar uma região
nova, quase-filosófica, a do dasein. Há assim um certo paralelismo entre Freud
e Heidegger, no sentido de que já é a questão do “eu” , e questão “terapêtica”,
o tema da cura em Heidegger sempre evoluindo em torno da reinserção da unidade
linguagem-mundo.
As ciências humanas
surgem, assim, desses novos objetos, a população e o eu, na bifurcação
essencial de sociologia e psicologia, restando o conhecimento como objeto da
epistemologia. O papel da linguagem se torna então bastante complexo. Se no
clássico ela articulava ontologicamente o saber, que ocorre na
contemporaneidade, em que se viu já, através das sugestões de Foucault sobre
Mallarmé e o modernismo, a reintrodução da opacidade, garantida também pelo
des-nível do visível?
Lacan tornou-se possível, é verdade, mas o desenvolvimento de todas as implicações dessas reflexões “inatuais” deverá ser ainda postergado pois esse espaço se reserva a funcionar como uma espécie de marco pelo qual o que ainda há por ver no clássico será acrescido de inteligibilidade para nós, por nosso afastamento em relação a suas figuras principais, o que só pode ocorrer se estivermos bem situados em relação a nosso presente. Ou quase, isto é, a nosso presente relativo, já que me parece que esse quadro moderno que começa a se delinear entre os séculos XVIII e XIX, prolongando-se ainda pelo início do século XX, se transforma consideravelmente desde os anos 50-60, podendo-se afirmar o âmbito pós-moderno. Nesse âmbito o papel das ciências humanas muda no sentido de que se torna constitutivo do campo do saber. Mas por ora, seria preciso reconduzir a Foucault e aos temas que se devem articular quanto ao clássico.
A Introdução de Arqueologia
do Saber esclarece o momento em que se situava a démarche de Foucault.
Entre as importantes e praticamente, no conjunto, indispensáveis obervações, a
tarefa no entanto incontornável de destaque pôde estabelecer o redor desse
núcleo: trata-se da enunciação, nada menos, do “método de analise histórica” de
que os textos anteriores – “historia da loucura”, “nascimento da
clinica” e “as palavras e as coisas” – teriam sido “tentativas” que
apenas “se esclareciam sucessivamente” (AS, 18, 19). Esses textos não detinham
a chave de sua auto-compreensão, de que nesse momento Foucault parece estar já
de posse.
Esse método, que a arqueologia
do saber enuncia, se define negativamente, ao menos nisso que se oferece ao
destaque. Trata-se do método que está “ liberado do tema antropológico”. Mas
algo de sua positividade se torna imperativo e então somos informados dessa
progressão, que os títulos citados testemunham, rumo ao “ponto de sua
possibilidade histórica”. Não se trata de estrutura oposta ao devir sem que se
lance também certas questões, precisamente críticas, do sujeito, da
consciência, da origem.
Assim a série
autocrítica do parágrafo, à pagina 23. Historia da loucura admitia um “sujeito
anônimo e geral da historia”, nascimento da clinica se manteve demasiado
ao nível da “analise estrutural” e as palavras e as coisas permitia
ainda que se legitimasse a noção de “totalidade cultural”. Mas se esses perigos
não puderam ser evitados, sua necessidade inscrevia-se na tarefa mesma de
livrar-se deles, de qualquer modo, progressivamente, e as objeções, as críticas
e questões antepostas no caminho de recepção dessas obras contribuíram para
retificar seu curso, encontrar sua intenção profunda.
A introdução se
completa pela constatação de que para afirmar sua identidade o texto precisa
também negar aquilo de que se afasta. O que muitas vezes só pode ser feito após
ter sido confundido com aquilo mesmo que se estava implicitamente negando.
Mas algo permanece na
forma de uma dúvida, cujo preenchimento apenas se esboça performatizada pelo
interlocutor possível que objeta ao autor a sua potência de metamorfose. A
resposta é muito curiosa, já que defende essa mesma potencia ao invés de fechar
explicitamente uma posição que deveria ter sido afinal o sentido da Introdução,
a enunciação mesma do método e de sua possibilidade. Foucault, ao invés,
escreve “para não ter mais rosto”, para desfazer a “moral de estado civil” que,
se rege “nossos papéis sociais”, não pode legislar sobre o nosso ato mesmo de “escrever”.
(AS, 20)
A beleza dessa
réplica parece-me bastante evidenciada, mas mesmo assim, a dúvida atuada nessa
distribuição precisamente de papéis – do interlocutor crítico e do autor que
esclarece e se defende mas também se autoesclarece e se encontra consigo mesmo
nesse movimento de replicar – fica no ar, por assim expressar. Essa impressão
persiste. Muitas paginas a frente, Foucault escreve que “uma questão permanece
em suspenso” (AS, 118). E´ aquela que relaciona arqueologia e episteme.
Já examinamos
bastante o que se pôs no entremeio dessas referências, desde a Introdução.
Quanto a isso, a arqueologia do saber propunha-se circunscrever o campo da
história arqueológica, o que logra instituindo a noção central de episteme.
Foucault designa assim a “analise da episteme” ( AS, 17) isso que se
distingue de “quaisquer outras formas possíveis de historia”.
Vimos também o quanto
essa análise da episteme se relaciona com o saber. Sua originalidade
arqueológica vem mesmo de ter descoberto esse domínio da performance verbal
como passível de descrição em termos de regras de formação que definem
condições de realização – regras de formação de conceitos e modos de sucessão,
encadeamento e coexistência de enunciados. A arqueologia descobre-se conexa a
gramática gerativa mas singularizando-se em relação a ela por se instalar
originalmente no terreno da performance ao invés da competência linguística,
onde Foucault cartografa a vizinhança da arqueologia, também próxima da
psicanálise quando se interroga sobre as posições do sujeito implicadas pelo
status do enunciado (AS, 234 – 5 ).
Assim o cerne de toda
essa questão em suspenso pode ser localizada precisamente aqui. Pois trata-se
de “estruturas epistemológicas” sempre que se interroga a esfera de formação
dos enunciados, mas uma vez que é só na dobradura da formação dos objetos que
essa interrogação pode ser lançada, então o campo de visão se alarga
necessariamente no sentido de uma análise das formações sociais.
Há portanto uma
oscilação inerente à analise arqueológica na medida em que ela se propõe
evidenciar a regularidade de um saber, não a historia de um “conhecimento”. Ela
deverá entrelaçar regiões, vários âmbitos de práticas discursivas, mas enquanto
permanece análise da episteme, ela se circunscreve voluntariamente à região de
discursividade científica ou ao menos positiva. A questão que se enuncia na
perspectiva de Foucault é então – seria possível estender a analise
arqueológica da regularidade de um saber em certo sentido não científico, nem
restrito a figuras epistemológicas?
Ao responder
afirmativamente a essa indagação, Foucault testemunha que até esse momento de
redação da arqueologia do saber ele se havia limitado à região dos
discursos científicos, a uma orientação exclusivamente em termos de episteme.
Contudo persiste alguma ambiguidade pois ele confessa ter até aí avançado pouco
para que a resposta pudesse ser definitiva, à questão – essa orientação
epistêmica é apenas um exemplo das possibilidades de aplicação da arqueologia
ou confunde-se com o exercício da arqueologia mesma?
O que é algo
surpreendente, essa confissão, pois continuando com muita segurança, Foucault
vai sugerir que uma descrição arqueológica da sexualidade poderia ser proposta
tanto orientada no sentido da episteme – formação de figuras epistemológicas
(biologia ou psicologia da sexualidade) até o corte arqueológico que inaugura a
cientificidade do objeto, com Freud – quanto em outro sentido, o de uma
determinada prática discursiva. Nesse outro sentido interrogar-se-ia a esfera
dos objetos de enunciação especificados nas linguagens (comum, lírica,
jurídica) tanto quanto o nível das escolhas (condutas, prescrições ). Essa
orientação não sendo feita no sentido da episteme se poderia designar “ética” (AS,
219).
O interessante aqui é
que essa esfera de objetos de enunciação não envolve os gêneros de linguagem ou
o jogo de escolhas sem relançar o “conjunto de conceitos” apresentados “sem
dúvida” na “forma elementar de noções ou temas”, isto é, na região da “estrutura
epistemológica”. A analise das práticas discursivas, a analise ética, não pode
ser feita sem esse conjunto conceitual, e isso de certa forma repõe o sentido
daquela indefinição conservada na resposta de Foucault, sentido que mais e mais
se contradiz à medida que as propostas de análise arqueológica neste outro
caminho vão se acumulando. `A analise ética da sexualidade se sobrepõem a da
pintura e a do saber político.
A contradição se
converte finalmente não numa síntese, mas em uma dupla negação – afirma-se
peremptoriamente que o que a arqueologia tenta descrever não é a estrutura
específica da ciência e sim o domínio bem outro do saber. Os feixes de relações
passíveis de descrição tornam-se assim extremamente variáveis.
Encontra-se aqui, a
meu ver, o foco de duas questões importantes. Sobre a “trajetória da
arqueologia”, a relação arqueologia-genealogia, e sobre o status da
epistemologia nessa trajetória. O exame desses itens aqui será bastante
proveitoso pois permitirá também conduzir à ampliação da visibilidade do
período clássico.
Paul Veyne enuncia
com muita objetividade sua posição com respeito ao primeiro item – não existe a
questão (Veyne,P. Foucault revoluciona a historia, 180). Não ocorre uma “trajetória”
no sentido de qualquer inovação que iria da análise de “uma pratica discursiva”
à “historia social da burguesia”. Poderíamos compreender essas expressões de
Veyne de modo que a análise puramente “discursiva” se limitaria ao conjunto de
textos anteriores à arqueologia do saber, isto é, à região de
discursividade epistemológica como no exemplo de “naissance de la clinique”
por ele citado. Quanto a “historia social” , corresponderia a textos
posteriores como no exemplo de “histoire de la sexualite”.
Assim o que Veyne
afirma é que trata-se sempre do mesmo tipo de história, que é em todo caso “arqueológica”
por natureza pois toda explicitação histórica consiste na correlação de objetos
pretensamente naturais, como o trabalho ou a família, com praticas datadas,
determinadas, raras, que os objetificam. Mas assim a própria “história” seria
um desses “falsos objetos naturais” pois, como tudo o mais – uma vez tendo-se destituído
as pretensões de qualquer racionalidade fundadora que manteria com a evolução
social ou econômica uma relação de causalidade – trata-se apenas de algo que se
faz, em certo momento, de certo modo.
Foucault sera
historiador se historiadores se tornarem foucaultianos, como Veyne, que nesse
texto inclusive revê posições que ele mesmo havia sustentado anteriormente,
reorientando seu trabalho a partir da perspectiva do método de Foucault. Mas
sob qualquer outro aspecto a questão de se o que Foucault faz é ou não
historia, não teria sentido, assim tampouco a postulação de qualquer progresso
ou ruptura entre os projetos da arqueologia e da genealogia, ou entre antes e
depois da arqueologia do saber.
A expressão “trajetória
da arqueologia” é de Roberto Machado. A expressão funciona como subtítulo de
Ciência e Saber. Nesse texto Machado considera que arqueologia do saber é
uma etapa de definição da especificidade da arqueologia. Essa etapa teria
emergido a partir de les mots et les choses e marcaria a evolução desde
a aceitação até aí das positividades – por exemplo, o discurso psiquiátrico do
século XIX – assim como formuladas pela epistemologia até a construção do
conceito propriamente foucaultiano, arqueológico, de Saber como critério de
avaliação do status de uma positividade.
O que se pode
observar é então, conforme Machado, que a trajetória da arqueologia, desde a histoire
de la folie até l’archeologie du savoir, se realiza como uma
circunscrição progressiva da relação do saber com o conhecimento, isto é, com
os discursos que no saber se localizam estrategicamente dotados de um status
positivo, já científico ou mesmo previamente ao limiar de epistemologizacão.
Assim a ênfase que se constata, na história da loucura, sobre a “consideração
das práticas sociais” (Machado, R. Ciência e saber, 179)
) decresce
sensivelmente nos textos posteriores até a arqueologia do saber.
Mas a partir daí
Foucault não simplesmente desenvolve novas análises aplicando a teoria exposta.
Inversamente, com textos como “Vigiar e Punir” ou “história da sexualidade” a
ênfase se desloca da arqueologia e do Saber à genealogia e ao Poder. Assim a
consideração das práticas sociais, que retinha destaque em histoire de la
folie, torna-se agora o foco da démarche.
Não obstante as
evoluções de uma trajetória observada, a tese de Machado pode ser enunciada a
partir de uma homogeneidade do projeto arqueológico, que não se estende ao da
genealogia, admitindo-se mesmo entre ambos uma ruptura. Quanto a arqueologia, a
questão central é a do homem no saber da modernidade, de modo a mostrar que
anteriormente a esse período não havia tal saber. E poderíamos acrescentar pelo
visto na Introdução de l’ archeologie que posteriormente, na atualidade,
a própria arqueologia se destina como projeto na exterioridade desse postulado
antropológico.
Quanto a questão da
relação de arqueologia e epistemologia, Veyne não faz referencia explícita a
ela. Mas se expressa em termos de “filosofias” – a do objeto, tradicional, que
reifica ou idealiza o conceito como se fosse um ser ou natureza sempiterna, e a
da relação, que seria a de Foucault e que visa o objeto como algo “feito”, logo
relacionado a algum “fazer” que o objetiva.
Veyne identifica os
termos relação e estrutura, entendendo assim que Foucault propõe figuras-objeto
que resultam de configurações elas mesmas geradas pelo golpe de dados que não
abole o acaso, como “bibelôs”. Veyne precisa então explicar como é que essas
configurações atulizam as práticas responsáveis pela efetividade histórica dos
objetos. Ele utiliza assim o conceito deleuziano de desejo.
Não se trata de
ideologia, como no exemplo de Veyne, como se certo rei de repente se desse
conta, talvez por inspiração cristã, de que não se deve governar como se o povo
fosse um bando de bestas a guiar mas como se fosse ele o pai e o povo as
crianças a mimar. E sim de desejo, pois no momento em que certas práticas se
transformam, os limites do vazio ao redor dessa coisa “governar” se deslocam,
se certas isntituicões são substituídas, então o rei muito naturalmente deseja
que o vejam como pai, e muito simplesmente quer mimar o seu povo-criança.
Com tal exemplo Veyne
explica o fim da gladiatura, pois o rei não se propõe agora como guia que deve
conceder a esse povo – rebanho pão e circo o suficiente excitante de suas
virtudes bestiais instintivas. O rei, propondo-se agora como pai do povo – criança,
proíbe espetáculos brutais.
O objeto “governar”
muda inteiramente de sentido e de atribuição, o que exemplifica também a
revolução que Foucault impõe à historia já que sua tarefa se torna compreender
que é o objeto em cada caso ao invés de explicar por causas extrínsecas
mudanças que seriam também extrínsecas ao objeto sempre suposto como o
mesmo através do tempo. Assim a tarefa se estende no sentido de compreender
como é que governar compreenderá ainda o povo-população, o que já envolve as
trasnformações em curso desde o perido clássico.
Por esse meio,
conforme Veyne, toda oposição diacronia-sincronia, gênese-estrutura, se desfaz.
Penso que também, nesse contexto, a oposição filosofia-história no sentido de
uma questão sobre a filosofia da história no que tange o método de Foucault.
Esses tópicos do
texto de Veyne ressoam com certos trechos de Foucault e Deleuze. Com efeito, na
Conclusão da “arqueologia” o interlocutor-crítico antepõe a Foucault a
necessidade de uma definição de seu empreendimento:
– “ Em uma palavra,
que são eles? Historia ou filosofia?”
Foucault se confessa,
não sem certo efeito humorístico, “embaraçado” com a questão (AS, 232 – 3).
Hipóteses tradicionais definidoras são rejeitadas. Não poderia tratar-se de
memória ou retorno da origem, se fosse isso filosofia, nem de recolocar figuras
esmaecidas, se fosse isso história. Na continuação do texto somos certificados
de que, ao menos, sob hipótese alguma trata-se de ciência. Mas Foucault abre
algumas vias de compreensão de seu projeto: discurso sobre discursos, diagnose,
e mais precisamente algo que já vimos sobre as proximidades , com a gramática e
a psicanálise, incluindo ainda a história das ciências, e que denuncia seu
desvio em relação a elas.
Foucault localiza
então a possibilidade da arqueologia se tornr um instrumento de articulação
para a “análise das formações sociais” e para as “descrições epistemológicas”.
Ou ainda algo que permitiria “unir uma análise das posições do sujeito a uma
teoria da historia das ciências” , isto é, a meu ver, precisamente a uma
epistemologia. Não sem um profundo senso de oportunidade, Foucault enuncia
ainda que a arqueologia poderia vir a se constituir como uma parte da “conjuntura
teórica” de seu tempo sem que isso interditasse a sua retomada em outro
contexto (AS, 236).
Na série de
conferências da PUC, em 1973, reunidas no volume A verdade e as formas
juridicas, Rose Muraro (VFJ, 129)perguntou a Foucault se a
arqueologia não poderia ser considerada como algo aparentado a uma arte, a que
ele respondeu negativamente . A arqueologia é aí identificada como uma
atividade essencialmente histórico-política.
Se essa relação de
história e política é aí de especial relevância, isso se deve a que a história,
enquanto “arqueologia”, deve relevar as continuidades que são tão presentes no
cotidiano que ficam desapercebidas enquanto bases de condicionamento –
existenciais, políticas, comportamentais, etc. Trata-se de fornecer o modelo do
que se passou de modo a que possamos nos libertar do que se passou, desses
condicionamentos tradicionalmente tratados como objetividades a-históricas que
prescrevem ao historiador a ilusória função de retraçar sua origem.
Ora, Foucault iniciou
essa série de conferências precisamente pela questão do deslocamento, em
Nietzsche, da questão da origem. Nesse âmbito tratava-se da substituição, na
terminologia de Nietzsche, de “Ursprung” (“origem”) por “Erfidung” (“Invenção),
da idéia de um surgimento natural e grandioso de algo – por exemplo, a poesia
ou a religião – pela noção de fabricação a partir de necessidades simples,
comezinhas ou mesmo inconfessáveis que impõem uma ruptura com algum estado de
coisas prévio. Foi por obscuras relações de poder que poesia e religião foram
inventadas.
Já em Microfísica do
Poder o mesmo tema se relança no texto “Nietzsche, a genealogia e a história”,
desta vez a substituição da Ursprung sendo efetivada pelos termos “Entestehung”
(“emergência”, o ponto de irrupção de certo estado de forças) e “Herkunft” (“proveniência”,
a proliferação de acontecimentos que embasa certo caráter ou conceito).
Foucault se pergunta
aí sobre que convicção ou saber resistiria uma pesquisa da Herkunft dos
cientistas, já que ela iria mostrar que sua proveniência é “a papelada do
escrivão ou as defesas do advogado” (Microfísica do Poder, 21) .
Assim a arqueologia
está situada de modo muito complexo, a meu ver, entre história, epistemologia,
política e filosofia, como uma prática de transposição desses discursos. Na
verdade algo que, como prática, pretendendo-se em ruptura com o postulado
antropológico, subverte todas as aproximações feitas ainda em sentido puramente
disciplinar. Essa ruptura me parece tão profunda que nem mesmo permitiria que
se conservasse a terminologia ds relações teoria e prática para assim admitir
apenas uma qualquer reformulação.
Mas como se poderia
compreender essa prática? Somando-se ao que vimos sobre as considerações de
Veyne e Machado, há em “sur quelquer regimes de signes” , texto do Mille
Plateux de Deleuze (MP, 175,
nota 36), uma nota que é bastante oportuna e que se esclarece particularmente bem
se relacionada ao livro sobre “Foucault”, para cuja leitura aproveito aqui o
excelente livro de Ph. Mengue (Ph. Mengue, Le systeme du multiple). O
ponto em questão é a noção de agenciamento e Deleuze libera ao redor desse
núcleo uma penetrante via de acesso ao pensamento de Foucault.
Ele o define como uma
“Teoria dos Enunciados”. Parece-me efetivamente que a possibilidade de compreender
a transformação em curso na démarche da arqueologia – genealogia depende da
recolocação de toda a problemática no sentido da linguagem, o que permite
alcançar a transversalidade necessária a essa articulação de regiões que é tão
complexa e difícil de situar.
Mas isso não no
sentido apenas de uma substituição da consciência ou do sujeito, como
instâncias de fundação, o que não seria conjurado se a linguagem mesma se
mantivesse como pólo de transcendência, a partir do significante ou do sistema
de regras universal. Apenas isso seria factível se o enunciado, nesse sentido
foucaultiano, se conservasse ao nível da realização, da performance, logo
inseparável do conjunto de práticas que a viabilizam e da potência de variação
que a define.
Deleuze empreende a
apreciação de Foucault a partir de uma correlação com seus próprios conceitos
desenvolvidos em Mille Plateaux. Mostra assim que Foucault conceitua os
agenciamentos de enunciação como regimes de signo, funções de existência da
linguagem irredutíveis a qualquer categoria puramente linguística. Tanto a
significância quanto a subjetivação pressupõem o agenciamento, que Foucault
designa dispositivo, como variáveis pragmáticas nele localizáveis. Elas não
poderiam servir como categorias fundadoras do agenciamento pois derivam dele.
A teoria dos
Enunciados se provaria por esse meio na via da liberação do postulado
antropológico. Ora, sendo assim, e aplicando o que vimos sobre o a priori
histórico na sua relação com a episteme, não surpreende que uma vez tendo proposto
esse postulado como a priorístico da cartografia dos saberes da modernidade,
uma démarche que não se instala a partir dele tem necessariamente como consequência
um outro traçado de regiões, problemas, terminologia e alcance de conceitos,
como o que ocorre com a obra de Foucault. Poderia ser que, como proponho, essa
consequência viesse alterar até mesmo o regime “disciplinar” de demarcação das
competências.
Assim aqui vejo como
sendo proveitoso sobretudo mostrar que essa apreciação de Deleuze sobre o pensamento
de Foucault permite deslocar singularmente as questões de circunscrição
disciplinar, o que abarca ainda temas caracteristicamente pós-modernos como os
do fim da história, da filosofia, da arte, etc.
Por um lado penso que
pode-se aceitar que não ocorre realmente evolução, que Foucault pratica uma
análise de discurso que por sua natureza sempre precisa conectar de algum modo
as práticas discursivas e práticas sociais.
Quanto a isso Deleuze
afirma a unidade profunda da obra de Foucault pois o que conduz seus momentos
principais é sempre mesma coisa a pensar, isso que “força a pensar”. Ora, se a
filosofia de Foucault é “genial” , isso se deve precisamente, conforme Deleuze,
a que impõe partições inteiramente originais aos seres e aos conceitos, reorganizando
assim por completo a idéia de conhecimento, logo propondo uma Imagem do
Pensamento que não se confunde com o que até então se compreendia como o que
significa “pensar”.
Em Mille Plateaux
esses momentos principis correspondem a níveis sucessivos na elaboração dessa
teoria dos Enunciados: os três níveis tipificados pela Arqueologia do Saber,
por Vigiar e Punir e pela História da Sexualidade.
No nível inicial
tratar-se-ia da pressuposição recíproca, logo não de uma relação causal, de
dois tipos de multiplicidades, de conteúdo e de expressão. O nível seguinte
abrange não só a prisão mas todos os agencimentos coletivos (escola, fábrica,
exército, hospital, etc.) que funcionam ao modo de instâncias capazes de
explicitar formas heterogêneas imbricadas uma na outra: a matéria
(multiplicidade humna qualquer) e a função (controlar), constituindo-se assim
um diagrama abstrato.
Já História da
sexualidade inova no sentido de que não se trata mais de diagrama e sim de “biopolítica
da população” como máquina abstrata a que são reportados e confrontados os
agenciamentos de poder ou micro-poder.
Comparando então essa
progresso de níveis da teoria dos Enunciados de Foucault com seu próprio
conceito de agenciamento, Deleuze mostra que em Foucault ele é sempre de poder.
Já em Deleuze o agenciamento é originalmente de desejo, o poder correspondendo
a um nível estratificado do agenciamento e o desejo sendo sempre agenciado.
Ora, o que é fundamental no diagrama ou na máquina abstrata, em Deleuze, são as
linhas de fuga que não estão portanto dadas como fenômenos de resistência ou
oposição, no interior do agenciamento, o que os tornaria ao mesmo tempo
necessários e bem difíceis de explicar.
Deleuze deverá então
negar que o agenciamento seja apenas de enunciação (expressão) ou apenas de
conteúdo (corpos) ou mesmo apenas dessas duas faces. O que há de mais profundo
no conceito deleuziano de agenciamento é a máquina abstrata que constitui e
conjuga todos os pontos de desterritorialização nele presentes. Isso devido a
que a máquina abstrata, ela mesma, possui duas faces, uma voltada ao poder de
produzir o agenciamento e a estratificação e outra voltada à potência de
desterritorialização e de desestratificação, tornando assim as linhas de fuga “originárias”,
tanto quanto o desejo.
Posteriormente
deveremos examinar com mais detalhes as consequências e a natureza dessas
noções de Deleuze. Por ora é mais proveitoso confrontar esse pequeno trecho de
Mille Plateaux com o livro de Deleuze sobre Foucault. O que se pode constatar
então é que os níveis que se distinguem na nota 36 de “Mille Plateaux”
correspondem às três noções axiais que o texto sobre “Foucault” identifica como
marcantes dos momentos principais de sua obra.
Assim o nível
inicial, cuja noção axial é o Saber, erige sobre esse núcleo conceitual o
Arquivo como composição dos Enunciados (o que se pode dizer) e das
Visibilidades (o que e como se pode ver). Enunciados e visibilidades compõem o
arquivo como os dois pólos do Saber, pólo discursivo e pólo não-discursivo.
Esses pólos são designados quase-transcendentais pois dados como a priori de
todas as idéias formuladas a um certo momento. Deleuze utiliza quanto a isso a
expressão “neokantismo” de Foucault, e penso que não sem humor já que os quase
transcendentais se destinam justamente a reverter a subjetividade
transcendental kantiana.
Esse é o nível de As
palavras e as coisas, título que conforme Deleuze é irônico, pois
precisamente Foucault intenciona mostrar que a distribuição comumente feita
entre coisas e palavras é vaga, insuficiente, pois não recobre a variação das
épocas que no entanto se deriva dos regimes transformáveis de discurso e
visibilidades. Assim a teoria do Enunciado não pressupõe nem sujeito
(enunciação), nem objeto (referência), nem conceito (significação) ms tão
somente a linguagem mesm (o “on” parle) como conjunto heterogêneo em
desequilíbrio, multiplicidade em formação permamente.
O nível que Mille
Plateaux exemplifica com Vigiar e Punir tem o Poder como noção axial,
irredutível mas inseparável do Saber. Assim como o Arquivo está para o Saber, o
Diagrama está para o Poder. Mas o diagrama não se define como o arquivo, como
uma certa distribuição do Enunciado e sim como o espaço de encontro de forças
as quais são suficientemente instáveis para explicar as transformações e
repartições, no arquivo, entre os dois tipos de multiplicidades, as discursivas
e as não-discursivas.
As forças sempre
ameaçam do exterior um composição dada, por exemplo, uma época relativamente
estabilizada em torno de um a priori epistêmico, pois podem se conjugar com
forças interiores a essa composição transformando a relação característica da
época enquanto tal. Mas essa relação característica é assim também
diagramática, composição de forças, de modo que é interrogando as relações de
poder que se pode compreender tanto o instável quanto o estável do Saber.
Resta o nível de Histoire
de la sexualité, que põe em jogo uma noção irredutível aos agenciamentos
saber-poder. Essa noção é a de Subjetivação. Nem relativa ao arquivo, nem ao
diagrama, a Subjetivação é a solução de Foucault ao problema que ele detectava
como sendo o da resistência, dos fenômenos de oposição ao poder.
Como explicar esse
fenômeno, uma vez que a própria instabilidade é uma relação de poder, uma
composição de forças já agenciadas? É ´ inegável porém que há vida que resiste
ao poder que faz da vida seu objeto, que se exerce sobre ela. Como compreender
a resistência? Foucault propõe então que há alguma força que ao invés de compor
seus afetos, seu poder de ser afetado e de afetar, com outras forças, as compõe
consigo mesma. É a “Dobra” da força com o “Soi”, o si mesmo, a Subjetivação.
Ora, não se trata
dessa vez do retorno do recalcado, como retorno do sujeito, pois a subjetivação
não se preenche apens pela dobra moderna que ordenou a forma-homem correlata ao
postulado antropológico da episteme, ou a dobra clássica que havia ordenado a
forma-Deus. A história da sexualidade enfatiza ainda a dobra grega que
seria a do “homem” ou “sujeito” livre, e por aí vemos que se está utilizando os
mesmos termos (homem, sujeito) mas não com os mesmos significados de sujeito
cartesiano ou transcendental, interioridade, identidade substancial ou moral,
pessoa. Assim Nietzsche ao propor o conceito de super-homem teria visto uma
forma de subjetivação irredutível a esses postulados, forma que ele propôs na
via da liberação da vida do ser humano dessa forma-homem sujeitada que
caracteriza a modernidade.
Examinando bem essa
trajetória, não me parece que se possa considerá-la linear. Especialmente os
conceitos de saber e de poder o mostram, pois se caracterizam determinados
momentos no desenvolvimento do projeto isso ocorre de modo que se possa em
algum momento posterior articular sua bi-implicação. Assim no curso Genealogia
e Poder, transcrito na Microfísica, Foucault mostra a interligação da
arqueologia, método adequado à análise da discursividade, com a genealogia
enquanto ativação de saberes sujeitados. Assim, mesmo conforme Machado, todo
poder subentende a constituição de um campo de saber e vice-versa.
Somos assim lançados
na questão da epistemologia de modo mais aproximado. Não ainda nos temas que
seriam interiores ao projeto de uma epistemologia crítica então possivelmente
delimitável, como a relação de conhecimento e ideologia que se trataria devidamente
de reverter, mas sim na questão de sua possibilidade mesma
Foucault afirma que a
história da episteme em les mots e les choses fazia-o permanecer em um
impasse ( Microfísica do Poder, 246 ). Ora, esse impasse está
relacionado àquilo que permanecia em suspenso na Arqueologia do Saber. A
questão é que trata-se sempre do jogo de poder em que se inscreve o
agenciamento, mas esse dispositivo está também, ao mesmo tempo, ligado à
configurações de saber, o que se poderia entrever desde a Arqueologia.
A episteme está assim
problematicamente inserida de modo duplo. Ora ela tem que entrar na descrição
de qualquer agenciamento de poder – sexualidade, sistema penal, etc. – e de
modo que não se torna muito pertinente a delimitação do que é ou não discursivo
em relação a determinado agenciamento, ora ela é um dispositivo estratégico
especificamente discursivo, perfeitamente autônomo e delimitável que permite
definir a aceitabilidade de um enunciado como sendo científico, independente de
ser falso ou verdadeiro.
A entrada naquilo que
Arqueologia do Saber propunha então como análise “ética” pode ser agora
considerada como etapa posterior à circunscrição da análise do dispositivo
epistêmico de nascimento da clínica e as palavras e as coisas, mas
isso dentro do projeto mais geral que permanece como arqueologia-genealogia,
descrição de agenciamentos como
jogos – de verdade,
de poder – descrição que necessariamente inclui a análise de práticas dentre as
quais a discursividade “científica”.
Mas isso permite que
se relacione arqueologia e epistemologia? Machado nega que a compreensão da
arqueologia possa ser feita nos termos de uma epistemologia. Assim que a
Arqueologia do Saber é uma análise do discurso ela não é uma análise do
conceito, portanto não é uma epistemologia. E de modo mais profundo poder-se-ia
inserir aqui algo da crítica que Hindess e Hirst (Modo de Produção Social)
endereçam e Althusser et Alii, notadamente a Reading Capital.
Sem adentrar agora na
questão da teorização de Althusser no que tange à epistemologia, trata-se para
Hindess-Hirst de equalizá-la a um certo constituinte básico: a concepção de uma
relação do discurso com objetos independentes, relação essa cuja valildez e
natureza a epistemologia tem por tarefa explicar.
Essa relação sendo
sempre de correspondência, as epistemologias devem apenas variar conforme as
opções empirista, racionalista ou alguma forma mista como a filosofia de Kant,
isto é, conforme pressuponha objetos reais e independentes materiais, ideais ou
categorias ideais que permitem desvendar como tais os objetos materiais.
Portanto a
epistemologia implica uma definição de conhecimento como representação de
entidades independentemente existentes, propondo-se como fonte de critérios que
permitem avaliar a adequação dessa representação. A epistemologia tem assim a
pretensão de ser a instância decisora quanto ao que é ou não “conhecimento”.
Argumentando em
função do conceito de discurso como algo que produz seus próprios objetos,
Hindess e Hirst desqualificam qualquer pretensão da epistemologia como algo
atualmente válido. Propõem um liquidação de todas as categorias que permitiriam
um qualquer distanciamento “teórico” frente ao que seria o real, qualquer
possibilidade também de filosofia da história e taxam de mal-intencionados
todos aqueles que ainda assim poderiam designar seu texto como metateoria.
Considero que essa
destituição das pretensões normativas da epistemologia tal como definida é
bastante aplicável. Assim Deleuze, a propósito de Foucault, mostra que as
noções de arquivo e arqueologia articulam uma partição original de linguagem e
conhecimento. Pois “conhecimento” permanece inadequado justamente porque propõe
algo como um correspondência ou conformidade entre a representação e o objeto
independente. A noção de Saber teria assim a função de recusar a posição do
problema nos termos de sujeito e objeto, assegurando por esse meio que entre o
que se diz e o que se vê há saberes e poderes (Mengue, 274 – 5) .
Mas não creio que
seja preciso exaurir as possibilidades da epistemologia com base apenas nessa
definição. Na verdade considerar que não pode haver “conhecimento” na prática
política, uma vez que “as condições da avaliação de efetividade e da produção
do efeito não são separáveis” ( Hindess e Hirst, 60) está correto se
conhecimento for representação de objetos independentes e a-historicamente
dados.
Como não se
considerar que a crítica dessa noção de conhecimento é uma crítica
epistemológica? Assim o impasse de Foucault que certamente desejou evitar as
implicações de seu projeto como uma “epistemologia”, uma região idealmente
separada de análise do “conhecimento”, quando o que ele justamente queria
mostrar era a interconexão onipresente de saber e poder – e paradoxalmente, por
isso mesmo, a impossibilidade de desvincular a análise arqueológica do “
problema das estruturas epistemológicas” (AS, 235)
O que se torna bem
mais provável, a meu ver, e como já afirmei, é que a inserção da problemática
no âmbito do discurso, como teoria do Enunciado, desloca inevitavelmente o
sentido dessas agora já antigas “disciplinas”, implicando a derivação de suas
questões e conceitos em termos novos. Conhecimento e saber, relações de poder,
práticas enunciativas e agenciamentos discursivos ou não, são agora temas que
não se conformam às circunscrições constrangedoras do passado, configuradas em
regiões epistêmicas comandadas pelo postulado antropológico, irredutíveis à
conjuntura pós-moderna.
Assim penso que
Foucault não revoluciona apenas a história mas que seu projeto arqueológico –
genealógico transforma também a epistemologia, duplamente. Ora em sentido
estrito, porque permite a compreensão do a priori histórico em termos de
episteme, ora em sentido lato pois interliga as relações complexas de ciência e
saber, que são objetos da epistemologia, com qualquer problemática do poder.
Assim se
epistemologia for considerada no sentido severo de Hindess e Hirst como
circunscrita à análise das relações do discurso com objetos independentes ou no
sentido de Machado, como a instância “conceitual” de subordinação da verdade à
ciência, então evidentemente ela não se aplica de modo algum à démarche de
Foucault. Essa démarche a inviabiliza. Mas se a considerarmos como nível de
problematização desses temas – ciência e saber, conhecimento e verdade,
relações de tudo isso com o poder – então qualquer destituição das
considerações tradicionais aqui apontadas é epistemológica.
Algo de semelhante
ocorre a propósito da história. A destituição do sentido de qualquer posição
a-histórica do próprio conceito de história, operada por Veyne, como vimos,
permitia colocar a questão da relação de Foucault com a história em termos de
fazer, termos puramente pragmáticos de uma comunidade de especialistas.
Como enfatiza Ph.
Mengue (Mengue, Deleuze et le systeme... le devenir et non l’histoire),
o esquema da história como resultado progressivo do sentido, com um
sujeito – o ser humano ou a classe trabalhadora – que por fim deve encontrar
aquilo que estava no início através da virtulidade agente da razão e da
liberdade, se torna obsoleto com o modelo da micropolítica. Mas esse modelo, ao
menos quanto a isso, não deixa de ser coextensivo ao da microfísica do poder.
Assim Deleuze (Mengue,
228) mostra que o que permite a Foucault conservar o termo “história” é
a transformção conceitual pela qual ela se torna “ a determinação do visível e
do enunciável em cada época”, isso que torna possível mentalidades,
comportamentos e idéias. Quanto a preponderância do termo “devir” em Deleuze,
que adoto pelo mesmo motivo, assim como sublinhado por Mengue, está no fato de
que “história” é um termo correlato ao molar, ao estriamento do espaço como
lugar de um progresso, enquanto que o devir, como espaço liso, é autopoiético,
uma prática que tem em si mesma o seu sentido, não numa finalidade qualquer
ulterior. Não há fins que justifiquem pensar o agora, o aqui, a vida, como
simples meios.
Esse sentido do devir
seria a real “política” mas torna-se bastante claro então quanto é oportuno o
termo ética ao invés de política, ainda que se possa usar também micropolítica
como sinônimo de ética quando se trata de uma ontologia do social. Penso que
encontra-se assim a compreensão desse termo ética, em Foucault, tanto para
designar o projeto das arqueologias não epistêmicas quanto no texto feito a
propósito do Anti-Edipo de Deleuze, a que Foucault desinou “Uma
introdução à vida não-fascista”.
É interessante quanto
a isso a exclamação de Mengue quanto a ser “étonnant” (Mengue, 78), já
que havia tanta comunidade de pensamento e ação entre Foucault e Deleuze, que
Foucault não tenha utilizado o termo “política” nesse prefácio, mas enfatizado
apenas o alcance “ético” do Anti-édipo. O livro de Deleuze-Guattari se
relacionaria com não se tornar fascista mas em nível molecular, pessoal e
coletivo, não apenas molar, e seria algo como uma estética da existência, sendo
esse o sentido do termo ética assim como utilizado aqui, uma arte de viver,
sentir, pensar, agir, de modo novo, inventar a dobra.
E essa arte ou ética
ou micropolítica se aprenderia mais com artistas e escritores do que com a macropolítica.
Não se espera revolução nesse nível, como algo que poderia sempre ser
apropriado por aquilo mesmo que pretendia deslocar. Mas lançar
micro-agenciamentos, micro-praxis de forças moleculares que nada têm a ver com
a ordem molar, liberar a potência desejante, isto é sim fazer a revolução, e em
nível molecular isto é o mais factível.
Ph. Mengue não deixa
de observar que essa transposição que Deleuze opera do termo história – fim da “história”
em favor do devir – é já a entrada no espaço pós-moderno. Parece-me que as
oscilações de terminologia – história, epistemologia, ética, política – em
Foucault, são sintomas do caráter inaugural de sua obra quanto ao franqueamento
desse espaço. E creio que a flexibilização da noção rígida de disciplina em prol
da concepção de níveis de problematização que necessariamente se superpõem pode
ser também visada como pertencendo a essa conjuntura tão complexa de saberes na
atualidade, o que insere a transversalidade como inevitável do mesmo modo que
torna tão estratégico o enfoque de temas que os interliga.
· Arqueologia e Nomadologia
Qual o sentido dessa
ruptura com o poder – se é que esse termo, ruptura, convém, o que talvez não
seja o caso ? Qual é o alcance de se ter deslocado o poder e ter posto o desejo
como constitutivo do agenciamento?
É interessante
colocar aqui essa questão, justamente onde se trata de recompor o clássico sob
a perspectiva “ética” de Foucault, utilizando então algo de histoire de la
folie e tudo o que é posterior a l’archeologie du savoir.
Ora, o intuito dessa
tarefa quanto ao clássico encontra aqui como que uma consecutividade. Pois
assim como em Foucault existe uma necessidade de conjunto que centraliza no
clássico um certo momento crucial de transposição no sentido da
ocidentalização, em Deleuze também ocorre uma tendência semelhante.
Complementando essas duas abordagens encontramos ao mesmo tempo a inflexão que
Deleuze impõe no cenário da época em que Foucault desenvolvia ainda seu
projeto. Pode-se implementar assim uma espécie de juntura dos níveis
arqueológico e micro-político na descrição da época clássica.
Podemos recuperar a
reconstituição de Deleuze sobre o período que a história oficial costuma
designar modernidade, a partir do destaque em certos textos de temas
correlatos. Utilizarei cursos e estudos sobre filósofos modernos, como Spinoza
e Leibniz, e especialmente a série “Capitalismo e Esquizofrenia”, com Guattari,
abrangendo o Anti-Édipo (AE) e Mille-Plateaux (MP).
A questão enunciada
sobre o deslocamento do poder pelo desejo, que se lança no ponto de inflexão
das démarches de Foucault e Deleuze, envolve algumas outras. Notadamente o
sentido desses termos, ética, política, ms também o aporte propriamente
epistemológico, que interessa às ciências humanas por se relacionar aos seus
principais nódulos temáticos .
Com efeito, vimos que
em Foucault a oscilação terminológica, que em certo nível se poderia justificar
instalando-a na transposição dos espaços do moderno ao seu pós, se concentrava
justamente entre esses dois rótulos, ética e política. A constatação pode ser
sublinhada pelas duas intervenções, a de Rose Muraro e a de Ph. Mengue – a
pergunta sobre ser a arqueologia algo aparentado a uma arte ressoa com o
espanto frente à rotulagem do projeto esquizoanalítico como ética – arte ou
estética da existência.
Pois as pesquisas de
Foucault concentradas nas esferas do poder e da subjetivação, aquilo que archeologie
intuía sob o registro de um projeto arqueológico – ético” , deveria
conduzir ao conjunto de práticas discursivas que no entanto deveriam também
encontrar algum tipo de relação com as figuras epistemológicas. Essa
constatação repõe a definição “histórico-política” da arqueologia.
A relação com as
figuras epistemológicas não se prenderia porém a um tipo, mas recobre variações
até mesmo abrangendo oposições, ultrapassagens. Isso não seria menos
compreensível já que a história da arte, especialmente quanto à literatura,
oferece o exemplo.
Assim enquanto o teórico ainda lançava seus cânones
de gêneros greco-latinos rígidos, a partir da Renascença os poetas exploravam
os limites da lírica e a tensão teoria– prática permaneceu até que a lírica se
tornava tão universal que se a incluía nesse novo esquema genérico que
permanece até a atualidade – narrativo, lírico e dramático, e que se firmou à
época clássica. ( Aguiar e Silva, V. M. A Comunicação Literária .)
Mas se não houve
ruptura entre arqueologia e genealogia, se podemos observar a unidade profunda
que Deleuze mencionou sobre a obra de Foucault, devemos recordar que para este
tratava-se de cinzelar uma feição irredutível e a priorística em cada caso, o
que se mantinha consequente mesmo quando se tratava de deslocar o Saber pelo
Poder ou ambos pela Subjetivação, uma vez que esses níveis, conservando-se
irredutíveis, não poderiam contudo estar indiferentes ao a priori histórico que
se tratava, a cada caso, de visar por um determinado feixe de relações.
Contudo esse ponto
fixo que ancorava o plano, quem enunciou com a maior clareza foi Deleuze. Pois
para Foucault, sendo o poder o pólo ou nível correlato ao dispositivo, ou dele
constitutivo, tratava-se de mostrar que não se deve contudo afirmar que o poder
seja. Não existe “o” poder, mas essa ou aquela correlação diagramática de
forças que se compõem, se entendo bem esses conceitos, de determinados modos
como dispositivos. Mas assim devia-se reportar tudo o mais ao poder – como um
tipo de dispositivo – quando se tratava de ter que manter a autonomia dos
níveis para reverter justamente “o” poder, para mostrar, por exemplo, a
fatuidade de uma noção de ideologia como pólo superestrutural derivado de uma
base material determinante.
Assim é sintomático
que Foucault confesse não compreender bem a noção de “esquizofrenia” , ou em
seus próprios termos, que essa noção do AE “não está clara”1,
ainda que manifeste bastante compreensão e apoio no que tange à ruptura aí
afirmada para com a concepção de Freud sobre o inconsciente.
Penso que mesmo que
Foucault pretendesse evitar essa conclusão, esse reconduzir de toda questão
sempre ao pólo do poder, a novidade de sua abordagem consistindo precisamente
na denunciação “do” poder, na autonomia e relação característica e localizada
entre os níveis que se tratava de recompor, a cada vez, pelo enfoque em certo
nível, ela não poderia ser conjurada desde que se pudesse manter toda a
démarche no sentido “histórico” – político.
Aqui vemos o sentido
da transposição que Deleuze opera, deslocando o poder como constitutivo
originário do agenciamento. O desejo é uma noção que não deriva nem do Saber,
nem do Poder, nem da Subjetivação como pólos distinguíveis, mas de algo mais
básico como energia ou inconsciente, ela mesma transformável, logo noção que
põe no mesmo lance o inconsciente e a economia, isto é, desvenda certo nível de
análise precisamente micro-político.
Não se trata apenas
de que o poder marca os corpos ou constitui práticas de corpo e de discurso,
mas que as semióticas entram necessariamente nas conjugações de fluxos
desejantes e se partilham assim, ao mesmo tempo, regimes de signo e composições
de afetos, formações sociais e modos de subjetivação.
Por exemplo, a
inteligibilidade do capitalismo em Deleuze depende do acoplamento que se propõe
como básico de uma territorialidade em termos de codificação de fluxos. A territorialidade
dos impérios não se faz do mesmo modo que a dos primitivos, mas nesses dois
csos trata-se de codificar fluxos, primitivamente sobre uma superfície de
inscrição que seria a terra, depois sobre o corpo do déspota.
Os fluxos são sempre
de desejo, concernindo a alimento, fontes hídricas de que depende a
agricultura, posse de mulheres, etc. Eles atuam portanto sobre aquilo que se
realiza a partir da síntese inconsciente – energética de produção, aí onde a
energia se faz libido, conectante de fluxos pela impulsão do desejo. O númem
é a transformção pela qual a energia se faz não mais de produção, mas a
partir de uma síntese de registro. Ora, a territorialialidade se faz por
inscrição, equivalendo coletivamente à composição do Socius enquanto que o Corpo
Sem Órgãos (CsO) ou Corpo Intenso estende essa superfície de inscrição como
posição do inconsciente.
A composição de
relações em jogo não comporta a totalização de uma psique ou um interior como
sujeito, frente ao exterior ou mundo, muito menos permite a figuração do
processo de transformação de energia a apartir de uma focalização parental. Mas
ocorre ainda a transformação energética da Voluptas, em que se realiza a
síntese de consumação, de onde resulta o processo de subjetivação “larvar”, “eus”
parciais ligados `as satisfações localizadas.
O que nos interessa
aqui é que tese de Deleuze sobre o capitalismo comporta uma mudança em relação
a esses modos de registro no Socius, ou territorialidades ou formas de
codificação de fluxos, o primitivo (a terra, pólo de imanência) e o bárbaro ( o
désposta, pólo de transcendência), com seus regimes de signo característicos
aos quais se relacionam dobras específicas de subjetivação. Pois o capitalismo
procede, inversamente por destruição de códigos, desterritorialização
(descodificação).
Seu limite se torna
assim a esquizofrenia, que conforme Deleuze consiste precisamente na liberação
dos fluxos de desejo sobre a superfície de registro, isto é, sobre o Corpo
Intenso, de modo que o esquizofrênico é aquele que tem a produção interditada
pela preponderância anti-produtiva da síntese numênica. O inconsciente se
estende como superfície de inscrição ali onde se trata de conjugar ou integrar
agenciamentos. A esquizofrenia é desterritorializante pois o invés de um
registro a serviço da produção, ocorre algo inverso, fluxos de desejo liberados
sobre o corpo intenso (CsO).
Assim esse limite do
capitalismo equivale à sua tendência mais constitutiva. Por isso o capitalismo
precisa frear sua própria tendência esquizofrenizante e não pára de lançar
reterritorializações as mais artificiais, acarretando processos de subjetivação
sui-generis que se tornam cada vez mais desterritorializadas na pós-modernidade
(neo-liberalismo, independência do capital frente à territorialidade dos Estado-nação)
.
Enquanto o desejo é a
relidade do inconsciente, como máquina desejante ao invés de lugar de
representação do mito, ele está em conexão necessária com o social, com as
operações políticas de territorialidade ou de reterritorialização tanto quanto
de desterritorialização, pois o Socius como superfície de inscrição exerce-se
como instância de utilização das máquinas desejantes, assujeitando-as em seu
proveito, isncrevendo-as em processos de subjetivação correlatos aos seus
interesses.
É importante
considerar aqui que se a noção de máquina desejante não intervem como metáfora,
tampouco ela implica um qualquer mecanicismo, algo como o corpo-máquina
cartesiano que como pura natureza extensa nada tem a ver com o pensamento ou
com o sentimento, a emoção, etc. A esse propósito, o não metafórico do
inconsciente maquínico está nisso pelo que, conforme Deleuze-Guattari, o
inconsciente justamente não representa nada, ele funciona, e seu funcionamento
é maquínico por se processar como sistema de corte sobre uma conexão prévia de
fluxos, o que supõe ainda uma instância de registro e constituição dos
sujeitos-larvares, residuais, pela síntese de consumação, isto é, o “eu” se
encontra na conjunção dos fluxos de que já se destacou, ou se está por
destacar, o segmento cortado como “sua” satisfação (exemplo da amamentação).
Assim, prévio ao Eu Penso, há o Eu Sinto, mais fundamental à constutividade do
Eu. Contudo, o modo pelo qual a Esquizoanálise não supõe o sujeito no sentido
do individualismo egóico como objetivo do seu processo, deve aqui ser apenas
registrado e só posteriormente se verá o que se pressupõe efetivamente como
ética dos devires.
A “máquina-desejante”,
não só não supõe o mecanicismo nem a representação, como também não é o mesmo,
em Deleuze, do que “máquina-técnica” . O principal quanto a isso é mostrar que
a máquina técnica, tendo por limite a usura, funciona conforme um princípio de
valor. Deleuze utiliza aqui a conceituação de Marx, pela qual o regime das
máquinas técnicas é o de “uma sólida distinção entre o meio de produção e o
produto”. A máquina técnica confere valor ao produto, o valor exato que ela
perde ao gastar-se. Ela depende pois de um critério de desempenho em termos de
funcionamento regular.
Já as máquinas
desejantes funcionam conforme um princípio de “avaria”, isto é, a palavra que
Deleuze faz intervir evidentemente de modo que o que aparece como o
funcionamento mesmo da máquina desejante seria completamente destrutivo à
máquina técnica. A máquina desejante mistura os níveis que a máquina técnica
não pode utilizar senão separadamente, o produzir e o produto, as peças e o
combustível.
Mas também se afirma
que “as máquinas desejantes só funcionam avariadas” por isso que a máquina
desejante, a cada vez que se põe a curto-circuitar a máquina técnica, pode se
erigir apenas como fator explosivo – assim os exemplos artísticos que utilizam
objetos a quebrar ou queimar, sequências musicais que apresentam fenômenos de
paragens bruscas, hesitações, etc.
Mais geralmente, se o
recalcamento da produção no inconsciente é um momento originário, numênico, das
sínteses da energia, a instância anti-produtiva do Socius e suas operações de
controle dos fluxos são repressivos sem que fosse preciso ser assim. Ora, nessa
teoria do inconsciente que é ao mesmo tempo uma teoria do Socius, articula-se
as três instâncias de Saber (registro), poder (produção) e Subjetivação
(consumação) não apenas como níveis que se destacam de certo modo, conforme
certo viés da análise, mas como a realidade mesma da conexão energética que
absorve tanto a economia, quanto a semiótica, quanto a “– análise” que já não
se torna “psico” pois não ocorre que as sínteses se localizem como realidade
puramente psíquica, de uma interioridade.
A Esquizo-análise
tende a recolocar o potencial das máquinas desejantes, logo a produzir conexões
novas de socialidades como de devires. Aqui, porém, minha intenção tem mais a
ver com a relação Foucault-Deleuze, de modo que devemos nos ater a essa
observação pela qual a teoria do inconsciente do AE se revela como passível de
embasar a compreensão do projeto de Foucault. Seja no sentido de mostrar em que
era preciso alcançar essa região da energia e do inconsciente para encontrar a
inteligibilidade da conexão de saber, poder e subjetivação, seja para mostrar
que essa região é a realidade do desejo, que se torna assim realidade “originária”,
constitutiva, quanto ao agenciamento. Mas também para ver o quanto a
arqueologia, como a genealogia, atingem o cerne da questão em sua realização
efetiva, pois justamente se articula na junção desses níveis integrantes do
real “microfísico” político.
Mas creio que esse
nível micro-político em que se porta a esquizoanálise impossibilita que se
possa ainda visar a semiotização dos fluxos no sentido de um “a priori”,
notadamente “histórico”. Impossibilita qualquer inserção no sentido kantiano,
ainda que por um viés reversivo. Quanto isso, Deleuze utiliza por vezes a
expressão “ar do tempo”. Já o que ocorre em relação à transformação epistêmica
é surpreendente, pois Deleuze acentua bem mais a ruptura com o quadro
disciplinar comandado pelo postulado antropológico.
Mas não apenas como
uma observação circunstancial caberia inserir ainda a observação de Ph. Mengue
sobre o sentido da transformação epistemológica que Deleuze impõe. Na verdade
ela é necessária aqui para que se possa compreender a visão de Deleuze sobre os
temas que se relacionam à época clássica.
Assim, Mengue observa
que ao deslocar a idéia de “história” o projeto de MP atinge “o fundamento
mesmo das ciências humanas” 1.
Seria algo a que todos estavam à espera e que somente se libera nesse projeto
de Deleuze-Guattari, uma metodologia geral apta a atravessar não apenas as
regiões delimitadas dentro de cada grande área do saber, mas uma teoria do real
em seu conjunto articulando ao mesmo tempo história e natureza, isto é, essas
macro-delimitações mesmas. Como uma nova lógica das ciências, o aporte exato
dessa nova epistemologia relaciona-se com o título de Mengue neste volume sobre
Deleuze, tratando-se efetivamente de um “sistema do múltiplo”, isto é, uma
teoria das multiplicidades.
A noção chave de
Rizoma desempenha esse papel de ponto lançado entre as disciplinas, pois
reagrupa o modo de ser de qualquer realidade – coisas, pessoas ou discursos –
passível de se tornar circunscrita a uma região do saber.
O Rizoma funciona
como um mapa das linhas de que qualquer realidade se compõe, sendo essas linhas
basicamente de três tipos, cada uma instituindo uma espécie de regime: as
linhas duras, do regime molar, que operam por oposições, dualidades
(adulto/criança, homem/mulher, etc. ); as linhas flexíveis do regime molecular
que deslizam entre as dualidades operando micro-devires e conjugações de fluxos
relativamente isentos de códigos pré-fixados; e linhas de fuga, de
desterritorialização que ou se tornam linha de abolição/destruição ou de
verdadeira criação, conforme a desterritorialização seja lançada,
respectivamente, como absoluta ou relativa.
A noção de Rizoma se
completa pela de “estrato”. Quanto a isso, Mengue observa a conexão dessa “estratologia”
– que vem da geologia – com a genealogia de Nietzsche. A estratologia “esclarece”
e “refaz” a genealogia, como esquema que reagrupa e ordena todos os conceitos
fundamentais da teoria das multiplicidades. Ora, a estratificação é a formação
de matérias, aprisionamento de intensidades, fixação de singularidades em
sistemas molares que serão os estratos, também de três tipos, físico-químicos,
biológicos ou antropomórficos (aloplásticos).
A composição dos
estratos supõe uma máquina abstrata que relaciona a cada vez, conforme a
natureza do estrato e de certa maneira, dois segmentos, de conteúdo e de
expressão, o que se institui como a dupla articulação constitutiva de todo
estrato. A teoria da expressão deverá assim complementar a da estratificação,
mas por ora basta reter que a máquina abstrata constitui, por um lado, esse “Ecúmeno”
ou “Plano de Composição” , algo como um continuun de estratificação. Por outro,
ela constitui o “Planômeno”, o “Plano de Consistência” precedendo o que já se
distribuiu entre o conteúdo e a expressão, isto é, aquilo que está fora do
estrato (metaestrato) ou matéria pura.
A máquina abstrata
tem, como vimos, uma face voltada ao planômeno, à desterritorialização como
emissão e liberação de intensidades puras, partículas (matéria pura) ou signos
(a-significantes) e uma face voltada ao Ecúmeno, ao plano de composição que
opera um espessamento ou coagulação, de modo a articular duplamente as
intensidades – como partículas-conteúdo de matéria formada e signos-expressões
singulares, ambos tomados agora numa relação de pressuposição recíproca, não de
casualidade.
Deleuze sempre
afirmou não fazer “história”, nem história política nem história da filosofia.
Quando se trata de conservar a expressão “história universal”, que não costuma
constar na terminologia de Foucault, é contudo sempre numa relação com o
delírio – msotrar que o delírio não ocorre com as figuras parentais mas com os
nomes da história. Agora seria então o momento de mostrar o alcance dessa
recusa.
Quanto à necessidade
de “escapar da história da filosofia”, em Deleuze está relacionada a alguns
aspectos bastante característicos do seu pensamento. Inicialmente a questão das
filiações, mas também a do gênero e do que designarei como sendo a do projeto.
Trata-se de mostrar
que o conceito se constrói sempre sobre o plano em que ele se traça, logo
sempre lidando com o fundo de que ele deve sobressair, mas enquanto construído
ele é algo de intempestivo. Não se compreende um filósofo reduzindo-o ao que
lhe é anterior, ou a outro filósofo de que ele dependeria ou mesmo à rotulagem
de um “ismo”. Quanto ao problema do gênero, aquilo que se classifica como “história
da filosofia” comporta, e na verdade costuma se caracterizar por, um tarefa de
estabelecer continuidades, classificações e descendências. Ora, Deleuze quer
mostrar justamente o que há de irredutível em um filosofia, se ela pode
realmente ser assim enunciada, isto é, se ela é realmente uma construção de
conceitos.
O gênero adequado
para isso seria então mais a ficção-científica, como ressaltou Manola Antonioli
(Antonioli, M. Deleuze et l’histoire
de la philosophie. Paris, Kimé, 1998), ou as histórias de detetive, em que se deve juntar as peças para
descobrir o que realmente ocorreu, uma vez que um conceito, e o filósofo, é
sempre o inesperado que “arrive”. Assim isso que vem, que é intempestivo,
mantém uma relação com esse fundo que não deve ser pressuposto ao modo
genético, como descendência a partir de uma origem ou tipologia, ao modo dos
ramos de uma árvore.
O fundo não é o
passado instituído, mas o contexto, incluindo portanto não a “história da
filosofia” contada até então, mas tudo o que é relevante na invenção e que se
trata a cada caso de descobrir, a rede de influências que realmente contam
sendo variável, a relação com esse saber oficial podendo ser de oposição, etc.
Mas assim vemos que
não se propõe algo como um projeto, que seria a história da filosofia como um
sistema de transmissão determinando-se a partir de uma mesma tarefa. Escapar
dessa história, conforme Deleuze, significa não precisar se deter especialmente
nesses pontos convencioncionais como se resumissem oessencial de que tudo o
mais depende, Descartes, Hegel, numa progressão contínua da racionalidade, mas
interpelar os lugares de ruptura com essa imagem acomodada de uma razão
fundadora de que se devia a cada vez renovar as premissas.
A incursão
conceitual, a compreensão desses filósofos que a cada vez renovaram sim, mas a
imagem mesma do que é o pensar, encontra uma via profunda, em Deleuze,
ressoando com o deslocamento produzido quanto ao termo história – esse o
sentido preciso pelo qual penso que esse termo, enquanto recobrindo um nível de
problematização, se substitui com Deleuze por “Nomadologia”. Isso enquanto que “história”,
não no sentido disciplinar, mas no sentido corrente de um processo linear com
um objetivo predeterminado, se substitui, como vimos, por “devir”.
Se a genealogia é uma
influência de Nietzsche, tanto em Foucault quanto em Deleuze, o que se pode
observar é que com Deleuze ela encontra uma sistematização como “estratologia”
– a “geologia da moral” de MP , título que ressoa, de modo explicitamente
alusivo, com a “genealogia da moral” de Nietzsche. Trata-se então, sempre, de
denunciar o equívoco da Origem, dos começos como fundações, arquétipos.
Bem inversamente,
Foucault mostrava por exemplo que aquilo que depois se torna uma norma
institucionalizada, deriva de práticas locais de controle que nada tem a ver
com “o Poder”, isto é, com a formação de soberania, mas que são vistas a partir
de um certo momento, isto é, são descobertas, como relevantes para esse Poder,
aproveitáveis por ele e assim historicamente inseríveis como realidade
política, instância de dominação. A tarefa da genealogia seria assim mostrar “como
esses mecanismos de poder” ou de controle local que se exerce entre a população
e não sobre ela, poder com letra minúscula para assim marcar o seu caráter
localizado, “em dado momento, em um conjuntura precisa e por meio de um
determinado número de transformações começaram a se tornar economicamente
vantajosos e politicamente úteis” ( Microfísica do Poder, 185).
Um exemplo seriam as
práticas ascéticas dos quackers, suas práticas de controle local dos hábitos,
que em certo momento (entre os séculos XVII e XVIII) representavam uma defesa
da burguesia contra o sistema penal extremamente rígido, uma autodefesa do
grupo contra o exterior que o ameaçava, e que depois se tornou institucional,
quando a transformação do sistema penal contemporâneo se implementou justamente
como um negócio de controlar os hábitos mais do que de punir do exterior as
tansgressões ( VFJ, 75-6).
Quanto a Deleuze, uma
vez estando plenamente de acordo com a necessidade dessa tarefa, observou uma
questão mais abrangente que nela se poderia localizar. Os agenciamentos supõem
os estratos mas estes não se reduzem a um determinante, por exemplo, apenas a
uma questão – ou social, ou do sujeito ou, muito menos, linguística.
Subsiste assim uma
questão de alcance ontológico, pois recobre o modo pelo qual o real se torna
atuante dentro de esquemas estabelecidos de forma e matéria, expressão e
conteúdo. E mais, trata-se de como essas agências de formação não apenas
circunscrevem o real como a natureza ou ser assim último dos entes, como se as
forças determinassem que se devesse pensar somente a partir das relações de
poder. Mas observando que há também o planômeno, na tarefa de pensar as
composições devem entrar necessariamente as vertentes desterritorializantes, as
linhas de fuga. Uma vez tendo situado a genealogia como “geologia”, mais
profundamente uma ontogênese do real, faz-se espaço para a nomadologia como
esse lugar em que se pensam as composições a partir da posição da máquina
abstrata.
Assim em cada
composição objetivada trata-se de mostrar as relações que aí se constituem
entre os “aparelhos de Estado” (o espaço estriado da instituição, o espaço
disciplinar, normativo, que se relaciona por certos meios a uma formação de
soberania, onde se localizam relações de dominação) com a “máquina de guerra” (
o espaço liso da liberação de fluxos e da criação, e das relações nômades de
não-dominação).
Esses conceitos de
espaço provém da reflexão de Boulez sobre a música. Conforme Boulez, são
propostos dois espaço-tempos da música. No espaço estriado a medida é sempre
assinalável, podendo ser ou não regular. Já no espaço liso, o corte ou pausa se
efetua livremente onde se quiser (Mille Plateaux, 519).
A máquina de guerra
não tem a guerra por objeto, e sim a ocupação do espaço liso
( por exemplo o
deserto ou a estepe) e os deslocamentos nesse espaço, assim como a relação dele
com seus ocupantes. Mas se a máquina de guerra é sempre exterioridade
relativamente ao Estado, a guerra se torna seu correlato como enfrentamento do
Estado, pois ela se opõe ao estriamento do espaço (nesse exemplo, o povoado ou
a cidade, o fenômeno estatal e urbano).
É preciso conservar
bastante flexibilidade na recepção desses termos opostos. Assim como Deleuze
recusa a figura da oposição para caracterizar o singular, seu uso de termos
numa relação polar conserva sempre uma margem “souple”, pela qual não se os
toma como significados ou essências, mas construtos em conjuntos transformáveis
(sistemas abertos, que mantém uma relação fundamental com o exterior). Não
basta um espaço liso para. fazer uma máquina de guerra. Nem todos os “aparelhos”
são de Estado. Conserva-se também uma relativa reciprocidade pois não se pensa
nos termos de uma “situação ideal” em que só houvesse um tipo de espaço, mas as
correlações em cada caso, mantendo-se no entanto, em relação ao presente, a
tarefa micro-política de uma ética dos devires, de liberação das linhas de
criação.
Entre o “tratado de
nomadologia” e o “aparelho de captura”, os dois textos do MP mais pertinentes
quanto a isso, numerosas composições são tratadas, com belas descrições de
movimentos de máquinas de guerra nômades, portanto não apenas numa perspectiva
que seria da história política mas também da arte e da ciência. Ou melhor,
desloca-se o sentido dessas “histórias” , que se tornam agora como cartografia
de linhas de fuga criativas traçadas em cada região composicional, o que
implica de todo modo também as formações de dominação, de apropriação como
designação do que aí é oficial e do que não é, formações que se exerem como
delimitação de regiões, disciplinas e rotulagem normativa de instituições.
A nomadologia ( MP,
445) tem assim esse duplo aspecto. Deleuze-Gutatari aceitam a hipótese do
Urstaat, isto é, de que o Estado é coextensivo à soberania, que é algo coextensivo
à “história”, de modo que o que importa nessa hipótese não é tanto o fato
notável de que os arqueólogos estendem cada vez mais longe a descoberta de
impérios, mas sim que o Estado é pensado como interioridade (apropriação
local), estando sempre, portanto, em relação com um exterior, não sendo
concebível sem essa relação. Esse exterior pode ser de dois tipos, seja como
máquinas que se ramificam sobre o Ecûmeno (orgnanismos supranacionais,
comerciais, religiosos, etc.), seja como mecanismos locais, minorias, como
sociedades que se mantém à margem do Estado.
Ora, a nomadologia
abrange ainda na análise das composições, a noologia, que é o nível de
problematizção do sentido do pensar, da instituição das imagens de pensamento (MP,
464-5). E por aí se relaciona, penso, de modo profundo com a filosofia de
Deleuze, o que se pode ver nas monografias sobre filósofos como Hume ou Spinoza
ou ainda com seu modo de inserir o aporte conceitual quando se trata de visar a
pintura de Bacon, instalando a inteligibilidade do figural na recusa da tarefa
de figurar o que seria a essência, isto é, a partir de uma compreensão da
expressão liberada da representação.
Trata-se então de
mostrar o que há de nômade na filosofia desses pensadores a partir da
iluminação de seu contexto e da localização da aparelhagem conceitual de Estado
na hsitória da filosofia “oficial” que lhes é contemporânea, de modo que se
possa compreender o que é que ocorre, uma vez que deles há o “arriver”, que se
possa avaliar o alcance de sua intempestividade, a novidade e o proveito de sua
criação.
Assim será oportuno
utilizar os temas referentes ao clássico, na junção com Foucault, reservando
porém, no que for possível, a apreciação da filosofia ao momento de se
aproximar, de modo mais minucioso, dos pensadores dessa época.
A transição
manufatureira
A história enquanto
ciência parece ter se definido, para nós, desde Marx, conforme o Lire Le
Capital (Althusser,L. et alii. Lire
le Capital. Paris, Maspero,1967. 2v.). Trata-se de uma problemática, sendo que os problemas se propõem em torno
de certos conceitos, isto é, de certas definições. O Lire le capital oferece
assim, de modo eminente, um aporte epistemológico inseparável de sua
instituição. O objeto de uma ciência se põe a partir da definição desse objeto.
Logo uma revolução científica é o mesmo que uma transformação conceitual.
Um conceito novo, um
objeto novo, acarretam ao mesmo tempo uma problemática e uma terminologia que
lhe correspondem. Ora, esse aporte epistemológico pode nos fazer lembrar o
racionalismo aplicado de Bachelard, aquilo que Foucault designava história
epistemológica, buscando a linha quebrada de formação dos conceitos.
Mas o texto inaugural
quanto a isso, como pode mostrar um exame do Lire le capital é a apreciação de
Engels sobre a revolução epistemológica devida a Marx, que põe o paralelo com a
superação da teoria do flogístico na química.
O oxigênio não foi a
descoberta de Lavoisier. Priestley e Scheele o haviam encontrado antes. Mas
sempre tentando inseri-lo na coerência de uma explicação da combustão pelo
escape do flogístico, não conseguiam compreender o alcance da descoberta.
Lavoisier, a quem Priestley comunicou a existência desse “mistério”, no
entanto, compreendeu que era toda a teoria química que precisava ser
transformada a partir desse novo elemento, como chave da explicação da
combustão por sua combinação com o corpo. 1
Algo semelhante
ocorre com Marx. Pois só ele compreendeu a mais-valia como chave da economia,
ao invés de, como os economistas clássicos e os socialistas, seus
predecessores, apenas como algo relativo à repartição, que uns consideravam
natural e outros injusta, do produto do trabalho. Mas era a própria compreensão
do trabalho que a mais-valia devia deslocar, já que ela não incide sobre
qualquer trabalho, mas apenas sobre o que se pode designar sobre-trabalho de
modo que por aí também se descobre que a teoria não lida com o trabalho tomado
empiricamente, mas com o conceito de força de trabalho.
Nesses dois casos, da
química e da economia, um conceito que não se pode considerar novo desloca uma
teoria prévia apenas quando se aceita que o que nele se revela inexplicável só
se deve às insuficiências daquela teoria. Essa insuficiência se mede pela
incapacidade de uma definição do objeto novo, por parte dos que o descobrem, no
sentido preciso de que ela impede essa definição. Encontrando o real papel que
o objeto desempenha, ele se torna “novo”, agora enquanto objeto científico.
O que Althusser
ressalta a partir desse texto é que essa “teoria geral da história das ciências”
(2), compreensão das mutações realizadas
por obras fundadoras como as de Lavoisier e Marx, que só o são por exibir uma
ruptura com seus necessariamente existentes predecessores, não apenas encerra
um projeto mas é essencial à inteligibilidade ou estudo ou leitura de Marx.
Isso por que essa teoria é a via, designada por Engels, que conduz à filosofia “fundada
por Marx no ato mesmo de fundação da ciência da história”.
Aquilo que funciona
no interior da teoria de Marx como reversão, por exemplo da dialética idealista
de Hegel, se reflete no exterior da teoria como acontecimento fornecendo-se
assim como condição da história teórica, isto é, da historicidade da teoria,
doravante a se compreender por conceitos como fato ou acontecimento ou
revolução teóricos.
A mais-valia é a
chave do “conjunto da produção capitalista, não se reduzindo à simples
constatação de um fato econômico”. Mas por aí, novamente, a história mesma se
revoluciona já que algo como “conjunto da produção”, nesse ponto apenas
considerado no sentido da economia capitalista, vai desdobrar o conceito mais
geral de modo de produção a comandar toda a inteligibilidade do social.
Fornecendo-se um
objeto novo à economia política ao mesmo tempo se transformou a história e a
epistemologia, de modo que me parece se delinear no lire le capital seções,
níveis de uma problemática relativa à episteme, no sentido de Foucault, pois
não é apenas uma troca entre dados que se equivalem, o que está em jogo entre o
antigo e o novo, e sim um novo regime do objeto, pois a crítica da Economia
Política pré-Marx envolve sua pretensão a existir como função de algo dado no
real enquanto “domínio dos fatos econômicos” quando se trata de denunciar o
dado como sendo relativo ao primeiro gênero de conhecimento assim como
conceituado por Spinoza, o que pertence à imaginação, à ideologia, não à
ciência.
Justamente o que não
se confunde com o primeiro, com o dado, é a concepção de ciência, e Economia
Política enquanto ciência, como construção “do conceito verdadeiro do objeto” (lire...129).
A mais-valia, como conceito, objeto da Economia Política, atua como definição
de condições e limites que permitem obter fenômenos homogêneos e mensuráveis –
lucro, renda, interesse – que se tornam assim mensuráveis como formas derivadas
da mais-valia, ela mesma não mensurável.
Se a economia
clássica, isto é, nesse sentido, burguesa, não põe o conceito como diferencial
dos fenômenos, ela não os toma como fatos sem reportá-los, contudo, também, a
um plano, aquele da “esfera das coisas”, conforme a expressão ingênua de Hegel,
a produção e distribuição de objetos destinados a satisfazer necessidades
materiais, logo, isto que Althusser relaciona a um princípio
antropo-ideológico, o ser humano como homo oeconomicus, como sujeito de
necessidades.
Princípio sempre
permeável ao investimento de atributos da moral ou da religião que normalizam o
plano neutralizando as contradições, pois tudo se pode explicar pela harmonia,
pela providência, sendo o “tudo” que se trata de descrever, tratado justamente
como esses dados que, na prática, funcionam.
Althusser estende as
consequências epistemológicas dessa compreensão do processo científico. Engels,
que tão bem soube ver o alcance da revolução epistêmica de Marx, permaneceu “empirista”,
ou seja, identificando na prática “objeto de conhecimento” e “objeto real”.
Althusser se coloca assim mais próximo de Lênin, do materialismo e do
empiriocriticismo, que prevê o “aprofundamento incessante do conhecimento do
objeto rel pela transformação incessante do objeto de conhecimento” ( lire...
124).
O estabelecimento de
uma ciência não pode mais ser visada como a instituição de um conjunto de
dogmas acerca de um objeto real. Ele se relaciona, sim, de modo necessário, com
a “forma contínua e progressiva” da transformação do objeto “de conhecimento”.
Mas tampouco a história pode ainda se propor como narrativa de fatos puros, ao
sabor da contingência. Pois ela deve supor a posição do conceito que permitirá
inserir – ou mais precisamente avaliar – os fenômenos na inteligibilidade já
proposta assim como científica, não ideológica.
Essas observações de
Althusser no texto “O objeto do Capital” precedem a reflexão de Balibar em
torno do conceito de modo de produção. Antes de examinar esse conceito,
considero interessante comparar esse princípio antropo-ideológico althusseriano
com o postulado antropológico foucaultiano. O que está no foco do paralelo é a
relação que cada um circunscreve entre o seu princípio ou postulado, seja com a
história, seja com a economia.
Ainda que esse tópico
envolva questões que deveremos examinar mais tarde, quando se tratar do período
moderno, após a época clássica, já se pôde ver que aquilo que Foucault designou
instalar-se como limite do clássico, o duplo empírico-transcendental, instituía
ao mesmo tempo o postulado antropológico que definia a epistemê moderna. Aqui o
antropológico não se refere, como em Althusser, ao plano extra-teórico,
ingênuo, das coisas, sem ao mesmo tempo lançar o humano como posição fundante
de sua própria finitude.
Na espessura
histórica, em que se desenvolve o transitório da existência, consiste ao mesmo
tempo um razão de ser que é de tipo não transitório, o transcendental que
ordena esse espaço das novas empiricidades, precisamente o espaço em que a
Economia tem por objeto o trabalho, e só o tem por deslocar o sentido prévio
que o caracterizava, por posiciona-lo como objeto novo.
Assim Economia
clássica para Althusser é pré-Max, portanto incluindo Ricardo. Para Foucault
ela é pré-Ricardo, não sendo rigorosamente Economia, mas análise das riquezas.
A Economia, que Foucault vê surgir com Ricardo, se instala por essa causalidade
linear relacionada às condições de produção, em que o trabalho surge como
determinante enquanto fator de custo, introdutora da história.
Se o homo oeconomicus
se constitui pela necessidade, sua razão de ser é agora finitude – o trabalho
como enfrentamento da ameaça representada pela escassez. Mas então a produção
não se propõe mais como um quadro harmônico onde todos os elementos estão desde
sempre dispostos. Inversamente, ela é sempre o retomar do mesmo enfrentamento.
A historicidade se introduz na economia, como causalidade linear, enquanto
horizonte de anulação da diferença entre a produção e a escassez, de modo que
no final, ou só haverá trabalho que a supre (Ricardo) ou haverá o fim da
história, quando o princípio de inteligibilidade que a conduz se reverterá pela
revolução instauradora das novas leis de uma economia finalmente comunizada
(Marx).
Em todo caso a
episteme moderna põe uma relação fundadora entre antropologia, história e
economia. Mas para Althusser o princípio antropológico não atua como postulado
epistêmico, e sim como correlato idealista de uma Economia clássica no sentido
de não-crítica, e nesse sentido idealismo e realismo ingênuo como que se
equivalem na consideração do fato como dado.
Assim quanto à
produção, trata-se de mostrar que Marx não a põe numa relação direta com a
necessidade mas de um lado, as necessidades mesmas se determinam pelas formas de
produção e de outro, a produção não se faz só pelas necessidades mas
principalmente pela reprodução das condições de produção.
À antropologia não se
reserva a consideração das necessidades, ela se põe pela economia e só nesse
sentido caberia uma análise antropológica que teria que se determinar ela mesma
estruturalmente, não antropologicamente.Pois se a causalidade se desloca,
também aqui, ela atua agora como causalidade estrutural.
Foucault situa o
pensamento de Marx no elemento mesmo dessa episteme moderna comandada pelo
postulado antropológico (duplo empírico-transcendental, analítica da finitude).
Assim Foucault recusa que o marxismo tenha sido epistemologicamente
revolucionário. Já Althusser propõe o marxismo na ruptura com o princípio
antropo-ideológico que ligava a economia à subjetividade e seus correlatos como
finitude ou necessidade, ruptura que só se institui no movimento pelo qual se
instura como transformação epistemológica. / 1 /
Althusser argumenta
que, em Marx, são as relações de produção que permitem compreender as posições
do sujeito, não o inverso. Mas permitem também colocar o problema não visto até
então, por exemplo por Ricardo, das condições do trabalho, ao invés de
considerá-lo geralmente como fonte de toda riqueza.
O que se põe nessas
relações não são seres humanos puros, nem sua finitude nem sua contingência,
mas agentes de produção. Finalmente, o que faz desdobrar a produção em
sociedade, a produção em modo de produção é a Combinação, “Verbindung”, entre “um
certo número de elementos pertencentes seja aos meios de produção, seja aos
agentes de produção” ( lire... 150).
A Verbindung
efetuando-se sempre conforme modalidades definidas, Marx poderá fornecer assim
a inteligibilidade histórica a partir da maneira especial de operá-la em cada
época econômica da estrutura social – ou conforme o texto do capital, “a forma
econômica específica pela qual o sobre-trabalho não pago é extorquido aos
produtores imediatos, determina a relação de dominação e de servidão tal como
decorrem imediatamente da produção mesma, e reagem ao mesmo tempo sobre ela de
maneira determinante”.
A forma de
estruturação da mais-valia permite compreender a história. Quanto a isso é
interessante reter a expressão de Marx. Pois se ele afirma no Capital VI, 38
que a estrutura social “passa” por épocas econômicas distintas, o que se
depreenderia mais propriamente do lire le capital é que as estruturas sociais
se determinam elas mesmas irredutivelmente enquanto modos de produções
irredutíveis. E já em Capital VIII, 170-3, se é sobre a produção”que se funda
inteiramente a estruturação da comunidade econômica”, é na “relação dos
proprietários dos meios de produção com os produtores imediatos” que se
encontra o fundamento oculto da construção social – logo da forma política da
soberania.
Poder-se-ia assim
autorizar uma leitura das estruturas sociais irredutíveis, enquanto modos de
produção?
Seria então oportuno
checar o texto de Balibar “Sobre os conceitos fundamentais do materialismo
histórico”(lire... 187). É interessante notar que essa questão está de
certo modo implícita no modo como Balibar inicia o texto. Assim de imediato a
resposta seria negativa pois o modo de produção é apenas “aquele que define, no
seio do todo social complexo, o objeto parcial da economia política, isto é, no
sentido da prática econômica da produção”.
Mas desse modo não se
pode evitar o problema da articulação sobre outras práticas. E se nesse início
a questão não se enuncia por Balibar de modo explícito, sente-se que ela é de
modo eminente uma questão histórica, “a” questão da história. Ora,
posteriormente Balibar a enunciará explicitamente, no contexto da indagação
sobre o objeto construído da história pelo marxismo. Examinaremos então como
ele propõe o encaminhamento da questão. Em todo caso, essa questão permanece
como fio condutor do texto, já nesse início tratando-se então, de refletir
sobre a “teoria abstrata da história em Marx”, sublinhando a dificuldade do
tema.
O que Balibar afirma
é que Marx começa por transformar a história em ciência introduzindo as duas
formas de contradição entre classes, isto é, produzindo as noções de luta e de
antagonismo. Os termos da luta são todos redutíveis à opressão (opressores e
oprimidos), logo possivelmente distribuídos pela sociedade. Os termos do
antagonismo, funcionando como essência da luta, não são dados no sentido
individual mas exercem-se apenas no interior da base econômica, ao nível das
forças produtivas e das relações de produção.
A ciência da história
incide então sobre a sociedade pensada como estrutura, logo articulando-se
tanto na diacronia das épocas sucessivas quanto na sincronia das práticas
sociais. Sincronicamente toda estrutura social é uma articulação de três
níveis: base econômica, superestruturas jurídica e política e formas de consciência
social. Assim se o antagonismo atua na base econômica, a diacronia vai estender
a história conforme as épocas “da estrutura econômica”, isto é, conforme o
antagonismo que provoca a mutação, o qual se institui estruturalmente como
invariante.
O que se verifica
descontínuo são os estados da estrutura conforme a ordenação de sua
invariância. Mas esses estados são os modos de produção. Assim temos que a
sociedade é o modo de sua estruturação, entre os três níveis, conceitualmente,
mas efetivamente ela se presentifica na irredutibilidade da produção como
invariância de um certo estado atual, logo determinando-se a história “da”
sociedade como sucessão descontínua de modos de produção.
Creio que na
efetividade se pode assim supor uma história “das” sociedades, mais do que a de
uma sociedade que simplesmente muda através das épocas. Ou melhor, que se está
esboçando uma teoria em que se precisa em todo caso compreender a delimitação
de dois aportes, o virtual e o atual.
O que mais se deve
enfatizar aqui é que a natureza invariante do atual, determinando-se pela forma
do antagonismo, permite ao mesmo tempo pensar a história como luta de classes,
isto é, permite à história ser ciência no mesmo lance em que põe a
inevitabilidade do virtual – termo que em Marx se traduz por “Möglichkeit”, o
estado “virtual” dos elementos tomados na exterioridade do modo de produção em
que eles se determinam como fatores.
O atual da combinação
supõe esse virtual dos fatores dispersos, tomados “fora” dessa atualidade. É
exatamente o sentido que Balibar confere a este texto em que Marx utiliza o
termo (Capital VI, 38-9), ( lire... 205). Balibar atribui a essa
posição do virtual o sentido de um “estruturalismo perfeitamente insólito”
depreensível diretamente dos escritos de Marx.
Sendo esses fatores o
trabalhador, os meios de produção (objeto e meio de trabalho) e o
não-trabalhador (capitalista) que se apropria dos meios de produção e do
produto do trabalho, duas relações devem constituir a Verbindung (combinação):
a separação entre meios de produção e trabalhador, que subentende a propriedade
desses meios pelo capitalista; e a apropriação da natureza pelo homem, relação
mais básica, consistindo na apropriação dos meios de produção pelo produtor no
processo do trabalho. Enquanto aquela relação se designa como pressuposto do
modo de produção capitalista, esta é constitutiva de todo modo de produção.
É o trabalho mesmo
que por seu meio institui uma relação de apropriação dos recursos naturais. Na
medida em que o capitalismo organiza a produção, ele se torna tão fundamental a
essa relação de apropriação sobre a natureza quanto é o fator que determina a
relação de propriedade sobre os meios de trabalho dos quais separa o
trabalhador. Essa sobrefunção do capital impõe a divisão do trabalho em duas
frentes: divisão ao mesmo tempo técnica e social.
Por esse meio se
entrelaçam as relações que compõem a Verbindung, isto é, a estrutura de um modo
de produção. Ao invés da totalidade ser simples, como todo linear de suas
partes conforme a concepção de Hegel, ela é complexa, duplamente articulada,
estruturação de vários níveis autônomos conforme a visão de Marx.
A combinação da
estrutura como Verbindung, pressupõe assim as duas relações – de propriedade e
de apropriação – que se exercem sobre o fator do não-trabalhador (capitalista)
na sua relação com os outros fatores (trabalhador e meios de produção). Resta o
que não pertence à Combinação ou Modo de Produção, como aquilo que se mantém
numa autonomia relativa, isto é, as superestruturas jurídica e política e as
formas de consciência social. Assim a questão do direito, sempre desviado em
relação ao costume, só se põe corretamente para Marx pela contradição
instaurada na sua não-correspondência relativamente à produção.
A consideração da
estrutura desempenha um papel gerativo pelo qual daí se derivam todas as formas
possíveis de combinação, como quadro comparativo das formas dos vários modos de
produção que combinam todos os mesmos fatores. E dentre todos estes se deve
distinguir os que exibiram alguma vez a efetividade histórica, assim como se
pode prever o modo de produção socialista.
Nessa efetividade os
fatores não aparecem como tais, pertencentes a uma estrutura, aos próprios
agentes. Os modos pelos quais eles se fetichizam varia conforme o modo de
produção considerado. Só no capitalismo, devido à posição da mercadorias, o
fetichismo se produz pelo mascaramento da forma da relação social entre classes
– extorsão do sobretrabalho sobre o qual incide a mais-valia – que é tomada sob
a forma de uma relação entre as coisas mesmas.
Em outros modos de
produção, uma instância da estrutura social se determina como ocupando o lugar
da base econômica. Assim uma mesma instância representativa-deslocada do lugar
da base, para os agentes, determina os mesmo fenômenos de fetichização, onde
quer que ocorra.
Marx supõe um estado
inaugural da história que seria o da comunidade natural. Aqui as duas relações,
de propriedade e de apropriação, estão unidas. Aqueles que se apropriam dos
meios naturais são eles mesmos donos dos meios de produção – propriedade
coletiva da terra, meios de trabalho agrícola.
O Modo de Produção
Asiático (MPA) já institui uma “unidade” como proprietário supremo, o Estado,
unidade superior que organiza a apropriação – irrigação, grandes trabalhos,
etc. e assim legitimiza de certo modo a propriedade como apropriação do
sobreproduto do trabalho. Essa legitimação é o traço comum entre o regime
despótico do MPA e o Capitalismo.
No caso do
despotismo, a propriedade sendo já concebida como função de uma unidade
superior cuja transcendência se traduz pela ordem que institui como sendo
imanente ao próprio fazer das instâncias locais ou comunidades particulares, o
sobreproduto parece pertencer por natureza a essa unidade que reúne todas as
instâncias comunitárias.
O Capitalismo apenas
desloca a unidade despótica pelos donos dos meios de produção, assim como as
comunidades locais pelos trabalhadores livres. Mas se ocorre esse traço comum
básico, tudo o mais não permanece na mesma combinação de fatores. O que se mantém,
mesmo assim, como analogia, está se exercendo pela ligação entre as duas
relações de propriedade e de apropriação, o que determina um efeito semelhante
de fetichização pelo qual o trabalho aparece naturalmente como faculdade
do capital ou as condições coletivas de apropriação como obra da unidade
superior.
Já o modo de produção
feudal, inversamente, supõe relações extrínsecas , a violência ou o direito,
para que o sobreproduto tenha que pertencer aos representantes da classe
dominante. Assim pode-se compreender que o modo pelo qual se estabelece a
relação de extorsão de uma classe sobre os produtos do trabalho, determina
também a forma de mascaramento ou deslocamento da base – a forma política que
reveste o Estado como instância de normalização da relação de soberania e de
dependência entre as classes. Determina assim a causalidade estrutural
Em todas as
estruturas a Economia é determinante nisso pelo que ela determina também qual
das instâncias da estrutura social deve ocupar o lugar de determinante na
representação para os agentes. Assim no feudalismo essa instância é política.
Já no capitalismo ocorre peculiaridade pela qual são as formas econômicas
mesmas (interesse, renda, salário) que se representam como transformadas ou
fetichizadas de modo que o Estado não precisa intervir nesse sentido, isto é,
ele não precisa representar esse papel. O liberalismo é precisamente o deixar
fazer do capital pelo Estado que apenas proteje a manutenção das formas dessa
relação de base entre as classes.
Após essas considerações,
Balibar estabelece um paralelo entre Marx e Freud, de modo algum como
correspondência entre os conceitos propostos por ambos, mas como um mesmo tipo
de análise – haveria a identidade da função que esses conceitos, em cada caso
especificados, desempenham no interior do método. Sem nos deter nos detalhes
dessa aproximação, dela retendo apenas o mais relevante para nossos propósitos,
torna-se preponderante o trecho sobre “As Formas da Individualidade Histórica”
em que Balibar enfrenta explicitamente a questão que propomos no início.
Nos termos de Balibar
ela se põe como a da possibilidade de “uma história”, o que só pode ser
resolvido pela possibilidade ou não de designar o seu objeto. Mas lembrando que
esse objeto não deve ser concebido no exterior de sua formação conceitual e
científica, trata-se então de indagar sobre as condições de sua construção.
O termo “análise”
aparece como tendo o mesmo papel, tanto em Marx quanto em Freud. Trata-se assim
em Marx das forças produtivas mas no sentido de sua variação, do mesmo modo que
a psicanálise se constitui reconstituindo a variação das formações de seu
objeto produzido, a libido, a sexualidade. Trata-se então, sempre, de uma
história das formas sucessivas, da sexualidade ou das forças produtivas.
Mas assim toda “história”
seria parcial, pois não ocorre o subsistir do objeto geral, fora de sua
atualidade irredutível. Ora, a tarefa histórica da compreensão da Combinação
envolve o entralaçamento dos níveis, isto é, envolve não só a compreensão da
articulação das relações da base econômica e o modo de deslocamento
fetichizante, mas também as séries adjacentes necessariamente limitadas pelo
modo de produção. Isto é, histórias que têm seus objetos localizados em
instâncias autônomas da formação social, como a história das ciências ou da
filosofia.
Ora, nem todas as
histórias são possíveis, pois as efetivas dependem, assim como a história dos
modos de produção, de que seus objetos sejam constituídos no interior de um
combinação estruturada, e Balibar cita aqui o exemplo de Foucault como produtor
de “histórias” possíveis, nesse sentido.
Especialmente quanto
à história da filosofia, ao invés de uma história dos sistemas, que se concede
os fatos das produções dos filósofos como dados, Balibar propõe que ela deveria
implementar-se como uma história de conceitos organizados em problemáticas
possíveis de se reconstituir numa combinação sincrônica.
Assim creio que os
termos utilizados por Balibar – formas diferenciais de individualidade
histórica – confirmam a minha concepção enunciada sobre a relação entre a
atualidade das efetividades históricas diacrônicas e a virtualidade sincrônica
da estrutura. A conceituação de Balibar sobre isso que estabeleço como relação
de virtual e atual se expressa pela citação de Spinoza, particularmente a noção
de relação entre atributos e modos ou coisas singulares, que estudaremos de
modo mais detalhado posteriormente.
Por ora cabe
enfatizar que Marx localiza a atualização do capitalismo na transformação do
trabalho que se transfere da mão-de-obra (manufatura) à mecanização
(indústria). Assim, o limite da Idade Clássica ainda manufatureira seria, para
Marx, a Revolução Industrial.
`À época clássica
teria se produzido a extrema radicalização do método artesanal – unidade entre
força e meio de trabalho – sob a forma manufatureira. de modo que até o século
XVIII ainda se designava uma “mesma” obra, fosse o produto constituído pela
divisão de tarefas como repartição de operações complexas de um mesmo trabalho
entre várias pessoas, ou o produto constituído pela reunião de vários trabalhos
especializados.
Mas tal designação
não se poderia conservar a partir da Revolução Industrial, quando intervém a
máquina-instrumento, que transforma a relação produtiva em trabalho socializado
onde concorrem a tecnologia e a organização da produção, por exemplo. Ora,
poderíamos assim conceituar a era manufatureira como uma transição entre o
feudalismo e o capitalismo?
Mais essencialmente
essa questão se relaciona com o estatuto das transições em Marx. Ocorre que a
transição não pode ser pensada como hiato desestruturado, isto é, não deve ser
posta como impensável. Assim as transições são elas mesmas modos de produção,
mas em que sentido, se continuam a ser “transições”, se poderia compreender
essa afirmação de Balibar?
Nas teorias burguesas
aquilo a que se designa acumulação primitiva antecessora e produtora do
capitalismo se estenderia como processo natural de sedimentação de recursos
concomitante à evolução da consciência social, no sentido da constituição de um
direito, correlato `a ascensão da burguesia.
Marx considera essa
teoria como um mito, memória recuada da forma da propriedade como direito
fundando “indefinidamente a apropriação do produto do trabalho sobre a
propriedade anterior dos meios de produção” ( lire...282 – 3). A questão seria
de como se preenchem historicamente as condições de atualização da Estrutura,
do modo de produção. Assim a acumulação primitiva precisa ser analisada
genealogicamente, isto é, de modo a se ver surgirem os fatores que constituem a
estrutura do capitalismo.
Não ocorre uma
simples acumulação no tempo mas uma transformação estrutural: trata-se de
esboçar primeiro a pré-história do capitalismo, ou seja, as estruturas que lhe
são prévias e irredutíveis. Em seguida deve-se localizar os elementos
principais da estrutura capitalista, o trabalhador e o capital. Ora, esses
elementos não surgem ao mesmo tempo. Eles devém no movimento de evolução da
estrutura prévia irredutível, movimento esse que acarreta a obsolescência
daquela estrutura, no caso, a feudal.
Assim, enquanto o
trabalhador livre, separado dos meios de produção, surge sob a forma das
transformações que afetam as estruturas do trabalho agrícola, como da posse de
terras, que se poderia localizar já no “pós-feudalismo” da Renascença, o
capital acumulado vai surgir só no período clássico, em que se desenvolve o
capital financeiro sobre o comercial, no interregno entre Renascença e
Revolução Industrial.
O encontro desses
elementos, o trabalhador e o capital,põe em marcha a estrutura capitalista
enquanto modo de produção sem que aquilo que lhe é anterior possa ser visado
como redutível a ele, ou retrospectivamente projetado por ele.
A pré-história do
capitalismo subentende assim outros mundos, outros modos de Verbindung. No processo
de evolução desse modo anterior preciso que foi o feudalismo, o desenvolvimento
pleno das forças produtivas devia conduzir às contradições que se relacionam ao
surgimento desses elementos marginais cujo encontro provoca a eclosão do novo
modo de produção, a transformação da estrutura. Nesse modo novo esses
elementos, ao invés de marginais, são determinantes, mas só o são por estar na
dependência da estrutura como seus efeitos, estrutura que esvazia os sistemas
que se instituíram no modo prévio e que funciona como conjugação desses
elementos, esvaziamento que se produz como esquecimento – ausência de memória
que se torna assim constitutiva da história.
A Manufatura se
propõe como forma de transição na qual se verifica a subsunção formal do
trabalho ao capital. Só com a indústria ocorrerá subsunção real. O que se
relciona com o fato de que no estudo da estrutura do modo de produção, a
decalagem cronológica observada na constituição da produção capitalista não
entra, não é importante. Já quanto à essência da manufatura, ela se constitui
nessa decalagem mesma.
Na subsunção formal
manufatureira, que se instituiu desde a forma do trabalho domiciliar contratada
por um “capitalista”, apenas a não-propriedade dos meios de produção determina
a pertença do produto do trabalho ao capital. Há assim não-correspondência
entre forças produtivas e relações de produção, aquelas já se constituindo como
elementos livres a comprar, estas ainda organizadas sob o princípio do trabalho
como “obra” , conjunção de contributos individuais.
O que parece definir
períodos transicionais é precisamente esse tipo de não-correspondência entre as
duas relações, a das forças produtivas e as de produção, de modo que a
articulaçõ entre os níveis, que se assegura em períodos estáveis como correspondência
entre essas relações, não se completa, apresentando apenas um varição de
formas.
Ora, a transição se
deixa observar também por esse ângulo diferencial de intervenção do Estado,
isto é, as formas do direito e da política. Na “acumulação primitiva” ou na
fase específica do Clássico, trata-se de uma legislação brutal que o
capitalismo tout court deverá deslocar pela legislação de fábrica já
relacionada ao ambiente da luta de classes como conjunto complexo de
intervenções do direito na economia e vice-versa, em que as movimentações
localizadas dos trabalhadores desempenham papel importante.
Na era da manufatura
ocorre, ao invés, a utilização do Estado pela burguesia nascente, como um meio
de abreviar as fases transicionais do declínio do feudalismo. As formas do
direito e da política são deslocadas em relação à estrutura econômica, pois ao
mesmo tempo em que a força dessas instâncias sociais se põe como agente
econômico, há precessão do direito e das formas do Estado sobre as formas da
estrutura econômica.
O que Balibar
evidencia então é que o deslocamento de relações e instâncias em períodos de
transição reflete a coexistência, característica desses períodos, de vários
modos de produção, com dominação de algum deles sobre os demais . O que Marx
mostra considerando que os elementos de certo modo de produção que se forma
posteriormente, já estando presentes no modo prévio, se localizam nos seus
interstícios, nos seus “poros”, até que se efetivem os meios de autonomizar-se
no modo posterior. O que também Lênin exemplifica ao afirmar que na Rússia à
época de transição ao socialismo coexistiam cinco modos de produção
desigualmente desenvolvidos e organizados conforme uma hierarquia com
dominância. Balibar apresenta então a manuftura como unidade de coexistência
entre dois modos de produção, que parecem poder ser conceituados como o
feudalismo e o capitlismo, com a dominância das relações de produção do
artesanato feudal (a obra como conjunção de contributos individuais) sobre
formas produtivas que já são capitalistas (o trabalhador livre e o capitalista
que compra a força de trabalho).
Ora, se pode parecer
assim que se conserva uma certa oscilação entre esses conceitos – a transição é
uma coexistência de modos ou uma problemática em nível de elementos ? – Balibar
contorna a questão argumentando que o irresolvido de certos problemas pela
teoria marxista só deve repor o fato principal de que ela não se propôs como um
pacote de respostas dogmáticas, mas como um campo novo de pesquisa.
Na verdade a
exposição sobre a manufatura se desenvolve no interior de uma reflexão mais
geral sobre o que seria a teoria da transição entre os modos, em Marx, onde
Balibar assinala a dificuldade de descrevê-la, pois os próprios escritos de
Marx parecem ser quanto a isso muito mais fragmentários e ambíguos do que
aqueles em que se trata da teoria dos modos de produção estabilizados.
Ora, esse estatuto
positivo do irresolvido no interior de um campo científico novo de pesquisa me
faz pensar em uma expressão de Monod sobre o evolucionismo em biologia. Ele
comenta que a controvérsia dos criacionistas é ilusória, pois não se trata de
evolucionismo como uma teoria a que se poderia opor uma outra teoria
criacionista. A evolução é uma pesquisa, não uma teoria. Assim o essencial da
pesquisa científica, que poderia ser proposto como algo comum entre as
observações de Monod e de Balibar, é esse caráter lacunar pelo qual o que se
institui como espaço em branco não está apenas como falta, mas como lugar
preciso em que se deve prosseguir com as interrogações.
O Mundo Barroco
Que as regras de jogo
do marxismo permitem “ler toda a história sob o signo das classes”, e que isso
continua exequível e aplicável, é proposto explicitamente por Deleuze-Guattari
(Anti-Édipo (AE), 122). Mas em que sentido sustentam eles essa proposição?
Precisamente em
sentido bem outro do que aquele que caberia no limite do modo de produção
tomado pela articulação dos fatores da base. Pois agora são esses elementos
mesmos que se trata de visar, não como virtualidades pré ou exo-estruturais,
mas sim em sua realidade, em sua positividade mesma como elementos de conexão.
Ao invés de uma
história que, como Freud, seria a das atualizações de uma estrutura como
racionalidade organizada de uma invariância, é preciso investigar o que a
estrutura não prevê, mesmo que com Freud tenha parecido que ela objetivava a
realidade mesma do desejo. Guattari e Deleuze observam que Freud “parou” na
libido, desconhecendo a realidade das sínteses numênica e conjuntiva
(voluptas).
Instituindo o Édipo
como base virtual das organizações de invariância, a psicanálise impede que se
atinja a região produtiva do desejo, produz o mascaramento da produção
libidinal, como se ela se resumisse à triangulação familiar. Assim um
paralelismo Marx-Freud seria legítimo se limitarmos a história a um nível de
base muito grande, que age de modo despótico pois subsume os elementos já como
fatores do que organizou como estrutura.
O sentido pelo qual
Deleuze-Guattari aceitam a leitura da história pela perspectiva das classes é
aquele em que as classes são o negativo dos grupos e das castas. Ao invés das
sociedades primitivas aparecerem como o fora da história, uma vez que nelas,
como no comunismo, a invariância da base deve se confundir com a realidade dos
fatores, é o capitalismo que surge como fim da história assim como horizonte
retrospectivo daquilo de que ela é história: a socialização ou repressão dos
fluxos desejantes.
Vimos que no Lire
le capital as transições deviam ser pensadas sem incoerência e sem vazio,
pois a coexistência de modos se relaciona ao livre jogo das contradições
desenvolvido pela própria dialética das forças produtivas no interior do modo
que deve ser substituído – a estrutura não tem nada de tranquilizdora, como as
musas de Chirico ela é inquietante, até que se torna explosiva.
Mas a história como
recalcamento, codificação ou socialização dos fluxos desejantes, se é também
fragmentária, e pressuposta em relação a uma virtualidade, que é para ela o
limite sempre deslocado dos fluxos, agora não há inquietação, nem potencial
explosivo, somente o grande horror de que esses fluxos corram livres, sem
código.
A máquina territorial
primitiva, a megamáquina despótica bárbara, são a história desse horror,
revertido justamente pelas operações de codificação que agregam a pertença,
respectivamente, ao grupo ou à casta. Mas as classes, o capitalismo, são esses
fluxos livres, contudo não no sentido do CsO, o corpo pleno da energia
inconsciente de registro (Numem), noção que já examinamos anteriormente, pois
se eles não são mais codificados é porque são agora axiomatizados.
A história
pré-capitalista é portanto a história do delírio, a perversão ou a paranóia,
como operações sobre o desejo, transformações inconscientes que traduzem
práticas sociais de repressão. Ela recobre assim os acontecimentos, que pululam
por todas as formações sociais, de desvio, as resistências que é preciso
contornar a cada vez para marcar o simbolizar grafando, em todo caso inserir,
registrar no Socius. Esses desvios não são ameaças para tais máquinas, elas são
pressupostas assim como uma história de entrada na adolescência tem que supor a
resistência, pelo menos como insegurança, ao processo ritual de aceitação, até
que grupo e indivíduo se aceitem e identifiquem mutuamente solvidas as
resistências de um lado ou de outro. A ameaça à máquina social só se constitui
pela produção desejante que não “deseja”, isto é, o conceito de esquizofrenia
de Deleuze-Guattari como outro regime de desejo, liberado do “poder”.
Contudo aqui se pode
constatar algo que funciona a meu ver como um postulado da nomadologia: o
nômade puro não existe, desde sempre há ao menos um acampamento e um stock, um
registro que liga uma cadeia significante a um fluxo de produção – perversão
constitutiva.
A mais-valia que
explica a história é agora uma mais-valia de código, exerce-se sobre os fluxos
de modo que não ocorre um conceito unívoco a-histórico do que seria “o”
trabalho. Ao invés de “estrutura” é preciso pensar em termos de máquina,
agenciamentos micro-localizados do desejo, e a esquizo-análise precisa começar
por destruir as pseudo-formas que seriam expressões do inconsciente para
descobrir os investimentos desejantes do campo social pelo inconsciente real.
Porque a realização
da operação de registro sobre o fluxo não se completa nem se compreende como
simplesmente conseguir de fora impor uma marca, mas sim como incorporação de um
signo pelo desejo de ser. O que acarreta que a sociedade e a história não se
baseiam na troca, o Socius é essencialmente uma instância de inscrição
(registro).
O Estado surge como
máquina que, ao invés de funcionar como a máquina primitivo-perverso-segmentar
de fluxos, funciona como máquina paranóica de filiação direta. Assim ao invés
de uma territorialização primeira, a operação inaugural do Estado consiste em
desterritorializar os códigos das comunidades rurais, para operar sobre eles
uma sobrecodificação que os transforma em simples peças de uma engrenagem maior
encarregada de apropriar-se dessa mais-valia de código.
Ora, o capitalismo
desterritorializa esses sobrecódigos do Estado despótico, pois, como vimos no
estudo foucaultiano de economia clássica, trata-se agora de introduzir a troca
como objeto da mais-valia. Mas Deleuze-Guattari não propõem que a partir daí a
mais-valia deve se conceber como inerente aos fatores organizados de uma base
econômico-produtiva. Eles propõem que o que se substitui à mais-valia de código
é a mais-valia de fluxo.
O que possibilita a
triangulação do inconsciente, sua leitura pelo Édipo, isto é, a causa formal da
triangulação, é inicialmente uma operação despótica pela qual algo de
transcendente, “o” significante enquanto a lei ou o Phallus, é destacado como
objeto que empurra os elementos deslocáveis e os distribui relativamente à
ausência-transcendência desse objeto. O três mais um: as três figuras
familiares que partilham a ausência e assim se relacionam uns aos outros como
complementos uns dos outros, mais a lei ou o “um” dessa ausência.
Mas aqui se poderia
indagar como é então que se pode associar tão estreitamente o Édipo com a
máquina capitalista civilizada – o complexo não coalesce nas formações
precedentes, conforme o AE, que o associa aos empreendimentos de colonização.
Para justificar essa
pertença do Édipo ao capitalismo, e sua natureza colonizadora do inconsciente,
o AE mostra que o processo de reprodução social nas máquinas sociais
territorial e despótica não é diretamente econômico, relacionando-se a fatores
não-econômicos de parentesco. A família nesse caso é uma prática co-extensa ao
Socius, de modo algum uma instância privada frente a um domínio público.
Já na máquina social
capitalista, o deslocamento da base econômica na representação para os agentes,
desde o objeto distinto à própria atividade produtora, determina que a
inscrição social só se faz sobre forças de produção, tudo o mais sendo incluído
aí apenas a título de fatores dessa produção. A família se privatizou, ao invés
de coextensiva ao campo social como lugar do registro ou da pertença, ela se
torna o particular frente ao público, mas esse particular tem que se destinar –
como fator – ao público. Figuras não-figurativas, isto é, imagens que o capital
engendra na axiomática dos fluxos, tornam as pessoas personificações suas – o
trabalhador, personificação da força do trabalho, por exemplo.
As pessoas sociais no
capitalismo são funções derivadas de quantidades abstratas – imagens – que as
pessoas individuais devem preencher como simulacros. É´ por isso que o Édipo é
sempre um empreendimento de colonização. A família é privada, mas como tal
precisa ser imaginável para poder ser investida de modo que fora desse fora
nada mais possa subsistir para o desejo.
Ao limitar o
inconsciente ao Édipo a psicanálise fornece a subjetividade ideal do sistema
capitalista, aquela cuja imaginação-desejo possível é o papai-mamãe-e-eu, o
formalizável da produção. Territorialidade íntima, a família edipiana
corresponde ao esforço de reterritorialização do capitalismo.
Aqui podemos
sintetizar o que vem se desenvolvendo, do seguinte modo. Se distinguimos os
limites relativo e absoluto, externo e interno, vemos que o limite absoluto de
toda sociedade é a esquizofrenia como fluxos desejantes livres, nem codificados
nem axiomatizados. O limite relativo da história social será então o
capitalismo enquanto axiomática de fluxos não-codificados (descodificados).
Para o capitalismo a esquizofrenia torna-se um limite exterior, para o qual ele
tende como empreendimento de descodificação de fluxos, mas que ele precisa
conjurar para não se solver nela. Para repelir esse limite o capitalismo produz
um limite interior deslocado, o Édipo, que designarei como Complexo-freudiano
de apropriação do inconsciente.
Esse deslocamento
operado pelo Complexo-freudiano consiste no fato de que ele desloca os objetos
reais de produção de desejo representando-os, travestindo-os. A colonização é
sempre a do capital. Assim essa noção de colonização em Deleuze-Guattari
apresenta uma amplitude bem mais abrangente, pois não se relaciona apenas ao
que ocorre entre o centro e a periferia no sentido político de dominação, mas
também ao que ocorre no sentido da produção de subjetividades, do investimento
simbólico do desejo tanto no centro quanto na periferia, seja onde for que
tenha penetrado o capitalismo.
O limite deslocado é
a permissão da territorialidade, desde que privatizada, familiar. O limite
interior do capitalismo, o Complexo-freudiano, não é ocupado na sociedade
primitiva, pois como vimos a família se mantém na coextensividade do social ao
invés de haver determinações do campo social que se rebatem sobre ela. Na
sociedade despótica, o limite do Complexo é ocupado simbolicamente, mas não
habitado, porque o campo social é atingido na totalidade pelo incesto imperial.
Já na sociedade capitalista ele constitui o limite habitado e ocupado, pois o
desejo só deve poder investir as imagens parentais, sendo um negócio,
fundamentalmente de negação.
Assim deve-se agora
indagar sobre a relação do capitalismo com o Estado, lembrando que o próprio
Complexo é uma operação despótica de transcendência e símbolo. Quanto a isso o
AE propõe uma teoria do Estado como forma abstrata (Urstaat) que se prolonga no
Mille-Plateaux (MP). O AE faz referência ao problema que o Estado despótico
representou para o marxismo, dentro de um esquema que deveria abranger cinco estágios
(comunismo primitivo, cidade antiga, feudalismo, capitalismo, socialismo). A
produção asiática convinha mal nesse esquema, a ponto de Engels renunciar a ela
e os marxistas russos e chineses resistirem à sua utilização ( AE, 174-5).
O que Deleuze-Guattari
assinalam é que o Estado não é nem uma formação como as outras nem a transição
de uma formação a outra. Como Atená, ela surge já completamente armada.
Entre o poder
soberano e a gênese do mundo há agora hiato que o mito imperial deve preencher
através de uma série de gerações que figuram as metamorfoses da soberania,
conforme se pode constatar em Vernant, enquanto que o mito primitivo expressava
apenas o hiato entre a energia intensa e o sistema social que deve configurá-la
no interior do sistema de alianças e filiações.
Sendo assim o mito
imperial não expressa um recuo “da” origem sem que nisso se perceba uma
impossibilidade da origem em proveito de um quebra dimensional entre o
sempre-já abstrato e a efetivação atuada. Não se pode assim supor que o
primitivo é anterior ao império ou mesmo o inverso. O Estado, onde quer que se
instale, está sempre se re-instalando. Assim o Império é essa constante que
mede a variação de todas as formações sociais. Não como formação concreta com a
qual se deveria tudo comparar, mas como a sobredeterminação abstrata em relação
à qual, em cada caso, trata-se de avaliar as condições de desvio e de
re-efetivação.
Deleuze-Guattari
utilizam aqui citações de Hincker e Dobb (AE, 175), de que retenho
especialmente a elaboração, por Dobb, do conceito de feudalismo de Estado. O
sentido dessas citações é mostrar que a única coisa que o feudalismo precisava
impedir era que a mercadoria introduzisse a descodificação de fluxos, de modo
que a produção mercantil tanto quanto a posição central do rei, não só não
ofereciam perigo ao sistema como eram constitutivos dele, enquanto puderam
reforçar a servidão e o conjunto das estruturas feudais. Ao par virtual/atual
da estrutura, substitui-se agora o par abstrato/concreto como mais adequado a
essa relação do Estado, enquanto Forma do Império, com os Estados localizados
que o efetivam.
Já quanto à relação
do capitalismo com o Estado, Deleuze-Guattari observam que o Estado capitalista
não tem como tarefa a sobrecodificação do território, e mais geralmente, não
conserva a função centralizada que reparte a dominação ou determina o sistema.
O Estado agora se põe a serviço desse sistema social em que se destaca a
composição das classes. Ou seja, se a função do Estado é fazer com que se o
deseje ( o déspota, tanto mais amado quanto mais terrível ), o que se deve
desejar é a dominação pelo qual ele se institui, e isso não muda com o
capitalismo.
A visão do AE quanto
a isso me parece bem pós-moderna pois permite pensar a atribuição do Estado no
capitalismo como função estética de representação das relações sociais por/para
sujeitos-simulacros. Contudo o mais interessante agora será destacar a atuação
do momento clássico nessa axiomática do capital.
À página 203 do AE,
Guattari e Deleuze retomam a expressão pela qual deve-se reler a história
através da luta de classes, mas agora no sentido de que essa tarefa equivale a
ler a história em função da burguesia, a única “classe” real, pois lutando
contra os códigos impõe uma sujeição incomparável. Se o capitalismo surge do
encontro desses dois fluxos descodificados, o trabalho e o capital, a oposição
molar de classes no interior do sistema desempenha-se como mascaramento da
organização axiomática pela qual há uma só classe complementar a uma só
máquina.
Essa classe só se
opõe à não-classe, assim como os fluxos axiomatizados do corpo pleno do capital
se opõem aos fluxos livres do corpo pleno da produção desejante, o CsO. Mas a
axiomática se opõe também à codificação de fluxos que viria impedir o livre
jogo do capital. Ora, o momento clássico é o da formação da burguesia. Quanto a
isso, Deleuze-Guattari conservam a visão de Marx. O capitalismo é na sua
essência, como modo de produção, industrial, (AE, 183) definindo-se pelo
poder de converter a mais-valia de código em mais-valia de fluxo – abrir espaço
para os fluxos livres do mercado lá onde as operações econômicas estão fechadas
por sobrecodificações culturais, religiosas, trabalhistas etc.
Contudo, se os
momentos renascentista e clássico do capital comercial e financeiro são ainda
pré-capitalistas, seria simplista associar unicamente pré-capitalismo e
mais-valia de código, capitalismo e mais-valia de fluxo, ao menos quanto a esse
tópico. Mas a exposição do AE não me parece facilmente retraçável nesse ponto.
A princípio retém-se
a expressão de Marx: antes da máquina capitalista estar em seu pleno
funcionamento industrial, o capital mercantil e o financeiro entram em relação
de aliança com a produção não-capitalista remanescente do feudalismo,
instala-se “nos poros” do antigo Socius.
Nesse momento, que
poderia parecer estar sendo focalizado como tipicamente transicional, a moeda
como equivalente geral das trocas instaura já um reino da quantidade mas se o
que ela mede são os quanta particulares de uma unidade de trabalho abstrata, o
particular sempre permanece conversível como união formal de objetos
produzidos.
Troca e moeda
permanecem sobrecodificáveis, e vimos que na economia clássica assim como
descrita por Foucault, não obstante as oposições entre as escolas o que se
mantinha comum era o mesmo quadro em que a produção se instalava como que de
uma vez, na totalidade, como relação pré-fixada, pré-estabelecida na
convergência “natural” de necessidades e bens, a relação do valor surgindo
sempre como um meio.
Conforme o AE, o
capital deixa de ser de aliança para se tornar filiativo apenas quando o
dinheiro produz dinheiro, o valor é como que autopoiético, mercadoria e moeda
atuando como formas puras, meios conversíveis no universo determinante que é o
do valor. Agora o capital comercial e o financeiro assumem funções específicas
dentro de um esquema que relaciona apenas capital variável e capital constante,
isto é, a abstração se torna independente de qualquer particular.
Assim não parece
muito contraditória a referência anterior ( AE, 183), pela qual se
afirma, após a exposição do funcionamento bancário tal como implementada por
Suzanne de Brunhoff, que se em essência o capitalismo é industrial, seu
funcionamento é mercantil ou uma aliança de capital mercantil e financeiro.
Na exposição sobre o
funcionamento do sistema bancário intervém a consideração da diferença entre
moeda de troca e moeda de crédito, isto é, a dualidade do dinheiro, seja ligado
ao salário (corte-extração sobre fluxo de consumação) ou ao manejo empresarial
(corte-destacamento de cadeias econômicas sobre fluxos de produção). Agora
retoma-se essa dualidade para mostrar que não há medida comum entre o valor do
capital das empresas e o da força de trabalho como valor de salário, pois as
cifras são incomensuravelmente maiores no que tange aos valores operados pelas
empresas, e elas não se destinam a uma conversibilidade simples a produtos de
consumo mas ao investimento na produção, ao crescimento incessante.
Assim pode-se mesmo
supor uma tendência à diminuição da taxa de lucro. A margem de extorsão da
mais-valia diminui inversamente ao incremento de fatores convergentes no
sentido de subir o valor da força de trabalho assalariado. Mesmo assim o
capitalismo se mantém, pelo deslocamento sempre ilimitado dessa tendência, de
modo que faz de sua própria impossibilidade o motor do sistema.
Pode-se aqui falar de
limites imanentes ao capitalismo, de que essa tendência seria um exemplo.
Quanto a isso, não é contraditório afirmar que o capitalismo não tem limites,
pois esses são os limites que ele, por natureza, está sempre deslocando, mesmo
que Deleuze-Guattari utilizem a expressão “limite interno”, para esse limite
deslocado que está sempre se abolindo (AE, 184-5), expressão que
anteriormente vimos, num outro contexto, associado ao Édipo e indeslocável.
Aqui, porém, parece-me que a expressão está sendo utilizada com esse sentido,
relativo à imanência, ao funcionamento paradoxal do sistema.
Ora, a baixa
tendencial conduz a economia aos setores sempre mais progressivos, a fim de
deslocá-la enquanto limite interno. Esses setores estão no centro, não sendo só
mais progressivos mas também os mais automatizados. Concomitantemente, a
economia vai induzir, na periferia, investimentos destinados a cobrir a margem
de diminuição, isto é, na periferia deve-se produzir uma alta da mais-valia
pela exploração ilimitada da mão de obra local.
Assim a acumulação
não se produziu de uma vez, como primitiva, mas está sempre se produzindo, já
que é a periferia que, pode-se afirmar, efetivamente exporta capital para o
centro, não inversamente como se costuma supor. É por isso que seria simplista
limitar a mais-valia de código ao pré-capitalismo, pois se os códigos subsistem
é devido a que a máquina técnica pode organizar seus fluxos. As sociedades
pré-capitalistas sobrecodificam, o capitalismo descodifica, de modo que é o
capital que faz a máquina, não o inverso.
Essa operação de
descodificação, no entanto, libera fluxos e toma os próprios códigos como
fluxos. Assim, a ciência e a técnica têm seus fluxos de códigos liberados pelo
capital para que este possa engendrar uma mais-valia maquínica que unirá à
mais-valia humana, corrigindo a tendência e formando, ambas, o conjunto da
mais-valia de fluxo que é essencial ao sistema.
Pode-se por esse meio
constatar a singularidade do capitalismo, agora na relação que mantém com o
Estado. Assim, fluxos descodificados também se presentificam nas formações
estatais pré-capitalistas, como em Roma ou no feudalismo, circulação de moeda e
mercadorias, acúmulo de riquezas. Mas o Estado pré-capitalista se mantém, como
unidade abstrata, na função de refazer códigos sobre esses fluxos. E se as
coisas chegam a um ponto de mutação é porque tal função não pode mais ser
mantida.
Ao invés do
capitalismo implicar a obsolescência do feudalismo, o inverso é que ocorreu.
Nesse sentido se pode compreender porque é que a era despótica se instala de
uma só vez, mas o capitalismo depende desse longo intervalo que abrange a
Renascença e a Época Clássica. O que se relaciona ainda com a pergunta: porque
o capitalismo na Europa, se houve através da história tantos meios em que teria
sido possível a sua realização?
Os capitalistas
chegam sucessivamente, mas tudo o que eles introduzem não basta para determinar
o novo Socius, até que o capital possa se apropriar diretamente da produção,
isto é, pressupondo a burguesia como classe, todos os fatores da
ocidentalização que convergem no sentido de tornar efetivo o processo de
descodificação, o correr livre dos fluxos da produção e do capital. Ora, o
não-codificado de fluxos só se torna desejo pelo encontro de uma descodificação
generalizada, uma desterritorialização massiva e a conjunção desses fluxos
livres, o que pode, a meu ver, servir de balizamento a uma leitura da história
da burguesia no Ocidente.
Isso implica um novo
papel do Estado, pois ele se torna uma instância anti-produtiva a serviço da
extração da mais-valia, ao invés de uma instância de sobrecodificação dos
fluxos. O Estado se torna o complexo político-militar-econômico que organiza a
extração da mais-valia nas zonas periféricas, impedindo que se produza fora da
axiomática do mercado internacional, organizando também a mais-valia maquínica
no centro.
O Mille – Plateaux
(MPx) repõe a tese da forma-Estado, abstrato irredutível a suas formações
concretas, concebendo-o agora como unidade de composição ou meio de
interioridade, numa espécie de continuun formado pelos textos sucessivos, o
Tratado de Nomadologia e o Aparelho de Captura.
Conceituado como
Aparelho de Captura, o Estado opera a integração global, a redundância da
ressonância dos centros localizados das comunidades primitivas e a
estratificação territorial. Essa função o instala como limite da máquina de
guerra nômade e da máquina territorial primitiva, na medida precisa pela qual
elas o pressentem e o conjuram. Assim Guattari e Deleuze utilizam aqui essa
proposição que se encontra já na tese de Clastres, conforme a qual as
sociedades não estatais não o seriam por uma falta ou um menor grau de
desenvolvimento, mas seriam formações sociais que pressentem a possibilidade do
Estado e criam mecanismos destinados a inviabilizá-lo.
Contudo, a reposição
da tese da forma-Estado acarreta a oposição de Guattari e Deleuze às diversas
hipóteses que dele pressupõem uma origem, incluindo a de Clastres que a propõe
de modo ambíguo, conforme esquemas possivelmente utilizáveis (fator
demográfico, poder do profetismo). Opõem-se assim também às hipóteses de
Nietzsche, que compreendeu a infinitização das castas pelas genealogias
profundas e filiações intensas (AE, 159) e de Marx, que pensa o
surgimento do Estado como transição, desenvolvimento de forças produtivas com
diferenciação de forças políticas.
Ora, a reposição
dessa tese do Ustaat vai agora se relacionar à afirmação de uma topologia
social. As formações sociais, definindo-se por processos maquínicos, coexistem
seja intrinsecamente, por interação, ou extrinsecamente, por apropriação,
resistência ou metamorfose (um sistema se metamorfoseia em outro mas para
continuar a funcionar secretamente).
A topologia social,
como programa pelo qual se pode compreender um dado contexto histórico complexo
através da cartografia dessa coexistência, supõe uma tipologia que abrange as
formações. Com efeito, elas podem ser: sociedades primitivas (mecanismos de
conjuração-antecipação), sociedades de Estado (aparelhos de captura),
sociedades nômades (máquinas de guerra), organizações internacionais ou
ecumênicas (englobando formas sociais heterogêneas).
Aqui se retoma o
problema do nascimento do capitalismo, agora relacionado ao funcionamento
maquínico do Estado como estrato ou “Aparelho de Captura”. Assim não só as
máquinas nômade e primitiva conjuram o Estado despótico arcaico, mas também se
verificam mecanismos de conjuração nas cidades (“Villes”), feudais e “pós-feudais”
(Renascença e época clássica), destinados a evitar o Estado capitalista. São
mecanismos que inibem a conjugação geral dos fluxos descodificados do capital
mercantil e financeiro.
Se os mecanismos de
conjuração-antecipação se encontram voltados tanto contra o Estado quanto
contra o capitalismo, pode-se compreender que o capitalismo só se impõe ao
lograr unir-se ao Estado, o que se processa como criação desses Estados
nacionais que estão progressivamente se consolidando no período “pós-feudal”
como um todo. Resulta daí a formação das nações ocidentais, modelos de
realização para uma axiomática de fluxos descodificados.
A exposição sobre a
aparelhagem de captura é bastante extensa e detalhada, de que retenho apenas
alguns aspectos. O Estado é sempre constituído como espaço geral de comparação,
centro móvel de apropriação, sistema muro-branco buraco-negro que compõe o
rosto do déspota. Seus aparelhos de captura são a renda, o lucro, o imposto.
Mas o Estado apresenta dois pólos de captura: a) o imperial despótico; e b) a
esfera pública, em que a apropriação se torna privada.
Com o Estado, ao
invés de relações comunais objetivas, o laço se torna pessoal, as relações se
exercendo entre pessoas privadas , quando não mais se trata do pólo imperial de
sobrecodificação de fluxos mas sim do pólo capitalista de organização da
conjunção de fluxos descodificados.
Ora, esse segundo
pólo se estende sempre que os Estados evoluem, tanto no Oriente quanto no
Ocidente, e mesmo as cidades e feudos supõem, nesse sentido, um império,
apresentando variadas formas. O assujeitamento social como processo de
subjetivação lhes é comum, bem como o direito se torna subjetivo, tópico e
conjuntivo. É a evolução da sociedade privada, associada agora, finalmente, ao
capitalismo, que substitui a propriedade como expressão do laço de dependência
pessoal, pela independência de um Sujeito que constitui o novo laço.
Ao invés da
propriedade portar sobre terras, coisas ou pessoas, pelo direito, ela porta
agora sobre o direito mesmo. Ao invés de sobrecodificação de costumes (Império
arcaico) ou conjunto de tópicos (Estados evoluídos), o direito se torna a forma
e o caráter da axiomática (Estado Capitalista). Com o capitalismo o Estado não
se suprime, mas toma a forma de modelo de realização da axiomática, o que
define os Estados– nação, isomorfos por relação à axiomática do capital
(meta-economia), mas polimorfos por poder comportar, conforme a estratégia
internacional, todas as formas (totalitários, democráticos, liberais, etc).
Essa temática do
direito deve nos interessar particularmente por inserir-se no cenário do
período clássico, de modo a ressoar com certos conteúdos do Curso de Vincennes,
em que Deleuze expõe a filosofia de Spinoza. Compreende-se a relação entre esse
tema e as transformações em curso, no período clássico, nas teorias jurídicas e
políticas. Ora, Deleuze assinala a entrada nesse período, que ele designa no
Curso como constituindo o “Mundo Barroco” , precisamente pela implementação do
direito moderno. Aqui o personagem importante é Hobbes, que introduz a
transição do antigo direito natural ao moderno direito social.
Os fundamentos do
direito natural antigo são comuns às mais variadas teorizações até o “pós-feudalismo”,
mas pode-se assinalar os seus momentos fortes com Cícero (Antiguidade) e São
Tomás (Cristandade). O mais básico aqui é a concepção essencialista que define
a natureza das coisas. O direito é “natural” por se propor conforme a essência
que define o ser, a natureza mesma da coisa. Assim ser animal racional é o
direito natural do ser humano, ser racional é a lei de sua natureza.
Por esse meio nada
precede a sociedade, pois a boa lei, ou verdadeira lei, é a da natureza mesma.
O estado de natureza é aquele conforme a essência, na melhor sociedade, que é
aquela em que o ser humano pode realizar a sua essência.
Ora, o fundamento do
direito é assim o dever, pois todo direito tem por correlato um dever, como “officium”,
o termo latino que Cícero utiliza, algo como o dever funcional cujo cumprimento
é condição de realização da essência. Mas quem pode dizer qual é, em cada caso,
a essência? Quem tem a competência da essência? Na sociedade antiga, o sábio,
na cristã, a igreja. Em todo caso só quem possui a competência da essência pode
bem orientar a conduta da vida, sendo essa competência o conhecimento.
Com Hobbes, já no
mundo barroco, reverte-se a base mesma do direito natural, pois à definição do
ser pela essência substitui-se a definição pela potência. O direito de natureza
abrange assim tudo o que o ente pode, independente de se ter que decidir sobre
o que ele é. Mas desse modo o estado de sociedade precisa ser outro, não pode
se confundir com o estado de natureza, pois em sociedade existem interdições,
se todos fizessem tudo o que podem, quem subsistiria nessa guerra generalizada?
Ora, Deleuze mostra
assim que uma certa crítica que se costuma fazer a essa tese de Hobbes é
ingênua, pois ele não supõe que deve ter havido concretamente um tal estado de
natureza prévio ao de sociedade, ele só o supõe logicamente. E penso que se
pode inserir aqui o tema da reversão da teologia e do mito como fundo
constitutivo da episteme, pois a decalagem entre natureza e sociedade se
relaciona estreitamente com aquilo que, conservando o termo ainda que com outro
uso, designo ideologia.
Há agora espessura
crítica na constutividade conceitual da sociedade, ao invés de uma inscrição da
episteme na própria gênese do ser cujo conhecimento fundava a possibilidade de
saber. Contudo, se só posteriormente se poderá desenvolver essa proposição, por
ora deve-se observar que essa decalagem entre natureza e sociedade impõe um
devir como ascenção de um estado a outro.
Com efeito, o direito
como potência é o dado inicial, original. Mas é o dever que deve interditar
esse direito que impede a conjunção em sociedade, o dever é a defesa da
sociedade, ao invés de ser um correlato da essência.
Ao invés de um Adão
que perdeu seu estado original essencial de direito, temos o cidadão que
precisa asceder ao seu estado social de convivência. Resta a contingência dessa
operação de socialização, que não podia antes ser vista, nem proposta: é ela
necessária? Por quê? Mas restaram também as reações provocadas – Hobbes
adquiriu bem depressa a pior reputação e Spinoza, que quanto a isso lhe
permaneceu fiel, foi, como sabemos, excomungado.
Nesse mundo barroco
hobbesiano, o louco possui o mesmo direito natural que o são, mas não o mesmo
direito civil. Ora, para compreender qual é o meu direito natural, ninguém é
mais competente que eu, minando-se assim todo domínio de autoridade quanto à
essência, pois da potência só se “sabe” quando se sente que se a exerce,
compreendendo que se pode exerce-la ou não.
Spinoza desenvolverá
amplamente as consequências desse pensamento da potência. Ele vai afirmar assim
que não se pode ter conhecimento de um ser por sua definição, pela sua pertença
geral a uma espécie, mas apenas traçando a cartografia de sua potência,
compreendendo a variação do seu poder de afetar e de ser afetado, poder esse
que nada de prévio determina, que só se pode visar a partir da experimentação e
da observação.
Assim o estado de
sociedade, conforme Hobbes, resulta do consentimento, não da competência, da
adesão dos participantes, não de um conhecimento privilegiado. Ora, na
topologia social do clássico, em que penso ser possível observar a convivência
dos elementos do Estado evoluído e do capital em vias de formação, esse
consentimento se visava ao modo de representação monárquica. O Estado nacional
só poderia se fechar, em torno de um esquema de descodificação crescente
comercial e bancário, à custa da recodificação do protecionismo, do
mercantilismo e do absolutismo, que só designavam a liberação das trocas por
sua estabilização (sobrecódigo) na concretude do metal ou do poder central.
Quanto a isso,
Deleuze assinala o limite que para o pensamento de Spinoza representava a
democracia. Mas se a circunscrição do período barroco, quanto à topologia,
parece-me suficientemente determinada, resta a sua consideração mais geral, por
Deleuze, enquanto mundo.
O MPx, no texto sobre
o “Ritornelo”, aí onde se trata de caracterizar as artes clássica (arte da
terra), romântica (arte do território) e moderna (arte do cosmo), afirma que
jamais se poderia traçar um fronteira nítida entre o barroco e o clássico ( MPx,
417). É´ o mesmo modo de afrontar o caos, o um-dois rítmico que cria um
meio, depois conjuga os meios que se sucedem. Se um ruge no fundo do outro, é
no sentido em que ambos são extremamente ágeis nesse afrontamento, sempre
perigoso, do caos: a tarefa do artista-deus, a árvore da criação. Afrontamento
das forças da matéria indomada que é preciso sempre, por meio da imposição da
forma, fazer consistir em uma substância ou código, em todo caso o meio.
Não me parece haver
contradição entre essa asserção do Mpx e os estudos da Logique de la
sensation, que quanto a isso convergem com certos registros do Curso de
Vincennes e com o livro sobre Leibniz e o barroco (“A Dobra”), onde se
destaca uma compreensão do barroco por oposição ao clássico. Contradição que
seria uma conclusão extremamente simplista portando sobre uma obra como a de
Deleuze, parece-me ser possível observar que se é o mesmo meio de enfrentamento
do caos, pode não ser o mesmo regime, ou o mesmo “mundo” no sentido de seus
pressupostos ou de sua topologia, do que aquele da Antiguidade ou da
Renascença. Assim a expressão “época clássica” não iria se aplicar agora com
tanta conveniência quanto “mundo barroco”.
Assim em Logique
de la sensation, que retoma temas expostos no Curso de Vincennes, Deleuze
observa o corte entre a arte clássica do quinhentos – representação orgânica,
sempre relacionada à essência como sua manifestação – e aquilo que surge a
partir do século XVII, como liberação da sombra e da luz, em um espaço
designável agora como o do ótico puro. Ora, esse clássico, como sendo o espaço
da representação orgânica, é comum a Renascença e Grécia. Já o espaço ótico
puro é comum ao mundo barroco do século XVII e à arte bizantina.
Compreender essa
compartimentação nos permite alcançar a unidade profunda que a terminologia de
Deleuze, “mundo barroco”, introduz como se fosse agora um todo complexo,
fechado, em que vários níveis, políticos, sociais, epistemológicos e
artísticos, se conjugam e ressoam. O mais proveitoso me parece iniciar pela
problemática matemático-filosófica envolvendo a conceituação do infinito no
prolongamento da conceituação do ser pela potência.
Esse prolongamento se
instala, no Curso de Vincennes, no exame da questão filosófica da individuação
em Spinoza. O que Deleuze introduz quanto a isso são duas noções importantes,
de que retenho aqui apenas o essencial `a compreensão estética em causa, já que
teremos oportunidade, posteriormente, para uma aproximação mais detalhada da
filosofia de Spinoza.
Trata-se da noção de
indivíduo como potência e da noção de indivíduo como composição de relações.
Particularmente quanto à composição de relações, ela tanto se designa no
processo de individuação, as relações que compõem o complexo individual, por
exemplo, relações intra-orgânicas, relações com o meio, relações perceptivas,
etc., quanto se estende entre os indivíduos. Observa-se que no que tange ao
processo de individuação, do ponto de vista das relações não se pode considerar
o indivíduo como substancial, mas já se o pensa numa complexão que envolve o infinito.
Esse é um modo novo
de pensar a noção de relação. Pois a relação aqui é independente dos seus
termos, relação absoluta. É´ isso um peculiaridade do século XVII, ter proposto
a noção de relação independente dos termos que define o âmbito do cálculo infinitesimal,
o domínio do infinitamente pequeno. Nesse domínio conserva-se a independência
da relação, mas de modo que a tendência ao limite torna tanto a relação quanto
o infinito imanentes ao finito.
Esses três termos –
infinito, relação, limite – assim como propostos na concepção do cálculo
característica do século XVII, tornam-se coextensivos à matemática e à
filosofia. O infinito se define por esse certo tipo de relação ao infinito
portada por algo finito. Assim o século XVII vê o indivíduo a partir do limite,
como relação que o compõe em si e com os outros indivíduos, pondo por esse meio
tanto o finito de sua limitação quanto a infinitude de suas composições.
Conforme Descartes, pode-se conceber o infinito, mas não compreendê-lo. Pode-se
alcançar sua razão de ser conceituado (razão de conhecer), mas não seu modo de
ser atuado (razão de ser).
Ora, a tendência ao
limite define também a potência, em Spinoza, como tendência a perseverar no
ser, o Conatus. Mas como se está assim concebendo o limite?
O “peras”
grego-platônico se articula como contorno da forma. A essência, o indivíduo,
são assim a forma reportada ao contorno. Isso exatamente do mesmo modo que o
tátil-ótico da pintura clássica, o tátil que é contorno, o ótico que é a
essência enquanto visível-compreensível. O exemplo aristotélico da estátua o
expressa bem. A estátua é a forma que se torna visível por seu contorno tátil,
mas a visibilidade do contorno só se pode assegurar por que o que ela deixa ver
é uma forma, uma essência.
O molde tátil torna
possível ver a forma que torna possível que o que se está vendo seja um molde,
esclarecendo-se assim a relação entre forma e matéria.
Já o estoicismo se
introduz em um outro ambiente grego, não “clássico”, o estoicismo mesmo
representando o elemento oriental dentro do mundo grego. Nessa concepção, a
natureza não procede por moldagem, pois o limite da coisa não é o de sua forma,
mas o de sua ação. O oriente também se põe na filosofia através de Plotino,
deslocando o limite-contorno da forma e instaurando algo que Deleuze vai
designar limite-espacialização. Enquanto o mundo clássico pensa o limite no
espaço, e o espaço como algo dado, Plotino concebe a espacialização como
desenvolvimento da gradação da luz relativamente à sombra. Assim ao invés do
espaço como um dado estático, temos o espaço como resultado variável, relativo
à espacialização.
Estudando o período
helenista, já observamos a convergência de Plotino com a arte bizantina. Aqui
anula-se o tátil justamente por deslocar a relação de profundidade, desde o
interior do quadro, ao espaço entre o mosaico e o espectador. Podemos lembrar
agora como o helenismo determinava o quase-pensar do sujeito, mas ele não o
desenvolvia plenamente, assim como se o constata desde o pós-feudalismo.
Ora, se o século XVII,
com Descartes, define a região problemática do sujeito, Deleuze afirma que o
problema da individuação põe essa noção característica da época, a de infinito
atual – o infinitamente pequeno pertencendo aos corpos finitos. Logo, põe no
mesmo lance uma transformação da noção de contorno. Justamente o que a
liberação da luz no espaço ótico puro torna importante é o papel do fundo, que
desde Tintoretto e Caravaggio se torna sombrio, marrom-avermelhado.
A forma ótica surge
do fundo, não do contorno, isto é, surge do regime de luz e sombra, da
espacialização que o artista impõe ao quadro pelo manejo desses dois elementos,
não de um limite traçado pela linha-contorno de sua forma.
É o conjunto do
quadro que anula tanto as distâncias quanto as proximidades, esses dados que
tornavam o que se via “tátil”. Tal anulação se deve a uma relação constitutiva
da luz-claro com a sombra-escuro. Os acidentes não manifestam a essência, são
puros acontecimentos (graça ou milagre). Surgindo do fundo, a figura, no ótico
puro, não se relaciona a um molde externo e é interessante o paralelo que
Deleuze estende com Buffon. Procurando compreender a produção do ser vivo,
Buffon propôs essa noção, que ele mesmo considerava contraditória, ainda que
adequada, de “molde interno”, que penetra a massa e informa os seres vivos.
Como resultado da
espacialização, que se faz pela relação de sombra e luz, o espaço ótico puro do
barroco também se harmoniza com a concepção de Newton sobre a luz, que enfatiza
a tonalidade (contraste de preto e branco, saturação), concepção que se opõe à
que virá a ser a de Goethe enfatizando o valor (oposição de verde e vermelho,
azul e amarelo, frio/quente).
Ora, essa dualidade
de claro-escuro corresponde a um “intimismo”, define um espaço interno, “foyer”,
que se estende ao mundo, reintroduzindo a eventualidade de uma narrativa. A
interioridade que vimos, anteriormente, como meio de afrontamento do caos,
comum `as artes clássica e barroca. Mas compreendemos agora como é que não pode
ser o mesmo regime, pois o clássico o consegue pela externalidade do molde que
define o limite de uma interioridade enquanto essência, e o barroco estabelece
o quadro mesmo enquanto essa interioridade da qual a figura emerge do seu
próprio fundo sombrio, o contorno é a própria espacialização.
Mas assim o barroco
instaura uma relação essencial da arte com a filosofia, o que se pode ver com
Leibniz, pois “o essencial da mônada é ter um fundo sombrio” ( A Dobra, 88). E
desse fundo a mônada tira tudo, nada vem de fora. Ora, aqui se torna também
proveitosa a aproximação com a arquitetura. Pois trata-se de repor na partição
arquitetural caracteristicamente barroca de fachada e interior, aquela que se
estende conceitualmente entre o exterior da matéria (lei física do fenômeno) e
a interioridade da mônada (princípio metafísico da vida).
A arquitetura barroca
autonomiza a fachada tanto quanto o interior, de modo que a relação entre esses
elementos deixa de parecer “natural”, precisa agora ser pensada em termos de um
novo sistema de harmonia, que a partição do interior em dois andares vai
resolver – o andar inferior encarregado de algum modo da fachada, pelo menos
por se manter no mesmo nível, e o andar superior permnecendo puramente
metafísico, mas ambos pertencentes ao mesmo mundo, à mesma residência.
A dobra arquitetônica
dos dois andares, e a que corta a relação da fachada com o interior, ressurge
porém na pintura, como linha de luz que ora opõe claro/escuro, ora as trevas e
o fundo. Mas ela se instala por todo o mundo barroco. Está na música, que sobrepõe
a harmonia verticalizada, proeminente, em relação à proliferação melódica das
horizontais “menores”. E mesmo na vestimenta: as ondas infláveis do calção
renano que tem forma de saia, o transbordamento da camisa, a grandeza exagerada
do colarinho.
O barroco é um
verdadeiro sistema estético da dobra, que prolonga as artes tornando-as Socius,
espaço público que a cidade-cenário do teatro povoa de bailarinos.
Ora, a dobra
filosófica inaugura essa região que o novo sistema leibniziano faz localizar
entre os dois andares, zona de inseparabilidade entre o mundo – atualizado na
alma e realizado no corpo – e o “eu” que se torna constituído nessa nova
relação público-privado em que às almas privadas pertence já um estatuto
público. A dobra é efetivamente essa região.
Penso que já há
elementos suficientes para afirmar que, tanto quanto Foucault, Deleuze expressa
uma irredutibilidade desse período, o que se pode reter dessa terminologia “mundo
barroco”. Com efeito, em vários lugares Deleuze mostra que certas concepções
como a de limite atual, ou de interioridade “dobrada”, são peculiares a esse
período e que é custoso compreende-las hoje, ou mesmo reconstitui-las.
Topologicamente
entrelaçando a escalada do capital dentro de uma evolução do Estado que
articula as formas-cidade com o processo de formação das nações, lugar da
partição público/privado sem que se tenha instaurado ainda a “Subjetividade
global” de que fala Marx, relacionada ao espaço público já investido pela
máquina capitalista (1 MPx, 564-5), não parece contudo que se trate aqui de “mundo
barroco” como de uma formação transicional. Em Guattari e Deleuze ele apresenta
uma autonomia, como um contexto topológico preciso, que se pode de um modo ou
de outro, reconstituir.
Mas sobre esse ponto
algumas considerações me parecem necessárias. Mesmo que essa aproximação do
pensamento de Guattari e Deleuze esteja sendo relacionada, circunscrita mesmo,
como embasamento ao tema do mundo barroco, assim como está pode parecer algo
contraditória. Contudo, creio que a teorização social do AE e do MPx se
sustentam com muita clareza e coerência. Se o desenvolvimento dessa asserção
deve acarretar maior elaboração, o que se deverá implementar posteriormente,
desde já me parece preciso e suficiente mostrar que ela não apresenta apenas
uma explicação da sociedade, mas distingue três níveis de pesquisa:
a.
Nível da Nomadologia – nível que analisa o estatuto dos agenciamentos sociais por relação à
posição da máquina abstrata. Assim, aqui os conceitos operacionais são o espaço
liso (máquina de guerra nômade) e o espaço estriado (aparelho de estado),
conforme o agenciamento esteja constitutivamente voltado à face
desterritorializante ou estratificante da máquina abstrata. A análise não opera
uma oposição, mas uma relação diferencial em vários setores de criação (social,
artística, científica, etc).
b.
Nível da Ontologia Social – nível da
(esquizo) análise econômica – aqui trata-se da
esquizoanálise aplicada às máquinas social e desejante. Assim esse nível possui
duas vertentes de aplicação. Há a esquizo-análise em sentido estrito, isto é,
lidando diretamente com a produção desejante, ou em linguagem comum ,
tratamento “clínico” de pessoas ou grupos. Há também a análise da produção
social no sentido de sua compreensão histórico-econômica enquanto máquina,
determinando-se pela sua relação com os fluxos de desejo (territorial –
codificação primitiva; bárbara – sobrecodificação despótica; civilizada –
descodificação capitalista).
c.
Nível da Topologia Social – (análise
política) – supõe-se um tipologia das formações
sócio-políticas (nômade, primitiva, estatal, ecumênica-internacional), sempre
em coexistência heterogênea, como inerente a qualquer porção da realidade
histórica de que se deva compreender a composição.
Qualquer dos níveis
não contradiz o outro, eles podem se integrar em proximações de complexidade
crescente. Considerando o exemplo do barroco, vemos que, assim como qualquer
fase, se o descreveu topologicamente como composição, não como transição. Já a
análise econômica o situou como estágio evoluído da máquina social de
sobrecodificação (já no pólo público, não arcaico), assim tampouco, creio, como
transição entre dois modos de produção.
A meu ver elide-se
por esse meio o dilema que a perspectiva marxista original parecia ter deixado
suspenso, quanto a uma teoria das transições, já que por um lado a coexistência
sempre ocorre e por outro, nem se pressupõe um problema de anterioridade
(hipótese do Urstaat) nem deixa de haver, em cada caso, meios para compreender
a formação maquínica dominante, através da análise de sua relação (numênica)
com os fluxos desejantes (corpo pleno).
Ora, haveria
oportunidade aqui para uma apreciação da novidade epistemológica que essa
teorização em vários níveis introduz. Pois trata-se, nada menos, de um pensamento
que nem lida com algo como uma transição, nem com algo como uma idéia, no
sentido de uma identidade definidora totalizante. Logo, tampouco com um modelo
teórico que abrange de modo linear “o” objeto, mas se articula de modo complexo
tratando uma multiplicidade.
Assim os vários
níveis decorrem das problematizações consequentemente múltiplas que a
multiplicidade pode formalizar, deslocando o campo disciplinar tradicional que
se define, precisamente, por relação a identidades que se trata, enquanto tais,
de explicar por uma relação totalizante num único nível (que já não teria
sentido considerar “nível”, mas todo).
É verdade que essas
considerações, como afirmei, precisam ser mais detalhadas, mas parece-me que o
que vimos até aqui pode oferecer uma via abrangente de compreensão ao
pensamento de Guattari e Deleuze.
A Sociedade de Exclusão
Na entrevista a
Claire Parnet sobre Foucault (Conversações, 127), Deleuze revela que a
História da Sexualidade (HS) comporta um hiato de oito anos entre A Vontade de
Saber (VS) e os outros dois volumes. Nesse hiato instalava-se um impasse.
Foucault teria descoberto, através de suas análises anteriores dos mistos
saber-poder, uma irredutibilidade do poder que ao mesmo tempo o constrangia e
fascinava.
Se o poder faz ver,
possibilitando também a linguagem, como escapar ao destino do homem infame,
esse homem moderno que sempre escolhe o lado do poder? Creio que se poderia
inserir aqui uma observação sobre o salto, do moderno ao pós-moderno, desse
tratamento do homem comum, que no início do século era o Ulisses de Joyce e
agora se estava sobrepondo ao próprio homem do Dasein.
Contudo, se essa
consideração pode ocupar algum estudo posterior, aqui observo que Deleuze
prossegue, no sentido de mostrar que Foucault pressentia a linha do Fora, como
necessidade imanente à obra, sem que a obra mesma, até aí, houvesse
possibilitado transpô-la, essa terrível linha que se encontra no limite, da
razão, da existência, mas que só libera o pensamento e a vida por sua
transposição. O pensamento é o enfrentamento dessa linha.
A saída desse impasse
se encontra na retomada da História da Sexualidade que é, ao mesmo tempo, como
que um outro encaminhamento do projeto. A solução que Foucault teria encontrado
consiste em dobrar a linha, não para conjurá-la, mas para poder pensá-la sem
ser destruído por ela. A dobra é, precisamente, uma Arte de Viver.
O que não significa a
volta ao “Sujeito”, como se Foucault houvesse renunciado aos seus próprios
resultados, mas justamente a descoberta do meio de pensar a realidade do ser
humano sem implicar a metafísica de que o sujeito é sempre um avatar. Assim,
confundir o rumo do projeto foucaultiano com o retorno ao sujeito é desconhecer
o que opõe as noções de subjetividade e subjetivação.
A dobra, como lugar da
subjetivação, se distingue completamente da moral, sendo ética e estética. A
moral participa do saber-poder. A subjetivação é a produção de modos de
existência, de novos estilos de vida, conforme a expressão de Deleuze sobre
esse conceito de Foucault.
Examinando o texto “O
que está em jogo”, da VS, observa-se que Foucault opõe a sua concepção de poder
àquela que designa “jurídico-discursiva”. Enquanto essa concepção lida com uma
oposição simplista entre poder e desejo, conceituada ao modo de interdição, para
Foucault isso só revela que o poder assim se mascara para tornar-se aceitável,
mesmo em sua forma negativa.
A tese de Foucault,
contudo, não se inclina para o diretamente oposto a isso, que seria a hipótese
de que a lei é constitutiva do desejo. A questão é então liberar a concepção
que se possa ter do poder, ao termo de uma analítica, do seu laço conceitual
com a lei, com o direito.
Esse laço tem sua
justificativa histórica na imagem que se implantou do poder, assim como
exercido na monarquia. Quanto a isso pode-se estabelecer uma continuidade entre
esse trecho da VS e a série de conferências na Puc (A verdade e as formas
jurídicas – VFJ).
Tratava-se, nessas
conferências, após a introdução do conceito nietzscheano de genealogia, de
mostrar como a técnica de inquérito, como forma jurídica, surge na Pólis grega.
Foucult empreende aí uma leitura do Édipo em termos de uma transposição
literária das modalidades discursivas associadas a essa nova técnica, o teatro
grego registrando as inovações práticas e discursivas surgindo no social. Vimos
já a que isso se relaciona, isto é, ao deslocamento das formas arcaicas do
exercício de poder, que constituíam o domínio mágico-religioso, pelo conjunto
de instituições características das sociedades políticas.
Foucault mostra então
que após o recuo das sociedades políticas da Antiguidade, à era feudal, as
formas de inquérito, o exercício do direito instituído por leis civis de cuja
manutenção se encarrega o Estado, não são observadas. Pratica-se formas
ordálicas, ou puramente simbólicas, de julgamento, sem relaciona-las `a
qualquer concepção jurídico-estatal, assim como se os litígios fossem
concebidos como problemas entre particulares, problemas estritamente locais que
no máximo deveriam fazer intervir a comunidade para solvê-los. Somente por
volta do século XII ressurgem na Europa as técnicas de inquérito que sempre
estão associadas a uma concepção de direito como atribuição do exercício de
soberania. Ora, o importante a reter aí é que essa concepção alicerça, vice-versa,
o poder no exercício do direito, como se o poder fosse a competência desse
exercício, logo, algo estatal, a essência ou a razão de ser do funcionamento do
Estado.
Fazer crer que o
negativo do direito é a interdição, no sentido de que é o que o poder pune ou
evita, eis o correlato dessa concepção do poder como exercício judiciário-legal
do Estado, monárquico ou democrático, sendo que para nós, a justificação
histórica dessa concepção devém da memória conservada da monarquia, desde esse
período quase-pós-feudasl no século XII, quando estão ressurgindo as monarquias
nacionais e lentamente sobrepondo-se ao poder papal, como já examinamos
anteriormente.
Assim o sexo, em sua
relação com o poder, se implementa na mesma concepção que toma essa relação
como exercício de soberania, como imposição do exterior, ou interiorizada, da
lei. A Vontade de Saber (VS) ressoa assim com VFJ, pois se lá trata-se
de compreender as tecnologias do sexo, isto é, do controle da sexualidade por
parte da sociedade, e isso implica uma teoria do poder a ultrapassar e uma a
construir, é exatamente esse o percurso do VFJ, construir ou reconstituir as
transformações históricas que deslocaram essas formas puramente jurídico
-exteriores do exercício do poder.
Assim VFJ põe em
evidência a impossibilidade de interpretar as transformações ocorridas na
formação da sociedade burguesa, desde o pós-feudalismo até a atualidade, e mais
especialmente, desde a época clássica, nos moldes de uma teoria jurídica do
poder como soberania. Trata-se então não mais de interrogar o Estado, os
mecanismos de sua constituição e funcionamento, mas o “Método” , como prescrito
pelo texto assim intitulado em VS, envolve a compreensão do poder como “multiplicidade
de correlações de força imanentes ao domínio onde se exercem e constitutivas de
sua organização” ( VS, 88).
Ora, na Introdução ao
Uso dos Prazeres (UP), o volume dois de HS, Foucault discorre sobre o que
determinou a necessidade de um terceiro “deslocamento”. O primeiro havia sido
constituído sobre as práticas discursivas que o articulavam como tal, por
relação à algo como a descrição do progresso dos conhecimentos. A seguir, o
deslocamento do âmbito jurídico por uma analítica das relações múltiplas,
estratégicas e técnicas, de articulação do poder. Mas HS não poderia evitar que
à formação dos saberes sobre a sexualidade e os sistemas de poder que regulam
suas práticas, sobreviesse a necessidade de interrogar as formas pelas quais os
indivíduos “podem e devem se reconhecer como sujeitos dessa sexualidade” ( UP,
10).
O termo “sujeito” não
deve induzir a erro. Pois se o deslocamento a operar agora se relaciona com a
pesquisa das formas e modalidades da relação consigo mesmo, é no sentido de
compreende-las como aquilo através de que o indivíduo se constitui como sujeito,
isto é, como ele sobrepõe a sua realidade desejante enquanto fator de sua
identidade mesma.
O domínio é portanto
o da subjetivação, o deslocamento refere-se a recusar contar a história das
figuras de subjetividade que se sucedem, relativas ao seu meio de
repressão-condicionamento, para procurar entrever os processos pelos quais os
indivíduos são levados a constituir pela sexualidade a sua dobra existencial,
sua auto-hermenêutica, pois são eles que não apenas investem os papéis que
desempenham nos jogos de verdade do desejo, mas que constituem os jogos nos
quais se reconhecem como seres desejantes, “homens do desejo”.
O que acarreta a
interessante proposição de Foucault, de que se ainda assim se trata de
história, não se trata porém de um trabalho de historiador. Mas isso porque
essa história só se estende como protocolo do que é na verdade um exercício
filosófico engajado na tarefa de liberar o pensamento daquilo que ele
silenciosamente pensa ou aceita pensar, possibilitando assim que pense de modo
novo ( ou que comece efetivamente a pensar).
Considero importante
o exame desse texto do UP, porque se novamente ocorre a oscilação
terminológica, ou um pouco da poesia de Foucault, pode-se aqui detectar que
isso funciona como um uso anexato dos termos, o que não implica nenhuma
contradição simplista nem um espaço demasiado amplo de ambiguidade, mas
justamente a margem de manobra precisa do sentido que eles inauguram.
Foucault afirma então
que a história da sexualidade não é uma análise de comportamentos ou idéias,
sociedades e ideologias, mas “as problematizções das quais o ser se dá como
podendo e devendo ser pensado, e as práticas a partir das quais essas
problematizações se formam”.
Arqueologia como
analítica das problematizações, genealogia como analítica das práticas e
transformações que as formam. Mas agora também “estética da existência” como
história das problematizações éticas, feita a partir da interrogação das
práticas que foram efetivamente sustentadas pelos indivíduos em relação a si
mesmos, para mostrar como os prazeres sexuais foram problematizados através
dessas práticas. Assim a arqueologia não é uma arte. Mas o rumo da subjetivação
estava para se tornar uma estética.
Para nossos
propósitos, contudo, uma vez que se relacionam aqui à reconstituição da
sociedade do período clássico, conforme Foucault, é à VS que devemos nos
reportar, pois os volumes II e III, salvo referências muito esparsas, da HS,
concentram-se em torno da Antiguidade. Assim empreendo agora o exame do
conjunto de referências sobre esse período específico, que Foucault assinala
entre o final do Renascimento e a Revolução Francesa.
Cotejando as três
histórias, – da loucura, da sexualidade e das prisões – observa-se que
assinalam, geralmente, dois núcleos sobre que se devem fazer intervir os
exemplos e analisar as consequências. Um deles é o “evenemencial”, por assim
expressar. Aqui sobrepõe-se fatos, principalmente relacionados à emissão de
certos documentos como regulamentos de instituições, projetos em âmbitos
localizados, etc., estabelecendo entre eles relações de sentido, não sem
submetê-los a uma leitura meticulosa. Mas deve-se também traçar esquemas,
localizar as regiões que por sua inteligibilidade irredutível, autorizam e
confirmam a leitura.
O fato marcante que,
quanto ao século XVII, é da mesma ordem na História da Loucura (HL) e na
História das Prisões (HP), é o “Fechamento”, “Enclausuramento” ou “Internação”,
esses termos que no Brasil traduziram, alternadamente, o “Renfermement” – que,
em todo caso porta o epíteto de ser “Grande”, no sentido de que na ordem dos
fatos atingiu os mais diversos setores sociais e na ordem da trama modelou a
feição de uma era.
Qualquer que seja o
termo escolhido para traduzi-lo, o Renfermement é a linha de exclusão
que divide a sociedade clássica, assim como a linha de luz da pintura barroca
secciona o quadro, mas socialmente exercendo-se como a linha entre o que é
normal e o que não é, como o contorno das ações racionais, ações de segunda
aproximação, para transpor de modo algo humorístico o famoso termo de Bachelard
acerca dos objetos científicos construídos, isto é, ações que se desprenderam
de sua naturalidade intrínseca e se investem como ações sociais tendo sua
inteligibilidade forçosamente relacionada ao estado de sociedade.
O louco, o doente –
cujo modelo nessa época é o leproso – não ascedem a esse estado, tudo o que são
permanece moldado pelo que a natureza lhes prescreveu. A sociedade clássica os
exclui através de instituições precisas, que não podem ser localizadas no
exterior desse domínio epocal.
Assim se são estas
instituições que prescrevem um regime de exclusão sem precedentes, mas que
tampouco se confunde com o regime inteiramente outro do momento moderno
posterior, é preciso compreender a sua localização aí, tanto em termos intrínsecos
quanto extrínsecos.
Em termos
intrínsecos, pelo qual essa tarefa nos proporciona o acesso a um mundo
irredutível. E extrínsecos, pelo qual se o compreende em termos de
ocidentalização, se o integra, como fenômeno de desvio ou ruptura, ou de
constituição, na construção desse novo conceito, já agora não mais tendo seu
vazio, o testemunho de que é preciso construí-lo, mascarado por um narrativa
neutra, “histórica”, que o pressupõe ao invés de explicar.
O espaço de exclusão
da era clássica atingiu não apenas loucos e doentes mas todo tipo do que se
poderia considerar desvio em relação ao normal – mais propriamente, tudo o que
portava a rubrica do não-ativo: desocupados, violentos, tantos alvos regionais
do isolamento. A instituição que prescreveu o espaço de exclusão foi o
internamento (renfermemente) , isolando-se atrás de espessos muros aquilo que a
sociedade não queria ver.
A finalidade do
internamento era concebida como “correção” . Quanto à prática judiciária ela se
distingue pelas injunções do suplício, injunções extremamente pesadas e
meticulosas, o direito conceituado como resposta a uma infração.
A experiência
clássica de segregação, no que se relaciona à loucura, mantém o esquema dual
simples (normal-desviante) durante o século XVII. Somente na curva entre o
clássico e o moderno, já no decorrer do século XVIII, pode-se constatar o
retorno de um imaginário do excluído, onde as figuras do discurso e do desejo
voltam a se povoar desses motivos do estranho, algo como um “revival” da
Renascença mas já se tendo feito desse estranho a realidade do excluído.
Assim, na época dessa
curva, observa-se que não existe loucura entre os selvagens da América,
conforme Rush , ou que a loucura não é uma perturbação natural mas um efeito
das corrupções sociais, conforme Tuke .
Nessa curva
transicional entre os séculos XVIII e XIX, o que está retornando é um
pensamento da preeminência da natureza que, se continua oposta à sociedade, não
mais coextensiva a ela como se verificava até o final do feudalismo, é agora
sob o signo da valorização, não da negatividade. Certo, são vistos apenas como
antecipações o “pressentimento”, comum a Tissot, Morel e Buffon, desses
conceitos tardo-clássicos de degenerescência que, somente moldados sob a
orientação positivista do século XIX, deverão conduzir à efetiva transformação
da noção de loucura, desde o “desatino” clássico à “alienação” moderna.
Mas já pela
localização tardia da referência desses autores, creio que se pode, na leitura
de HL, identificar a era clássica numa exterioridade perfeita em relação à
moderna, de modo a acomodar facilmente o que é anômalo na região consequente da
transição.
No saber do “desatino”,
o conhecimento médico está entre outros, é a sociedade que desterra, não há
necessidade de uma instância especializada a que devesse ser atribuída a
competência do traçado entre o normal e o desviante ou anormal – nesse âmbito
ainda nem é legítimo falar de loucura como doença, pois ainda se está no
domínio da percepção em que “deslizamentos qualitativos podem ocorrer sem que
se altere a figura de conjunto” ainda não se chegou ao “sistema conceitual” ou
à sintomatologia.
No exercício clássico
de sociedade, quem não poderia ver de imediato isso que não é normal, isso que
não é constitutivo desse mesmo exercício? O desatino envolve um saber, comum a
todos os que participam do exercício social, mas esse saber é também requisito,
ao mesmo tempo índice, dessa participação, no círculo inescapável desse sistema
de exclusão.
A concepção moderna
da alienação já exige para a rubrica do louco um “estatuto médico” . Assim, se
o internamento clássico reunia, por trás do muro que separa o espaço de
exclusão do espaço de sociedade, tudo o que não se pode considerar normal, o
louco mas também o mendigo ou o delinquente, numa palavra, os desocupados, o
asilo moderno é agora o espaço reservado à loucura onde, ao invés de correção,
se pensa em termos de tratamento.
Aquilo que, contudo,
ainda bem no interior do século XVIII, requisitou de dentro do saber a
qualificação de um conhecimento, o Grande Medo que agora se alastrava a
propósito do que devia haver, do que havia desde o século anterior se acumulado
por trás desses muros, que até então pareciam suficientes na sua pura
superficialidade para tranquilizar as consciências, aparece ao modo quase
circunstancial de uma peripécia.
O médico foi
requisitado então como guarda e protetor relativamente ao potencial de contágio
da interioridade social pela exterioridade monstruosa dos espaços de exclusão,
isto é, a medicina não foi requisitada desde sempre como árbitro, para
diagnosticar a anormalidade e sim para garantir que se mantivesse fora. Foram
necessários vários fatores outros para que dessa requisição circunstancial se
verificasse um verdadeiro salto no sentido de transformar as relações da sociedade
com a loucura, relações que envolvem o estatuto do conhecimento médico e o
lugar sócio-político da medicina posteriormente ao clássico.
Já na história da
prisão ocorre algo um pouco afastado desse ritmo dual presente ainda na
história da loucura. Agora trata-se de localizar a origem do panoptismo, o
tudo-ver característico da sociedade disciplinar-moderna, como dispersa já nos
interstícios da prévia ordem do clássico, assim como o esquadrinhamento modelar
do espaço da peste já se verificava no âmbito mesmo em que evolviam os
procedimentos de exclusão da lepra.
Assim, duas
modalidades convivendo no mesmo período, não obstante excludentes, como modelos
de relação da sociedade com a doença. O modelo da lepra seria o oficial, como
pura e simples exclusão. Mas nos poros da sociedade clássica começa a surgir a
necessidade de outra forma de relação a partir do modo de ser da peste que
exige um tipo de esquadrinhamento, observação constante, envolvimento com
aquilo sobre o que o poder social deve se exercer, não apenas como uma ordem de
exclusão exercendo-se ela mesma de fora daquilo sobre o que ela incide.
Não que deixe de
subsistir a possibilidade de configurar estritamente o espaço de exclusão da
época clássica e aquele do esquadrinhamento moderno. Mas sim que na exposição
do VP os acontecimentos que inauguram as instituições modernas de disciplina
coalescem como precipitados desse fundo de coexistência. O que em nível macro
se transforma está nas qualificações de princípio. Lá, no clássico, um poder
que se exerce como punição, do exterior, sobre o anormal. Poder que visa
suprimir a anormalidade, o princípio da masmorra, trancar, esconder, privar de
visibilidade. Poder que, exercendo-se do exterior, visa e julga só o que
aparece no exterior, o comportamento anormal. Aqui, na modernidade, um poder
que se exerce como observação, do interior. Não se vigia apenas o que já
efetivamente se desviou, mas aquilo que pode vir a se desviar, logo,
eventualmente, deve-se vigiar tudo.
Esse poder moderno
não julga a exterioridade do comportamento, mas a interioridade da disposição.
É o princípio do panoptismo, não mais o da masmorra. Agora o poder não se
dirige ao que interpela, mas ao que subsume, poder que não se vê mas que a tudo
vê.
No projeto
arquitetônico que Bentham introduz, o seu “panóptico”, como casa de detenção
ideal, articula-se como um espaço central não visível de que se pode observar
todas as celas circundantes, alvo da visibilidade, não se restringe, contudo, a
essa aplicação localizada, a prisão .
Torna-se um princípio
ou método institucional generalizado pelo qual os assim observados sabem que
alguém os observa mas não sabem quando, quem ou como. Portanto desenvolvem um
estado consciente e permanente de autonomitoramento, autocontrole,
autovigilância, realizando na prática o sonho de autoexame constante que havia
sido o dos sacerdotes cristãos. Poder automático que não espera a exceção,
abrange a generalidade.
Assim VFJ desenvolve
mais amplamente a observação do espalhamento desse princípio pelo campo social,
a escola, a fábrica, o hospital, com as transformações que pouco a pouco vieram
a configurar o espaço moderno, disciplinar e privatizado. O que se verifica
então é que esse poder que na sociedade moderna se torna “oficial” ,
característico, exercido pelas instituições mesmas da soberania, se
desenvolviam nos interstícios do clássico apenas informal e localmente, por
parte de grupos burgueses, “sociedades” civis notadamente de religiosos ligados
a seitas protestantes.
Esses grupos
desempenham um papel múltiplo, encarregando-se do esquadrinhamento disciplinar
instituído sobre/por seus membros, ora como canalização da hegemonia, desde os
códigos da nobreza para os quadros da burguesia, ora como formação de “consciência”,
isto é, da subjetividade responsável e ascética cuja descrição faz ressoar as
pesquisas de Foucault com os resultados de Weber acerca das relações da ética
protestante com a consolidação do capitalismo, ora como defesa do grupo, algo
que já examinamos anteriormente, contra a extrema severidade e minúcia com que
se exerciam os mecanismos jurídicos clássicos de penalidade sobre a totalidade
social.
Assim, como vimos, se
a história da loucura implementa uma análise dual, em termos de dois espaços
clássico e moderno nitidamente separados, relacionados apenas pela borda de sua
transição, a história das prisões revela uma interconexão básica interior ao
campo micro-social que no entanto deverá desdobrar, no campo macro-social a
mesma dualidade entre as duas épocas.
Ora, a história da
sexualidade começa por restringir-se ao nível da linguagem , ao invés de
interrogar as práticas sociais dispersas. Inicialmente cabe assim uma inversão
de perspectivas. A partir do século XVII o que se fez foi palavrizar o desejo,
não impor que se calasse sobre ele. A leitura da pastoral desse período, que
regulava as instituições de confissão, previa que os fiéis deviam cada vez
menos se ater aos detalhes corporais dos atos descritos mas se estender cada
vez mais no sentido das inclinações do desejo da alma, aí onde se instalam o
devaneio, a fantasia, a complacência, e as coisas mesmas que se faz na
imaginação.
Essa orientação
pastoral do século XVII se torna publicamente observada, isto é, deixa de se
exercer como imposição sobre um grupo de fiéis para se tornar uma prática
social comum, a partir do momento, já no século XVIII, em que dela se apoderam
vários mecanismos institucionais orientados agora para se apropriar do sexo
através do discurso – incitação política, técnica e econômica a falar do sexo
sob forma da especificação, da contabilidade, análise e classificação.
Trata-se então, já no
clássico, quanto `a sexualidade, de gerir, não de repartir o que é ou não
lícito. Que aja algo como regulamento sexual, que todos devem observar no
íntimo de sua conduta, eis a finalidade da palavrização do sexo que se pode
observar, como fenômeno, desde a era clássica.
Ora, aqui a intenção
é desfazer a decalagem que se costuma crer bem localizada entre o silêncio
clássico e a multiplicidade retórica, que a especialização do conhecimento só
viu crescer desde o alvorecer da era moderna.
Contudo, isso não
implica a confusão entre esses períodos. Trata-se mais de algo no sentido da
especificação em dois momentos do mesmo projeto de gerir o sexo. Momentos que
seriam o anterior e o posterior ao surgimento, ou mais precisamente
consolidação, da população como objeto da problematização econômica e política.
Anterioridade e posterioridade relativamente, assim, à governamentalização da
sociedade, algo que já estudamos anteriormente.
O corte agora tende a
se deslocar, portanto, ao interior mesmo do clássico, portando sobre o
interregno entre os séculos XVII e XVIII. Com o aparecimento da população,
ainda que se mantivesse a limitação dos três códigos que até aí regulavam
explicitamente as práticas sexuais, um novo vetor da discursividade sobre o
sexo se delineia. São esses códigos o direito canônico, a pastoral cristã e a
lei civil.
Se os três códigos,
hegemônicos durante o século XVII, visavam a conjugalidade, agora, nesse
interregno, o que se multiplica são as interrogações sobre o que fica no
exterior do matrimônio, a sexualidade das crianças, e sobretudo as sexualidades
desviantes que compõem o espaço da marginalidade tanto civil (loucos ou delinquentes)
quanto propriamente sexual (homossexuais, perversos, etc.).
Ora, essas
interrrogações vão se especializar, proliferando, à medida em que a curva
temporal entre os séculos XVIII e XIX recobre a transformação da episteme, na
consolidação do postulado antropológico que está na raiz da formação das
ciências humanas. Foucault não hesita em relacionar estreitamente essas
formações de conhecimento especializado com o desenvolvimento da sociedade no
sentido disciplinar do esquadrinhamento. Assim ele relaciona, em VFJ, o
surgimento da pedagogia com o panoptismo exercido sobre a população infantil
que a sociedade moderna reúne nesse espaço de esquadrinhamento que é a escola.
Foucault designa mesmo a formação dessas ciências em termos de “ciências da
observação”.
No entanto, será mais
oportuno examinar essas consequências das análises de Foucault quando se tratar
da modernidade, uma vez que aqui estamos focalizando o momento clássico. Mas
complementando a progressão que se está estabelecendo, na HS, entre os dois
momentos do projeto ocidental de gestão da sexualidade, o que a discursividade
em vias de se especializar do século XVIII acarretou foi, já no século XIX, o
abrandamento geral da severidade, a atenuação das instâncias repressivas dos
códigos sexuais (deslocamento dos três códigos pelos conhecimentos
especializados). No que tange à penalidade, VP registra, quanto essa mesma
época, a mitigação das penas, o que implica a supressão total dos suplícios
como práticas institucionalmente sancionadas.
O momento posterior
ao clássico vai relacionar ao projeto de gestão da sexualidde essa
possibilidade nova de uma bio-ética da população que substitui as disciplinas
do corpo-máquina características do século XVII pela regulação populacional dos
corpos-espécie, úteis, dóceis e integrados em sistemas sociais do controle e da
economia, desde as transformações que, com relação à história da sexualidade se
verificam já a partir do século XVIII.
Essas duas formações
sociais podem parecer, no conjunto da obra de Foucault, um tanto paradoxalmente
distintas e complementares. Contudo, creio que o paradoxo aparente se resolve
pela distribuição em níveis micro e macro de análise. A moderna sociedade
disciplinar-normativa se sobrepõe à sociedade de exclusão clássica mas entre
ambas os cortes operam por níveis, de modo que quanto mais nos afastamos da
superfície onde há mais conveniência do discurso obsoleto do tipo de história
que apenas decalca as versões de mascaramento do poder, tanto mais encontra-se
as imbricações que uma época relança na outra, retrospectivamente se visto pelo
lado das rupturas já efetivadas, progressivamente se visto com o olhar lento de
sua acumulação sobre as circunstâncias até o precipitado sintomático de sua
transformação.
E também a ambas – à
sociedade clássica de exclusão e à sociedade moderna de normatividade – opõe-se
o momento atual onde já não se trata de normatividade ou disciplina, mas de
controle. Assim, conforme o “Pós-Scriptum sobre as sociedades de controle” ,
Deleuze caracteriza essas duas formações sociais que Foucault havia situado como
a sociedade clássica de soberania, que funciona mais açambarcando a produção,
decidindo sobre o direito à vida, e as sociedades normativo-disciplinares da
modernidade que procedem organizando a produção e gerindo a vida, articulando
grandes espaços de concentração regular cujo modelo é a prisão: escola,
fábrica, hospital, até mesmo o espaço familiar.
Ora, na segunda
metade do século XX todos esses meios de interioridade esquadrinhada entram num
crise geral de que a enorme soma de tentativas reformistas testemunha. A razão
é que esses meios de disciplinar já não servem quando se trata de controlar.
Assim, ao invés de espaços de interiorização independentes, irredutíveis, que
atomizam os vetores de subjetivação de modo a moldar o processo, torna-se agora
mais interessante a metestabilidade institucional, a coexistência dos espaços
de interioridade que faz passar uns nos outros – a televisão expressa a
realidade, por exemplo, da firma, a senha substitui o traçado individual das
grafias ou assinaturas, a produção se reserva aos espaços periféricos, o
centro, já sobre-produtivo, apenas compra produtos, monta peças que a periferia
produz.
A atualidade dessa
transformação, conforme Deleuze, requer mais um programa para sua avaliação,
descrição e compreensão, do que disciplinas que deveriam objetificar fenômenos,
pois suas bases teóricas já estão sempre moldadas pelas injunções e fatos da
sociedade normativa. O termo sociedade “de controle” se especifica já, por
exemplo, no interior de obras como a de Burroughs, Foucault e Virilio.
Ora, retornando a
Foucault, algo do complementar entre eras irredutíveis é captado na análise que
sobre sua obra empreendem Ferry-Renault . Eles entendem haver um duplicidade de
registros inerente ao projeto foucaultiano da história da loucura. Haveria
assim, no prolongamento da influência Nietzsche-Heidegger, professada por
Foucault, o projeto da desconstrução da ratio ocidental, identificada ao
racionalismo. Mas também o projeto relacionado ao que seria uma história das
contradições internas da economia burguesa-liberal, projeto este que se poderia
aproximar não mais de Nietzsche ou Heidegger e sim do marxismo, pois trata-se
de localizar o motor dos fenômenos gerais de época – a exclusão clássica, a
medicalização moderna– no estado preciso do desenvolvimento das forças
produtivas, respectivamente, grandes crises econômicas do final do Renascimento
que tende a tirar de circulação o que não se revela produtivo e posterior
recondução dessa população exlcuída à economia normalizada como mão-de-obra a
bom preço.
É interessante que
essa observação tenha se verificado sobre o texto de HL, justamente aí onde
Foucault mantém a margem maior de irredutibilidade entre as épocas, como vimos.
Não obstante, Ferry-Renault já localizam uma dualidade que seria constitutiva
da obra de Foucault. No entanto será que essas duas dualidades não apontam para
conclusões bem irredutíveis? Pois no desenvolvimento da obra de Foucault
parece-me que se torna bem claro que a questão é se afastar dessa explicação
marxista ortodoxa no sentido de uma visão microfísica de interpenetração social
que não reduz a explicação a uma causalidade única, econômica ou política, mas
põe em jogo os processos complexos de composição social.
Ora, Ferry-Renault
localizam nessa duplicidade de influências, ao mesmo tempo o problema e a
sedução da obra de Foucault. Problema por autorizar uma leitura
marxista-reducionista dessa obra, como aquela de P. Nemo. Mas sedução por
lançar o projeto foucaultiano no prolongamento da filosofia francesa mais contemporânea,
que Ferry-Renault reúnem na coextensividade do “pensamento 68”, por referência
aos eventos de Maio.
O programa mínimo
desse “pensamento 68” seria a “denunciação da razão” como instrumento de poder.
Ora, se Foucault mesmo, de modo muito heideggeriano conforme os próprios
autores citados, considerava “fazer o processo da razão” algo de que não
haveria nada mais estéril, eles propõem que essa consideração do jogo de
irracionalismo e racionalismo como puro arbítrio – ambos se merecem por sua
rigorosamente antitética simetria – teria que ser completada pelo
reconhecimento da necessidade de convir que aquela dualidade está a sobrepor
vertentes que na realidade se excluem.
Quanto a isso creio
que já há elementos suficientes para que se depreenda o modo como compreendo a
impropriedade dessa crítica. Mas Ferry-Renault a desdobram, como crítica global
ao pensamento-68, mostrando que uma vulgata do projeto inicial de Foucault,
enquanto obra inaugural desse pensamento, torna-se assim uma tarefa menos
simples, porque até mesmo uma crítica tardia dessa vulgata, tal como teria sido
implementada pelo próprio Foucault, permanece também algo problemático.
A vulgata em questão
parece corresponder a uma versão standard da obra de Foucault que ao próprio
Foucault teria parecido inconsistente. Ferry-Renault apenas manipulam a
expressão de Foucault , “a cançoneta anti-repressiva”, mas pelo que se pode
depreender Foucault não estava assim enunciando uma ruptura com suas obras
anteriores e sim denunciando a incompreensão que seria reduzi-las a isso, como
poderia fazer uma vulgata simplificadora.
Mas será que
Ferry-Renault respondem mesmo à questão que enunciam, de saber por que Foucault
considerou que “seria bom” empreender essa crítica posterior à vulgata de sua
intenção inicial?
Ora, após enunciar
essa questão o que eles desenvolvem é a tarefa de mostrar as “sérias
dificuldades” que o conjunto da obra de Foucault, conforme a vulgata que eles
então se põe a elaborar, não deixa a seu ver de apresentar.
Não considero
interessante determo-nos aqui nos detalhes dessa vulgata desenvolvida por
Ferry-Renault. Ela recobre a controvérsia com Derrida, que já examinamos antes.
Há também a crítica de Gauchet-Swain à caracterização de Foucault dos momentos
de Exclusão e de Normatividade, em nome de uma lógica da democracia que
corresponderia a uma positividade ou progresso no sentido de uma melhoria real
da sociedade ocidental desde a idade clássica. Essa crítica é aliás repetida
por Rorty, e alhures me ocupei com ela, o que não considero ser oportuno aqui,
devido a nosso propósito específico, quanto ao clássico. Há ainda análises de
As palavras e as coisas e História da sexualidade.
Apenas retenho a
impossibilidade de concluir, como Ferry-Renault, que quanto à subjetivação,
Foucault empreenderia finalmente uma recondução aos gregos. Trata-se a meu ver,
e bem de outro modo, de iluminar essa região da subjetivação cujo mérito da
descoberta cabe a Foucault, como espaço de criação e liberdade, algo correlato
ao sentido que o termo “ética” está apresentando agora, assim como em Deleuze.
Sem responder
realmente à questão dos motivos pelos quais Foucault teria considerado oportuno
reavaliar sua obra, e inserindo assim sem mais essa reavaliação numa ambiência
considerada como sendo de enunciada ruptura com o projeto inicial, a
movimentação conceitual de Ferry-Renault, quanto a isso, é surpreendente.
Primeiro,
considerando que se trata de incitar a um retorno aos gregos, apesar da negação
expressa disso por Foucault, eles limitam a questão da subjetivação a uma
proposta de solver a subjetividade na individualidade, logo a uma tendência
deliberada de ignorar o intersubjetivo de que seria sintomática a expulsão da
problemática habermasiana do discurso comunicativo, o que seria aliás um traço
bárbaro geral no pensamento-68.
Ora, eles situam esse
retorno os gregos como algo que Foucault teria performatizado como ruptura,
enunciada a partir da recusa de sua própria vulgata, com todo o seu projeto
inicial. Logo, Ferry-Renault concluem que essa performance é vã, ou fictícia,
que Foucault permaneceu o mesmo, que tratava-se sempre de opor à subjetividade
como pólo universal ou espaço do intersubjetiovo, a figura sessenta-e-oito da
subjetividade como baluarte do individualismo egoísta.
Trata-se aqui, a meu
ver, de uma série de contra-sensos. Em todo caso, podemos juntar, na nossa
história da recepção da obra de Foucault, mais uma versão. `A concepção
continuista de Veyne e à concepção da ruptura de Machado, soma-se a versão da
falsa ruptura, fingida ou ilusória, de Ferry-Renault.
Mas quanto ao exame
dessas proposições enquanto contra-sensos, penso que se deveria observar que,
se é afirmado que Foucault “parece”, após ter “retornado” a uma reflexão sobre
a ética, desprezar o nietszche-heideggerianismo de História da Loucura e Vigiar
e Punir, e que isso na realidade seja apenas o movimento superficial de um
mesmo desdenhoso individualismo profundo basicamente nietzche-heideggeriano,
são afirmações que jamais apresentam o que quer que seja que possa cobrir a
lacuna que se estende entre o parecer e o ser, nesse texto de Ferry-Renault.
Mas, e o que é mais
importante, observo que não ocorre “retorno” a uma reflexão ética, nem desprezo
do que até então se desenvolveu. Ocorre descoberta de um novo espaço de jogo,
descoberta que se relaciona à própria progressão da obra, e uma reconsiderção
sobre o que se fez, à luz do que ora se descobriu, sem que haja excludência do
intervalo, e sim acréscimo e complementação, mas sobretudo sem que, desde o
início, se tivesse proposto estar de posse de todo o devir da obra, ou de todas
as respostas, quando se tratava, a cada vez, de tentar encontrar espaços novos
de pesquisa, regiões novas de interrogação.
Assim, parece-me que
compreensão de Foucault tem mais a ver com a perspectiva que vimos ser de
Deleuze e que pensa a profunda unidde de sua obra, tmbém registrada por Veyne,
mas num cenário de progressão de níveis.
Quanto `a confusão de
Subjetivação e indivíduo, implementada de modo inequívoco nessa crítica de
Ferry-Renault, pode-se demarcá-la mostrando que em Foucault “indivíduo”, assim
como um possível vetor de individualismo, seria mais como sinônimo de
subjetividade como algo desde sempre constituído numa relação dual e
constitutiva entre a instância da pessoa privada e aquela que seria a instância
social pública. Bem inversamente, Subjetivação é o conceito foucaultiano que se
deve compreender visando-o nessa região mais fundamental do movimento ou
processo em que a subjetivação se constitui como produzindo algo que poderá ser
proposto como subjetividade, mas não precisará faze-lo, contudo, pois se bem
compreendermos a subjetivação descobre para o ser humano possibilidades
engendradas nesse novo pensamento que se encarrega da multiplicidade, não mais
da identidade totalizante ao nível de “objeto”, ou “indivíduo”, o que desloca o
campo da ética totalmente para fora do âmbito da moral de estado civil. A
subjetivação é um processo, não um dado. Assim ela se relaciona mais uma ética
do devir, não a uma política de identidade, de subjetividade.
E nesse sentido ela
só pode ser pensada na relação com as forças sociais de que se compõe, de modo
algum na oposição privado-público, interior –exterior, indivíduo– sociedade
(que seria exterior ao indivíduo ou meramente internalizada por ele sob a forma
de regras a seguir ou a burlar).
Mas sobre isso creio
que já há o bastante para que se pense tudo isso de modo menos predeterminado
por delimitações estanques de objetos e disciplinas, noções muito amplas, já
sem muita utilidade, como as de “consciência”, “sujeito”, “sociedade-espaço-público”,
etc.
Quanto ao período
clássico, pode ser que essa apreciação do conceito, assim como constituído por
Foucault, tenha sido algo sucinta. Reduzi o exame desses livros ao período, sem
preocupação com o todo. Mas o que me pareceu importante aqui tem a ver,
justamente, com a possibilidade de delimitar, em Foucault o contorno de uma
era. Isso no sentido preciso pelo qual, como creio ter demonstrado, não se
conserva qualquer base problemática devida a uma dualidade paradoxal inerente
ao seu projeto.
Não ocorre
reducionismo marxista, a meu ver, mas tampouco se pode compreender Foucault e
quanto a isso também Deleuze, na exterioridade da evolução do marxismo enquanto
materialismo. Assim penso haver uma convergência que é a desse materialismo,
entre Nietzsche, Heidegger e Marx, pelo que é exequível opor em geral o
pensamento às suas imagens metafísicas. Mas isso jamais implicou que esses
projetos tivessem eles mesmos que ser tomados como imagens metafísicas, como se
“a” razão houvesse concebido “uma” imagem independente de todas as condições
materiais que são sempre locais, logo estão sempre num processo, supondo
desenvolvimentos e transformações.
Assim, tendo essas
presentações do clássico, elas mesmas construídas na imanência de problemáticas
precisas, materiais e conceituais, conforme as análises do lire le capital,
de Foucault e Deleuze-Guattari, podemos agora observar mais especificamente o
que se desenvolveu nesse período no registro da filosofia.
Se Locke e Descartes fizeram intervir a grande oposição de empirismo e racionalismo, o que é que de efetivo correu entre essas macrodesignações? É o que devemos reconstituir, aproximando-nos dos projetos de Leibniz e Spinoza. Contudo, se o que é básico à compreensão desses autores, algum conhecimento de Descartes, já se apresentou anteriormente, não seria dispensável uma compreensão dessa época que situa de modo constitutivo o sentido do cartesianismo.
Tempos Modernos
Vontade e Saber. Com
esse par de termos Heidegger inicia o segundo volume de seus escritos sobre
Nietszche.
Vontade e Saber são
aí apresentados como a essência da razão, conforme os projetos nomeados de
Schelling, Hegel e Leibniz, mas de modo a nos fazer compreender que esses
projetos podem ser reunidos na rubrica mais geral da tradição metafísica –
podendo-se indagar assim das relações reais de Nietzsche com a metafísica, da
relação entre os planos manifesto e oculto, internos à démarche de Nietzche e
mais propriamente à démarche dessa mesma tra(d)ição, uma vez que ela pode ser
rastreada desde os Gregos, como um só projeto de esquecimento do Ser, restando
ainda a tarefa de se compreender, quanto à Nietzsche e quanto à metafísica, a
relação que o fim mantém com o começo, isto é, desvelar a presença do fim, já
naquele começo.
Esses escritos
heideggerianos são de incalculável importância quanto à intenção de compreender
algo como o pensamento humano, ou conforme uma expressão feliz de Bréhier,
estender a imagem do “conhecimento do homem” (1) na pluralidade de seus
acontecimentos, assim como pode ter se verificado todas as vezes em que o
humano quis e soube enunciar algo sobre seu próprio ser. Esses escritos abrem
muitas vias de acesso à questão. Aqui algo que me parece especialmente oportuno
se enuncia duplamente.
Há esse modo de
enfocar o par de termos, vontade e saber, como nucleares na extensividade da
metafísica ocidental. Mas, e muito ligado a isso, há a questão da apresentação
do momento que, nessa extensividade, se concebe como sendo o dos “Tempos
Modernos” – ponto final da história? – isto é, a interrogação sobre o sentido
mesmo da metafísica na modernidade.
Há assim, nesse
início do texto heideggeriano do “Nietzsche” volume II: a) a idéia de uma
tradição estendendo-se desde os Gregos, conforme um projeto único que abarca os
momentos modernos conceituais nomeados por este ou aquele filósofo; b) a
questão quanto a esse momento moderno no que oferece de particular,
desenvolvimento esse que estará ligado mais geralmente à Vontade de Potência
como conceito nietzscheano que relança o par nuclear do pensamento metafísico,
vontade e saber, ainda que nesse movimento seja preciso também se deter, de
modo acurado, sobre o pensamento de Descartes.
Podemos então
pressupor que se o projeto metafísico permanece o mesmo, naquilo em que põe
esse par como nuclear, depende de estar enunciando algo como a “essência da
razão”. O projeto é sempre o mesmo como projeto dessa enunciação mas seus
momentos constitutivos podem variar conforme o teor do que ele enuncia. Ora, já
à página 91, tratando da “subjetividade na interpretação nietzscheana da
história”, Heidegger estabelece justamente uma partição desse tipo entre a
metafísica antiga e a moderna.
O que há de comum
entre ambas é essa constelação de termos, lá como aqui denominados “categorias”:
unidade, totalidade, verdade, fim, ser, por exemplo. Mas apenas quando a
designação desses termos se completa como categorias “da razão” podemos sem
dúvida afirmar estar se tratando de metafísica moderna. O que supõe esse
complemento, permitindo uma expressão tal como “categorias da razão”, é que a
razão se compreende só agora “enquanto essência da subjetividade”.
Vontade e saber podem
assim se estender como par que desvela a essência da razão no sentido moderno,
um vez que esses dois termos se implementam como essência da subjetividade.
Ora, nossos estudos
escolásticos mostraram que lá onde começou a se desenvolver uma questão do
sujeito, já naquele momento singular em que o apogeu da escolástica, que
coroava o estado de coisas feudal, surgia também como complexo sintomático da
transição para o não-feudal, essa questão mesma identificada como um traço
nesse complexo, ela se manteve de algum modo numa dualidade.
Os representantes
antitéticos dessa dualidade, conforme nos devemos recordar, eram então São
Tomás e Duns Scott, da maneira que agora podemos enunciar, pela qual São Tomás
parecia visar a nova questão através apenas do saber – alma como substância
espiritual e/ou intelectual – enquanto Duns Scott a centrava apenas pela
vontade – o famoso voluntarismo escotista que também solvia a noção de “ato de
ser” aceitando que as essências dos entes são do mesmo modo que Deus é, sem
haver necessidade de postular um Ser puro como atribuível unicamente a Deus.
Agora somos
informados por Heidegger de que a metafísica moderna converge essas vertentes e
que mesmo retrospectivamente se deve visar como em cada caso uma está sempre a
subentender de algum modo a outra. Mas como se verificou esse salto à
modernidade? O movimento heideggeriano de resposta a essa questão deverá
proporcionar uma aproximação necessária ao cartesianismo.
Para conjugar os
fatores da trama que conduzem, por exemplo, a Leibniz e Spinoza, poderíamos
estabelecer algum entre muitos pontos de vista sobre o conceito, por exemplo, iniciando
pelo detalhamento das ontologias desses autores. Mas desse modo, esse traçado
não seria apenas uma reminiscência de doutrinas antigas, conforme a expressão
de Heidegger ?
Contudo se o nosso
intuito tem a ver com o pensamento humano, ele se beneficia também com o modo
pelo qual essa aproximação, prevista por Heidegger ao pensamento de Descartes,
pode ser acrescida pela apreciação da exposição de Bréhier sobre a doutrina
moral do cartesianismo. Convergem aí certo número de motivos.
Com efeito, o cartesianismo
tem sido apresentado como a filosofia que dispõe em conjunto, de modo eminente,
o pensamento desses filósofos, Malebranche, Spinoza, Leibniz, assim como ocorre
na “história dos filósofos” de Huisman-Vergez que os agrupa como “cartesianos”
(2). Já essa apresentação histórico-filosófica de Huisman-Vergez não ocorre sem
relação com a observação citada de Paul Valéry pela qual há lugar para “uma
infinidade de Descartes plausíveis” (3), o que vem ao encontro da versão de
Jean Laporte de um Descartes empirista, tudo isso caucionado pelo “Larvatus
prodeo” – afirmação pela qual Descartes admitia caminhar mascarado.
Mas também, como se
verifica em Bréhier, a teoria antropológica cartesiana, o seu “pensamento do
homem”, que pôde ser a princípio visado numa base comum com a proposição
tomista – o homem como substância pensante e espiritual (4) – se desenvolve de
modo estritmente relacionado a esse par essencial, o Saber e a Vontade, assim
como expresso por Heidegger como veículo da interpretação moderna da metafísica
que propõe no mesmo lance subjetividade e razão. E veremos como esse momento
cartesiano articula a compreensão dos Tempos Modernos, conforme Heidegger.
Assim, acercando-nos
apenas de algum Descartes plausível, em todo caso não se pode contornar a questão
central da metafísica tal como enunciada por Heidegger, pois em Descartes
ocorre a fundação mesma do modo de ser moderno da interpretação dessa questão.
Quanto a Leibniz e Spinoza, teremos por esse meio uma boa base para compreender
porque é possível afirmar que, a essa disposição abrangente do “cartesianismo”
, poderia corresponder mais efetivamente uma pluralidade de vias, no
prolongamento de caminhos de filósofos tampouco redutíveis, do que uma única
orientação repetida apenas com algum grau de variância por seus escritos .
Já houve oportunidade
para a apreciação do lugar do Cogito nessa fundação metafísica da
subjetividade, que no entanto, conforme Foucault, ainda não se lançou nas
implicações do postulado antropológico. O “Ego Cogito” é o “eu” como “o”
sujeito, mas não o “eu” transcendental que vai modular posteriormente esse
sujeito não mais como indivíduo-generalidade, mas cada vez mais procurando
aproximar-se desse eu-aqui, dessa concretude do “agora” – mesmo se esse
cumprir-se da metafísica da subjetividade já pudesse ser rastreada desde o
início com Descartes.
Ora, interrogando o
nexo cartesiano da teoria do homem (antropologia) com a moral, vemos em Bréhier
que Descartes utiliza a teoria como um limiar de separação entre o provisório e
o definitivo.
Porque a moral é algo
que importa à ação, ela desdobra duas regiões que se precisa separadamente
elaborar. Uma é a das regras práticas, a ser aplicadas de imediato devido à
necessidade, que a existência mesma impõe, de nos conduzir e tomar decisões.
Esse é o domínio da moral provisória, derivando-se da contingência de nossas
ações precederem o intervalo de nossas reflexões. São regras que primam por um
certo conformismo: a) submeter-se às regras do país; b) antes mudar a si do que
pretender mudar o mundo; c) ser firme nas ações de modo a ser preferível
qualquer ação, mesmo sem certeza, do que ação nenhuma devido `a hesitação.
Mas tal domínio não
pode esgotar o âmbito da moral, pois uma vez tendo-se restringido a esfera
contingente do agir, resta o espaço necessário do pensar, em que se deve
considerar o sentido da ação. Esse novo domínio não pode ser provisório, mas
como aquele da moral definitiva, faz intervir a necessidade da compreensão ou
conhecimento ou pensamento acerca do ser humano mesmo.
Ora, quanto a isso
Descartes, como vimos, retém a fórmula do ser humano como ser pensante e
espiritual. Essa fórmula já está a caminho da modernidade, no sentido da
ocidentalização, por assim expressar, pois como observou também Bréhier, ela se
apresenta como uma modulação cristã fundamental do pensamento aristotélico em
que, contudo, o tomismo se baseia. Mas como a Revelação cristã poderia se
conciliar com uma doutrina anímica de pluralidade e de finitude, como a do
peripatetismo, reservando a eternidade a algo como que um pensamento impessoal?
Assim tratava-se no
tomismo de conservar a substância espiritual como unidade, a inteligência sendo
a forma do corpo organizado, forma única, o que está mais próximo, a meu ver,
da modernidade, do que a doutrina agostiniana da pluralidade de formas pela
qual cada faculdade essencial supõe uma alma correspondente numa hierarquia,
desde as faculdades mais materiais e inferiores até as mais espirituais e
superiores.
Contudo essa
substância tomista ainda se reserva ao sentido escolástico por se conservar no
âmbito da forma, a ênfase se propondo no ato mesmo de pensar. Assim se transpõe
o limiar da modernidade com Descartes, pois a alma pensante agora se aproxima
de si pela evidência do “eu” atuante ao invés de se colocar pela necessidade de
uma realidade formal pressuposta como existente, mas sem base alguma para
caucionar a pressuposição, a não ser o que à modernidade aparece apenas como
uma coerência de relato, a razão feudal silogística em ação.
A substância pensante
do cartesianismo é uma realidade existencial cuja fundamentação se exerce, se
experimenta, como auto-fundamentação. Ora, assim a teoria que garante o
definitivo da moral tem que responder à questão de como a vontade está se
lançando na realidade do sujeito, se ele é para si pensante, se ele só pode pôr
a si como realidade imediatamente evidente, e só se pode pôr uma realidade
através da evidência, e só pode se pôr uma evidência através de si.
A vontade, não é ela
possivelmente proposta como a região de voluntariedade que circunscreve o
sujeito, esse eu-aqui, e nisso vemos que Duns Scott já se põe na curva da
pós-escolástica, ao invés do indivíduo como correlato geral da definição da
espécie? A voluntariedade do escotismo liberou a fé, o que há de incomensurável
em uma vontade implicando o limite de toda predisposição natural de uma razão
superordenada como a do tomismo. Contudo, essa liberação da fé era também
liberação da razão, que agora podia seguir os seus próprios caminhos, uma vez
tendo recebido a incumbência do mundo no ato mesmo pelo qual se lhe subtraíam a
competência da fé.
Esse mundo
racionalizado, ou em vias de racionalizar-se, com que já lida o cartesianismo,
tornou-se ele mesmo um dado, enquanto tal problemático para a razão que dele
faz a experiência. A fé não era apenas uma competência da razão, servia-lhe
também de fundamentação do seu objeto, o dado do mundo. O Renascimento havia
sido o intervalo de abertura entre fé e mundo. Mas tantas experiências se
haviam acumulado e novas circunstâncias exigiam agora da razão que desse a
razão de ser razão – para expulsar todas as hipóteses contrárias à sua
determinação enquanto “a” razão burguesa, forma de hegemonia até aí inédita,
pois se razão e poder já há muito estiveram juntos, o limite do Socius fizera sempre
intervir até então uma forma de hegemonia travestida de fé – o domínio que
registrei como sendo o do mito – nisso tudo restando ainda a atual incumbência
de fundamentar o próprio dado do mundo.
O Sujeito que pensa,
a autonomia da razão, a substancialidade do pensar, tudo isso se lança como
fundamentação da metafísica moderna, assim como visada por Heidegger na
emergência do cartesianismo. Ora, nesse sentido a vontade já não poderia ser
uma instância outra, independente entre corpo e espírito. Assim a moral
definitiva repousa nessa “res cogitans”, a “substância pensante” e espiritual,
que ao invés de um bloco monolítico se articula conforme seus modos
intrínsecos.
Modos de pensamento
que podem ser agrupados geralmente em ações e paixões. Ora, conforme Bréhier,
as paixões recobrem os dados imediatos da alma, suas idéias inatas tanto quanto
os efeitos do mecanismo corporal, tudo que lhe é apenas dado. Quanto à ação,
ela se relaciona exclusivamente com a vontade que é ação concebida enquanto ato
livre do julgamento. A vontade é esse ato de julgar ou se abster de julgar.
Todo o domínio da paixão, em Descartes, como dos nossos conhecimentos, é
limitado, finito. Já a esfera da nossa vontade é “infinita” pois sempre se é e
se será livre para recusar ou conceder nossa adesão.
É possível detectar
aqui a inflexão do estoicismo, cuja influência tanto parece ter contribuído na
ruptura com o pensamento medieval. E de fato o “assentimento” é esse conceito
que os estóicos faziam introduzir como caráter próprio da alma racional, entre
os dois outros conceitos que enunciavam a sua composição. Mas esses três
conceitos, representação, assentimento e inclinação, compõem assim o que há de “hegemônico”
na alma, isto é, a parte retriz da alma enquanto racional, humana. Podemos
assim, a meu ver, considerar o hegemônico como o exercício racional da alma
pensante enquanto ação de assentir ou recusar assentir a uma representação, o
que permitirá ou impedirá a inclinação que essa representação solicita como
ação correspondendo a uma determinada tendência.
Mas aqui intervém
algumas considerações. Inicialmente o corte moderno sobre o antigo, pois o
assentimento estóico se articula ao plano de um racionalismo que é expressão da
unidade da natureza (physis) enquanto que o racionalismo cartesiano se
desenvolve a partir da dualidade fundamental de pensamento e extensão, mais a
transcendência de Deus como criador dessas substâncias, o que implica que essa
influência do estoicismo se verifica mais no amálgama que faz convergir também
várias outras influências, inclusive do cristianismo, tudo isso transpondo-se a
esse outro plano de pensamento que assinala “metafisicamente” os Tempos
Modernos.
Também a observação
sobre a maneira pela qual Bréhier define paixões como “tudo o que é dado ao
pensamento sem ação de sua parte” . Quanto a isso, Sciacca e Vergez-Huisman já
interpretam a oposição cartesiana entre ação e paixão como reduplicação da
oposição fundamental entre alma e corpo.
Assim Vergez-Huisman
definem paixão apenas como “aquilo que o corpo determina na alma” e Sciacca o
entende também desse modo, pois associa paixões ao que é involuntário como
resultando das ações mecânicas dos “espíritos vitais” “que agem no corpo” ,
exemplificando essas resultantes em termos de “percepções, emoções”, etc. .
Ora, de um modo ou de
outro, à física se concede um papel decisivo na moral do cartesianismo, assim
como a matemática, conforme irá mostrar Heidegger, é decisiva na compreensão de
sua metafísica. Se em geral a física do cartesianismo envolve uma exposição
completa da natureza que não nos importa muito efetivar agora, o importante é
reter que essa física associada à moral está se propondo como explicação do que
Descartes supõe ser o funcionamento mecânico do corpo humano. Física é sempre
conhecimento da natureza, mas aqui especialmente da natureza do corpo.
Se a moral em
Descartes equivale a um domínio de si, que se condiciona pelo conhecimento de
uma física do corpo humano , isso não coincide com aquela extensão do
racionalismo estóico com a física enquanto conhecimento de uma natureza ela
mesma racional. Nessa concepção estóica, poderia ser proposta a finalidade da
moral enquanto ação racional que se concebia então como ação conforme à
natureza.
Bem inversamente,
trata-se no cartesianismo de manter o mais extremo dualismo – natureza sendo o
que não pensa, o que não se põe como razão – que permite, em contrapartida,
supor a relação entre as duas “res” em termos de absoluta dominação sobre a
natureza.
Assim, por exemplo, a
recusa moderna desse dualismo-dominação, ainda que mantendo em comum a mesma
ambiência de inflexão estóica, mas amalgamada conforme outros pesos e fatores
de mistura, surgirá com Spinoza. E esse dualismo estrito, que se desenvolve
como filosofia da transcendência, uma vez rejeitado, cederá espaço ao que
Deleuze designa “expressionismo”, comum a Leibniz e Spinoza mas também
permitindo situar as diferenças entre ambos.
Essas implicações
devem ser vistas posteriormente, agora o importante sendo observar o papel da
física na moral do cartesianismo, que tem a ver com o movimento dos espíritos
animais, e com a explicação acerca da união da alma e do corpo.
Interpretada no
sentido de Sciacca, na moral cartesiana tratar-se-ia apenas de libertar-se das
paixões e deixar-se conduzir pelo domínio da razão, substituindo mesmo a paixão
pela razão. Assim as regras da moral provisória são visadas mais amplamente
como regras de comportamento no sentido dessa substituição.
Huisman-Vergez já
consideram que Descartes pensa a moral em dois níveis, ora visando o ser humano
apenas enquanto espírito, ora enquanto unido ao corpo. Apenas enquanto
espírito, a questão moral se resume em compreender qual é o valor supremo,
resolvendo que ele consiste na generosidade que envolve, ao mesmo tempo, a
consciência da liberdade e da vontade, e por aí a auto-estima como a firme
resolução, e a consciência da exclusividade de si como vontade, nada mais lhe
pertencendo verdadeiramente exceto a vontade.
Considerando agora o
ser humano enquanto alma unida ao corpo, a moral faz intervir a física como
conhecimento da ação do corpo. Ora, sabendo-se que as disposições subjetivas,
como o modo pelo qual se recebem as impressões dos sentido, ou o modo como
essas impressões nos afetam emocionalmente, são determinadas pelas
peculiaridades do percurso dos vapores, os espíritos animais, no organismo,
particularmente no cérebro, observa-se como a alma sofre as paixões corporais.
O lugar de junção de
corpo e alma sendo a glândula pineal (epífise), graças a esse conhecimento
pode-se propor uma ação da alma que, ao invés de passivamente ser inclinada a
esta ou àquela disposição conforme o movimento da glândula lhe informa da
determinação dos espíritos, controla ela mesma a posição da glândula conforme a
sua vontade e firme resolução, controlando assim por sua vez o próprio
movimento dos espíritos.
Já Bréhier vai
mostrar como em Descartes essa doutrina dos modos de pensamento como
articulação de vontade e saber atua como chave da inteligibilidade de sua
filosofia. Pois o cartesianismo só se compreende como complexa relação entre os
níveis da física, da antropologia e da metafísica, mais a teoria do
conhecimento e a moral.
A própria dúvida
metódica, a adesão deliberadamente restrita à pura evidência, decorre da firme
resolução da vontade, esse “vivo sentimento” interno que é nossa experiência da
liberdade. Mas se essa experiência interna for esclarecida pelo conhecimento da
física e da cosmologia, toda teleologia, o humano como finalidade da natureza,
se desfaz, abrindo caminho para a independência do homem restrita apenas à sua
vontade.
O mundo-máquina tem
por fim o ser humano, sem implicar ainda a negação da Providência, algo, como
vimos, bastante ligado à separação dos domínios da razão e da fé. Sem ser
determinada por causas finais, a natureza não deixa de funcionar mecanicamente,
e quanto ao ser humano, sua experiência de liberdade é de tal magnitude que
pode abarcar nada menos do que toda a natureza sob o seu domínio.
Esse conhecimento da
física do corpo humano permite supor uma terapêutica puramente medicinal,
envolvendo por exemplo a higiene e a alimentação, como meio de otimização do
funcionamento sistemático dos espíritos animais, assim liberando a alma de más
predisposições oriundas de paixões relacionadas com algo que se pode visar ao
modo de um mal funcionamento mecânico.
Mas resta ainda a
terapêutica propriamente moral, relacionada ao domínio da alma sobre os
espíritos, não diretamente, o que se impossibilita pela irredutibilidade entre
as “rés”, mas indiretamente, já que, mudando o rumo do movimento da epífise, a
alma assegura que os espíritos, cujo percurso corporal se determina pela
centralidade da glândula, se conduzam de modo que o resultado desse percurso é
conforme à vontade da alma.
A vontade é pois,
conforme o cartesianismo interpretado por Bréhier, o poder sobre o movimento
dos espíritos e, por conseguinte, sobre as paixões. Ora, essa unidade da alma e
do corpo em Descartes, unidade que sempre se considerou tão criticável, tão
problemática, conceitualmente mal situada e vaga, pois ela mesma já demasiado
mecanicista, Bréhier a propõe em termos de uma reintrodução da finalidade
natural que a física havia rejeitado. Pois se a alma pode ignorar completamente
a realidade e o movimento dos espíritos, não fazendo mais que experimentar as
paixões sem que essa experiência determine por si, na alma, o conhecimento das
causas que só a ciência introduz, é justamente pela instituição natural dessas
relações de modo finalista, isto é, com vistas à conservação de nosso ser.
Descartes só
compreenderia assim as paixões pela união desses conceitos: a) sua natureza
derivada dos espíritos; b) a sua utilidade. As paixões fortalecem e fazem durar
os pensamentos, conserva-os, fazem ainda advertir dos perigos do corpo. A
ligação do movimento dos espíritos com a sensação resultante é geralmente útil,
essencial à conservação da vida. Mesmo nos casos em que a ligação se desvia
dessa utilidade, por exemplo, quando uma doença produz uma sensação ilusória,
podemos observar que a relação movimento-sensação conserva ela mesma sua
utilidade, apenas desvia-se pela doença. As paixões não são rejeitadas por
Descartes, que resolve o problema do mal explicando-o em termos de desvio, nem
sempre imposto por uma causa externa.
Por vezes a ligação
resta imperfeita, conduzindo a amar o que não é bom, a detestar o que
efetivamente é. As circunstâncias do mal como desvio ou imperfeição podem ser
físicas ou puramente contingentes. Em todo caso isso não impede a Beatitude. A
moral do cartesianismo se designa mesmo, em Huisman-Vergez, como uma “técnica
de felicidade”. Bréhier também mostra que no cartesianismo o exercício racional
da vontade é o que produz o maior prazer, isto é, aquele que se deriva apenas
da alma, alegria e amor puramente anímicos, a “eupateia” dos estóicos,
sendo o eu = bem, e o pateia = forma derivada de “pathos”,
algo geralmente traduzível por “sentimento” ou “inclinação da alma”.
Aqui algo da
conformidade homem-natureza se estaria reintroduzindo, conforme Bréhier pois à
Beatitude o cartesianismo associa a consciência de ser parte de um todo
providencialmente instituído : família, cidade, nação, planeta, universo. Nasce
assim o Amor Intelectual pelo todo, que faz preferir, ao interesse particular,
o interesse geral, e nessa avaliação faz intervir a generosidade como virtude
da estimação exata de nosso valor, exclusivamente equacionado ao nosso livre
arbítrio ou Vontade.
Quanto às paixões,
elas podem ser descritas como presentificações dessas cinco virtudes: a
admiração, que se deriva da atenção espontânea às coisas do mundo, o amor como
tendência ao objeto ou o ódio como repulsa a ele, finalmente a alegria, ou
tristeza, derivando-se da satisfação (amor) ou não (ódio) das paixões. Isso que
Bréhier vê como uma teoria das qualidades na paixão torna compreensível a utilidade
que Descartes lhe atribuiu, como vimos.
O Amor Intelectual
racional nasce da capacidade de pensar, é independente da fé ou da graça. O
domínio sobre as paixões depende do conhecimento, da física, da medicina, etc,
para ser eficaz ou mesmo útil. Assim, como afirma Bréhier, “toda a filosofia
cartesiana, apoiada sobre o método, é uma cultura do julgamento, uma vontade
permanente de só aderir às idéias em razão de sua clareza e distinção”, ou como
afirma a citação do próprio Descartes: “formar idéias distintas das coisas que
devemos julgar é principalmente o que me encarrego de ensinar(...)” .
Assim Heidegger
identifica também o “novo da época moderna, inversamente à época medieval”,
nisso pelo que o homem toma a iniciativa, com seus próprios meios, de adquirir,
a partir de si mesmo, a certeza e a segurança de sua condição humana no seio do
ente em sua totalidade. O problema da salvação se converteu na questão da
saúde. Toda certeza concernente ao mundo e à maneira de ser humano deve agora
poder se fundar pelo ser humano mesmo, a questão essencial se tornando pois o
como dessa fundamentação.
Heidegger mostra
assim que no despontar dos Tempos Modernos há uma transformação epistemológica
que desloca o gênero “Suma” e impõe a necessidade do “Método”. A Suma corresponde,
com efeito, à acumulação, numa sucessão ordenada, de conhecimentos adquiridos e
correntes doutrinais. Mas o Método corresponde inteiramente à questão essencial
desses Tempos Modernos, pois ele nomeia agora o pro-ceder assegurante, apto a
garantir e conquistar, em relação ao ente, o seu papel de objeto para o
sujeito. Frente a essa necessidade do método, todo pensamento medieval aparece
como desprovido de método.
Isso na proporção
mesma pela qual a questão essencial dos Tempos Modernos transpõe a verdade como
Certeza, enquanto o cristianismo – isso que Heidegger pensa ser mais
incomensurável com a filosofia do que é um círculo com um quadrado, pois se ao
menos esses restam como figuras geométricas, entre aquelas nada subsiste de
comum – havia sempre lidado com a verdade como Revelação, transmitida e
recebida pela doutrina dos doutores da igreja, daí a conveniência da Suma.
Mas como se posiciona
essa verdade-certeza, que faz intervir Vontade e Saber, na história da
metafísica? Ora, responder a isso equivale a estar já (re)constituindo os
Tempos Modernos, conforme a visão de Heidegger, mas sem que assim se trate de
qualquer constituição derivada e sim somente de sua Re-posição essencial, isto
é, metafísica. Porque esses Tempos não são Modernos de modo a produzir, para
auto-esclarecimento, uma metafísica que lhe corresponda, mas eles se tornaram
algo como “Tempo” apenas na abertura pela qual a metafísica se/o transformou no
sentido da modernidade. Seria muito necessário perguntar inicialmente, então,
que é isso, a metafísica, para a partir daí poder tratar a questão dos Tempos
Modernos.
Ora, que a metafísica
não foi desde sempre um antropologismo, que nem sempre ela se propôs como a
doutrina pela qual todo ente sempre é o que ele é apenas em virtude de sua
humanização pelo homem, e que, portanto, considerar sua história como a
reposição cada vez mais acurada dessa mesma questão antropologicamente
informada equivale a um falseamento manifesto do seu sentido, eis por onde é
preciso começar.
O desenvolvimento dessa
proposição, por Heidegger, subentende então uma definição da metafísica tout
court. Ela é sempre a interrogação sobre o ente: que é o ente na sua
totalidade? Metafísica, pensamento metafísico, consiste nisso: constituir a
verdade sobre a totalidade do ente.
Isso corresponde a
deslocar o sentido original da questão: “Que é o Ser”? Pois no sentido original
pergunta-se apenas que é o ser enquanto ser. Mas a questão se torna metafísica
quando só se compreende o sentido dessa pergunta como equivalendo a: que é ou
como é ser isto? Ou melhor, a pergunta soa como: como é que isto
se pode dizer que é? Ou, em termos heideggerianos, o que é o ente?
O que é que faz o ente ser?
A pergunta já está
desse modo previamente determinada a ter como resposta algo que seja ele mesmo
algum ente. Com a metafísica sempre se está e só se está na região do ente,
pois transpor a questão metafisicamente significa já ter esquecido o seu
sentido original, que pertence ao âmbito do Ser. Ora, o ser originalmente não é
algo dado no sentido totalizável, sua manifestação implica sempre algo
não-manifesto. No entanto, perguntar apenas pelo ente implica em indagar sobre
algo que abarca toda a possibilidade de ser do ente. Por isso a questão
metafísica se afirma portar sobre a totalidade do ente.
Mas o ser humano
está, obviamente, nessa totalidade, sob o modo da pertença. Heidegger empreende
então um paralelo entre o Cogito cartesiano e a sentença de Protágoras para
mostrar que, ainda assim, esse modo de pertencer o homem à totalidade do ente
não foi sempre subsumir todo ente ao modo de ser do homem – isso nesse texto
intitulado, precisamente, “Metafísica e Antropomorfia”.
A sentença de
Protágoras afirma que o ser humano é o metro – metron – padrão ou medida das
coisas. Com isso a sentença salvaguarda, na interpretação de Heidegger, a
relação entre os seguintes elementos: o ser humano, as coisas naquilo em que
elas se mostram e as coisas naquilo em que elas se ocultam.
Na clareira onde se
manifesta o ente o ser humano se apreende numa relação pela qual ele mede as
coisas, conformando-as ao critério do seu próprio comportar-se em meio a elas.
Mas este critério só pode se estabelecer porque o ser humano, nesse mundo do
pensamento Grego, conserva o saber de que o ser não se esgota naquilo que revela,
de que o ente na totalidade conserva o ocultamento essencial que o subtrai ao
todo mostrável que ele simula ser. O metron é assim a moderação do
comportamento, que o ser humano conserva diante do manifesto, a partir do seu
saber do que está oculto.
Ele sabe que há o
ocultar do ente, ele não sabe o que o ser velou para ele nesse ocultar, e assim
ele modera o seu comportar. Heidegger procede à partição entre o que é
metafísico e o que é tão somente helênico na sentença de Protágoras. A
metafísica sempre se estrutura fundamentalmente como articulação, localizada de
modo específico a cada vez, de quatro elementos: a autodeterminação para si do
ser humano como a “ipseidade do homem”, o projetar do ente sobre o ser como
conceito de ser, a delimitação da essência da verdade do ente e o modo pela
qual o homem põe o metro e o propõe como verdade do ente.
Assim, conforme
Heidegger, pode-se localizar o que há de metafísico na sentença de Protágoras,
pois nela é sempre todo o ente que se relaciona ao homem como Ego, o homem como
metro do ente. E por aí se pode compreender ao mesmo tempo a superficialidade e
a oportunidade da leitura platônica dessa sentença, pela qual ela encerra o
subjetivismo relativista que se associa correntemente à sofística, já que
quereria expressar apenas que as coisas aparecem sempre a um “eu” que as toma
assim como aparecem, sem que pudesse atribuir-lhes um ser outro que esse,
relativo a si, aparecer.
Ora, o que Heidegger
quer acentuar é que trata-se sim, de afirmar na sentença que aí onde as coisas
se mostram elas já estão sempre sendo mostradas, o que supõe então aquele que
as recolhe no testemunho de sua manifestação – nos termos heideggerianos: a
pertença assim restrita à ambiência do não-oculto contribui para constituir o
ser-si-mesmo do homem, ou seja, “é por essa restrição que o homem se torna Ego”.
O que há de helênico
nessa sentença é, porém, que não ocorre de modo algum que o Ego ou a
representação do ser humano para si como um si-mesmo, tenha previamente às
coisas se estabelecido como centro ou metro de todo o representável.
Ora, essa afirmação de Heidegger poderia caucionar um empreendimento como o de
Foucault quanto à Subjetivação. Pois aqui, entre os Gregos, não se está na
presença de algo como uma relação entre o sujeito e o objeto em vias de se lhe
tornar acessível, precisamente, enquanto “eu”, ou mesmo que a acessibilidade
possa ter a forma do experimentável.
Inversamente, no
sentido Grego, a relação fundamental do ser humano com o ente comporta o metro
como moderação de si relativamente “à ambiência restrita da
não-ocultação”, moderação que se torna o traço fundamental de sua essência. Com
isso se, por um lado, Heidegger implicitamente se instala numa região de
observação dos Gregos que se furta às classificações mais comuns, por exemplo
que iria opor metafísica e sofística, por outro impõe nesse trecho uma
reavaliação daquilo que lhe é tão comumente atribuído como condenação da
sofística, pois aqui ele a insere como interpretação genuinamente helênica,
necessariamente ambientada na sofia (Sofia), da verdade enquanto aleteia (não-ocultação).
A questão sobre o ser
deixou totalmente de ser posta enquanto tal pelo cristianismo, pois tratava-se,
conforme Heidegger, agora, nem mesmo de se indagar a respeito do que o ente é,
isso que no entanto torna a questão do ser metafísica e que lança
metafisicamente também a interrogação sobre o ser humano, mas que na ambiência
grega, conserva algum sentido do caráter não-totalizável do ser. A questão no
cristianismo porta apenas sobre a verdade do ser enquanto salvação, verdade
revelada e codificada como “doctrina” pela “schola”.
Ora, a modernidade
ocorre, na visão de Heidegger, como correlato da liberação pela qual o ser
humano se emancipa de toda “doctrina”, de toda dogmática da igreja. Mas como
Heidegger observa, toda liberação traz consigo uma determinação própria quanto
à essência da liberdade. No tocante `a noção moderna de liberação, algo a
constatar, já pelo exame da démarche do cristianismo no interior mesmo dos
Tempos Modernos, por exemplo, do protestantismo, é que ela sempre está como que
a se destacar desse cristianismo como fundo, isto é, está sempre se definindo
por oposição à Revelação da Salvação da Alma imortal e pessoal.
E torna-se assim
compreensível que ela é liberação no sentido de que o ser humano pode/deve por
si mesmo se assegurar de sua destinação e de sua tarefa. Logo essa liberação se
converte no aguilhão da dominação. A soberania absoluta sobre a natureza
torna-se o objetivo ou a tarefa ou o assegurar-se de si mesmo do ser humano,
torna-se uma obrigação.
A liberação tornada
obrigação, isso que funda a modernidade na ruptura com o feudalismo, Heidegger
observa através dos muitos sintomas, todos característicos dos Tempos Modernos:
humanismo clássico, filosofia das luzes, positivismo, formação do Estado como
nação, organização do proletariado pelo marxismo, política de identidades
(etnias) ou mesmo a identificação do “tipo” que faz convergir massa ou grupo
comunitário e indivíduo.
Ora, quanto à sua
estruturação metafísica, porém, pode-se delimitar momentos fundamentais
relativamente independentes. O começo decisivo com Descartes, o momento
kantiano, em que o estabelecimento do Ego como fundamento se autonomiza
definitivamente em relação a qualquer “providência”, o momento nietzscheano que
Heidegger vê como fim da metafísica no sentido de sua máxima realização, não de
seu ultrapassamento.
Interessa aqui, mais
propriamente, a observação de Heidegger sobre a filosofia de Descartes, seja
porque envolve aquilo que Heidegger considera como o que me parece poder ser
conceituado, já a partir do instrumental foucaultiano, na perspectiva da
Subjetivação moderna, seja porque, quanto a isso, a visão de Heidegger me
parece até agora bastante insuperável.
Descartes se
encarregou da tarefa dessa nova liberdade. Por esse meio, o que há a
transformar é a Verdade. Vemos então, conforme Heidegger, que a liberdade
requer que a verdade seja certeza, não mais “doctrina”. Como certeza a verdade
não é da ordem do dado, ela é algo inerente ao exercício da razão, portanto
algo que pode se relacionar a um método, desde que essa certeza se esteja
propondo como aplicação da liberdade enquanto soberania do ser humano sobre as
coisas.
Heidegger observa
assim o novo sentido que está subjacente à expressão cartesiana “cogitationes”.
Pois se o “pensamento” é algo a que se relacionam modos, isso se torna exequível
uma vez tendo se identificado o pensar a um exercício, precisamente o ato de
pôr à frente de si, ou a “paixão” de ter algo posto à frente, isto é, sempre
pensar como representar – ter diante de. Assim, Heidegger afirma que
pensamento, conforme o uso cartesiano do termo, significa os modos de
comportamento do ser humano que são por ele mesmo experimentados na sua
execução, como seus próprios modos de pensar: sentir, querer, imaginar, ou
mesmo estar certo de, a cada vez que se “pensa”, algo está sendo exercitado
pelo sujeito que se representa o pensar e a si mesmo enquanto comportando-se
para si no pensar.
O método se aplica
assim sobre o já disposto. Mas como é que a totalidade foi assim disposta, ao
Ego, sob a forma da certeza, como objeto, na verdade de seu ser representável
para o sujeito?
Tudo depende então de
uma certeza básica, a do Cogito enquanto garantia do ser. Heidegger mostra
inicialmente que uma certa crítica de Nietzsche a Descartes, nisso pelo que
Nietzsche teria se conformado à interpretação mais comum da sentença
cartesiana, se revela inconsistente. Nesse particular, não me parece que
Heidegger esteja de todo errado. Conforme Nietzsche, o Cogito ergo Sum
funciona como um silogismo falhado, pois que o sujeito precede o pensar,
enquanto existente, é o que está em questão, no entanto dada como resolvida
pela proposição que assim o pro-põe.
Ora, para Heidegger,
não se trata de modo algum de silogismo, de um raciocínio que se está
endereçando como exercício lógico. Heidegger entende que é preciso previamente
indagar sobre o modo como Descartes mesmo empregou a palavra “cogitare”. Aqui
ele se detém no modo pelo qual se instaura o método enquanto correlato da
dúvida. Quanto a isso, esse “cogitare”, esse pensar, é “escrúpulo”, portanto
inseparável da dúvida ou método, porque exercendo-se no sentido de percipere,
ele é sempre um dis-por diante de si, re-presentar-se a si daquilo que se
percebe, nada mais.
Por isso cogitare é
dubitare, por se limitar escrupulosa e deliberadamente à evidência, mas por aí,
no mesmo lance, se conceder algo de indubitável. Cogitar como duvidar significa
que o que se põe diante de si se está pondo com toda segurança, é o mesmo que
se garantir – verdade podendo ser certeza – e assim cogitar é também calcular.
Mas o que escapa à lógica é o nível da manifestação performatizada no Cogito.
Todo pôr diante supõe o si que põe. Todo representar do objeto supõe o sujeito
que o põe diante de si. A representação objetivante faz a essência da
Subjetivação moderna que estende o “eu” como “sujeito” que representa diante de
si o objeto nisso mesmo que o cogito cartesiano assegura: a cada representar do
objeto, “eu”-mesmo, que me represento, é representado por acréscimo.
A subjetividade se
torna objetividade, ocorre objetificação do sujeito na re-presentação. O “eu”
me é representado em cada evidência, independente do modo dessa evidência, como
lembrança ou presença ou imaginação, não há portanto como situar o “eu” na
exterioridade da re-presentação do objeto que o põe ao ser posto pelo “eu”.
Enquanto produtor de
certeza, escrúpulo, cogitar é também calcular. A essência matemática se
determina assim, metafisicamente, de modo novo. Se o Cogito transformou o “subjectum”,
que até então era tomado só como sujeito da proposição, podendo ser qualquer
objeto, agora o subjectum é tão somente o ens certum, indubitável ou
verdadeiramente pensado, ao invés de ens creatum – subjectum como o representar
que se representa representando, tornado pois, subjetividade, constitui agora o
fundamento.
Heidegger observa que
esse fundamento se apresenta sob uma forma axiomática, o cogito sum, enquanto
proposição, enuncia a verdade básica de toda a verdade como se fosse um axioma.
Mas a axiomática moderna muda assim de sentido, pois ela não exerce um papel
meramente lógico– geométrico, ela se incumbe da tarefa de fundar a
representação. O que o axioma funda não está no exterior como o representado,
mas na realidade do seu exercer-se enquanto subjectum, enquanto representação.
A matemática, como
região dessa axiomática, tornou-se a mathesis enquanto metafisicamente
projetável na representação, mas isso não sem que ao mesmo tempo se lhe
concedesse toda a extensão como domínio do calculável: instauração dos Tempos
Modernos como sendo a era da energia mecânica, do corpo-máquina, da economia
planificadora do Estado absolutista e dessa humanidade que se concebe na mais
absoluta soberania sobre o planeta, humanidade introduzida, conforme Heidegger,
pelo Cogito.
Ora, aqui Heidegger
não deixa de situar o pensamento cartesiano na sua relação com a tradição, isto
é, com o pensamento pré-moderno. Pois se Descartes já está lidando plenamente
com o Ens certum, ele se expressa ainda em termos de Ens creatum. Assim se
constitui a partição cartesiana das “res”: Deus, substância infinita (creatur).
Substâncias finitas (creatum) irredutíveis sendo a res extensa e a res
cogitans, extensão e pensamento.
Como extenso é o
mesmo que espaço, ela se concebe como domínio do representado, da natureza, do
dominável enquanto o calculável. Já a certeza do cogito determina a essência do
saber, tudo o que pode ser conhecido, como pertencendo à esfera da mathesis, do
matemático. A essência metafísico-axiomática transpõe à mathesis o domínio do
Ser que agora está inteiro no pensar enquanto totalmente acessível ao
re-presentar.
Heidegger critica
assim certo uso do epíteto “racionalismo”, aplicado a Descartes a partir da
pressuposição simplista de que o cartesianismo interpreta todos os modos de
comportamento humano em termos de modos de pensar. A questão prévia a propor
aqui deveria no entanto consistir em indagar sobre o que se está entendendo no
cartesianismo por Ratio ou por Cogitatio e sobre como uma coisa está se
relacionando com a outra.
Vimos que Descartes
instaura a revolução moderna propondo a representação pela intromissão do “Moi”,
o “Eu” ou a “Subjetividade”. Ora, aquela double-face da mathesis se relança
aqui, pois o que esse uso pioneiro e mais básico do axioma-cogito instaura,
sendo tão somente metafisicamente apreensível como fundamento do sujeito na
representação, estende ao mesmo tempo toda veiculação do pensável ao
representável na forma da adequação-calculação. Heidegger mostra assim a vacuidade
de se propor uma fórmula como Veritas est adequatio intelectus et rei, como
comum a vários autores que a professam quando a questão essencial é ver como é
que cada um deles está utilizando essa noção de adequação.
Assim Descartes
instaura a verdade como o calculável do representado, o Saber como domínio da
razão, mas tudo isso pressupondo a Vontade como posição do “eu” que se
representa como objetivante do conhecimento que é cálculo. A verdade se tornou
um resultado certo, uma operação do Cogito caucionada pela certeza. A
transformação da questão “o que é o ente” em uma questão que agora concerne ao fundamentum
absolutum inconcussum veritatis, eis a mutação que inicia o novo-pensar, ou
a época constitutiva dos Tempos Modernos enquanto proposição desse sujeito
incondicionado no pensar como fundamento da certeza.
Ora, esse plural dos
Tempos é muito significativo. Pois a junção de que resulta a mutação, encontro
daquela liberação frente à Revelação e à toda destinação sobrenaural do ser
humano, com a problemática da verdade a tornar-se certeza, determina-se,
conforme Heidegger, como multiplicidade imanente à essência da história dos
Tempos Modernos enquanto aplicação dos múltiplos modos da liberdade nova.
Tempos Modernos é
algo, portanto, que não se pluraliza apenas na diacronia dos seus momentos
sucessivos, mas que só se compreende abarcando também, nessa pluralidade, a
sincronia através da apreensão da multiplicidade de domínios que o ser humano
estende a cada vez a essa liberdade nova pela qual o ser humano instaura sua
soberania sobre as coisas mas, ao mesmo tempo e no mesmo lance, se torna “senhor”
para determinar ele mesmo a essência do que é humano.
Liberdade como
aguilhão lança assim a garantia do desenvolvimento “supremo e absoluto” de
todas as aptidões do ser humano até a absoluta soberania como domínio completo
sobre todo o planeta. Aguilhão que conduz, conforme Heidegger, o ser humano dos
Tempos Modernos através de todas as suas insurreições, sem cessar renovadas, a
fim de se assegurar de seus objetivos. Todos os momentos constitutivos são
estágios desse processo impulsionado por esse aguilhão.
A razão como
fundamento só pode ser agora o ser humano mesmo, pois o sentido dessa liberdade
o proíbe de se propor qualquer laço ou obrigação que não resulta de suas
posições as mais particulares – e vimos como a moral do cartesianismo se libera
do dogma, só supondo a subjetividade como critério infinito da vontade, de todo
o modo de proceder.
Enunciando-se assim o
essencial quanto aos Tempos Modernos a partir da ambiência do cartesianismo,
conforme Heidegger, tudo o que se põe de ulterior pode ser considerado
relativamente ao essencial seja quanto ao mesmo ou quanto à diferença, isto é,
a partir de sua relação própria com a essência.
Ora, se esse ulterior
terá que ser progressivamente detalhado, aqui me parece ainda situável a
questão da real oposição entre Descartes e Locke, pois o empirismo justamente
parece não precisar acarretar o processo de Subjetivação a partir de uma
totalização do “Moi” prévia a toda possibilidade de acesso ao ente o que
poderia, em contrapartida, ser atribuído como projeto mais essencial do
racionalismo moderno, naquilo que restasse ainda de utilizável nesses rótulos.
O “eu” do empirismo
se compõe reflexivamente, como momento posterior ao experimentar do percipere,
ele se (re)encontra nas operações que efetua sobre o percebido, logo, ele supõe
o pensar não sendo pressuposto como fundado previamente pelo “eu”. Mas essa
questão agora não pode mais ser proposta sem estar relacionada àquela da
inserção do empirismo na modernidade visada na ambiência do heideggerianismo.
Algo que não se pode
deixar de observar aqui, em favor de Heidegger, que não vê Locke e Hume senão
como versões grosseiras do cartesianismo, é o seguinte. Toda “noção”, para
Heidegger, só se apresenta ou é apropriada como tal no conteúdo do fio condutor
do pensamento e da enunciação. Propriedade do ser significa, em termos
cartesianos, represent-ação, e a verdade como certeza é o mesmo que:
estabelecer-se no/através do representar. Assim o percebido, enquanto
idealmente representado, não pode deixar de supor o eu que se põe o
representar.
E aqui reside a
intenção profunda da crítica de Heidegger a Nietzsche. O esquema seria o
seguinte. Nietzsche pensa estar criticando Descartes, em nome dos empiristas,
afirmando que inversamente ao que o Cogito ergo sum propõe, o pensar é prévio a
qualquer categoria, portanto, prévio ao “sujeito” e mesmo ao “ser”. Mas
Heidegger pretende mostrar que é isso mesmo que Descartes está afirmando no
Cogito, ainda que Nietzsche não o tenha percebido.
O que, conforme
Heidegger, permanece comum a Descartes, aos empiristas e a Nietzsche, o que
funciona como o moderno a priori metafísico, é que sempre o “pensar” está sendo
proposto como a represent-atividade pela qual algo é posto diante de, e por
esse meio, a verdade significa agora “certeza”.
Por a frente de supõe
isso que está sendo posto mas, mais fundamentalmente, o subjectum deslocado –
desde o sujeito qualquer da proposição ao sujeito humano, o Ego. O Ego se torna
assim absolutamente o fundamento da essência do pensar, isto é, em todos esses
autores o fundamento é o mesmo pois pensar significa representar e é o pensar
que é o mais essencial. Só o que muda é que Descartes supõe esse eu de modo metafísico
como unidade enquanto que Nietzsche, como os empiristas, dele fornece uma
explicação psicológica.
Assim, conforme
Heidegger, que subsiste o fundamento comum já se vê nisso: se Nietzsche vai
identificar a dúvida cartesiana como “vontade de verdade”, vontade de não se
deixar enganar, ele já está subescrevendo a igualdade verdade/certeza como se
fosse um dado em si, quando está se tratando efetivamente de uma fabricação
moderno-metafísica do conceito de verdade – que não coincide com o conceito
grego de alethéia, por exemplo.
Mais geralmente penso
que a crítica de Heidegger desemboca assim numa inserção do pragmatismo, não
apenas do empirismo, nessa metafísica moderna, e aqui reside o aspecto mais
fundamental de sua crítica a Nietzsche. Pois o pragmatismo, como ocorre em
Nietzsche, desloca o critério para o âmbito do valor, perguntando por exemplo,
não o que é que esse pensador está dizendo, para assim comparar esse teor com
alguma outra verdade, mas sim o que ele está querendo, que valor está subjacente
àquilo que ele está afirmando.
Ora, isso para
Heidegger, ao invés do fim da metafísica no sentido do seu ultrapassamento,
como pensa ter realizado Nietzsche, precisamente pelo pragmatismo, é a sua
máxima realização, pois corresponde exatamente `a operação metafísica moderna
uma vez que o pensar está assim previamente sendo concebido como uma atividade
de se por algo como tal à frente de si, tal valor, tal representação,
assegurando ainda de modo mais extremo do que tudo o que se fez anteriormente
que o fundamento dessa represent-ação é o sujeito, nada de outro – que poderia
figurar como o Ser ou mesmo o ente como subjectum (sujeito-qualquer da
proposição) mas tão somente esse ente, o ser humano, que se tornou “o”
subjectum (Sujeito) no sentido de fundamento.
Penso que Heidegger
chegou mesmo a visar os Tempos Modernos em termos de algo como um a priori
histórico aproximado ao sentido de Foucault. Os termos fundamentais desse a
priori da Modernidade, que se poderia designar antropo-metafísico, seriam: a
essência do pensar como Represent-ação, logo tendo como fundamento o Sujeito; a
verdade como certeza; e a relação da subjetividade com a totalidade do ente
como dominação (“técnica”).
Seria esse, a meu
ver, o sentido do termo heideggeriano “história do ser” . Fornecendo sentido ao
ser, ou esquivando-se dele para constituir metafisicamente o sentido desse
esquecimento, a cada vez que algo como esse Tempo – a Grécia ou a
Modernidade, por exemplo – se instala, pode-se a partir do fio condutor dessa
interrogação fundamental sobre como ao Ser está sendo fornecido o sentido do
esquecimento ( nas metafísicas) , ou da proximidade (na origem ou no fim da “história”
, na palavra dos poetas e pensadores), estabelecer algo como o campo a priori
de todo pensar desse Tempo.
Todas as
macro-oposições filosófico-conceituais da modernidade são assim relançadas por
Heidegger no âmbito de um Mesmo a priori que seria antropo-metafísico. Contudo,
especialmente quanto à crítica de Heidegger a Nietzsche, não há ainda base para
estendermos devidamente a questão, pois ela requer a compreensão do cenário
filosófico contemporâneo.
Aqui , contudo, seria
importante apenas registrar que a interpretação da Vontade de Potência em
termos de subjetividade permanece bastante questionável. Kelkel-Scherer , em
seu livro sobre Heidegger, consideram que não se destitui a importância
do pensamento heideggeriano mesmo aceitando que quanto a Nietzsche a
interpretação de Deleuze é mais satisfatória. Nessa interpretação Deleuze visa
a Vontade de Potência justamente como conceito que não só “critica” a noção de
subjetividade mas efetivamente se movimenta no âmbito de um pensamento não
subsumível ao critério da represent-ação. A ação da Vontade de Potência
subentende, conforme Deleuze, uma noção de “relação” que teria a ver com o
cálculo diferencial. Quanto a isso, a inserção dessa noção aqui é altamente
oportuna porque Deleuze estende uma compreensão “nomadológica” da modernidade a
partir dela, localizando, por exemplo em Spinoza, um pensamento essencialmente não-metafisico,
não-cartesiano.
Em todo caso o
heideggerianismo se interpõe na constituição mesma da questão, o que torna a
sua prévia apreciação necessária a qualquer intenção de compreender a
filosofia, tanto moderna quanto contemporânea.
d) Leibniz e Spinoza
· Leibniz e a História do Ser
A sublevação do ente
contra o nada, decisão que vem do ser, é o acontecimento decisivo que convida o
ente a se encontrar no ser enquanto que, no mesmo lance, o ente já está
informando algo sobre o ser. A sublevação é assim algo metafisicamente
inaugural, desde a Antiguidade, pois a partir dela o que o há a ensinar sobre o
ser é que o Ser é o que é, esse “que” sendo a enunciação da sublevação.
Leio aqui o termo
francês “soulèvement”, que Klossovski utitilizou em sua tradução do
Nietzsche II de Heidegger, como “sublevação”. O termo equivale
normalmente a “soerguer, levantar, agitar”, mas penso que “sublevar”
está mais próximo do sentido heideggeriano nesse contexto, já que conserva a
implicação de irromper contra, assim como em “se soulever”, isto é, “revoltar-se”.
O ente é real, sua
realidade é ser. Enquanto real o ente é efetuação de realidade, ele torna a
realidade eficaz por sua capacidade de agir. O ente age (real), o ser se mostra
(realidade). A partir dessa informação fundamental se desenvolve a História do
Ser enquanto metafísica.
Heidegger estende o
conjunto de palavras-guia, quanto ao ser: realidade = existência = ser-aí.
Metafisicamente a palavra que concentra a tríade dessa pretensa equivalência
conceitual é existência, proposta como realidade de todo ser-aí ou como
exprimindo a subsunção de todo ser-aí como Realidade, isto é, efetuação eficaz
do agir do Ente.
A existência traduz
assim o sentido corrente da realidade enquanto efetiva, isto é, a pergunta sobre
a existência traduz a questão sobre o ser. Esse sentido de “existência” se pode
resgatar plenamente, por exemplo, na enunciação da questão da existência de
Deus, ou mesmo da existência do mundo. Já na modernidade essas questões se
expressam através, respectivamente, de Kant e de Leibniz, neste como questão
envolvendo o melhor dos mundos enquanto existente.
Contudo, que esses
três termos não formam uma igualdade no sentido de uma significação unívoca, se
relaciona a que subsiste um intervalo de não-correspondência entre, por um
lado, a eficácia do agir e da obra e por outro, a determinação do ser.
Ora, a intenção
metafísica de afirmar a identidade ser = existência se vê confrontada pelo fato
de que o ser, por tal meio, não está plenamente nomeado. Assim a metafísica
precisou instituir a tradução desse intervalo a partir daquilo que já vimos ser
nomeado como oposição entre essência e existência – em grego, entre o ti
estin e o oti estin, e na linguagem escolástica, entre o quid e
o quod. A oposição metafísica porta então sobre o que é o ente, por
exemplo, essa árvore, ou em que o ente é, se existe ou não. Logo, ela porta
sobre a posibilidade de ser e o fato de ser.
Mas se a estrutura do
pensamento metafísico, ainda no momento helênico inaugural, recobre o que possa
ter restado como conexão entre a partição originária (Ser-Entes) e a partição
derivada (oti estin, ti estin ), de modo que ora a conexão permanece obscura,
ora se pode reencontrar o elo, essa obscuridade se torna mais determinante a
partir da interpretação que a romanidade/cristandade faz portar sobre o termo
grego Energeia, aquilo que em Aristóteles é o existente por oposição à Idea
(essência).
A oposição entre
essência e existência inaugura a história do ser, como metafísica. Ora, essa
distinção surge como uma mera aparência se a pergunta se deslocar, desde o
interior daquilo que ela funda, isto é, da metafísica, àquilo mesmo pelo que
ela o pôde fundar, isto é, o ser. Se ao invés de aceitar o dado da distinção e
indagar que é essência, que é existência, como se funda a existência na
essência ou vice-versa, indagamos sim, mas sobre como é que essa distinção pôde
alguma vez ser atribuída ao ser, o que se mostra é que a metafísica nunca
procedeu um tal deslocamento, logo, que a metafísica, como a distinção, não
possui realmente fundamento.
A oposição apenas
insiste sobre modos de posibilidade e gêneros de realidade, questões que
conforme a expressão de Heidegger, assim como a distinção na qual se baseiam,
se evaporam no indeterminado.
Mas a oposição
permanece como o acontecimento da história do ser que o pensamento sobre o ser
precisa se dar a pensar. Quanto a isso, o que se torna culminante enquanto
acontecimento dessa história é a transposição, pela romanidade, da energeia como
atualitas. Assim essa culminância se porta sobre o deslocamento da
questão do ser no sentido metafísico helênico genuíno que, com Aristóteles,
inicia a história do ser.
Vimos que o sentido
grego autêntico do aristotelismo conserva no pensamento da Ousia como Energeia,
o relançar daquilo que é originalmente o sentido do ser na sua irredutibilidade
ao ente e na sua relação com o ente. Heidegger traduz a Ousia, que
normalmente se lê como Substância, em termos de “Presença”. Essa tradução lhe
permite pôr a hipótese de que a partição que Aristóteles afirmou entre presença
como existência (presença em sentido eminente) e essência (presença ou ser
presente em segundo sentido), repousa sobre a partição não-metafísica
originária entre o “presente” e o “presentificar”.
Assim a partição conserva
a “existência” como correspondendo ao demorar na “presença”, a “essência”
estando como o subsistir da manifestação do “aspecto”, mas ambas sendo
modos de se presentificar, isto é, de estar no ser, daquilo que se presenta,
isto é, o ente.
Mas na transposição
implementada pela romanidade, Energeia sendo agora lida em termos de “ato”, “ser
em ato”, existência equivale exclusivamente a Realidade enquanto distinta da
essência, Realidade que nesse sentido romano de actualitas traduz plenamente
existência como eficaz efetivação a partir dos entes, isto é, como sendo
tornada eficaz pela ação do ente.
Ora, aqui Heidegger
assimila expressamente existência, no sentido romano de actualitas, a “realidade
eficaz”. A transposição de energeia como “ser em ato” (atualidade),
anuncia que existência se está propondo como Opus, Factum, a obra do obrar, o
feito do fazer. O que ilumina aquilo que se afirmou então, inicialmente, isto
é, que “existência”, entre realidade (Wirklichkeit) e dasein (ser-aí)
corresponde à tradução metafísica da questão sobre o ser que assim se transpõe
em termos da pergunta sobre os entes.
Essa transposição
acarreta um outro sentido também para a noção de causa. Pois ela não teria sido
possível se a operação metafísica inaugural grega não houvesse já determinado a
conversão da Arché pré-socrática, pré-metafísica, em Aitia, isto
é, se não houvesse assimilado origem como causação, e isso
precisamente por estar já visando o ser no sentido de presença constante e
estável, o que pôde ser lido pela romanidade como “ser em ato”.
É assim que se está
agora compreendendo a partição entre realidade como atualidade e real como
causalidade, aquilo que através de um agir ou fazer impõe a realidade como
real. O que se opõe então agora não é a dualidade real-realidade, ente e ser,
que se está propondo num mesmo operar como processo causal instaurador da
presença, mas sim entre a essência, idéia, representação, por um lado, e a
atualidade, ato, realização, por outro. O que pode restar, como conexão entre
esses duas tríades é a compreensão do ser como realidade efetivada ao modo de
ser inteligível, a realidade do ato que é real, e a compreensão do ente como
real efetivada como ente verdadeiro.
O ente se torna
exclusivamente o pensável como ser, na metafísica, desde esse acontecimento
fundamental da romanidade que introduz a energeia como ser em ato. Mas se o ser
é essa realidade enquanto causalidade, o ente pode ser pensável teologicamente,
como criador, como Deus, o ente que é o ser do qual todos os outros entes derivam,
sendo pensado como supremo (Summum Ens) porque equalizado ao ser, isto é, ente
que não pode não ser, ente necessário que não estabelece por si nenhuma relação
com o possível, sendo apenas possibilitante já que é pura realização, ato puro
(São Tomás).
A oposição entre a
essência e a realização opera também a transformação da verdade que agora se
endereça no sentido de um saber, de um estar consciente de. Ocorre então a
fluidez entre a escolástica e a modernidade, pois se a modernidade instala a
consciência de, a partir do ser humano, como “certeza” (Descartes), a
escolástica havia já pensado a verdade na abrangência da “certitude”, mas
assimilando-a dentro da oposição entre o saber realativo do homem e a
onisciência de Deus, o que também permitia propor o homem como telos
(finalidade) da natureza enquanto criação de Deus.
O que asinala a
concreção moderna, conforme Heidegger, é a substituição da igreja pela cultura
como instrumento pelo qual a humanidade pode asceder à certeza. Isso se
verifica também como tendo tornado sem precisão a localização da certitude como
onisciência para fazê-la equivaler tão somente à consciência de, enquanto tal,
isto é, à Evidência expressa já pelo Cogito. Aqui se inauguram os Tempos
Modernos como a mutação pela qual a humanidade pôde se pôr em segurança através
da certeza do saber.
Contudo, se esses
tempos são “modernos”, isso se relaciona com o o fato de que essa segurança só
pode se garantir pelo contínuo renovar do saber. Mas paradoxalmente a
modernidade não deixa de conservar a relação profunda com aquilo que serviu de
conexão à transposição da verdade em certitude, isto é, com a
romanidade-cristandade.
A cultura permanece
cristã, o cristianismo moderno se esforça por se tornar apto à cultura, esse
cristianismo tão afastado daquele do feudalismo. O verdadeiro, em todo caso, é
agora o certo como o real. A independência entre fé e razão levou a que não se
precisasse mais da fé (crença) para que o ser humano se comportasse frente ao
real – Deus e o mundo que Deus criou. Agora a razão, já se concebe em termos de
“luz natural”, isto é, a conscernência da razão do ser humano, como criatura, a
toda criação, como natureza.
Ora, desde a
configuração inaugural da metafísica, a transposição do Ser como presença ou
constância da presença, acarreta a compreensão do Logos como enunciado,
abrangência que é razão pois o que o enunciado enuncia é a essência ou a forma
inteligível. Heidegger assinala, concomitantemente à mutação da energeia como
ser em ato, a compreensão da ousia como substância, e de Ypokeimenon
(substrato) como subjectum.
Vimos que a
modernidade transpõe subjectum como sujeito (egoidade). Mas o que se anuncia
com Descartes, no rumo dessa transposição, deve liberar progressivamente a
razão, de modo que o momento cartesiano apenas introduz o que só se revela como
desenvolvimento ao longo dos tempos modernos. Assim, o que o cartesianismo
libera é a fundação moderna da representação pela qual o sujeito se estabelece
fundando, ele mesmo, o certo dos entes objetivamente presentes na evidência.
A represent-atividade
garante a efetuação dos entes frente à subjetividade que se comporta no Cogito
de modo a estar se pro-pondo como o real no seio da realidade. Contudo, o que
Descartes deixa sem esclarecer é o modo pelo qual o estar-frente-a, do sujeito
com relação aos objetos, no percipere, se deve garantir enquanto o se pôr, por
si mesmo, que é o efetuar da realidade pelo real, o agir eficaz do ente cujo
efeito é realidade. Heidegger vai localizar então a tarefa de lidar com esse problema
como tendo sido proposta pela filosofia de Leibniz.
A questão se enuncia
a partir da identificação entre a substancialidade da substância, ou a
propriedade de ser do ente, e a re-presentação. Essa identidade deve estar
caucionada por alguma determinação fundamental do ente, a saber, a unidade pela
qual, metafisicamente, tanto o ente é, na sua determinação enquanto isso ou
aquilo, quanto ele é consistindo apenas nele mesmo, pois enquanto substistente
é uno.
Ora, a mônada,
conforme conceituada por Leibniz, é essa unidade que deve por sua plenitude
garantir o unívoco da Ousia. Pois Leibniz pretende instituir como o mesmo o
fato de ser um ente e o fato absoluto de ser. Esse mesmo já está garantido e
fundado no re-presentar. Agora o caráter do re-presentar, que ao mesmo tempo
implica (perceptio: recolhe e simplifica), e explica (expressio: põe à frente,
des-simplifica), é aquele portado pela unificação.
A unificação do
re-presentar pela mônada é percepção. A percepção para Leibniz, conforme
heidegger, é algo que comporta a transição. Cada estado da mônada constitui uma
transição para outro estado, sendo sempre estabelecido pelo representar.
Mas se a perceptio é
expressão do múltiplo no simples (uno), expressio sendo re-presentação como
des-simplificar do uno, que se desdobra no recolhimento como um, isso se
desenvolve apenas enquanto unificação a partir de si da mônada que enquanto “o”
uno é unificante. Em outros termos, o que a mônada se põe à frente, que em si é
múltiplo, a mônada o põe como uno, isto é, re-presenta. Mas isso que é
unificante é a própria existência da mônada enquanto Realidade de sua unidade.
A mônada é autômato
espiritual, substância simples, Enteléquia, essas expressões que Leibniz
utiliza para aquilo que Heidegger designa integralidade, atualidade
(realidade). A mônada é o espelho vivo que agindo, isto é, representando,
expressa o universo múltiplo como algo que nela e por ela aparece como uno
(formação do mundo). Vale então, plenamente, para Leibniz, conforme Heidegger,
a equivalência da metafísica moderna: subjectum = percepção = represent-ação =
actualitas.
Ora, o que faz a
percepão transitória é o fato de que o mais íntimo à mônada é a apetição.
Percepção-apetição é o agir eficaz da mônada unificando o mundo como Realidade
na representação. Assim a representação também inclui o próprio agir unificante
da mônada como apetite. O presente cambiante da substância ou mônada expressa
sua unidade sendo ao mesmo tempo expressão do mundo. A força (vis) é o
princípio interno da substância, aquilo que lhe confere unidade, essência
original da propriedde que pertence ao ente como seu ser.
Força ativa
originária (vis primitiva activa) que é a do ser vivo, puro agir eficaz do ente
real que re-presenta unificando a realidade enquanto mundo, mas essa unificação
correspondendo ao incessante transigir da apetição. A representação é agir
eficaz mas essa ação deve ser pensada como progressão contínua, expressão, não
como simples reflexo. A força unificante que corresponde ao ser da mônada age,
incessantemente, ela mesma unificando o mundo, e daí a necessidade de Leibniz
afirmar o infinito, o imperceptível, no âmbito mesmo da percepção.
A afirmação de dados
inconscientes presentes na alma, relacionada estreitamente à concepção de
infinito, desempenha um papel relevante em vários pontos de argumentação do
leibnizianismo, aqui sendo importante realçar aqueles referentes ao inatismo e
à teoria da percepção.
As idéias inatas
estão na alma como verdades necessárias. A alma é fonte dessas verdades, como
as idéias do ser, de possível e de mesmo. Ora, na confrontação com o empirismo
de Locke, Leibniz vai afirmar que a alma pode ter idéias de que não se dá
conta, o seu conhecimento estando envolvido no auto-conhecimento, como é o caso
quanto ao ser e à substância, noções que se apresentam na idéia que fazemos de
nós mesmos. Aqui a argumentação de Leibniz me parece portar ainda, como no
cartesianismo, sobre a evidência, pois a análise da idéia consciente que
envolve noções inatas sempre se faz no âmbito da clarificação.
Mas não que o
argumento dependa da evidência, pois trata-se sempre, para Leibniz, de modo não
idêntico a Descartes, de postular a evidência mesma na relação com o infinito,
logo com o imperceptível. Assim quanto se trata de compreender a percepção,
Leibniz utiliza a noção de limiar. O exemplo é o som das ondas do mar. Na
realidade ouvimos o som de cada minúscula onda, mas só temos consciência do som
do conjunto. As mínimas percepções não conscientes (imperceptíveis), que vão ao
infinito, se acumulam formando a memória. O próprio indivíduo é pensado como
conjunto de estados anteriores em conexão com o estado atual de modo que Deus
poderia ler na mônada a sequência de todos os estados registrados na sua
memória.
Heidegger observa
então a novidade do leibnizianismo, em relação a Descartes, mas de modo que
Leibniz como que completa os alicerces cartesianos na fundamentação dos tempos
modernos. Pois ao invés de uma extensão a que o pensamento se aplica do
irredutível exterior, a vis ativa, a força, é plenamente passível de abarcar
tanto o sujeito quanto o objeto, no mesmo processo expressivo pelo qual ocorre
algo assim como o mundo.
A apetição
representante, conforme heidegger, torna-se a causa enquanto agir eficaz da
substância que efetua a realidade no sentido da atualidade. Mas isso de modo
gradual, transitivo, conforme a tendência apetitiva. Ora, as substâncias vêm no
plural, cada mônada expressando o mundo conforme o seu ponto de vista que
ilumina o universo no intervalo de sua amplitude variável. Não obstante a
pluralidade ou gradação, mesmo da infinitude, com que a mônada tende para o
mundo da multiplicidade, Heidegger localiza o que há no pensamento leibniziano
de autenticamente metafísico.
A mônada ou
substância se estabelece, enquanto ente, no persistir da presença, a força –
ser dos entes que persistem em si. O fato desse quod antepondo-se ao nada se
precisa enunciar como Razão: por que há algo, não simplesmente o nada? A
pergunta já supõe que o que quer que esteja havendo, está ao mesmo tempo insurgindo-se
contra o nada. Heidegger localiza a Razão Suficiente como resposta de Leibniz à
indagação sobre o haver, de modo que a fundamenteção da sublevação contra o
nada se estabelece pelo grande princípio de razão, metafísico-moderno.
O ser é agora o unificante
efetuar do que se tem em si mesmo, é a apetição desse si mesmo produzindo-se
por si mesmo. Todo o possível se relaciona à existência mas toda existência,
enquanto subjectum – fundamento é a mônada (ego) que envolve a razão suficiente
de todo existir. A apetição, que distingue seu ser como vis, é potência, já
assim coextensiva à existência. Mas o ser necessário, o ente supremo, Deus, é
concebido nesse esquema de modo ontológico, como causa de todos os outros
entes.
O exame das
filosofias de Descartes e Leibniz, conforme Heidegger, mostra que se não são,
evidentemente, redutíveis, ambas se movimentam no mesmo campo
antropo-metafísico moderno. Ora, o que distingue a filosofia de Leibniz, quanto
a isso, é ter tornado o papel da subjetividade bem mais necessário na relação
da representação. Isto é, de algum modo, como se Leibniz houvesse resolvido de
maneira mais abrangente a irredutibilidade que restava em Descartes entre as
substâncias (“res”).
Ora, aqui se coloca a
questão fundamental da leitura histórico-filosófica de Heidegger, a saber, o
problema da articulação do que há de irredutível no múltiplo com o que
permanece o Mesmo no uno. Assim, se a produção filosófica moderna não se deixa
reduzir à unidade, não deixa de apresentar esse a priori como o mesmo visível,
por exemplo, entre Leibniz e Descartes, enquanto o postulado metafísico moderno
que veio a ser a Subjetividade. Heidegger vai opor então, para tornar isso mais
explícito, os dois conceitos de subjetividade e subjetidade – subjectivité e
subjectité, conforme a tradução de Klossowski.
Não creio que a
partição de Foucault entre subjetividade e subjetivação se reduza a essa
oposição lançada por Heidegger. O que permanece em comum nessas duas vias é que
a subjetividade se situa apenas como um modo, seja da subjetidade de Heidegger
ou da subjetivação de Foucault. Contudo, há importantes contrastes a enfatizar
entre ambos.
Inicialmente a
questão periodológica. A subjetividade é o modo exclusivamente moderno da
subjetidade, e o que é moderno para Heidegger abrange, desde Descartes, o
destino metafísico da história do ser que inclui Nietzsche. Já a subjetividade
de Foucault é a dobra de subjetivação que constitui a forma-homem da
contemporaneidade, pós-revolução francesa, impondo, por exemplo, no campo do saber,
o postulado antropológico.
Mais fundamentalmente
a questão conceitual. A subjetidade do heideggerianismo é a constituição do
subjectum, no sentido de ypokeimenon ou substrato, mas não implicando que essa
determinação do Ser a partir do subjectum seja por um ego. A subjetividade
ocorre como preenchimento moderno do subjectum enquanto sujeito ou egoidade.
Quanto a Foucault, penso que a subjetivação é a dobra que constitui o si sempre
numa relação constitutiva com o desejo, de modo que se pode compreender a
subjetividade como esse modo específico de “dobrar” ou constituir o sexo que
veio a ser a contemporânea, o que já examinamos no estudo sobre a “história da
sexualidade”.
Retornando a
Heidegger, o ponto importante a destacar é que ele situa em Leibniz o momento
em que a metafísica moderna logra fazer o termo subjetividade expressar a
essência do ser em sua plenitude pois com Leibniz não se trata apenas de “penso”
mas do appetitus como traço fundamental do caráter representativo do ser.
Preponderância da vontade no fundamento metafísico da modernidade. Assim a
subjetividade unifica o campo da metafísica moderna, esse lugar do Mesmo como
história unitária do Ser, Antropomorfia.
· A Monadologia
O leibnizianismo pode
parecer muito surpreendente na ambiência do século XVII, em que o mecanicismo
cartesiano detém uma posição tão preeminente, em que mesmo o espinozismo
conserva a consistência do pensar no sentido de um princípio irredutível aos
seres individualizados mas que fornece de todos estes a inteligibilidade, mais
geralmente, nesse século em que tudo repousa sobre o alicerce inquebrantável da
necessidade como da ordem universal, lembrando aqui o a priori
histórico-clássico foucaultiano.
É interessante notar
que em exposições sobre o pensamento de Spinoza é comum constar um capítulo
sobre os registros da estranheza que sua filosofia provoca em muitos autores.
Com Leibniz, se isso não ocorre, não deixa de haver sempre algum comentário
sobre o caráter desconcertante de sua produção conceitual, quer por sua exuberância
em cada campo – assim como observado por Deleuze – quer pela multiplicidade de
campos do saber em que Leibniz inova.
Bréhier, por exemplo,
observa que com Leibniz já se está num universo de pensamento bastante afastado
daquele de Descartes, Spinoza ou Malebranche. E se considerarmos o caráter
transicional da percepção, a noção de impressões que se ligam num continuun que
porta ao infinito, não nos parecerá forçado relacionar esses aportes a uma
filosofia que se propôs a centralidade da força, do ser vivo e dos corpos
materiais, enquanto o cartesianismo dominante conservava a irredutibilidade de
extensão e pensamento, matéria e espírito.
Quanto a isso,
Vergez-Huisman também mostram que se Leibniz pôde corrigir a fórmula de
Descartes, que propôs a conservação do movimento em termos de sua quantidade
(MV), isto se deve a que ele propôs a força viva como o que se conserva no
ciclo (mv ²). / I /
No entanto, creio que
é mais como se o leibnizianismo, ao pensar a vida, o corpo e a força, pudesse
ser reunido às singularidades da filosofia de Descartes e Spinoza, fechando o
circuito mais essencial ao clássico, ao invés de se conceituar como um
biologismo avant la letre.
E já nesse sentido ,
é bastante oportuna a observação de Vergez-Huisman, sobre ser uma das chaves do
sistema de leibniz a intenção de conciliar aristotelismo e cartesianismo, no
intuito de unir ao seu sonho de uma combinatória universal uma visão de mundo
em que estão presentes a noção de força, movimento, individualidade,
finalidade, continuidade e variação. O que ressoa com a afirmação de Bréhier
pela qual se Leibniz permanece de algum modo mecanicista, ele reabilita as
formas substanciais do peripatetismo, assim como as causas finais em física.
Ora, esse cálculo
filosófico que deveria permitir encontrar todas as verdades a partir da
combinação de símbolos elementares me parece o protótipo do pensamento
classificatório clássico, assim como descrito por Foucault.
Contudo, ainda quanto
a essa consideração sobre Leibniz e seu tempo, pode-se sem dúvida afirmar que a
monadologia conserva uma motivação que acarreta o ultrapassamento dos limites
impostos pela substância única do espinozismo ou concebida em termos de
dualidade, como no cartesianismo.
Assim, mesmo havendo
a tendência a enfatizar a irredutibilidade do pensamento de Spinoza com relação
ao cartesianismo, como ocorre em Deleuze, creio não ser de todo irrelevante a
observação de Bréhier. Afirmando que o centro da metafísica de Leibniz é a
noção de substância, Bréhier demarca o que singulariza a posição de Leibniz, a
saber, uma noção de substância que é inseparável de seus acidentes tanto quanto
das outras substâncias plurais. Ora, eis porque se pode afirmar que o
cartesianismo contém o espinozismo em germe, uma vez tendo Descartes conceituado
a substância a partir de um único atributo, sem mudança nem relação com outras
substâncias criadas.
Por outro lado essa
motivação do leibnizianismo, que parece tão inovadora, na realidade pode-se
mostrar como estando amplamente situada em sua época. Assim Vergez-Huisman
relacionam a variação contínua ao cálculo infinitesimal e ao uso do
microscópio, a concepção de força e a ênfase na matéria ao avanço no
conhecimento dos corpos. E se a monadologia repousa sobre um princípio de
força, esse princípio é metafísico, não “positivo”: ser é agir.
Sobretudo o
pensamento de Leibniz se inicia, conforme Bréhier, por uma intenção de
demonstração que se relaciona a um critério de idéia que ultrapassa os
princípios de clareza e distinção cartesianos. Leibniz exige que a idéia possua
não só a clareza, como impossibilidade de confundir (por exemplo, duas cores)
ou a distinção como consciência daquilo que singulariza (por exemplo, o
pensamento e a extensão), mas também a adequação, isto é, a possibilidade da
análise alcançar todos os elementos de um certo caráter.
Mas é nisso mesmo que
Bréhier assinala com precisão aquilo que demarca a consistência própria da
filosofia de Leibniz, e o século XVII em geral, ainda que o período de
atividade de Leibniz venha a abranger o início do século XVIII. Tratar-se-ia do
infinitismo. Assim, o que parece surpreendente em Leibniz é essa convergência
de método rigorosamente analítico e infinitismo, ao mesmo tempo as exigências
da demonstração e da continuidade. Encontrar na infinidade de termos o ponto
preciso que se está visando, eis o que se afigura como objetivo a partir dessa
convergência inusitada.
Para cada questão
deve haver o algoritmo que desempenha o papel do infinitesimal no campo preciso
do cálculo. O objetivo se torna equivalente a encontrar a lei de que deriva
qualquer variedade infinita, em qualquer campo. Bréhier pretende assim conjurar
o aspecto desconcertante do leibnizianismo, com sua exuberante produção
conceitual em tantas regiões do saber. Matemática, física, filosofia, moral,
jurisprudência, todas as contribuições de Leibniz seriam como corolários desse
pensamento único, desse objetivo derivado do infinitismo.
Torna-se então
importante observar a interconexão entre física, metafísica e teologia, na
filosofia de Leibniz, pois assim fica bastante evidenciada a inserção de seu
pensamento na ambiência do século XVII clássico-barroco.
Quanto à relação
entre física e metafísica, pode ser visada através da concepção de universo do
leibnizianismo. Apresenta-se aí o universo como continuun de fluídos
progressivamente mais sutis, ao infinito, de modo que cada consistência
específica atua como um meio sólido pleno de corpos relativamente àquela, mais
sutil, que lhe é contígua.
A física de Leibniz
opõe-se à de Descartes principalmente no sentido de mostrar que a força deve
ser visada independentemente do movimento. A força explica o movimento, não o
inverso. Tempo e espaço são apenas relativos, ordens respectivamente de
sucessão e de coexistência, assim como o movimento, que só subsiste como
conjunto de suas partes constituintes
A transmissão do
movimento por impulsão pode ser perfeitamente explicada nesse meio pleno,
negando que a extensão, esse ser por agregação, possa ser conceituada em termos
de substância. Leibniz enuncia por esse meio o princípio de continuidade, que
deverá infirmar tantas proposições cartesianas – por exemplo, sobre a
conservação do movimento e sobre as leis do choque ou colisão.
Quanto à conservação
do movimento, Leibniz mostra, como vimos, que é a força a real constante, ao
invés de, como afirmava Descartes, supor-se que o movimento deveria mensurar a
força. Já quanto às leis do choque, o erro de Descartes se deve à sua concepção
instantaneiísta quando o que se deve utilizar é a noção de corpo elástico. Pode-se
assim conceber que dois corpos conservam sua força após a colisão , ainda que
tendam ao repouso.
Leibniz concebe assim
os corpos materiais infinitamente divisíveis, cada parte de matéria composta de
partes ainda menores, em contínua agitação. É a força que singulariza os
corpos, uns em relação aos outros, não a grandeza ou a figura como na concepção
cartesiana de extensão.
Observa-se assim,
conforme Bréhier, o sentido daquela interconexão de física e metafísica, pois
os princípios leibnizianos de força, como de ação, são metafísicos, concebidos
como realidades efetivas. Pode-se compreender melhor esse fato, algo que vimos
já ser notado por Vergez-Huisman, comparando o manejo da física por Leibniz e
Newton.
Leibniz, descobrindo
o cálculo infinitesimal, jamais o utilizou para descrever leis da natureza.
Tampouco usou a fórmula mv² no cálculo de fenômenos físicos. A questão do
leibnizianismo centrava-se no descerramento de uma realidade profunda. Já
Newton manejava a força no contexto de uma teoria puramente física, como a
gravitação universal, que deveria permitir o cálculo e a previsão de grande
quantidade de fenômenos físicos.
Bréhier observa a
importância do contraste entre essas duas vertentes, a filosófica de Leibniz e
a científica de Newton. Pois trata-se do confronto inaugural entre filosofia e
ciência no sentido moderno-experimental do termo. O que Leibniz vai criticar,
equalizando algo paradoxalmente o Deus ex machina cartesiano e o cientismo
newtoniano, é que de igual maneira sempre se precisa conceber uma providência a
manter as coisas em seus lugares. Leibniz almeja uma compreensão do ser assim
das coisas a partir de princípios reais intrínsecos a elas mesmas, isto é, a
sua realidade substancial.
Ora, a noção central
da metafísica de Leibniz é a mônada, como substância individual. A monadologia
deverá, contudo, entretecer-se numa relação complexa com a teologia. Bréhier
assinala a influência do aristotelismo nessa concepção individualizada de
substância, mas também a influência neoplatônica no pensamento leibniziano,
pois Deus é aí concebido como o infinito hipercategoremático, como lei que
envolve todas as leis das séries atuais, a lei de cada série sendo o infinito
categoremático de que cada série mesma é um infinito sincategoremático. O próprio
termo “mônada” deriva de Proclo, que designava assim as unidades inferiores ao
Uno, que continham a multiplicidade contida no universo.
Já Deleuze enfatiza a
importância de se compreender a originalidade de Leibniz nesse ponto. Pois
Leibniz teria feito algo que até então não se havia ousado, isto é, levar o
conceito até o âmbito do sujeito, justamente sendo o conceito, por definição,
da ordem da generalidade enquanto representação única (por exemplo “a” cadeira)
que se aplica às coisas múltiplas (todas as cadeiras de algum modo dadas). A
mônada corresponderia assim a algo como um conceito individual, mas como a
mônada é expressão do mundo o que resulta é o perspectivismo em filosofia, pois
nesse caso o que constitui a noção enquanto individual é o ponto de vista,
sendo este mais profundo do que o indivíduo que nele se localiza. O conceito
que se inaugura enquanto estritamente subjetivo é algo ainda menos geral do que
“o” sujeito, correspondendo ao ponto de vista que o define.
A relação da
monadologia com a teologia se torna bastante evidenciada no momento em que
intervém o princípio de Razão suficiente, mas ao mesmo tempo o deslocamento que
aí se verifica na noção tradicional de causa se relaciona estreitamente com
esse novo papel do sujeito.
O conceito
tradicional de causalidade se reservava, enquanto fundamento, àquilo que de
modo ontológico expressava “a necessidade própria do ser enquanto substância”.
Se podemos relacionar essa expressão de Abbagnano à intenção mesma de Leibniz
ao enunciar o princípio de razão, o que ocorre agora é a supressão desse
caráter de necessidade, de modo que o que se está formulando é um novo tipo de
fundamento, apto a expressar a realidade contingente dos acontecimentos
enquanto relativos ao sujeito que os efetua.
Leibniz enuncia um
princípio de razão atuando no âmbito das “verdades contingentes” ou “verdades
de fato”, onde o inverso de uma proposição não implica contradição, sendo que a
noção rigorosa de causa até então se limitava ao âmbito das “verdades de razão”,
que não podem comportar contrariedade sem contradição. O princípio estende
assim a determinação até esse domínio em que não se pode falar de necessidade.
Deus escolhe o melhor
dos mundos criando substâncias que envolvem todos os seus acontecimentos, mas
esses acontecimentos são escolhidos livremente por Deus. Assim, conforme o
exemplo clássico, César não ter atravessado o Rubicão é uma proposição de modo
algum contraditória, isto é, conserva-se uma proposição possível. Mas César
realmente atravessou o Rubicão, devido ao seu desejo de poder e mais geralmente
devido a todos os eventos anteriores que determinam, por seu encadeamento, o
fato real da travessia do Rubicão por César, mais o encadeamento de todos os
fatos que daí derivam, como a fundação do Império Romano, etc. Assim os
acontecimentos que inerem à noção individual, de cada sujeito, envolvem o mundo
inteiro.
Se as verdades de
razão, por exemplo, a definição de uma figura geométrica, podem ser
demonstradas por uma análise finita evidenciadora da necessidade causal que a
engendra, as verdades de fato dependeriam de uma análise infinita para que se
pudesse abarcar a sua razão integral, isto é, a concatenação de todos os fatos
que determinam o acontecimento real. Análise contudo impossível de ser feita
pelo ser humano. A determinação suficiente permanece porém garantindo
metafisicamente a demonstração a priori das proposições que se podem considerar
verdadeiras.
Quanto a isso,
Deleuze sublinha novamente a originalidade de Leibniz. Pois classicamente a
lógica distingue dois tipos de proposições que se podem considerar analíticas
ou idênticas. Toda proposição analítica ou idêntica tem o predicado incluído já
na noção do sujeito. Contudo, esse tipo de proposição pode se apresentar na
forma da reciprocidade, por exemplo quando se afirma que o triãngulo tem três
ângulos ou A=A, ou na forma da inerência, nesse exemplo quando se afirma que o
triângulo tem três lados.
O que Deleuze mostra
é que Leibniz reverte a afirmação tradicional da lógica pela qual toda
proposição idêntica é verdadeira, pela afirmação pioneira de que toda
proposição verdadeira é idêntica, isto é, traz o predicado já contido na noção
do sujeito. Ora, se o sujeito é substância, isto equivale a afirmar que os
acidentes já estão contidos na própria substância.
Leibniz utiliza aí
uma analogia geométrica para ilustrar o sentido novo dessa constringência
lógica determinada como inerência, também designada inclusão. Os seres
individuais são compostos por linhas infinitas de desenvolvimento dos termos de
seus predicados, assim como a equação de uma curva permite localizar qualquer
ponto seu, ao infinito. Se a inteligência do ser humano não atinge nunca a
infinidade desses pontos enquanto acontecimentos ou termos concatenados uns com
os outros, podemos estar certos de que qualquer que seja o segmento oferecido
ao pensar, pode-se sempre encontrar a conexão racional de um termo a outro.
Somente Deus, cujo
intelecto é infinito, pode efetivamente ver todas as linhas que compõe a
substância, compreendendo assim toda a sua realidade, sendo Deus o autor das
coisas. Ora, se o entendimento de Deus concebe todo o possível, é a sua vontade
exclusivamente que escolhe o que efetivamente ele cria. Entendimento e Vontade
são assim os dois atributos que Leibniz concebe como pertencendo a Deus,
dualidade que recobre termo a termo a de essência e existência, relacionando-se
também com as dualidades de contingente e necessário, possível e real.
Deus possui uma visão
infalível, pois sabe dentre as substâncias concebidas por seu entendimento,
quais ele resolveu criar por sua vontade, e seu conhecimento abrange assim as
substâncias na totalidade, ora apenas como possíveis, ora como efetivamente
existentes. O princípio do melhor na escolha dos mundos, é, pois, o que convém
a Deus. Ora, entre dois possíveis pode haver incompatibilidade ou não. Quando
não ocorre incompatibilidade eles podem pertencer ao mesmo mundo e Leibniz cria
o conceito de compossibilidade como conveniência entre possíveis. O critério do
melhor é então aquele pelo qual, dentre todas as combinações de possíveis, Deus
escolhe a que comporta a maior frequência de compossibilidade, isto é, o máximo
de realidade ou de essência.
O terceiro atributo
que Leibniz propõe como pertencendo a Deus é a potência como ação criadora.
Quanto às essências que se tornam atuadas, porém, o leibnizianismo as propõe
como contendo os menores detalhes das coisas, noções individuais, o que não
permite que se as tome no sentido platônico.
Essa concepção de
essência é aproximada por Bréhier àquela de Plotino, que Bréhier compreende
como sendo também essência individual, não como um modelo à qual a coisa tende
sem jamais identificar-se, devido a seu constrangimento material. Bréhier
aproxima também Leibniz e Plotino a propósito do conceito de expressão, pois em
ambos ocorre a transparência da realidade total do mundo em cada idéia. Assim
Leibniz estende a expressão como gênero cujas espécies seriam o conhecimento
intelectual, a percepção e o instinto.
As mônadas são
expressões do universo, irredutíveis, mas hierarquizadas, do menos ao mais
perfeito. Aqui, contudo, Bréhier converge a influência de Plotino com a de
Platão, sobre o leibnizianismo, pois conserva-se em todo caso a noção de
universo em níveis hierarquizados, do menor ao maior estado de concentração da
realidade espiritual.
Mas bem inversamente
ao platonismo, tanto quanto ao neoplatonismo, a multiplicidade substancial do
mundo atualizado não se propõe como o estado mais afastado da perfeição do Uno.
As mônadas são por si mesmas unidades perfeitamente individualizadas. O que as
singulariza e as hierarquiza não porta sobre a oposição união-dispersão, mas
sobre o critério de clareza, relacionado como aptidão à expressão. Cada mônada
expressa o mundo sempre o mais e o melhor que pode, mas nem sempre conforme a
mesma extensão dos seus atributos que são: percepção (variedade de detalhes na
representação) e apetição (tendência à clareza na representação).
A mônada nua só
possui percepção. A mônada animal possui memória, e as mônadas racionais ou espíritos
possuem também consciência, reflexão, conhecimento das verdades necessárias. No
interior da escala a que pertencem, no entanto, o que varia entre as mônadas é
a clareza da expressão. Mas a harmonia pré-estabelecida garante o acordo entre
os variados graus de clareza portados pelas mônadas, de modo que as percepções
de cada mônada se corresponde com a de todas as outras. A vontade pela qual
Deus escolhe o melhor dos mundos atua, portanto, como ordem universal.
A harmonia
pré-estabelecida se estende ainda à relação da alma com o corpo, mas naquilo
que rege a correspondência entre a expressão das mônadas, determina o seguinte
equilíbrio: sendo a mônada algo como um ser representativo, toda paixão supõe o
tender a um grau menor de clareza, enquanto que a ação, inversamente, é o
tender a um grau superior de clareza.
Mas a ordem universal
pressupõe uma constante entre a soma de paixões e de ações assim como uma
combinatória da reserva de clareza que compete a cada mônada em relação às
outras. Assim o aumento de ação como de clareza dessa mônada implica o aumento
de paixão de uma ou de outras mônadas. O que acarreta certas aporias ao sistema
leibniziano.
Inicialmente há o
problema moral: como conciliar a tendência à ação com o bem de todos. Mas
também o problema da liberdade: se todos os eventos são pré-determinados, como
afirmar a escolha racional como fundamento dos atos? Resta ainda o problema do
mal: quem é o autor do pecado se Deus criou Adão pecador?
Essas questões foram
apresentadas a Leibniz por seus correspondentes. As soluções apresentadas por
ele podem ser examinadas através da observação de seu ensinamento sobre a
liberdade.
· Liberdade e Pensamento Humano
Heidegger visa
bastante negativamente a filosofia de Leibniz, uma vez que a situa como a
pioneira realização efetiva da antropomorfização do mundo. Assim, para
Heidegger, o que os novos conceitos que Leibniz apresenta transformam, já
estava se prestando a uma tal transformação, pois evoluía no âmbito
romano-cristão, sendo que o ocultamento da questão do ser e a metafísica, como
acontecimentos da história do ser, não podem ser explicados senão por alguma
decisão do próprio ser. Ora, mesmo o emergir do pensar no exterior da
metafísica, o fim da filosofia no sentido tradicional desse termo, assim como a
tarefa do pensamento futuro, não poderia depender de uma decisão que
pertencesse exclusivamente à esfera do humano.
Essa crítica de
Heidegger, que se poderia designar anti-humanista, soa bastante familiar na
ambiência da contemporaneidade. Podemos reencontrar esse aspecto, por exemplo
em Nietzsche ou mesmo nas vanguardas artísticas, sempre relacionado ao tema do
descentramento do sujeito. O que torna tudo tão complexo em relação a Leibniz,
porém, é que ao mesmo tempo que ele inaugura o pensamento do sujeito, o
conceito mesmo sendo lançado no âmbito da individualidade, seu perspectivismo
já se move na região da singularidade, como também observa Deleuze, que estende
uma via de aproximação entre Leibniz, Nietszche e Henry James, quanto á
perspectiva, e entre Leibniz e Borges, quanto às noções de compossibilidade e
de mundos possíveis.
Creio que se pode
propor, efetivamente, que Leibniz inaugura aquilo que designei como pensamento
humano, em certo sentido, isto é, naquele pelo qual se mostra que só com Leibniz
se libera o movimento conceitual no âmbito restrito do singular, aquilo que
Deleuze conceitua como noção individual, enquanto que mesmo no auge da
democracia grega, com o pensamento sofístico, se poderia propor apenas uma
tendência nesse sentido, já que não se fornecia um conjunto conceitual apto a
expressar a realidade dessa irredutibilidade.
Não que seja inviável
qualquer humanismo antigo. Mas as condições pelas quais a problematização do
ser humano se tornava pensável então, estavam subsumidas a uma série de
pressupostos que se por um lado permitiam a compreensão de algo como a
palavrização/construção do mundo, como vimos anteriormente, por outro limitavam
o foco questionante ao que se devia fornecer como constitutivo desse processo,
a democracia, a cidade, o Nomos.
Mesmo assim, pode-se
sempre pretender encontrar na sofística, como nos gregos, uma interrogação mais
fundamental, mais livre, sobre o ser e sobre o humano, na medida em que
destacada, justamente, da “subjetividade”. Contudo, seja qual for a tendência
pela qual se procure implementar uma observação assim, sempre se terá que
confrontar o fato de que a Atenas democrática e o humanismo antigo constituíram
o âmbito inteiramente singular desse pensamento que designei então “retórico”,
naquele meio dominado pelo mito com seu correlato político de soberania
centralizada, despótica e imperial.
Quanto a isso é
importante reter a abrangência do momento moderno em sua relação com a
emergência desse entrelaçamento de noções do leibnizianismo, que enunciam a
entrada naquilo que Heidegger designa como a metafísica da subjetividade. O
próprio conceitismo barroco, por exemplo, como observa Deleuze no livro sobre
Leibniz, já estava se encarregando de realizar a conciliação entre conceito e
indivíduo. E ao observar as imagens desse período através dos mapeamentos de
Marx/Althusser, Foucault, Deleuze/ Guattari, evidenciaram-se os meios de
colocação da problemática do sujeito como central desde então.
O me parece salientar
a originalidade de Leibniz é o entrelaçamento de conceitos que ele libera na
abrangência dessa noção individual. Assim, se poderemos ver algo como a
essência singular no espinozismo, conserva-se contudo o pensamento numa
consistência mais coextensiva ao naturalismo do que a essa irredutibilidade que
Leibniz torna patente. Entrelaçando noções como razão suficiente, expressão e
duração, que deslocam os antigos domínios de causalidade, generalidade,
consciência e temporalidade, engendra-se uma realidade impensável na
exterioridade do humano.
Que o ser humano se
pense na sua irredutibilidade, porém, pode ser interpretado de muitos modos.
Ora pode ser proposto, de modo heideggeriano, como mais um passo no sentido do
afastamento do ser. Nesse modo de ver, o irredutível humano é apenas a proposição
da independência e da dominação do homem sobre a natureza, enquanto que o que a
filosofia do dasein intenta preservar é o pensar do humano na abrangência do
ser, criticando-se a metafísica justamente por tender a autonomizar os níveis,
o humano, o natural, o fabricado, etc. Heidegger já estaria a meu ver
revertendo o Impessoal (das Mann) por não dissociar o ser do seu pensar, numa
ambiência contemporânea em que mesmo na física se torna fundamental a posição
do observador. / 1 /
Ora, esse mesmo modo
crítico de ver o fenômeno moderno/leibniziano também se pode propor como
estando relacionado com o que designo pensamento humano, pois essa crítica do “humanismo”
envolve uma caracterização efetiva do que pertence autenticamente ao ser humano
sem que isso possa ser efetivado na exterioridade de uma criação conceitual
correspondente e localizável.
Algo que se pode
relacionar com a intenção de estender os meios de compreensão do que designo “pensamento
humano”é aquilo que Foucault conceitua como “a história do pensamento”,
opondo-se à história dos comportamentos ou das representações, e que se propõe
definir os meios pelos quais “o ser humano ‘problematiza’ o que ele é, e o
mundo no qual ele vive” (O Uso dos Prazeres, 14-5).
Não deixa de haver,
em todo caso, uma ambivalência incontornável nesse emergir do pensamento
humano, com Leibniz, na modernidade, pois por um lado ele é inseparável da
ideologia – tomando esse termo no sentido não economicamente determinista –
isto é, de um complexo sistema de dominação, de poder, que como mostrou
Foucault, vai tornar o papel do sujeito cada vez mais importante nos esquemas
de controle social. Mas é ele também que fornece meios conceituais para que o “sujeito”
se proponha na irredutibilidade de sua liberdade, de seu ser singular, o que
está bastante relacionado com a questão do descentramento do sujeito, e com
aquilo de que essa questão decorre, a saber, o tema do inconsciente.
Ora, conforme
Deleuze, a proposição do leibnizianismo pela qual cada mônada exprime a
totalidade do mundo, e isso de um certo ponto de vista, se desenvolve a partir
de uma oposição entre essa expressão obscura, o clamor das pequenas percepções
ao infinito, e a “apercepção” ou percepção consciente. O ponto de vista é então
essa zona de clareza e distinção, essa região de apercepção que define um
sujeito em relação a outro sujeito, pois o que permanece obscuro para um pode
ser claro a outro, conforme outro ponto de vista.
Em relação à
totalidade, expressa obscura e confusamente, o ponto de vista corresponde,
portanto, à proporção da região do mundo expressa de modo claro e distinto.
Certamente pode-se mostrar que a noção contemporânea de inconsciente supõe
aquela analítica da finitude de que fala Foucault, de modo que à noção
corresponde uma sistematização como a proposição de constantes a partir das
quais se pode compreender o funcionamento consciente – as ciências humanas não
são assim um correlato do pensamento humano, mas só se pode compreendê-las numa
ambiência de saber que já se constituiu sobre algo como o pensamento humano
conceitualmente assegurado.
O que ocorre no
leibnizianismo, enquanto movimento conceitual absolutamente inaugural é que ele
faz intervir uma oscilação entre obscuridade e clareza, inconsciente e
consciente, de modo a salvaguardar a irredutibilidade da noção de sujeito, pois
não ocorre a possibilidade de duas ou mais substâncias situadas no mesmo ponto
de vista ou detendo a mesma zona de apercepção.
Retornando ao tema da
liberdade em Leibniz, pode-se afirmar que ele deseja evitar as consequências de
ter que admitir um Deus pecador. Mas a questão do mal não se restringe ao
leibnizianismo, como informa Brehier, contrastando as soluções de Calvino e de
Santo Agostinho sobre aquilo que creio poder ser enunciado como o problema da
relação entre a onisciência de Deus e o ato humano pecaminoso enquanto
contingente.
Pois sendo Deus
onisciente, como não teria já previsto todos os atos humanos, o próprio pecado
de Adão? Assim não teria sentido falar de contingência ou mesmo de ato, no
sentido auto-deliberativo que o termo encerra, quando aplicado à ação do ser
humano.
A solução de Santo
Agostinho é mostrar, conforme Brehier, que os eventos podem ser previstos por
Deus sem precisar ser predeterminados. Calvino, como em geral a tendência
protestante, traça uma linha nítida entre os predestinados à condenação ou à
salvação, através do que se atribui a Deus como seu decreto absoluto.
Leibniz vai colocar a
ênfase no conjunto. Ao invés de um decreto particular, concernindo a cada ser
particular, o decreto de Deus incide sobre o todo conforme a sua escolha do
mundo melhor. Assim, como também observa Deleuze quanto a isso, que Adão peca
se relaciona à vinda de Cristo, à promessa do retorno, etc. Ora, o que Deleuze
mostra por esse meio é que a questão da liberdade em Leibniz costuma se
desenvolver conforme duas tendências.
Uma é aquela pela
qual o problema da liberdade humana se bifurca sobre a questão da liberdade em
Deus. Nessa orientação Leibniz se aproxima, a meu ver, de Santo Agostinho, pois
Deleuze noticia que ele opõe os critérios de necessidade e de certeza. Não é a
necessidade que constrange o ato humano, mas isso não implica que o ato deixe
de ser certo, uma vez feito.
O sentido da oposição
é resguardar a liberdade em Deus que escolhe, não por necessidade mas por
vontade, o mundo melhor onde os eventos se realizam de modo certo mas não
pré-determinado, como seria o caso se Deus tivesse que obedecer a alguma
necessidade, por exemplo racional, na criação desse mundo aqui. E quanto às
criaturas, os atos dependem uns dos outros e o encadeamento das razões os torna
certos. Mas o ponto em que um ato, de que o seguinte depende, ocorre, não deixa
de comportar a margem de liberdade que se supõe embasar uma escolha.
Mas há também a
tendência que visa o tema da liberdade exclusivamente do ponto de vista do ser
humano. Nessa orientação a filosofia de Leibniz é de uma surpreendente
atualidade, acarretando o deslocamento da noção de temporalidade conforme se
pode reencontrar, por exemplo, em Bergson, como mostra Deleuze, mas que tem a
ver, parece-me, também com o tempo anímico ou intenso que já vimos ser
conceitualmente desenvolvido em Plotino e Santo Agostinho. Trata-se daquilo que
em Bergson se enuncia como o conceito de duração.
Leibniz substitui a
concepção de escolha baseada numa comparação racional, consciente, de motivos
dados, pela visão de algo como um tecido da alma, o formigamento das pequenas
inclinações que vão ao infinito e que se opõem conforme tendam a esse ou àquele
ato entre os quais é preciso escolher.
Trata-se de pequenas
inclinações perceptivo-afetivas. Por exemplo, se a escolha a ser feita porta
sobre dois lugares, os sons, odores, impressões, estados de espírito, etc., que
acompanham o estar lá. Assim da macro-oposição entre este ou aquele lugar, este
ato ou aquele ato, a observação como que se estende por sobre a continuidade
que conduz às micro-inclinações.
Ora, em certo
instante ocorre a dobra decisória, o momento da deliberação que se segue a
partir de um máximo de pequenas inclinações que logram integrar aquilo que se
designa uma inclinação considerável, ou notável (remarquable) . O que ocorre no
entretempo é uma mudança quanto à natureza dos motivos, isto é, dos termos a
escolher. Pois Leibniz não está afirmando que são exatamente os mesmos motivos,
A e B, que seriam como que examinados até que a deliberação ocorre.
O entretempo, ele
mesmo, nada tem de objetivo como o tempo da física. Mas é concebido como
duração, movimento ou transição anímica. A e B se transformam continuamente em
A` e B`, A`` e B``, sucessivamente, até que alguma dessas vias tendenciais que
se desdobram ao infinito se sobrepõe como aquela que preenche a amplitude da
alma em certo momento. Esse que será o termo da escolha se considerará então
como o ato que é “meu” ato ou “minha” escolha.
Os motivos não são
portanto como objetos a pesar, mas produzem-se como termos de inflexões da alma
estendendo.se como inclinações que devem integrar um ato livre de escolha,
livre no sentido de que é o modo pelo qual a alma entrelaça o infinito de seus
pequenos afetos que faz precipitar a tendência enquanto deliberação. O ato que
assim se efetiva é o mais livre, pois expressa, como afirma Deleuze, o “eu”,
sendo o ato que preenche efetivamente a amplitude da alma.
Creio que assim se
pode de algum modo compreender a complexidade da proposição de Leibniz, pois o
que ele afirma expressamente é que a verdade de cada acontecimento, ainda que
encerrando-se na noção individual daquele que o efetua, nada perde de sua
contingência, não só por fundamentar-se no livre-arbítrio de Deus, mas também
no das criaturas.
Quanto à relação
entre a salvaguarda da contingência e o livre-arbítrio de Deus, Leibniz o
conclui a partir do caráter não-contraditório ou possível de cada termo dado à
escolha, uns em relação aos outros. Mas se o critério da escolha é o ser ou
parecer melhor a quem escolhe, esse critério é comum a Deus e às criaturas.
Escolher livremente, para Leibniz, parece significar apenas uma escolha entre
possíveis que se opõe à imposição por necessidade que não permite opção entre
termos dados.
O problema não parece
de todo resolvido, porém, apenas com base nessa asserção, uma vez que
necessário ou apenas certo, os atos estão no sujeito assim como as propriedades
do círculo estão contidos na sua definição. Ora, o que me parece bastante
importante na visão de Leibniz, é que o modo pelo qual ele enuncia a questão
soa como se estivesse sendo afirmada a liberdade como algo que se segue da
natureza mesma da subjetividade pensada, de modo pioneiro, como realidade
absoluta. Assim tendo sido posta a subjetividade desse modo, a liberdade deve
decorrer como algo intrínseco ao caráter irredutível do sujeito.
Assim como a
compreensão do cogito cartesiano, como vimos, depende de uma inflexão pela qual
é preciso deslocar a perspectiva da simples análise lógica e se propor o
engajamento na experiência auto-evidente do pensar, creio que se pode propor
algo desse tipo quanto à liberdade em Leibniz.
Pois do ponto de
vista do que é formalmente afirmado, a liberdade em Deus é algo absoluto e
compreensível. Deus escolhe entre todos os mundos o que lhe parece melhor. Esse
melhor subentende o máximo de essência, mas não por necessidade e sim pela
combinação dos possíveis livremente escolhidos, eles mesmos, por Deus, autor
das essências.
Mas quanto às
criaturas, aparentemente é apenas uma saída formal afirmar que sua escolha é
livre por ser o que se afigura o melhor entre tantos termos possíveis, isto é,
associar liberdade e possibilidade, quando na realidade o certo é ter já todas
as escolhas feitas de antemão, essencialmente, enquanto criatura.
Contudo, do ponto de
vista interno ao sujeito, como mostra Deleuze, o ato perfeito não se cumpre
como passado, acabado. Sua perfeição enquanto ato é sua realização no presente,
no continuo da duração em que o ato integra o infinito das pequenas inclinações
como aquele que efetua a verdade do sujeito que escolhe livremente, ou melhor,
que assim se escolhe.
Esse “livrementeº
decorre, pois, sem problemas no âmbito de uma “fenomenologia dos motivos”,
conforme a expressão de Deleuze, que não visa a escolha como se os motivos
fossem pesos numa balança, mas sim como o movimento tendencial na duração que
expressa o evento anímico de unificação dos afetos parciais, múltiplos,
não-concordantes, em um ato devido a essa escolha, ato que deve presentificar
pontualmente esse movimento também presente ainda que continuamente.
Em outros termos, o
movimento continuo das pequenas inclinações e micro-afetos está se
desenvolvendo presentemente no tempo, ou melhor, no presente enquanto duração
anímica. Na deliberação a alma unifica essa multiplicidade integrando a escolha
que preenche sua amplitude, ou seja, opera a inclusão do ato em seu ser
presente como em um momento da duração. Essa inclusão do ato, como do predicado
na substância, é o que pode haver de mais livre, pois relaciona-se apenas
àqueles atos que efetivamente portam o movimento e a escolha.
Os atos não livres
são aqueles puramente habituais, enquanto que os atos que definem o sujeito são
produzidos pelo sujeito exclusivamente como aquilo que lhe concerne. O ato
livre é sempre aquele que expressa a amplitude da alma. Os atos livres são,
pois, raros.
O verdadeiro problema
dessa teoria da liberdade do leibnizianismo não é tanto, parece-me, sustentar-se
no melhor dos mundos, isto é, não está na aparente contradição entre uma noção
individual que contém todos os seus predicados e a afirmação da liberdade. O
verdadeiro problema está na relação dessa teoria do ato livre, como expressão
da amplitude anímica, com a moral.
Pois qualquer ato,
uma vez livremente aceito pelo sujeito que o pratica, por mais abominável,
seria tão livre e certo quanto o ato mais louvável, sendo a expressão mais
própria da alma em ambos os casos. Teologicamente transposta, a questão se
enuncia então, do seguinte modo. O ato do condenado seria tão eterno, livre e
certo quanto o dos salvos, os eleitos. Ora, que seria o condenado, senão aquele
que limita toda a amplitude de sua alma ao ódio e ao desejo de vingança – nisso
havendo alguma coincidência entre Leibniz e Nietzsche, pois para Leibniz esse
ódio do condenado tem o criador como objeto, para Nietzsche o objeto sendo
outro ser humano.
Ora, que seu ato de
ódio permanence livre, já se vê nisso pelo que o condenado poderia, possivelmente,
ampliar ao menos um pouco sua alma. Mas a solução de Leibniz a esse problema
teológico-moral, uma vez que o condenado se nega a isso ou não seria condenado,
se encontra na sua visão de conjunto pelo que há como que uma função cósmica do
condenado.
Pois como vimos, há
uma espécie de constante universal na variação obscuridade-clareza,
paixões-ações. Assim o que o ódio, a deliberada brutalidade do condenado
permite, é o excedente de ação que os eleitos podem preencher de modo que a
mônada, sem prejudicar ninguém, tem como que uma reserva de clareza a que pode
asceder, obtendo por esse meio o aumento da ação e da amplitude de sua alma.
Se a todo ato livre
corresponde o sentimento de alegria, o ato de ódio do condenado também lhe
proporciona alguma alegria, mas a menor possível, tão pequena quanto o mínimo
de amplitude a que devotou a sua alma. Já a alma dos eleitos, devotando-se ao
amor do criador e da sua criação, reserva a cada ato justo o máximo de alegria,
a beatitude ou felicidade correspondendo à maior envergadura de sua alma.
A moralidade no
leibnizianismo corresponde, portanto, ao progresso da alma, não simplesmente à
conformidade estática à natureza. A verdadeira punição do diabo, o protótipo do
mal, é confrontar o fato de ter tornado exequível o bem. Isso porque o mal
nutre aversão ao bem – se não fosse assim ele poderia se regozijar ao menos por
servir de meio ao bem.
A realização ética do
leibnizianismo, o progresso da alma, é o corolário de sua visão do mundo como
República dos Espíritos, cuja lei é a justiça e cujo soberano é Deus. Se essa
República é para Leibniz a universalização do cristianismo – leia-se
catolicismo – sua filosofia não deixa de interpretar a imortalidade da alma
como possibilidade de compreender uma tal noção de justiça.
Como observa Brehier,
a moral do leibnizianismo é providencialista, endereçando-se como meio de
resolução do problema do acordo entre a virtude e a utilidade. Assim Leibniz
pensa que demonstrar a existência de Deus e a imortalidade da alma é o que
basta para fundar a ciência moral. Ora, para tanto Leibniz deve sustentar que a
providência aplica a justiça infalivelmente. A eternidade precisa então ser
proposta como lugar dessa aplicação, pois muitas vezes não se vê um pecador ser
punido nesta vida.
O progresso da alma é
sempre aumento de clareza, no sentido da razão, sendo razão o mesmo que
iluminação. Ora, a República dos Espíritos, inspirada no estoicismo, funciona
de modo convergente com a lei natural ordenada por Deus, pela qual a cada
instante cada espírito ascede ao máximo de perfeição compatível com o todo. Os
espíritos são todos os seres possivelmente dotados de razão como os humanos, e
os anjos, por exemplo – Leibniz crê ser possível a existência de várias classes
desse tipo de seres ainda que desconhecidos por nós.
Esses espíritos
conscientemente experimentam a virtude, isto é, a superação das paixões e o
consequente aumento de ações, como auto-conhecimento, definido em termos de uma
tendência ao bem comum já que a existência espiritual mesma é a pertença a essa
comunidade universal.
A afirmação da
perenidade da existência tem a ver com a concepção vitalista do leibnizianismo
pela qual tudo no universo é vivo e infinitamente organizado. Leibniz supõe que
os seres vivos são como germens subsistindo desde a eternidade. Os germens são
indestrutíveis e estão localizados uns nos outros desenvolvendo-se através das
gerações. Todos os germens humanos já estariam assim localizados em Adão.
Nascer é poder crescer desde esse germe minúsculo até a máxima visibilidade do
corpo físico plenamente desenvolvido.
Mas nascer como
espírito, não apenas animal ou planta, é asceder à razão ao nascer. A razão não
preexiste senão como ato de destinação pelo qual Deus endereça o ser à vida
racional com o nascimento.
Quanto à doutrina da
indestrutibilidade da substância, porém, Leibniz não me parece completamente
claro. Os animais e plantas subsistem, mas não de forma consciente, de modo que
não dão conta das suas metamorfoses corporais – Leibniz não admite separação
entre corpo e alma ou algo como alma pura. Assim, se as almas sempre estão de
algum modo materialmente revestidas, ora parece que ele afirma que as mônadas
não dotadas de razão retroagem ao estado de germens minúsculos ora que se
metamorfoseiam materialmente.
Quanto aos espíritos
que, como vimos, conservam eternamente a consciência, por isso mesmo jamais
deixam de ter noção clara do julgamento de Deus, isto é, da aplicação da
justiça, mesmo na eternidade. Mas o modo dessa subsistência espiritual também
permanece algo ambíguo, pois ora parece tratar-se da hipótese de outras vidas,
ora parece que se afirma apenas a conservação da consciência, ora ambas as
possibilidades, conforme o caso.
O leibnizianismo, como pudemos constatar, tem como característica a exuberância da produção conceitual que se estende ainda por várias regiões de saber. Aqui examinamos o que se me afigurou como o mais importante dessa produção, particularmente naquilo que se relaciona tanto com o cenário clássico-barroco quanto com o pensamento humano. O interessante então seria agora examinar os temas que possivelmente fariam convergir esses dois motivos. Mas para favorecer esse intuito deveremos nos aproximar do pensamento de Spinoza pois desse modo tanto os aspectos comuns quanto o que permanece como singularidade entre esses três pensadores – Descartes, Leibniz e Spinoza – centrais na ambiência do século XVII, poderá ser evidenciado.
· Spinoza e o pensamento ético
a) Introdução
Descartes supõe Deus
que cria as duas substâncias irredutíveis, pensamento e extensão (dualismo).
Leibniz concebe Deus que cria as inúmeras substâncias irredutíveis, as mônadas
(pluralismo). Quanto à natureza dos corpos, vimos que Descartes supõe que na
extensão os corpos se distinguem por seu movimento e por sua figura. Leibniz
faz a força ser aquilo que singulariza a natureza dos corpos.
Spinoza supõe Deus
como a substância única que se expressa em infinitos atributos (monismo).
Pensamento e extensão são dois desses atributos, aqueles que o ser humano pode
conhecer. Movimento e Intelecto de Deus são os modos infinitos,
respectivamente, dos atributos extensão e pensamento. E cada corpo ou idéia
singular será um modo finito de seu respectivo atributo.
Aparentemente o
espinozismo oferece apenas mais um possível aporte dessa teologia de filósofo
tão peculiar ao mundo clássico-barroco. Teologia que, inversamente ao dogma e à
escolástica, repousa sobre a teoria do conhecimento e a metafísica, ao invés de
permitir deduzi-los.
Contudo, a substância
una, assim como afirmada por Spinoza, parece oferecer uma contrapartida ao
determinismo a priorístico heideggeriano. Com efeito, Bréhier já afirmava que o
espinozismo, desenvolvendo-se no exterior de todo criacionismo, não traz
consigo os inconvenientes daquilo que se poderia considerar o antropomorfismo,
que transpõe na forma da subjetividade a fonte de tudo o que se oferece como
pensar.
A substância não é
sujeito, mas inteligibilidade universal que se desdobra em cada atributo (p.
95). Também Deleuze, no curso de Vincennes sobre Spinoza, havia observado que
pensar a substância conforme propõe o espinozismo é pensar o ser enquanto ser.
Ora, o que deve restar quanto a isso é a indagação sobre a representação, esse
outro termo do a priori metafísico moderno conforme Heidegger, que completa a
subjetividade na transposição da questão do ser como pergunta sobre o ente.
Bréhier parece bem
claro no que se relaciona a esse problema, pois ele afirma expressamente que a
idéia em Spinoza, por exemplo a idéia de corpo, não se
põe como reflexo (representação),
mas como posição, no pensamento, da atualidade do modo na extensão.
Spinoza utiliza a
oposição, corrente em sua época, entre essência objetiva e essência formal, que
já vimos no estudo de Descartes relacionar-se à oposição, respectivamente, entre
a essência como ela existe apenas conceitualmente e como existe em si, isto é,
realmente. Lopes de Mattos parece incluir assim a concepção de idéia em Spínoza
na simples extensão terminológica que separa os modernos, para quem a
referência do conceito à coisa é representativa, dos escolásticos, para quem
ela é intencional (Coleção Pensadores, Espinoza, p. 49).
Trata-se de
interrogar, então, por um lado, sobre a relação entre os atributos,
especialmente sobre o papel que o atributo pensamento desempenha em relação aos
outros, de modo que se poderá compreender o estatuto da idéia no interior do
espinozismo, e mais amplamente, a sua teoria do conhecimento, com o que teremos
base para bem desenvolver aí a questão da representação.
Antes de implementar
a exposição do pensamento de Spinoza, porém, seria preciso observar em que o a
priori heideggeriano poderia ainda não se considerar de todo denegado nessa
démarche. Assim poderia ser proposto que a supremacia da potência no
espinozismo, isto é, a caracterização da substância como potência, é plenamente
inserível na ambiência do postulado metafísico-moderno do heideggerianismo.
Ou enfatizar o papel
da causalidade na demonstração da unidade substancial, pois se pensar a
substância nesse sentido absolutamente imanente equivale a pensar o ser ao
invés de interrogar sobre o ente, a definição da substância como causa sui –
aquilo que não pode ser causado por outra coisa mas que se define como causa de
si – já estaria se desenvolvendo na ambiência metafísica pela transposição do
que seria preciso repensar em termos de arché (origem), nos termos da aitía
(causa).
Não há dúvida que
Spinoza utiliza amplamente a terminologia tradicional filosófica. Mas creio que
seria conveniente iluminar o sentido nomadológico da leitura do espinozismo já
que assim, ao invés de procurar inserir termos e noções numa continuidade
condicionada, nos tornamos mais aptos para observar o traçado das linhas de
fuga que essa terminologia aparentemente tradicional esconde. Ou seja, podemos
mostrar como se está, com efeito, revertendo a tradição metafisica com o pensar
da imanência.
Assim, quanto à
consideração da potência, veremos posteriormente com mais vagar o quanto ela se
afasta de um quadro de subjetividade que se propõe como dominação, na exterioridade
de uma natureza extensa. Aqui podemos nos deter na consideração da causalidade.
Pode-se afirmar que a
causa sui, reintroduzindo a necessidade pela qual a substância existe, é o
inverso da operação metafísica de deslocamento pela qual o ser se aloja na
ligação assim legitimada de Sujeito e Predicado. O ser substancial é aquilo que
é, necessariamente, como aquilo que não pode não ser. Contudo, o que impede a
conversão metafísico-tomista dessa fórmula aparentemente escolástica que
convém, a meu ver, à definição da substância absolutamente infinita do
espinozismo, é que a assimilação entre Deus e substância não passa pelo
criacionismo como se Deus pudesse ser pensado como um ente eminente, isto é,
como subjetividade de que derivam causalmente – assim como um coisa deriva do
fazer deliberado de outra – tudo o que existe. Conforme a proposição 32 da
Ética, corolário I, “Deus não faz coisa alguma por liberdade da vontade”.
O deslocamento da
causalidade originária se faz pela introdução do conceito de expressão. Deus se
expressa através dos atributos, mas ele se expressa assim como ele existe, não
por um ato livre, extínseco, como que por vontade ou arbítrio. Ele se expressa
necessariamente uma vez que ele existe. Conforme Deleuze, o caráter expressivo
dos atributos se relaciona, pois, fundamentalmente, com a substância de que são
expressões, e como que a existência mesma. E Chauí situa na redefinição de
Spinoza das idéias de atributo e substância, na importância que o atributo
assume nessa redefinição, a subversão que o espinozismo implementa: a unicidade
do ser concomitante ao rompimento com a idéia de simplicidade de Deus. A
unidade existencial como pluralidade de essências constitutivas subverte,
efetivamente, as idéias tradicionais de Deus, de Natureza, e das relações entre
ambos.
O estatuto da causa
sui parece-me, pois, ter como correlata a modelagem conceitual da terminologia
filosófica tradicional no sentido de uma contrafacção daquilo que ela acarreta,
a metafísica como pensamento da transcendência que se traduz pela idéia de uma
causa originária como ação eficaz que a partir da possibilidade de ser
viabiliza o fato de ser.
Esse é o sentido
nomadológico da causalidade imanente do espinozismo, assim como penso que
também Deleuze o demonstra no curso de Vincennes ao observar que nesse caso “não
se sabe bem como distinguir a causa e o efeito, isto é, Deus e a criatura mesma”.
(34-5). E no capítulo X de Spinoza e o Problema da Expressão, tratando
do que opõe Spinoza e Descartes, Deleuze enfatiza que “Deus como causa sui” é o
mesmo termo utilizado por ambos e que, porém, funda a irredutibilidade do
pensamento de Spinoza, de modo que se pode propor como inteiramente fictícia a
propalada dominância da filosofia de Descartes sobre o espinozismo justamente
quando se pretende que a definição de substância cartesiana já contém a
possilidade de uma interpretação panteísta ou mesmo monista, como vimos ser
sustentado por Bréhier.
Quando examinarmos a
teoria do conhecimento de Spinoza, veremos que o tema da causalidade será
reintoduzido, já na consideração sobre o método. Mas aí também se verifica esse
dom que Spinoza não cessa de ostentar, que é o de manejar a terminologia – a
história da metafísica – do modo mais certo para libertar-se dela. Não teria o
estudo do espinozismo se realizado assim também como o meio pelo qual, ao invés
de propor como tarefa o fim da filosofia, se logra libertá-la da metafísica,
revelando sua ação salutar nesse sentido, ao invés de insistir em confundi-la
com sua utilização para tantos fins diversos daquilo mesmo pelo que ela existe?
Quanto a esse efeito
de camuflagem sempre surpreendente do espinozismo – tanto mais que não pode ser
apreendido como um modo de lidar com a censura eclesiástica da época, já pela
situação anômala da Holanda protestante – penso que somente Deleuze soube bem
evidenciar. Trata-se do uso de uma máquina conceitual rigorosamente
tradicional, ainda que a corrente em que Spinoza se inscreve tenha a ver com a
cultura hebraica, não tanto com a linha cristã de que descendem Descartes e
Leibniz, a serviço da reversão da metafísica como daquilo que essa máquina
técnica habitualmente implica. /1/
Esse efeito se
relaciona muitas vezes com leituras bastante superficiais do espinozismo, de
modo a inseri-lo na história de modo que sua originalidade se torna
obscurecida, sendo essa originalidade aquilo mesmo que revoluciona essa
história – isso sem falar no tipo de repulsa que o espinozismo provoca nos
meios que teriam razões para repudiar a negação do criacionismo, da providência,
das causas finais, do livre arbítrio, mais a crítica da autoridade dos livros
sagrados.
Quanto a essa leitura
superficial, que poderia deixar embutir sem mais a inserção do espinozismo no
postulado antropo-metafísico da modernidade, exemplifica-se com Bréhier, que em
sua exposição sobre Spinoza superenfatiza o papel de Descartes, como se a cada
conceito de Spinoza fosse preciso fazer dever a inteligibilidade ao modelo
cartesiano.
Não creio que seria
ocasião de caucionar, porém, a imagem oposta que se costuma fazer de um Spinoza
demasiado independente – sozinho, perseguido, excluído. Penso que se deve
aceitar o seu próprio testemunho pelo qual, nas cartas, ele sempre se confessa
alguém feliz. Há também evidências de que se manteve em boas relações com amigos
que admiravam sua obra, compreendiam seu pensamento ou ao menos praticavam a
liberdade de espírito pela qual se concede a cada um o legado de sua própria
verdade – como os Colegiantes, seita que propugnava a revelação do santo
espírito a todo ser humano piedoso independente da intervenção da autoridade na
interpretação do dogma, entre os quais Spinoza contava com boas amizades.
Em todo caso,
considero oportuna a definição do espinosismo, por Bréhier, como “doutrina da
salvação pelo conhecimento de Deus” (p. 90). O sentido dessa oportunidade
contudo, deverá ilustrar o efeito surpreendente e libertário do espinozismo,
devendo ser apreciado concomitantemente à exposição do seu pensamento. Por ora,
vemos que Bréhier utiliza essa definição no contexto da citação de Spinoza que
afirma ser o objetivo de sua filosofia “procurar um bem capaz de se comunicar,
cuja descoberta faria fruir eternamente de uma alegria contínua e suprema”,
Ora, Bréhier observa
também a operação de camuflagem do espinozismo, interpretando-a, porém, no
seguinte sentido. Essa destinação salvífica parece ligar Spinoza a “essas
teosofias de origem neoplatônica” tão “recorrentes na história” (p. 88). Assim,
o espinozismo parece se destacar, opondo-se pela motivação, às
filosofias de Descartes e Bacon, de índole positiva, desenvolvendo-se na
exterioridade das problemáticas da fé, enquanto que Spinoza afirma a unidade
entre os problemas filosófico, religioso e político.
Mas isso, essa
convergência fé-razão ao nível dos problemas, seria imputável, conforme
Bréhier, ao meio anômalo holandês onde, aparentemente, qualquer um poderia
fundar uma seita e poderia se ler como a defesa espinosista daquele tipo de
especulação livre desenvolvida na evolução moderna do cristianismo holandês,
acompanhado da prática de virtudes cristãs independentes de toda confissão –
liberdade de consciência cuja garantia Spinoza exigia dos poderes públicos como
extensível a todos.
Mais profundamente,
porém, ao invés da atmosfera de experiências vagas de índole mística, características
dessas teorias de amor e salvação a que o espinozismo do Amor Intelectual de
Deus parece tão relacionado, o que se encontra em Spinoza, como enfatiza
Bréhier, é a ancoragem do amor no conhecimento, uma prática conceitual
rigorosa, um método real de encadeamento de verdades que se opõe frontalmente
àquilo que deriva apenas dos sentidos ou da imaginação, método que deve
favorecer o conhecimento da natureza, a física e a matemática, tanto quanto a
filosofia.
Assim, já por essa
oposição entre o que permanece imaginativo e o que ascede ao entendimento, bem
inversamente ao que poderia parecer, Spinoza se revela, conforme Bréhier, mais
cartesiano do que pensa – a partir do que Bréhier desenvolve sua exposição
baseada nessa ascendência do cartesianismo, com certas ressalvas.
Essa interpretação do
espinozismo como resultando da influência cartesiana não é exclusiva de
Bréhier, pois vimos como, por exemplo, Vergez-Huisman a utilizam, tendo sido
mesmo corrente entre os comentadores de Spinoza, como Brunchvicg ou mesmo
Freudhenthal, conforme reporta Joaquim de Carvalho enfatizando, contudo, a
impropriedade dessa redução já que biógrafos como Pollock evidenciaram a
anterioridade da intuição fundamental de Spinoza acerca da substância
relativamente ao seu conhecimento dos escritos de Descartes.
Quanto a isso, é
interessante mostrar que Carvalho também havia notado que “uma das
peculiaridades do gênio de Spinoza consiste precisamente em verter sentido novo
em palavras velhas no vocabulário de teólogos e de filósofos”. (Col. Pens.,
Espinoza, p. 125).
Ora, os estudos de
Deleuze sobre Spinoza já partem da inserção do espinozismo na ambiência da
reação anticartesiana, isso que seria comum também ao leibnizianismo. O que se
mantém como aquisição segura derivada de Descartes, no entanto, é a atualidade
das potências da natureza, sempre em ato, ultrapassando assim a necessidade
escolástica de postular formas que deveriam realizá-las. Mas Descartes mantém a
metafísica, conforme Deleuze, nisso pelo que seu mecanicismo matemático
implicava a desvalorização da natureza, a busca de um ser irredutível e
superior a ela, o sujeito que pensa ou o Deus criador.
O que é
anticartesiano, desde a segunda metade do século XVII é, pois, o programa desse
novo naturalismo a que se devotam Leibniz e Spinoza, mais geralmente, o
expressionismo em filosofia, conforme Deleuze, mas sem que esses projetos
possam ser sobrepostos, isto é, tratando-se de mostrar o que é a motivação
comum mas também o que singulariza essas démarches.
Quanto a isso a imanência
deverá favorecer Spinoza no que concerne ao maior afastamento do postulado
antropo-metafísico moderno. O que acarreta consequências importantes quanto ao
que venho procurando conceituar como o pensamento humano, envolvendo a
consideração sobre o sentido de se designar o espinozismo como “pensamento
ético”.
Trata-se então de
estender a compreensão do pensamento de Spinoza. Ora, habitualmente as
exposições do espinozismo iniciam por sua teoria do conhecimento. Contudo,
porque me parece que esse procedimento só contribui para manter o aspecto
obscuro que costuma cercar sua filosofia, assim como se colaborasse para manter
uma lenda, pretendo iniciar pela Teoria do Ser, a seguir aproximando por ordem
a teoria dos modos e a Ética, para então mostrar em quê aspectos essa criação
conceitual ilumina as rupturas introduzidas pela teoria do conhecimento.
Creio que assim
teremos alguma base para observar as consequências do que se designou como
Pensamento Ético nesse lento emergir do pensamento humano.
– Pensamento humano e
Pensamento ético (Spinoza e a modernidade)
Previamente à
exposição mais pormenorizada da filosofia de Spinoza, seria conveniente mostrar
a perspectiva em que a estou situando. Para isso algo que se revela da maior
utilidade é, um tanto surpreendentemente, o livro de Hannah Arendt, “Entre o
passado e o futuro”.
O texto “a tradição e
a época moderna”, constando nesse volume, estabelece uma comparação entre o
início e o fim da filosofia política ocidental. A aurora, com os gregos,
Aristóteles e Platão, é conceituada em relação à Pólis, mais geralmente
relacionando-se a tudo que separa o cidadão do não-cidadão bárbaro ou escravo.
O ocaso se propõe através de Marx, que desfaz a complexão do termo “filosofia
política”, repudiando o filosófico para realizar tão somente o político.
Arendt descobre,
contudo, uma interessante convergência nesses momentos aparentemente os mais
contrastantes, desenvolvendo os conceitos de skholé e otium –
lazer e ócio – que estariam algo paradoxalmente presentes tanto na essência de
cidadania na antiguidade – isso que distingue o homem livre – quanto na utopia
marxista do fim da história como liberação do homem pela abolição do trabalho.
Aqui não seria o
lugar de desenvolver uma devida apreciação dos inúmeros e relevantes temas
visados por Arendt no livro citado. O que considero bastante oportuno nessa
aproximação ao pensamento de Spinoza é aquilo que Arendt a princípio enuncia
como paradoxo do marxismo para posteriormente apresentar como ruptura inerente
à própria história do pensamento humano.
Assim é paradoxal no
marxismo a utopia – que uma vez confrontada com a realidade da antiga Pólis
deixa de ser apenas utopia – da sociedade sem classes, enquanto sociedade de
lazer, porque a reversão que Marx opera determinando o fim da “filosofia
política” só pode se compreender na abrangência dessa transformação do
pensamento humano. Isto é, da transformação do conceito de humanidade como
racional no conceito de humanidade como “laborans” (trabalhadora).
Ora, em “o conceito
de história – antigo e moderno”, outro texto constando no mesmo volume, Arendt
expõe a tese de que se até a época feudal definia-se o humano em termos de “animal
rationale”, desde os estágios iniciais da era moderna essa definição mudou,
primeiro no sentido do homo faber e, já no século XIX, do animal laborans.
Arendt enuncia então o essencial quanto a esse fenômeno de transposição, a
saber, que a modernidade aceita o homem como ser capaz de ação.
Ação aqui está sendo
estreitamente relacionada à noção de processo como algo não singular, ao modo
de um tipo de intervenção subjetiva ou casual, mas adequada e objetiva de modo
que a ação requer o domínio enquanto experiência do real ele mesmo. Ora,
evidencia-se assim o novo da modernidade quanto à história.
Com efeito, a
história surge na modernidade entre o quinhentos e o seiscentos, isto é, nessa
mesma ambiência em que estão emergindo as ciências naturais. Arendt antecipa de
certo modo, nesse ponto, alguns insights de Foucault, pois ela utiliza a noção
de ação em termos de processo como transversal entre essas duas regiões
epistêmicas aparentemente inconciliáveis, a história e a ciência da natureza.
Assim, que a “história
natural” viesse preceder a era da tecnologia e das ciências biológicas, só
mostra como na origem o que está em jogo é esse deslocamento em termos de
pensamento humano de modo que converge no ser do humano, enquanto ser apto a
agir, também sua inserção em uma natureza cuja inteligibilidade não pode mais
ser pensada ao modo de uma destinação única mas é articulada em inúmeros
processos como histórias parciais e no entanto completas em si mesmas, da
terra, do universo, da vida biológica, etc.
Não foi portanto da
objetividade das ciências da natureza nascentes que sobreveio a mutação da “auto-interpretação
do homem no decorrer da história” (p. 94), desde um ser que tem a capacidade de
contemplar compreendendo a ordem finalística do mundo a um ser que age e que
inicia processos. Esse deslocamento ocorre a partir de que o ser humano se
descobre ele mesmo agindo na natureza, uma vez tendo constatado a
impossibilidade de compreendê-la passivamente.
Essa tese de Arendt,
de complexa elocução, parece-me corresponder à profunda constatação de que a
revolução epistemológica real constante no bojo da eclosão das ciências da
natureza não decorre de ter o homem descoberto sua separação do mundo, dele ter
se posto frente a uma objetividade neutra, mas de ter descoberto a
impossibilidade de um conhecimento no sentido antigo do termo, como passividade
ou contemplação, propondo-se então, como a via remanescente, a intervenção, a
experiência sobre o real.
Isso se relaciona com
a mudança, no interior da modernidade, entre esse seu momento inaugural, que
ela propõe como dominado pelo pensamento político, e o momento posterior, entre
os séculos XVIII e XIX, dominado pelo pensamento histórico.
Na época do
predomínio da política o vínculo de natureza e história é mantido pelo caráter
de necessidade e ordenação inerente à noção de processo. A época do predomínio
da história se relaciona com a constatação da ausência desse caráter pela
multiplicidade e irredutibilidade dos processos, de modo que a ação humana já
não pode ser inserida num todo ele mesmo dotado de significação intrínseca,
enquanto universal inteligibilidade, mas se encontra no arbitrário de sua
própria deliberação assim como as leis sistêmicas que regem os novos domínios
científicos parecem autonomizar-se em relação ao fatum do experimenciar, ou à
reflexão do vivenciar.
É nesse momento que
as duas regiões, a da história como das ciências humanas e a das ciências
naturais tornam-se pensáveis como irredutíveis ou ao menos tendo seu vínculo
muito problematizado. A caracterização desse momento posterior da modernidade
por Arendt converge de modo agudo com o que veremos ser a visão de Foucault ao
descrever a ambiência da modernidade em as palavras e as coisas.
Mas também creio que
se pode observar a convergência com Foucault quanto ao clássico, pois se, por
um lado, na época clássica não pode haver o conceito de história causal-factual
como ciência, relegando-se esse mister ao saber sujeitado da simples erudição,
por outro tudo é “naturalmente” histórico, compreendendo-se esse termo como
inteligibilidade de um processo. Com efeito, tudo é histórico no clássico pois
é justamente aí que se supera a pretensão de abarcar sob a rubrica de
conhecimento o “ser” das coisas a partir de uma espécie inteligível, uma forma
definida por si, para estender-se a inteligibilidade pela inserção das coisas
no espaço ou quadro que prescreva as leis de seu vir a ser.
Ocorre então algo
curioso. Pois aparentemente deveríamos desenvolver agora uma abordagem
diacrônica, pinçando no texto não-linear de Arendt sua própria versão desse
período inicial do que ela designa a modernidade, reservando o que não pertence
a ele a nossos estudos posteriores sobre a entrada no contemporâneo onde se
pode verificar essa convergência com o texto de Foucault. Mas de modo algum
isso poderia se revelar por agora um empreendimento interessante, devido à
peculiaridade mesma da composição de “entre o passado e o futuro”.
Muito inversamente o
que podemos observar é que Arendt entrelaça na sua visão de conjunto da
modernidade – desde o século XVII até o início do século XX – temas que, de
modo surpreendente, convergem inteiramente com o repensar do espinozismo, assim
como o estou situando e de maneira estreitamente relacionada à visão de
Deleuze.
O que há de
surpreendente nisso é algo duplo. Há o fato de não ter sido esse o escopo de
Arendt, que aliás conserva a versão tradicional do espinozismo – ela chega
mesmo a considerar Montesquieu superior a Hobbes e Spinoza no tocante à
enunciação da essência da política (p. 196). Mas há igualmente o fato de que a
qualidade que converge os temas desse livro de Arendt com esse repensar do
espinozismo tal como proponho é a atualidade.
Se os temas de Arendt
merecem ser postos em destaque hoje é porque, a meu ver, estão intimamente
relacionados às questões mais urgentes de nosso pensamento crítico – sobre
história e política, liberdade e autoridade, verdade e humanidade, educação e
cultura, passado (tradição) e futuro (modernidade e atualidade, mais a nossa
estimativa do porvir), sociedade e poder.
Essa relação com o
hoje se deixa entrever já pela oscilação entre cada par de termos, tendo mais a
ver com o modo pelo qual ela é conceitualmente manejada do que propriamente com
a generalidade talvez demasiado ampla que os termos sugerem. Ora, o modo que
faz agrupar esses pares torna certas questões que daí decorrem extremamente
adequadas ao repensar do espinozismo, sendo que o oportuno dessa tarefa vem da
atualidade mesma de que ele se reveste tornando-se essencial ao pensamento de
hoje tanto em história política quanto em história da filosofia. O “novo”
Spinoza, mais autêntico e contemporâneo de si mesmo do que a visão anacrônica e
tradicional costumava apresenta-lo, renova também a própria história e seu
fazer.
Ora, ainda no texto
inicial sobre Marx e o fim da tradição, Arendt salienta que a filosofia, de
Platão a Hegel, jamais teria se proposto “transformar o mundo” em termos de “realizar
a filosofia” abandonando seu viés teórico, como ocorre em Marx. Isso porque,
Arendt afirma, para esses filósofos doravante antigos, presos na demarcação “racional”
do homem, a filosofia deveria ser algo não deste mundo. As regras de ação
possivelmente prescritas por uma filosofia nunca perfaziam o principal de sua
preocupação.
Penso que Arendt está
certa ao mostrar que a citada proposição marxista seria impensável no contexto
filosófico “antigo” – aqui não considero contraditório inserir Hegel nesse rol
pois Arendt desenvolve amplamente a idéia de modernidade como fim da tradição
de modo a observar esse movimento paradoxal em cada obra moderna significativa
em que seu autor precisa realizar a ultrapassagem lidando, contudo, apenas com
peças fornecidas por isso mesmo que deve ultrapassar.
Mas se tal proposição
marxista seria naquele contexto impensável, penso que tem mais a ver com o fato
de ser impossível a um “ser racional” encarar uma real cisão entre esses outros
pares que Arendt anotou como tendo tido sua hierarquia tradicional invertida na
proposição de Marx: filosofia e política, pensamento e ação, contemplação e
trabalho. E isso porque a ação sempre foi vista como determinada pela
consciência, a política pela filosofia, o trabalho pela contemplação, assim
como o que obedece pelo que tem a competência para ordenar. O que me parece
fornecer o sentido da ruptura constatável em Marx sendo então propor a ação
como algo não só independente, mas determinante do que seja conhecer.
Utilizo então esses
ensinamentos de Arendt para introduzir a questão de como se tornou exequível
essa inversão relacionando-a estreitamente com o pensamento de Spinoza no
sentido de mostrar que é ele o seu artífice na região da ontologia, o que
ilumina a propriedade de tratar essa ontologia não em termos de uma
onto-teologia que deveria assim inserir-se inteiramente no postulado
antropo-metafísico moderno tal como designado por Heidegger, mas sim de uma
onto-etologia, conforme Deleuze, ou mais geralmente, uma ontologia que só se
compreende enquanto pensamento ético.
O ponto pelo qual
creio poder essa proposição ser enfatizada é o que incide sobre a relação
inextrincável que Heidegger estabelece entre a culminância da transposição, na
história do ser, da Energeia em actualitas, com aquilo que lhe
precede e embasa. A saber, o deslocamento da diferença ontológica, portando
entre o ser e os entes, pela oposição, no âmbito do ser tomado apenas como a
totalidade do ente, entre essência e existência. Assim , nessa transposição,
ação torna-se algo metafisicamente basilar pois o agir é o eficaz do ente pelo
qual o ser possível torna-se o ser de fato.
Ora, que ocorre se,
de modo inteiramente outro, se vier a pensar o ser como potência, mas não como
se potência pudesse equivaler a “realização” ou “atualização” da essência, de
modo que ser-potência equivale apenas a ser-existência? Ao invés da ação
depender da distinção essência versus existência, ela a abole em favor
da existência. Nesse sentido potência não significa eficácia, ou tornar real a
realidade possível, mas apenas potência infinita de existir – temos agora a
fórmula com que Spinoza define a substância. Isso fica bastante explícito na
carta nº 12 a Meijer, em que Spinoza, para marcar a oposição entre a eternidade
da substância e a duração como temporalidade dos modos, vai equalizar
eternidade com a “fruição infinita do existir” designada expressamente como “fruição
infinita do ser”.
O que pretendo
mostrar é que a ‘ação” não implementou apenas uma transposição metafísica no
sentido da dominação, via subjetividade, como se pode ainda geralmente afirmar
quanto a Leibniz e Descartes, mas que algo mais ocorreu na modernidade, a
saber, a constituição do espinozismo como pensamento apto a estender conceitos
destinados a subverter a metafísica da subjetividade na qual todo agir, toda
ação, só podem se compreender por sua relação – dialética ou complementar – com
a prévia instituição da “razão” enquanto faculdade de declinar a essência. /1/
A urgência e
atualidade da questão está nisso pelo que se pode mostrar que é exequível
escapar da “história da filosofia” – compreendida enquanto região totalizante
de um saber a priori condicionado. O que se está afirmando é que não há “uma”
história “da” filosofia, mas derivas conceituais que não são todas destinadas a
suster o mesmo niilismo que se irradia, por exemplo, do desencanto moderno de
ter que se defrontar com o fato absoluto da liberdade – derivas que conduzem a
algo outro do que taxar, como Herder, citado por Arendt, toda “casualidade”
como “melancólica”.
Vê-se assim o que
converge os temas de Arendt, pois ao invés de partir do ideal para chegar à sua
denegação como o que não deveria ter havido mas com que precisamos nos
defrontar, esse “ideal” equalizado ao termo comum da história da filosofia
enquanto “razão”, o que importa é como se reverte esse ideal pretensamente
original sem que isso signifique vazio ou ausência de sentido mas,
inversamente, denunciando-o ele mesmo como inevitável destinação niilista já
que inteiramente sem fundamento – ainda que apresentando-se em nome “da”
exigência de fundamentação.
E inversamente também
mostrando que sua denegação, ao invés de desencanto, pode conduzir à plenitude
existencial, à afirmação do devir e da liberdade imanente. Assim, se considero
inteiramente legítimas as observações de Arendt sobre o que decorre da evolução
Kant-Hegel, o que se poderia bem traçar como a história do niilismo ocidental,
penso que há também o que não se subsume a isso.
Ora, poderíamos
manter o gênero história da filosofia e lançar uma linha Spinoza-Marx – linha
quebrada, pois não se trata de procurar as referências explícitas de Spinoza
nos escritos de Marx. Creio que por aí se pode compreender o caminho pelo qual
se localizará a imensa reversão marxista assim como vimos ser enunciada por
Arendt, mas sem as consequências de ser preciso reconduzir Marx à tradição toda
vez que seu pensamento escapa do quadro conceitual designável apenas nos termos
de Kant e Hegel, como se faz ao propor que sua “utopia” relança Platão e a
essência racional do homem apenas por denegar, afinal, o valor do trabalho.
Tendo assim situado a
questão do espinozismo, espero ter tornar essa aproximação mais isenta de
alguns preconceitos relativamente à sua obra.
A Teoria do Ser
A redação da Ética
A fórmula da
ontologia de Spinoza – a substância única para todos os seus atributos –
depende do “agenciamento” que faz do corpo uma potência que não se reduz ao
organismo, e do pensamento uma potência que não se reduz à consciência. Essa
observação de Deleuze em seus “Diálogos” com Claire Parnet pode bem ser visada
como o eixo que bifurca a démarche do espinozismo com relação à harmonia
pré-estabelecida de Leibniz.
Se a observação de
Deleuze só poderá se compreender ao longo dessa aproximação ao pensamento de
Spinoza, verificar que há uma tal bifurcação torna-se, desde já, importante.
Pois Leibniz chegou mesmo a ter que denegar explicitamente que seu sistema novo
fosse um espinozismo (carta a Bourguet, de 1714). Bayle não foi o único
a endereçar-lhe o rótulo ao modo de uma acusação. E entre os autores que
interpretam o leibnizianismo como espinozismo pode-se citar Lessing, de modo
que essa interpretação não decorre apenas de uma atitude depreciativa para com
os dois pensadores.
Mas a princípio há
algo em comum. Leibniz e Spinoza, conforme Deleuze, partem da noção de
expressão para superar as dificuldades do cartesianismo. Será então necessário
mostrar o que é que está assim em comum, já que o próprio Leibniz menciona Spinoza
de modo crítico – entre outros reproches, para Leibniz a definição 6 da Ética,
axial no espinozismo, não funciona realmente como uma definição pois não
evidencia a equivalência dos termos “absolutamente infinito” e “consistindo em
uma infinidade de atributos”.
→ “Per Deus
intelligo ens absolute infinitum, hoc est, substantiam constantem infinitis
attributis, quorum unumquodque aeternam et infinitam essentiam exprimit”.
→ “Por Deus
entendo o Ente absolutamente infinito, isto é, uma substãncia que consta de
infinitos atributos, cada um dos quais exprime uma essência eterna e infinita”.
Definição 6 (Ética, I).
Carvalho observa que
Freudenthal propôs, como subjacente a essa noção de Deus, a concepção
escolástica que sustenta o argumento ontológico: Deus é o ser com relação ao
qual não se pode conceber outro maior (ens quo majus concipi non potest –
col pens. nota 12, p. 76).
Esse argumento
proposto por Anselmo de Aosta (século XI), conforme Abbagnano, afirma que
aquilo de que não se pode pensar nada de maior não pode estar só no intelecto.
Se estivesse só no intelecto poder-se-ia pensar que estivesse também na
realidade, isto é, que fosse maior. Se, portanto, aquilo de que não se pode
pensar nada de maior estivesse só no intelecto, aquilo de que não se pode
pensar nada de maior seria aquilo de que se pode pensar algo de maior, o que é
impossível. Assim, aquilo de que não se pode pensar nada de maior existe tanto
no intelecto como na realidade.
O argumento
ontológico foi rejeitado pela maior parte dos escolásticos que preferiam provas
da existência de Deus a posteriori, isto é, deduzidas de alguma evidência no
mundo. Algumas dessas provas a posteriori tiveram seu alcance restrito aos
períodos antigo e medieval. Mas aquela que Kant designou “prova cosmológica” e
Leibniz “contingentia mundi” teve livre trânsito na época da filosofia moderna,
ainda que após a crítica de Kant tenha sido igualmente rejeitada. Havia sido
inicialmente proposta por Avicena e consistia na proposição de que se algo
existe deve haver um ser necessário. Mas algo existe (por exemplo, eu mesmo),
logo existe o ser necessário.
Contudo, ainda nesse
período da filosofia moderna o argumento ontológico encontra também ampla
aceitação, tendo sido enunciado por Descartes e por Leibniz. Conforme Descartes
a existência de Deus está implícita no seu conceito, assim como no conceito de
triângulo está implícito que seus ângulos somem dois retos. Leibniz formula o
mesmo argumento a partir da definição de Deus como ser necessário cuja
existência é provada desde que seja também possível. Não havendo nada que
implique a impossibilidade de Deus, ele existe.
Conforme observa
Chauí, a enunciação desse argumento por Leibniz institui uma “excepcionalidade”
na relação entre o possível e o necessário. Deus é o caso único em que a mera
possibilidade lógica acarreta a necessidade ontológica ( A Nervura do Real,
p. 746). Isso se relaciona com aquilo que Leibniz crê ser o único meio de
sustentar o argumento ontológico, a saber, que a definição deve previamente
demonstrar a possibilidade daquilo que afirma. Essa exigência é então dirigida
a Spinoza e mesmo a Descartes por Leibniz, que critica a ambos por não a ter
observado na maneira de conduzir sua demonstração da existência de Deus.
A proposição de
Freudenthal parece, com efeito, sugerir que Spinoza já estaria subentendendo,
em sua definição de Deus, algo cogitável em seu tempo uma vez introduzido o
termo a ser definido. De fato, o caráter singular da redação do livro I da
Ética (De Deo), está em que a idéia de Deus aí se enuncia como devendo
ser geometricamente construída, isto é, formada a partir de outras idéias.
O que se revela
aporético, já que a idéia de Deus sempre se propõe como nota per se, conhecida
por si, como idéia absoluta, inclusive pelo próprio Spinoza no Breve Tratado.
Mas Spinoza estima que a idéia absoluta pode ser complexa. E essa aporia, que
parece reforçar a acusação de Leibniz, revela-se apenas aparente, conforme
Chauí.
Ora, Deleuze mostra
que a exigência de Leibniz é perfeitamente observada por Spinoza. O caráter
construído da definição 6 , enquanto real, é agora interpretado em termos de
uma gênese. Assim se evidencia o papel das “proposições” iniciais da Ética
(proposições 1 a 11), que tratam dos atributos mostrando que são conhecidos por
si, e não podendo ser contraditados, são necessariamente compatíveis, o que
garante a possibilidade daquilo que formam ( Spinoza et le problème de l’expression),
cap. IV, parte I).
Deleuze afirma então
que a definição 6 é real, mas que sua possibilidade deve ser assegurada ao
longo de uma gênese que abrange essas proposições iniciais da Ética. Chauí,
contudo, pensa que não são as proposições, mas sim o conjunto das oito
definições iniciais da Ética, articuladas em torno da definição 6, que garantem
geneticamente o caráter real da definição de Deus em Spinoza. Assim cada uma
dessas oito definições, tomadas isoladamente, conservar-se-iam efetivamente
apenas nominais, mas as oito, conjuntamente, constituem uma só definição do ser
absoluto.
Chauí argumenta que o
procedimento habitual de Spinoza consiste em apresentar de início a definição
das essências para que daí a ordem de inteligibilidade da exposição se encontre
garantida – procedimento inverso ao do cartesianismo que parte da dúvida ou de
intuições simples que se devem relacionar progressivamente de modo a como que
encontrar a verdade procurada. Assim, ao invés de aceitar que a Ética e o Breve
Tratado procedem diversamente, o que ocorre é que a ordem geométrica da Ética
já se inicia, conforme Chauí, com uma intuição da essência da substância, que
se expressa através do nexo entre as oito definições.
Mais tarde veremos
como o argumento de Chauí se relaciona estreitamente com a teoria do
conhecimento de Spinoza e mesmo como a proposição de Deleuze está relacionada
com aquilo que ele designará como o método do espinozismo. Por ora é oportuno
observar que, em todo caso, esse procedimento genético envolve a impropriedade
da crítica de Leibniz, pois de um modo ou de outro já estaria de início
assegurada a realidade da definição de Deus que articula o desenvolvimento do
texto da Ética.
E essa definição,
articulada a seu desenvolvimento, deverá fundar a irredutibilidade entre
Spinoza e Leibniz. Irredutibilidade fundada, porém, sobre esse algo em comum,
conforme Deleuze, a saber, o anticartesianismo que se expressa pela mesma
observação de que a prova ontológica depende de uma definição real de Deus,
pela mesma exigência de uma demonstração da realidade dessa definição.
Ora, isso em Spinoza
se expressa como equivalendo a recusar o “infinitamente perfeito” cartesiano
como uma definição aceitável da natureza de Deus, o que no entanto precede o
manejo das provas em Descartes, tanto a posteriori quanto a priori. Deleuze
mostra a partir daí que as objeções de Leibniz a Spinoza dependem de um
desconhecimento do projeto geral da Ética. Mas de modo mais profundo, Deleuze
afirma que aquilo que Leibniz aponta como perigo do espinozismo, a necessidade
absoluta, na verdade apenas desloca o que realmente ocorre, isto é, que
Leibniz, para conservar o criacionismo, conserva aquilo que Spinoza ultrapassa,
a analogia, a eminência, o simbolismo.
Evidencia-se assim
também que a afirmação de Freudhental, de que a definição 6 está subentendendo
a noção de Deus como ser perfeito, não parece de todo exata, seja para
localizar o espinozismo na abrangência cartesiana, seja para fazer como se a
Ética partisse daquilo mesmo que desejava refutar.
Quanto a esse
deslocamento operado por Leibniz em relação ao verdadeiro motivo da oposição
com Spinoza, só poderá encontrar seu desenvolvimento gradualmente, ao longo da
exposição. O importante aqui é mostrar que se o infinitamente perfeito é
recusado como identificável à existência de Deus, ele será visado por Spinoza,
contudo, como aquilo que distingue numericamente a substância. Aqui Spinoza
propõe algo que Deleuze mostra ser um conceito profundamente renovado,
remodelado. Pois essa distinção “numérica”, conforme o espinozismo, não é uma
distinção real, e inversamente, a distinção real não pode ser numérica.
Assim falar dos
atributos como substâncias numericamente distintas é apenas um modo de negar
que eles sejam substancial e realmente distintos, isso é que sejam realmente
substâncias. Considerados, porém, na sua irredutibilidade, enquanto
distinguíveis, os atributos são essas substâncias ilimitadas e infinitamente
perfeitas como o Deus do cartesianismo. O que subentende uma vigorosa crítica a
Descartes, uma ruptura essencial com o seu sistema que prevê pensamento e
extensão como substâncias reais, distintas numericamente.
Pois se Spinoza
sustenta que a distinção numérica não é real, isso que expressa a natureza dos
atributos, o infinitamente perfeito, convém à substância única apenas como
próprio, ou seja, como uma característica intrínseca mas não definidora, assim
como o rir é próprio do ser humano. O que essa distinção numérica não-real
supõe então, é algo que se distingue realmente, mas não numericamente,
conservando-se una, a saber, a substância como o que é absolutamente infinito.
O infinitamente perfeito é assim apenas o próprio da substância, sendo que só o
absolutamente infinito pode se enunciar como idêntico à existência de Deus.
Aqui deparamo-nos com
algo também aparentemente aporético. Deleuze apresenta o problema do seguinte
modo. Desde os estóicos se conhece a distinção entre o expresso ou exprimível e
o designado. O expresso, ou ainda o sentido, é o enunciado pela proposição
enquanto que o designado é o objeto extra-mental, a coisa a que o signo faz
referência por meio do que ele expressa. Essa oposição se torna bastante
enfatizada desde o ockhamismo e na contemporaneidade se enuncia conforme a
terminologia introduzida por Frege que distingue o sentido como Sinn e o
objeto designado como Bedeutung.
Mas não se poderia
resolver o problema apresentado por essa multiplicidade dos atributos,
confrontada com a unidade da substância, considerando-os apenas como os vários
exprimíveis do mesmo designado.
Pois se o espinozismo
escapa à analogia como à eminência, é no sentido de que afirma a univocidade do
ser da substância e dos atributos. Se estes são “nomes” de algo que em si é
único – assim como, exemplifica Spinoza na carta nº 9 a de Vries, Jacó e Israel
são nomes de uma só pessoa, mas conforme diversas atribuições – esses nomes
enquanto atributos da substância absolutamente infinita se devem aplicar
formalmente ao que designam, não apenas ser tomados objetivamente (idealmente),
como ainda é o caso do expresso na terminologia filosófica estóico-medieval. A
multiplicidade que os atributos introduzem na unidade do objeto se conserva,
pois, paradoxalmente, atual.
A renovação
conceitual introduzida por Spinoza incide sobre essa distinção não– numérica de
modo a solver a aporia. Pois ela já havia sido proposta por Duns Scott em
termos de distinção formal, conceito introduzido na ambiência da ruptura com a
eminência e a analogia rumo à afirmação da univocidade do ser. Ora, no
escotismo a distinção formal se aplica à apreensão de quididades múltiplas que
pertencem ao mesmo sujeito, dado assim como estruturado.
Trata-se de formas
atualmente distintas que compõem o mesmo sujeito conforme a diversidade de
gênero e espécie de algo que é o mesmo, como que o terceiro termo em relação a
essas quididades, que no entanto são idênticas a ele e por ele se comunicam.
Contudo, em Duns Scott a distinção formal conserva apenas um mínimo de
distinção real, ainda que não se reduza a uma mera distinção de razão.
A renovação que
Spinoza introduz nesse conceito de algo que se opõe, mas não numericamente, é
que ele não o propõe a partir de nomes ou atributos de Deus como justiça,
bondade, sabedoria, o que ainda ocorre no escotismo. Spinoza afirma que a
substância não se divide em gênero e espécie, não estando para os atributos
como o gênero para as diferenças específicas. A distinção não se exerce sobre
seres de razão, gêneros e espécies, ainda que, formalmente proposta, não fosse
já ela mesma apenas uma distinção de razão.
Todos os atributos
formalmente distintos são agora reportados a uma substância ontologicamente
una. Assim a distinção não numérica permite que as substâncias qualificadas
formem uma só substância do ponto de vista da quantidade. Ora, isso deverá
envolver o salto do criacionismo, situado no âmbito de um pensamento teológico
como o escotismo, ao panteísmo e à imanência afirmados no âmbito de um
pensamento ontológico como o espinozismo, o que deveremos evidenciar a partir
de uma consideração mais aproximada dessa noção de atributos, desenvolvendo a
exposição em torno dos seguintes temas importantes: paralelismo, causalidade, potência
e expressão.
A Revolução da Ética
O desenvolvimento
desses temas, contudo, parecem estar na juntura de uma percepção de algo
inquietante nesse início da Ética, envolvendo a definição de Deus. A questão a
propor sobre isso pode ser bem colocada se a ligarmos ao tema da representação.
Poderíamos enunciá-la
do seguinte modo. Como se está relacionando o conceito nesse caso? Sabemos já
que Spinoza não introduz a subjetividade na caracterização da substância.
Furtando-se a uma referência a “um” ser, que seria essa “substância” senão o
isso que está no lugar de um puro nada?
Ser se declina por
uma relação com a presença. É o ser que se oculta e retira, que ilumina e
concede. Mas nomear o ser ou tentar presentificar o próprio ser, eis o que
basta para falsear o sentido da questão do ser. Por conseguinte, à tentativa de
nomear ou presentificar o ser só deve poder corresponder a colocação do próprio
nada nesse lugar destinado ao nomeado.
Nada será o
não-conceito ou o ?-conceito a preencher esse lugar a que todo hábito de
pensamento conduz mas de que, ao mesmo tempo, todo pensar autêntico se esquiva.
O espaço do sem-sentido, que é geração de todo sentido. Aqui, ao que parece, só
se pode empregar paradoxos.
Mas, com efeito, não
parece de todo convincente equiparar a substância do De Deo com o Nada
enquanto lugar de quase-preenchimento conceitual do ser. Inicialmente porque o
nada parece já falar outra linguagem, em relação ao clássico, de modo que uma
instância de quase-preenchimento evidencia a ambiência da não-representação. O
Ser de que fala Heidegger não seria um conceito representativo por não
funcionar como um canal de significação atuante ao nível da linguagem comum,
onde há sempre o signo encarregado de juntar suas duas metades, a referência e
o referente, o sentido e o designado, reduplicando a bifurcação material que o
constitui como signo, a barra quase-tangível entre o significante e o
significado.
O conceito do Ser
heideggeriano não tem esse uso representativo, não faz signo, é o lugar de uma
abertura que é pensamento sendo lançado no aí-agora do pensar que pensa – o que
parece torneio verbal constitui-se então como componente da multiplicidade
conceitual evoluindo no próprio tempo vivido, lá onde o pensar toca o existir.
Ora, nada disso fala
a linguagem do século XVII, onde o conceito central é Deus, onde, por
conseguinte, aparentemente não se pode exceder o nível do signo. E mesmo que
Spinoza seja o iniciador de uma crítica hermenêutica das Escrituras que visa
precisamente a noção de signo, ele a está opondo à expressão, mas assim como se
opõe o equívoco ao unívoco, algo convencional que funciona ao modo de uma ordem
na base de um sistema estímulo-resposta a algo que apreende a realidade do que
enuncia. Não ocorre que a expressão deixe de estar na relação com um algo que
ela expressa.
É verdade que, como
veremos de modo mais aproximado, se pode pretender que o ultrapassamento da
representação, em Spinoza, ocorre na articulação do paralelismo, na relação
entre os atributos, o pensamento e a extensão. Uma idéia não é a imagem mental
de uma coisa, mas posição no ser, assim como a coisa mesma. A idéia no
espinozismo é expressiva, não representativa. Percebe-se, contudo, que o jogo,
por assim colocar, moderno da filosofia não ordena as mesmas peças ou não distribui
os dados no mesmo tabuleiro, em relação ao contemporâneo.
Sobretudo,
poder-se-ia sugerir que esse tabuleiro clássico ainda não conhece a fenda que o
caos nele introduz, desde Nietzsche. O vazio, o nada, esse espaço sempre móvel
e deslocado do sentido, nele como que ainda não penetrou, esse espaço do
clássico permanecendo aquele pleno, demasiado completo, do “quadro” de que
falava Foucault.
Sendo assim poderia
parecer que o postulado metafísico-moderno heideggeriano continua intocado.
Mesmo Spinoza, o crítico contumaz das leituras supersticiosas, ainda fala a
linguagem dos teólogos. O Ente supremo, Deus, continua preenchendo o espaço que
deveria corresponder ao nada para que viesse a ser salva a transcendência do
ser.
Ora, mesmo o traçado
das linhas de fuga parece, frente a essa irredutibilidade dos jogos de verdade,
algo como a deriva marginal, a exceção que reconduz à regra. Mas se a
nomadologia algumas vezes não se furta a esse ar de contrafação, daí sua
vocação minoritária, com que pode rir um pouco de toda a pantomina do discurso
oficial com sua, vista de outro modo, maçante previsibilidade, o pensamento
deleuziano estende uma via de compreensão do clássico em que ele mesmo é tomado
como pensamento.
O pensar agora está
então se enunciando como algo que se exerce de algum modo contra aquilo que se
impõe ao mesmo tempo como seu fora, o espaço social da ordem, ou dos
signos, conforme a expressão de Spinoza, e seu dentro, o jogo da enunciação, o
que poderia, vagamente talvez, se designar ideologia como o conjunto de meios
pelos quais em uma certa época algo pode ser afirmado, comunicado, ou mesmo ordenado.
Surge essa região indiscernível na redundância que a frase detectou entre a “ordem”
e o “ordenado”, região que não discerne a um certo nível, pensamento e “ideologia”.
Não porque se devesse
fazer esse discernimento nessa mesma região, empregando-se algo mais de boa
vontade. Seria, com efeito, impossível. Nesse nível não há verdadeiramente, não
só o como, mas tampouco o porquê. Os criadores da Idade Clássica, os artistas e
os pensadores, como mostra Deleuze, não deixaram de pensar realmente em Deus,
não se trata de um trabalho conceitual nessa época que pudesse ser visto como
tendo se extraído de um fundo ou de uma intenção de pura incredulidade.
Mas o que importa
então, não deveria ser poder ver que após a tarefa de descrição dessa região de
indiscernibilidade, após a apreensão do a priori histórico, resta muito por
fazer, a saber, o principal quanto ao pensar, isso que, mesmo que jamais
enunciado, deve ter ficado implícito em qualquer compreensão real de uma época
por aqueles que a estudam? Não seria aqui o lugar de homenagear Foucault por
sua coragem e honestidade intelectual – ultrapassar a linha de sua própria
celebridade, no rumo algo incerto da subjetivação?
Quanto ao pensar, e
aqui o filósofo e o artista exercem essa potência criadora tanto quanto o
cientista, o que importa é essa região alhures em que se pode ver o que ele
faz, isso que escapa à ideologia no sentido de ser o que a ideologia não pode
fazer. Não basta para isso visar o pensamento como uma reação, algo como uma
contra-ordem, uma revolta, uma “inssurreição” no sentido em que Heidegger
utilizou o termo para finalmente propor a liberdade como aguilhão.
O que é criativo no
pensar nada tem a ver com um rebelar-se contra, um reagir a. O que dele nasce é
autopoiético, aquilo que vem e se mantém por si mesmo. Nesse sentido, creio que
o que Heidegger mostrou ser necessário, procurar as palavras do ser ocultas sob
o maquinar da tradição, o que Arendt soube praticar num outro sentido,
procurando o que se introduzia como ruptura por sob uma utilização
inevitavelmente mesclada com o tradicional, correspondem àquela implicatura –
ser impossível, mesmo após constatar todo tipo de pré-condição de continuidade,
não ter percebido o que já se erige como descontínuo, singular, exigindo, para
que se possa compreendê-lo, que se observe aquilo mesmo que enuncia sua
irredutibilidade, não sendo isso possível de todo pela mera aplicação de
critérios que lhe são extrínsecos.
Apenas o procedimento
de Heidegger, mesmo de Arendt, me parecem, por ter conservado o peso da
tradição como crivo, não ser capaz de vislumbrar o que há de não-reativo, o que
há de irredutivelmente criativo no pensar.
Utilizando então a
leitura de Deleuze, no curso de Vincennes sobre Spinoza o pronunciamento sobre “Filosofia
e teologia” é particularmente oportuno quanto a esse modo de entrever o
clássico, ao mesmo tempo na exterioridade do seu próprio postulado de
enunciabilidade e na interioridade do seu traçado sobre a imanência, a
historicidade.
Nesse sentido Deleuze
estende uma aproximação entre a pintura e a filosofia no que tange ao trabalho
criativo nesse meio teológico que é ao mesmo tempo o do poder monárquico
absoluto. Ora, o que a pintura mostra é que Deus se torna o tema nuclear de uma
autêntica liberação da forma. Isso porque todo outro motivo conserva o
compromisso com a representação: figuração e semelhança. O que é
particularmente notável quanto à figura humana (retrato), mas também se estende
à paisagem ou mesmo ao interior, a cena.
Mas se os temas são
as figuras do cristianismo, cessa o constrangimento de imitar por não se dispor
de um modelo. A pura presença que é Deus libera o jogo de linhas e cores, as
formas nada tendo a ver com uma ilustração. Os artistas desenvolvem uma intensa
criação puramente pictória sobre o corpo de Cristo, que corresponde a uma
emancipação da pintura. Esse uso do religioso é na verdade profundamente
irreligioso, ou melhor, é a-religioso, pois só lida com aquilo que tem a ver
com o próprio fazer artístico.
Ocorre então algo
assim em filosofia. Já com relação a Leibniz, Deleuze mostra que a noção de
criação do mundo como cálculo de possibilidades se movimenta na exterioridade
de toda teologia. O tema de Deus se libera do papel teológico fundador que
cauciona ao mesmo tempo uma hierarquia das essências e uma operação de
representação – a escolha que preside a criação do mundo se desenvolve como se
joga xadrez, os conceitos precedem as coisas a representar tendo alcance
não-representativo ( Adão ainda nem pecador, nem não-pecador).
Spinoza se
inscreveria assim como apenas mais um caso nessa linha de criação conceitual,
restando mostrar em que seu pensamento logra também liberar o conceito do
constrangimento teo-lógico? Parece que a resposta é negativa. Com Spinoza,
Deleuze não fala apenas de uma “criação de conceitos” notável, como com
Leibniz, mas de uma verdadeira “revolução conceitual” que decorre precisamente
dessa definição que enuncia Deus como ser absolutamente infinito.
O que essa revolução
efetua, desde a noção de Deus como o absolutamente infinito, é a liberação
completa da causa imanente, que Spinoza opera através da transformação da
consistência filosófica. Ao invés de um procedimento sequencial, a instauração
de um plano fixo. Assim o desenvolvimento dos temas propostos precisa visar
incialmente o deslocamento da causalidade em favor da imanência, o que
permitirá compreender tanto o que se instaura com esse plano fixo, o que ele
reverte na história da filosofia, quanto o entrelaçamento com a expressão e os
outros dois temas, o paralelismo e a potência, no âmbito de constituição do que
se pode designar uma tríade conceitual envolvendo substância, atributos e
modos, completando a teoria do ser.
Imanência e Expressão
I) As sequências
A história da causa
imanente, intimamente relacionada com a do conceito de expressão, é um tema que
Deleuze expõe em alguns registros importantes de que destaco os trechos
pertinentes no Curso de Vincennes sobre Spinoza e em Spinoza et le problème
de l’expression (SPE).
O desenvolvimento é
algo complexo, pois Deleuze trabalha agora com a noção de níveis relacionada à
de sequências. Assim, ao invés do costumeiro traçado do que um filósofo nega ou
afirma quanto à determinada questão, trata-se de rastrear os níveis em que se
pode encontrar tanto a negação quanto a afirmação, ou melhor, diversas
formulações de uma mesma questão sem que isso implique contradição, e sim o
escalonamento do seu pensar em níveis de problematização de certo tema,
estendendo-se sequências de conceitos em cada nível.
Assim a causalidade
imanente aparece na história da filosofia anterior a Spinoza, apenas como um
momento no esquema geral das ontologias que prescrevem a realidade do mundo
sempre a partir de uma fonte transcendente que fornece, concomitantemente, a
sua inteligibilidade. O que está em jogo é o processo pelo qual as coisas devem
derivar dessa fonte, isto é, a explicação causal que fornece a ligação entre as
coisas e a origem.
Aparentemente temos
dois modos de conceber o processo, o emanativo e o criacionista. Uso o termo “aparentemente”
porque, como verificamos ao longo dos estudos sobre as filosofias medieval e
renascentista, frequentemente o tema criacionista se mescla ao emanativo,
Cristo sendo conceituado como o “Verbo” ou a hipóstase Inteligência (Ser) do
plotinismo, por exemplo.
Contudo, o que
demarca aquilo que permanece irredutível entre esses dois modos é que na
causalidade emanativa a fonte transcendente, o uno, não sai de si para
produzir, o inverso podendo ser afirmado quanto à causa criadora.
O que ocorre quanto à
causalidade imanente é que assim como na emanativa, a fonte não sai de si para
produzir. Mas se o efeito produzido, tanto na causa emanativa, quanto,
evidentemente, na criadora, não está na causa, não permanecendo nela, é
precisamente isso que caracteriza a causa imanente. Nesse caso, conforme a
enunciação de Spinoza, Deus está no mundo, o mundo está em Deus.
Pode-se ver por aí
como há conveniência entre a causa emanativa e a criadora. Pois, em todo caso,
de modo algum pode haver algo de comum entre as coisas e sua fonte que
permanece assim transcendente. Mas vimos também o que as singulariza, de modo
que o que Deleuze desenvolve como a história da causalidade imanente até
Spinoza é o jogo complexo de cortes e interseções que se articula desde a Antiguidade
entre essas três vertentes, a emanativa, a criadora e a imanência.
Os textos de Deleuze
que estamos examinando visam o problema do seguinte modo. A instauração de uma
sequência de noções parece ter sido a condição de enunciação da causalidade
imanente, que se mescla, como um certo nível de problematização, no tema geral
da causalidade originária dos filósofos da transcendência.
A referência inicial
quanto a isso é o Parmênides de Platão, com suas séries de hipóteses sobre a
hierarquia entre o Uno e o Ser ou sobre a natureza da participação. É´
importante reter essa referência pois ela fornece a base de todo o
desenvolvimento posterior do problema da causalidade originária. Deleuze afirma
aí que essas hipóteses não devem ser vistas como contraditórias umas em relação
às outras mas como níveis de problematização que o pensamento platônico
instaura nesse contexto temático.
Quanto à hierarquia
entre o Uno e o Ser, o Parmênides lança três hipóteses, a da superioridade do
Uno sobre o Ser (1), a da igualdade entre ambos (2) e a da superioridade do Ser
sobre o Uno (3). Em todo o caso a superioridade significa ser a fonte de que o
inferior deriva. O problema da participação se torna então o como dessa
derivação. Assim, por exemplo, se as coisas derivam das idéias porque
participam delas, como conceber essa relação: como fazer parte de, ou como
imitar, ou como receber por meio de outro (espírito ou artista ou demiurgo)?
Em todos esses casos
que Platão apresenta como possibilidades de se compreender a participação, no
platonismo a relação parece imposta ao participado, algo que não se compreende
pelo próprio ser ou aptidão natural do participado, daí a necessidade do outro que
impõe a forma ao participante, como se às idéias repugnasse a mistura com as
coisas.
Plotino e em geral a
ambiência pós-platônica se incumbem da resolução desse problema, dessa
irredutibilidade do participado, que restou do platonismo. Ao invés da participação
como uma relação da coisa com o que lhe é extrínseco, a emanação de Plotino
como que infiltra o participado no íntimo do participante ao visar o processo
na perspectiva do participado, o Uno sendo concebido como produtivo, concessivo
(emanativo).
Ao pensar desse modo
a natureza do vínculo emanativo, Plotino reduplica de certo modo o processo
causal, pois a dualidade complicar-explicar se reveste de um alcance
quase-imanente. Assim, vemos que Plotino se instala ao nível da hipótese 1 do
Parmênides para desenvolver a noção de emanação e a hierarquia das hipóstases,
mas que seu pensamento alcança em algum nível a hipótese 2: seja ao situar a
relação do Uno com o Ser em termos do Uno que se concebe como aquele que é e se
conhece, seja ao situar a relação do ser com as coisas múltiplas que são como
que o Uno mesmo mas em estado de desenvolvimento, e quanto a isso Plotino
utiliza abundantemente o termo exelittein (explicar, desenvolver).
`A série de emanações
sucessivas, do Uno ao Ser, do ser ao mundo, se substitui a co-presença desses
movimentos correlativos, o complicar de tudo em Deus e o explicar de
Deus em tudo.
Contudo no
neo-platonismo, desde Plotino, os níveis ou hipóteses jamais deixam de remeter
um ao outro, sempre a igualdade sendo como que justificada ou inserida no
âmbito maior da transcendência, da superioridade do Uno. Que a causa emanativa
permanece em si para produzir, mas que o efeito não permanece nela, é algo que
precisa ser absolutamente enfatizado na escola neo-platônica, como ocorre em
Proclo ao desenvolver a teoria do Imparticipável que dá a participar, o Uno
tendo assim, como em Plotino, garantido o status de sua superioridade
relativamente a seus dons.
Deleuze menciona que
há muitos exemplos de sequências conceituais semelhantes na história da
filosofia desde então. Heréticos, judeus, cristãos, manejam a imanência, mas
sempre como parte de um contexto que mantém a transcendência. Ora, nesse
extenso movimento histórico, de Platão e o neo-platonismo até a época de
Spinoza, pode-se, contudo, encontrar uma progressão quanto à importância da
imanência que vai suplantando a transcendência tanto mais quanto se aproxima a
modernidade.
Esse fenômeno se
verifica paralelamente ao abandono das concepções analógicas e equívocas do
ser, rumo à univocidade e ao Ser-Igual: o ser se afirma no mesmo sentido de
Deus e das criaturas. O par complicatio-explicatio desempenha nessa progressão
um papel proeminente. Em cada exemplo escolhido por Deleuze, desde Santo
Agostinho a São Boaventura, de Scottus Erígena a Nicolau de Cusa e Mestre
Eckhart , é através dessa correlação de termos que a participação como que
desliza desde o criacionismo mesclado às noções oriundas do emanatismo, até a
imanência que se declina a partir de uma compreensão da participação como
expressão.
Com efeito, a
igualdade entre o Uno e o Ser, entre o Ser e o mundo, como hipótese imanente
pela qual Deus está em tudo mas tudo está igualmente em Deus, hipótese que
decorre da correlação do explicar e do complicar, tende a visar a participação
ao modo de expressão imediata e adequada do ser absoluto que compreende todos
os seres e se explica pela essência de cada um. Na trajetória da imanência, até
aí paralela à da univocidade, a expressão assinala a culminância do encontro: a
imanência se revela expressiva, a expressão imanente, no âmbito de um conceito
unívoco do Ser.
Assim, nessa
progressão histórica podemos situar algumas constantes. Com efeito, vemos que
ali onde a imanência pôde se abrigar ao menos como um momento na perspectiva da
transcendência, ela implicou em algum nível a noção de Ser-Igual ou unívoco.
Mas inversamente, ali onde a noção de univocidade foi explicitamente proposta,
como em Duns Scottus, ela só poderia ser plenamente desenvolvida se relacionada
à imanência estrita, o que de modo algum se verifica.
O que ocorre então é
que a restrição almejada de um desses conceitos – notadamente o de imanência,
como perigoso para a legalidade das relações fé / razão, leia-se
atividade especulativa / polícia teológica, ou apenas para o estatuto da
transcendência como na antiguidade platonizada – acarreta a inserção do outro
como relativo a um processo que o abarca e reverte.
Ora, não somente se
visualiza assim a relação entre imanência e univocidade mas também se verifica
que o sintoma daquela inserção reversora aparece na qualificação do conceito de
expressão. Observando como isso ocorre, deveremos nos ocupar por ora de tópicos
mais concernentes à história da filosofia, procurando reconstruir a história do
conceito de expressão em sua relação com a univocidade e com a imanência, de
modo a só posteriormente ser exequível uma aproximação mais conveniente do
pensamento de Spinoza.
Conforme Deleuze,é a
partir das influências estóicas sobre o neo-platonismo que se observa a junção
da causalidade imanente no motivo maior da causalidade emanativa (SPE, 158) .
Ora, na reconstituição de uma história do conceito de expressão, o estoicismo
seria a referência inicial. Acerca do papel da expressão no estoicismo, pode-se
afirmar que é fundamental em sua lógica. Quanto a isso seria preciso um estudo
especialmente votado ao assunto. Aqui algumas observações não deixam, porém, de
ser necessárias.
Inicialmente o fato
de que a lógica dos estóicos opera um deslocamento na noção de causa que só se
pode compreender na relação com a filosofia aristotélica. Ora, o que
Aristóteles introduz, e que lhe permite nada menos do que fundar a ontologia
como ciência do ser enquanto ser, é a quádrupla instituição causal que faz a
forma mesma poder ser visada como uma causa.
Já os estóicos operam
um corte entre o mundo das causas, como âmbito do corpóreo, suas qualidades e
misturas, e o domínio dos efeitos como dos acontecimentos atribuídos ao corpos.
O âmbito do corporal
estóico atua, de modo algo semelhante ao Uno dos neoplatônicos, como uma
realidade totalizante, um princípio universal que abarca toda a diversidade
aparente. Ora, isso que se atribui ao corpo, não sendo corporal, a atribuição é
uma relação expressiva no sentido de que enuncia o efeito de uma causalidade única,
corporal. O atributo é o exprimível, kategorema (Kategorema), o que é afirmável
do ser, o expresso da proposição . Não corresponde ao significado, pois não se
fundamenta necessariamente pela ligação de um signo à coisa representada, mas
pela ligação dos acontecimento ou dos atos que, do lado do ser, dos corpos e
das coisas, só existem realizando-se, com aquilo que, do lado do pensamento,
pode ser exprimido como tendo sido esse ato ou feito.
Assim o exprimível da
proposição é o correlato de um verbo ( a árvore verdeja), não algo que se
concebe ao modo de um predicado que seria tão existente quanto o sujeito. Só o
corpo existe, o exprimível sendo concebido como “algo” de que apenas se pode
afirmar que “insiste” ou “subsiste”, emprestando a esse termo “subsistir” um
sentido algo deslocado, não como sinônimo de existir, mas como aquilo que se
deriva dele ou a ele adere sem confundir-se de todo com ele.
Algo que decorre daí
é que a ligação entre os acontecimentos é puramente entre efeitos, assim como a
ligação entre os corpos é somente entre as causas, em vez da habitual ligação
de causa e efeito. Por exemplo, o verdejar e o envigorar podem se ligar entre
si numa proposição hipotética (se a árvore envigora, verdeja) assim como os
nutrientes e os meios materiais se misturam ao corpo da árvore favorecendo o
seu crescimento. Isso determina que em vez de uma proposição categorial ou de
um silogismo categórico de que se extrai uma conclusão, a proposição estóica
por excelência é hipotética (sunemmenon, sùnemenon) .
Conforme observa
Bréhier, a lógica dos efeitos do estoicismo não se desenvolve apenas na
exterioridade de todo contato com o real, mas também com a representação
sensível que é visada, ela mesma, em termos de mistura de corpos. O
conhecimento que se relaciona aos exprimíveis seria assim puramente noético,
isto é, relativo ao pensar. Interpõe-se por esse meio, na história da lógica, o
problema da implicação restrita, até hoje remanescente apesar de tantas
propostas no sentido de resolvê-la – na filosofia contemporânea o que mais
parece ter se aproximado do êxito quanto a isso é a proposta de Lewis em
Lógica Simbólica, de 1932..
Esse problema é
exposto sucintamente por Abbagnano no contexto da lógica estóico-megárica. A
questão é a de encontrar o nexo de necessidade que faz a implicação do primeiro
termo da proposição ao segundo, do “se” ao “então”. Na ambiência megárica,
Philon havia determinado a validez entre o antecedente e o consequente nos
seguintes termos: a proposição resultante é válida se não há um antecedente
verdadeiro e um consequente falso. Mas isso tornaria um antecedente falso com
um consequente verdadeiro válido, do mesmo modo que um antecedente sem nenhum
vínculo com o consequente. Por exemplo, “se a temperatura é de 100 graus, então
a água ferve” seria tão válido quanto “se a lua é uma estrela, a neve é branca”
ou “se a lua é redonda, aprecia-se chocolate” .
Bréhier situa o
problema no contexto exclusivamente estóico, em que a validez seria algo
restrito à pura identidade. Assim, entre uma mulher ter leite e o fato de ter
tido uma criança , apenas aparentemente haveria uma relação de consequência, na
realidade a ligação sendo de redundância ou identidade estrita, o que equivale
a afirmar que os estóicos não ofereceram uma solução plausível à questão.
Em Logique du
Sens, sobre a lógica dos estóicos, porém, Deleuze não limita o problema da
implicação no estoicismo do mesmo modo que Bréhier. Com efeito, ele aí
desenvolve uma interpretação do sistema como comportando uma dupla causalidade,
o acontecimento relacionando-se por um lado às misturas de corpos que o causam,
mas também a outros acontecimentos que são sua quase-causa. A quase-causa
permanece incorporal, mas não atua menos que a causa corporal. Ora, isso repõe
a proposição hipotética, não mais como tendo sua validez unicamente assegurável
como uma proposição de identidade analítica, tampouco por uma síntese empírica.
A compreensão adequada do papel da proposição hipotética no estoicismo,
conforme Deleuze, se mantém no âmbito da significação, tema que, contudo, seria
demasiado complexo desenvolver aqui, bastando reter que a teoria estóica
elabora o problema da significação a partir de uma instância de não-senso, para
mostrar que é dessa instância que procede o sentido, que permanece como instância
independente da significação.Nega-se por esse meio que se pudesse de imediato
estabelecer uma relação de significação categórica, como decorrente apenas de
uma pluralidade de sentidos predicáveis do ser. O que equivale a afirmar que o
sentido nem pré-existe, nem provém da absurdidade, e sim que ele é produzido.
Por isso Deleuze não poderia utilizar Camus na leitura dos estóicos, Carrol
permanecendo amplamente utilizável.
A proposição
hipotética funciona como elemento num conjunto de procedimentos destinados a
mostrar a necessidade da gênese do sentido através do jogo dos paradoxos que
decorrem de sua apreensão como suficiente por si ou pré-existente. Esse
conjunto esclarece o funcionamento da lógica dos estóicos que, por um lado
torna o sentido algo irredutível à significação, mas também impede que se
postule a produção do sentido conforme a sofística, numa base puramente
convencional de acordo humano.
Essa produção deve
assim, conforme Deleuze, se relacionar a um campo transcendental, precisamente
o das singularidades que são os acontecimentos, mas tomados como pré-pessoais,
pré-individuais, ou seja, não determinados por uma instância empiricamente
formada a partir deles como num círculo. A emissão de singularidades na
superfície, entre a profundidade corporal e a altura incorporal “ideal” forma o
campo transcendental que deverá permitir a constituição dessas instâncias,
coisas e pessoas, como os referentes determináveis de proposições formuláveis e
acontecimentos já exprimíveis, que permitem, ao ser proposicionados, engendrar
os níveis de significação, indicação e manifestação que pertencem apenas ao
âmbito da proposição. O paradoxal não se limita a um papel de revelação da
insuficiência dos níveis proposicionais, mas é fundamental ao processo de engendramento
do sentido como instância irredutível ao círculo da proposição.
É interessante
observar que Deleuze aplica essa teoria a Leibniz. Assim o sujeito
indeterminado, por exemplo, Adão ainda nem inocente nem pecador, funciona como
a instância paradoxal de que se produz o sentido, portanto ainda nem indivíduo
nem pessoa mas uma fonte de singularidades que deverá se prolongar na formação
do indivíduo
( domínio do sentido,
do Umwelt, em que se é inocente ou culpado como sujeito de uma proposição de
identidade) e da pessoa (empiricamente constituindo o mundo em que se verifica
a sua compossibilidade, domínio do Welt mas igualmente do não-senso pois a
possibilidade aparece como resultado “aleatório” remetendo à comunidade de
mundos a que a pessoa, como indeterminado, poderia pertencer ).
A produção de sentido
pode ser pensada como um funcionamento estrutural localizado ao invés de uma
estrutura que deveria articular níveis pré-fixados, não nômades, como seria o
exemplo se a objetificação se fizesse a partir de uma instância “x” por relação
a uma consciência ou a um ego como “nível” dominante do processo. Ou mesmo se
fosse conservado o paradigma linguístico de Saussure, onde o regime de signos é
apenas significante. Creio ser essa a reversão que Deleuze opera ao afirmar que
seria um erro opor a estrutura ao acontecimento e à história. Ora, essa
oposição tem sido considerada básica na compreensão tradicional do
estruturalismo.
Assim, na superfície,
as singularidades não param de produzir o sentido a partir desse funcionamento “maquínico”,
as duas séries fundamentais (corpos – acontecimentos), a instância paradoxal
que percorre as séries, os pontos singulares e as atualizações empíricas
correspondentes. “A árvore verdeja” é uma dessas atualizações, mas naquilo em que
ela não se enuncia como um predicado e sim através de um verbo, torna manifesto
algo da produção do sentido, que permite estender uma teoria da linguagem.
Assim a linguagem nunca se separa de uma intervenção que permite engendrar o
sentido como atribuição. Verdejar é a singularidade – acontecimento na
vizinhança da qual “a árvore” se constitui como esse objeto designável,
recobrindo a ausência fundamental de senso dessa instância paradoxal, já que
muitos sentidos poderiam ser produzidos como acontecimentos na sua vizinhança,
por exemplo, se pensarmos nos agenciamentos não somente humanos em que ela pode
se constituir,mas também em outros atributos que podemos lhe consignar. É de
instâncias paradoxais que, no entanto, toda a constelação do sentido se produz:
o exprimível, aquele que se exprime, o objeto designável, as misturas de corpos
correspondentes. As séries são sempre independentes e localizáveis, não ocorre
a descrição de uma estrutura como um sistema de níveis pré-localizados como O
significante e O significado, um relacionando-se ao outro por exclusão do
mundo.
A tese de Deleuze é
de imensa importância, pois enuncia que já na Antiguidade se teria constituído
uma filosofia transcendental que conjura as insuficiências daquilo que se
considera, no entanto, a emergência do transcendental em filosofia, na era
moderna, com origem na teoria de Kant e seus desdobramentos, por exemplo, em
Husserl. Essas insuficiências, que Deleuze analisa em cada caso, incluindo
Leibniz, se relacionam, porém, de modo conjunto ao mesmo problema que vem a ser
o decalque do transcendental sobre o empírico, o círculo que vimos como os
estóicos souberam evitar. Postular o transcendental na Antiguidade deixa de
parecer um disparate se observarmos que o que evita o círculo é, precisamente,
as singularidades atuando na organização da superfície, não formando-se o campo
a partir de um ego ou consciência, o que no mundo antigo seria efetivamente
impossível.
Ora, como observa Ph.
Mengue, Deleuze desloca o campo tradicional do estruturalismo a partir de uma
teoria da expressão que conta com o sentido dos estóicos como elemento chave.
Mas naquilo em que essa teoria tem como princípio essencial a recusa de
considerar conteúdo e expresão numa relação direta de representação ou de
causalidade – o que é o caso preciso do paradigma de Saussure – ela apresenta
uma relação de pressuposição recíproca que se enuncia como “um aspecto
importante do espinozismo” (Gilles deleuze et lê systeme du multiple, p. 203),
a saber, aquilo que Deleuze formulou como a teoria do “paralelismo”. Essas
implicações poderão, contudo, ser mais oportunamente consideradas na exposição
da Teoria do Conhecimento de Spinoza.
Aqui o que nos
interessa reter nessa aproximação ao estoicismo é mais o referente a essa
causalidade única e corporal (somente os corpos são causas uns em relação aos
outros) e a noção de expressão como uma relação evenemencial que não comporta o
nexo rigorosamente causal, mas a subsistência, no pensar, do efeito exprimível
por um verbo, efeito que é designável como um atributo incorporal. Nesse
sentido, torna-se importante observar que a quase-causa permanece incorporal.
Quanto ao
desenvolvimento do neo-platonismo, Deleuze observa que os termos compreendere e
complectiri são introduzidos por Boécio, sendo cada vez mais utilizados pelos
comentadores, inclusive estando presentes nos trabalhos da Escola de Chartres.
Contudo, é com Nicolau de Cusa e Bruno que esse par apresenta um estatuto
filosófico rigoroso.
Notadamente com
Nicolau de Cusa, de quem Bréhier já havia mostrado o afastamento em relação à
interpretação mais hierarquizante do neo-platonismo, corrente por exemplo entre
os árabes ou Dionísio Areopagita, mais conforme ao espírito da época feudal.
Logo, a aproximação ao que o Cusano via como sendo as intuições genuínas de
Proclo e Plotino, ou mesmo de Platão. Malgrado suas diferenças, cada grau da
hierarquia das hipóstases contém toda realidade possível sob certo aspecto.
Ora, essa mesma
intuição corresponderia ao cerne do pensamento de Nicolau de Cusa,
traduzindo-se na procura de um método que lhe concedesse o acesso ao plano
maior de visão universal, superior aos planos da razão e dos sentidos, isto é,
ao plano intelectual, apto a atingir o estado de máxima complicação no qual
todos os opostos coincidem – ou ao menos, apto a ultrapassar os limites do
conhecimento voltado unicamente á discriminação entre os opostos, em cada
região do saber.
Já houve oportunidade
para uma aproximação mais detalhada do pensamento de Nicolau de Cusa, aqui
sendo interessante lembrar a aplicação desse método ao que ele designava “matemática
intelectual”, resultando numa arte das “transmutações geométricas” que na
modernidade abrange o problema do limite, os casos em que formas geométricas
consideradas como distintas são na verdade coincidentes.
Ora, pode-se ver que
em Nicolau de Cusa, bem conforme ao espírito da Renascença, visão intelectual,
produção de saber e visão mística coincidem. Pois é em Deus que tudo está
contraído ao máximo, assim como o universo das coisas que parecem irredutíveis
umas às outras é o mesmo Deus em estado disperso, de explicatio.
O conhecimento é,
pois, o movimento inverso da explicatio, orientando-se no sentido da conjunção
ou unidade. Ora, a presença das coisas em Deus constitui a inerência, a presença
de Deus nas coisas, a implicação. Pode-se então estabelecer a equivalência:
Complicação –
presença das coisas em Deus – Inerência
Explicação – presença
de Deus nas coisas – Implicação
Aqui o texto de
Deleuze converge Imanência e Expressão. A imanência se define pelo conjunto de
complicação e explicação, inerência e implicação. Mas sendo assim, abolida a
subordinação ou sucessividade das emanações e constituindo-se a co-presença dos
dois movimentos relativos, a participação não mais pode ter seu princípio
fundado ao modo da causa emanativa, o Uno proposto como fonte mais ou menos
próxima.
A expressão torna-se
o liame participativo conveniente, enquanto expressão sem mediação e adequada
do ser absoluto que compreende todos os seres e se explica por cada um deles,
como vimos anteriormente.
Ora, a expressão
compreende todos os elementos que formam o conjunto que define a imanência. Em
Eckart a categoria de expressão se duplica, ou melhor, nele se reencontra o
tema clássico da dupla expressão: Deus se expressa em seu Verbo (palavra
silenciosa, interior), mas o Verbo se expressa no mundo (figura ou palavra
exterior).
Mas, como observa
Deleuze, se o cristianismo, pela teoria do verbo, favoreceu a tendência
expressionista, tanto quanto o neo-platonismo antigo ele permaneceu impondo a
consistência sequencial, dessa vez pela recuperação do criacionismo de modo a
conservar a eminência de Deus em relação ao ser das criaturas.
Assim, Deleuze mostra
que, se Plotino fornece quanto a isso o modelo mantendo a inefabilidade ou
superioridade do Uno, mesmo quando o cristianismo supera essa exigência pela
tendência a equalizar Deus e Ser, ele conserva a transcendência pela teologia
negativa do Deus inexprimível. Até aí a imanência se propõe como teoria-limite
dentro do quadro maior que se traça pela perspectiva da emanação e/ou criação.
Deleuze mostra que agora o cerne da questão está na relação entre univocidade e
imanência expressiva.
Vimos que tanto à
criação como à emanação reserva-se a tarefa de explicar a participação pelo
lado do participado. Mas inversamente à emanação, que se propõe pela
inefabilidade ou irredutibilidade do Uno, a criação põe as Idéias e o Ser em
Deus mesmo. As idéias representam o ser infinito de Deus, tudo o que Deus quer
e pode fazer. Assim as idéias possuem um valor exemplar, a participação é uma
imitação, mas como que imposta ao participado.
Em Deus as idéias são
similitudes exemplares, as coisas criadas ex nihilo são similitudes
imitativas. A expressão se propõe, desde aqui como dupla. Ela determina ao
mesmo tempo, conforme Santo Agostinho, ambas as similitudes que São Boaventura
designará como o conjunto concreto da “similitude expressiva”: Deus se expressa
em seu verbo ou idéia exemplar, mas a idéia exemplar se expressa nas coisas
criadas ou por criar – já em Nicolau de Cusa a explicatio se concebe em
processo, não completamente feita.
O paradoxo da
expressão é ser ao mesmo tempo o uno e o múltiplo – uma em relação ao que se
expressa, múltipla em relação ao expressado. Ora, esse paradoxo reverte ao
estatuto ambíguo, ao deslizamento constante entre emanação – criação
-imanência. Pois a idéia é, nessa acepção criacionista, como que uma radiação
que conduz daquele que se expressa às coisas mesmas expressas. Logo, pode-se
propor que se as idéias são em Deus, as coisas estão em Deus.
Contudo, a expressão
enquanto meio de uma similitude conserva a inerência como relação de cópia ao
modelo – conforme Nicolau de Cusa, o modelo está em todas as imagens de que é o
modelo, sendo todas a imagens de um único modelo. A espessura permanece entre o
ser de Deus e o ser das criaturas, o modo de ser do modelo e o ser por imitação
das cópias. Conforme Deleuze não se poderia escapar da imanência pura, da
conclusão de que as coisas tanto quanto as idéias estão em Deus, a não ser
mantendo a concepção analógica do ser e São Boaventura chega a opor a “similitude
expressiva” à “similitude por univocação”, isto é, a univocidade.
E mesmo Duns Scottus
ao propor o conceito de univocidade f az do unívoco algo neutralizado, indiferente
às oposições de finito-infinito, perfeito-imperfeito, criado-incriado,
singular-universal, sendo que para se tornar objeto de afirmação completa seria
preciso que o conceito de unívoco apresentasse determinação, permitindo assim
apreender de que maneira ele se afirma em um só e mesmo sentido tanto da
substância que é em si quando dos modos que são em outro, conforme ocorre em
Spinoza.
Ora, a expressão pode
ainda se manter no elemento da representação e conservar o seu status de
modelo, como é o caso quando se a compreende em termos de uma causalidade
exemplar ou um processo imitativo, mesmo quando se trata de fazê-la valer como
um símbolo, isto é, mesmo admitindo alguma semelhança entre as maneiras de ser
de exprimido e exprimente, conforme nota Chauí a propósito de Leibniz (NR,
815). Nesse sentido, os conceitos leibniziano e espinozista de expressão não
coincidem. Podendo-se mesmo afirmar, como Chauí, que Leibniz utiliza a
expressão como instrumento de uma axiomática analógica.
Em todo caso, como
mostra Deleuze, a noção de expressão envolve o duplo aspecto metaforicamente
designado, já em Eckart, como o do espelho (modelo, imagem e semelhança) e do
germe (reprodução). Nesse sentido a metáfora enuncia a unidade daquilo que
possui seu próprio princípio de singularidade ou ser (ratio essendi), se
reflete no espelho como ratio cognoscendi, inteligibilidade ou essência do que
é, e se reproduz no germe como ratio fendi, produção ou obra.
Mas, como objeta
Deleuze, essa metáfora não atinge o objetivo de tornar a noção de expressão
absolutamente conveniente à imanência. A idéia de expressão permanece recalcada
tão logo suscitada, pois se a conjura desde que o espelho pareça absorver tanto
o que se reflete quanto o que contempla a imagem, e o germe pareça absorver a
árvore de que provém e a árvore que dele provém, restando ainda o estatuto
ambíguo desse exprimível que se poderia a custo afirmar que existe, mas que
apenas se limita a insistir ou subsistir.
Assim Leibniz propõe
que não só a similitude, mas a projeção como uma certa lei ou causalidade é
naturalmente expressiva, e Chauí exemplifica esse sentido de projeção com a
função do cálculo diferencial que funciona como sistema completo de variações
entre um máximo e um mínimo. Ora, conforme nota Deleuze, em todo caso um dos
termos da relação permanece superior, como o modelo ou Unidade de que se
derivam os exemplares assim regidos pela lei. O Uno se exerce sobre o múltiplo,
não sendo nesse caso co-extenso a ele.
Leibniz estende o
conceito de expressão para algo mais do que a similitude, mas de modo que essa
noção projetiva permite manter a harmonia pré-estabelecida fazendo da criação e
da emanação as suas espécies. Nesse sentido, é o possível ou virtual o campo no
qual se realiza a expressão visada ao modo de atualização. Vimos que Leibniz
deveria operar um deslocamento decisivo no conceito de causalidade, fazendo
intervir a Razão Suficiente, para que a expressividade de cada indivíduo com
relação ao mundo se devesse à atualização de um possível, a vontade de Deus
conservando a gênese dessa combinatória de modo inteiramente livre.
O elemento obscuro da
expressão, concebida no âmbito da espessura entre Deus e mundo, que Nicolau de
Cusa acusava ao afirmar ser impossível compreender o mistério da participação
de uma forma única em criaturas diversas – e que Bréhier identificou como a
modernidade do seu pensamento pela autolimitação da Ratio, – permanece
na imperscrutabilidade da vontade de Deus em Leibniz, restando apenas a
redundância do melhor no constatável existente. O que devia ser afinal a
essência do fundamento enquanto pura identidade (A=A).
O que se torna
importante agora, e extremamente interessante, é compreender como Spinoza
arrebata a causalidade imanente dessas aproximações sequenciais, isto é,
trata-se de apreender a instauração desse plano fixo que Deleuze designou, e
nesse mister será axial a transformação que Spinoza introduz na noção de
expressão.
II. O Plano
É no âmbito da
causalidade, concernindo à compreensão da substância, que a Ética de Spinoza inicia
sua profunda subversão da tradição cartesiana. Isso pode ser bem observado
através da comparação dos usos que Descartes e Spinoza fazem da noção de causa
sui (causa de si). Mas o que se vê por esse meio é que, conjuntamente ao
uso cartesiano, toda a tradição escolástica, tomista, medieval, se reverte a
partir do espinozismo.
O uso cartesiano da
noção de causa sui como atribuível a Deus, conforme reporta Deleuze, foi
devidamente criticado por Caterus e Arnauld por denotar mais propriamente uma
ausência de causa. A contra-objeção de Descartes consistiu numa interessante
modulação da teoria aristotélica das quatro causas. Assim, conforme Descartes,
em Deus a causa formal desempenha a função de dispensar a causa eficiente. A
positividade plena da essência de Deus é a causa formal pela qual não há
necessidade de postular uma causalidade eficiente para que se afirme sua
existência como não dependendo de uma causa extrínseca e diferente de si.
Mas, como observa
Deleuze, isso equivale a conservar: a) a analogia, pois a causa formal tem,
assim, com relação à existência, uma função análoga a de uma causa eficiente
relativamente ao seu efeito. Em outros termos, é de modo análogo a uma causa
eficiente que Deus pode ser concebido como causa de si ou como ser causado por
si; b) a equivocidade, pois Deus é causa de si em um sentido outro, não do
mesmo modo pelo qual Deus é causa eficiente das coisas; c) e a eminência, pois
Deus contém toda a realidade, mas sob forma não idêntica àquela das coisas que
criou.
Conforme Chauí, (N.R.
22n), a escolástica havia agrupado as causas do peripatetismo em dois grupos: a
formal e a material como internas, a eficiente e a final como externas,
considerando ainda, especialmente, a eficiente como transitiva, pois sua ação
se limita ao ato de produção do efeito. Chaí mostra que Spinoza subverte
duplamente essa interpretação da causalidade eficiente. Por um lado, a propõe
como interna e inerente ao agente, mas também a estende à expressão do efeito,
nele permanecendo como atividade infinita que é aquela pela qual Deus pode se
afirmar como uma causa eficiente de si.
Deleuze observa que a
crítica real que se pode endereçar ao uso da causa sui em Descartes é
não se fornecer uma razão pela qual a causa de si possa ser atingida nela mesma
e fundando-se no conceito ou natureza de Deus. Ora, a Ética se inicia por uma
definição da causa sui que interliga essência e existência. O termo que
expressa a ligação é “envolver”.
A essência envolve a
existência, enuncia a definição I, isto é, trata-se, com relação à causa sui,
de algo que não pode ser pensado senão como existente. Já nesse início se
observa que as definições iniciais da Ética põem em marcha uma espécie de ação
da essência que é efetivada na realidade pelo pensar. A essência não é o que a
coisa é sem ser ao mesmo tempo o unicamente concebível dela.
O intelecto se
interpõe como nexo existencial do ser e da coisa, isto é, pensar opera a
ligação entre a essência e a existência na medida em que atua como aquilo em
que a essência do existente se põe, não podendo deixar de ser posto pelo
intelecto como potência pensante, isto é, potência de formar idéias.
Assim duas perguntas
poderiam ser propostas já pela simples recepção dessa definição. Poder-se-ia
indagar sobre a relação entre aquilo que o intelecto forma, essa idéia, e a
realidade extra-intelectual do ideato, o seu objeto, por assim expressar. Mas
também se poderia conjeturar que a definição apenas se mostra como uma
reformulação da proposição de Descartes.
As duas questões
reproduzem um mesmo problema, pois já a Descartes, como vimos alhures, havia a
objeção no sentido de que sua definição de Deus como “ser sumamente perfeito”
não cobria a distância do objetivo ao formal.
O movimento sucessivo
das definições do texto da Ética, porém, se interpõe sobre essa atividade
reflexiva do pensar sobre o pensar, despertada pela recepção da definição
inaugural. Contudo, já todo o contexto do espinozismo desmente qualquer
convergência do uso da causa sui aí constante, relativamente ao
cartesiano, a começar pelo que Spinoza compreende como aquilo que distingue uma
definição verdadeira.
Na carta 60 a
Tschirnhaus, Spinoza afirma que uma definição verdadeira é apenas aquela que
enuncia a causa eficiente interna, pois somente assim se pode deduzir todas as
propriedades do objeto definido. O que permite a Spinoza, nesse mesmo texto,
mostrar que sua definição VI de Deus não coincide de modo algum com aquela do “ser
sumamente perfeito” de Descartes, justamente por ser causal, expressar a causa
eficiente interna como causa sui enquanto princípio da “inteligibilidade”
e da “realidade da essência” de Deus (N.R., 697).
Assim, aquilo que
Deleuze observou como crítica real a Descartes, a ausência de razão no seu
manejo da causa sui, encontra-se plenamente desenvolvido nesse início da Ética
pela articulação entre as definições e a enunciação, especialmente na definição
VI, da natureza de Deus, o absolutamente infinito, interligada à noção de
atributos como seus elementos formais. Essência e existência se tornam
correlatos, o que Deleuze demonstra por referência à demonstração da proposição
20, onde se afirma a equivalência estrita, em Deus, de essência e existência
uma vez que seus atributos são eternos. Eternidade tendo sido, na definição
VIII, expressamente equalizada a existência.
O aporte deleuziano
quanto a esse ponto (SPE, 149) consiste, pois, em afirmar que Spinoza
ultrapassa a insuficiência do cartesianismo, ao enunciar uma definição da causa
sui, uma vez que aí a eternidade dos atributos é o correlato de sua existência,
aquilo que constitui a essência de Deus constituindo ao mesmo tempo sua
existência. As oito proposições iniciais da Ética, conforme Deleuze, não são de
modo algum hipotéticas, como se estabelecessem uma tese provisória de que o
conjunto do texto deveria se encarregar, mas, inversamente, são categóricas e
devem ser positivamente interpretadas do ponto de vista da qualidade, isto é,
da afirmação de uma multiplicidade puramente qualitativa, logo, de uma unidade
substancial.
Penso que o notável
quanto a isso, relacionando-se às observações de Deleuze, é que Spinoza
apresenta conclusivamente aquela razão ausente na definição de Descartes a
partir de sua definição de Deus como substância, definição que faz da
substância algo somente concebível através da noção de atributos. O caráter
articulado dessa definição é algo bastante sedutor, pois se bem observado torna
o movimento do conceito algo atuante, plenamente constatável.
Assim pode-se
inicialmente colocar a ênfase sobre o verbo “constar” que liga a substância aos
atributos, algo muito bem notado também por Chauí (“substantiam constantem
infinitis attributis”(N.R.810). Deleuze, no trecho citado, põe a ênfase mais
sobre a oposição entre a natureza de Deus e os próprios. Assim, o absoluto, que
é natureza de Deus, se constitui pelos atributos como seus elementos formais e
imanentes. O que equivale a equalizar “constar de” e “ser constituído por”.
Mas o que me parece
chamar a atenção assim que se observa a definição é que não há como supor que o
“constar de” pudesse soar como se a substância “possuísse” algo além dela
mesma, a saber, os atributos. O constare da definição VI ressoa com o constituere
da definição IV que relaciona à intelecção essa junção das noções de
atributos e substância. Aqui o intelecto “percebe” o atributo como essência da
substância, lá Deus é essa substância. Aqui o que o intelecto percebe é o
atributo “como o que constitui” a essência da substância, lá Deus sendo a
substância que “consta de” infinitos atributos.
Chauí estabelece a
relação entre constare e constituere do seguinte modo: constituere
é a unidade de uma maneira de ser e constare é o acordo interno ou
harmonia dos constituintes, como se constare acrescentasse algo ao constituere
(NR, 189 n).
A definição VI
institui ainda a cada atributo a designação de exprimir “uma essência eterna e
infinita”. Ora, se a substância permanece em seus atributos, a essência que
estes expressam refere-se ao mesmo tempo à substância e àquilo que eles mesmos,
separadamente, são. O que Chauí confirma, mostrando que o exprimir uma essência
eterna e infinita pode ser lido “em dois registros”, ora no que faz os
atributos relacionados à substância, ora no que os enuncia como realmente
distintos uns dos outros (NR. 814).
Ora, relacionando
esses termos com a demonstração da proposição XIX, Chauí enfatiza aí o jogo de “exprimir”,
“envolver” e “pertencer” que Spinoza utiliza. Com efeito, nesse trecho Spinoza
afirma que se por atributos de Deus ou substância devemos compreender aquilo
que “exprime” sua essência, isto equivale àquilo que “pertence à substância”,
sendo “isto mesmo” o que os atributos “devem envolver”. Exprimir surge como uma
maneira de pertencer, a noção de atributos envolvendo essa pertença com relação
à substância. Como nota Chauí, o “campo dos atributos é o da expressividade”
Penso que a
articulação interna à definição VI funciona a partir desses dois termos – chave
que relacionam ora a substância aos seus atributos (constar de), ora os
atributos à sua própria realidade essencial (exprimir). E como vimos, Deleuze
observa que os atributos constituem a razão formal que faz da substância uma
causa de si, logo, que permite o manejo da causa sui com um alcance não
apenas objetivo.
Na estrutura do texto
da Ética é como se esses dois termos demarcassem as regiões de explanação da
atividade da substância (o constantem – sua distinção formal, sua unidade real)
e dos atributos (o exprimit – sua expressividade substancial, sua produtividade
potencial), mas ambos jogando-se desde o início como instauração do plano fixo
da imanência que se traça assim sem se basear, seja na emanação, seja na
criação, mas apenas conforme os dois aspectos da univocidade também vistos por
Deleuze, a univocidade da causa e a dos atributos.
Creio que se pode
afirmar que as definições iniciais da Ética estabelecem a causa sui como
equivalência estrita de essência e existência, que os atributos tornam
suficiente e fundamentada pelo modo como unem o infinito e o eterno.
A liberação da causa
imanente tem como consequência instaurá-la como plano fixo, mas não
imobilizado, sobre o qual se joga esse movimento conceitual que já se pode
entrever no início da Ética. À imanência não mais se atribui apenas um pequeno
espaço na sequência dos conceitos, ela se torna o meio mesmo pelo qual eles
adquirem sua consistência.
Creio que “plano”, no
sentido utilizado por Deleuze, tem mais o alcance geométrico, como limitação de
um meio de pontos conceituais singulares, do que aquele de uma série projetada
de ações.
Ora, a liberação do
plano da imanência por Spinoza depende dessa ligação substância-atributos, uma
vez que a substância é o absolutamente infinito e os atributos são todos iguais
entre eles, isto é, são equivalentes e decorrentes de uma mesma ordem, como
modo de produção da substância. É´a isso que conduz a causalidade imanente:
Deus produz como ele existe, isto é, tanto necessariamente quanto nesses mesmos
atributos que constituem sua essência. Mas também a esse outro aporte
igualmente fundamental: Deus produz tanto como ele existe quanto como ele se
compreende. Compreendendo-se necessariamente ele age necessariamente.
Quanto a isso o
importante a reter se relaciona ao que já observamos sobre o conceito que
Spinoza enuncia sobre o compreender, a saber, que compreender não é o mesmo que
conceber alguma coisa como possível, mas sim deduzir as propriedades que dela
se apreende como absolutamente necessárias, pois constantes da essência da
coisa.
Ao compreender-se e
sendo infinito, o entendimento de Deus abarca uma infinidade de propriedades
essenciais, logo, necessariamente produzidas por ele. Se Deus “compreendesse”
no sentido de conceber algo como possível, ele poderia projetar noções não
inteiramente definidas, por exemplo, Adão que poderia pecar ou não pecar. Esse
exemplo que proponho aqui talvez não seja muito apropriado porque já acarreta a
consequência de ligar acontecimentos contingentes à compreensão de algo como
necessário, o que precisamente Spinoza almeja evitar. Mas ele me parece
duplamente estratégico, pois ao mesmo tempo permite mostrar o abismo que há
entre Leibniz e Spinoza e enfatizar o vínculo que Spinoza está estabelecendo,
em Deus, entre o compreender e o produzir.
Compreendendo-se como
substância composta de infinitos atributos, Deus age como ele se compreende e
como ele existe, logo, como afirmado, nesses atributos mesmos que constituem ao
mesmo tempo sua essência e sua existência. Deus não se exprime sem se
compreender, isto é, não se exprime formalmente em seus atritos sem se
compreender objetivamente em uma idéia. Há aqui a necessidade de distinguir as
noções de atributo e de potência.
Deus absolutamente
infinito possui duas potências iguais, isto é, que existem com a mesma força
sem preeminência de alguma delas: existir (agir) e pensar (conhecer), como se o
absoluto possuísse dois lados ou duas metades. Mas se ele possui apenas duas
potências, pode-se afirmar que possui infinitos atributos.
Ora, que só podemos
conhecer dois desses atributos é algo determinado pela limitação de nosso
conhecimento, pois enquanto indivíduos somos constituídos por um modo do
atributo pensamento e um modo do atributo extensão, mas a postulação das duas
potências não se deve a nenhuma limitação nossa, correspondendo à postulação do
absoluto em Deus: sua potência de existir sendo absolutamente infinita, Deus se
pensa absolutamente e pensa uma infinidade de coisas em uma infinidade de
modos.
Aqui Deleuze faz
referência a Schelling, que enuncia bem esse caráter das duas potências do
espinozismo através de uma teoria do absoluto que representa Deus pelo símbolo
A³, posição comum, como terceiro, resultando da união de dois termos ou
potências. Schelling pensa essas potências como períodos da revelação de Deus.
Em Spinoza a postulação desses dois lados ou metades do absoluto se encontra
vinculada à instauração do plano de imanência, pois sua condição é a
constituição da natureza de Deus por infinitos atributos distintos formalmente.
O principal quanto a
isso é o que se pode enunciar relacionado a esse início da Ética, e que estamos
examinando no registro da teoria do ser em Spinoza. Assim Deleuze observa que
desde a definição de atributo Spinoza menciona um entendimento capaz de
perceber. O atributo não seria “atribuído” pelo entendimento, “perceber”
significando mais algo como apreender o que já existe na natureza.
Os atributos não
exprimem a substância sem se reportar necessariamente a um entendimento que
percebe o que eles exprimem. Spinoza está afirmando assim um ser como causa de
todas as coisas, mas ao mesmo tempo, esse ser como causa de todas as idéias. De
modo algum se poderia propor a vontade como atributo de Deus. Pois ele não
produz porque ele quer, e sim porque ele é. Deus age conforme as leis de sua
natureza.
Nesse âmbito se pode
atingir o alcance da expressão no espinozismo, o que Deleuze evidencia muito
bem ao notar que a distinção tradicional entre sentido e designado, que já
examinamos anteriormente, encontra uma aplicação peculiar aí, fundando algo
como um movimento da expressão. O sentido de uma proposição se torna o
designado da expressão subsequente, que tem ela mesma um novo sentido, e assim
sucessivamente. A substância se exprime em seus atributos, os atributos
exprimem, por sua vez, uma certa essência.
A expressão, por seu
movimento, engendra uma re-expressão, um segundo grau da expressão que tem como
razão suficiente o momento inicial da expressão mesma. Deus produz, os
atributos exprimem. Ora, a essência da expressão se põe por esse meio de modo
que a relação de expressão desloca a relação de causalidade. Com efeito,
Spinoza exclui qualquer causalidade entre os atributos.
Se, conforme o
Tratado Breve, pode-se falar da ação de um atributo sobre outro, é apenas no
sentido de se os estar tomando conjuntamente, como partes de um todo, de modo
que a qualquer mudança numa parte corresponde uma alteração na outra e no
próprio todo. Ora, a expressão recobre precisamente essa unidade ontológica,
essa identidade entre dois termos que exprimem um todo como terceiro termo.
Assim a lógica da
expressão enuncia uma produção absolutamente imanente da natureza que é ao
mesmo tempo inteligibilidade necessária. A relação uno-múltiplo não abole
finalmente o múltiplo numa realidade última indiferenciada, que seria a do Uno,
mas se preserva pelo próprio caráter absolutamente infinito do Ser.
Ora, o movimento
intrínseco à lógica produtiva da expressão estende o nexo entre os livros I e
II da Ética, conduzindo do Ser aos modos de ser. O âmbito dos modos, a esfera
dos entes, comporta uma enunciação da teoria dos entes que penso dever ser
singularizada por relação à teoria do Ser, mas o nexo entre ambas pode ser
visado nessa região de inteligibilidade que pertence ainda ao Ser. E de fato
esse nexo completa o alcance da expressão no espinozismo, iluminando o sentido
do paralelismo.
Mas inicialmente “paralelismo”
é mais como um problema do que um conceito que permitiria sem mais compreender
o manejo da expressão no espinozismo. Com efeito, Chauí rejeita inteiramente
que esse termo possa ser adequado ao pensamento de Spinoza que, aliás, não o
utiliza. É Leibniz que o cria, ao que parece, conforme Deleuze, utilizando-o no
sentido de uma correspondência entre séries autônomas que exclui a causalidade
entre elas mas as torna inseparáveis, como ocorre por exemplo entre alma e
corpo.
Nesse uso leibniziano
conserva-se a relação entre séries cujos princípios são singularmente
desiguais, substâncias e fenômenos, sólidos e projeções. Também Chauí o observa
ao estabelecer o nexo entre essa noção de paralelismo e o manejo da expressão
em Leibniz, que se estende no sentido de uma relação entre heterogêneos,
espírito e matéria, mônada e universo, a luz e o decréscimo de sombra e
vice-versa, etc.
No contexto da
duplicação do movimento expressivo, que se exerce da substância aos atributos e
aos modos, Deleuze enfatiza inicialmente a estreita homogeneidade que Spinoza
conserva a entre esses três termos – substância, atributos, modos – de modo que
em última instância é sempre Deus que se encontra designado por todas as
coisas.
Os atributos designam
Deus, como expressões da essência eterna e infinita da substância. Assim cada
atributo expressa a sua própria essência eterna e infinita sendo considerado
infinito em seu gênero. Mas o que impede o antropomorfismo é que os atributos
são formas comuns a Deus, de que eles constituem a essência, e das criaturas,
que os envolvem em sua essência e em sua existência. Essas formas são
recíprocas a Deus e compreendem os modos de que, porém, não constituem a
essência.
A ordem pela qual
Deus produz necessariamente é aquela da expressão dos atributos, a mesma ordem
para todos os atributos. Assim cada atributo se exprime em sua natureza
absoluta, e o que ele exprime inicialmente é um modo infinito imediato, a
seguir o atributo já modificado se exprime em um modo infinito mediato e
finalmente o atributo se exprime de uma infinidade de maneiras que constituem
os modos finitos.
Conforme Deleuze, o
nível dos modos finitos, a esfera dos entes, seria inexplicável sem os modos
infinitos pois estes contém as leis ou princípios de leis que determinam e
ordenam os modos finitos. Essa perspectiva de Deleuze sobre os modos infinitos
parece proposta por Chauí, que a atribui também a Rousset como correspondendo a
leis universais da natureza.
Chauí observa que
mesmo subsistindo a controvérsia entre os intérpretes de Spinoza sobre a
definição de modos infinitos, pode-se destacar como exemplos de modos infinitos
imediatos do pensamento a idéia de Deus e da extensão o movimento e o repouso.
Os modos infinitos mediatos são exemplificados com o termo facies totius
naturae , a fisionomia do universo inteiro.
Vimos que a ordem de
produção é a mesma para todos os atributos “produzidos” ao mesmo tempo por
Deus, mas na verdade constituindo-se assim sua natureza enquanto absolutamente
infinito. Ora, entre os modos de atributos diversos subsiste uma
correspondência mas não uma causalidade real, como tampouco poderia haver entre
os atributos.
Essa correspondência
entre os modos é compreensível, já que é a mesma modificação substancial ou
afecção da substância que se expressa através dos atributos, pois não pode
haver expressão da substância a não ser pelos atributos. Uma mesma modificação
se exprime em todos os atributos, em cada um deles constituindo-se como um modo
expresso por esse atributo. A essência assim expressa não existe fora do dos atributos,
mas é expressa como essência absoluta da substância, a mesma para todos os
atributos. Em outros termos, conforme Deleuze, uma só e a mesma afecção se
encontra expressa numa infinidade de atributos sob uma infinidade de modos que
só diferem pelo atributo. O modo é formalmente a afecção de um atributo, a
modificação é ontologicamente uma afecção da substância.
O que Deleuze
enfatiza aí é que o termo paralelismo, ainda que surgindo no contexto
leibniziano, é menos adequado a Leibniz do que a Spinoza. Pois Leibniz o teria
utilizado de modo algo impreciso, conservando-o no âmbito de séries autônomas,
enquanto que aplicado a Spinoza ele permitiria abranger ao mesmo tempo: a) a
identidade de ordem como correspondência entre os diversos atributos; b) a identidade
de conexão como isonomia ou igualdade de princípio entre esses atributos; c) e
o mais importante, a identidade de ser, como unidade ontológica entre os
atributos.
Com efeito, são as
mesmas coisas, ou afecções da substância, que se distinguem formalmente apenas
pelo atributo de que envolvem o conceito e que envolvem suas essências. O
paralelismo se afirma assim entre os modos fundando-se sobre a substância e
seus atributos. Uma só e mesma afecção se expressa numa infinidade de
atributos, sob uma infinidade de modos. Até aqui se descreve o âmbito do que
Deleuze designa como paralelismo ontológico.
Mas pode-se ainda,
conforme ele, tratar as questões concernentes às controvérsias relacionadas à
proposição 7 do livro II da Ética a partir do que mais propriamente se
apresenta como paralelismo epistemológico, pois ao afirmar a identidade de
ordem e conexão entre as coisas e as idéias, Spinoza está restringindo a tripla
equivalência que vimos portar sobre os atributos agora apenas à relação entre
os modos do pensamento (idéias) e seu objeto que é necessariamente um modo de
outro atributo.
Ora, conforme esse
uso exclusivamente epistemológico do paralelismo a Ética fornece o conceito de
indivíduo como formado pelo modo de um certo atributo e a idéia de que esse modo
é o objeto. O paralelismo psicofísico é, pois, um caso particular de
paralelismo epistemológico.
Tschirnhaus apontou
nesse ponto uma aparente objeção a Spinoza. Conforme a perspectiva
epistemológica, um só e mesmo indivíduo é expresso por um certo modo e pela
idéia que lhe corresponde. Mas na perspectiva ontológica, uma só e mesma
afecção da substância é expressa por todos os modos correspondentes que diferem
pelo atributo. E conforme o paralelismo ontológico, há absoluta igualdade entre
os atributos, enquanto que pelo paralelismo epistemológico o atributo
pensamento detém um privilégio inegável pois deve conter tantas idéias quanto
há modos em todos os outros atributos, e mesmo tantas idéias quanto há
atributos.
Sobre as dificuldades
apontadas por Tschirnhaus, especialmente relacionada à proposição II, 7 da
Ética, Chauí observa, na “nota complementar nº 6 “ da Nervura do Real,
que suscitou “infindáveis controvérsias” . Assim, baseando-se no escólio dessa
proposição o idealismo alemão interpretou o espinozismo como doutrina da
superioridade da potência do pensar, no sentido de ser postulável uma
preeminência do atributo pensamento sobre os outros atributos substanciais.
Chauí coloca o
problema do seguinte modo. O que se objeta a Spinoza é que seu paralelismo se
vê desequilibrado pelo privilégio do pensamento, mas por um lado, conforme
argumenta, não há “paralelismo” que pudesse se estender como tal do sistema
leibniziano, em que realmente ocorre, ao sistema de Spinoza, onde não ocorre.
Mas também que, inversamente ao que supõe Tschirnhaus, uma mesma coisa singular
não pode ser expressa de infinitos modos, pois cada modo só exprime o
seu próprio atributo por ser da mesma natureza que ele.
Assim Chauí enfatiza
que os modos de cada atributo não possuem nenhuma conexão com os modos de
outros atributos. Ora, se Deleuze estende o paralelismo à filosofia de Spinoza,
não ocorre, como vimos, que ele esteja aplicando aqui uma noção leibniziana.
Nesse sentido Spinoza et le problème de l’expression e A Nervura do
Real concordam plenamente.
Apenas Deleuze
aproveita o termo para preenchê-lo com um outro sentido, por assim expressar,
uma vez que lhe permite enfeixar a tripla identidade, que ele observa como
constitutiva do movimento de uma lógica da expressão, nesse desdobramento que
compreende a re-expressão de maneira a garantir o nexo imanente entre
substância, atributos e modos.
A conciliação dos
dois paralelismos é agora a terminologia pela qual Deleuze enuncia o problema
relacionado à proposição II, 7, corolário e escólio, que Chauí trata na “nota
complementar”. O que Deleuze mostra quanto a isso é que o erro
corresponderia a confundir potências e atributos, potência de existir com
extensão, potência de pensar e pensamento. O discernimento mais estrito deve
ser observado aqui, pois não somente é fundamental diferenciar potências e
atributos, mas também a relação que os atributos mantêm com ambas as potências.
Sendo assim o que se
deve afirmar, conforme Deleuze, é que o atributo pensamento está para a
potência de pensar assim como todos os atributos, inclusive o pensamento, estão
para a potência de existir. Em outros termos, o atributo pensamento é condição
da potência de pensar, mas a potência de existir e agir tem por condição todos
os atributos conjuntamente.
Sendo assim Deleuze
não nega os privilégios do atributo pensamento. Ele contém os modos, tomados
objetivamente, como idéias de todos os outros atributos; ele contém idéias que
têm por objeto os modos dos outros atributos, de maneira a fazer cada modo
corresponder a cada idéia, não por uma única idéia para todos os modos
correspondentes; ele apresenta a capacidade de se refletir ao infinito em cada
idéia, pois sendo em si uma forma de existência, toda idéia que toma
objetivamente seu objeto também possui um ser formal que se auto-apreende em
seu próprio atributo (idéia da idéia).
Mas esses privilégios
só se afirmam relacionados à potência de pensar. Nenhum atributo preenche
sozinho a potência de existir, nem mesmo o pensamento, enquanto que o atributo
pensamento sozinho preenche a potência de pensar. O paralelismo ontológico
decorre da igualdade dos atributos com relação à potência de existir. O
paralelismo epistemológico decorre da igualdade das potências.
Assim, a mesma
afecção ou modificação existe em uma infinidade de modos, mas também em uma
infinidade de indivíduos que constituem o binômio idéia-objeto. Ora, aqui
Deleuze testemunha que não se pode imediatamente resolver se, como se poderia
propor, só há, nos vários atributos, modos que exprimem a mesma modificação ou
se, no limite, poder-se-ia conceber infinitos mundos como há infinitos
atributos, aquilo que se produz em um atributo permanecendo totalmente
irredutível.
Contudo, se os modos
possuem uma consistência própria, uma especificidade, há como que o constrangimento
a buscar uma razão de sua unidade. E Deleuze afirma que a idéia de Deus
desempenha a função dessa razão no espinozismo, pois possui o duplo aspecto de
possuir a mesma unidade que a substância e de estender essa unidade ao conjunto
das coisas que compreende.
O que se relaciona ao
observado por Chauí como sendo a resposta de Spinoza a Tschirnhaus, a afirmação
de que há um único universo. Ora, se a pluralidade dos mundos atuais não está
excluída do contexto do livro I da Ética, Chauí mostra que a proposição II, 7
estabelece a mesma ordem e conexão das causas da natureza inteira sob qualquer
atributo. O que isto impossibilita é, pois, que qualquer mundo pudesse ser
proposto como “possível”, isto é, existindo de modo diverso dessa mesma ordem.
Tendo se interditado
a via da pluralidade substancial por repugnar ao conceito de substância a
negação da infinidade absoluta e por ser impossível admitir uma pluralidade de
substâncias assim definidas, o mais peculiar ao espinozismo é isso que afirma o
escólio de II, 7, conforme Chauí: a produção, a ordem e as conexões causais da
natureza exprimem a unicidade estruturada, complexa, da substância
absolutamente infinita e os efeitos que se seguem da natureza de seus
atributos. A hipótese da pluralidade de mundos, por sua associação com a noção
de pluralidade substancial, não guarda assim conexão íntima com o espírito da
filosofia de Spinoza.
Mas esse espírito,
nessa aproximação à teoria do ser, poderia bem ser relacionada ao seguinte
fator ressaltado por Chaui: a unidade substancial afirma que tudo o que existe,
existe em Deus. Mas por esse meio, e em termos heideggerianos, ora
compreendendo a realidade do Ser enquanto Ser (Deleuze), ora fundando a
diferença ontológica de Ser e entes no sentido de infinito e finito (Chauí), é
pela própria espessura ontológica aí estabelecida que se reúne ser e entes, o
absolutamente infinito e as coisas singulares.
A causa eficiente imanente estabelece a natureza como co-presença em que agir e ser são o mesmo, a existência do ser absolutamente infinito enunciando-se como identidade entre a essência e a potência desse Ser.
Introdução
Retomando alguns
conceitos já vistos, mas agora de um modo mais aproximado, podemos afirmar que
a compreensão do mundo enquanto totalidade una, que o pré-socratismo enunciava
em termos de en to pan , o tudo em tudo, encontrou na Antiguidade
duas formulações que deveriam atuar como eixos de aglutinação das concepções de
mundo subjacentes ao conjunto do saber até a era moderna.
Este é a meu ver o
status de que desfrutam, tanto a teoria aristotélica da substância, quanto a
teoria platônica do bem e das idéias. O que se opõe entre ambas parece-me
sobretudo que a doutrina aristotélica tem bem mais a ver com a visão grega da
physis. A teoria articula uma dualidade, forma e matéria, mas de modo que a
unidade do mundo se salvaguarda como unidade de natureza. O deus do
peripatetismo pode ser enunciado tão bem na física, como princípio de movimento
dentro de um esquema astronômico, quanto na metafísica enquanto princípio
noético da realização da forma, tendência ou atração universal que concede à
matéria seu limite de mediação, sua lei potencial.
O todo-uno que é o
universo manifesta concretamente sua unidade, a dualidade intervindo apenas
como mediação entre as coisas e Deus, mediação tendencial de auto-supressão,
realizada plenamente na realidade do deus, onde não há nada de potencial ou
mediato, sendo Deus exclusivamente ato.
Ora, a teoria
platônica do bem e das idéias não se realiza por meio de uma dialética da
dualidade. Ela enuncia a mesma totalidade que é universal na concepção antiga,
mas por um princípio de unidade pura, o Bem, de onde se pode convir uma
existência “posterior” que é ser e algo como uma existência “exterior” que é matéria,
mundo concretamente existente. Isso se torna plenamente instituído pelo
neo-platonismo.
O bem ou o uno,
inversamente à substância, não é formado pela união, ele é irredutível tanto
aos princípios que de algum modo devem se conjugar, quanto à essa conjugação
mesma. Que todos os opostos se anulam no uno, reunindo-se, conforme o
neo-platonismo de Nicolau Cusano, não significa que são esses opostos, assim
como materialmente informados que se “reúnem”, bastando pensar o todo do
universo, tal qual habitualmente o conhecemos, ou do seu princípio inteligível,
tal qual a razão o conhece.
Se fosse assim se
deveria pensar a matéria todo-unida ou exclusivamente o ser, as idéias nele
situando-se como indiferenciados que só pela processão iriam se diferenciar. Creio
que a unidade “Intelectualiter” do Cusano não se reduz ao ser indiferenciado
ainda que o abarque, mas é postulável como uma realidade, ou “a” realidade,
dessa totalidade, irredutível à forma, à matéria, ou à reunião de ambas.
Realidade portanto, inatingível tanto pelos sentidos quanto pela simples razão,
completamente transcendente.
Ora, explica-se assim
a conveniência do platonismo na Renascença. Pois ele permite conservar a
concepção mais extrema do “tudo em tudo”, da Unidade absoluta do Universo, sem
precisar situá-la fisicamente, via astronomia das esferas. O Universo infinito
tornado concebível pela revolução na física desde Copérnico, Kepler e Galileu,
não deixou de ser o Todo-Uno que caucionava a correspondência universal, de
modo tão profundo que nessa época magia e ciência eram, bastante
conscienciosamente, unidas
O que ocorre na
modernidade estrita, já a partir do século XVII, como vimos, é a quebra desse
Todo-Uno, o irremediável comprometimento dessa unidade. Isso não parou de
evoluir, até a atualidade. Mas esse percurso apresenta momentos assinaláveis,
sendo o inicial justamente essa época, entre Descartes e Leibniz, incluindo
Spinoza, em que o todo se encontra bifurcado, uma impiedosa reta demarcando o
domínio novo e exclusivo da matéria cujas leis derivam o mecanismo intrínseco.
Ocorre então o novo
influxo do aristotelismo, como já se enuncia em Leibniz. O todo-uno se desfaz
como a necessidade de uma instância superior ao dualismo, instância que não se
compreende estritamente por ele. A questão que se poderia colocar aqui, sobre a
relação da unidade que o peripatetismo originalmente postulava com esse
dualismo moderno, deve ser por ora contornada. O que importa é que a unidade
transcendente do platonismo deixa de ser compatível com o mecanicismo
cartesiano, paralelamente ao fato de que esse mecanicismo faz o dualismo dos
princípios formal-essencial-espiritual e material algo que basta para
compreender a natureza.
Que esse mecanismo é
intrínseco significa que não há lugar para o acaso – e assim tantos registros
nesses autores de uma suspeição do termo “fortuna”. Mas isso tem agora um
sentido que forma qualquer unidade pensável enquanto realidade da bifurcação.
Não se confunde com aquele pelo qual a mística renascentista costumava excluir
o acaso, como se, porque são formas aparentes de um todo completo, uno em si
mesmo, as coisas se refletem umas às outras, testemunhando sua unidade real.
Assim o acaso não devia ser completamente conjurado, no limite tudo ainda
podendo ser de outro modo, o que tornava a loucura, como vimos com Foucault,
algo bastante relacionado à razão. Só o uno era o real inalterável, tudo o mais
intercambiando-se conforme uma vontade de Deus operante, que a razão não tinha
mais por obrigação explicar – e que considerava impossível explicar.
Por esse meio o
pensamento renascentista, marcado pelo neo-platonismo, apresenta essa curiosa
sobredeterminação: por um lado a negação do acaso é demasiada, o jogo
proliferante das semelhanças instaura uma desarrazoada lógica das similitudes.
Mas também essa negação é insuficiente. No limite não há razão de ser, leis
mecânicas das coisas que garantem o seu unicamente postulável ser assim. A
magia se movimenta nesse meio ambíguo, entre os extremos. É´ conhecimento do
jogo mas acesso à manipulação de suas próprias regras.
Agora, na
modernidade, o mecanicismo propõe que se não há lugar para o acaso, tenso sido
totalmente conjurado, é porque a matéria “funciona”, porque ela se comporta
conforme leis que, justamente por serem intrinsecamente materiais, jamais são
ou poderiam ser de outro modo, assim como uma máquina que apresenta o mesmo
movimento enquanto subsistem as condições, os meios de atuação, de suas
engrenagens. A modernidade é o alvorecer do pensamento científico, que nada tem
a ver com manipulação mágica do mundo consoante a vontade subjetiva.
Ora, esse mundo com
duas metades, esse todo partido, vai encontrar no pólo oposto ao da matéria a
inteligibilidade ou enunciabilidade dessas leis. Assim como observa Bréhier a
propósito de Descartes. Ele se concede apenas uma idéia clara e distinta para
conhecer a essência da matéria, seu modo de ser intrínseco. Consultando essa
idéia, atingimos as propriedades que convém à matéria.
Essa essência não
corresponde a uma forma, a um ato assinalado que permite ver o ente como
substância individual, mas sim a uma ordem que permite compreender as causas
assim como a necessidade que rege o funcionamento fenomênico, mecânico. A
divisão se torna articulação. Não apenas há dois domínios irredutíveis, mas esse
domínio da matéria se articula internamente conforme leis que não fazem “corresponder”
mas “encadear”, esse encadeamento não ocorrendo entre tudo com tudo, mas apenas
nesse folheto determinado, nesse estrato físico ou botânico, por exemplo.
O ser não apenas se
encontra dividido, mas também articulado, folheado. A ciência empírica encontra
seu lugar, que só se concede por uma delimitação de seu domínio. Ora, a
evolução da ciência compreenderá doravante os capítulos da ascensão dessa
consciência de campo, de domínio e especialização. O século XVII abarca ainda,
quanto a isso, uma tentativa de assegurar uma inteligibilidade total,
instaurada através da inseparabilidade da metafísica com relação aos outros
ramos do saber. Mas essas tentativas se tornam cada vez mais conscientes do
problema que encerram. Assim, se a questão do cartesianismo é a conciliação
metafísica de matéria e espírito numa união assegurada que, contudo, supõe um
conhecimento fisiológico, Spinoza deve compor uma teoria da existência como exterioridade
radical, de modo que as leis que regem as relações materiais e suas combinações
não podem ser deduzidas nem mesmo das essências dos modos, mas dependem, ao que
parece, apenas do estudo empírico dos corpos.
E a essas dobras da
matéria se acompanha uma diferenciação no espírito. Alma, potência de pensar,
mas ao mesmo tempo dobrada entre sua relação com o corpo e sua essência eterna,
já anunciando assim algo da forma vazia entre o empírico e o transcendental
que, no entanto, ainda não pôde se presentificar.
Ora, essa
impossibilidade corresponde ao “cheio”, ao “pleno” do quadro, opondo-se à fenda
que deverá desdobra o tabuleiro. Essa metáfora do tabuleiro, como do jogo,
deriva de Nietzsche, que por sua vez o utiliza de Heráclito. Trata-se da
constelação conceitual que se organiza em torno do lance de dados. Aqui
interessa reter dessa multiplicidade, que deveremos observar mais
oportunamente, o fato de que os dados, aos serem lançados, na imagem do
nietzcheísmo, fendem o tabuleiro que se duplica, acaso e necessidade.
Isso no contexto do
século XVII é impensável. O “ou” conserva a unidade como outro da dualidade,
não sua verdade mais íntima como afirmação do múltiplo. Contudo, se há algo que
pudesse vir a lançar alguma dúvida sobre isso, esse algo seria a filosofia de
Leibniz. Poder-se-ia entrever a fenda, a duplicação do tabuleiro, nessa ambiguidade
que Pividal soube tão bem entrever no leibnizianismo por ele concebido como um
racionalismo que atinge o paradoxo. Assim também Deleuze afirma o pensamento de
Leibniz já como uma filosofia transcendental interessando-se mais pelo
acontecimento do que pelo fenômeno. Ao invés do condicionamento kantiano, uma
dupla operação de atualização e de realização transcendentais, animismo e
materialismo.
Contudo, penso que
ainda assim esse caráter articulado do todo partido garante a unidade do
tabuleiro anteriormente a Kant. Ninguém melhor que Spinoza enunciou a teoria
dessa articulação. Algo que Balibar soube constatar da perspectiva espinozista
a propósito da relação entre os atributos e os modos, aí onde se revela,
conforme ele, o alcance do “materialismo” de Spinoza. Pois se opõe
rigorosamente, na Ética, os efeitos de cada atributo, os modos ou formas
singulares, e a essência do atributo em que consistem e que permite conhecê-los.
Com efeito, Balibar
compara o atributo, do espinozismo, com a esrutura de uma
instância relativamente autônoma, do marxismo. Assim como a distinção dos
atributos em Spinoza suprime a teoria cartesiana do sujeito psicofísico
juntamente com o problema do seu centramento, união alma-corpo ou
individualidade, a distinção marxista das instâncias na sociedade e as relações
sociais que constituem sua estrutura suprime o problema do homem como suporte
comum de todas as relações sociais, assim como o de sua individualidade (Lire
le capital, 250 – 1).
Já em A Nervura do
Real, Chauí evidenciou o sentido estrutural da expressão em Spinoza, sentido
manifesto na significação do constituir. A estrutura é esse movimento de
pertença intrínseca que, possuindo em si mesma o princípio de sua
inteligibilidade, assegura a ordem de co-presença expressiva dos seus
constituintes. Assim, se o ser absolutamente infinito é uma estrutura
infinitamente complexa, como uma unidade de constituintes expressivos, ao mesmo
tempo se tem afirmada a heterogeneidade real desses constituintes.
Essa atualidade de
Spinoza, e mesmo a de Leibniz, testemunha a deriva, o caráter de ser em
desenvolvimento, desde a quebra da visão do mundo como todo-uno, até aquilo que
o sucesso da teoria da gravitação de Newton favorecerá sobremaneira, a saber, a
atomização desse caráter articulado em instâncias rigorosamente autônomas, o
que já se pode observar desde as décadas iniciais do século XVIII, conforme
Bréhier, onde se assiste o abandono geral da física de Descartes, onipresente
no século XVII através dos trabalhos de Rohault, em favor da física de Newton.
Mas observando de
perto essa transição compreendemos a pertença, mesmo de Spinoza e Leibniz, a
esse espaço clássico que Newton contribuirá para deslocar no sentido
foucaultiano “moderno”. Pois a articulação do todo, assim como a convergência
das séries em Deus, Spinoza e Leibniz, respondem a uma exigência que se enuncia
plenamente na física cartesiana. Não se poderia assim pensar um fenômeno
isolado, como a gravitação, explicando-o por suas leis internas sem que essas
leis mecânicas fossem elas mesmas explicadas pela gênese da matéria.
Em outros termos, a
razão de ser do mecanismo local só pode ser concebida como expressão local do
mecanismo que é o da matéria em geral. Não se poderia, pois, humildemente, como
Newton, querer explicar a atração recíproca das massas sem explicar
anteriormente a constituição da origem giratória do sistema solar – isso,
precisamente que havia sido, conforme o astrônomo Faye citado por Bréhier,
objeto da renúncia de Newton.
Mais, não se poderia
epistemologicamente dispensar a metafísica, pois só através dela se teria a
compreensão da legitimidade do discurso da física, naquilo em que a metafísica
esclarece o vínculo entre essência e existência, fornecendo ao mesmo tempo o
como e o porquê do conhecer. É´ nesse sentido que a cosmo-antropologia que se
desenvolve sempre no contexto de uma concepção de universo como todo-uno – o
homem microcosmos – foi substituída desde Descartes por uma antropologia
metafísico-epistemológica que esclarece ao mesmo tempo a metafísica e a física,
o discurso sobre o conhecimento e a moral.
Ora, no momento em
que esse todo partido e articulado se pulveriza sob a física de Newton, dando
lugar a um conjunto de explicações autônomas sobre fenômenos desligados uns dos
outros, a antropologia se revestirá de uma vocação epistemológica, mas em um
sentido completamente outro, relativamente ao período cartesiano. Com efeito,
ela será marcada pela influência de Locke, consistindo numa pesquisa das
relações entre as idéias, sim, mas sem supor qualquer pré-determinação da
essência, no sentido de que por esse meio se pudesse garantir todo o saber.
Inversamente, com Hume, trata-se de começar pela quebra da causalidade enquanto
nexo de inteligibilidade “racional”, isto é, comum às idéias e às coisas.
Estou tratando agora
por “antropologia” aquilo que venho designando “pensamento humano”. O que
ocorre precisamente é que nesse cenário epistemologicamente atomizado o pensamento
humano se torna ciência humana, incluindo o nascimento da sociologia e da
antropologia, da psicologia e da linguística, mais a constituição das ciências
da natureza a partir dos objetos que as caracterizam, pelo menos formalmente,
até a atualidade.
Portanto, na
ambiência do espinozismo estamos lidando ainda com esse pensamento do ser
humano que permite reunir, como notou |Manola Antonioli, as problemáticas
ontológica e prática. Uma vez que é a partir da categoria de expressão que se
desenvolve essa filosofia da univocidade e da imanência que é o espinozismo,
importa ressaltar que se o contexto clássico fornece a inserção do pensamento
de Spinoza naquilo que o embasa enquanto visão de mundo, ele não limita o
alcance produtivo do seu movimento conceitual.
Assim temos, por um
lado, a invenção de conceitos que têm seu alcance e importância avaliáveis por
seu poder de enunciar ou iluminar as próprias condições de enunciabilidade de
uma época – é o caso, creio, da noção de quantidade intensiva que será
importante na teoria dos modos do espinozismo. Mas também a visão de relações
que se enunciam por conceitos “novos” em um outro sentido, aquele que embasa
novos meios de inteligibilidade mesma – o que ocorre a propósito do exemplo de
Balibar, relativamente a Spinoza.
O que nos fornece uma
via de aproximação a esse domínio da re-expressão que o pensamento de Spinoza
desenvolve como teoria do modo finito.
Do Infinito ao Finito
Na esquematização dos
movimentos do livro I da Ética, Chauí institui uma partição básica entre aquele
que visa a essência do absoluto (desde a proposição I) e aquele que visa a
potência absoluta (desde a proposição 17). Quanto a Deleuze, sua esquematização
se estabelece por temas. Iniciando com as oito proposições que afirmam a unidade
substancial, o plano abrange as proposições 9 a 14, que estabelecem a
pluralidade dos atributos, concluindo desde a proposição 15, com a
produtividade imanente ou potência, isto é, tratando da natureza dos modos.
O importante é
observar que, independente do critério pelo qual se propõem as partições da
Ética, há a necessidade de situar a produção como realidade da potência, desde
a proposição XVII, Chauí fornecendo o detalhe da apresentação das naturezas
Naturante (substância e atributos, proposições 17 a 20) e Naturada (modos
finitos e infinitos, proposições 21 a 29).
Ou seja, trata-se de,
a partir daquilo que se estabelece como fundamento da filosofia de Spinoza, a
saber, como observa Chauí, a identidade da causa de si (causa sui) e da causa
imanente (causa immanens), compreender a realidade modal como efeito necessário
da existência ou maneira de ser da substância.
Esse laço de
necessidade permite avaliar a originalidade e a atualidade de Spinoza. Pois da
causa ao efeito, é nada menos que a estrutura que se enuncia como princípio de
inteligibilidade, aquilo mesmo que fazia toda a novidade epistemológica do
pensamento social e econômico de Marx, conforme o Lire le capital.
Creio que se pode bem
compreender o que está em jogo através de um paralelo com o Descartes
apresentado por Beyssade (Chatelet, histoire de la philosophie, III). Pois o
cerne da oposição Descartes-Spinoza pode ser situado por essa afirmação de
Beyssade: para Descartes, a vontade de Deus não está subordinada ao seu
entendimento. Assim, ao desenvolver o itinerário da dúvida, Beyssade nota que
ela só se torna metafísica quando atinge o pensamento metódico mesmo, isto é, o
próprio âmbito do inteligível, as verdades matemáticas,. Mas isso só se torna
exequível pela hipótese do Deus falseador, esse Deus que, por sua vez, só se
torna concebível se nele vontade e entendimento não coincidem absolutamente.
Deus pode querer
induzir à crença no que não é o seu pensamento real, nessa hipótese. Por
exemplo, como é em seu pensamento que se instituem a idéia do que existe, ele
pode porém induzir a crer que o que existe não existe, ou que existe de outro
modo daquele que é. O conceito de Deus ultrapassa aquilo mesmo que ele
assegura, a necessidade racional.
O que me parece
crucial quanto a isso é a relação que se está negando entre o entendimento e a
vontade, isto é, a subordinação. Ocorre algo similar com Leibniz, pois a
liberdade em Deus se depreende dessa mesma negação, Deus podendo escolher, por
vontade , independente do que concebe como possível pelo entendimento.
Ora, o que faz a
originalidade do espinozismo não está no afirmar o que os outros negam. Mas sim
em estabelecer de outro modo essa relação. O entendimento e a vontade de Deus
não podem ser estabelecidos, subordinando-os ou não, sem ser por relação ao que
se compreende como sendo a sua essência. Mas por esse meio é a potência de Deus
que se deve explicitar para que se possa compreender a natureza da relação
entre esses dois termos.
Questões como
liberdade, individualidade e contingência, só podem ser tratadas a partir do
esclarecimento sobre a potência de Deus que se estabelece como conceito limiar
entre o infinito e o finito, entre Deus com seus atributos e o mundo com sua
realidade modal.
Assim, antes de
interrogar o trecho correspondente à potência já integrada à natureza dos
modos, da Ética, será conveniente observar o que Chauí designa como os
prolegômenos às substâncias e aos modos, o capítulo II dos Pensamentos
Metafísicos, aí onde se trata de explicar o ser da essência, da existência, da
idéia e da potência.
Nesse mesmo lugar em
que Spinoza expõe o pensamento cartesiano (“Princípios da filosofia cartesiana”),
prometendo não se afastar de suas premissas ou introduzir sua própria
perspectiva, ele anexa os “Pensamentos Metafísicos”, apêndice que na realidade
só aprofunda o afastamento de Spinoza com relação a Descartes, ainda que pareça
estar apenas utilizando a terminologia cartesiana para refutar o
escolasticismo, conforme Chauí (Col. Pens. Nota acrescentada ao título “Pensamentos
Metafísicos).
Nos “Pensamentos”
Spinoza opera as seguintes conclusões do que se estabeleceu nos “Princípios”(NR,
2, 3.3): a) de que Deus contém eminentemente o que é encontrado formalmente nas
criaturas se conclui que o ser da essência é a maneira das coisas estarem
formalmente compreendidas nos atributos de Deus; b) de que Deus conhece a si
mesmo e a todas as outras coisas, tendo-as todas em si objetivamente, se
conclui que o ser da idéia é a maneira como todas as coisas estão objetivamente
contidas na idéia de Deus; e c) de que Deus é a causa de todas as coisas porque
opera pela absoluta liberdade de sua vontade, se conclui que o ser da potência
é a livre vontade de Deus que cria o que antes não existia, e que o ser da
existência é a essência das coisas depois de criadas por Deus.
Aquilo em que a
terminologia do “criar” se conserva ainda, sua conotação contingente, isto é,
sua associação com a atualização de um possível ou com o surgimento a partir do
nada, se anula na subsequente identificação desses termos a definir em Deus,
preservando-se sua distinção apenas nas coisas “criadas”.
Nesse âmbito a
essência se distingue da idéia, pois se mantém fora do intelecto enquanto esta
só existe nele. A essência se opõe à existência porque o que existe fora do
intelecto depende exclusivamente da essência de Deus, na qual está contida, não
sendo por si nem criada.
Se a identificação
dos termos em Deus não foi precedentemente demonstrada, isto se deve a uma
espécie de procedimento a posteriori, como se somente a partir da natureza das
coisas se pudesse deduzir o ser de Deus. Em todo caso o que me parece notável
nesse contexto corresponde a esse não ser por si nem ser criado, pois refuta-se
assim teses caras ao criacionismo como também se esclarece algo da relação
entre essência e existência.
Com efeito, como
demonstra Chauí, não ser por si estabelece que a essência depende de uma causa
para existir, mas sua independência da existência não a reduz a um inexistente
ou a um possível. Não ser criada se relaciona a que os atributos de Deus a
compreendem formalmente, m outros termos, a essência tem um ser fora do
intelecto porque depende exclusivamente da essência de Deus, estando
compreendida em seus atributos. As essências são, pois, eternas, assim como
Deus é eterno, estando excluída a hipótese de uma criação do nada. Vontade e
intelecto de Deus são idênticos à sua essência.
“Criar”, no contexto
dos Pensamentos Metafísicos, significa exclusivamente ser causa eficiente de.
Assim, a propósito da relação entre essência e existência, percebe-se que há
uma cisão entre a identidade absoluta de ambas em Deus, e ao mesmo tempo um
intervalo entre elas, nas coisas. A essência depende de algo para existir,
assim como aquilo de que ela é essência, o modo, pode existir ou não.
Assim, a identificação
dos termos – essência e existência, idéia e potência – em Deus, já permite
situar o deslocamento decisivo por relação ao tomismo escolástico: a existência
não se supõe como acrescentada de modo contingente à essência, sendo correlata
de modo imediato apenas ao puro ato de ser que é Deus, mas, inversamente, uma
vez que se pode afirmar que Deus é, necessariamente ele possui uma essência que
compreende quaisquer essências. A relação aqui é de intrínseco ou interior a
extrínseco ou exterior.
A relação entre a
essência de Deus e a essência das coisas é intrínseca. A existência da essência
enquanto tal é intrinsecamente estabelecida pela existência mesma de Deus. Mas
a existência daquilo de que ela é essência se define pela própria essência na
exterioridade de Deus. O exemplo de Spinoza quanto a isso é o do escultor que
concebe numa certa ordem uma estátua e exibe depois a exibe concretamente
realizada.
É ´ particularmente
interessante esse exemplo, pois ele se joga do mesmo modo irônico que toda a
argumentação, bordejando as formulações tradicionais, mas desviando os
resultados, criacionista e analógico. Esse exemplo, com efeito, costuma ser
associado à quádrupla fundação causal. Ora, vimos que Spinoza está instituindo
justamente a unicidade da causa eficiente enquanto originária. Assim ele o
emprega apenas no sentido de mostrar que na coisa produzida a essência se
mostra por si, mas em si mesma as essências estão envolvidas na essência de
Deus. Não se pode propor, nesse caso, uma diferença entre o agir modelador do
artista, a idéia que ele formou da coisa que está modelando, e a finalidade
pela qual ele criou a estátua.
A idéia de Deus
contém as idéias das coisas naquilo em que Deus pensa e se conhece. Mas a
existência de Deus, sendo idêntica à sua essência, tem por correlato tudo o que
essa essência implica, tanto as essências das coisas quanto a existência do
mundo, ainda que não exatamente da mesma maneira. Em todo caso, não há uma
relação de subordinação em Deus, do intelecto à vontade, mas tampouco o inverso,
da vontade ao intelecto. O que ocorre é uma relação de consequência
estabelecida a partir da natureza de Deus, relação articulada enquanto
inteligibilidade ou Ordem da Natureza, comunidade em Deus de todas as
essências.
A tradição costuma
falar de “vontade” no sentido do “poder” ou do “fazer” – a vontade pensada ao
modo do arbítrio é precisamente o que conduz ou não do poder ao fazer. O que
Spinoza institui, porém é a absoluta identidade do poder e do fazer em Deus. A
ordem da natureza exclui que Deus pudesse mudar uma só coisa sem mudar todas as
outras.
A originalidade do
espinozismo se afirma assim. Contudo, sua novidade parece não ter se construído
facilmente. Estabelecer o vínculo que articula Natureza Naturante e Natureza
Naturada, ou a passagem do infinito ao finito, é algo que deve envolver ao
mesmo tempo a ordem da natureza como sistema das essências ou sua comunidade em
Deus, mas também a sua singularidade, a sua realidade física, como conceitua
Spinoza. O que envolve a questão da existência dos modos, já que, não
exatamente como se pode assegurar a identidade entre essência e existência em
Deus, ou como se pode assegurar a existência das essências das coisas em Deus,
a existência daquilo de que a essência é essência enuncia o intervalo entre o ser
por si da substância e o ser em outro dos modos.
Não só o problema da
existência dos modos, mas também o do ser singular da essência, já que na ordem
da natureza as essências formam um conjunto, compreendendo-se todas na essência
de Deus: como se poderia discernir uma essência nesse todo em que ela se
encontra como que envolvida? Ou ainda, o problema do modo inexistente. Como se
poderia compreender sua individualidade se ele não se distingue na existência e
permanece contido no atributo, logo, podendo ser dado como indiferenciado?
Ora, Deleuze mostra
que Spinoza não parece ter desde o início a colocação precisa desses problemas,
nem sua solução. Assim, o Tratado Breve parece portar a individuação do modo
apenas pela existência, o modo que corresponde a algo que não existe não
podendo ser conceitualmente distinto do atributo correspondente. Nesse sentido,
ao mesmo tempo em que a distinção de essência e existência parece se fundar
pela oposição do intrínseco e do extrínseco, a singularidade do modo se afirma
como existência enquanto parte extrínseca do atributo, e exterior a todas as
outras partes.
Contudo, essa solução
não parece suficiente. A solução amadurecida, conforme Deleuze, é aquela que
retoma uma noção de Duns Scottus, a variação intensiva. Os graus de intensidade
são determinações intrínsecas, mas ao mesmo tempo quantitativa – pode-se
exemplificar em termos de graus de temperatura, de cor, etc. O ser finito
exprime o absoluto como variação de intensidade, grau de potência.
Os atributos, como
vimos, são formas de ser comuns às criaturas e a Deus, aos modos e à
substância. Mas afirmar que a essência das coisas está contida na essência de
Deus não significa identidade simples entre a maneira de existir de Deus e dos
entes. Os atributos constituem a essência da substância, mas compreendem a
essência dos modos. Os modos implicam o atributo em sua própria essência, uma
vez que aquilo que os atributos exprimem são qualidades ilimitadas. Os
atributos são expressões unívocas constitutivas da Natureza Naturante e
envolvidas na Natureza Naturada que os re-exprime.
Ora, enquanto
qualidade o atributo é indivisível. Mas cada atributo-qualidade tem uma
quantidade infinita, ou matéria, somente modal. Novamente se propõe uma
distinção não-real, agora exclusivamente modal.
Todo atributo possui
essa quantidade intensiva infinita que explica a singularidade intrínseca ou
intensiva dos modos. Mas possui também uma quantidade infinita extensiva que se
prolonga nos corpos simples, partições modais extensivas últimas.
A quantidade
intensiva (infinito pela causa) forma o sistema ou complicação das essências,
que por esse meio se podem compreender já singularizadas. O infinito não se põe
com relação ao finito como a espécie e o indivíduo, o geral e o particular. O
finito deriva do infinito como a quantidade intensiva da qualidade infinita.
Mas nessa esfera do
finito, entre a essência e a existência há como que um outro domínio de
inteligibilidade, aquele em que se registra o salto do ser por si ao ser em
outro. Assim, a existência do modo que não é por si tem por causa a existência
de outro modo, ao infinito, de maneira que a existência atual do modo depende
de ser composto por um grande número de partes extensivas (infinito pelo
número). A relação aqui é puramente extrínseca. Não que esse infinito se
restrinja ao atributo extensão. O infinito extensivo das partes é possuído,
tanto quanto a qualidade infinita ou infinito intensivo, por todos os atributos
que asseguram assim a existência essencial e modal. Por exemplo, o pensamento
composto, no limite, por idéias como partes absolutamente simples. Em outros
termos, o limiar da substância aos modos compreende, juntamente com a noção de
potência, a delimitação desses dois infinitos como propriedades dos atributos.
As partes extensivas
entram em relação e correspondência com uma intensidade modal – relação entre
as duas ordens de infinito. As partes dos modos existentes assim constituídos
agem extrinsecamente, exteriormente, umas em relação às outras. Compreende-se
assim que nesse mundo da exterioridade, algo do fortuito se reintroduz, sem
contradição, nesse universo necessário. A concepção de Spinoza a propósito da
esfera modal será efetivamente a fundação ontológica de uma ética.
Estrutura,
Causalidade e Finitude
A ordem e a conexão
das idéias é a mesma que aquela que se verifica entre as coisas. Se isso não
quer dizer que entre idéia e coisa a relação é de representação, como se a
verdade da idéia fosse apenas a imagem efetiva da coisa, ou mesmo de
correspondência, como se a realidade da idéia se devesse apenas à realidade da
coisa, creio que se pode falar de causalidade estrutural no âmbito do
espinozismo.
Em A Nervura do
Real Chauí evidencia a relação entre as idéias e as coisas do seguinte
modo: pode-se afirmar que essa relação é de correspondência, entendendo-se
porém esse termo não como se fosse fundado por uma operação intelectual, ou
decorrente de uma propriedade da coisa agindo sobre o intelecto, mas sim como
fundando-se na atividade causal da substância que produz a identidade das
conexões em cada plano modal, mantendo a irredutibilidade de sua natureza.
Ora, as consequências
dessa conexão poderão ser bem observadas quando se tratar da teoria do
conhecimento. Aqui o que desejo enfatizar é o que torna surpreendente essa
causalidade substancial, e que se expressa convenientemente com Bréhier: se
considerarmos um modo finito, não se verifica imediatamente o que o relaciona à
essência eterna do atributo. A existência do modo, corpo ou idéia, encontra sua
razão em outros modos, ao infinito.
Bréhier reintroduz,
nesse nível do finito, a noção de possibilidade – o modo finito, inversamente
ao modo infinito e ao atributo que fruem eternamente a existência, seria assim,
existencialmente, apenas possível. Sem dúvida, Deus continua sendo a causa, mas
agora remota, já que a existência do modo finito não pode ser diretamente
deduzida da natureza do atributo. Contudo, há razões para indagar se essa
reintrodução é adequadamente atribuível a Spinoza.
Há muita coisa em
questão, quanto a isso. Algo a destacar inicialmente é o problema clássico da
relação entre Deus e a natureza no tocante à causalidade, ou seja: como
estabelecer a relação entre a vontade de Deus e as leis naturais?
As respostas que a
filosofia medieval apresentou, recenseadas por Chauí, consistem em: a) negar
qualquer causalidade natural e aceitar apenas a vontade de Deus como causa dos
acontecimentos, o que equivale a aceitar o milagre (Al-Ghazali, Ockham); b)
mostrar que, uma vez existindo as leis naturais (causas segundas), logicamente
devem atuar de modo independente da vontade de Deus, que no entanto as
instituiu com esse poder para agir com autonomia no plano em que se manifestam.
Assim se torna conveniente a terminologia do próximo e do remoto quanto às
causas, Deus mantendo-se em relação aos acontecimentos naturais como causa
remota e as leis da natureza atuando aí como causa próxima (Saint – Pourçain);
c) negar a inviabilidade lógica de uma co-existência entre ambas, tratando-se
de estabelecer uma coordenação ou supervisão ou colaboração da vontade de Deus
como potência absoluta e as leis naturais como sua potência ordenada, ambas
agindo, portanto, ao mesmo tempo. A potência absoluta cria, conserva, orienta e
fornece o poder para que a potência ordenada produza o seu efeito, podendo
porém intervir ainda sob a forma do milagre (São tomás, Molina, Boyle e, de
certo modo, Leibniz).
Ora, Spinoza,
inversamente ao que parece sugerir Bréhier, conforme Chauí, não subscreve
nenhuma dessas opções medievais. Sua posição quanto a isso consiste na
afirmação exclusiva das leis naturais, de que resulta relacionar contingência,
tanto quanto milagre, a uma provisória ignorância do nexo causal
necessariamente existente. Se Deus é sempre a causa, esta conserva-se imanente.
É especialmente
interessante enfatizar aqui a modulação da terminologia operada por Spinoza.
Causa livre, até aí, significava poder sobre as leis naturais, escolha entre
possíveis, intervenção arbitrária sobre o real. Ora, ao designar Deus como
causa livre, Spinoza está compreendendo o oposto, isto é, Deus o é porque “age
somente segundo as leis de sua natureza, sem ser coagido por ninguém”, conforme
a proposição 17 do De Deo (NR, 866).
E o que se segue da
natureza de Deus são as coisas particulares enquanto expressões dos atributos
de Deus, isto é, os modos pelos quais os atributos se exprimem de uma maneira
certa e determinada – escólio e corolário da proposição 25.
As coisas
particulares, porém, que são elas? Que é que se tornaram ao ser designadas como
expressões de algum atributo de Deus?
A resposta pode ser
enunciada conforme Deleuze: qualquer coisa, corpo ou alma, se define como um
certo poder de ser afetado. Essa expressão, com efeito, desempenha uma função
axial no expinozismo, cuja relevância se manifesta sobremaneira quando se trata
de compreender as relações entre as naturezas naturante e naturada.
A expressão “poder de
ser afetado” tem como correlato o termo “affectio” que, como Deleuze mostrou no
Curso de Vincennes, não deve ser traduzido por afeto – que corresponde
outrossim a affectus – mas por “afecção”. A potência, que é sempre potência de
existir, tem como correlato o poder de ser afetado, a afecção.
Quanto maior a
potência, maior o poder de ser afetado, maior, portanto, a variedade de
afecções a que um ser é apto. Esse poder nunca deixa de ser efetuado.
Ora, a afecção pode
ser ativa ou passiva. Ela é passiva quando o poder se preenche por causas
exteriores, ativa quando o preenchimento das afecções se explica pela natureza
mesma do ente.
A variedade ou
pluralidade de afecções que um modo apresenta essencialmente é, por isso mesmo,
constante. Mas tanto quanto uma variedade, à essência como potência corresponde
uma variação. Em SPE a variação é visada principalmente na perspectiva do
passivo e do ativo: a força de existir aumenta conforme a proporção de nossas
afecções ativas. Já no Curso de Vincennes Deleuze enfatiza a variação mais como
o que permite avaliar a irredutibilidade entre os termos affecto e affectio,
pois se a afecção é sempre variedade do poder de ser afetado, o afeto é a
variação da potência de existir que se deve às idéias que possuímos. Nossa
potência aumenta se pensamos naquilo que nos alegra, e essa idéia que é
transição vivida, ao invés de uma simples representação mental da coisa, deriva
dos encontros fortuitos que realmente temos: por exemplo, somos afetados de
tristeza se encontramos alguém que nos é antipático, de alegria se encontramos
alguém com quem simpatizamos.
Nossa potência varia,
nunca cessa de variar. Se no Curso de Vincennes a variação está se analisando
mais conforme as possibilidades da paixão ser triste ou alegre, no SPE ela é
apresentada conforme o poder se preenche por uma paixão ou por uma ação. Ora, a
substância, sendo potência absolutamente infinita de existir, corresponde o
poder de ser afetado por infinitos meios. Mas ao preenchimento desse poder na
substância só podem corresponder afecções ativas, logo, nenhuma paixão.
A potência de Deus é
ato, mas o que dela decorre são esses meios ou modos. O modo é potência por
relação à substância, um grau de potência, uma afecção ativa da substância, uma
quantidade de poder, enquanto que a substância é absolutamente infinita. À
limitação do modo corresponde o seu lote de paixões, como as leis que regem a
relação de sua essência com a atualidade de sua existência. À infinitude da
substância corresponde a multiplicidade igualmente infinita de suas
ações-afecções.
Assim compreender
essa limitação nos fornece o acesso à natureza naturada e ao desenvolvimento
das questões envolvendo possibilidade, causalidade, lei e contingência. Essas
questões se imbricam nesse paradoxo aparente que poderia ser lançado como
objeção ao espinozismo, e mesmo objeções, pois conforme as maneiras pelas quais
se o interprete, pode-se acusar o sistema de Spinoza de incorrer nas faltas
mais contraditórias.
O paradoxo aparente
consiste em que ao poder de ser afetado de uma infinidade de maneiras, que é o
da substância como potência absolutamente infinita de existir (ens realisimun
existente por si), corresponde o necessário preenchimento por afecções de que a
substância mesma é causa ativa. Ora, a consequência aqui é a necessidade que a
substância tem de produzir uma infinidade de coisas, de maneira que essa
produção não apenas conduz aos modos, mas se aplica ou se comunica aos modos
mesmos, permitindo explicar o que eles são, isto é, sua natureza potencial, e a
maneira como agem ou existem.
No entanto, se não há
lugar para o acaso nesse modo de produção da substância, o nível dos modos é o
lugar dos encontros, do fortuito. Se a substância é eternidade,
inteligibilidade, igualdade consigo mesma, o modo pode existir ou não, os
encontros não são todos bons, a potência é variável, as idéias que temos não
são todas adequadas, e o ser humano, pelas condições que o cercam, está mesmo a
princípio mais propenso ao erro do que ao acerto.
Assim, ora se pode
interpretar esse paradoxo aparente no sentido de que o famoso necessitarismo de
Spinoza encerra um contra-senso, ora de que por esse meio Deus mesmo está
sujeito a tudo o que decorre do fortuito – e se há uma guerra, opõe-se Deus na
forma de alguns a Deus mesmo na forma de outros. Que resta da propalada
revolução do espinozismo, se sua concepção da existência do modo na duração não
só permite reintroduzir a possibilidade quanto a causalidade externa e mesmo a
concepção do ente como uma deficiência do ser, conforme afirma Bréhier?
Mas se Deleuze está
certo ao afirmar que em Spinoza todo possível é necessário e toda relação é
efetuada como necessidade da natureza, como compreender o caráter apenas
aparente do paradoxo? E, o mais notável, como propor uma ética da potência se
assim, como que por definição, só se poderia postular a cada um o seu prazer,
independente de tudo e de todos os demais? Responder a essas questões parece-me
uma aproximação da resposta à indagação mais fundamental: que é isto, o
espinozismo?
Creio que se poderia
bem responder afirmando que aquilo em que o espinozismo se enuncia como
compreensão da natureza, ele se revela como compreensão da existência, e isso
de maneira a conduzir de modo certo à vida como valor supremo. O espinozismo
não ensina a compreender a natureza ou existência sem que isso venha equivaler
ao amor e à valorização de todas as manifestações da vida.
Sendo o modo uma
maneira de ser da substância, os entes são modos do ser. A ontologia se torna
topográfica, a paisagem a descrever só podendo, nesse caso, exigir uma
linguagem que é etologia. Mas essa onto-etologia não pode deixar de se fazer
como uma ética.
Vimos que o “direito
natural” pré-hobbesiano procedia pelo postulado da essência como definição do
ser, buscando a mediação ou competência para enunciar a essência na figura da
autoridade, sábio ou sacerdote que assim se atribuía o conhecimento do acesso à
realização do ser. Ora, o espinozismo, ao identificar a essência e a potência,
possui uma crítica acerba da essência como universal, definição comum de uma
classe de coisas, por exemplo, “o” homem.
O que a essência como
potência significa é o ser mesmo daquilo de que ela é essência, isto é, o modo
de ser como grau de potência. Assim a essência é singular, nunca universal. O
universal é apenas uma idéia confusa, não adequada à realidade da essência, e
nesse sentido será melhor postular uma ética da potência, para evitar a confusão
com as teses do direito natural que envolvem a moral através da essência como
universal.
Afirmar a
singularidade como grau da potência é transformar todo o domínio do pensar,
abandonando o procedimento da representação, como se pensar fosse decalcar, através
de idéias gerais, formas últimas a que todo o singular devesse ser reduzido,
reatando a moral como tarefa de purificar o que em cada ser humano permanece “acidental”
, ou seja, irredutível ao geral.
Mas abandonar esse
procedimento equivale a penetrar no âmbito do adequado, aí onde o pensar se
torna existencial e apto a apreender a realidade do singular. Aqui Spinoza
opera uma reversão formidável, pois até então a inteligibilidade era o
argumento pelo qual se postulava a necessidade mesma de proceder pelo
universal, o particular sendo o domínio do contingente, do amorfo, do mutante,
logo, do que não podia ser objeto de um discurso racional.
Agora Spinoza está
postulando e solidamente estabelecendo o oposto: é o universal o domínio do
confuso, do inadequado, sendo o singular apreensão adequada ou inteligibilidade
efetiva do real, não somente como um modo “nosso” de proceder, mas sim
co-extensividade do real e do conhecimento. O grau de potência é modo de
existência, da existência eterna da substância. Conforme Deleuze, pode-se
afirmar que o espinozismo é um existencialismo, mas não um niilismo.
A tarefa da moral
deixa de ser o julgamento – de si mesmo e dos outros – tendo como critério um
universal de que os entes ora se afastam e devem ser condenados, ora se
aproximam e devem ser aprovados. Não se pode manter tal procedimento uma vez
tendo-se afastado a crença no universal e instaurado a compreensão do singular.
A tarefa ética se torna então impossibilitada como um discurso geral sobre o
dever-ser abstrato de uma classe tomada como um todo igual.
O que a ética pode
empreender, porém, tem seu alcance ampliado, ao invés de restringido. Assim ela
se torna uma arte dos encontros, envolvendo o conhecimento da natureza. Mas com
isso ela envolve: a) os meios desse conhecimento do singular, o que a
relaciona, por meio da ontologia, à epistemologia, ao mesmo tempo como acesso
aos domínios especializados das ciências e compreensão de sua inteligibilidade;
b) o critério da ação, que a relaciona à política e à sociedade; e c) um método
de alcance da felicidade (Beatitude), o que a caracteriza como uma filosofia
prática mas que, curiosamente, repõe o alcance, agora ampliado, da
epistemologia.
Quanto ao
conhecimento do singular, a tarefa ética pressupõe o traçado de um mapa da
potência. Isso envolve a observação empírica, logo, o domínio especializado do
conhecimento científico, mas não sem deslocar profundamente o seu visar. O que
o corpo pode? Assim, do ponto de vista quantitativo, cabe avaliar as afecções
que pertencem ao singular. Logo, não se compreende o ser vivo por sua forma ou
seus órgãos, mas por seus afetos. Quanto a isso, Deleuze observa que mesmo
havendo constantes que poderiam ser relacionadas com o que se conceituava em
termos de “espécie”, na verdade pode-se constatar que esse e aquele indivíduo
que pertenceriam a “espécies” diversas, possuem mais em comum do que ambos
relativamente a outros de sua própria “espécie”, do ponto de vista do que os
afeta: um indivíduo não pode o que outro pode, ainda que ambos de uma mesma “espécie”.
Assim, há mais oposição entre um cavalo de trabalho e um cavalo de corrida do
que entre um cavalo de trabalho e um boi.
Não há, pois, uma
definição de princípio que serviria para substituir a tarefa do traçado desse
mapa. Não haveria tampouco uma autoridade que possuísse a competência de julgar
sobre tudo o que outro ser humano pode, sem ser esse outro. Só a experiência
fornece o conhecimento e, como afirma Deleuze, no limite é preciso sentir para
saber.
O conhecimento do
singular que decorre do traçado dos mapas compreende as leis da natureza. Vimos
que do ponto de vista da essência, sua existência é necessária por se
relacionar à existência mesma da substância. Mas do ponto de vista daquilo de
que ela é essência, ou seja, do modo, a existência não decorre necessariamente.
A existência modal depende de partes extensivas que se determinam umas às
outras, exteriormente, ao infinito. As partes extensivas também se designam corpos
simples que atuam por leis puramente mecânicas no âmbito do infinito
extensivo que não pertence menos ao atributo que o infinito intensivo que
singulariza formalmente os modos do ponto de vista da intensidade, conforme
vimos anteriormente.
Quando o modo entra
na existência, a essência se torna determinada como conatus ou apetite,
tendência a perseverar na existência, a manter e renovar as partes que lhe
pertencem sob sua relação. O conatus da filosofia de Spinoza não deve ser
pensado como uma tendência a existir que pertenceria à essência, o que é
precisamente o caso do conceito metafísico de conatus em Leibniz Como em
Spinoza a essência não se põe como um possível, não se a conceitua por uma
deficiência mais uma tendência à suprir a deficiência, isto é, a existir. Mas
uma vez que ela existe, essa existência modal implica que a potência se
determina como apetite, tendência a perseverar na subsunção das partes
extrínsecas ou corpos simples sob sua relação.
Ora esses corpos
simples não são átomos. Os modos são compostos na existência atual por um
grande número de partes extrínsecas, mas estas não possuem essência distinta do
modo. São como conjuntos que se reúnem como atuações do infinito extensivo,
conforme leis mecânicas próprias a cada atributo. Partes infinitamente pequenas
atuais de um infinito ele mesmo atual. No caso da extensão, um modo passa a
existir desde que uma infinidade de partes entra sob uma certa relação de
movimento e repouso que corresponde exatamente à essência que assim se “atualiza”.
O corpo existe enquanto as partes se mantêm nessa mesma relação. A natureza
compõe na totalidade um quadro infinitamente mutável mas ao mesmo tempo eterno,
pois trata-se da constante composição e recomposição das partes que se afetam
sempre do exterior. Ao se alimentar, o ser humano decompõe a relação sob a qual
as partes extrínsecas formavam o modo do alimento, fazendo com que essas partes
integrem agora a sua relação.
Mas a natureza é
ordem, não caos, pois tanto as leis que compõem as relações internas à essência
quanto as leis que determinam extrinsecamente a existência atual do modo,
quanto ainda as leis que regem as relações entre os modos, são eternas e
imutáveis.
Em Mille Plateaux
(souvenirs à um spinoziste I e II,, p. 310 – 17) Deleuze desenvolve a
conceituação do mapa de afetos em termos de latitude e longitude. Sabemos que a
cada relação de movimento e repouso, velocidade e lentidão, que agrupa uma
infinidade de partes, corresponde um grau de potência. Assim às relações que
compõem, mudam ou decompõem um indivíduo, correspondem intensidades que o
afetam, diminuindo ou aumentando sua potência de agir. Os afetos são devires.
`A pergunta “que é que pode um corpo” corresponde, como resposta tanto os
afetos de que ele é capaz, conforme tal grau de potência (latitude, partes
intensivas sob uma capacidade), como a longitude, partes extensivas sob uma
certa relação. Tanto o que o corpo pode no sentido de quais são os seus afetos,
quanto como eles podem ou não se compor com outros afetos, com os afetos de
outros corpos – o mapa compreende, pois, as ações e as paixões que constituem
um modo de ser.
A partir desse
desdobramento do mapa, Deleuze-Guattari desenvolvem sua conceituação do devir e
do agenciamento. Os agenciamentos, o que pode esse modo singular, têm seu
limite pessimal, o que lhe é demasiado, intolerável, e seu limite ótimo, o que
lhe é conveniente, o que aumenta sua potência de agir. Mas que é um
devir-animal do ser humano? Consiste em fazer seus próprios elementos entrar em
relações de movimento e repouso, de afetos, que correspondem exatamente à do
animal (exemplo de Hans, o menino que devém cavalo). Não se trata de um
sentimento de identificação, ou de uma imitação, mas de uma mesma relação que
atualiza uma mesma intensidade independente das formas e dos sujeitos.
Participação-agenciamento, justamente o plano de composição ou plano da
natureza sendo o dessas participações como composição de velocidades e afetos
sobre o plano, a imanência. Assim Manola Antoniolli observa que aí onde Spinoza
emprega a palavra Deus ou Natureza, Deleuze utiliza o termo “Vida”, a que penso
que se poderia acrescentar, ou “Imanência”.
Quanto ao critério da
ação, aqui se poderia recolocar a questão: afinal, como é que essa ética não
seria apenas uma questão de gosto, de prazer e de poder pessoal?
Inicialmente é
preciso desfazer a confusão entre poder, vontade e potência. O mesmo vale para
Nietzsche. A potência não é o que se quer, é o que se é. Ter uma potência é ser
situado numa escala quantitativa de seres, mas não como numa escala hierárquica
e sim como elemento na “paisagem” da substância. Fazer da potência objeto da
vontade é um contra-senso, a vontade de potência de Nietzsche significando, bem
inversamente, que é conforme a potência que tenho que quero isto ou aquilo. O
poder do modo é isso que ele pode, paixão ou ação que preenche sua potência,
que, portanto, é sempre preenchida de uma maneira ou de outra, enquanto o modo
existe.
Quanto a isso,
Deleuze mostra que Spinoza desenvolve uma gama de conceitos que envolvem as
relações de poder e potência tanto do ponto de vista da substância quanto do
ponto de vista modal. Assim um mesmo poder de ser afetado (potestas)
corresponde à essência de Deus como potência (potentia), uma aptidão a ser
afetado (aptus) corresponde à essência do modo existente como grau de potência
(conatus). O conatus, como vimos, é tendência a perseverar na existência, mas
também a ampliar ao máximo a sua aptidão. Mas conserva-se uma elasticidade no
domínio desses termos, de modo que é comum aplicar potência e poder à
substância como também aos modos, e mesmo, entre os comentadores de Spinoza,
mantendo-se o fundamental, que é a identidade de essência e potência, há
registros do uso do termo “poder” nos entido de “potência”. O importante aqui é
conhecer os sentidos que Spinoza discerne, e com essa base, compreender pelo
contexto o que está sendo conotado em cada caso.
Ora, os entes entram
em relação através dos encontros. A relação pode resultar numa mudança, numa
composição ou na destruição. O vírus é destrutivo, o alimento é compositivo, do
ponto de vista do ser humano, mas é o inverso do ponto de vista do vírus ou do
modo que serve de alimento. O encontro pode ainda resultar numa composição dos
modos, uma associação. Nesse caso Spinoza propõe que enquanto dura a associação
é como se os dois corpos formassem juntos um terceiro corpo, mais potente. A
oposição de bom e mau só se mantém do ponto de vista do particular. Na
natureza, tomada como totalidade, só existe composições, pois todas as relações
servem para manter o todo.
Assim a ética vai
portar o seu critério, quanto às ações, dessa perspectiva da relação tendo por
crivo a Natureza como o todo. Supondo uma mesma ação destrutiva: erguer o
braço, desfechar um golpe. Mas num caso o móvel da ação é o desejo de vingança
por ter sido preterido. Ora, esse móvel é apenas a destruição por si mesma. Mas
em outro caso o móvel da ação é defender-se de uma agressão física. Aqui o
móvel, defender-se, não é a destruição, que não passa de um meio para manter-se
a si mesmo na existência. O móvel visa à composição.
O bom é composição, o
mau é decomposição, mas esses critérios nada têm de “bem” e “mal”,
universalmente afirmados, eles só podem valer tendo-se em vista a singularidade
dos modos. Na esfera da humanidade, a ação boa é sempre composição, mesmo que,
devido às circunstâncias, envolva a destruição. Uma ação será má quando seu
alvo for apenas, por princípio, destrutivo.
Fica bastante
evidente que visar a composição não significa apenas puro egoísmo. Assim, penso
que o roubo seria um exemplo apropriado para esclarecer esse ponto, assim como
a vingança. O roubo poderia ser visto como um aumento de poder às custas de uma
destruição como meio, do mesmo modo que a vingança, do ponto de vista de quem
se arroga esse direito. Mas a questão é: decorre dessa pretensão ser ela necessária
à existência de quem a está afirmando? Ninguém precisa se vingar para continuar
existindo, a não ser Orestes, mas nesse caso não seria “vingança” a palavra
apropriada, e sim “justiça”, inversamente ao que ocorre no caso de Nero, a quem
Spinoza condena veementemente. Quanto ao roubo, penso que ele só se torna
justificável no caso de penúria generalizada num meio de opressiva concentração
de renda. Mas nesse caso, é a propriedade o roubo, não a necessidade natural de
se alimentar.
Outro exemplo
aplicável ao que decorre desse critério é que Spinoza considera o ascetismo
algo eticamente condenável, enquanto se cuidar bem é eticamente correto.
O critério ético da
existência é, portanto, a existência mesma, a vida como valor supremo. Penso
que se poderia colocar a questão: mas não é esse um critério “universal”? Ora,
habitualmente o que se entende por universal é uma idéia geral aplicável a uma
classe ou uma totalidade de seres de modo que não subsiste a compreensão do que
neles é singular. Nesse caso, inversamente, o existencial só pode se
compreender por meio da singularidade. Há evidentemente um sentido pelo qual se
pode conservar a aplicação da existência como universal, algo comum a tudo o
que existe, mas seria preciso salientar o que nisso costuma esconder
contra-sensos que conduzem a falsos problemas.
O que fica bem claro
na maneira pela qual esse critério ético se estende ao tipo ótimo do ser
humano, que Spinoza, como Nietzsche, enunciam em termos do ser “forte” e “livre”,
opondo esse tipo ao “impotente” ou “escravo”. Ora, quem são esses “escravos”,
que é ser “forte”?
A resposta pode ser
algo surpreendente àqueles que pensam ser esse enunciado algo de tipo fascista,
como se por “forte” e “escravo” se estivesse visando ricos e pobres,ou os
socialmente destituídos por algum motivo e seus “senhores”. Pois alguém doente,
como Spinoza, ou alguém que vive à margem do poder político, um anônimo que
renuncia às honras do mundo, como Spinoza, podem bem ser esse “forte”. Ou
alguém são e que mantém responsabilidades públicas sem com isso tornar-se um
tirano. Mas o que há de comum entre um tirano que detém o poder político, um
escravo, um sacerdote que detém um poder social de tipo religioso? Todos são
impotentes, conforme Spinoza, com o detalhe pelo qual o escravo o é
circunstancialmente, ou exteriormente, os outros o são por princípio. Na
Grécia, a filosofia oferece exemplos de escravos interiormente bastante “livres”
e “fortes”.
O que define a
impotência real é a necessidade de aprisionar, entristecer a vida. O poder
social de que o impotentes se nutrem deriva da tristeza alheia. O riso malvado,
a cultura da tristeza, o niilismo. Trata-se sempre de julgar a vida a partir de
um ideal que se coloca como superior à vida, isso que Nietzsche designa,
precisamente, a má consciência: o julgamento moral que condena a natureza
humana, que diminui o ser humano, que pensa sua dignidade exclusivamente em
termos de servidão. O ser da má consciência é o que se designa um escravo, não
circunstancial ou exteriormente, mas um escravo por princípio. Doença do
niilismo, contagiosa. Todo “escravo” tem necessidade de destilar o seu
ressentimento contra a potência.
Assim o sentido da
frase de Nietzsche “é preciso defender os fortes” : não os fortes conforme a
escala invertida de valores, a escala da má consciência, mas os fortes conforme
a boa consciência, os seres humanos livres e potentes, que, parece não ser
preciso dizer, costumam ser o objeto do ódio desses “poderosos” impotentes. O
que se relaciona tanto a um pensamento social quanto ao que designei no item “c”:
como ser forte e livre, como aumentar a potência, como alcançar a Beatitude?
Quanto ao pensamento
social de Spinoza, vemos que ele conceitua a sociedade como um caso de
associação. Os seres humanos formam uma conjunção que aumenta sua potência, um
todo de potência superior a cada uma das partes. O plano de imanência é feito
de modo que cada ente é composto por entes menores e compõe um todo maior. A
partir de que sua filosofia política se aproxima de Hobbes: o Estado civil é Estado
de Razão, oposto ao “estado de natureza” no qual um não pode se garantir contra
a opressão de outro.
O pensamento político
do espinozismo é tributário de Hobbes, conforme Deleuze, quanto a esses dois
itens essenciais: tanto o fato de envolver uma ética da potência que rompe com
a tradição essencialista ciceroniana, como já observamos, quanto porque essa
ruptura envolve a substituição de uma atribuição de competência pela idéia de
um pacto de consentimento como fundamento do estado civil. Contudo, Spinoza se
mantém irredutível a Hobbes quanto ao modo de propor a formação desse
consentimento.
Assim, Hobbes postula
que pelo pacto os cidadãos renunciam ao seu direito natural que, entretanto, o
soberano mantém. O soberano conserva seu direito natural, ainda que sua “competência”
não derive de um conhecimento da essência mas se atribua como a tarefa de
garantir o estado de sociedade, o que compreende a renúncia do direito natural
dos próprios cidadãos que o fazem, porém, visando a segurança desse estado civil
que ao soberano é dado manter. Ora, Spinoza não crê que o pacto pressuponha a
renúncia do “direito natural” de cada cidadão. Assim, a filosofia política de
Hobbes se conceitua como uma relação hierárquica, em que alguém comanda e
alguém obedece.
Já a filosofia
política de Spinoza não pode se compreender separada de sua ontologia. O que
caracteriza essa ontologia, conforme Deleuze, é a recusa do Uno como superior
ao Ser, logo, a recusa de toda posição hierárquica no âmbito dos entes. O
Estado civil ou sociedade se conceitua apenas como o conjunto de meios pelos
quais os seres humanos podem efetuar sua potência, seu “direito natural” na
terminologia modulada de Spinoza, da melhor maneira. Inversamente a Hobbes, o
vínculo político não se conceitua como uma relação de obediência, que pode
intervir apenas como meio desse objetivo maior que é garantir a efetuação da
potência dos cidadãos.
O que Deleuze
sublinha quanto a isso é a correlação entre filosofia do um e o vínculo
político de obediência, assim como a correlação entre a filosofia do Ser-Igual,
como em Nietzsche e Spinoza, e a relação política como efetuação da potência. O
que é igual é que cada ente efetua o que pode sua potência, ainda que as
potências não sejam iguais. O ser se afirma igualmente de tudo o que é, todos
os seres se equivalem nisso pelo que todos se esforçam para perseverar em seu
ser, o que não impede que haja diferenças entre eles.
Quanto ao regime que
mais convém a esse vínculo não-hierárquico, Deleuze registra ao mesmo tempo uma
evolução e uma hesitação no pensamento de Spinoza, o que se relaciona com a
situação holandesa do século XVII. Assim, inicialmente Spinoza é adepto da
monarquia liberal, o que se depreende do Tratado Teológico-Político, mas
após a instauração da dominação da casa de Orange, já no Tratado Político,
parece não mais sustentar efetivamente essa concepção e destacar o tema da
democracia. Contudo, o Tratado Político ficou inacabado, sem que a
opinião de Spinoza sobre a democracia possa ser de todo esclarecida.
Ora, o problema
político em Spinoza se relaciona estreitamente com a questão ética de fornecer
o acesso à Beatitude. Esse problema envolve a tarefa de compreender porque
tantos lutam, e de modo tão aguerrido, precisamente por sua escravidão. Como
enuncia Deleuze no Curso de Vincennes, “eles parecem tão contentes por serem
escravos que estão dispostos a tudo para continuarem escravos”. Assim, é a
existência que eles acusam por todos os males, a condição humana, não a sua
própria condição que tanto é “inumana” quanto voluntária, pois eles fazem de
tudo para mantê-la. Esse paradoxo social fascina Spinoza. Como explicar que as
pessoas obedeçam, que não se revoltem, tema que já vimos enunciado por La
Boétie.
Mas Spinoza não
propõe a revolta ou a revolução num sentido coletivo. A posição ética
compreende uma organização dos encontros, uma conceituação da razão e uma
posição do ser relativamente ao conhecimento da essência que conduz a uma vida
ativa, tudo isso do ponto de vista pessoal. Assim, a posição ética envolve a superação
desse pessimismo como do niilismo, a compreensão do domínio da paixão e da
ação, uma tipologia das opções de vida.
Há, contudo, duas
observações aqui. Inicialmente, o limite desse acesso. Na duração, jamais se
pode renunciar completamente à paixão. Mas também a relação dessa posição
ética, pessoal, que envolve o amor intelectual de Deus, com a organização
social, o Estado civil. Spinoza não prega a revolução social do ponto de vista
coletivo, mas sua via de acesso à Beatitude, se observada por um grande número
de pessoas, transformaria a sociedade. Paradoxalmente, ela depende, de certo
modo, de já haver uma sociedade organizada, um Estado Civil constituído,
principalmente quanto ao procedimento de organização dos encontros.
Compreender essa via
de acesso, o que se enuncia como amor intelectual de Deus, porém, se relaciona
com o tema do conhecimento, o que repõe a epistemologia do espinozismo.
Lembrando que estabeleci a exposição de Spinoza através de três grandes
conjuntos, a Teoria do Ser, a Teoria dos Entes e a Teoria do Conhecimento, uma
escolha se impõe agora, entre tratar a Beatitude no âmbito da teoria dos entes
ou na do conhecimento. Como o método de Spinoza é um tema amplo e importante, e
como a teoria do conhecimento deve envolver o método, mas também a análise
detalhada da originalidade de seus processos, creio ser mais conveniente
desenvolver a conceituação dos gêneros ou graus de conhecimento, que se associa
intimamente com o acesso à Beatitude, ainda na esfera da Teoria dos Entes. Escolha
que se vê favorecida pelo fato de que, se o tema da Beatitude entrelaça a via
especulativa, ele não deixa de se efetivar no âmbito da filosofia prática.
Amor intellectualis
Dei
– Deus ou Natureza
É esse
existencialismo um ateísmo? Ou inversamente, o “sive” entre Deus e Natureza
impõe ao primeiro termo o caráter de participado, ao segundo revestindo,
portanto, do mesmo status sagrado que a designação “Deus” encerra?
O “sive” como
participação é o que habitualmente se aceita ao conceituar o espinozismo como
panteísmo. Nesse caminho a alternativa denota um percurso do que se participa,
de Deus à Natureza. Mas talvez se pudesse objetar a essa interpretação uma
certa ingenuidade. Com efeito, se Spinoza modula toda a terminologia
tradicional de que se serve, porque o termo Deus não deveria se enquadrar no
bojo desse procedimento, ou em outros termos, porque não se deveria mesmo
procurar o que o emprego da palavra Deus agora esconde, que outro sentido esse
uso manifesta?
Ora, nesse rumo é o
segundo termo que revela e altera o primeiro, é a Natureza que desfaz o caráter
do sagrado, e lendo-se assim o existencialismo espinozista seria um ateísmo.
Na ambiência do
século XVIII a recepção da obra de Spinoza inclinou-se nesse sentido. Como
observa R. Desné (“A filosofia francesa no século XVIII,” Chatelet, história
da filosofia, vol. IV), “no vocabulário do Ilminismo ser ‘spinozista’
significava ser um materialista ateu”.
Penso que reduzir o
existencialismo de Spinoza a qualquer desses extremos obedece mais a uma lógica
de oposições simplistas do que deriva de uma leitura atenta de seus escritos,
especialmente o livro V da Ética. Mas o exame do que essas oposições contrastam
é extremamente oportuna para compreender o que ocorre na dobradura dos séculos
XVII ao XVIII, isto é, Spinoza atua como revelador das motivações mais íntimas
daquilo que se lhe opõe ao mesmo tempo que se mostra essencial para compreender
o que ocorre na ambiência do pensamento a partir de sua obra por desempenhar,
quanto a isso, um papel determinante.
Inicialmente devemos
examinar a interpretação do espinozismo como panteísmo. Ser “panteísta” é, como
contrasta Sciacca, não ser “teísta” à maneira, por exemplo, de um Pascal. Ora,
o que esse teísmo parece ter por função sustentar, na perspectiva de Sciacca, é
algo que tanto o racionalismo cartesiano quanto o método científico de Galileu
e Newton mantém intactos, ainda que não com os mesmos propósitos, isto é, o
espaço da transcendência, Deus criador que fornece ao mesmo tempo o parâmetro
da subjetividade, da liberdade e da finalidade.
Examinamos longamente
a relação do Deus cristão com a formação da subjetividade ocidental, essa
história descontínua que apresenta derivas não inteiramente “explicáveis” umas
pelas outras. O momento agostiniano da alma que se individualiza a partir de
sua relação com o criador, ao mesmo tempo por ele anulando essa individualidade
naquilo que poderia se tornar “sujeito”, região conceitual autônoma. O momento
tomista, em que a alma encontra no intelecto o princípio de sua autonomia
espiritual, já esboçando-se como “sujeito”, momento que se desdobra no
escotismo. Forma-se assim uma subjetividade conceituável, emerge um pensamento
do sujeito que precisa se abastecer de noções adequadas à sua realidade
irredutível.
Ora, na era moderna
Deus transcendente continua fornecendo o parâmetro de um pensamento do sujeito
que se vê como “indivíduo” – fundamentalmente dependendo de uma epistemologia
da essência como definição, ainda que essa definição não fale mais do ponto de
vista do geral, do abstrato, e possa abarcar os acontecimentos subjetivos. O
termo “alma” pode doravante se tornar supérfluo. Esse sujeito que é indivíduo
não tem problemas para se autocompreender assim como ele se vê por relação a
Deus que é também subjetividade, ambos dados numa relação “pessoal”. Em outros
termos, o indivíduo é a forma do sujeito empírico porque a essência é sempre
pensada como uma definição da coisa, epistemologicamente garantindo-se como uma
relação de representação.
Esse Deus que cria e
escolhe fornece o modelo de vontade como arbítrio e liberdade como escolha.
Hannah Arendt, por exemplo, não conhece outra definição de vontade que não seja
uma questão de mandar e obedecer. Sendo a criação ato voluntário, ele é dotado
de um sentido de finalidade que fecha o círculo, pois é a subjetividade do Deus
transcendente que funciona como critério dessa finalidade, que Descartes pode
ter aparentemente dispensado mas que ele mesmo reintroduz no mecanismo das
paixões que revelam a sabedoria do criador no modo de ser da criatura.
O racionalismo
cartesiano sustenta esse teísmo por princípio, Deus garante o mundo e as
idéias. O método científico de Newton o mantém de modo estratégico: ele pode
servir para explicar aquilo a que se renunciou a explicar. Entre os séculos
XVII e XVIII o que muda é a ênfase dessa utilização, restando o momento
iluminista como o auge do uso puramente estratégico. O século XIX já se move
numa referência epistêmica irredutível a esse quadro que mantém os dilemas
teológicos no interior da autocompreensão do saber.
Ora, do uso de
princípio ao uso estratégico o que se assiste é a deriva do teísmo ao deísmo,
assim como do racionalismo cartesiano ao científico, mais geralmente, da
ambientação intelectual do século XVII ao XVIII.
É certo que do teísmo
ao deísmo se verifica a ruptura entre a dogmática cristã católica ou
protestante (livre arbítrio, drama da salvação, religião revelada) e a visão
iluminista (ordem eterna da natureza, destinação do ser humano nesse conjunto
de inteligibilidade, religião natural). Contudo, já a polêmica sobre a
possibilidade ou não da religião natural conduzir à revelada mostra que essa
negação da providência que, no entanto, mantém o criacionismo, isso que
caracteriza o deísmo, se conserva coerentemente relacionável ao inatismo moral
de um Shaftesbury: as inclinações sociais, que a custo poderiam se distinguir
das virtudes cristãs, situam-se por natureza no interior do ser humano, a
sociedade resultando da harmonia perfeita como ordem do universo.
Penso que a autocompreensão
do ser humano como indivíduo, no sentido desse sujeito livre que escolhe,
apenas se completa quando oquadro evolui para o sujeito senhor dos critérios de
suas escolhas, estando os critérios escritos na Bíblia ou no inato senso-moral.
Nesse sentido, o “panteísmo” de Spinoza se opõe a ambas as concepções que já
pela opção pelo criacionismo podem ser caracterizadas como teístas, apenas num
caso tratando-se de teísmo ortodoxo, o outro sendo convenientemente rotulável
como deísmo. Pode-se ver o sentido que se dá ao espinozismo, tomado como
panteísta, por aqueles que o contrastam com sua própria posição teísta, como
ocorre com Sciacca. A Beatitude ensinada por Spinoza é vista por ele como “a
renúncia de quem nada quer porque nada pode” (história da filosofia, II .
Decerto para alguém que só pode compreender o poder como vontade e a vontade
como mandar, obedecer ou escolher, algo como um saber que “as coisas e os
homens não são senão anéis de uam cadeia causal impessoal e eterna” só poderia
resultar numa “atitude desesperada”.
Como não se
surpreender com o fato de que, após ter sobejamente descrito a correspondência
de pensamento e extensão a partir da unidade da causa imanente – “Deus é causa
nos seus efeitos” – Sciacca vai declarar finalmente que Beatitude iguala
desespero por ser consciência de si e dos seres como “luzes fugazes” na
infinitude do ser sem vontade ou inteligência!
Algo do surpreendente
efeito desse contra-senso poderia talvez ser anulado pela consideração de que
mesmo descrevendo os conceitos do espinozismo, Sciacca jamais compreendeu a
essência como potência, mantendo-se somente na região de inteligibilidade da
essência como uma definição, uma imagem conceitual ou nominal da coisa. Assim,
ao pensar o sujeito, ele só pode se dar uma noção de si, representável como
criatura ou indivíduo que mantém perante o parâmetro da subjetividade fornecido
pelo Deus transcendente e criador a forma de sua existência empírica. É através
desse modelo que se torna pensável a realidade. A revolução de Kant parece
assim estar latente desde que o campo do pensamento humano conceitualmente
instrumentalizado tornou-se cultivável a partir do conjunto de fatores que
romperam a ordem medieval, determinando o rumo da ocidentalização na deriva do
cristianismo, da transcendência.
A esse indivíduo, que
pode ter de atrativa a eternidade, se nela o que dele se conserva é
precisamente o não-”individual”?
Examinando agora o
que ocorre quando se contrasta o espinozismo tratando-o como um materialismo
ateu: ora, aqui vemos que, inversamente ao caso da oposição precedente, o corte
entre ortodoxos e deístas se revela bastante esclarecedor.
Frequentemente se
observam as ambiguidades do século XVIII, de que vemos o exemplo na oscilação
entre essas duas correntes. O ateísmo, que a elas se reúne completando o leque
de opções do tempo, deixa ver a que se relaciona essa variedade precisa. Com
efeito, é à física de Newton que, como observam Bréhier e Desné, tanto deixa
espaço para ortodoxos (Deus criador da maravilha ordenada do universo não
precisa ser outro que o Deus cristão), quanto para deístas (Deus criou a ordem
do universo que exclui o providencialismo assim como todos os artifícios dos
teólogos, mas se é possível reencontrá-lo numa religião natural, essa bem
poderia ser o cristianismo original que os dogmas complicaram inutilmente),
quanto para ateístas (abolida a oposição entre matéria e espírito, pois a
matéria não se reduz finalmente à extensão, resta espaço para uma explicação
autônoma da natureza).
Ora, o ateísmo de Spinoza
poderia assim ser visto como um panteísmo imanentista, materialismo
espiritualizado que repõe algo do todo-uno, Spinoza sendo assimilado ao
neo-platonismo da Renascença. O “sive” poderia ser lido em qualquer sentido,
ele guarda sempre a conotação do segundo, o sagrado não podendo se manter como
tal ao menor contato com o natural.
Sciacca mesmo o
sugere, pois vê o espinozismo como a “tentação” do espírito humano que consiste
em procurar uma “religião” puramente racional, tentação comum a Plotino e aos
estóicos. Já Chauí mostra que o verbete “Spinoza”, no dicionário de Bayle, como
que modelou a imagem deturpada do espinozismo, longamente aceita como real,
conforme o que Spinoza seria apenas o sistematizador dessa tendência
ateísta-naturalista que se encontra por todos os meios, desde a Antiguidade.
O que aparentemente
surge como paradoxal na exposição de Desné, que localiza a recepção de Spinoza
no século XVIII tanto a partir de seu influente ateísmo quanto por sua
assimilação como um panteísmo imanentista por certos meios que, inversamente a
Bayle, o acolhem, se mostra coerente se observarmos que assim ateístas e
deístas estariam mais próximos, ambos frontalmente opostos à ortodoxia de
católicos e protestantes.
Ateísmo aqui está se
opondo à dogmática religiosa cristã que não poderia assimilar a filosofia, por
mais via de transcendência que fosse, sem mudar profundamente seu propósito, de
modo a fazê-la coincidente com a doutrina revelada, leia-se criacionismo. Como
poderia o teísta ortodoxo aceitar que a Beatitude é algo que podemos obter pelo
conhecimento da natureza aliado ao conhecimento das próprias capacidades do ser
humano, logo, que a Beatitude é algo ao nosso alcance por sermos o que somos e,
portanto, algo que não depende das querelas sobre a graça, mesmo porque não se
supõe de modo algum Deus como subjetividade a deliberar sobre concedê-la em
cada caso?
Penso que o
existencialismo de Spinoza encerra uma visão ética do mundo que é, sim,
mística, mas em um sentido que não se situa nem na via do misticismo religioso
(adoração a algum ser todo-poderoso como subjetividade), nem na via do
misticismo neo-platônico (adoração a esse ser, ainda que concebido como “inefável”).
Não creio que o “sive” denote participação do sagrado na antureza nem
naturalização no sentido da banalização de Deus. Misticismo sem “sagrado”,
desbanalização e valorização máxima da existência pela compreensão da
singularidade, que sendo potência, envolve a eternidade.
Há um paralelo
célebre da Ética com um grande vento calmo. Penso que isso poderia ser
adequadamente expresso em termos de misticismo sóbrio. Mas convém agora pensar
o que poderá convir à autocompreensão do ser humano liberada do compromisso com
a essência como definição puramente conceitual, isto é, como compreender-se
como poder.
– O estado de
natureza
Até aqui já contamos
com elementos suficientes para perceber que a expressão “estado de natureza”,
tanto quanto “direito natural”, devem ser cuidadosamente definidas no contexto
da filosofia de Spinoza, pois um uso inadvertido desses termos pode resultar na
incompreensão da função que exercem. Assim, direito natural, que Deleuze
utiliza para o antigo direito essencialista ciceroniano, continua a ser usado
em Spinoza, mas significando exclusivamente o que Deleuze mostrou ser o oposto,
isto é, algo que decorre de uma ética da potência. Já examinamos essa oposição
entre direito natural ciceroniano e ética da potência.
Quanto a “estado de
natureza”, essa expressão apenas repõe o uso hobbesiano, isto é, no contexto do
pensamento social e político ela se põe como oposta a “estado de sociedade”. A
caracterização desse estado pré-social em Spinoza, porém, se reveste de um
alcance bem maior do que o de Hobbes.
Hobbes define esse
estado apenas como uma guerra de todos contra todos, o homem lobo do homem.
Trata-se de uma inviabilidade estratégica, pois se todos têm a mesma potência,
como tendência a continuar a existir, não há nada que impeça o uso puro da
força. Ora, ao mesmo tempo, esse uso torna impossível a coexistência. Assim o
estado de natureza, por aquilo mesmo que o fundamenta, a lei natural do
conatus, se torna inviável, contraditório, implicando a necessidade de um
estado civil.
Spinoza mantém a
caracterização desse estado como aquele em que só impera a lei natural, o dado
básico da existência, o conatus. Nesse nível ninguém é ainda racional, ou
cidadão ou piedoso. O louco e o são possuem o mesmo poder, que o conatus
expressa. Mas a inviabilidade desse estado, em Spinoza, vai relacionar-se com a
maneira pela qual o ser humano apreende o mundo, isto é, tanto o porque dele
dever ser superado, como o modo pelo qual ele o pode ser, dependem de uma
compreensão da relação do ser humano com o mundo.
Essa relação é
cognitiva, ela expressa os modos pelos quais se pode apreender tanto a
autocompreensão quanto os fenômenos exteriores a nós. Assim o estado de
natureza, sendo aquele em que os encontros são fortuitos, ao acaso, não havendo
nenhuma ordem na conduta, ressoa com o mais baixo grau de conhecimento de que o
ser humano é capaz, e que, do mesmo modo, é caracterizado por Spinoza como o
estado humano natural.
Vimos que a potência
é sempre preenchida, o poder de ser afetado se mantém atualmente através das
mais variadas afecções a que o corpo é apto. Mas nesse estado natural, pré-racional
e pré-civil, as pessoas expondo-se ao acaso dos encontros, o mais provável é
que estes se revelem opostos à conservação da relação que mantém as partes do
modo existente, tampouco havendo garantia quanto ao resultado do próximo
encontro. Assim as afecções que estão preenchendo seu poder de ser afetado são
predominantemente passivas e tristes.
O que se repõe no
âmbito do primeiro gênero de conhecimento, o inadequado, em que a privação do
conhecimento efetivo das coisas não ocorre sem a privação do conhecimento
efetivo sobre nós mesmos. Nesse caso, porém, as afecções passivas desempenham o
papel de causa.
Importa compreender a
ruptura que Spinoza está introduzindo com a tradição cartesiana, quanto à
conceituação de ações e paixões. Conforme essa tradição, que se mantém em
Leibniz, há uma proporção inversa entre ação e paixão que reproduz a
irredutibilidade entre espírito e matéria: quando um sofre (paixão) o outro age
(ação) e vice-versa. Assim a valorização da ação se conserva no âmbito da
moral, ela se afirma como valorização da alma e do pensamento, desvalorização
do corpo e da extensão.
Spinoza não mantém
esa perspectiva moral. O que ele propõe, inversamente, é que a paixão e a ação
são existenciais, o que é paixão ou ação na alma o é igualmente no corpo.
Assim, em vez de resultar na condenação moral da paixão ou do corpo, o que se
tem é uma via pela qual podemos avaliar a potência da alma, comparando-a com a
potência do corpo, e por aí o sentido da questão por excelência do espinozismo:
o que é que pode um corpo?
Quanto mais o corpo é
apto a ações e paixões, mais o espírito é apto a perceber mais coisas ao mesmo
tempo. E quanto mais as ações do corpo só dependem dele mesmo, não dos outros,
mais capacidade de compreensão possui esse espírito.
Para apreender a
concepção que Spinoza faz desse estado natural do homem, em que suas idéias são
inadequadas, será preciso perguntar: como é que temos idéias? Sem antecipar o
que se deve estender mais oportunamente na teoria do conhecimento, aqui importa
observar a distinção entre a idéia de nós mesmos assim como ela é em Deus e
assim como é em nós.
Em Deus a idéia que
constitui a alma de um ser humano está relacionada a outras idéias de outras
almas na medida em que umas são causas de outras. Mas nós não possuímos
imediatamente a idéia de nós mesmos conforme ela está relacionada nesse elo
causal infinito, no intelecto de Deus. Assim, nós não temos imediatamente a
idéia adequada de nós mesmos ou do nosso corpo, lembrando que a idéia adequada
é aquela que expressa a sua causa.
Sendo parte da
potência de pensar de Deus, nossa alma pensa. Mas só percebemos das outras
almas a influência que exercem sobre nós, da mesma maneira que os corpos
exteriores só são percebidos naquilo que nos afetam. As idéias decorrentes desss
influências exteriores, de outros corpos e outras almas, são designadas
idéias-afecções, sendo a única ponte natural entre o ente humano e o mundo.
Poder-se-ia indagar:
como a alma percebe o que ocorre com o corpo? Creio que Deleuze ilumina esse
ponto mostrando que Deus possui a idéia de cada alma enquanto possui a idéia de
outras almas, mas enquanto Deus possui a idéia singular da alma, essa idéia
envolve as afecções que lhe pertencem. O que ocorre com a alma, que é
idéia do corpo, está no pensamento de Deus enquanto ele possui esta idéia.
Logo, o que ocorre na alma está nela mesma, nas idéias– afecções que não
pode deixar de possuir. Assim o que ocorre na alma é idéia do que ocorre no
corpo.
Não temos, portanto,
imediatamente a idéia adequada de nos mesmos ou do nosso corpo porque essa
idéia está em Deus enquanto ele é afetado pelas idéias de outros corpos, mas
nós só conhecemos outros corpos por idéias – afecções, logo idéias inadequadas,
e só conhecemos a nós mesmos pelas idéias dessas idéias. Nas condições
imediatas da existência, o ser humano não possui as idéias adequadas de seu
próprio corpo, de seu próprio espírito, ou dos corpos exteriores.
O objeto é um efeito
sobre o corpo, o que se designa “eu” é a idéia que temos de nosso corpo e de
nossa alma enquanto sofrem esse efeito. O dado é relação íntima, vivida,
confusa, entre o conhecimento dos outros corpos, do nosso corpo e de nós
mesmos. Os dados imediatos, isso que forma a consciência, equivalem a
idéias-afecções que são signos, indicações, imagens impressas – todos esses
elementos apontando para o fato de nossa forçosa passividade na relação com o
exterior. A causa da afecção, sem dúvida, está envolvida nessa sua idéia, mas “envolver”
aqui se opõe a “explicar “ou “expressar”, significando algo como “recobrir”, “ocultar”.
O dado oculta a sua própria causa, designando a mistura do corpo exterior e do
nosso corpo na afecção de que temos a idéia.
Aquilo que o signo
enuncia como indicação direta nunca é nossa essência, mas apenas o estado
passageiro de nossa constituição. Aquilo que se enuncia como indicação indireta
nunca é essência da coisa exterior, mas apenas a aparência decorrente do seu
efeito em nós. O signo é inexpressivo, como uma consequência sem premissas.
Esse é o estado
natural do ser humano, tipificado por Adão. Sendo o primeiro homem, Adão não
procedeu a longa formação da razão, seu entendimento fraco se carcteriza como o
de uma criança. É´ a fraqueza inicial que explica a queda de Adão, não o
inverso. Ele confunde o mandamento de Deus com um signo, uma ordem, e a
transgressão com o pecado. Mas o que mais poderia ter ocorrido, senão que o que
Deus “proibia” era um fruto que faria mal ao corpo de Adão? Nada de pecado, mas
seria um erro comer tal fruto.
Assim, a
caracterização epistemológica do primeiro gênero se verifica por um domínio e
um meio de atuação precisos. O domínio desse grau mais baixo do conhecimento é
a imaginação, o seu meio de operação ou o que forma sua unidade é o signo. A
imaginação forma idéias universais abstratas, que só retém do objeto algum
caráter sensível, caráter que será designado por um nome, o qual serve de signo
seja com relação aos objetos que parecem com esse objeto significado pelo nome,
ou por relação a objetos que são ligados por hábito a ele. Formam-se assim
signos indicativos. Nesse âmbito o primeiro gênero é o da experiência vaga, que
se faz conforme o acaso dos encontros e só retem da natureza o efeito dos
encontros entre partes conforme determinações puramente extrínsecas, o que
Spinoza designa como a “ordem comum” da natureza .
Mas com a linguagem e
o estado civil se desenvolve um outro tipo de signos, não mais indicativos, e
sim imperativos. São aqueles que enunciam o que é preciso fazer para obter
certo resultado, realisar certo objetivo. Nesse âmbito, o primeiro gênero é o
do conhecimento por ouvir dizer. O exemplo famoso quanto a isso é o da operação
que se deve fazer sobre três números para obter o quarto. A “regra”, nesse
gênero, é interpretada como uma ordem, algo epistemologicamene equivalente a um
mandamento religioso sendo aplicado com fins práticos.
E de fato pode-se
falar de uma religião desse gênero mais inferior, caracterizando-o mesmo como
um estado de religião. Trata-se da religião revelada, que funciona por
mandamentos, obediência a Deus. Como observa Spinoza, nada na natureza ensina
que o homem é obrigado a obedecer a Deus, nenhum raciocínio conduz a isso.
Somente a “revelação” acompanhada de signos o faz conhecer a cada um. A
pertença dessa religião, que Spinoza designa como “religião dos profetas”, a
esse gênero pode ser então visada como um resumo de suas características já
arroladas: a “Revelação” se explica pelo caráter inadequado do conhecimento, é
fundada sobre signos e se manifesta sob a forma de leis que comandam e ordenam.
O “tipo” do primeiro
gênero de conhecimento corresponde, pois, à criança, à Adão, mas ao mesmo tempo
é como se a caracterização do gênero permitisse uma avaliação “ética” que
abarca sob tal designação o tirano, o fraco, o impotente, logo, o “escravo”. E
pode-se arrolar os sentimentos que circulam nesse domínio: ódio, sentimento
relacionado a percepções decorrentes de maus encontros, medo e esperança,
sentimentos respectivamente negativos e positivos, relacionados à incerteza do
porvir. E vimos que há ainda uma religião do primeiro gênero. Quanto à relação
entre esse grau de conhecimento e sociedade, o pensamento de Spinoza revela uma
certa complexidade.
Inicialmente devemos
observar que há duas oposições em jogo: a) entre o estado de natureza e o
estado civil, atuando em nível de sociedade; e b) entre o estado natural do
primeiro gênero de conhecimento e o que por ora se pode considerar como o
estado de razão.
Vimos que por
corresponder ao que primeiro se manifesta no ser humano, estado de natureza e
grau mais baixo de conhecimento se interpenetram. Também o fazem por
relacionarem-se apenas com paixões. Assim, sentimos que o estado civil, oposto
a essa condição, deveria ser de algum modo aproximado ao “estado de razão”.
Ora, em Spinoza não se verifica um processo espontâneo, ele mesmo natural, como
ascenção entre o primeiro gênero de conhecimento e os outros, entre estado
natural de conheciemto e estado de razão. E de modo semelhante, como Deleuze
assinala, se os seres humanos devem convir uns com os outros é somente naquilo
em que os supomos já racionais, o que parece uma contradição na enunciação de
uma teoria da formação social que comporta uma ruptura, não um progresso
natural, do estado pré-social àquele de sociedade.
A sociedade ou Estado
se põe como um elemento a mais, como que no cume de uma lenta experiência, uma
longa formação empírica que transforma o ser humano, desde o seu estado
natural, em ser social. Mas essa conjunção simples, experiência da necessidade
de organizar os encontros, e do que decorre desses encontros como conhecimento
de mundo, mais formação do Estado e sociedade como estabilização de leis que
formalizam esse conhecimento, não garante por si só a ascenção aos outros dois
gêneros de conhecimento, o segundo e o terceiro.
O próprio móvel da
formação da sociedade não é uma afecção da razão, como afecção produzida em nós
por um outro ser humano sob uma relação que se compõe perfeitamente com a
nossa, como mostra Deleuze. E como o que reúne a sociedade são os sentimentos
decorrentes do estado de natureza, o medo e a esperança, não por princípio a
razão, é a obediência e a alienação do direito natural que fundam a relação de
sociedade.
Mas há algo na
sociedade que mantém uma semelhança com a razão, a figura do soberano como
encarnação do todo. A soberania tende àquilo mesmo que é razão, a composição de
relações visando ao máximo da potência daqueles que integram o conjunto que ela
ordena. Por isso a cidade convém com a razão, e a avaliação da boa sociedade,
do bom regime, encontra aqui o seu critério, na otimização dessa tendência ou
conveniência com a razão.
Por esse meio, também
se avalia a boa sociedade naquilo em que ela permite ou auxilia a ascenção,
desde o primeiro gênero de conhecimento aos outros, isto é, no sentido em que
ela favorece a formação de seres humanos livres. O que decorre das afecções
passivas é que o poder está separado de sua aptidão à ação. O fraco ou escravo
é impotente precisamente nesse sentido – separado de sua potência de agir. Ora,
assim o critério se transforma num instrumento eficaz de crítica social, pois
trata-se de denunciar todos os sistemas que se constituem pela impotência. As
mistificações, as superstições, a monarquia. Tudo isso que podemos intuir estar
relacionado ao inadequado, pois mantém pela ignorância os sentimentos de medo
que se relacionam a um “poder” instituído para garantir a “segurança” desse ser
humano infantilizado. A razão mostra que o objeto desse medo supersticioso não
existe, mas uma das funções dessas instituições é justamente impedir que a
razão proceda seu trabalho crítico, impedir que esses seres humanos ascedam aos
outros gêneros.
Sobretudo, se o
gênero mais baixo de conhecimento se caracteriza pelo centramento na
subjetividade, toda instituição que confunde a produção do saber com a
individualidade daquele que produz esse saber está implicando esse gênero num
certo nível – a quantidade de exemplos quanto a isso seria algo óbvio,
incluindo desde crença, etnia e sexualidade a opções filosóficas e hábitos...
talvez o árduo sendo encontrar o que não caberia nesta lista – de modo que o
instrumental crítico de Spinoza se mostra eficaz inclusive na crítica das
condições de produção de conhecimento, lá onde uma análise formal só poderia
ver atuando a razão.
Mas que é “razão”
nesse contexto do espinozismo? Pode-se observar que se o estado de natureza,
como o gênero mais baixo de conhecimento, estão relacionados às afecções
passivas e tristes, do exercício da razão deve decorrer um máximo de afecções
passivas alegres e um máximo de alegrias ativas. O impotente se reconhece por
suas paixões tristes, o homem livre se caracteriza por suas alegrias, passivas
e ativas.Ora, assim vemos que o estado de razão não se opõe ao de natureza como
o artificial ao natural. Inversamente, os “mandamentos” da razão não são de
modo algum opostos à natureza, nisso pelo que o que é natural é o poder
expresso pelo conatus: que cada um se ame, procura o que lhe é útil, e se
esforce a perseverar em seu ser aumentando sua potência de agir .
O que permite que se
possa enunciar que há duas ordens, de natureza e de razão, é então, mais do que
desorganização ou organização dos encontros, o fato de a coincidência dos
encontros e relações só existir ao nível da natureza inteira, do todo. Mas as
essências, na existência, se esforçam para que haja coincidência de seus
encontros com as relações que se compõe com a sua relação. Esse esforço é
aquele mesmo da razão. O que a razão faz é, portanto, apenas reproduzir e
expressar o esforço da natureza inteira.
Encontra-se aqui o
limiar que conduz ao segundo gênero, mas nesse hiato, entre estado natural e
estado de razão, não deixa de haver um sistema de correspondências entre o
primeiro e o segundo gênero, que permite ainda compreender a relação entre
essse estado de razão e o estado civil. Compreender sobretudo a necessidade
aparentemente paradoxal que se enunciou assim: o estado civil pertence ao grau
mais inferior de conhecimento, mas ao mesmo tempo, é somente na cidade que se
encontram os meios que tornam possível o esforço da razão.
Ora, vimos que o
estado civil se movimenta nesse gênero mais inferior mas manifesta uma
tendência à razão. Trata-se então de compreender o que está em jogo nessa
tendência. Ela pode, com efeito, ser dada como uma preparação e uma imitação. O
estado civil prapara o estado de razão, imita a razão, e o faz porque as leis
morais e os signos imperativos, maugrado seus contrasensos, coincidem de um
certo modo com a ordem verdadeira e positiva da natureza. O que se repõe no
âmbito da religião do primeiro gênero, pois são essas leis da natureza que os
profetas enunciam e transmitem mesmo que não as compreendam imediatamente. O
maior esforço da sociedade é escolher signos e instituir leis cujo conjunto
coincide ao máximo com a ordem da natureza, com a subsistência do ser humano
nessa ordem. Esse esforço pode finalmente ser enunciado do seguinte modo: ele
consiste numa seleção das paixões, no descartar as paixões tristes, no
conservar as paixões alegres.
Trata-se assim, mesmo
no âmbito do inadequado, mesmo no âmbito das paixões, de um esforço que se
assemelha ao da razão, isto é, de um esforço de organização dos encontros.
Penso que o contraste entre acaso e ordenação, aqui, repõe o salto histórico
que epistemologicamente podemos verificar na transição do pensamento mágico do
Renascimento ao pensamento científico da era moderna, o que Spinoza enuncia
através dessa oposição entre os dois modos de conceituar a lei. A entrada no
pensamento científico coincide com o que se designa o segundo gênero, aí onde a
lei não é mais comando, ou mandamento, e sim modo de funcionamento, modo de
ser.
O esforço que
prefigura o segundo gênero consiste nessa ordenação, mas enquanto ainda não se
transpôs o hiato, a lei continua a ser pensada como mandamento ou comando, o
meio epistemológico de operação sendo ainda o signo.
Mas o âmbito da razão
é o da adequação, da idéia expressiva, não do signo, indicativo ou imperativo.
Sendo as coisas como descritas pelo primeiro gênero, resta perguntar como é que
os seres humanos podem asceder a esse domínio de idéias adequadas, ou, o que é
o mesmo, perguntar: como podemos experimentar o máximo de alegria, passiva ou
ativamente, e, o mais importante, como podemos experimentar o máximo de
afecções ativas?
· Noções comuns
A reserva de paixões
alegres garantida pela organização dos encontros no estado de sociedade, mesmo
ainda conforme a imaginação e sob a veiculação do comando, permite que haja uma
aproximação ou favorecimento da potência de agir, na medida inversa pela qual
as paixões tristes a diminuem ou travam.
Mas essa organização
dos encontros ainda no domínio da imaginação se conceitua como um primeiro
momento ou esforço da razão. A superação do hiato entre o estado natural e o
estado de razão pode agora ser enunciada nesses termos: como pode ser conceituado
algo como o segundo momento da razão, e de que maneira podemos asceder a ele?
Inicialmente devemos
repor o que caracteriza o domínio do natural, do primeiro gênero, do
inadequado: é o domínio da paixão. Em seguida o que caracteriza o domínio da razão,
do segundo gênero, do adequado: é o âmbito da ação. Temos assim uma teoria
complexa, pois Spinoza não considera que, por ser o inadequado o estado natural
do ser humano, não se possa designar o estado de razão como algo inato.
Mesmo antes de definir
os termos podemos compreender o problema: o signo é o meio de operação da
imaginação, a noção comum é o meio de operação da razão. Ora, a formação de
noções comuns é algo tão inato quanto a formação dos signos. Não obstante há um
hiato entre as duas operações. Mais, se nossa constituição explica a formação
dos signos, como vimos, ela não parece explicar a formação de noções comuns.
Com efeito, o modo pelo qual temos idéias inadequadas, sendo natural, parece
excluir que haja algo inato em nós como faculdade de formar noções comuns.
Deleuze mostra que as
noções comuns são uma descoberta fundamental da Ética, não se enunciando nem no
Tratado Breve, nem no Tratado da Reforma. Nesses três textos Spinoza apresenta
uma teorização dos graus de conhecimento que não coincidem inteiramente em sua
classificação, mas que conservam algo de semelhante no sentido de sempre estar
se tratando de uma ascenção do menos ao mais adequado. Mas é somente na Ética,
a partir da formação do conceito de noções comuns, que o hiato ou irredutibilidade
entre os primeiro e o segundo gêneros de conhecimento se estabelece com
nitidez. Não obstante, vemos que o primeiro esforço da razão se manifesta no
quadro do primeiro gênero, utilizando todos os recursos da imaginação.
Spinoza introduz o
segundo gênero como o sistema das noções comuns no livro II da Ética. No
entanto, Deleuze mostra que a ordem da exposição utilizada por Spinoza, não
coincide com a ordem de ascenção, em nós, de um gênero ao outro. As noções
comuns, com efeito, podem ser de dois tipos: menos universais e mais úteis,
organizadas em torno da similitude de composição entre corpos que convém
diretamente, por exemplo, o que é comum a um corpo humano e a certos corpos
exteriores, o que nos faz compreender as conveniências entre os modos. E as
mais universais, que se organizam em torno da similitude ou comunidade de
composição, mas entre corpos que convém de um ponto de vista mais geral, não de
seu próprio ponto de vista, por exemplo, a extensão, o movimento e o repouso.
A ordem da exposição
se inicia pelas noções mais universais, mas a ordem de formação se inicia pelas
noções menos universais. Ora, toda noção comum é uma idéia adequada, logo ela
expressa a sua causa. As noções comuns são, precisamente, idéias que se
explicam formalmente por nossa potência de pensar e materiamente expressam a
idéia de Deus como sua causa eficiente. Elas estão em nós como elas são em
Deus, envolvendo de modo necessário a essência de Deus. Assim se ilumina o
sentido da proposição 24 da Ética V: quanto mais compreendemos as coisas
singulares, tanto mais compreendemos a Deus. Conforme Spinoza, toda idéia de
coisa particular envolve de modo necessário a essência eterna e infinita de
Deus.
Mas como se escapa da
dificuldade, isto é, como se supera o hiato entre o primeiro e o segundo
momento da razão, ou em outros termos, entre a imaginação e a razão mesma, o
que equivale a perguntar: o que é uma noção comum e como a podemos formar?
Ora, vimos que não há
comunidade essencial entre esses âmbitos, o da paixão e o da ação. Mas o que
ocorre é que o esforço de selecionar as paixões nos faz experimentar um máximo
de paixões alegres. Isso é o mesmo que afirmar que os encontros que temos
favorecem a nossa relação, favorecendo ao mesmo tempo a nossa potência de agir.
Se favorecem a nossa relação é porque convém com ela. Se convém com nossa
relação, é porque há algo de comum entre o corpo exterior que encontramos e o
nosso, há algo de comum entre o modo de ser de nossa relação e o modo de ser da
relação desse corpo exterior.
Uma paixão triste
traduz um mau encontro também no sentido de que não nos permite formar uma
idéia qualquer de conveniência. Nada no corpo exterior convém com o nosso. O
inverso ocorre na paixão alegre.
Podemos então
responder o que significa aqui “razão”: é potência de compreender, ou seja,
potência de agir própria da alma. Naquilo em que nos permite formar a idéia de
algo comum ao corpo exterior e ao nosso, a paixão alegre convém com a razão,
nos conduz a compreender e a ser racionais. No entanto, a potência de agir
poderia aumentar indefinidamente, as paixões alegres poderiam se encadear
indefinidamente, uma soma de paixões alegres não faz uma ação.
A imaginação, desde
que ascedendo ao primeiro esforço da razão, age a favor da razão mas as alegrias
ativas só nascem da razão mesma. Ora, no momento em que formamos a idéia
daquilo que é comum entre o corpo exterior e o nosso, essa idéia é uma noção
comum, é adequada, assinalando-se assim o momento em que conquistamos a
possessão formal de nossa potência de agir.
Lembrando que a
paixão decorre como passividade, ou seja, da determinação da afecção por um
outro corpo, e a ação se faz quando somos nós mesmos a causa adequada da
afecção, quando o espírito forma uma só idéia adequada ele é causa adequada de
todas as idéias que decorrem dela. A afecção como objeto da idéia não é mais
passiva, e sim ativa. O sentimento torna-se ele mesmo uma idéia adequada que
tem por causa essa idéia do que é comum ao objeto externo e a nós.
As noções comuns são
idéias gerais. Opõem-se assim às idéias abstratas do primeiro gênero. Aqui é
importante observar o uso do termo “universal”, que se desdobra conforme duas
acepções utilizadas por Spinoza. Assim as idéias abstratas correspondem a “noções
universais” como gêneros e espécies, “o” homem, “o” cavalo, etc. Nesse sentido
opõe-se às noções comuns como também a elas se opõe os termos transcendentais,
que desde a tradição escolástica se designam como as noções de Ser, coisa,
algo, um, bom, verdadeiro. Ora, as noções comuns são também, como vimos,
designadas como universais, comportanto um menos e um mais. O que faz Deleuze
propor que Spinoza não critica o universal mas apenas uma certa c oncepção, a
de universal abstrato.
Mas o que é mais
notável aqui é que o uso mesmo dos gêneros e espécies parece comportar também
esse desdobramento entre o que é criticável como somente abstrato e o que,
inversamente, permanece plenamente utilizável no contexto do espinozismo.
Quanto a isso vemos que Deleuze opera, precisamente aqui, a reversão de uma
leitura “matemática” ou meramente geométrica de Spinoza, centrando seu
pensamento num modelo inteiramente outro, o da biologia, não sem instituir
nesse âmbito mesmo uma ruptura fundamental com o paradigma da forma.
Assim Spinoza mostra
que ao universal abstrato de gênero e espécie poderia corresponder qualquer
conceito que conservasse um sentido como imagem do que afeta o indivíduo:
aquele que se impressiona com a estatura definiria a espécie humana como sendo
a de animais que possuem estatura ereta, outros como animal capaz de rir ou
bípede sem plumas ou animal racional. Não obstante, há um princípio de
definição de gênero e espécie que se conserva no âmbito da noção comum,
justamente quando se considera as estruturas, não as formas sensíveis que afetam
deste ou daquele modo o percipiente.
Estrutura está, nesse
contexto, designando um sistema de relações entre as partes de um corpo,
relações variáveis que permitem explicar a forma do corpo ou a função orgânica.
Pois em qualquer animal, a forma e a função dos órgãos dependem unicamente de
relações entre partes, isto é, relações entre elementos anatômicos constantes.
O que permite a Deleuze aproximar Spinoza e Saint-Hilaire é o princípio de
unidade de composição da natureza, enunciado por este último. Aos mais variados
tipos de animais correspondem variações de relação, de situação respectiva e de
dependência desses elementos, mas todos esses tipos são eles mesmos variações
do mesmo Animal, a natureza inteira composta dessas relações variáveis entre suas
partes. Em Spinoza, como afirma Deleuze, ao exame de diferenças sensíveis se
substitui o exame de similitudes inteligíveis, que nos permite compreender do
interior as diferenças e semelhanças entre os corpos. As noções comuns em
Spinoza são portanto idéias biológicas, bem mais do que idéias físicas ou
matemáticas.
O que poderia induzir
à conclusão inversa é que a ordem de exposição das noções comuns na Ética
começa pelas noções mais universais. Contudo, já há elementos suficientes para
compreender porque que a ordem da formação efetiva, isto é, aquela observada
por nós mesmos ao asceder ao segundo gênero, não pode proceder do mais ao
menos, mas somente do menos ao mais universal, já que é apenas a conveniência
dos corpos exteriores com o nosso corpo que desempenha a função de causa
ocasional de nosso acesso ao segundo gênero.
Causa ocasional
significa precisamente que esse gênero em nós é inato mas que ele não se dá de
modo espontâneo, precisando de algo no âmbito empírico para ser atualizado. Uma
experiência restrita a paixões tristes jamais o poderia atuar. Mas vemos assim
que esse “empirismo” é bastante peculiar, pois ele não preconiza de início uma
experiência de tipo científica, controlada, nem denega absolutamente a
existência do inato, mas supõe a ocasião, pois é apenas uma vivência de paixões
alegres que se transforma numa percepção do que convém, como o que é comum,
inicialmente entre corpos localizados (o menos universal), e depois entre todos
os corpos (o mais universal). Com isso vemos também que se o primeiro gênero se
mantém no elemento extrínseco, o segundo gênero apreende o que é estrutural,
intrínseco aos modos.
O primeiro gênero não
é portanto algo simplesmente ilusório. Ele traduz o que realmente ocorre, mas
capta o real apenas conforme suas próprias impressões, sem poder assim
compreender o real como ele é, naquilo em que consiste numa trama causal,
permanecendo no âmbito da imagem (imaginação). O contrasenso se produz nesse
nível quando essa percepção subjetiva se procura erigir numa “explicação, como
quando se atribui a causa de uma qualidade a um deus que a personifica
(antropomorfismo), ou quando se deduz, da regra que enuncia um resultado
constante da relação entre dois modos, um comando ou arbítrio sobrenatural,
logo, concebendo Deus à imagem do homem.
O exemplo de Spinoza
quanto a isso é a percepção que nos faz estimar a maior proximidade do sol e
seu tamanho como sendo o da pequena esfera visível no céu. Ora, o erro não está
na percepção que temos mas no fato de que enquanto permanece apenas nesse
nível, não se formou uma idéia adequada que a corrige, tanto no sentido de
mostrar uma real mensuração, quanto no sentido de explicar porque nossa
percepção imediata é como é.
Mas esse gênero mais
inferior nos é indispensável para asceder à razão. Ora, esse acesso subentende
uma transformação no conceito de lei, como vimos. Assim considerando o exemplo
que examinamos no primeiro gênero, quanto à regra que permite encontrar o
quarto número. Nesse nível mais inferior conhece-se a regra apor ouvir dizer, e
se a aplica como uma lei moral. Mas conhecer a regra no segundo gênero
significa compreender a proporcionalidade, o modo pelo qual se compõem as
relações constitutivas dos três números dados. Trata-se não mais de obediência
mas de compreensão.
Logo, existe uma
religião do segundo gênero, pois a expressão da Natureza desloca os signos, uma
vez que a noção adequada é expresiva, expressa a causa. E o amor desloca a
obediência, pois toda noção comum nos conduz à idéia de Deus de que ela exprime
a essência, a lei da natureza se compreendendo agora como ordem que expressa a
sua fonte, que é Deus. Todo conhecimento expressa Deus, quando ele se faz no
âmbito das noções comuns, ao mesmo tempo que esse conhecimento nos faz amar
Deus. Essa religião é agora designada como a religião de Cristo, dos apóstolos
ou de Salomão. Vemos por esse meio que o estado de religião do primeiro gênero
é ao mesmo tempo um estado moral, a religião do segundo gênero já estando no
âmbito de uma visão ética do mundo.
Mas esse grau
inferior ainda manifesta mais uma relação com o segundo gênero de conhecimento.
Agora é como se a razão pudesse satisfazer aquilo mesmo que a imaginação exigia
sem poder cumprir, pois a imaginação, conforme sua própria lei, começa sempre
por afirmar a presença do objeto para daí ser afetada por causas que deslocam a
percepção dessa presença, a saber, as afecções que experimenta. Essa flutuação
da imaginação significa que ela é incapaz, com o tempo, de reter o objeto. A
razão não se contenta, porém, com diminuir relativamente a força das paixões,
com o tempo. Os sentimentos ativos são mais fortes do que todos os sentimentos
pasivos que provém da imaginação, de modo que, se conforme a imaginação um
sentimento é tanto mais forte quanto é provocado por mais causas agindo
conjuntamente, a noção comum se aplica ao mesmo tempo às várias coisas ou
imagens de coisas que nela se reúnem. É assim que a razão diminui a intensidade
do sentimento da imaginação, pois ela determina o espírito a considerar vários
objetos e a retê-los.
Necessidade, presença
e frequência, são as característics das noções comuns, de modo que estas se
servem das leis da imaginação para nos liberar da imaginação. Essas
características permitem à razão se inserir no movimento da imaginação, revertendo-lhe
o curso em seu proveito. O hiato entre o primeiro e o segundo gênero de
conhecimento, entre imaginação e razão, se converte numa livre harmonia entre
esses dois estados. Não ocorre portanto contradição entre o inatismo da noção
comum e a dependência de uma causa ocasional para ser formada. Pois o que
Spinoza está afirmando é que os seres humanos nascem separados de sua potência
de agir ou de compreender e que devem, na existência, conquistar isso que, não
obstante, pertence à sua essência.
Enunciar essa
religião do segundo gênero como a religião do Cristo não significa, porém, que
Cristo devesse se servir da imaginação para asceder à razão. Não significa nem
mesmo que Cristo devesse se servir de noções comuns para conhecer Deus. Mas sim
que Cristo, expressão de Deus, se serviu de noções comuns para transmitir o seu
ensinamento. Quanto à designação de religião dos apóstolos, ela se relaciona
apenas com uma parte do ensinamento e da atividade deles. Não devemos confundir
a religão do Cristo com aquilo que Spinoza designa a fé universal comum a
todos, que concerne ainda à obediência, mantendo-se no grau mais baixo do
conhecimento.
O aspecto positivo
dessa religião do segundo gênero foi bem resaltado por Bréhier, justamente no
trecho de sua exposição sobre Spinoza onde ele destca mais o que separa o
espinozismo de Descartes – nos outros trechos, onde ocorre o inverso, Bréhier
tende a interpretar Spinoza conforme opções tradicionais já consideradas
errôneas, o que no entanto não me proponho examinar aqui.
Nesse trecho Bréhier
visa o conhecimento do segundo gênero em termos de “liberdade do sábio”, isto
é, não tanto do ponto de vista das vantagens especulativas mas sim éticas. Ora,
o que torna o pensamento de Spinoza irredutível a Descartes quanto a isso é que
essa liberdade que já o segundo gênero concede ao ser humano não tem a ver com
um “pretenso livre arbítrio”, como se pudéssemos nos tornar “um império dentro
de um império”. Ao invés de um controle absoluto da paixão, via glândula
pineal, mecanismo corporal, o que Spinoza ensina é uma independência do objeto.
A relação da paixão com o objeto, odiado ou amado, é da ordem da imaginação. O
objeto é uma causa imaginada, a verdadeira causa sendo a lei que implica certa
relação, certa afecção, a lei se compreendendo no curso universal da natureza.
Vencer uma paixão é conhecer a sua causa, obter a idéia adequada da afecção que
ela envolve.
O exemplo fornecido
por Spinoza, citado por Bréhier, mostra como essa vitória é como que uma
prática de transmutação, ao invés de um pretenso domínio subjetivo sobre o
mundo. A paixão da ambição determina naquele que a experimenta um desejo de que
todos os outros sejam iguais a ele mesmo, o que ocasiona confllitos com os que
se mostram irredutíveis. Compreendendo que o estado de natureza nos faz
imaginar esse desejo como um objeto, podemos atingir a afecção que se mostra
como o desejo de semelhança. Supondo então que há um caráter pelo qual esse
desejo de semelhança se torna virtuoso, isto é, se o desejo se transmuta em querer
que os outros se assemelhem naquilo que se tem de razoável (racional), a
ambição se transforma em piedade, que almeja a paz entre os seres humanos,
inversamente ao conflito.
Como a verdade
destrói o erro da percepção sensível, no exemplo do sol, mas não o que há de
positivo nela, a razão acolhe o que há de positivo na paixão. O conhecimento
adequado de nossa afecção expressa a perfeição e a potência do nosso ser,
acompanhando-se de alegria, a qual se acompanha da idéia de Deus. A alegria é
assim amor a Deus, mas concebido de modo inteiramente outro por relação às
concepções dos teólogos. Bréhier afirma que o uso das noções comuns ou do
conhecimento dosegundo gênero torna oser humano mestre de suas paixões.
A idéia que o ser
humano tem de sua individualidade finita como tal é uma idéia inadequada. A
idéia que temos d eDeus e dos princípios da natureza é uma idéia adequada, que
nos faz saber que todas as coisas, incluindo nós mesmos e nossas paixões, se
deduzem de modo necessário, o que transforma a autocompreensão do ser humano
que agora se conhece como determinado pelas leis do universo. Não perdemos nada
do que há de positivo na individualidade, pois ao invés de suprimir o apetite,
o conatus pelo qual tendemos a perseverar em nosso ser, nós o apoiamos sobre o
conatus do universo.
O que caracteriza a
noção comum pode ser conceituado em dois níveis: ela se aplica a vários modos
existentes e ela nos faz conhecer as relações sob as quais os modos existentes
convém ou se opõem. Ora, isso mostra que a noção comum não constitui a essência
particular de alguma coisa, ela só se aplica aos modos existentes particulares,
não tendo sentido independentemente desta aplicação. Mas por isso mesmo
tampouco basta defini-la por sua generalidade, sendo mais conveniente afirmar
que elas possuem uma função geral, essa aplicação aos modos e aquilo que nos
faz compreender.
Mas vimos que essa
aplicação se estende, do menos ao mais universal, do que é comum a certos
corpos ao que é comum a todos eles, a saber, a extensão, o movimento, o
repouso. Mas e quanto à idéia de Deus, seria ela também uma noção comum? Ou, em
outros termos, formamos essa idéia através de uma percepção de conveniência?
Vários elementos
permitem responder negativamente. Enquanto as noções comuns podem ser imaginadas,
Deus não pode ser objeto de imaginação. Mas vimos que a noção comum é
expressiva, o que ela expressa sendo a essência de Deus. Ora, isso afirma
apenas que a idéia de Deus está numa relação expressiva com as noções comuns,
mas esse Deus que elas expressam permanece impassível. Nós o amamos, mas
enquanto aquilo que nos faz aportar à sua idéia, a saber, as noções comuns, são
alegrias ativas elas mesmas dependentes das paixões alegres, Deus mesmo é
isento de qualquer paixão. Assim, no âmbito do segundo gênero, o amor que
experimentamos por Deus, que decorre da alegria ativa a que se acompanha a
idéia de Deus, é concebido na dependência da paixão e portanto Deus, que não
pode experimentar nenhuma paixão, nos parece um ser completamente impassível.
A idéia de Deus
desempenha a função de limite, entre o segundo e o terceiro gênero. Assim
pode-se compreender que o segundo gênero implica a existência do terceiro,
precisamente pela idéia de Deus. Essa idéia não pode surgir sem o segundo
gênero, mas ela mesma não sendo uma noção comum, nos faz precipitar no
terceiro, ao mesmo tempo em que transmuta o seu conteúdo enquanto idéia. A
idéia de Deus faz introduzir o domínio dos seres reais, e suas relações. A
noção de extensão, por exemplo, não aparece mais como uma noção comum a
todos os corpos, mas como atributo, ou seja, como o que constitui a essência singular
da substância ou Deus.
Aportamos ao terceiro
gênero de conhecimento através da idéia de Deus. Esse gênero se define como se
estendendo “da idéia adequada da essência formal de certos atributos de Deus ao
conhecimento adequado da essência das coisas”, conforme E, II, 40, escólio 2.
Pode-se manter o termo “comum” na caracterização do atributo, entre o segundo e o terceiro gênero. Mas no segundo gênero, comum significa geral, no terceiro, o sentido de comum é ser unívoco, afirmando-se igualmente de Deus, de que ele constitui a essência singular e dos modos, de que ele constitui as essências particulares. Esse conhecimento das essências, ou dos graus de potência, assim como são em Deus, é o conhecimento supremo, que nem mesmo deveria ser designado como “estado de razão” mas sim “Beatitude”, seja por sua independência da paixão, mesmo alegre, seja porque a alegria ativa que acompanha o conhecimento da essência permite asceder como que a uma religião em que Deus não está impassível, mas tem por nós o mesmo amor que temos por ele.
O exame de certa
objeção endereçada a Spinoza por Leibniz me parece ser especialmente oportuna
por seu caráter comum. Com efeito, penso que seria batante fácil encontrar o
seguinte argumento: as idéias de essências são análogas a formas ou figuras
matemáticas. Essas essências na eternidade se conservam sem memória ou
imaginação, como a eternidade de um círculo ou de um triângulo. Para que então
deveria o ser humano se aperfeiçoar, procurar asceder a graus mais altos de
conhecimento, se na eternidade a essência é sempre a mesma realidade impessoal,
indiferente ao seu próprio ser?
Essa objeção ressoa
com o que vimos ser a opinião de Sciacca sobre o espinozismo. Mas também, em um
outro plano, com a interpretação de Renault-Ferry ao conceito
Guattari-deleuziano de inconsciente maquínico como sujeito “indiferente”, “zumbi
atravessado de mensagens”, sem personalidade, ou, o que tudo isso quer
significar: conceito de sujeito que integra o registro contemporâneo e
multiforme da heteronomia, esse registro que se inscreve nos antípodas do ideal
de autonomia que formou a consciência moderna como pertencendo à missão
emancipadora da razão, desde Kant e Hegel.
Haverá ocasião de
aproximar, sem dúvida, a construção do conceito de inconsciente maquínico e a
filosofia de Spinoza. Por ora, será importante mostrar como essa objeção de
Leibniz se deve à interpretação, já criticada por Deleuze, que visa o
espinozismo a partir de um paradigma matemático quando as noções comuns são
preferencialmente de tipo biológico. Mas com isso o que se ilumina é o que
vimos ser afirmado por Bréhier como visão de conjunto do pensamento de Spinoza
em termos de “uma doutrina de salvação pelo conhecimento de Deus”. Apenas é
preciso compreender ‘salvação” de um modo não teológico, mas existencial.
Ora, essa crítica, no
que tange à ambiência contemporânea, evolui de maneira curiosa, pois o que a
informa é uma noção de subjetividade ligada à consciência como único modo de
inter-relacionar independência, autonomia e vontade, enquanto caracterizando os
privilégios do sujeito racional. Quanto a Deleuze, sua rejeição desse complexo
de noções interligadas pareceu muito radical e inovadora, daí ter suscitado
tanta desconfiança e más interpretações. No entanto, ela deveria ter sido vista
como usual pelo menos desde Marx, pois envolve, ainda que conceituando de modo
bem menos simples até porque se reveste de um maior alcance transdisciplinar, a
idéia de consciência como efeito “ideológico”, a pretensa autonomia do sujeito
não podendo ser analisada na exterioridade das condições sociais, estruturais,
que faz a miragem desse sujeito – o que já se designou alhures como o efeito
ideológico elementar.
Aqui o interessante é
destacar que essa crítica da consciência já está presente em Spinoza, uma vez
que a consciência é o efeito das percepções que se conjugam à imaginação no
primeiro gênero. A consciência é esse lugar de uma autocompreensão forçosamente
inadequada, como se o sujeito fosse o correlato do objeto, e ao mesmo tempo de
tudo o que possui o caráter vago, casual, logo, onde não se apreende o nexo das
causas. Mas se o segundo gênero é o lugar da razão, onde a autocompreensão já
se forma por esse nexo causal, logo, possuindo o caráter do organizado, não do
casual, por que é necessário um terceiro?
Em todo caso, desde o
segundo gênero, já se está no âmbito do pensamento, não apenas da consciência.
Ora, a autocompreensão que decorre do segundo gênero se constitui da idéia de
nós mesmos enquanto partes do universo, nisso que temos de comum com todas as
outras partes. Assim, ele nos permite compreender as leis das afecções, mas não
subtrai inteiramente o ser humano dos conflitos das afecções passivas,
sobretudo porque tudo o que rege está no domínio da duração. É verdade que as
leis da natureza envolvem a eternidade, mas não aquilo mesmo que é a
eternidade, e sim o que na duração se explica pela existência ou modo de ser da
substância eterna. O conhecimento do terceiro gênero deve atingir
intuitivamente a dependência necessária que relaciona a singularidade à
natureza de Deus e de seus atributos.
Leibniz, conforme
Deleuze, ao fazer como se a eternidade da alma no espinozismo pudesse parecer
com uma verdade matemática, negligenciou inteiramente o que separa o segundo e
o terceiro gêneros de conhecimento. Bréhier enuncia essa irredutibilidade do
seguinte modo: apreendendo-se inicialmente como ser finito e singular (primeiro
gênero), depois vendo-se reabsorver na necessidade universal (segundo gênero),
e então se compreendendo como um ser singular mas eterno, ser cuja
singularidade se apreende decorrendo da natureza mesma de Deus. O que se deve
agora empreender é a inteligibilidade prática dessa compreensão do terceiro
gênero.
Conforme uma visão de
conjunto, porém, e detendo-nos um pouco mais na relação entre os gêneros de
conhecimento, constatamos que o espinozismo apresenta um percurso interessante.
Inicialmente temos a transição do infinito ao finito, da substância aos modos.
Agora temos a transição da duração à eternidade, dos modos à substância, mas
não como antes, isto é, como se fossem níveis de inteligibilidade relacionáveis
mas irredutíveis. Assim do infinito ao finito temos uma transição de um
universo de inteligibilidade a outro, mas da duração à eternidade recuperamos o
sentido da união da natureza inteira e do nosso próprio ser com a natureza.
Creio que verdadeiramente só com o terceiro gênero se pode afirmar, existencialmente,
que a conclusão encontra todas as suas premissas, como se a existência do ser
humano recuperasse sua integridade por recuperar, não ao modo de uma
deficiência conforme Lacan, sua unidade profunda com o universo.
Ora, no segundo
gênero algo dessa conexão com a eternidade já se vê recuperada. Spinoza o
designa como conhecimento sub quandam aeterni specie, sob uma certa
forma de eternidade. Mas só o terceiro gênero é sub specie aeternitatis,
sob a forma da eternidade. Bréhier vê aqui uma continuidade entre o
segundo e o terceiro gêneros, precisamente porque Spinoza não concebe a vida
espiritual como volta a algum estado original perdido, mas como um progresso
devido a um método. Ora, é sabido que não há como formar o terceiro gênero a
partir do primeiro, somente a partir do segundo gênero. Assim, Bréhier mostra
que esse progresso não consiste na transição de uma consciência imperfeita a
uma consciência perfeita mas de um estado de perfeição a um estado que dele é
consequência.
Contudo a partir
desse trecho a exposição de Bréhier parece muito marcada por uma interpretação
geometrizante do terceiro gênero, o que torna bem mais interessante o texto de
SPE (cap. XIX, Beatitude), cujo exame inevitavelmente nos fará recordar
pontos já observados anteriormente quando se tratou de apresentar os outros
dois gêneros. Aí, com efeito, Deleuze começa por definir claramente o que
pertence a cada gênero. O primeiro gênero tem somente por objeto os encontros
entre partes, conforme suas determinações extrínsecas, o segundo se eleva à
composição das relações características e o terceiro concerne às essências
eternas como conhecimento da essência e de Deus e das essências particulares
assim como são em Deus e são concebidas por Deus. Os três gêneros se relacionam
às três ordens da Natureza: a ordem das paixões, a ordem da composição de
relações e a ordem das essências.
As essências são res
physica, grau de potência ou de intensidade. Penso que nunca será demasiado
sublinhar a importância desse enunciado. Pois ele designa uma pertença
existencial concreta do indivíduo à existência, não apenas um “estar”, mas um “ser”.
Ora, todas as essências se compreendem na produção de cada uma. Sob esse gênero
não se trata mais de conveniências relativas, mais ou menos gerais entre os
modos existentes, mas da conveniência singular e absoluta de cada essência com
todas as outras. Conhecer alguma coisa sob o modo da eternidade determina o
conhecimento de mais e mais coisas sob esse mesmo modo. As essências são assim
expressivas, pois elas expressam todas as outras no princípio de sua produção e
expressam Deus como o princípio mesmo que contém todas as essências e cada uma
em particular.
O Eu, as coisas e
Deus são as três idéias do terceiro gênero: idéia adequada de nós mesmos, isto
é, de nossa própria essência; idéia adequada do maior número de coisas
possível, sempre em sua essência e sob o modo da eternidade; e idéia adequada
de Deus que contém todas as essências. Essas idéias implicam alegria, desejo e
amor. Alegria ativa, pois elas se explicam por nossa própria essência e se
acompanham da idéia adequada dessa essência. Não há outra causa formal do
terceiro gênero do que nossa potência de compreender e de agir. Desejo de
conhecer mais coisas e amor por Deus, pois nossa potência de agir é a potência
de Deus mesmo enquanto Deus se explica por nossa essência singular.
Novamente encontra-se
a peculiaridade da partição que Spinoza institui entre o inato e o adventício,
agora na perspectiva das ações e paixões. Todas as afecções passivas são
adventícias, produzidas do exterior. As afecções ativas são inatas, pois se
explicam por nossa essência ou potência de compreender. Ora, às noções comuns
se relacionam alegrias ativas, mas estas decorrem do aumento da potência de
agir como sua causa ocasional. Eis porque Deus não experimenta sentimentos de
alegria nesse gênero, nesse nível sendo concebido como impassível, em Deus não
podendo se propor algum aumento ou transição desde um estado passivo a um
ativo, ou desde um poder menor a um poder maior de agir.
Mas as idéias do
terceiro gênero não se explicam apenas por nossa essência, elas consistem na
idéia dessa essência mesma e de suas relações, seja com a idéia de Deus, seja
com as outras essências sob o modo da eternidade. Nossa essência como causa
formal, a essência de Deus como causa material, nos permitem conceber todas as
idéias assim como são em Deus, logo, formamos assim idéias e sentimentos ativos
que estão em nós como imediatamente estão em Deus. Pensamos como Deus pensa,
experimentamos os sentimentos que Deus experimenta. Nesse gênero, portanto, a
idéia de Deus não corresponde a de um ser impassível, mas como Deus se ama, ele
nos ama.
Sem dúvida as noções
comuns são causas ocasionais da transição do segundo ao terceiro gênero, sendo
por isso que não se pode asceder a esse último a partir do nível mais inferior.
Mas essa “transição” surge agora como uma aparência. Na realidade o que a noção
comum permite é a autocompreensão assim como já e desde sempre somos, o
espírito parece atingir isso que no entanto ele já e desde sempre possui. O que
de modo algum atenua o sentido progressivo do método, que vimos observado por
Bréhier.
As alegrias que
decorrem das idéias do terceiro gênero são designadas Beatitude. Não apenas
aumentam nossa potência de agir, mas derivam absolutamente de nossa essência.
Nossa alegria é uma parte da alegria de Deus, essa alegria que pertence a Deus
enquanto ele se explica por nossa essência. Aqui Deleuze situa a forma final do
sistema da expresão, a saber, a identidade da afirmação especulativa e da
afirmação prática, identidade do ser, da substância e de Deus com a alegria.
Na duração não se
pode postular uma experiência exclusiva de alegrias ativas do terceiro gênero.
O percurso que vai das idéias inadequadas às noções comuns, destas à Beatitude
precisa ser refeito a cada vez, não supondo uma ascese de uma vez por todas mas
sim um modo de viver, uma experiência constante na duração. Spinoza afirma
assim que tão logo se oferece uma pausa na interação com algo que se impõe a
nós como uma paixão (primeiro gênero) podemos perceber que somos livres para
organizar nossas idéias (segundo gênero) e sobretudo para aportar o mais
depressa possível à idéia de Deus (terceiro gênero). Naturalmente se pode
esperar algum progresso na continuidade de aplicação do método, pois é muito
mais custoso travar ou apaixonar um sistema ordenado de afecções do que uma
experiência que se mantém ao acaso.
Ora, o que se almeja
é fazer com que a maior proporção de nós mesmos se preencha de ações ao invés
de paixões. Mas se isso não se relaciona apenas à duração, em que importa à
ordem da eternidade?
Mas como é que
estamos conceituando “eternidade”? Ora, Deleuze mostra que habitualmente,
pensamos na imortalidade sob um certo postulado de simplicidade da alma, o corpo
sendo divisível mas a alma sendo indivisível, sem partes, a eternidade da alma
sendo uma constância na duração independente do corpo, a alma mesma sendo
concebida como uma memória puramente intelectual à imagem de quê se define a
consciência de sua própria duração independente do corpo. Esse conceito da
eternidade da alma se deve à tradição desde Platão a Descartes. Spinoza não
segue essa tradição. Inversamente, ele postula uma oposição de natureza entre
duração e eternidade, impossibilitando que se pense uma à imagem da outra.
Inicialmente é
preciso observar que a alma tem partes tanto quanto o corpo, uma vez que ela é
idéia do corpo existente. E se a alma tem um parte intensiva absolutamente
simples e eterna que constitui sua essência é somente enquanto que expressa
assim a essência mesma do corpo não menos simples e eterna. Duração e
eternidade coexistem na alma como no corpo. Ambos duram enquanto lhe concernem
partes extrínsecas, ambos são eternos enquanto lhe concernem uma parte
intrínseca como grau de intensidade no atributo, correspondendo aí a uma
modificação da substância mesma enquanto essência singular.
Podemos notar que os
conceitos que enunciam a doutrina tradicional da eternidade da alma só se
tornam acessíveis por uma revelação. Mas não há necessidade de revelação, e sim
de pensamento e razão, para compreender em que consiste a eternidade da alma.
Enquanto ela expressa a essência do corpo ela é eterna como parte intensiva ou
grau de potência ou potência de compreender, sua eternidade estando já em ato
mesmo enquanto dura o corpo. A eternidade da alma é objeto de uma experiência
acessível aqui e agora, desde que nos instalamos no terceiro gênero de
conhecimento e formamos a idéia de nós mesmos assim como ela é em Deus.
Ora, na eternidade a
alma é potência de compreender. Mas na duração ela é o que ela é na eternidade
e vice-versa. A duração pode ser concebida como uma prova, o que garante o
sentido ontológico do pensar. Se a alma na duração não ascede ao exercício do
terceiro gênero, se ela só pode perceber de si mesma os hábitos que a mantém no
domínio da paixão, se ela só se apreende como esse ser extrínseco, ao se
destacar da duração ela permanece desse mesmo modo na eternidade. Em outros
termos, poder-se-ia afirmar: ela o está sendo, na eternidade, mesmo agora. A “realidade”
ou potência da alma é absolutamente correlacionada ao modo como ela preenche a
sua potência.
Mas supondo
exclusivamente a eternidade, independente da duração, podemos supor almas
completamente inertes, lá onde nada há de extrínseco, de partes, de paixão, dos
hábitos ligados a essas partes e paixões. Mas podemos conceber almas
eternamente ativas que nada perdem de si mesmas na eternidade. No limite, um
sistema sem castigo ou recompensa no além, mas muito mais do que isso, uma
escolha entre o nada ou o ser, eternos.
O poder de ser
afetado subsiste eternamente como nossa essência e a idéia de nossa essência.
Na eternidade o que resta do ser humano é absolutamente efetuado, a essência,
assim como é concebida por Deus, continua a ser inteiramente afetada por
afecções ativas do terceiro gênero – desde que a alma não tenha se feito à
imagem de suas paixões que só podem ser efetuadas na duração.
Creio que esse
pensamento de Spinoza não apresenta tantas dificuldades quanto possa aparentar.
Poder-se-ia indagar: como supor essa espécie de transformação da essência na
duração, se ela se entrega à paixão tornando-se incapaz de ser afetada na
eternidade pelas afecções ativas? Ora, uma psicologia da paixão se encontra
assim enunciada, de certo modo. Pois uma alma apaixonada se esquece de si
mesma, só se autoapreende como o ser dessa paixão, síndrome de Werther. Não
tanto uma transformação, o que a duração impõe a esse tipo de experiência é a
fetichização de si, do mesmo modo que a mercadoria, conforme Marx, concretiza a
relação entre seres humanos que se vêem tipificados na sua produção, logo,
socialmente objetivados ao invés de manter a autocompreensão de sua igualdade
sócio-existencial fundamental.
O importante aqui é
reter a irredutibilidade da essência tal como platonicamente conceituada, isto
é, como uma idéia sempre idêntica a si mesma, e a essência como grau de
potência, poder variável de ser afetado e afetar, como em Spinoza.
Mas essa via de
salvação do espinozismo nada tem de fácil. Creio que ela poderia ser aproximada
ao taoísmo, mas aqui se torna mais oportuno observar em que ela se assemelha ao
Zen. Algo que ilumina dentro da experiência comum da existência, não que aponta
para o ascetismo ou as “iluminações” bizarras, experiências de isolamento do
mundo. Com efeito, a descrição da vivência do terceiro gênero se assemelha ao
estado da mente alerta, desperta, ágil, algo como se tornar completamente
(integralmente) expressivo, ao invés de repetir fórmulas nas situações cotidianas.
Quanto a isso é interessante notar que Paul Wienpahl (La sustância del zen)
registrou que nas expressões do Roshi Goto a palavra “virtude” se encontra “como
a usava Spinoza”, isto é, com o sentido de “força”, que entendo estar sendo
aplicada no sentido variável da potência.
Não se propõe por
esse meio que tudo se transforma num estado estático permanente. Ninguém deixa
de confrontar problemas na duração. A oposição que se está mostrando ser
inteiramente assinalável e real é que, por um lado, sabemos que são muitos os
que permanecem a maior parte do tempo fixados nas paixões tristes que os
separam de sua essência e a reduzem ao estado de abstração. Mas devir ativo,
tornar-se expressivo, expressar a essência de Deus, ser nós mesmos uma idéia
pela qual a essência de Deus se explica, ter afecções que se explicam por nossa
própria essência e que expressam a essência de Deus, eis um roteiro nada
desprezível capaz de conduzir à felicidade nessa vida: Liberdade ou
Beatitude...
A Teoria do
Conhecimento
O Método
Até aqui tenho
utilizado o termo “método” com uma certa imprecisão, ora no sentido de um
roteiro espiritual rumo ao grau supremo de conhecimento, ora naquela acepção
que se tornou mais amplamente aplicada desde Descartes. Em Bréhier os dois
sentidos também se encontram. Agora, porém, trata-se exclusivamente dessa
segunda acepção. Vemos assim o papel decisivo de Descartes, pois se as tábuas
de Bacon e as prescrições de Galileu já haviam situado o pensamento, no
alvorecer da modernidade, em uma relação fundamental com a experiência, somente
com Descartes a necessidade do método alcança a região mesma da filosofia do
conhecimento.
Bréhier mostra,
quanto a isso, que Descartes havia estabelecido a aquisição de conhecimentos
certos e a descoberta de conhecimentos novos a penas pela força natural do
intelecto. O método deveria consistir assim na “reflexão sobre a ordem que
permite atingir esses resultados”, na expressão de Bréhier. O método não
precede a pesquisa e a operação intelectual efetiva, ele é posterior, saber do
saber, idéia da idéia. Reflexão sobre a idéia verdadeira, naquilo em que essa
idéia é um instrumento ou uma regra para obter outros conhecimentos.
Ora, o método
cartesiano começa pela evidência, as certezas naturais ao espírito, para
mostrar, pela regra da ordem, como essas certezas podem engendrar conhecimentos
novos. A dúvida exclui tudo o que não é evidência, a existência de Deus,
garantida pelas provas, vindo a garantir, por sua vez, a adesão da vontade ao
que o intelecto percebe como evidente.
Vimos como Spinoza
recusa o procedimento da dúvida cartesiana. Aqui, interessa sobremodo essa
recusa no que se relaciona ao estatuto da idéia verdadeira – que possui sua
certeza em si mesma. A certeza é a essência objetiva da coisa uma vez que se a
apreende pelo intelecto. Assim, nenhuma dúvida real, nenhuma necessidade de
garantia, incide, pois desde que o espírito possui idéias verdadeiras ele não
pode deixar de saber que são verdadeiras.
Bréhier localiza
nesse estatuto da idéia verdadeira, naquilo que se opõe às outras idéias, o
fundamento do espinozismo, assim como a doutrina das naturezas verdadeiras em
Descartes. Viemos, com efeito, que idéias como as de Deus, de substância e de
extenso fundamentam a Ética. Se pudessem ser supostas como forjadas pelo
espírito, como assegurar a mensagem do texto numa base ontológica, filosófica,
não fictícia ou simplesmente fantasiosa?
Bréhier desenvolve
assim a teoria das idéias em Spinoza, mostrando como ele opõe a idéia
verdadeira da idéia fictícia e da idéia falsa. Ora, as idéias não verdadeiras
apresentam uma indeterminação, de modo que não se pode, a partir do nexo
afirmado entre sujeito e predicado naquilo que ela enuncia, deduzir a sua
adequação. A idéia fictícia permite a alternativa (ser ou não ser, por exemplo,
a alma quadrada ), a idéia falsa não fornece claramente a natureza do sujeito a
partir do predicado (Deus enganador). A determinação da idéia verdadeira contém
a razão do que se pode afirmar ou negar do objeto, assim como no espírito do
mecânico se ajustam as relações das partes do mecanismo. O caráter intrínseco,
como forma do verdadeiro, não deriva de uma correspondência com a realidade
exterior, mas do acordo, a necessidade, com que os componentes se ajustam em um
conceito.
Na produção das
idéias matemáticas, o intelecto é soberano, ele as forma de modo autônomo, de
idéias simples, inteiramente determinadas como extensão, quantidade, movimento,
às idéias complexas, como a de esfera. A questão de saber se o conhecimento da
natureza corresponde a essa autonomia do intelecto ou se depende da experiência
se propõe, portanto, numa relação essencial com a formação das idéias
matemáticas, ou melhor, com a natureza dessas idéias, seu modo de operar.
Postular um
conhecimento autônomo do intelecto só tem sentido se ele puder conceber, em
relação à natureza, uma essência real, causa universal de todos os efeitos da
natureza, assim como a definição do círculo determina todas as suas
propriedades. A inteligibilidade da natureza, enquanto produto autônomo do intelecto
depende da dedução do seu princípio.
Aqui Bréhier mostra a
irredutibilidade dessa posição à espécie de dedução neoplatônica, do Uno ao
Múltiplo, pois Spinoza pensa que nessa hipótese os níveis que se pretendem
derivar não pertencem à mesma ordem de realidade, de modo que de coisas fixas e
eternas propõe-se a inteligibilidade de coisas mutáveis, como se não houvesse
irredutibilidade entre Eternidade e Duração. Ora, as verdades ou idéias
matemáticas, que se deduzem umas de outras, são eternas, assim como na ordem da
natureza só se pode deduzir, validamente, o eterno do eterno. A natura é
essa ordem de Eternidade, seu conhecimento não se estende ao que se submete à
mudança. Ele abrange, pois, o conjunto de leis que formam a estrutura imutável
do real, podendo assim compreender como se ordenam as coisas singulares.
Res fixae , coisas inteiramente determinadas como essências ou verdades eternas,
inesgotáveis, de modo que a dedução, precisando ser muito bem ordenada, jamais
forma um todo mas a cada vez, orientando-se pelo problema a solucionar, ilumina
um elo na corrente, um momento do progresso universal – Bréhier sublinha que em
Spinoza esses problemas são os da natureza humana, sua potência e sua união com
Deus.
Ora, Bréhier pensa
que a exposição geométrica da Ética de Spinoza teve como modelo as Respostas
às Objeções, de Descartes, mas que, inversamente à Descartes, a Ética não
adota um procedimento de invenção. Assim, ainda que o texto pareça uma
ordenação sintética pelo que os axiomas permitem derivar proposições, as
definições engendrar definições, até formar um todo coerente, o método de
Spinoza é nitidamente analítico. Quanto a isso o essencial é o Tratado de
Correção do Intelecto, onde se vê que a descoberta da noção de Deus resulta de
uma exigência do método, assim como da natureza do intelecto que forma idéias
positivas, como o infinito, antes das negativas que lhe são inversas – assim
Deus é a idéia positiva por excelência, ser absolutamente infinito.
Por esse meio,
Bréhier deve salientar a irredutibilidade entre a substância espinozista e a
substância aristotélica, pois a idéia de Deus em Spinoza se forma como conceito
absoluto, no sentido de que não precisa de qualquer idéia ou conceito mais
básico para ser pensado, enquanto a substância do peripatetismo só pode ser
pensada por aquilo que ela não é, uma vez que o intelecto se limita a atingir
os próprios e os acidentes, a substância permanecendo esse “fundo oculto” das
coisas.
É notável como essa
oposição marcada por Bréhier localiza a epistemologia do peripatetismo numa
exterioridade completamente paradoxal do saber – já que Aristóteles
mesmo enuncia o conhecimento como sendo universal, essencial. No entanto, penso
que ela permite uma extensão pela qual se opõe a formação do conceito como
absoluto, em Spinoza, e sua formação relacional em Aristóteles, pois aqui a
substância se apreende a partir de uma série de oposições fundamentais:
essência e acidente, essência e próprios, ato e potência.
O que permite também
observar como a natureza mesma do intelecto se lança nos dois casos, pois o
absoluto da idéia de Deus se subentende como fundado na positividade mais plena
do pensar, a partir da noção de infinito, enquanto que o relacional da
substância no peripatetismo estende uma compreensão articulada do intelecto com
o Ser que ele apreende no processo de abstração. Seria preciso assim
desenvolver a irredutibilidade do mundo moderno à physis no sentido grego para
bem colocar essa irredutibilidade, tarefa a que Bréhier não se propõe.
Ora, Deleuze, numa
perspectiva bem inversa, mostra que o método cartesiano é sem dúvida analítico,
pois ele enuncia: a) uma precedência, em nós, do conhecimento dos efeitos; b) o
envolvimento de um conhecimento confuso da causa nesse conhecimento imediato do
efeito; c) finalmente, a inferência ou implicação que permite esclarecer isso
que está envolvido no conhecimento do efeito, isto é, que permite enunciar
claramente o conhecimento da causa. O que evidencia a dependência do método
cartesiano não só da inferência da causa a partir do efeito, mas da suficiência
dos critérios de clareza e distinção quanto à idéia.
Enquanto que Spinoza
aponta a insuficiência desses critérios mostrando a necessidade de estabelecer,
quanto à idéia, não apenas se é clara ou distinta, mas sua adequação. A idéia
clara da causa pode bem ser implicada da idéia do efeito, sem que se siga daí
um conhecimento adequado da causa, como quando se infere de uma percepção clara
do corpo, sua união com a alma, e dessa união a causa dessa percepção – sem que
se possa compreender assim a natureza da percepção ou da união.
A crítica de Spinoza,
conforme Deleuze, visa sem dúvida o método cartesiano de análise. Á inferência
Spinoza opõe o método sintético que mostra como o conhecimento do efeito, se
verdadeiro, depende do conhecimento verdadeiro da causa. Mas o que Deleuze
afirma assim é que Spinoza está opondo Aristóteles a Descartes, repondo a
exigência aristotélica do conhecimento como sendo apreensão de uma conexão
causal, não apenas em si mas também em nós, já que não só do ponto de vista de
fato as causas antecedem os efeitos, mas também do ponto de vista do intelecto
ou do conhecimento. O conhecimento do efeito é um conhecimento mais perfeito da
causa, pois o conhecimento adequado é, conforme o peripatetismo, o conhecimento
da causa, isto é, conhecimento da essência, a causa sendo o meio termo que
funda a conexão do atributo ou predicado com o sujeito, dos acidentes à
essência – o conhecimento adequado é o da razão da qual derivam todas as
propriedades que se atribuem validamente à coisa.
Bem inversamente a um
conhecimento da exterioridade, dos atributos, em relação a algo que permanece
oculto, o método de síntese que é comum a Aristóteles e Spinoza faz confluir a
procura da causa com a da definição ou enunciação da essência, enunciação
contínua que reúne forma e matéria (causas formal e material) de modo a
salvaguardar inteiramente a unidade do objeto. O problema nesse caso, bem
expresso já por Descartes, é que não pode haver objeção à síntese no âmbito da
matemática, pois a matéria é clara, conveniente com os sentidos, o que não se
verifica de modo algum quanto ao conhecimento da natureza – físico ou
metafísico. Aqui, como postular definições ou apreensão imediata da causa,
princípio ou meio termo?
Descartes pensa assim
evidenciar o quiproquó das sínteses, pois elas pretendem começar pela causa,
mas na realidade só apreendem de início os efeitos – o que Descartes pensa ser
o caso no processo indutivo do conhecimento em Aristóteles, que deve proceder a
abstração da causa desde uma apreensão mais ou menos confusa de um conjunto de
efeitos. Assim, se há alguma possibilidade de síntese, é só lá onde já houve
uma análise que iluminou a causa a partir do efeito, ainda que essa análise
tenha permanecido apenas implícita ou mesmo forcluída no discurso.
Deleuze acentua que
algo comum a Descartes e Spinoza é o fato de nenhum deles localizar a questão
do método numa separação de ordens, o ser e o conhecer, de modo que se a
síntese coincide com a ordem do ser, tal consequência não tem importância, o
problema sendo apenas saber se o método sintético pode ou não enunciar verdades
a propósito dos princípios que aceita, sem que se venha apontar uma análise
prévia – ou seja, se existe um método de invenção, real, válido na ordem do conhecer.
Mas para estabelecer
firmemente a positividade da síntese, Spinoza deve não só apontar as
insuficiências da análise, como quando mostra a necessidade do adequado, não
apenas do claro e distinto. Aqui Deleuze repõe algo da argumentação de Bréhier,
pois ele destaca o modo como Spinoza enuncia a percepção pela qual a essência
de uma coisa é deduzida de outra, “mas não adequadamente” , não apenas “quando
induzimos de algum efeito a causa” mas também “quando se conclui de um
universal que é sempre acompanhado de uma propriedade” (Col Pens. Espinoza, tratado
da correção do intelecto, p. 46-7).
No entanto, Deleuze
ilumina bem mais o sentido dessa questão, pois não só ele sublinha a ironia
desse procedimento que une de certo modo Aristóteles e Descartes, mas ele
expressa de modo inequívoco que a insuficiência da enunciação de propriedades a
partir de um universal é algo que Spinoza atribui “aos Antigos”, não apenas ao
peripatetismo. Assim, ao mesmo tempo em que se mostra a modernidade do
espinozismo, verifica-se que Spinoza mesmo tinha plena consciência do que
estava em jogo – o que para os antigos era impensável, a saber, conceber a alma
como “autômato espiritual”, o que equivale a afirmar o pensamento como
determinado por suas próprias leis. A causa formal de uma idéia não é um
universal abstrato, mas depende para se compreender como pode ser formada pelo
intelecto, do paralelismo, da articulação estrutural da substância expressa ao
mesmo tempo por todos os seus atributos.
Ora, o que Descartes
objetava ao método sintético era sua insuficiência, efetivamente assinalável,
enquanto um procedimento nos moldes antigos que permanecia no limite da
abstração, do universal. No entanto, Spinoza mostrou que Descartes não estendeu
a potência inerente à síntese, do ponto de vista moderno, pois a manteve
restrita a um papel de exposição. Aqui penso que se poderia desenvolver uma
apreciação da noção aristotélica de substância mais voltada ao seu próprio a
priori epistêmico, isto é, à physis, de modo que o que se enuncia como
universal abstrato poderia bem estar se endereçando no sentido do singular a
partir da ambição ontológica – enquanto esse pensamento se enraíza no Ser – do
peripatetismo.
No entanto, Deleuze,
interessado no desenvolvimento das consequências do paralelismo na teoria do
conhecimento do espinozismo, prefere enunciar o que se pode compreender agora
como método sintético: a) é reflexivo, isto é, faz conhecer a nossa
potência de compreender; b) é construtivo ou genético. À
semelhança do modelo matemático, a síntese forja, “finge”, ou seja postula
uma causa em função de um efeito, de modo que ao invés de implicar
contradição, como se demonstrando a propriedade da objeção de Descartes, o que
ocorre é que por esse “mínimo de regressão” podemos atingir “o mais depressa
possível”– conforme a expressão preferida de Spinoza – a idéia de Deus como
fonte de todas as outras idéias; c) é dedutivo, pois as idéias que
decorrem da idéia de Deus são idéias de seres reais, sua produção sendo ao
mesmo tempo dedução do real, “ a forma e a matéria do verdadeiro se
identificando no encadeamento dos dados”(SPE, p. 146).
O que se enuncia
assim nesse deslocamento do antigo ao moderno é mais profundamente algo
relacionado à noção de causalidade. E quanto a isso penso que se pode afirmar
ser o momento mais propício à compreensão da imensa novidade do espinozismo, a
razão, também, pela qual ele tinha tão poucas chances de se fazer entender por
seus contemporâneos.
Já vimos a
importância do deslocamento da noção de causa na ambiência da transição da
metafísica da substância à da subjetividade, por exemplo, em Leibniz. E o
desenvolvimento da filosofia moderna deverá comprometer a causalidade de modo
sempre mais acentuado, do empirismo ao transcendental kantiano. No entanto, o
que Spinoza opera é, ao invés de uma modulação individual como no
leibinizianismo, uma compreensão do singular a partir da transformação do que
seria uma relação causal em uma relação de articulação, compreendendo o real estruturado
da substância.
Assim tanto ele só pôde
ser vituperado pelos Bayle escandalizados pela extensão como atributo de Deus –
o que se visava como uma afirmação de que Deus é qualquer das coisas
banais ou mesmo repugnantes do cotidiano – quanto só pôde ser bem considerado
ali onde ora se tratava de compreender espiritualmente a articulação, como em
Schelling ou no século XIX, ora, o que já estava mais ou menos implícito aí,
onde se trata de uma compreensão do sistema do Real, a partir do
pós-estruturalismo onde se devia mostrar a recirculação da história ou da
imanência na Estrutura.
Deleuze sublinha a
inserção do problema da causalidade nesse ponto, pois após a enunciação
completa do método ele desenvolve a comparação entre o manejo da causa sui
cartesiano e espinozista, mostrando que somente Spinoza pôde utlrapassar a
analogia ao estabelecer a causalidade de si, como o que se atribui à Deus,
no mesmo sentido que causa de todas as coisas.
Chauí salienta o
papel do termo história na economia do tratado da correção do
intelecto, pois aqui Spinoza “chama de ‘historieta da mente ou das
percepções’” a ordem (Ordo) que empregamos naturalmente para conhecer
(NV, p. 572-5). Esse relato é como uma descrição que repõe a investigação do
encadeamento vivido no processo de conhecer, mas ao mesmo tempo ele fundamenta
a inteligibilidade nesse vivido enquanto expressão em nós de uma idéia
absolutamente adequada, certa, verdadeira. Ao mesmo tempo, já que
formada no e pelo intelecto, essa idéia fornece a certeza do sujeito, sua
inserção ontológica, e o critério de validez do conhecimento. A inserção
ontológica do método é autonomia do Sujeito que pensa, mas, como mostra
Chauí, de modo algum como pretende Descartes, essa autonomia depende de propor
o Cogito ou “a mente considerada apenas nela mesma”.
Bem inversamente,
trata-se de imanência quando a autonomia do sujeito é, no mesmo lance, sua
inseparabilidade da ordem da Natureza – articulação entre a idéia reflexiva do
intelecto como instrumento inato e a idéia reflexiva do Ser Perfeitíssimo como
idéia originária que garante a comunicação de todas as essências formais que se
deduzem umas das outras, isto é, a ordem da Natureza inteira. Isso que o quarto
modo de perceber, no tratado de correção do intelecto enuncia como aquela “emque
a coisa é percebida por sua essência unicamente” ou por sua causa (Col Pens.
Espinosa, P. 47). A imanência é então, precisamente, esse vínculo entre “Ordem
de vida, ordem da Natureza, ordem do conhecimento”, expresso na polissemia do
termo Ordo, como observa Chauí.
Eis porque o
conhecimento não se separa tampouco de uma Ética, o que no tratado se endereça
mesmo num alcance terapêutico: a “experiência desordenada”, conforme a
expressão de Chauí, que o início do texto pinta dramaticamente como sendo a do
ser humano comum na corrente da experiência do mal e do bem, se insere no
acaso, se limita à duração. Mas se há correção (Emendatio) postulável,
se há mesmo exigência dessa correção, é porque o intelecto compreende a
Eternidade. O ser humano se vê assim convidado a pensar, não como se do
mutável pudesse aceder ao imutável no mundo da duração, mas sim ao conhecimento
das leis imutáveis que regem qualquer espécie de mudança. A emendatio,
como observa Chauí, não se opõe à experiência, mesmo se ela se apóia na idéia
inata, mas ordena a experientia do fortuito numa experiência de
conhecimento.
O que a imanência
garante é que essa experiência do conhecer só pode ser uma experiência de Amor,
o que também impede que se reduza esse “inatismo” a um idealismo. Conhecer a
natureza é conhecer Deus na experiência mesma da auto-compreensão mais
iluminadora. A alegria proporcionada pelo conhecimento do terceiro gênero na
Ética está sempre na proximidade da idéia de Deus e da idéia de nós mesmos
(Ética, livro V, proposição XXXII).
Imanência e
Existência se tornam convergentes assim, pois trata-se de uma experiência
somente acessível intelectualmente, isto é, espiritualmente ou do ponto de
vista humano, aqui mesmo onde “humanidade” está se enunciando de um modo
irredutível não à Natureza enquanto campo de imanência, mas ao Ser enquanto
realidade exterior assimilável objetivamente por uma subjetividade que se
apreende ou como “alma”– ser objetivamente concebido na exterioridade da
criação, coisa entre coisas – ou como “sujeito”, o que põe frente a si o
objeto.
“O Amor intelectual
de Deus, que nasce do terceiro gênero de conhecimento é eterno”, como enuncia a
proposição XXXIII do livro V da Ética. Ora, aqui podemos reunir o método de
Spinoza, naquilo que ele enuncia uma teoria do Conhecimento e naquilo em que
ele expressa o seu alcance crítico como hermenêutica das Escrituras, aí onde se
trata de reverter o Signo e compreender o Sentido.
Pois o Conhecimento
não é uma experiência passiva. Se ele depende de uma autonomia do intelecto, se
ele só pode se garantir pela existência absoluta de Deus, ele só atua uma
seleção, na vida, do ativo e da potência. Pode-se permanecer no desordenado,
pode-se pretender ficar limitado à duração, pode-se preferir a “ordem”
interpretada como mandamento ou signo. Na eternidade o que permanece é o que se
fez enquanto espírito, isto é, o que se pode atuar como Amor ou Compreensão, lá
onde Existir = Pensar eternamente.
O espírito ou
existência se cria, ele se faz sua existência eterna, não preexistente de modo
independente de suas escolhas e quanto a essas, elas portam essencialmente
sobre o Conhecer. A saúde e a alegria espiritual na duração provam a aptidão da
alma à existência eterna. Ao ser humano se concede assim uma auto-criação
contínua em nível mesmo de Essência – pois é a essência que está na relação com
a eternidade, assim como o corpo está na relação com a duração.
Já examinamos o texto
de SPE, no qual se mostra que, permanecendo inteiramente circunscrita ao que
pertence à duração, a essência ou alma não Conhece, não Compreende, apenas
obedece, apenas permanece no nível da paixão. Portanto o que resta como
essência, na eternidade? Mas se é apta à ação a essência existe desde
sempre na eternidade, ela subsiste então, eternamente, independente da duração.
A escolha porta sobre algo mais do que o mundo, porta sobre o espírito – de
modo que se torna algo irrelevante se essa imagem da eternidade é uma fábula ou
algo inteiramente impossível de se negar.
A imanência torna a
ligação entre Ética e conhecimento um veículo de liberdade, e aquilo de que a
filosofia de Spinoza liberta é precisamente do constrangimento a que essa
ligação conduz quando se constrói pela via idealista, platônica, de uma moral
que postula mandamentos, princípios, ordens, inteiramente extrínsecas ao
espírito que é, conforme o método de Spinoza, sempre criativo e originariamente
auto-criativo – mais essencialmente, sempre responsável pela Ordem mesma da
Eternidade.
Por uma epistemologia
política:
A haceittas de Duns
Scott, a noção individual de Leibniz, a essência singular de Spinoza, parecem
estar numa progressão consequente, em que o espírito de Hume e o Ego
transcendental de Kant viriam com propriedade se inserir – não fosse esse
procedimento lembrar o tipo de “romance engenhoso” apenas “verossímel para os
ignorantes”, no que, conforme Voltaire, a filosofia de Descartes teria se
convertido após trocar a guia da geometria pelo “espírito de sistema”.
Mas o que poderia
comprometer tão gravemente essa progressão? Sobretudo a verdade dos fatos a
apóia. Seria o caso de, inicialmente, se constatar a ingenuidade do
procedimento que consiste em ignorar a ligação fundamental entre cada um desses
conceitos e o solo epistêmico no qual se enraízam?
Sem dúvida, essa
observação conserva alguma pertinência. Mas ela poderia ser tomada apenas num
certo tipo de démarche, enquanto que se manteria a utilidade, sob certa
perspectiva, de uma visão de conjunto, mais preocupada com a continuidade que
se poderia estabelecer entre aquilo que se verifica irredutível a uma época
anterior e aquilo que, não obstante, se deve a essa mesma época anterior.
Mas se a defesa dessa
perspectiva de conjunto poderia ser ilustrada pela feliz expressão de
Fontenelle, citado por Helvétius: os seres humanos não podem de qualquer modo
que seja, chegar a algo de razoável, senão depois de ter, neste modo, esgotado
todas as tolices imaginávei, previamente apresentadas a título de verdades, já
se revela a duplicidade implicada em seu manejo.
Ora, a inserção aqui
dessa expressão nada tem de casual. Bem inversamente, sua oportunidade decorre
da coincidência de propósitos constatável entre esse afazer de estender linhas
de continuidade, a perspectiva afastada do objeto que isso requer, mais a
ligeireza com que se deve sobrepesar certas oposições mais sutis, e o espírito
do século XVIII, subsequente à época de Spinoza, a época de Helvétius e de
Voltaire, em que Hume e Kant vêm se alojar. Essa época não foi condescendente
com Spinoza, e geralmente só conservou do passado, como algo mais que
considerar obras inteiras redutíveis a poucas contribuições eventuais, o
respeito por Locke.
Assim os dois
argumentos que pareciam se contrapor se convertem finalmente em objeções e são
relevantes para desmerecer qualquer pretensão de um romance do conhecimento,
que veria no subsequente algo devido de qualquer modo ao antecedente – a não
ser na face negativa dessa “continuidade”, assim como apontada por Fontenelle e
sempre avidamente rastreada pelos iluministas. Pois o que é positivo na
descoberta pertence à sua atualidade, não devendo ser considerada de modo
anacrônico. Mas o que realmente penso inviabilizar esse tipo de linha de
dependência é sua relatividade, isto é, não só o que ela impede, mas também o
que ela favorece.
Sem dúvida, o mais
importante é ver que há algo convergente, que se poderia designar no sentido da
progressiva limitação da episteme ao campo de subjetividade que deverá
finalmente desembocar no postulado antropológico de Foucault, a partir do
século XIX. Isso, sem descurar do que se mostra irredutível, não obstante parecer
paradoxal sustentar acaso e necessidade na transmissão do saber através dos
tempos, como progressão e irredutibilidade. Trata-se de modos de ver.
Aqui sobretudo me
parece importante a irredutibilidade de Spinoza, da essência singular, nesse
roteiro da subjetividade. Ora, esse trajeto não poderia ser garantido sem a
incursão da história nesse momento exato que estamos considerando, isto é, a
transição entre os séculos XVII e XVIII. É nesse sentido que considero a
epistemologia de Spinoza, bem menos do que um ponto no percurso ao sujeito
centrado, uma epistemologia política no entanto tão inacessível à
inteligibilidade histórica que já se efetiva desde Voltaire, epistemologia que
ousou pensar esse termo, “política”, de modo “natural” – ecológico, afirmaríamos
hoje.
O espírito de sistema
dominou, é verdade, o século XVII. Mas Spinoza fornece algo mais do que uma
concatenação de conceitos possivelmente encadeáveis. Mais do que inserir nessa
concatenação um núcleo ao mesmo tempo fortuito e determinado, a subjetividade
conceituável, apreensível pela generalidade. Trata-se de pensar a natureza e o
ser humano, a existência como atribuição comum, isto é, unívoca, desfazendo-se
a limitação dos processos de inteligibilidade à designação de formas
irredutíveis, mesmo que fosse para tratar no interior dessas formas algo como o
indivíduo e seus acontecimentos, suas propriedades, como em Leibniz.
Isso não foi de modo
algum assimilado em seu tempo. A variação contínua, de que a unidade de
composição da natureza fornece a causa estrutural, de modo que é a intensidade
que espalha um mundo de efeitos na recognição, não os indivíduos que compartem
entre si predicados formadores de mundos, permite compreender o devir, o
isomorfismo, a inserção ética de uma onto-etologia, tudo isso que desloca
consideravelmente o campo habitualmente designável – e aqui Heidegger e Deleuze
se reúnem – como “metafísica”.
Não se trata apenas
de fornecer uma crítica das teorias que tentam compreender o pensamento a
partir do modelo da recognição, da consciência. Nem mesmo de fornecer só uma
crítica a todos os sistemas “tiranos”, institucionalizados na efetividade
social ou instituídos como práticas de interpretação, de revelação, de
discursividade, que só podem funcionar por signos – mesmo sendo essa crítica
nada menos do que o traçado de uma Hermenêutica. Trata-se sim desses caminhos
de inteligibilidade, movimentos absolutos sobre o campo de imanência.
Creio ser nessa
perspectiva que se pode considerar a singularidade e a importância de Spinoza,
a atualidade de sua contribuição e sobretudo, o sentido político da revolução
epistêmica que operou. O que penso poder ser plenamente recuperável através da
expressão com que Deleuze enuncia o espinozismo: Visão Ética do Mundo. Mas isso
poderá ter consequências inesperadas no contexto de uma intenção que visa
compreender o pensamento humano em seu devir.
Ora, a censura ao
espírito de sistema, de Votlaire a Descartes, parece assim ocultar algo de
grande importância. Trata-se do sentido da leitura de toda a tradição, sentido
que se descobre “histórico”, não sem ver nesse epíteto ainda algo de plenamente
constitutivo e positivo mas sim fundamentalmente sujeito à crítica – bem dentro
do espírito do Enlightment que devia ter por missão a impiedosa revisão do
passado.
Até então podemos
verificar o seguinte quanto a esse sentido de leitura. A partir do final da
Antiguidade ele se tornou “positivo”, centrado na metafísica, ou seja, em um
tipo fundamental de ciência se tomarmos por esse termo algo como o conhecimento
positivo sobre a natureza ou o ser assim como ele é. Pode parecer algo chocante
esse uso do termo “positivo”, pois estamos acostumados a ver como estando em
oposição fundamental o positivo, a natureza, a ciência, de um lado, e o
especulativo, esse algo vago que os pensadores de antigamente tratavam tão
familiarmente como o ser, e a filosofia, de outro. Esquecemos assim que o que
hoje a ciência recobre como o domínio da natureza é o mundo outrora
desconhecido, inexistente para o pensar, da química e da física, da molécula à
célula e à partícula subatômica. Já o que se tratava como o ser, a substância,
os elementos, a idéia, o ato e a potência, se endereçava como conhecimento da
realidade mesma de que tudo o mais se constituía. O ser meta – físico
significava apenas que se pressupunha haver uma realidade subjacente ou mais
fundamental do que aquilo que os sentidos poderiam divisar. Essa realidade era
o objeto da “ciência” do ser enquanto ser, ontologia.
Vimos que mesmo no
âmbito de uma pesquisa voltada ao pensamento humano, o sentido da leitura que
privilegiava a ontologia como o referencial do pensamento até a modernidade foi
inevitável. Esse sentido, dentro da pesquisa, pareceu relançar aquele que
pertenceu ao tempo. Mas seria esse o sentido imanente, e comum, desde a Antiguidade?
Uma tal questão não teria como se levantar antes de poder ser plenamente
enunciada naquelas palavras de Voltaire, contra o “espírito de sistema”
cartesiano. Com efeito, porque não se poderia ver em Platão uma motivação bem
mais predominante do que a ontologia pura, a saber, o pensamento humano,
naquilo em que enfeixava uma crítica social, em que a ontologia mesma se
tornava uma peça chave? A República e as Leis como o sentido imanente do
platonismo, em vez de considerar esse pensamento político como algo derivado de
uma teoria do ser.
Esse sentido
metafísico da leitura da tradição aparece, por exemplo, quando consideramos o
helenismo, com seu pensamento marcado pela aplicação pragmática, a ponto de ser
designado como tendendo mais a uma “sabedoria” do que propriamente à “filosofia”,
decadente por relação aos tempos áureos do clássico. Mas não se poderia propor,
inversamente, que é nesse momento em que o cristianismo entra em cena que
começa a se enunciar a subversão da leitura dos filósofos, do sentido imanente
ao sentido positivo – metafísico?
Ora, o mais
importante nesse contraste não reside numa troca de objeto, de foco, por assim
expressar. É todo o domínio da inteligibilidade que se transforma. No âmbito
positivo-metafísico o pensamento se organiza em torno de noções absolutamente
estáveis. Um termo não está sem ser por oposição nítida e irrevogável por
relação a outro. A significação é fixa, sedentária, dando-se como natural, não “construída”,
e por aí toda a necessidade de criticar a retórica. Não é acidental o fato de
que desde que Platão se erige como o mais aproveitável dos filósofos pelo
cristianismo em vias de construir sua hegemonia, já que seu pensamento político
se beneficia dessa inteligibilidade positiva. Contudo, isso não demonstra que
para ele o sentido da filosofia seja a construção desse conhecimento puro, ao
invés de ser a constituição de uma certa sociedade como lugar de um certo ser
humano.
O âmbito dessa
filosofia que se compreende como algo que podemos designar Visão Ética do
Mundo, é, em vez de uma construção de conhecimento puro, ou conhecimento da
natureza, aquele do pensamento político e social, do pensamento humano. É
verdade que incide aqui toda a espessura entre o “político” do século XVII e o “histórico”
desde o século XVIII, conforme a oposição de Arendt. Mas para o que estou
propondo, ambos poderiam ser contextualizado no âmbito do “social” ou do “humano”.
Ora, não pretendo
repor aqui a oposição apenas entre o retórico-construído e o que se espera
poder atribuir como a verdade eterna das coisas, que já examinamos
suficientemente no contexto do pensamento sofístico como oposição entre physis
e nomos, entre teorias do ser e práticas da retórica. Mas sim
observar que algo como a dialética – hegeliana e marxista – só pôde emergir
quando houve uma revolução epistêmica tão considerável quanto suas
contemporâneas, a inglesa, a americana, a francesa e a alemã.
Sabemos que a
revolução inglesa antecipou a partição burguesa do poder, que a americana
emancipou uma nação outrora colônia de outra, que a francesa expressou ou
consolidou a transformação da ordem da nobreza àquela da burguesia e que a
alemã pôs fim ao monopólio do catolicismo sobre o cristianismo. Quanto à
epistêmica, seria interessante estabelecer os seus desdobramentos nacionais,
mas de modo geral se pode afirmar que afetou todos esses países e penso que
consistiu precisamente na crítica dessa leitura metafísica, na procura do
sentido imanente dos filósofos, talvez com certa ingenuidade pois seria preciso
verificar se um tal sentido é acessível, mas, em todo caso, no desmembramento
do bloco comandado pela ontologia em que havia se transformado o que se poderia
compreender como “uma” filosofia – ou seja, na recusa do espírito de sistema,
recusa bem mais abrangente, como se pode constatar.
Uma leitura
político-social dos filósofos se coaduna com um pensamento que se tornou ele
mesmo voltado ao humano já que a natureza se autonomizava cada vez mais em
regiões especializadas do saber, exigindo um progressivo domínio técnico,
tornando-se cada vez mais inacessível à via simplesmente especulativa. Ora,
essa inteligibilidade se vê marcada pela estrutura de pensamento que designarei
rizomática. Como apresentar esse conceito de inteligibilidade que estou
visando, utilizando aqui o termo guattari-deleuziano para designá-lo?
Inicialmente devemos
ter em vista a transformação dos temas. Por exemplo, no lugar de ser,
conhecimento, individuação, temas como liberdade, autonomia, revolução, justiça
social, propriedade, igualdade. Ora, esses temas não podem ser definidos de
modo simples, o paradoxo lhes é quase-constitutivo, de modo que aquilo que a
dialética tentou explicitar, quanto a isso, em termos simplistas de uma
dualidade, na realidade se manifesta como a oscilação entre pólos que se opõe
sem se excluir, pólos não apenas apresentados aos pares, mas em
multiplicidades. Finalmente se esboça uma dominância, que plasma o conceito ou
doutrina social implícita como uma tendência.
Permito-me um
exemplo, citado a partir da leitura do professor Carl Friedrich (Uma
Introdução à Teoria Política, p. 48). Pronunciando-se no Congresso a
respeito da guerra do México, em 1848, Lincoln observou que a deposição de um
governo obsoleto constitui um direito “valiosíssimo e sacratíssimo” porque “uma
das qualidades específicas das revoluções é a de não guiar-se por velhas idéias
ou velhas leis”. O professor Friedrich utiliza esse trecho para sublinhar a
oposição entre as idéias antiga e moderna de revolução, nisso pelo que de algo
a ser fundamentalmente evitado ela se tornou, na modernidade, uma espécie de
fundamento social.
Ora, a meu ver teria
Lincoln assim enunciado o paradoxo da “revolução”, tomando esse termo no
sentido de um conceito de teoria política. Pois como se pode não guiar-se por “velhas
idéias” se o direito é “sacratísimo”, isso é, tão velho quanto intemporalmente
inscrito na essência do direito? Naturalmente se pode objetar que ele estava
entendendo por idéias utlrapassadas as instituições que aparentemente não
serviam mais ao seu propósito, numa concepção autenticamente democrática de lei
como algo construído e mutável conforme o interesse daqueles que a utilizam,
não como algo divino, desde sempre estabelecido ou imutável. Aqui a oposição é
mais entre physis e nomos do que entre o velho e o novo. No entanto, é o modo
como essa oposição se fundamenta que se torna paradoxal, pois ela se enuncia
como um nomos fundamentado pela própria natureza imutável das coisas. Em outros
termos, o paradoxo da revolução assim como concebida no âmbito idealista
poderia ser enunciado assim: o ser humano possui a prerrogativa imutável pela
qual poderá mudar tudo o que lhe concerne...
A oscilação entre
esses pólos, o natural e o convencional, o permanente e o mutável, o opressivo
e o libertário, que não pode ser aplatada por uma definição funcionando como um
corte decisivo entre o que é e o que não é, isso que a expressão conserva na
forma aparente do paradoxo, não deixa de se reunir numa tendência clara,
bastante localizável nesse trecho de Lincoln: seja uma certa noção de
democracia, seja o conceito moderno de revolução plasmado no âmbito do
liberalismo, desde Locke. Por exemplo, Marx não o teria enunciado, já que Marx
não era um liberal, mesmo se o pronunciamento de Lincoln pudesse, apagando-se
as marcas de origem, servir a um socialista utópico. Marx enuncia de outro modo
o direito, não como algo fundamental inscrito na essência, mas em termos de
leis históricas relacionadas a modos de produção. Trata-se de uma transposição
do registro idealista ao materialista.
Ou seja, vemos há uma
tendência resultante do rizoma, do movimento conceitual de oscilação
multipolar, tendência que é perfeitamente recuperável , conservando a sua
utilidade como ferramenta no interior de uma “ciência” política – conservando-se
aqui o que, à luz dos antecedentes, essa expressão, ciência política, pudesse
parecer paradoxal, para oportunamente observarmos de modo mais minucioso o
percurso do pensamento humano a uma autêntica ciência social.
Creio que Arendt
observou algo nesse sentido ao afirmar que nesse domínio só os escritores
medíocres não apresentam contradições. O que não nos exime da tarefa, dentro de
nossas próprias limitações, de encontra-las e compreender seu sentido, em que
casos se apresentam como verdadeiros limites de um pensamento e em que casos
são constitutivas desse pensar e o que traduzem assim: por exemplo, sínteses de
oposições anteriores agora visadas sob perspectivas mais amplas? Transformação
de uma problemática? Efeito de estilo, como que a rubrica do percurso de uma
invenção?
Em todo caso
deparamo-nos assim com algo que será fundamental no desenvolvimento das
ciências humanas, isto é, a interrogação sobre a especificidade, não de seu
objeto, mas de sua inteligibilidade. Nesse momento anterior à sua eclosão, em
que, contudo, as energias do intelecto se voltam vigorosamente ao problema do
ser humano e da sociedade, pressente-se o vigor da questão. Helvétius o
observa: haverá avaro que alguma vez\ não tenha se mostrado generoso, velhaco
que não tenha feito uma boa ação, alguém que, se se aproximarem certas ações ao
longo de sua biografia, não pareça dotado de todas as virtudes ou de todos os
vícios?
Seja qual for o
sentido relativo ao contexto, a inteligibilidade oscilante e paradoxal,
tendencial, do pensamento político, parece ter um sentido que se relaciona à
própria instabilidade do seu objeto.
Ora, o que se enuncia
na curva do século XVII ao XVIII é a ruptura entre aquele sentido metafísico,
ainda plenamente atuante nos grandes sistemas de Descartes e Leibniz, assim
como na interpretação da tradição, e essa procura de um sentido imanente, que
vimos expressa nas palavras de Voltaire e que é plenamente constatável na
leitura dos iluministas, como a evolução a uma visão ética do mundo. Creio que
se pode localizar essa transformação a partir de certo número de temas que
emergem agora, como da construção de certos conceitos, e mesmo utilizar essa
mudança como um critério para atingir a irredutibilidade histórica entre essas
épocas, incluindo o século XIX.
Os temas podem ser
agrupados no interior de um percurso que designarei amplamente como sendo o do
liberalismo, enunciando-se desde Locke até Mill. Esse percurso abrange temas
que se agrupam sob os rótulos do “geral” e do “particular-pessoal”. Não utilizo
“individual” porque, justamente, não se trata de um sentido
metafísico-ontológico no sentido de positivo ou “especulativo” mas sim de
pensamento humano, social e político. O percurso se faz inicialmente de um
geral que é mau a um particular que é bom (séculos XVII – XVIII) , a seguir ele
se inverte de um particular que é mau para um geral que é bom (final do século
XVIII, séc. XIX). Os termos que se agrupam no “geral” têm sua ênfase histórica
sucessiva entre: autoridade, soberania, governo, isntituições, comunidade.
Quanto ao particular, a ênfase se sucede entre autonomia, liberdade, homem
comum (primeiro o Sobrinho de Rameaux, muito depois o Ulisses). A
inversão do percurso poderá ser observada através do exame de conceitos
exemplificados pelo contraste entre estado de natureza e estado de sociedade,
ou pela evolução de rubricas como as já citadas “justiça social”e “igualdade
política”.
Os conceitos que se
constroem no âmbito dessa transformação são exemplificados com dialética,
estrutura social, história e revolução. “Ser exemplificado por” significa que
esses termos citados não esgotam o programa que deveremos estender.
Naturalmente eles não pertencem exclusivamente ao panorama do liberalismo,
estando agora na convergência da tarefa a reconstituição do leque de tendências
esboçadas na modernidade.
Um modo de utilizar
essa mudança como critério se enuncia pelo fato de que sem isso poderíamos
facilmente incorrer na falácia de superpor os séculos numa espécie de
alternância. O espírito de sistema do século XVII, tão combatido no século
XVIII, retorna triunfante no século XIX – o que absolutamente não ocorre. Pois,
inversamente, podemos observar que o espírito de sistema do século XVII surge
paralelamente à derradeira síntese da leitura metafísica da tradição, enquanto que
os “sistemas” do século XIX, de Schelling, Fichte e Hegel, por exemplo, na
verdade surgem na aurora das ciências da humanidade, isto é, eles se endereçam
como sínteses de motivação “social” ou “histórica”, o “espírito”
não mais podendo ser
visado ao modo exclusivamente subjetivo sem enunciar ao mesmo tempo uma espécie
de causalidade histórica, ou uma razão do devir. Esse Espírito já se opõe ao
Ser. Naturalmente se pode objetar que essa transformação já está em marcha no
âmbito mesmo desses sistemas do século XVII, em que já se pode localizar o
comprometimento teórico da causalidade linear. Mas não creio que isso viria
permitir que se pudesse minimizar a importância da objeção de Voltaire, ao
menos de um modo amplo, ainda que uma pesquisa mais minuciosa pudesse se
implementar para que se evidenciasse as contracorrentes da modernidade desde os
seus inícios.
Spinoza surgiria
então, fatalmente, como anômalo. Ou como uma dessas contracorrentes
subterrâneas que operam, contudo, tão poderosamente, nos poros, nos
interstícios. Creio que a partir daqui temos elementos para compreender o
alcance de enunciar a sua filosofia como uma Visão Ética do Mundo. O século
XVIII, porém, conduz a essa subversão epistêmica fundamental, que o espinozismo
pôde apenas prenunciar. Com efeito, o que em Spinoza ainda se mantém como uma
concatenação ordenada do todo, em que a conservação do termo substância nada
tem de supérflua, no século XVIII se atomiza decisivamente.
A preponderância de
Locke é agora absoluta, esse Locke que começa por seccionar os termos
metafísicos, como ser e substância, de suas implicações “evidentes” para
mostrar sua vacuidade, ao mesmo tempo em que desfaz a cadeia de implicaçõe
ideais sistemáticas para reportar cada idéia à sua fonte “material”, empírica
ou reflexiva. O Sonho de D’Alembert nem precisa ser minuciosamente
parafraseado pela senhorita de l’Espinasse, Bordeu já sabe tudo sobre essa
visão atômica de um ser humano comparável à gota d’água de Needham. Sob a lente
do microscópio o que parece coeso, uno, na verdade se revela múltiplo, agregado
instável de muitas partes. Sob o olhar do “filósofo” iluminista o que parece um
ser humano autônomo, identificável, é na verdade uma soma de pequenos sistemas
agregados, e o que o seu senso íntimo lhe prescreve como a unidade do seu ‘eu”
é efetivamente uma teia sensível com uma unidade apenas de controle ou
coordenação.
E de que vale uma
questão, por mais importante que possa parecer, se não se puder de todo
esclarecê-la? Já se sabe que as construções metafísicas são quimeras. Os
problemas reais se enunciam em seus termos adequados. Mas ainda não se possui
os meios para resolvê-los. O século XVIII é a idade do ser humano, mas nele não
amadureceram as ciências humanas. É a época em que os monstros já são
explicados em termos de alterações fisiológicas estruturais, algo como o que a
mudança de uma função acarreta para uma variável, mas ainda não se possui uma
biologia. Voltaire pode estender a história daquilo que precisa compreender.
Ele não ousa aventar a hipótese de que essa história seja algo mais do que um
recorrente manifestar do mesmo ser humano original, igual em suas falhas e
grandezas por sob a diversidade por vezes grotesca de costumes que agora se
fazem conhecer pela crônica dos mundos coloniais.
No entanto, todas
essas deficiências deixaram como resíduo isso que designei como a busca do
sentido imanente, de modo que por um pequeno período de tempo a expressão “ciência
social” pode manifestar o que revela de paradoxal. Como a tendência resumiu o
paradoxo, como o social se tornou ele mesmo científico, é o que se tratará de
examinar.
e) A Teoria Política
Introdução
Sócrates não
pergunta: “O que é o poder”? Ele indaga: “O que é a justiça”? A República não
fundamenta o poder de uns sobre outros, mas estabelece a natureza de uns e de
outros. Assim, ainda que se possa identificar vários temas pertinentes a ela em
Platão, penso que se pode seriamente colocar a questão de se há uma teoria
política nos escritos platônicos ou mesmo, em geral, anteriormente à modernidade.
Platão desempenha
nesse sentido um papel fundamental, pois permite situar com precisão a
defasagem entre o que se propõe como teoria política, isto é, uma interrogação
sobre o poder, e o que a ela se recusa, evitando-a por meio de uma especulação que
envolve a natureza ou o ser. Pois se houve propriamente uma teorização do poder
na Antiguidade, isso se deveu à peculiar situação da Pólis, desenvolvendo-se
apenas no contexto de pensadores que nela encontravam a sua pátria espiritual,
por assim expressar. Mede-se assim a extensão da distância entre Platão e
Aristóteles. Podemos também apreciar dessa perspectiva a tensão do platonismo
com a retórica.
A retórica sofística
é a inserção do poder na prática da linguagem, nas relações humanas, uma vez
que a sociedade ateniense clássica se articula politicamente, não por meio de
instituições “por natureza”, ou pela physis, mas pelo Nomos, por convenções.
Aristóteles, com sua doutrina da felicidade como objetivo do ser humano
particular e da existência de uma ampla classe de cidadãos, nem pobres nem
ricos, constituindo-se como classe do meio (mesotes), fundamentando a ordem
social, se mantém plenamente no âmbito grego.
Podemos apreender a
oposição por meio dos temas postos em relevo. Platão coloca o problema da
justiça e a teoria da elite. Aristóteles já se expressa em termos de koinonia
(comunidade, sendo Koinon o que é “comum” ) e autarkeia (a
auto-suficiência que delimita uma comunidade, sua soberania, sua autonomia)).
Contudo, a Polis grega, como notou o professor Friedrich, mantém uma unidade
político-religiosa que não reflete as intituições da modernidade ocidental, em
que estes aspectos estão e devem estar nitidamente separados. Assim, mesmo uma
definição do ser humano como zoon politikon (animal político), e esses
temas tão atuais que podemos encontrar no peripatetismo, precisam ser vistos no
seu âmbito próprio pois, inversamente, será imcompreensível a ruptura das
sociedades modernas e o universo epistêmico que nelas pôde emergir.
Mas a tarefa de
fornecer uma teoria da elite pode bem ter sido menos casual ou idiossincrática
do que sua franca manifestação nos escritos platônicos deixam supor. Essa
teoria fundamenta uma desigualdade. Não é tão facilmente descartável
quanto parece, mesmo em uma sociedade democrática. Assim o que a Grécia nos
ensina é que o desvio platônico pode ser caracterizado como um retrocesso na
evolução da Aretê, mas que nesse mundo antigo, em que a sociedade não se
autocompreende como um conjunto de indivíduos livres mas como uma totalidade
que transcende a mera soma ou vontade parcial, de modo que sua conceituação não
depende da compreensão da parte mas de um universo de valores sagrados, alguma
forma de diferenciação se manteve, desviando-se da mera caracterização “por
natureza” – mesmo no peripatetismo, alguns nascem para ser escravos e para
obedecer, outrros para mandar – apenas para apresentar uma caracterização pelo
mérito, como na sofística. |Mas mesmo assim pode-se pensar se o antagonista de
Sócrates, que vê a prepondrância do mais forte como algo natural, não está
enunciando algo como a associação entre mérito e força. Assim mesmo na
sofística e na democracia, o que se tem não é uma supressão da elite, mas uma
transformação teórica pela qual, na prática, quem tem a prerrogativa é aquele
que a mereceu, não o que a recebe como um título de nobreza.
Essa questão é bem
atual: irá a política ser substituída por uma tecnocracia? Uma elite do saber é
mais legítima do que qualquer outro sistema de atribuição de poder? Teremos que
nos defrontar com essa indagação especialmente no cenário da Revolução
Francesa, isto é, no momento em que se inaugura a contemporaneidade. Por ora, o
que devemos reter é que a patição social da República, entre aqueles que nascem
de ouro ou de prata, para administrar ou para guerrear, e os outros que nascem
para servir, semelhou a induísta de castas. Platão: um micênico? Um oriental?
Em todo caso um filósofo, entendendo-se a interrogação pela justiça como
filosófica, não como componente de uma Teoria Política.
Quanto a isso seria
interessante verificar que a pergunta “O que é a filosofia”, enunciada tão
tardiamente por Deleuze e Guattari, se endereça de modo muito inverso daquele
que poderia ser apontado como um retrocesso essencialista desses dois
pensadores. Pois efetivamente o que a indagação encerra é a multiplicidade de
sentidos, que a leitura precisa resgatar em cada caso, manifesta no devir da
filosofia. A pergunta é uma lição espetacular de Deleuze-Guattari, ensinando
como ler filosofia. Aplicado nesse contexto, por exemplo, isso leva a observar
o que é a filosofia de Platão, esse cosmos fechado em que o Ser é também a
Cidade, a metafísica é também a astronomia numa síntese religiosa-mística do
cosmo, em que o ser humano é uma alma eterna num céu de valores eternos como
idéias-número.
Assim, a pergunta “o
que é a filosofia” funciona como um roteiro da leitura de seu devir. O que não
a exime de poder ser, por vezes, uma coisa muito sórdida ou muito vã, como se
verá ter sido já observado por Hobbes no Leviatã.
Creio que nesse
âmbito da Antiguidade podemos recolher temas, mas não que se possa verificar
uma teoria política numaperfeita continuidade d eobjeto com o que atualmente se
exerce sob essa rubrica. Já no platonismo o que se tendo sendo todos os meios
conscienciosamente empregados a fim de conjurar o seu surgimento.
Mas que ocorre na
viragem da Antiguidade à Idade Média? Santo Agostinho denega completamente a
dignidade da sociedade terrena, pecaminosa, corruptível. Seria impossível
esperar assim uma teorização do poder ou mesmo da justiça mundana nessa
interpretação cristã da existência.
Aparentemente o fosso
entre Santo Agostinho e Platão não poderia ser maior. Aquele prega a igualdade
de todos perante Deus, este mantém a diferença de natureza entre os homens.
Ora, até aqui estivemos lidando com duas perspectivas de sociedade. Uma, a
platônica, comportando uma elite por natureza, e outra, a anômala no meio
antigo, a da Pólis grega, que transporta a excelência que distingue uma classe
governante para o mérito pessoal, de modo que essa excelência é a princípio um
bem da comunidade mesma, um reflexo da cidadania, seja na perspectiva
aristotélica ou sofística. Mas a responsabilidde desse caráter anômalo não cabe
à doutrina oposta, platônica. Na verdade a doutrina platônica era tão grega
quanto a meritocracia sofística, apenas mais recuada no tempo.
Vimos como as
pesquisas de Detiennne e Vernant se orientavam pela busca das raízes dessa
anomalia democrática e filosófica na peculiaridade do “feudalismo” aqueu, aquela
realeza micênica em que o soberano era mais como um par entre pares, em que
todo o brilho da Aretê consistia no fato de uma ascendência de classe, de “raça”,
de família, o indivíduo tendo sua excepcionalidade contando apenas
relativamente a esse grupo. Mas na Antiguidade o que parecia mais universal não
estava nessas duas vertentes gregas, a arcaica e a clássica, e sim no culto da
monarquia, do poder absoluto do soberano, do oriente à Roma imperial.
Esse poder era
sagrado. Em Roma, mesmo já na Macedônia, havia uma associação entre a figura do
imperador e o Sol a que se devia prestar culto. Ora, a doutrina de Santo
Agostinho não suprimia uma realidade secular, apenas procurava afastar-se dela.
Assim, durante a Idade Média, só o que se recobriu foi a meritocracia ou a
cidadania. O Imperador manteve sua prerrogativa sagrada através da confirmação
de sua eleição por Deus sancionada pelo representante deste, o papa. A
descentralização feudal se encarregou da manutenção do poder da nobreza, de
modo que os conflitos entre o papa e o imperador só começam a existir quando
essa descentralização se torna passível de ser minorizada via ascenção de uma
classe que desempenha o papel de fiel na balança, desfazendo a simetria entre
essas três forças, a nobreza, a igreja e o imperador, a favor deste último.
A origem dessa classe
e sua ascenção é objeto de muita controvérsia, envolvendo o tema polêmico da
origem do capitalismo. Pirenne situa a origem do capitalismo no século XII.
Vimos que atualmente a tese mais aceita parece ser a de Marx, que a situa na
Revolução Industrial. Quanto a essa classe, é fundamentalmente a dos
descontentes, não só a “burguesia”. O fato é que a leitura de Pirenne e Dobb
esclarecem quanto a transformação de um estado de coisas em que a doutrina platônica
dos Happy Few pôde ser plenamente aceita, àquele pelo qual já não se coaduna
com a realidade dos fatos.
Em seu escrito sobre
a Revolução de 1789 Tocqueville observou que “não há exemplo mais perigoso que
o da violência exercida pelo bem e por pessoas de bem”. Isso foi observado na
tentativa de compreender os excessos cometidos pelos revolucionários. Eles
teriam sido antecedidos pelos abusos espantosos do Antigo Regime. Mas ao
observarmos a história da Europa na transição do feudalismo à modernidade, não
é só na França do assim chamado “Antigo Regime”, o absolutismo, que se encontra
esse exemplo. O povo, no campo e na cidade, se encontra no meio do antagonismo
das forças da nobreza e da centralização, que a literatura do iluminismo
designou o “despotismo”. Entende-se assim que esse despotismo se achou ligado a
uma doutrina de igualdade que pareceu tão injusta quanto a da desigualdade.
Todos são iguais perante o imperador que, não obstante, pode assim prejudicar
uns e outros – como, Tocqueville revela com abundância de detalhes: impostos
exorbitantes e mesmos puramente circunstanciais no campo, venda de empregos, o
mais das vezes ocupações inúteis, nas cidades, negociação de títulos
nobiliárquicos, expropriação de terras, de todo tipo de corrupção o absolutismo
francês apresentou exemplos.
Mas no resto da
Europa as coisas não pareciam tão melhores quanto os escritores dessa época
tendem a fazer crer por seu paralelo inevitável entre França e Inglaterra. E´
certo que o acordo inglês poupou inúmeras vidas, evitando as consequências do
que ocorreu na França. Mas esse acordo favoreceu as forças do capitalismo. A
nobreza e a burguesia se aliaram ali, às expensas do rei, enquanto no
continente o rei se mantinha pelo suporte do capital burguês, mantendo a nobreza
num papel acessório do seu poder. Na França, onde o rei parecia cortar de um
lado tanto quanto de outro, as coisas escaparam ao controle. Assim, descrevendo
os começos da burguesia, Dobb se espanta com “a presteza” com que essa classe
entrou em acordo com a sociedade feudal, somente por esse meio tendo sido
conquistados os seus privilégios, não obstante o seu descontentamento com a
superioridade social de uma nobreza cada vez mais ociosa.
Mas em todos os
lugares o descontentamento existiu. Na Inglaterra, por exemplo, os camponeses
eram expulsos pela política dos cercamentos para favorecer a indústria têxtil.
A cidade da transição feudal-moderna era o refúgio desse êxodo. Havia sido
aceitável que uns poucos felizes fossem os senhores a quem se devia pagar a
talha até o ponto em que o trabalho excedente era suportável e a proteção dos
campos o compensava de certo modo, ao passo que o universo cultural cristão só
devia ensinar que os pobres devem servir na terra para alcançar a bênção dos
céus. Mas quando esses poucos não se mostram felizem com seu “muito”, estão
querendo sempre mais, até o limite insuportável, ocorre uma inversão entre o
que a religião ensina e o que o camponês experimenta. Em geral o camponês,
servo ligado ao feudo do senhor ou mesmo “livre”, ali prestando serviços sem
estar preso ao lugar, era considerado apenas como “criatura a ser explorada no
país”, a destruir no caso de guerra. Mas já à época de São Tomás, na
Inglaterra, registrando-se entre os nobres os gastos com as cruzadas e um novo
culto à magnificência favorecido pelo crescimento do comércio, com a atração de
artigos exóticos, se observa um “aumento na obrigação do trabalho nas maiores
propriedades do país, especialmente nas terras do clero” ( M. Dobb, a
evolução do capitalismo, p. 54-5).
A sobrecarga de
tributos era exigida pela força e opressão. As deserções dos camponeses, por
vezes em massa como na Ile de Ré no século XII, provocaram associações entre
senhores para recapturar os fugitivos. Essas associações se converteram em
motivos de contenda pois alguns senhores descobriram que poderiam repovoar suas
terras, desertas devido à fuga dos seus servos provocada pelo excesso de
tributos, por meio de acordo com os servos fugidos de outros senhores,
acolhidos por eles. Esses acordos baseavam-se em imunidades e várias
comunidades rurais se desenvolveram assim, co mo reporta Dobb. Já na época do
absolutismo francês, Tocqueville observa que o aumento abusivo de impostos no
campo foi cuidadosamente planejado para não prejudicar os nobres, devendo
incidir o aumento sobre a talha, obrigação devida apenas aos servos.
Mas a cidade pareceu
o pólo de atração preferível e se comportou mesmo como agente de cooptação,
tornando livre qualquer habitante que ali se mantivesse por mais que um ano, mesmo
que houvesse sido anteriormente servo ligado a algum feudo. Ora, na cidade o
mercado de trabalho estava organizado em associações de ofícios que regulavam
as atividades desde a aprendizagem até o desempenho pleno da profissão.
Percebe-se assim a preponderância dos mestres de ofícios, que tinham a seu
encargo não só os aprendizes mas também os “companheiros” já formados que com
ele compartilhavam a produção. Com o tempo esses mestres tornaram-se uma
espécie de casta, limitando o acesso à profissão. Não somente através de
imposições ao aprendizado mas principalmente por dificultar enormemente a
transformação de um companheiro em mestre – geralmente só os filhos ou parentes
dos mestres eram beneficiados.
Os refugiados nas
cidades se tornaram mendigos. Na década de trinta do século XVII, como reporta
Huberman, um quarto da população de Paris era constituído de mendigos, sendo
que nas outras cidades francesas, assim como na Holanda e na Inglaterra, a
situação era semelhante. As guerras, como a de Trinta Anos na Alemanha, podem
ser um fator dessa miserável situação, mas o que mais se costuma apontar como
decisivo é a famosa alta generalizada de preços na Europa, devida ao influxo do
ouro e da prata americanos.
Assim os descontestes
tornam-se uma classe considerável por seu número desde o declínio do
feudalismo. Creio que nesse período de transição que abrange o século XVII
pode-se falar deles como de uma classe, ainda que a mistura seja muito grande,
abrangendo os camponeses explorados fugitivos ou expulsos, os mendigos, os
habitantes das cidades explorados nas corporações, o novo setor de
assalariados, desde que as corporações começam a ser substituídas por capitães
de indústria atuando como intermediários
(capitalista-mercador-intermediário-empreendedor, na expressão de Huberman), e
esses novos beneficiários da crise, igualmente muito misturados: camponeses que
não obstante toda a exploração conseguiram se enriquecer e agora compravam as
terras da nobreza, a elite das corporações de ofício, esses mercadores e empreendedores
urbanos e trans-urbanos, a alta burguesia que participava dos lucros coloniais.
Beneficiários que tem a propriedade mas não o status social a que almejam.
Entre a Renascença e
a o século XVIII esses descontentamento foi utilizado pelo absolutismo, de modo
que enquanto a alta burguesia financiava os exércitos do rei, a doutrina da
igualdade perante a coroa nacional favorecia um pensamento social que precisava
se assegurar desse domínio, fornecendo ao mesmo tempo a ideologia do
despotismo. O direito divino dos reis passava a ser fundamental nessa tarefa,
de Maquiavel a Hobbes. Ora, se Maquiavel observava o príncipe como aquele que
merece o seu pequeno reino, “merecer” significando “ter feito por obter”, não
tanto “ter direito a”, Hobbes vê no rei aquele que exerce uma função prescrita
pela própria natureza – mas agora natureza dos seres humanos em sociedade, não
a physis ou o eterno ser assim do universo compreendendo matéria e espírito.
Esse período se associa ao mercantilismo, à dominação colonial, de modo
estreito.
Com efeito, o segundo
tratado sobre o governo contém inúmeras referências ao “índio” da América.
É interessante observar que Locke superpõe as descrições bíblicas da origem do
mundo e as descrições dos viajantes do mundo colonial. Para ele a questão é
fazer a história da natureza humana enquanto constitutiva da civitas, comunidade
ou sociedade . Portanto, os seres humanos manifestam sempre os mesmos estágios
desde seu estado original até a sua união em sociedades cultas. O “selvagem” é
um exemplar atual do que o hebreu vivenciou nos tempos da narrativa bíblica, em
comum algo como a infância dos povos. Mas a dominação do homem branco sobre o
seu território não parece sequer mencionada.
Ora, de Hobbes a
Locke muita coisa mudou. O paralelo entre eles se revelará bastante útil para a
compreensão da Teoria Política, que a meu ver tem seu objeto constituído entre
os séculos XVII e XVIII.
· Os Estados de Natureza
Hobbes e Locke
A Guerra civil
inglesa durante o século XVII, culminando provisoriamente na revolução de 48
que institui o governo republicano, a Commonwealth, esclarece bastante sobre as
posições de Hobbes e Locke, conforme se pode depreender ao coligir os textos
introdutórios dos volumes referentes a esses autores da coleção Pensadores.
Hobbes coloca-se como
defensor do rei, o lado que reúne anglicanos e católicos, enquanto o pai de
Locke adota a causa dos puritanos, alistando-se no exército do Parlamento.
Locke, nessa época, é adolescente e estuda na Westminster School.
Hobbes foi preceptor,
do Conde de Devonshire, William Cavendish. Mais tarde, na década de vinte,
secretariou Francis Bacon. Em viagem ao continente relacionou-se com o círculo
cartesiano francês através da amizade com o Padre Mersenne, e com Galileu, cuja
física influi decisivamente sobre seu pensamento.
O alinhamento com as
forças do absolutismo força Hobbes a refugiar-se em Paris, de modo que na
ocasião do levante civil inglês, no início da década de 40, ele já se encontra
no continente onde se torna alvo de ferrenhas críticas pelas idéias expostas no
Sobre o Cidadão, publicado na França, em 42.
Contornando as
dificuldades causadas por essas críticas, Hobbes se torna preceptor de Carlos
II, que governará a Inglaterra durante o pequeno período da Restauração dos Stuart.
Mas desde 52, época de Cromwell, ele já se encontrava novamente na Inglaterra.
Hobbes não chegou a presenciar a Revolução Gloriosa que em 89 derrotou
finalmente as forças do absolutismo.
Locke formou-se em
medicina, sendo suas influências mais importantes John Owen, Robert Boyle e
Thomas Sydenham – respectivamente o defensor da tolerância, o formulador do
conceito moderno de elemento químico e o médico que participou da introdução do
tratamento das doenças baseado na observação empírica dos pacientes.
Mais tarde Locke se
tornou médico e assessor do conde de Shaftesbury, Lorde Ashley da casa de
Exeter. Nesse cargo Locke escreveu a constituição da Carolina, então colônia
inglesa na América do Norte, e se tornou responsável pelos problemas
eclesiásticos na Inglaterra desde que Ashley se sagrou chanceler. Ora, Ashley
militava incansavelmente pela causa do parlamento, opondo-se ao rei. Logo,
Ashley e Locke procuraram exílio, no período da Retauração, escolhendo a
Holanda onde Locke viveu na clandestinidade sob o nome de Van der Linden, pois
os agentes da monarquia inglesa o perseguiam mesmo no estrangeiro.
Com a vitória dos
Comuns, em 89, Locke retorna à Inglaterra, no mesmo navio que trazia Guilherme
de Orange, a quem o parlamento havia nomeado para ocupar o trono sob o
juramento do Bill of Rights.
Podemos assim,
aparentemente, destacar uma oposição profunda entre o Hobbes absolutista e o
Locke parlamentarista. Tomando como referência o liberalismo, de que Sciacca
informa ser os dois tratados sobre o governo de Locke a pioneira
teorização nítida, poderíamos colocar Hobbes na posição de conservador.
Observando o
contraste entre as caracterizações do estado de natureza, comparando assim os
textos do Leviatã e do Segundo Tratado, verificamos que Hobbes
pensa sob essa rubrica um estado qualquer em que não se possui qualquer “segurança”
que não esteja na própria força, ou seja, lá onde não existe lei. Ora, onde
quer que se possa configurar um tal estado de coisas, pode-se considerá-lo um
estado de guerra. Hobbes parece crer que no mundo inteiro sempre houve em
certos lugares alguma espécie de estado civil coexistindo com o estado de
selvageria em outros – a América forneceria na atualidade exemplos desses
últimos.
Locke distingue três
estados, o da natureza, o de guerra e o civil. Sua descrição do estado de
natureza põe em relevo a virtude do ser humano particularmente considerado.
Assim, todos os homens são considerados igualmente como particulares,
irredutíveis uns aos outros, e em cada um se encontra, como consequência dessa
irredutibilidade, a sua perfeita independência com relação aos demais.
O estado de natureza
é aquele da liberdade e da igualdade, em que cada pessoa age conforme o que
pensa ser conveniente à sua preservação, sem depender da vontade de qualquer
outra pessoa. O estado de guerra sobrevém em qualquer caso que possa se
configurar como um desafio a esses dois princípios naturais, liberdade e
igualdade, princípios contíguos ao modo pelo qual cada um existe por si. Até
aqui, observe-se que não se introduziu qualquer referência a instituições
civis. Portanto, o estado de guerra ocorre quando se viola os princípios que
configuram o estado de natureza na ausência de qualquer instituição civil.
Para garantir a
observância dos princípios naturais, pondo fim ao estado de guerra,
introduzem-se as leis a partir do pacto que regula a sociedade civil. Não há
necessidade de “demonstrar” a existência histórica de uma sociedade pré-civil.
Locke fornece os exemplos de situações atuais nas quais alguém sofre uma
agressão sem estar no meio de outros que, conforme o acordo social, viriam em
seu auxílio. Nessa situação a pessoa só conta com sua própria força para se
defender. Mais tarde ela não precisa ser responsabilizada pelos danos que
infligiu ao agressor, pois todos concordam que estava se defendendo
pessoalmente num intervalo de tempo que não permitia o recurso à lei.
Aqui é o momento de
desviar essa trajetória de confronto direto entre Hobbes e Locke. Penso que,
talvez de modo muito inverso às aparências, podemos estabelecer uma linha de
continuidade entre suas teorias que reproduz de modo preciso a evolução do
pensamento humano à modernidade, o que inclui Rousseau, não sem ter, por isso
mesmo, que visar Montesquieu.
O sucesso do livro de
Max Scheler, o lugar do homem no Cosmo, de 1928, está na origem da
Antropologia Filosófica contemporânea, que se consagrou na década de vinte do
século passado, conforme Rabuske ( Antropologia Filosófica, um estudo
sistemático, p. 28). A interrogação fundamental de Scheler se endereça à
especificidade do humano. A resposta, se existe, deve compreender algo mais do
que qualquer coisa que o ser humano possa ter em comum com os outros seres
vivos. Scheler o define a partir do espírito, algo que é mais do que
simplesmente a vida. Mas que é que se está entendendo por espírito? Scheler o
expressa através do ato de ideação, a faculdade de separar a existência e a
essência constituindo a “nota fundamental” do espírito humano.
A organização
racional pode estar submetida ao devir, à história. Permanece constante a razão
mesma como faculdade de produzir e configurar formas ideais sempre novas, do
pensamento e da intuição, do amor e dos valores desde que o que o espírito faz
é pôr em função o conhecimento das essências.
Encontramos na época
do iluminismo uma generalizada interrogação sobre o espírito. Voltaire se
propõe recensear os sentidos desse termo no Dicionário Filosófico e
Helvétius escreve uma extensa obra que se intitula do Espírito. Observando
esses textos creio podermos constatar que vivacidade do estilo de Voltaire e
seu pendor crítico tendem ao mesmo resultado que o olhar minucioso e descritivo
de Helvetius.
Voltaire se dá o
lazer de fazer um torneio na apresentação de seu conceito, através da denegação
dos usos correntes não meritórios da palavra, aproveitando para alfinetar o
estilo dos que se opõe ao classicismo. Assim “ter espírito” pode significar
apenas perder tempo com circunlóquios e superfluidades, como se registra na
expressão:”a verdadeira beleza é feita pelo sublime e pelo simples, não pelo ‘espírito’”.
Mas o que se pode reter de positivo é a atribuição do termo como engenhosidade
da alma, isto é, da razão. Nesse caso o termo denota algo como agudeza, que se
encontra no sentido do witt inglês, por exemplo, e Voltaire se ocupa em
recensear termos correspondentes, em várias línguas.
Helvetius apresenta
uma definição simples, descartando de início as atribuições que se aproveitam
do termo para designar algo que não o considera em si próprio. Nessa acepção
essencial, o espírito é a faculdade de pensar e suas operações se reduzem a
julgar.
Penso que qualquer
que seja a distância entre a posição contemporânea e fenomenológica de Scheler,
relativamente a esse resultado iluminista, temos o seguinte em comum. Para
Helvetius trata-se de pensar justamente, o que Voltaire recupera como sendo o
bem pensar. Para Scheler trata-se de uma faculdade das essências, ideação, que
recobre algo mais que apenas o pensamento especulativo. Mas se aqui não seria o
lugar adequado para averiguar se o “pensar” iluminista é ou não apenas
especulativo, quando se trata de “espírito”, o que desejo enfatizar é que em
qualquer desses casos não se está de modo algum pensando como se deveria
fazer anteriormente à modernidade, isto é, atribuindo o espírito como uma
realidade tão substancial quanto a corpórea, isso que Voltaire registra
ironicamente sob as designações de pneuma, sopro, respiração, vida, alma.
É interessante
observar desde já que um dos efeitos cômicos alcançados por Hobbes no Leviatã
decorre justamente do seu acréscimo à lista dos ídolos de Bacon. Hobbes
introduz os “ídolos do cérebro”, seres míticos que a imaginação cria e de que a
religião se aproveita para jogar com a credulidade e a ignorância alheias, de
modo a ameaçar com “espíritos” de toda a espécie aqueles que não aderem às suas
pregações. Ora, esses seres, que incluem os demônios da imaginação cristã, são
designados sob a rubrica de “espírito” nesse sentido antigo, de algo que existe
por si. Hobbes intenta mostrar que não existem, mas que derivam da atividade do
cérebro ou da inteligência como faculdade de pensar e imaginar. Assim podemos
observar que a transposição do sentido do termo espírito já está em curso desde
o início do século XVII.
Aqui é muito
importante reconsiderar as observações de Heidegger sobre a evolução da
metafísica até a subjetividade moderna. Lembrando que a oposição de essência e
existência é o que determina a eclosão desse movimento de esquecimento do ser,
podemos resgatar a sequência histórica que Heidegger estabelecia desde essa
oposição fundamental, a seguir a identificação da essência como ato, para então
estabelecer esse ato como sendo o pôr da subjetividade frente ao objeto, isto
é, essencializadora do objeto. Se Spinoza pode bem se esquivar ao esquema da
história do ser, o mesmo não se pode afirmar da formação da teoria política,
cuja compreensão permite apreender a construção mesma da modernidade.
Sintomaticamente é Hobbes que fornece o percurso exemplar dessa ruptura.
Hobbes fecha o Leviatã
com uma exposição sobre “o que é a filosofia” no capítulo 46. Certo, ele
estende ainda um outro capítulo, concluindo com uma jocosa comparação do Papado
com o reino das fadas. Relacionados ao corpo do texto, porém, percebemos que
esse trecho conserva mais um papel retórico, que o cume da exposição está
alhures. Ora, o capítulo 46 me parece plasmar o percurso da modernidade de modo
que sua compreensão esclarece sobre tudo o que vem a seguir em termos de
pensamento político.
O capítulo se
intitula “das trevas resultantes da vã filosofia e das tradições fabulosas”.
Hobbes começa por fornecer uma aproximação ao que deve ser a sã filosofia,
opondo-a àquilo que ela não é. A filosofia sã ou verdadeira é conhecimento, seu
meio é o raciocínio. Ela pode raciocinar da origem da coisa para chegar à suas
propriedades ou proceder de modo inverso, das propriedades observadas para uma
dedução da origem. Em todo caso, seu objetivo é produzir “aqueles efeitos que a
vida exige”, isto é, parece-me, facilitar a existência dos seres humanos.
A filosofia tem assim
sua definição relacionada a uma especificação do conhecimento, pois
imediatamente Hobbes enuncia o que ela não é, a saber, a prudência, no sentido
de conhecimento com a vivência cotidiana. Assim “conhecimento” está abarcando
tudo o que não se põe apenas nesse âmbito de experiência comum. Podem então ser
exemplos de filosofia a geometria como a astronomia. Trata-se de conhecimento
rigoroso das coisas, de uma produção de saber sobre elas.
Ora, a seguir Hobbes
procede a um, hilariante a meu ver, pastiche de história da filosofia. O que há
de acusatório e transgressivo no texto depende de uma ruptura fundamental, não
expressa, mas plenamente localizável por quem conhece essa história. Podemos
resgatar esse passo fundamental através da escolha do termo para designar a
experiência vaga, cotidiana, isto é, “prudência”. Ora, prudência é a tradução
costumeira para a pronesis (phrônesis), conceito que na Antiguidade,
especialmente no peripatetismo, desempenhou uma função central na ética. Assim
ao negar que filosofia seja prudência, ou um caminho para ela, Hobbes está
recusando toda a antiga doutrina moral.
Mas essa recusa da
doutrina moral tem um alcance maior por se estender à doutrina política, uma
vez que ambas apresentam na Antiguidade uma interligação básica. Hobbes está
afirmando nada menos que isso, que se apresentou como “a” filosofia até então,
na verdade era uma atividade bastante vã, que se havia tornado perniciosa após
ter sido aproveitada pela instituição religiosa ávida de assegurar um poder
sobre a humanidade que absolutamente não lhe cabia de direito. O talento de
Hobbes está em confluir a crítica dessa pretensão da instituição religiosa
cristã, em que ele enfeixa não só a igreja e o papado, mas as instituições
civis que os servem como as próprias universidades da época, com uma arguta
observação da impossibilidade de uma filosofia como teoria política antiga, do
ponto de vista da modernidade.
Aparentemente a sua
argumentação vai se basear naquilo que poderíamos, grosso modo, designar de uma
ferrenha crítica do particular em prol do geral. Mas a meu ver o que o texto
efetivamente realiza é a transposição do pensar ao domínio do particular que
caracteriza a entrada na metafísica da subjetividade moderna, como enuncia
Heidegger.
O que Hobbes expressa
como crítica ao pensamento antigo nesses domínios moral e político é que nele
há uma confusão impossível de desfazer entre o que é particular,
idiossincrático, e o que é “geral”, inerente ao Estado. É assim que a política
eclesiástica pôde se aproveitar dos escritos antigos, pois a sua pretensão de
governar a sociedade civil consiste precisamente na mesma confusão. A religião
é algo que inere ao particular, ao sentimento ou preferência de cada um. A lei
é atribuição absolutamente geral do Estado, portanto uma coisa nada tem a ver
com a outra. A lei do Estado pode e deve compelir à obediência, pois ela
garante o estado civil pondo fim ao estado de guerra. A adesão ou transgressão
de uma regra de religião é algo da alçada de cada um, conforme sua livre
escolha.
Então o que Hobbes
põe como objeto de uma teoria política a sociedade civil cuja extensão formal é
a instituição do Estado. Isso que não existe na Antiguidade, onde, conforme a
expressão de Hobbes, só o que havia era uma união mais ou menos provisória de
particulares onde cada um age conforme seu interesse privado.
A recusa da moral e
da política antigas se relaciona à tarefa de restringir o domínio da lei ao
Estado, ao geral. Tudo o mais se torna particular, pessoal, domínio da prudência
de cada um. Ora, poderíamos apontar que nesse pastiche de história da filosofia
Hobbes confunde tanto a produção filosófica quanto as instituições sociais
antiga e feudal.
Vimos, bem
inversamente ao que ele apresenta, que se pode visar a sociedade antiga
justamente pelo que nela havia de irredutível ao particular, erigindo-se como
um cosmo totalizante, uma unidade civil-religiosa “ontologizável”, ouso
afirmar. O espírito aqui é o ser eterno que integra esse universo ao mesmo
tempo cívico e sagrado. Podemos pensar no oportunismo desses antigos ao propor
que só eles são “homens”, os outros sendo “bárbaros”, mas o fato é que eles não
o propõem como se isso fosse um “princípio” a ser examinado, mas o vivenciavam
como uma realidade fundamental, espiritual nesse sentido antigo do termo que se
conservou na religião ainda que com propósitos duvidosos, deturpando sua
aplicação talvez, mas isso não cabe analisar nesse momento.
Ora, o sentido dessa
inversão de Hobbes se verifica bastante estratégico, pois o que está em marcha
é a transformação desse cosmo cívico que ele ignora, tratando como um agregado
de vontades isoladas, em uma sociedade civil , separando poder eclesiástico e
temporal. Está aí a origem do moderno conceito de Estado. Se no mundo antigo a
comunidade é o domínio totalizante que, só ele, permite uma autocompreensão do
particular, o que a modernidade quer construir, e Hobbes nesse trecho do Leviatã
está expressando esse desejo, é a esfera “leiga” da lei civil, de modo que algo
como subversão da ordem consiste agora precisamente em contaminar essa esfera
com a introdução nesse domínio de todo interesse “particular”, no sentido que
se pode atribuir como “idiossincrático”.
Mas é por isso mesmo
que o “absolutismo” ou conservadorismo de Hobbes já contém os princípios do
liberalismo que será plenamente expresso em Locke, onde a ênfase, ao menos
nessa fase, está no geral que é mal e no particular que é bom.
Porque esse “idiossincrático”
que está ameaçando contaminar o domínio restrito da civilidade, isto é, da lei
do Estado, é institucional, tratando-se do poder eclesiástico, ele mesmo um
geral que está querendo se impor ao particular. Com efeito, qual é a imagem da
lei, o que é que fundamenta a sociedade civil? Locke responde em muitos lugares
do seu tratado: o que a sociedade civil garante é a propriedade particular.
Propriedade aqui,
surpreendentemente, abrange tanto a própria existência, como a manutenção da
saúde, quanto a posse de objetos, de terras, etc. O “geral” que parece estar
prevalecendo como domínio da lei, mesmo em Hobbes, é tão somente o particular
generalizado, isto é, o ser humano particular original despido de tudo o que
pode ser matizado na forma de preferência idiossincrática, gosto ou inclinação.
Com efeito, é em função desse particular, para garantir a sua segurança,
leia-se a segurança de sua propriedade, o que inclui a sua vida, que a
sociedade civil existe e que a lei tem algum sentido. Pois de outro modo não
haveria poder algum que pudesse constranger alguém a obedecer a outrem.
Que o espírito seja a
faculdade de fazer essa separação, no particular, entre o que é generalizável
ou não, determina toda uma transformação no estatuto da essência. Essência quer
agora denotar: o que é comum, o que é objetivável, expresso na linguagem e regrado
pela lei. Não a forma separada ou realidade espiritual, substancial, o Ser.
Acidente quer agora denotar: o que podemos conservar como domínio da
preferência, do gosto, o que cada um decide quanto a si na existência. A
oposição essência – existência recobre a oposição entre o público e o privado,
a lei e o indivíduo.
A essência é
invariável, apreensível pela generalização do particular, a existência conserva
algo do acaso, mas mesmo nesse domínio acidental a razão também se exerce. A
religião pertence a esse domínio, é algo absolutamente pessoal, depende da
adesão de cada um, o Estado não pode impor ou proibir qualquer crença, desde
que seus adeptos não estejam agindo contra as leis do país. Mas aplicando a
razão Hobbes e Locke podem repelir o ateísmo como as religiões não cristãs,
enquanto incompatíveis com o bem do ser humano. Mas renunciam a obrigar quem
quer que seja a aceitar suas razões quanto a isso.
A argumentação da Carta
sobre a tolerância de Locke é exemplar. Se a religião cristã é o verdadeiro
bem do ser humano é precisamente por ser aquela que ensina a tolerância. Um
pagão não tem problemas ao aceitar que sua crença deva ser apoiada pela espada
do príncipe, mas ao verdadeiro cristão isso deveria repugnar. Ademais, quando
Jesus afirmou ser “o” caminho, ele certamente não estava propondo que houvesse
uma pluralidade de vias espirituais. Mas se cada seita afirma ser esse caminho,
e se podemos sem dúvida observar que “cada igreja é ortodoxa para consigo mesma
e errônea e herege para as outras”, resta que “nenhum caminho no qual alguém
entra contra sua própria vontade jamais o levará para as mansões abençoadas”,
conforme o texto do segundo tratado. A conclusão é que a razão de cada um deve
resolver o seu caminho, e só Deus se reserva como juiz numa relação
estritamente pessoal com quem escolhe.
A tolerância de Locke
se estende mesmo a considerar injusto o confisco da propriedade dos povos
pagãos com base numa prerrogativa de povos cristãos. Ela parece limitar-se
apenas quando se trata de ateísmo. Mas no panorama geral do texto o que se
retém é a mesma rigorosa separação em que Hobbes insistia, de um domínio
restrito como sendo o da lei, da regulação da civitas, da sociedade
política, do Estado. Oposto a esse domínio encontrando-se toda a gama variada de
opções pessoais, incluindo a religião. Mas esse domínio mesmo sendo plasmado
como generalização do particular, existindo apenas para e por esse particular.
E Locke afirmará peremptoriamente, nos escritos sobre o entendimento, que está
no âmbito do particular “o tudo e o máximo” do nosso conhecimento enquanto
percepção do acordo ou desacordo de nossas idéias particulares, numa inversão
exemplar da máxima antiga pela qual só poderia haver conhecimento do universal.
Assim, do segundo
tratado parece ser depreensível que se esse ser humano particular pudesse
existir apenas consigo mesmo seria perfeitamente feliz, a sociedade civil
existindo para conceder a cada um uma réplica desse estado autárquico que
pertence essencialmente à subjetividade.
Montesquieu e
Rousseau.
Ora, a consequência
dessa subjetividade autárquica no fundamento da teoria política é precisamente
a que se verifica em Rousseau. A oposição não poderia parecer mais clara. Em
Locke o fundamento da sociedade civil é a garantia da propriedade, em Rousseau
a propriedade “instaura a desigualdade das sociedades civis, culminando no
despotismo”, conforme o texto introdutório dos Pensadores. Resta que o sentido
de uma reflexão sobre a desigualdade só reside no resgate desse ser humano
original que a “sociedade” mascarou. Mas esse ser original é aquele que,
conforme a expressão de Bayet (Chatelet, história da filosofia, o
iluminismo, p. 153), “só a verdade libera”. Ou seja, a subjetividade
autárquica que só obedece ao seu espírito, à sua aptidão à verdade.
O que se operou foi
apenas a ruptura no interior do conceito de “propriedade”. Enquanto em Locke
ela se traduz por “bens”e abrange tudo o que é desejável e essencial à
existência, inclusive a existência mesma, em Rousseau ela significa apenas a
posse de objetos exteriores ou exteriorizáveis. O que o discurso intenta
resgatar continua sendo esse ser aqui, o ser humano particular, não uma
generalidade cósmico – comunal, como no pensamento antigo, ou o agente moral de
uma razão a priorística, isto é, por toda parte a mesma, a-pessoal, como o será
no kantismo, lá onde a curva deve inverter a escala e o particular surgir como
o mau e o parcial, o geral sendo o fundamento da lei cuja forma vazia reverte a
imagem do pensamento – algo como um postulado antropológico poderá
surgir.
Sem dúvida deve-se
salientar que o pensamento de Rousseau é bastante complexo. Ele não se deixa
reduzir a uma linha de continuidade plena no sentido do liberalismo político,
como observa o texto introdutório dos Pensadores: Rousseau não crê na separação
ou irredutibilidade entre o Estado e o indivíduo. Mas também, como se vê em
Bayet, há uma relação observável entre Kant e Rousseau que se pode localizar na
instantaneidade que define a ruptura entre os dois estados, o da natureza e o da
sociedade. Revolução coperniciana da política, já em Rousseau. A sociedade
política não depende de uma lei que lhe é anterior, ela se torna atual desde
que o indivíduo deva se tornar humano.
Entre Rousseau e
Locke, porém, e para que se possa compreender o que se altera ou conserva, há
Montesquieu. Sua influência sobre Rousseau pode ser verificada pelo texto de
Bayet. Com efeito, a aproximação ao pensamento de Montesquieu permite resgatar
traços que interconectam a complexa elaboração de Rousseau a essa linhagem de
pensadores do pacto social, desde Hobbes.
Observou-se a
peculiaridade dos “filósofos” deste período: eles intentam produzir estudos da
natureza e do homem, como se a realidade fosse coextensiva, da física à moral.
Mas o que fornece uma base razoável a esse intento, parece-me, é a noção de lei
que está sendo formulada precisamente nessa época, uma noção cuja
inteligibilidade depende da associação com o conjunto de termos que também
estão sofrendo intensa transformação como espírito, essência, razão. A obra de
Montesquieu, o Espírito das Leis, evidencia esse fato de modo
especialmente oportuno.
A obra é bastante
extensa, mas aquilo que estamos destacando pode ser constatado já na leitura do
pequeníssimo livro I. Na tradução brasileira ele ocupa duas páginas, versando
sobre as leis em geral. Contudo, pela importância das noções que define,
pela novidade que apresenta essas definições, é como se essas duas páginas
formulassem uma transposição fundamental no âmbito do pensamento.
Ora, a questão
inicial é apresentar a noção de lei de modo que ela se desdobra, sem se
fragmentar, entre a natureza e a sociedade. Toda lei traduz uma relação
estabelecida constantemente. Se isso se aplica igualmente às leis do mundo
formuladas por Deus e às leis formuladas pelos homens, só o que muda é que num
caso elas são imutáveis e inapeláveis, e no outro elas são passíveis de
desobediência. Ninguém pode não seguir uma lei natural enquanto que uma lei da
sociedade pode ser transgredida.
O ser humano está
assim numa situação singular em relação aos outros seres vivos. Não sabemos se
o animal tem uma moção particular ou apenas atualiza em seus movimentos a lei
física que expressa a relação de massa e velocidade. Mas se podemos compreender
a união do animal à lei da natureza postulando um vínculo de sentimento, não se
pode pretender que o animal prescreva leis por si mesmo. Só o ser humano
conhece a duplicidade da lei, a natural e a positiva. Os animais possuem leis
naturais por se unirem pelo sentimento. Não possuem leis positivas porque não
se unem pelo conhecimento. Isso singulariza o ser humano.
No âmbito
exclusivamente humano, a duplicidade dos domínios das leis, o natural e o
positivo, configura os espaços do que se pode designar como Estado de Natureza
e Estado civil. Assim, conhecendo a lei natural que expressa o ser humano
apenas como ele existe enquanto ser biológico, por assim expressar, estamos
descrevendo o estado de natureza oposto àquele de sociedade. Criticando
expressamente Hobbes, Montesquieu observa que nesse estado o ser humano não é a
criatura autárquica, egoísta porque cônscia de sua irredutibilidade e ciosa de
seu predomínio, mas inversamente, “nesse estado todos se sentem inferiores e
dificilmente alguém se sente igual”. A paz seria a lei natural, pois quem, com
esses sentimentos de temor e insignificância perante as potências e intempéries
com que se defronta, poderia ousar atacar a outrem?
Montesquieu
estabelece assim uma série de quatro pontos essenciais como definindo o estado
de natureza. A conservação, a alimentação, a procriação e a socialização. A
faculdade de conhecer é inicialmente relacionada à conservação, não sendo desde
o início especulativa. O ser humano precisa antes encontrar os meios para se
conservar, só depois pode especular sobre a sua origem. A alimentação se
inscreve como o meio mais importante e o ser humano desenvolve um conhecimento
específico quanto a isso. Mas sua conservação como espécie depende do impulso
ao acasalamento, o que o faz aprofundar os laços com os outros, laços que já se
haviam tornado manifesto desde que se verificaram necessários à própria
preservação. O impulso ao acasalamento torna prazeroso o convívio e os seres
humanos desenvolvem o sentido de socialidade.
Percebe-se que desde
o impulso à reprodução a lei da natureza já opõe o domínio humano em relação
aos outros animais, pois esse impulso humano não se realiza simplesmente
através de um momento, nem parece apenas uma questão casual de ter um parceiro
à disposição. Trata-se de um liame sólido que perdura, o casal humano constrói
uma sociedade íntima com o tempo que vivem juntos, essa sociedade estendendo-se
naturalmente ao grupo como uma espécie de reforço do impulso original entre os
sexos. Ora, estando “em sociedade”, os seres humanos “perdem o sentimento de suas
fraquezas”. Logo, declara Montesquieu, não há mais igualdade.
Isso é compreensível
se lembrarmos que a igualdade, na visão de Montesquieu, era uma igualdade de
temor, um laço devido à comum fraqueza do estado natural. Essa identidade de
estado natural e estado de indigência humana determina uma outra identidade,
agora entre o estado de sociedade e o estado de guerra. O estado social implica
na verdade em dois estados de guerra, aquele que se verifica entre sociedades e
aquele que se verifica entre pessoas. Como esse estado é intolerável, dele se
segue a instituição das leis entre os seres humanos.
As leis positivas
cobrem, pois, em geral, esses dois domínios passíveis de conflito. O direito
das gentes se estabelece como corpo de leis que regula as relações entre as
sociedades. Os direitos político e civil regulam, respectivamente, a relação
dentro de uma mesma sociedade, seja de governantes e governados, seja entre
todos os seus cidadãos.
A sociedade, enquanto
Estado político, é a reunião das forças de seus integrantes. É o que
Montesquieu designa como a “força geral”. Não creio que haja problemas em
enunciar essa força geral como simplesmente o governo. A sociedade, sendo a
reunião dos indivíduos, o Estado é essa força geral enquanto seu governo. Ora,
verifica-se que existem várias formas de governo. E é assim que se compreende o
“espírito das leis”.
As “leis” são a razão
do ser humano atuante no estado de sociedade. Enquanto razão a lei é algo que
se endereça ao geral, isto é, à sociedade, e se exerce como algo geral, comum a
todos os seres humanos. No entanto, ela só se aplica ao particular. Não somente
aos casos particulares que deve regular, mas ela só se exerce numa
particularidade que é essa sociedade aqui na qual se formula conforme as
solicitações que esse meio apresenta, o que outro meio poderia não fazer. O “espírito”
expressa essa relação do particular com o geral, pois a lei é sempre nacional,
localizada, relativa às determinações do meio como o clima, o caráter dos
habitantes, suas potencialidades, número, costumes, seu gênero de vida
relacionado aos recursos naturais do território, etc.
Já bem à frente, no
livro XIX, Montesquieu especifica que esse particular, como domínio da
aplicação da lei, se manifesta ele mesmo como um geral. Ora, penso que aqui
Montesquieu está definindo mais minuciosamente o que entende como a “força
geral” que caracteriza uma sociedade e que se encarna como Estado. Trata-se do “espírito
geral”. Isto é, não há força geral abstrata, não já vivenciada como uma
sociedade existente, com sua índole, seus costumes. O espírito geral é aquilo
que com mais força preside a seleção de leis aplicáveis à nação que nele se
consubstancia, por assim expressar.
É então que se
compreende o fato de tópicos abrangentes como educação e regulação de costumes
só poderem ser desenvolvidos em conformidade com essa articulação entre geral e
particular. A educação não pode ser conceituada abstratamente, mas precisa ser
considerada relativamente a cada tipo de governo, manifestando em suas instituições
a conveniência com a sociedade local. Assim também as leis que regem cada setor
da sociedade considerada.
A importância do
pensamento de Montesquieu pode ser sublinhada quanto a esse tópico. Bréhier o
enuncia de certo modo paradoxal, pois ele compreende esse espírito geral no
sentido de uma lógica social. Uma certa combinatória de princípios, um certo
sistema coordenado de leis como variável. O paradoxo aparente é que Bréhier
considera que assim Montesquieu está introduzindo a consideração dos problemas
políticos como esfera autônoma, “por eles mesmos”, ou seja, “sem referência a
uma concepção explícita do espírito e da natureza”. Ora, vimos que a introdução
desse extenso texto sobre as leis depende de uma reflexão sobre o vínculo da
lei em sua relação com os diversos seres, isto é, uma reflexão sobre a lei de
que se possa depreender a articulação do natural e do positivo.
Creio que se pode no
entanto apreciar essa posição de Bréhier interpretando-a no sentido de que, uma
vez definido esse espaço do social, Montesquieu não faz depender a sua
inteligibilidade de algo como a natureza do homem, isto é, não retroage sobre
domínios heterônomos. Assim ele satisfaz a exigência de Hobbes, manifesta na
crítica à aceitação da prudência como filosofia, isto é, ele se mantém no
âmbito exclusivo da modernidade, desenvolvendo uma teoria política como
inteligibilidade autônoma de um meio perfeitamente delimitado como sendo o
espaço da sociedade política. No entanto, o tema que deve manifestar claramente
essa ruptura deverá ser o da liberdade, pois é aqui que se poderia apresentar o
maior risco de um recuo a um direito natural essencialista que pudesse
justificar ao mesmo tempo sua atribuição ao ser humano e por aí a exigência de
sua garantia civil.
Inicialmente Montesquieu
apresenta um conceito abrangente de liberdade que interliga o indivíduo e a
sociedade: a liberdade é o direito de fazer tudo o que as leis permitem, mas
também de não ser obrigado a fazer o que elas proíbem. Ora, a seguir
Montesquieu desdobra o alcance da noção, conforme se trata da liberdade social
a ser garantida como constituição ou da liberdade do cidadão.
O sentido da
liberdade do cidadão é o exercício da vontade, quando se expressa no âmbito “filosófico”,
isto é, quando essa liberdade está sendo conceituada em relação ao próprio
cidadão em sua relação pessoal com o mundo circundante. Quando se pensa a
liberdade do cidadão no sentido político, verifica-se que ela consiste na sua
segurança.
Ao estabelecer o
conceito de liberdade social, porém, Montesquieu inova de certo modo. Ele
observa que a garantia da liberdade política depende sempre, em cada sociedade
ou constituição, de uma perfeita independência entre três poderes, o
legislativo e o executivo, este desdobrando-se nas atribuições relativas ao
direito das gentes e ao direito civil. A seguir, porém, Montesquieu esclarece
que a perfeita liberdade só se observa quando tanto se distinguem o executivo e
o legislativo, quanto o executivo do “poder de julgar”, isto é, da atribuição
do direito civil.
Configura-se assim a
doutrina liberal da separação dos poderes executivo, legislativo e judiciário
que orienta, geralmente, as repúblicas federativas, de feição democrática. Isso
que Bréhier conceitua, precisamente, como “ o liberalismo de Montesquieu”. Contudo,
Montesquieu não prega a causa da democracia. Inversamente, quanto a isso, sua
posição é bastante singular e esclarece o seu papel histórico, entre o
liberalismo parlamentar perfeito de Locke e o ideal de uma sociedade
democrática, ainda que de modo não tão simples como poderia parecer aí esse
rótulo, que se configura em Rousseau.
Com efeito,
Montesquieu procede a uma tipologia de governos, que podem ser caracterizados
por seus princípios: o princípio da aristocracia é a moderação, da monarquia é
a honra, do despotismo é o medo, e da república ou democracia é a virtude. A
novidade aqui é a designação de dois tipos de governo que habitualmente se vê
aplicada como a um só. Trata-se da monarquia e do despotismo. O que os opõe na
visão de Montesquieu é que a monarquia agrupa de modo orgânico um soberano e
uma corte ou classe nobre, enquanto que o despotismo se configura como o
governo exclusivo do rei. A opção política européia de Montesquieu é a
monarquia assim caracterizada, já que a democracia lhe parece um regime
instável.
Essa opinião sobre a
democracia é compreensível no âmbito de uma pesquisa como a de Montesquieu, que
observa os exemplos históricos e os compara. Á época de Montesquieu a
democracia devia parecer algo de que só se teve experiência por um período
relativamente pequeno na Antiguidade, o que poderia fazer concluir de sua
fragilidade intrínseca. O regime inglês fornecia o exemplo mais adequado.
Praticava a separação dos poderes, sobretudo mantinha um parlamento
independente.
No entanto, creio que
se pode afirmar que a posição de Montesquieu, no contexto francês, é bastante
singular. Pois ele se torna o representante de um desejo transgressivo, ainda
que, no contexto, bastante razoável. Trata-se da união entre a nobreza e o
absolutismo. A aspiração política de Montesquieu, quanto à França, mostra assim
o limite de sua análise, limite que Bayet enuncia tendo já sido visado por
Rousseau que, não obstante, muito deve a Montesquieu.
O problema é que
Montesquieu se detém na “classificação e exposição das ‘competências’ de cada
forma de governo”. Rousseau pretenderia nada menos que “atingir os princípios
de todo corpo político”, ou seja, “o ato pelo qual um povo é um povo”.
Localiza-se aqui, nessa recusa do relativismo político de Montesquieu, pelo
qual só se compreende o geral em sua articulação com o particular, a
aproximação de Rousseau com Kant. E já se pode prever a reminiscência de
Montesquieu em Hegel. No entanto, o que me parece decisivo é que a limitação
mais significativa não foi apontada por Rousseau enquanto pode ser destacada a
partir de Marx. Explica-se assim a singularidade da posição pessoal de
Montesquieu.
Aparentemente nada
mais coerente do que chamar o soberano a uma aliança com sua nobreza. No
entanto, o que Montesquieu incluiu como um fator entre outros, o “gênero de
vida”, poderia não ser assim tão inserível, mas ressaltar como algo capital. E
de fato, nada mais transgressivo do que essa aliança, já que o poder do
absolutismo não se sustentava por uma nobreza que primeiro se confrontava com a
debilitação de seu papel produtivo na mudança do peso econômico, da agricultura
ao comércio e à especulação financeira, e que depois se havia tornado
dependente economicamente do rei, um encargo seu, de modo algum um sustentáculo
da manutenção do estado de coisas.
A situação da
Inglaterra era completamente oposta. Ali a aliança da nobreza foi com a
burguesia, desde o início da revolução econômica que inaugura os tempos
modernos. Em todo o caso, o que Montesquieu não observou foi que o determinante
estava na burguesia, que nesse momento retinha as condições da manutenção
concreta do exercício do poder na sociedade. É certo que a monarquia, tal como
a conceituava Montesquieu, previa uma articulação orgânica do soberano com
todos os setores sociais. Mas uma vez que isso implicava na manutenção desses
setores assim como compartiam o todo da sociedade, sem dúvida o que se seguia
era predominantemente uma composição com nítida dominância política de uma
nobreza que já não detinha um papel econômico correspondente.
Em todo caso, até
aqui, podemos fazer uma esquematização das posições apresentadas: o absolutismo
de Hobbes, o liberalismo parlamentar de Locke, a posição moderada de
Montesquieu. Ligados a essas opções políticas, temos o estado de natureza como
autonomia que degenera no predomínio, ou estado de guerra (Hobbes), o estado de
natureza como de liberdade e igualdade que se confronta com a possibilidade do
estado de guerra como oposição individual (Locke), e o estado de natureza como
de carência e necessidade que requer sua própria auto-superação para a
conservação da espécie (Montesquieu). A sociedade resulta assim ora como um
pacto de renúncia, ora como um pacto de consentimento, ora como um liame de
conveniência. Trata-se agora de observar como se insere a perspectiva de
Rousseau.
Ora, nesse período
que estamos examinando, abrangendo os séculos XVII e XVIII, que se poderia
designar pré-kantiano como outrora se designou um tempo pré-socrático, vimos
que o particular fornece o padrão do geral, é a ele que se deve garantir, e
assim é por ele que a sociedade se fundamenta, é ele também que fundamenta o
pensar, já que é só por ele que uma inteligibilidade pode se exercer.
Quanto a isso,
comparando as posições de Hobbes e de Locke, de um lado, e Montesquieu, de
outro, vemos que Montesquieu enuncia uma articulação entre o particular e o
geral, lá onde Hobbes e Locke haviam feito uma operação de decalcamento, de
sobreposição do geral sobre o particular. Em todo o caso conserva-se o
essencial do liberalismo como definição de domínios separados, o público e o
privado, sendo que esse domínio pública caracteriza perfeitamente a
circunscrição do objeto da moderna teoria política. A questão que se enuncia
inicialmente, quase que implicada no que precede, é então se Rousseau realiza a
contracorrente que vai colocar a ênfase no geral, assim como se pode verificar
estar plenamente em marcha na filosofia de Kant.
Creio que uma via à
compreensão do pensamento de Rousseau nos é fornecida por Spinoza. Com efeito,
Rousseau pensa a sociedade como um corpo “moral e coletivo”, assim como Spinoza
pensa a associação benéfica para seus integrantes em termos de composição de um
corpo maior, mais potente, do que aquele que pertence originalmente a cada um
que dessa associação se beneficia.
Penso que não seria
descabido supor que a opinião de Arendt, tão desfavorável a Spinoza quanto
lisongeira a Montesquieu, se deve a que de um ponto de vista “disciplinar”,
realmente somente com Montesquieu se verifica a preocupação e a consecução de
um limite preciso da teoria política. A leitura de Chatelet-Duhamel-Kouchner
(história das idéias políticas, p. 50) mostra que é Grotius o marco que
assinala a localização do pensamento sobre o direito, logo a fundamentação do
liame social e político, na natureza do ser humano, independente de
considerações de moral ou genéricas. No entanto, mesmo considerando Grotius
como “o Descartes da política”, penso que só com Montesquieu podemos localizar
a possibilidade de compreensão de um sistema social e político dado, pois ele
fornece critérios de demarcação como princípios que determinam a coesão de um
organismo social atuante.
No entanto, como
vimos, a limitação desse tipo de análise está na desconsideração dos pesos que
incidem sobre esses critérios, e é nesse sentido que me parece possível
constatar no pensamento social de Spinoza um alcance crítico bem maior. Com
efeito, aí a sociedade não precisa se constituir no início ou como o telos, ela
é um meio de organização, um esforço, uma tendência à razão, mas a questão não
se encontra na definição de um vínculo, de uma obrigatoriedade entre o
particular e o geral, e sim na apresentação do critério do bem social, a saber,
o quanto certa organização social favorece o esforço de autopreservação e mesmo
a ascenção ao mais alto nível de conhecimento dos integrantes.
Ora, a continuidade
de Rousseau a Spinoza parece estar apenas nesse início do Contrato Social,
nessa consideração da sociedade como um corpo coletivo, a partir de que a obra
de Rousseau só se compreende naquilo que ela recupera da teoria política
precedente, mesmo quando ostenta o que conserva apenas na forma da ruptura.
Pois a intenção desse texto se prende principalmente, a meu ver, a transformar
os dados que até então haviam interposto a relação do particular e do geral
mantendo esse par complementar como o fundamento teórico de todo pensamento
sobre o Estado e a sociedade, o que não me parece ter sido de modo algum a
orientação de Spinoza.
É importante notar
que o exame das teorias de Hobbes, Locke e Montesquieu pôde se implementar sem
uma referência explícita à construção do conceito de pacto. Uma vez
compreendendo a oposição do estado de natureza ao de sociedade, em cada caso,
compreendemos também o que supõe o pacto enquanto vínculo de associação entre
os integrantes da sociedade. Com Rousseau, porém, já pelo título mesmo e
composição do texto, essa referência é essencial. Com efeito, aqui é como se a
oposição entre os estados fosse compreensível através da compreensão do que é o
pacto, não o inverso. Não me parece que isso seja um acaso.
Nessa inversão reside
a intenção profunda que transpõe o problema inteiro da teoria política tal como
ele vinha se apresentando até aqui, isto é, como uma tarefa que consistia em
separar o público do privado, e em vincular esse público ao que chamei “particular”,
isto é, o ser humano fundamental ou originário. É essa tarefa que está na base
de ter que designar os estados de natureza para, a seguir, erigir uma imagem de
sociedade que ao mesmo tempo se justifica pela natureza – ou porque deriva dela
ou porque a ela se contrapõe para conservação da espécie – e se distingue dela comme
il faut. O que restava intacto era o problema de fundamentar nesse ser
humano originário a sua partição entre o particular e o idiossincrático. Seria
algo como uma petição de princípio afirmar que isso está resolvido na oposição
dos dois estados, isto é, uma vez que se saiba o que é a natureza ou o que é
fundamental à conservação da espécie. Na realidade, o problema do “indivíduo”
permaneceu.
Assim, Rousseau se
encarrega desse problema. Trata-se de formar o “particular” nesse indivíduo,
mistura de originário e derivado, de fundamental e de matizável. Penso que
assim se compreende o sentido do que Rousseau enuncia no capítulo VII do livro
I do Contrato Social, ali onde se esclarece que o ato de associação, o ato do
contrato, compreende um compromisso entre o público e os particulares ao mesmo
tempo em que cada particular está contratando consigo mesmo.
Ora, anteriormente
Rousseau havia estabelecido que todas as cláusulas desse contrato fundamental –
que fornece a exequibilidade de todos os outros contratos dentro de uma
sociedade – reduzem-se a uma só, como “alienação total” de cada associado, com
todos os seus direitos, à comunidade. Mas o que isso tem de vantajoso é que
essa alienação é igual para todos. Logo, ela torna a todos iguais naquilo que
eles podem esperar em termos de garantias, direitos e deveres. Sendo a
alienação total, sem reservas, forma-se por esse ato o corpo coletivo ou
sociedade política.
Mas o que é alienável
assim? O que no indivíduo se subtrai ao exercício do direito, de modo algum o
ser humano em sua particularidade que é, inversamente, o que ganha ou usufrui
das vantagens do ato de socialização. A transformação do indivíduo no ser
humano socializado, isto é, desse ser no qual se confundem o capricho e a
vontade, o que o une aos demais e o que o separa deles, em um ser que é igual
aos outros, imagem menor do corpo coletivo que o reflete e tem nesse refletir o
critério de sua legitimidade, se acompanha de várias outras: da vontade de
todos à vontade geral, da posse à propriedade, da liberdade natural às
liberdades civil e moral, e mesmo do súdito ao cidadão. O que opera a
transformação é porém o mesmo: a introdução, pelo contrato, da noção de lei.
Rousseau de modo
algum pretende, ao enunciar o conceito de lei, fazer depender por menos que
seja a noção de lei de Estado das noções de lei metafísica ou lei da natureza.
É interessante notar que o texto do Contrato conserva essa mesma ordem
na enunciação do que a lei do Estado não é. Porque assim é como se Rousseau
resumisse as idades desse conceito, anteriores a um pensamento social e humano
inteiramente independente de todo modelo extrínseco. O domínio da lei é
exclusivamente aquele da soberania, isto é, o poder absoluto do corpo coletivo
sobre seus membros. Esse poder absoluto marca a irredutibilidade entre vontade
de todos e vontade geral. A vontade de todos pode ter por objeto alguma coisa
particular. A vontade geral, não. A lei é o que expressa, em cada caso, a
vontade geral. Assim uma lei pode estatuir sobre um regime de governo, mas não
sobre se essa ou aquela pessoa deve ocupá-lo, pode estabelecer classes, mas não
definir quem pertence a cada classe.
Clarifica-se assim o
processo que estava na raiz da formação do conceito de público até então, na
medida em que essa formação sempre se mesclava a uma crítica de poderes sociais
usurpadores da função do geral, como no caso da religião em Hobbes e Locke. E
em geral o problema que está no cerne do liberalismo político.
Podemos enunciar esse
problema do ponto de vista do sujeito. Ele tem a evidência que é, que pensa,
que sente, que quer. Porque, nele, algo deveria ser mais ele mesmo do que
qualquer outra coisa? Na escala social teríamos o confronto, por exemplo, entre
uma religião que se estatui sobre a sociedade civil, e uma religião estatuída
por essa mesma sociedade, no caso de uma nação ter que definir o que vem a ser
sua religião oficial. Mas do ponto de vista do prosélito que não pertence a uma
nem à outra, porque veria em uma ou em outra maior poder sobre sua própria fé?
Como resolver o que é o particular generalizável e o que é idiossincrático no
sujeito, isto é, o que nele é originário e o que não é?
Rousseau fornece uma
resposta, de modo originário pelo sujeito consigo mesmo. O critério do
que no sujeito se torna generalizável é fornecido pela igualdade – o mesmo ato
é feito por todos os outros sujeitos, portanto é “o” ato generalizável por
definição – mas é garantido pela liberdade civil que se converte em liberdade
moral. Oral, a liberdade natural só conhece limites nas forças do indivíduo. Já
a liberdade civil, no âmbito de que a posse se converte em propriedade,
proporciona a liberdade moral como correlato da obediência à lei. Rousseau
esclarece esse aparente círculo ao mostrar que desde que há obediência ao
particular dissolve-se o estado de coisas social. Onde há “senhores” não há
soberano, este sendo definido como o corpo político que existe pela integridade
do contrato social.
Trata-se, portanto,
da transformação do indivíduo no sujeito ou membro da sociedade, transformação
que é ao mesmo tempo assunção do humano pelo homem ou mulher, desde que
socializado. Percebe-se então porque o ato de socialização é fundamental e
porque ele é originariamente consigo mesmo. Pois não se trata de um pacto com
os outros, mas de uma conversão pela qual o ser se autoapreende como “humano”,
isto é, igual aos outros seres humanos dotados de uma liberdade moral. Jamais o
direito poderia ser agora a força. Onde há força, puro estado de coisas vivido
onde não há lugar para o conceito, não há lei, isto que só se pode apreender
constituindo a partir de si mesmo, ou seja, princípio de inteligibilidade
constitutiva ao mesmo tempo do todo e da parte enquanto parte do todo – não
apenas a ele agregado como qualquer elemento mas dependendo de um princípio de
razão para que de agregado se tenha agora um conjunto.
Basta que o ser se
autocompreenda como elemento desse conjunto social para que se entenda humano e
sujeito de inteligibilidade. Eis porque a inteligibilidade é desde seus
fundamentos moral, não o inverso. Não é a moral que funda o social, mas desde
que há inteligibilidade ela é social e ela garante a liberdade moral.
Penso que assim se
desfazem algumas dificuldades – não de todo que deixem de subsistir no que
tange a essa obra tão múltipla e complexa, fortemente estetizada – que se
associam habitualmente ao pensamento de Rousseau. Por exemplo, o que se poderia
apontar de uma comparação entre o texto sobre o contrato social e o discuso
sobre a desigualdade. Ou mesmo o que poderia se endereçar como a indagação
sobre o modo mais adequado à compreensão da mudança de gênero: textos de
ficção, textos filosóficos e teóricos, texto confessional.
Quanto ao
multimorfismo da obra, creio que ele expressa bem a personalidade de Rousseau.
Trata-se de um procedimento de montagem: os dados estão fragmentados, toda a
tradição se encontra caleidoscopicamente confrontada consigo mesma, aos
pedaços, nos dicionários e enciclopédias, tendo perdido a unidade. Trata-se de
começar dessa fragmentação essencial que absorve o homem consigo mesmo, desde
que seu estado originário, sua natureza, não é o seu estado original, esse em
que ele nasce e se constitui para si mesmo e para os outros constituindo ao
mesmo tempo esses outros, o seu ser no mundo. Logo, trata-se sempre do mesmo
começo, ainda que sempre em outro texto. Assim é interessante ligar esse
princípio de composição ao confronto dos dois textos citados, que abordam ou
tangenciam o mesmo assunto. Se o contrato é posterior ao discurso, e se o
discurso é responsável pelo mito que deturpa Rousseau como o apóstolo do bom
selvagem – coisa que, como já demonstram Chatelet – Duhamel – Kouchner, não
ocorre de modo algum – não deixa de ser bastante surpreendente encontrar no
início do contrato aquele “ignoro”, referente a como o ser humano deixou de ser
livre.
Mais inquietante é o
que se apresenta logo após, a pergunta sobre “que poderia legitimá-la”, isto é,
essa mesma mudança: ter nascido livre, ter sido posto a ferros. Como poderia se
querer legitimar tal coisa? Que significa “legitimar”? Todo o texto consiste na
oscilação desse sentido, ou é o que parece. Legitimar significa no contexto
tornar compreensível e ao mesmo tempo reverter o sentido pelo qual liberdade
significa subtrair-se à lei. Logo, transformar a sociedade, ou o conceito que
fazemos dela, desde uma força que coage do exterior a uma lei que constitui. É
interessante observar que a palavra “consentimento” não seria aqui adequada. “Alienação”
é um termo forte, mas conserva o alcance do que está em jogo, algo como a
ascenção do que é em si ao ser para si.
O efeito de
sobreposição do trecho que descreve o ser humano no estado civil no contrato
com aquele que descreve o ser humano no estado de natureza no discurso é algo
cômico. Assim, no contrato, a transição do estado de natureza ao estado civil é
uma mudança “muito notável”, substituindo, na conduta do ser humano, o instinto
pela razão, o impulso físico pelo dever, o apetite pelo direito, o interesse
próprio por princípios racionais. Ora, o que ganhamos assim é que nossas
faculdades “se exercem e se desenvolvem”, nossas idéias “se alargam”, nossos
sentimentos “se enobrecem”, e mais geralmente, o animal limitado se torna ser
humano inteligente. Já no discurso, evitando confundir o homem civil com o
homem da natureza, este se caracteriza por sua fisiologia perfeita, fácil
satisfação das necessidades, robustez, superioridade de instinto e de força
sobre todos os outros animais e audácia. O homem no estado de natureza não fica
doente, tem todos os sentidos muito aguçados e é fisicamente forte.
No contrato, se a
posse é pela força, a propriedade é pela lei. Logo, o respeito à propriedade
constitui o ser humano como pessoa moral. No discurso, dever-se-ia evitar ouvir
o impostor que por primeiro “lembrou-se de dizer isto é meu”,
dever-se-ia gritar aos semelhantes que os frutos são de todos, que a terra não
pertence a ninguém.
No contrato a
socialização é um ato fundamental e como que tendo sua necessidade inscrita na
destinação racional do ser humano. No discurso a socialização é algo
contingente, tendo se devido a certos acasos, derivando-se de um percurso muito
gradual.
Com efeito, o
discurso não opõe apenas o estado de natureza e o estado de sociedade, mas
entre ambos interpõe o estado de selvageria, como observa Bréhier: de uma
relação apenas com coisas (estado de natureza), o ser humano se vê confrontado
por circunstâncias fortuitas como intempéries e longos invernos, que o forçam a
se associar com outros seres humanos mas não de forma permanente ou regulada
(estado de selvageria). A circunstância da acentuação desses rigores naturais
transforma essas associações selvagens transitórias em algo duradouro e a ocorrência
furtiva mais importante, a descoberta do ferro e da agricultura, redunda
finalmente no estabelecimento de classes sociais opostas conforme a
desigualdade natural (de aptidão ao trabalho, de talento) se transforma na
desigualdade social ( entre os menos dotados de recursos e os que acumulam
resultados de cultivo), assim constituindo-se, como num processo de degradação:
a) leis e instituições civis (que legitima a desigualdade pela legitimação da
propriedade); b) magistrados (que legitima a desigualdade entre fracos e
poderosos): e c) o despotismo (instituição de escravos e de senhores) . Aqui se
localiza o estado de sociedade.
Pode-se ser tentado a
identificar, nessa descrição do estado de sociedade, os vícios do Antigo
Regime. Não creio que uma tal comparação seja injustificada. Em todo caso, mais
importante me parece ser como Rousseau transforma os dados do pensamento
político até então. Certo, seu estado de sociedade como sendo uma guerra de
todos contra todos pode ser comparado com o de Montesquieu. No entanto,
Montesquieu aponta esse estado civil como uma questão de equilibração de
poderes, uma vez que os seres humanos se fazem fortes o suficiente para que
seja viável se opor uns aos outros. Quanto a Rousseau, o estado social descrito
pelo discurso, a meu ver, inverte o sentido daquela noção de “consentimento”
que fundava o pacto social liberal de Locke, isso respondendo á questão
inaugural de La Boétie, a saber, porque é que existe a servidão humana.
Rousseau, se bem que não explicitamente fazendo referência a La Boétie, procede
como se a essa questão pertencesse uma resposta de tal modo evidente quanto a
força constrangedora que impulsiona os seres humanos. “Todos correm ao
encontro dos seus grilhões”, grifo meu.
E eles o fazem “crendo
assegurar sua liberdade” quando efetivamente trata-se de uma armadilha, um
embuste. Pois se essa crença se relaciona com o reconhecimento das vantagens de
um estabelecimento político, eles não percebem que os mais capazes de
pressentir os abusos que poderiam decorrer de um tal estabelecimento, coisa que
eles não são na sua ingênua confiança, são por sua vez aqueles que mais
rapacidade conservam para precisamente aproveitar-se deles.
Aqui reside, a meu
ver, a chave da conexão entre o discurso e o contrato, se é que
existe, pois reservo o direito de dúvida que Bréhier expressa sobre se há “uma
doutrina de Rousseau”. Ora, no contrato afirma-se que há mudança de estado
livre a estado não-livre. O “ignoro” funciona como uma síntese da transformação
que o tempo permitiu a Rousseau operar na ênfase da questão. Como ele mesmo
afirma, suas idéias estão todas entrelaçadas, mas só pode expô-las
consecutivamente. Assim, no discurso trata-se de evidenciar o resultado
desastroso do que o contrato prevê como a aplicação da vontade que deveria ser
geral a algo que é particular. O que se legitima no contrato é a evolução do
ser humano, impossível de deter. É´ a socialização como inteligibilidade de
relação entre seres racionais, entre particulares generalizáveis para si e com
os outros. Mas ao mesmo tempo o que ocorre quando se mistura os níveis, quando
a inteligibilidade do que é particular se vê prejudicada pelo interesse do que
é idiossincrático. Certo, há uma inevitabilidade em tudo isso, quando o bom
senso parece interditar que essa inevitabilidade possa estar nos dois lugares
ao mesmo tempo. Mas aqui o contingente e o necessário se encontram, como na
razão suficiente de Leibniz. Basta que exista desigualdade natural para que, em
certas circunstâncias, se apresente a desigualdade social. Mas também não se
poderia supor que basta o fato de que os seres humanos conheçam a legitimidade
que os socializa e humaniza para que se revertam esses efeitos indesejáveis da
confusão do poder com a força?
É plenamente
justificável a acentuação da posição singular de Rousseau no âmbito do
iluminismo: esses defeitos da civilização, eis o que não poderia ser mais
antitético a Voltaire, como também o desprezo pela democratização da cultura.
Contudo, creio que o cerne do pensamento de Rousseau, se ele está aí onde
penso, é profundamente coerente com o seu tempo revolucionário. Rousseau,
opondo-se frontalmente à posição moderada de Montesquieu, escolhe como o regime
mais viável o que designa “aristocracia eletiva”. O texto é bem claro, quanto a
isso. Rousseau utiliza o termo democracia no sentido mais estrito, como se
implicasse que todos os cidadãos devessem participar do governo, o que
considera impraticável. Ora, a aristocracia eletiva, conforme ele a conceitua,
corresponde efetivamente ao conceito de democracia representativa. Aqui, porém,
convergem os gêneros, a meu ver, porque ao tratar o regime como representativo
ou eletivo, Rousseau está estabelece que a boa sociedade é aquela que utiliza
estrategicamente a desigualdade natural, de modo que o talento daqueles que se
evidenciam como mais aptos a essa representação é aproveitado e recompensado
por sua utilidade ao bem público.
Mas as obras de
ficção de Rousseau se esforçam precisamente, parece-me, por dois objetivos. Um
deles é formar no indivíduo, mesclado de capricho e vontade, o ser humano,
membro generalizável da sociedade enquanto vontade geral. Não seria essa
formação ou pedagogia algo como induzir a aderir à vontade geral, mas sim algo
como fazer com que o ser se veja humano através da constatação da generalidade
de sua vontade, de ser de fato se veja ser de razão. E decorre assim o objetivo
pelo qual a sociedade se torna um ser coletivo de representação, em que esse
ser é de razão porque sua educação o torna apto para eleger e ser eleito, ser
representado e representar. Utilizar o talento sem que ele se transforma na
astúcia, ser socializado sem ser oprimido, haver estado de sociedade que não
seja estado despótico, esses tantos lemas que me parecem bem localizáveis na
obra de Rousseau e nos ideais da Revolução.
A questão da relação
de geral e particular em Rousseau parece-me pois bem especificada. Rousseau
mais se aproxima do geral por ter melhor destacado o particular. Creio que a
transposição efetiva da ênfase só pode ser completamente localizada a partir de
Kant. Em qualquer caso a obra de Rousseau evidencia o problema central do
liberalismo: ele pressupõe o particular à imagem do geral ao fazer do geral o
generalizável do particular.
Podemos propor, como
Rorty, que há uma independência considerável a partir do momento em que o
espaço público é respeitado porque sendo assim o espaço privado se torna ele
mesmo respeitado na sua inviolabilidade. Contudo, o que Rorty não assimila ao
afirmar que não compreende o problema foucaultiano, é que Foucault está
precisamente mostrando que esse espaço público depende de ter formado seus
membros como particulares nele generalizáveis. O que se elimina não é apenas o
idiossincrático, mas tudo o que não se coaduna com a tendência histórica dessa
generalização – e aqui seria conveniente lembrar as descrições de Foucault
sobre a formação da sociedade disciplinar que emerge nessa época. Algo que
Rousseau ingenuamente enuncia como a vantagem paradoxal de ser forçado a ser
livre: pois se o pacto social não significa uma vã formalidade, é porque ele
compreende um compromisso fundamental, que embasa todos os outros, a saber,
constranger os que não aderem à vontade geral, forçá-lo a ser livre.
É interessante
observar que no registro da obra, esse enunciado poderia se estender a
terminologia da libertação a um corrupto ou a um déspota, quando se o processa,
tanto quanto a outro desviante qualquer da ordem social que Rousseau poderia
considerar legítima. A questão é que essa legitimidade não pode ser senão
histórica, quando Rousseau a apresenta como coextensiva à racionalidade. Mesmo
que essa questão da historicidade precisasse ser mais desenvolvida, o que não
seria oportuno agora, percebe-se algo de inquietante nessa coextensividade da “liberação”
forçada, isto é, trata-se de um direito de coação ao que se entende por
sociedade e legitimidade. O que poderia, talvez, ressoar com o que vimos
também, quanto a isso, em Heidegger e sua visão dessa liberdade moderna como
aguilhão.
Por agora seria,
contudo, bom desviar esse problema e concentrar a elaboração do que está em
curso na inserção de Rousseau ainda, se bem que com todas as reservas
apontadas, no âmbito desse particular que é bom. Kant, por exemplo, já não
precisa de uma concepção do estado pré-social, não se tratando de uma questão
de generalização porque o particular se transformou ele mesmo no
transcendental. Marx historiciza a legitimidade. É´ o que basta para deslocar
todo o eixo do liberalismo, desfazendo o problema do indivíduo através da
compreensão da causalidade de Estrutura, como vimos em Althusser. Mas
compreender o trajeto que reverte esse sentido em proveito, seja do geral, seja
do histórico, requer o exame do muito que transcorreu desde a Época Clássica.
Por ora, convém evidenciar o efeito de ricochete da lógica que vem orientando o
pacto colonial que está, afinal, por se desfazer.
Ferguson e Paine
As teorias da
sociedade do século XVIII francês não são habitualmente apontadas como
precursoras da sociologia. Elas estão demasiado imbuídas de uma problemática
que será estranha ao tipo de ambiente apto a produzir uma autêntica ciência
social, aquele da sociedade industrializada. Quanto a isso é verdade que ocorre
uma certa circularidade: a sociologia é filha da sociedade industrial mas esta
só existe como um conceito criado pelos sociólogos. Assim torna-se no mínimo
recuperável a questão dos precursores, já que eles parecem deter uma espécie de
elo entre o que, não obstante o problema da definição, se formaliza somente “após”
e aquilo que, antecedendo, não deixa de apresentar alguma relação com o
presente, nem que seja por isso que é iluminado em seu sentido por esse
presente.
Em todo caso, creio
que as observações de Macrae registradas em seu artigo sobre Adam Ferguson,
(Os precursores das ciências sociais, org. Timothy Raison, ), são
pertinentes. Ele mostra que qualquer contribuição para a ciência social é
também uma chave para a situação estrutural e cultural de sua época e lugar.
Mas a própria teoria social, não importando o quanto ela ainda não é “sociologia”,
tem um potencial de influência sobre os fatos, podendo mesmo alterá-los. Assim
Macrae sublinha o papel de uma reflexão sobre o despotismo, como a de
Montesquieu, “numa era de tiranias” (p. 20). Ferguson aparece nesse artigo de
certo modo relacionado a Montesquieu, assim como Paine o estará a Rousseau.
Macrae e Gould
rivalizam neste volume quanto ao nome do pioneiro entre os precursores, Macrae
defendendo Ferguson e Gould apresentando Saint-Simon. Creio que Macrae está
certo, pois a atuação de Saint-Simon deve ser mais relacionada ao século de
Hegel e pela exposição de Macrae não resta dúvida quanto a importância de
Ferguson quanto à realização de uma transição, desde as teorias da sociedade
como costumam ser elaboradas até então, a uma teoria social já no sentido de
uma ciência da sociedade.
A obra de referência
é An Essay on the History of Civil Society, de 1767. Inicialmente o
destaque é para o fato de que a obra, que tenta compreender a conduta do ser
humano, reconhece a oposição entre psicologia e ciência social, salientando que
ambas são importantes nesse mister. Contudo, Ferguson não procura deduzir a
teoria social de uma psicologia e sua intenção, ainda que expressamente por ele
aproximada ao Espírito das Leis, supera as limitações de Montesquieu ao
se estender como uma descrição dos elementos estruturais necessários a qualquer
sociedade, o que permitiria compreender as principais variedades reais dessas
estruturas, mais as mudanças que se operam nelas.
Ferguson, se não
realiza um autêntico trabalho de campo, se ocupa seriamente dos registros, de
modo que, se por um lado ele se mantém no espírito do tempo e considera os “primitivos”
americanos como um espelho da infância dos povos, logo como se reproduzissem os
meios de vida dos primitivos europeus, por outro ele realmente “estuda a
política das sociedades bárbaras e selvagens”. Ora, o que Ferguson enfatiza na
observação dessas sociedades é a mudança a que são submetidas no transcurso
histórico que conduz à civilização. Ele identifica essa mudança em termos
precisos, como uma marcha no sentido de crescente estratificação social, a qual
se possibilita pela divisão do trabalho que se torna assim o fator de alienação
do estado original, em que a sociedade é como um todo coeso, a um estado de
desagregação social, isto é, onde a sociedade se estabelece por setores
estranhos, cada vez mais independestes, uns em relação aos outros.
O que se torna
relevante para a sociologia está de certo modo implícito já no pensamento geral
do iluminismo. É a percepção de que os atos destinados a fins que proporcionem
vantagens sociais ou econômicas têm consequências que escapam à previsão dos
seus atores. O que Ferguson realiza, através da introdução dessas noções de
estratificação social e divisão de trabalho, é a importante idéia de
correlação, ou relação funcional, entre esses dois fatores. As classes surgem
portanto, dos efeitos perniciosos da divisão do trabalho, mais fundamentalmente
do que da desigualdade de propriedade que, como vimos em Rousseau, pode estar
relacionada à desigualdade de capacidades, isto é, de aptidão ao trabalho. Ora,
as classes não são apenas uma partição social de estratificação econômica, mas
produzem-se através de sua oposição subculturas e tipos de personalidades
necessariamente parciais. Resulta assim a importância de compreender o
desenvolvimento social em termos de alienação.
A teoria de Ferguson
se encaminha, desde esse fundamento que é a propriedade, não no sentido da luta
de classes como efeito estrutural da produção, mas a algo como uma teoria do
conflito social. Assim vemos Ferguson singularizar-se bastante no meio
iluminista, cujos teóricos do progresso podem ser tipificados pela posição de
Condorcet: todo o caminho espiritual do ser humano, com sua multiplicidade de
seitas, dogmas e religiões, prova sua constituição moral una, constituição essa
pertencente a um espírito que se encaminha triunfalmente à cultura real, aquela
das ciências da modernidade.
O progresso, conforme
Ferguson, significando algo como desenvolvimento da estrutura social, implica
certamente os estágios desse desenvolvimento conceituados pelas três
categorias: selvagem, bárbara e polida. No entanto, a tragetória
desenvolvimentista é a da alienação, uma vez que implica na acentuação da
estratificação, da parcialidade pessoal, logo envolve o conflito e o perigo
constante de despotismo. Essa teoria do progresso vai incluir a noção
sociológica de regressão social.
Ferguson é também
singular por não formular uma descrição do “estado de natureza”, preferindo
ater-se ao relatado pela documentação mesma: registros literários da Antiguidade,
estudos de sociedades, norte-americana, mongol, e dos primitivos germanos.
Ferguson é um highlander
escocês, e Macrae sublinha a sua situação de certo modo marginal, na
exterioridade de duas culturas que lhe são ao mesmo tempo familiares, uma de
tipo tradicional baseada em laços tribais e outra comercial e culturalmente
moderna. Paine também me parece algo deslocado daquele meio intelectual europeu
que tipifica a cultura do iluminismo.
Jornalista
panfletário atuando nos Estados Unidos, Paine influiu decisivamente nos
acontecimentos da independência americana. Ora, a independência dos Estados
Unidos foi favorecida pelos ideais franceses, mais geralmente pelo liberalismo
europeu: o professor Friedrich classifica o seu panfleto “Senso Comum”, um
apelo veemente à independência, como uma exposição especialmente boa sobre a
doutrina liberal, e Carpeaux o identifica como rousseauísta. No entanto, essa
revolução estadunidense influiu na eclosão do 1789 francês, como num efeito de
ricochete, pelo qual as forças desenvolvimentistas que se exerceram no velho
continente, em prol da ascenção da burguesia, reverteram como efeito
inesperado, a liberação de níveis sociais não previstos nessa operação de
hegemonia.
O panfleto de Paine é
útil também na compreensão do rousseauísmo. Sua oposição entre as noções de
governo e sociedade relança, a meu ver, a articulação profunda e inaparente do discurso
e do contrato. O governo é produzido pela maldade, tendo uma significação
punitiva. A sociedade é produzida pelas necessidades, patrocinando a aptidão do
ser humano ao bem. O nexo entre as duas obras não poderia ser melhor ressaltado
do que por essa observação: pode-se sofrer tanto pela exposição a um mau
governo quanto por não haver governo, mas sem dúvida há o agravante de que, no
caso de um mau governo, qualquer exame de consciência torna inevitável a culpa
por ser algo devido à opção dos próprios governados – ou pelo menos, por ser o
governo algo constituído pelos que podem se examinar. Resulta assim do texto a
impressão de que a sociedade é algo natural, enquanto que o governo é um tipo
de artifício, se bem que necessário.
Paine manifesta o
mesmo preconceito antropológico, onipresente nesse século, de que um grupo qualquer
de seres humanos isolados representam a origem da humanidade, o estado
arquetípico da “liberdade natural” . Mas ele substitui os modelos, desde os
habituais selvagens da América aos pioneiros da colonização que, desde um
estado original de pacífica convivência e harmonia, progressivamente se tornam
corrompidos, até vir a precisar do corretivo objetivado nas instituições
representativas. O governo se instituiu na brecha ou falha da virtude moral,
seu propósito é, portanto, o correlato dessa virtude, agindo como que no lugar
dela, a saber, provendo a liberdade e a segurança.
Nesse ponto Paine se
afasta de Montesquieu, acentuando o seu rousseauísmo, por não considerar de
modo algum a constituição inglesa algo como o modelo do equilíbrio de poderes
contemplado no Espírito das Leis. O igualitarismo é firmemente
estabelecido como princípio da humanidade, mas a propriedade não aparece como a
vilã da história. Nesse sentido, Paine inova mesmo sobre Rousseau, pois a
opressão não se localiza no Senso Comum como meio da riqueza, podendo
ser por vezes apenas consequência dela. O que se torna imputável, quanto a
isso, será mais a instituição da monarquia, que Paine não parece admitir como
separável do despotismo.
A argumentação de
Paine, após essa fundamentação preliminar, se torna livre para desenvolver o
que lhe é essencial, as vantagens da independência, que ele considera uma
tarefa urgente, o despotismo sendo estrategicamente identificado pela monarquia
inglesa. Aqui não haveria muito interesse nos detalhes de sua exortação,
cabendo apenas observar que exerceu influência decisiva no curso dos
acontecimentos – a História Geral de Vicentino, livro escolar, ensina
que os participantes do segundo congresso de Filadélfia (1775), rompendo com a
metrópole, aceitavam “as palavras de Thomas Paine”, veiculadas “pelo folheto Common
Sense”.
Arendt, escrevendo
sobre educação nos Estados Unidos de sua atualidade, oferece uma reflexão
preliminar que ilumina a autocompreensão dos colonos norte-americanos, tanto
quanto a compreensão do que a “América” representava nos meios liberais
europeus, isto é, ela mostra o tipo de mentalidade que se pode identificar numa
exortação como a de Paine. Trata-se nada menos do que a fundação de um novo
mundo, uma ordem que deveria eliminar a pobreza e a opressão. Ora, isso não
significava um fechamento territorial à chinesa, mas, inversamente, o
franqueamento de uma terra da promissão e da liberdade a todos os imigrantes do
mundo – leia-se, todos os sofredores e oprimidos. Conforme a citação de John
Adams, a América deveria ser o “desígnio da providência para a iluminação e
emancipação da parte escravizada do gênero humano”.
O que considero
oportuno nessa reflexão de Arendt – ainda que suas conclusões sobre o sistema
educacional de sua atualidade me pareçam envolver insights hoje bastante
problemáticos e discutíveis – é que ela relaciona explicitamente o que designa
como o “pathos do novo” americano, isto é, a crença na perfectibilidade
ilimitada, embutido nesse ideal de liberdade e igualdade, com o ideal
educacional de Rousseau, pelo qual a educação torna-se um instrumento político
no sentido de que a atividade política mesma se concebe como uma forma de
educação.
Ora, essa centralidade da educação se manifesta em tudo o que se relaciona com o “Século das Luzes”. Nosso problema será então verificar em que esse ideal educacional está relacionado com tópicos historicamente condicionados pelo tempo, e em que ele comporta variações. Nessa démarche será preciso confrontar o fato de que “educação”, termo simples, deixa de ser simples quando se torna algo como um conceito.
– Rococó, Classicismo
e Pré-Romantismo
Victor Manoel (Teoria
da Literatura, p. 499), sublinha o problema da periodologia quando se trata
do século XVIII, essa “época extremamente complicada”. O motivo dessa
observação é o fato de que nesse momento “confluem correntes barrocas
retardatárias e correntes neoclássicas ou arcádicas; nele se desenvolve o
chamado estilo rococó e nele irrompe o pré-romantismo”. Acrescentando que o
marco do romantismo alemão é o Werther de Goethe, publicado em 1774, o
problema se acentua.
As escolas costumam
contornar a questão apresentando um quadro cronologicamente “limpo”, isto é,
reduzindo as correntes a antagonismos facilmente contrastáveis e delimitando-as
por meio da simplificação temporal. O que resta do barroco fica no início, o
arcadismo é da segunda metade do século, não se trata o rococó nem o
pré-romantismo, e localiza-se o romantismo em torno do seu florescimento
francês e inglês, isto é, já no século XIX.
Contudo, Aguiar e
Silva aponta como inadequada uma solução oposta, aquela que prefere localizar
uma corrente única que poderia caracterizar a “generalidade das manifestações
literárias do século XVIII”, com o rococó.
Carpeaux situa a
questão em termos de uma reorganização esquemática da evolução estilística
desse período, operacionalizada pelo exame mais atento da famosa Querelle dos
antigos e dos modernos, isto é, do classicismo contra os modernos rococó,
próximos dos pré-românticos. Esse exame contribui também para minimizar a
impressão que resume a perspectiva escolar, que conduz a uma identificação
simples de iluminismo e classicismo ou estilo neoclássico, a Arcádia.
A complexidade da época
não se deve apenas a uma suntuosa sobreposição de estilos, como um gosto pelo
virtuosismo. Mas sim ao fato de corresponder ao período da crise da
consciência européia, conforme a expressão de Paul Hazard. A querelle
é então, ela mesma, já antiga, vindo da transição do século XVII. Tratava-se de
valorizar a produção atual, comparando-a favoravelmente aos modelos do
classicismo, gregos e romanos. No entanto, o que a atualidade apresentava como “seu”
e “melhor”, com o tempo foi perdendo a unidade. A querelle surge com o elogio
de Perrault a Racine, la Fontaine e Pascal, “atuais”, melhores que seus
modelos, Platão e Horácio. No entanto, o estilo de Marivaux, será precisamente,
conforme Carpeaux, “o dos modernos contra os antigos”. Esse estilo, bem “século
das luzes”, nada tem do classicismo de um Racine, é o rococó revolucionário “em
todos os sentidos: nos costumes, nos sentimentos, na expressão e na ideologia”.
Trata-se então de uma “segunda querelle”.
A questão é de
sensibilidade. O pré-romantismo, que só se tipifica a partir de Rousseau,
incorpora uma sensibilidade que não se reflete na descrição do estilo
neoclássico, mas que paradoxalmente se infiltra até mesmo nessa produção
aparentemente classicista da Arcádia, e que já se insinua desde o rococó. Para
compreender a evolução de estilos, e sua interpenetração, é preciso considerar
ainda o que ocorre na transição dos séculos XVII e XVIII e que desequilibra o
sentido da querelle, tal como suscitada por Perrault.
Trata-se do
neobarroco, a que Carpeaux assimila o rococó, ambos precursores do
pré-romantismo. Quanto a isso Carpeaux é ambíguo, superpondo expressões como “a
ideologia do rococó é a do Antibarroco” com “o próprio rococó pode ser
interpretado como neobarroco” (p. 838), após ter identificado o Neobarroco como
“rebarroquização” no período tardio do classicismo, bem na transição entre o
seiscentos e o setescentos. O problema é que essa “ideologia” não se apresenta
como uma unidade claramente carcaterizável, mas como uma mistura de tendências
fundamentalmente opostas: “o racionalismo da ilustração e o pré-romantismo têm
as mesmas fontes”.
Quanto a isso é
interessante verificar que na origem da noção de rococó, as artes plásticas,
esse estilo é definido por um contraste nítido com o barroco pesado e escuro.
Paul Zucker escolheu para representá-lo um quadro de Boucher, de 1739, o
desjejum. O estilo é ligeiro e fresco, a unidade de cada área se preserva
pela luz, não se discernem quebras de modo a separar níveis, a composição se
organiza como uma reunião de áreas visualmente contíguas, nada é especialmente
contorcido ou dobrado, as linhas não sendo, porém, totalmente casuais,
resultando uma impressão de simplicidade algo estudada, derivada mais do
cálculo do que do acaso. Assim como a atitude dos personagens que se
entreolham. Nada neles parece muito desatento ou totalmente à vontade. Pensar
nessas atitudes descuidadas ao olhar para o quadro nos faz ter delas uma
impressão mais de relapso do que de liberdade. A tela apresenta personagens
atentos, ainda que tranquilos, gentilmente interessados uns pelos outros, mas
revelando atenção nesse interesse, uma espécie de supervisão, não tanto apenas
uma inclinação afetiva.
Gombrich associa a
formulação do rococó aos trabalhos de Watteau e sua visão de “galanteria espirituosa”.
A tela festa num parque não contrasta com o que vimos de Boucher. A
atmosfera é de uma “calma doce”, os jovens “descansam e sonham”, jogam ou
entreolham-se. A luz “dança” e transfigura a cena numa espécie de paraíso. O
sentido de cálculo parece um pouco minimizado pela delicadeza das imagens.
Gombrich associa o reflexo algo melancólico de Watteau à sua própria
constituição doentia. Contudo, pode-se pensar se não deriva de uma aguda
percepção dos limites dessa sociedade nobre, requintada, no alvorecer da era da
máquina.
Essas características
se harmonizam com o que Aguiar e Silva compreende em termos de rococó
literário, que consagrou expressões como jolies bagatelles, galanterie,
fragilles merveilles e marivaudauge. Recusando os temas grandiosos,
ostentando uma visão otimista da existência, trata-se de valorizar a
intimidade, a polidez, a frívola elegância, a graciosidade. A marivaudage é o
obstáculo ao amor apresentado pela convenção social, nas comédias de Marivaux.
Mas essa convenção não se faz tanto como um obstáculo exterior e sim como
costumes que os próprios personagens compreendem como constitutivos da
galanteria, sendo que eles mesmos não conseguem cumprir esses ritos de cuja
legitimidade de modo algum duvidam e que, inversamente, não só admiram como
pensam ser inteiramente necessários. Ritos que o teatro da época anterior
apresentava como perfeitamente performatizados pelos protagonistas finos,
instruídos e sagazes nessa arte do galanteio. Conforme a expressão de Carpeaux,
os marivaudages são obstáculos para toda a gente que não sabe amar. Mas o
desfecho é sempre feliz. “Quand l’amour parle, il est le maitre”, somente é
preciso fazer com que se expresse, tarefa nada fácil nesse meio de personagens
tímidos, sem jeito, meio ingênuos.
Ora, Carpeaux
interpreta essa inadequação cômica dos personagens enamorados, já que o
resultado é feliz, como uma crença na superioridade do sentimento sincero sobre
a convenção e sobre o “espírito” racional. Aqui é curioso observar que essa
expressão revela a complexidade em causa. Pois o sentido de “espírito” que está
sendo criticado deveria ser aquele mesmo também criticado por Voltaire, o
torneio inútil, precioso. Ora, Carpeaux está endereçando a crítica no sentido
voltairiano de espírito racional, justamente porque o rococó é o retorno
do Hotel de Rambouillet, do preciosismo, e por isso Carpeaux o assimila ao
neobarroco.
Trata-se em todo caso
de recuperar a voz do sentimento contra a frieza da expressão racionalizada do
classicismo, modelada pela grandiosidade dos Antigos. Agora o próprio cálculo
resulta de uma inclinação sentimental, como a combinação de criada e patroa que
trocam as vestes para provar a fidelidade dos respectivos enamorados, que
paralelamente fazem a mesma combinação, e “apesar das complicações”, os pares
se encontram, na peça de Marivaux. O elemento de “jogo” deriva do amor, do
sentimento, de modo algum se apresenta como um exercício puramente do
intelecto, um exame especulativo da paixão. Pois esse sentimento está sendo
vivido, não apenas analisado. Os personagens se deixam guiar por ele, nunca põe
em dúvida a legitimidade dessa fonte. O cálculo jamais se desvirtua no puro
calculismo.
Ora, é essa mesma
dualidade que se interpenetra na evolução das idéias, nas teorias de moral, do
espírito e da sociedade, que se confrontam durante o século XVIII. O que
esclarece o problema é notar que ao invés de duas classes que se opõem, nobreza
e burguesia, na verdade são três situações sociais que se deparam, sendo que
uma delas está bifurcada, somente reunida pela sua oposição às outras duas. Há
a nobreza, o poder absoluto e a burguesia, esta duplicando-se, conforme o poder
aquisitivo, em pequena ou alta burguesia.
Podemos observar que
ao lado dessa partição de classes, outros elementos relacionados numa oposição
vão orientar a combinatória teórica resultante: as três religiões, natural,
revelada e civil; as duas orientações morais, a que compreende o senso moral
como produzido pela educação e aquele que o situa como inato. Mas nesse
inatismo opondo-se ainda uma moral racional e uma moral do sentimento. O que
deverá convergir na contraposição mais nítida entre a pedagogia que designarei “da
ignorância”, à Rousseau, e a da ilustração, à Voltaire. Ora, tudo isso poderia
parecer bem especificado, tratando-se apenas de preencher esses tópicos com
seus nomes próprios correspondentes, e assim podendo compreender o que
significa em cada caso a variedade dessas orientações. O que complica tudo é o
fato de que todas essas oposições convergem numa mesma finalidade. Assim, pelo
sentimento ou pela razão, inato ou produzido, trata-se de formar a sociedade
pela educação. Seja em qualquer classe que se esteja, é preciso mudar a
sociedade. Em todo caso é a religião que fornece a orientação da pedagogia
escolhida, ainda que uma religião civil pareça a negação de toda “religião”. A
tarefa agora será compreender como, dessa mistura, se produz algo como uma
evolução.
– Contraponto e
Progressão
Estudando o século
XVII vimos que não ocorre uma dominação simples, no âmbito francês, do clássico
sobre o Barroco. Talvez se possa afirmar, quanto a isso, tampouco haver
dominação simples no sentido inverso, do Barroco sobre o clássico, nas outras
nações. Contudo, apesar do quanto uma teoria de interpenetração possa parecer
estar sendo proposta, parece-me que a complexidade nesse caso tem mais o
sentido de uma progressão. Ela deixa de ser simples porque é uma evolução “interna”,
isto é, não ocorre tanto, como no caso francês, de um grupo de autores para
outro, mas no interior da produção de um mesmo grupo.
Assim, seria algo
menos complicado se pudéssemos apenas contrastar essa interpenetração
progressiva e interna do século XVII a um outro tipo de mistura funcionando
como um contraponto, no século XVIII. Assim, por exemplo, seria uma questão de
localizar no interior mesmo de uma certa corrente elementos que pertencem a um
estilo que a contrasta. Isso poderia ser sugerido como o procedimento
efetivamente observado por Carpeaux ao assimilar a própria Arcádia como
neobarroco, ou por Vitor Manoel ao observar um Bocage como pré-romântico, aliás
o que também ocorre em Carpeaux que estende o epíteto a Tomás Antônio Gonzaga.
No entanto, não seria
o bastante na apreciação do século XVIII. O que o torna tão complexo é que nele
confluem tanto contraponto quanto progressão. Assim, no âmbito ainda da análise
literária, vemos que não obstante o cuidado em evitar toda classificação
rígida, isto é, escolar, verificado nesses dois autores e principalmente em
Carpeaux, isso não impede que se delineie um desenvolvimento preciso expresso
em termos de movimentos ou estilos nitidamente descritíveis: o rococó, o
classicismo ou neoclassicismo e o pré-romantismo.
Esses três estilos da
literatura do século ao mesmo tempo se interpenetram e se sucedem, o que pode parecer
contraditório ou impossível de compreender. Deixa de ser impossível a
compreensão se atentarmos para o fato de que algo do sentimento do
pré-romantismo já está no rococó enquanto este recupera algo do preciosismo do
século anterior, e que o neoclassicismo se estende a partir, também, do
classicismo de Racine e Moliére. Mas se deixa de parecer contraditório já é
pelo fato de que o é, realmente.
Poder-se-ia enunciar
essa contradição, no plano literário, nos seguintes termos: essas estéticas se
excluem, tanto ou mais do que barroco e clássico, pois não se trata agora de
uma divergência apenas de estilo ou de ênfase, mas de visão de mundo, por assim
expressar. Esse fato é incontornável. Compreendê-lo requer então, não a
tentativa de minimizá-lo, mas, inversamente, estender as consequências de sua
aceitação. Encontramos assim a constatação de que tal contradição na literatura
pode ser situada apenas superestruturalmente, à Marx, por menos que se precise
compreender deterministicamente essa ligação de superestrutural e basicamente
estrutural. Na verdade, os capítulos IV e V da Evolução do
Capital, de Dobb, fornecem os elementos constitutivos da problemática em
tela.
A contradição que se
expressará no âmbito da teoria das riquezas, está relacionada ao modo pelo
qual, historicamente, se pode afirmar ser este o período final da acumulação
primitiva, o sentido da progressão observada ao longo do século se relacionando
com a aproximação do período industrial ou do capitalismo pleno. Ora, o
essencial desse processo, aquilo que marca a partição crucial entre o antigo
modo de produção e o novo, é a dependência da produção ao capital, isto é, a
introdução do capital na organização mesma da produção, não apenas
apresentando-se como decorrente dela.
O caráter progressivo
desse processo desemboca numa situação limite, no século XVIII. Groso modo ele
pode ser enunciado em termos de uma transição, desde a atividade de acumulação
do lucro restrita a comprar (barato) e vender (caro), o que implicava a figura
extremamente móvel do mercador renascentista, que se aproveitava das diferenças
de preços entre um e outro lugar, até o investimento na própria produção, o que
se verifica primitivamente nas formas da indústria doméstica e da manufatura,
ao longo dos séculos XVI e XVIII. Assim, até aqui, esses modos de obter lucro
se sucederam na ordem de sua introdução, mas foram se acumulando, pois aquilo
que transforma efetivamente todo o campo lucrativo em organização das forças
produtivas pelo capital, isto é, aquilo que torna obsoleto tais meios
anteriores, só ocorre com a Revolução Industrial.
Compreende-se,
portanto, que o século XVIII, antecedendo imediatamente a Indústria
capitalista, seja o lugar da maior complicação de modos coexistentes. O sistema
está agora mais próximo da manufatura, onde os profissionais trabalham numa
oficina, do que do artesanato urbano mais antigo, típico das corporações de
ofícios. Isso porque o trabalhador está mais próximo de um assalariado do que
de um “companheiro” ou “aprendiz”. Contudo, quanto à natureza do processo
produtivo e dos instrumentos usados, essa manufatura se assemelha mais à
corporação antiga do que à indústria moderna. Continua havendo utilização do
sistema doméstico, em que o investidor “capitalista” emprega os trabalhadores
em suas casas, provendo ou arrendando os instrumentos necessários à execução da
tarefa, especialmente teares no caso da indústria têxtil. E já existe algo como
um sistema fabril, conforme o exemplo da malharia (p. 150), em que a invenção
de um tipo de tear mais complexo e caro – o aparelho podendo realizar de 1000 a
1500 pontos por minuto enquanto que à mão se produzem cerca de 100 pontos –
determina a formação de Companhias que deveriam controlar sua aplicação à
produção, surgindo assim a experiência da cidade-indústria, a que também se
reporta Foucault na série de conferências da PUC.
A contradição do
capital se enuncia entre duas necessidades que lhe são inerentes, ainda que uma
não pareça se acomodar bem com a outra. Há assim a necessidade de uma expansão
contínua do mercado – logo, da consumação – e ao mesmo tempo é preciso, para
preservar ou aumentar a rentabilidade do capital investido, que se possam
aplicar medidas de restrição monopolistas, o que “agrilhoa” o mercado,
restringindo a expansão. Essa contradição prática foi expressa no âmbito da
teoria das riquezas apenas no século XVIII, pois ela se enuncia em termos da
oposição entre as duas escolas rivais: a do mercantilismo, protecionista, para
quem a riqueza consiste na acumulação de capital, e a do liberalismo, para quem
a riqueza consiste na existência de um mercado próspero, de modo a que o
capital possa estar sempre em circulação, pelo que a necessidade do consumidor
é tão presente quanto a do produtor.
A doutrina do
mercantilismo se apresentou em duas fases, ambas estreitamente relacionadas à
manutenção do pacto colonial. Inicialmente a acumulação das reservas no
interior do país se encontrava identificada com o entesouramento dos metais
preciosos. Após a alta dos preços do quinhentos, uma revisão nesse ponto de
vista tornou-se premente. Paralelamente a entrada do capital na organização da
produção começava e mostrava-se capaz de preencher necessidades sociais,
transformando a massa impressionante dos vagantes expulsos dos campos cercados
em empregados no sistema Verlag, ou doméstico: famílias inteiras incluindo as
crianças menores se mantinham assim alojadas e ocupadas. E em geral as cidades
prosperavam através da atividade das corporações, determinando a evolução já
observada, do artesanato à manufatura e ao sistema fabril. O mercantilismo
precisava rever suas bases e o fez, mudando a ênfase, desde o metalismo ao
sistema de controle dessa produção.
Controle no sentido
de favorecimento que só poderia funcionar à serviço das forças que o
alavancavam – de modo algum no sentido “social”, de proteção ao “cidadão”,
independente de raça ou classe. Assim doutrinas coincidentes nesse período,
cujo florescimento maior pertence ao século XVII, são a da manutenção de uma
balança comercial favorável, e de uma política de monopólios e preferências. O
que se deveria impedir a todo custo era a saída monetária, o que se devia
alcançar era a entrada do numerário. O monopólio servia para facilitar a
manutenção do pacto colonial, uma vez que agia na restrição de toda a produção
da colônia, canalizando-a em qualidade e quantidade unicamente no interesse da
metrópole. A preferência servia para formar um proletariado – excluindo-se
qualquer dúvida a sério sobre a impossibilidade dessa classe ter surgido como
um correlato do aumento demográfico, até porque se pode mostrar a proporção
inversa entre taxa de crescimento demográfico e crescimento do proletariado:
nesse período de transição que estamos estudando o proletariado cresceu
vertiginosamente lá onde a curva de ascenção demográfica se torna mais lenta.
Ora, a formação do proletariado corresponde à necessidade de prover mão-de-obra
para os empregadores, tanto na Europa quanto na América colonial.
Assim, a observação
da oposição entre o regime colonial da Nova Inglaterra e da Virgínia, mostraram
a teóricos como Wakerfield que o cultivo da terra por pequenos produtores
livres, como na Nova Inglaterra, inviabilizava a oferta de mão-de-obra,
portanto a obtenção de lucros, contra o que ele propunha ao governo
metropolitano o aumento do preço da terra na colônia, limitando o acesso à
produção. Na Europa o problema reside, ainda que não limitado ao setor
agrícola, do mesmo modo na contraposição ao pequeno produtor por uma política
de preferências que favorece o grande investidor, de modo que o pequeno
produtor se torna assalariado, sujeitando-se como classe à burguesia próspera
nascente.
Um exemplo é
fornecido pela oposição entre a Livery e a Yeomanry, que ilustra a luta no
interior das corporações de ofícios, no sentido de minar a horizontalidade de
sua constituição com o intuito de estabelecer o controle da produção por parte
do capital. Esse exemplo é particularmente importante por localizar aquilo que
Marx conceituou como “o caminho realmente revolucionário”, isto é, no sentido
da Industrialização. Assim, no lugar de uma via que poderia significar tomar
posse diretamente da produção, tratava-se nesse estágio de acumulação do
capital burguês, de organizar a produção desfazendo os obstáculos representados
pelo artesanato e pelas corporações. Começa a surgir um elemento puramente
mercantil sobre a massa de artesãos, subordinando-os. Forma-se a Livery, a
partir desse elemento mercantil, no interior da corporação, os produtores
diretos tornando-se a Yeomanry, cada vez mais aproximando-se da feição de
assalariados ou proletários. No campo a camada mercantil que açambarcava os
meios de produção, nesse caso a posse do território, constituía uma classe de
fazendeiros destinada a concentrar a propriedade, aumentando o tamanho e o
controle do cultivo por meio de trabalho contratado.
A transformação da
quantidade em qualidade, nesse caso, é gradual. Se inicialmente não há uma
separação muito nítida entre o pequeno proprietário e o fazendeiro, entre o
mestre-artesão e o empregador capitalista, entre o monopolista mercantil e o
fabricante-mercador, logo o crescimento de recursos que implica o nascimento de
uma classe capitalista das fileiras da própria produção, combinado com a
penetração da produção pelo capital vindo de fora, vai determinar a formação
desse “outro” da burguesia, o proletariado, constituindo a ambiência do
conflito de classes característico da modernidade.
Quesnay e Adam Smith
são os enunciadores da viragem que se interpôs na paisagem mercantilista, a
partir do momento em que as forças produtivas se encontravam bastante
amadurecidas, ou que a acumulação primitiva havia se consolidado o bastante,
para constatar que essa política de monopólio e de preferência se havia tornado
um estorvo no processo mesmo de açambarcamento da produção pelo capital. A
importância da contribuição de Smith é bem acentuada em As palavras e as
coisas, de Foucault, onde se trata de observar a transição da epistemê, entre o
século XVIII e XIX, da idade clássica à modernidade. Smith se insere aí, com os
pioneiros filólogos, Lamarck, Vicq d’Azyr e Jussieu, no âmbito da história
natural, como introduzindo uma quebra no regime de visibilidade que funda o
espaço clássico da representação. Mas será mais proveitoso inserir a tese de as
palavras e as coisas quando se tratar da compreensão das teorias da
natureza e do espírito.
Ora, se bem que Smith
tenha o maior mérito na aceitação do liberalismo econômico, tendo publicado o
célebre Inquiry into the Nature and Causes of the Wealth of Nations em
1776, torna-se oportuno visar a constatação de Dobb, mostrando que desde a
segunda metade do século XVII a suposição de que a abundância de dinheiro deve
ser desejada por si mesma, não porque permite a promoção de relações comerciais
lucrativas, torna-se cada vez menos praticável.
Entre essas duas
referências temporais podem se arrolar, coligindo Dobb e Hubberman: autores
ligados ao mercantilismo que estão cada vez mais conscientes de suas limitações
teóricas, como Davenant; críticos expressos do mercantilismo como Bardon,
North, Tucker, Gournay e David Hume; e os fisiocratas, a partir de 1757
reunidos em torno de Quesnay, como Mirabeau.
Conforme Dobb
acentua, as opiniões dos autores desse período sobre os efeitos da política
comercial não permanece completamente confusa, mas ainda que reflita e ilumine
o mundo que lhe é contemporâneo, só o faz a partir de um ângulo determinado.
Trata-se a meu ver, nesse enunciado de Dobb, da clássica relação marxista entre
parcialidade e ideologia como interpretação “deformante” da realidade, ainda que
esse termo entre aspas não seja lá muito adequado.
Assim esses autores
de modo algum estão interessados em explicitar que o bem almejado pela economia
tal como eles a entendem, isto é, em termos de uma teoria das riquezas,
consiste em elevar ao máximo o lucro de uma determinada classe. Eles cumprem o
papel de ideólogos no sentido do termo que nos é contemporâneo, pois se
encarregam da tarefa de suturar o que a prática dilacera. A ideologia da época
aparece, portanto, “sob o disfarce do princípio de que o comércio deve
subordinar-se aos interesses gerais do Estado” (p. 217). Ora, como o poder
soberano se personalizava na Coroa, então nada mais razoável que aplicar às
transações econômicas do Soberano a analogia do comerciante individual cujo
lucro se media pelo saldo em dinheiro restante após completadas as operações de
compra e venda.
A conclusão de Dobb é
que “quanto mais realista seu pensamento, tanto mais o autor percebia que não
era esse o objetivo real da política”. Mas desde que tal suposição estava
suficientemente enraizada na tradição, somente mudanças muito profundas
poderiam provocar uma ruptura no interior mesmo da teoria. O caminho do
compromisso era até aqui, “natural”.
Creio que o
pensamento de Foucault, ao separar em áreas epistêmicas opostas a “análise das
riquezas” e a Economia se encaminha nesse mesmo sentido. Assim, Foucault
localiza algo como Economia somente a partir de Ricardo, enquanto que é comum,
como mostra Hubberman, aceitar que a escola pioneira de economistas seja
a fisiocracia. Ora, o sentido dessa teoria das riquezas é justamente a
inseparabilidade entre riqueza e nação, entre “ o lucro para um comerciante ou
companhia comercial e o ganho para a nação”, conforme a expressão de Dobb,
enquanto a Economia já se conserva como um corpo de leis autônomas que devem
valer tanto para o mundo social quanto econômico, isto é, tanto para uma nação
enquanto consome, produz e investe, quanto para um empresário que desempenha as
mesmas funções. Em caso algum trata-se agora de basear-se na suposição de que
essas duas instâncias revertem no mesmo “todo”, mas sim de uma circunscrição de
objeto, não essa ou aquela unidade de aplicação, mas as leis que funcionam em
qualquer caso, seja qual for essa unidade.
E talvez seja por
isso que Foucault pôde negar o papel epistemologicamente revolucionário de
Marx, pois em todo caso, desde Ricardo, a Economia surge como ciência após ter
rompido o vínculo ideológico que sustentava aquela identificação do particular
com o geral. Já Althusser et alii vão enfatizar que, dentro desse campo
autônomo de leis, pensar abstrata ou formalmente a produção não equivale a
estabelecer a imanência social em que ela se desenvolve, o que teria sido
exclusivamente o mérito científico de Marx enquanto ruptura com a ideologia.
Creio que o cerne
dessa oposição entre Foucault e Althusser se prende ao sentido que o termo “ruptura”
está sendo utilizado. Para Althusser a ruptura é epistemológica porque
política, para Foucault ela é epistemológica porque se procedeu à importante
delimitação política de um critério epistemológico a priori. A ideologia deixa
de funcionar de modo seguro, com Foucault, porque em todo caso, desde Ricardo,
se pode sim afirmar que a ideologia “das luzes” ou do período clássico foi
rompida, mas não que por isso o resultado seja isento de ideologia, ou
revolucionário, como numa verdadeira “ruptura”. Creio que o liberalismo de Adam
Smith, mesmo que ainda não seja a Economia de Ricardo, já se movimenta na
exterioridade do compromisso ideológico enunciado por Dobb como fator de
inquietação dos teóricos da transição do século XVII ao XVIII.
Ora, creio também que se encontra aqui o sentido profundo daquela superposição dos movimentos de contraponto e progressão, no plano literário, assim como da relação fundamental que o pensamento humano e social estão, nessa época, estabelecendo em torno do binômio particular-geral. Nesse sentido podemos articular uma visão do século XVIII que se constitui a partir de uma integração dos seguintes setores teóricos e suas oposições internas: a moral, a filosofia do espírito, a filosofia da natureza, os estilos de época literários e a historiografia, setores relacionados a essa base enunciável pelos teóricos das riquezas. O exame assim orientado deverá conduzir à compreensão da transição fundamental no interior do século XVIII entre o clássico e o pré-romântico, concomitante à cisão do que restava do mercantilismo ao liberalismo econômico, o que me parece ser ainda bastante relacionável à compreensão dos processos revolucionários nos Estados Unidos e na Europa.
Podemos compreender a
Renascença como um processo ou tensão entre as noções polares de universal e
todo. O universal procede da Antiguidade e prossegue na tradição medieval. O
todo já depende da astronomia do infinito, da noção de universo assim como se
pode encontrar na convergência da física coperniciana e da filosofia
neoplatônica. O geral é uma noção irredutível a esses dois conceitos, e começa
a se tornar dominante na transição do século XVII ao XVIII.
É oportuno observar
que a tendência estilística da prosa filosófica, o espírito das Luzes, é
predominantemente irônico, mais preocupado com o humor do que propriamente
humorístico. As referências, mesmo elogiosas, de Voltaire a Rabelais testemunham
uma problematização do Riso que ilustra bem as relações que essa época mantém
com o quinhentos. Muito se observou sobre a recuperação de temas renascentistas
no século XVIII, como numa simetria inversa à crítica do seiscentos. No entanto
seria vão instituir uma continuidade. É mais como uma incorporação de objetos
dados a pensar, restando o fato de que nesse momento tudo o que se apresenta ao
conceito é aproveitável, tudo o que serve de pretexto à razão deve ser
utilizado.
Mas essa ironia já
demonstra que a utilidade não significa “aplicação”, sendo mais algo que se
oferece à crítica, que se torna, porém, especialmente desconstrutiva quando se
trata do século imediatamente anterior. Na verdade, a ironia dessa época se
assemelha à expressão de aceitação daquilo que não se pode deixar de sentir
como inaceitável. Um traço comum do século, por exemplo, é a crítica dos
princípios, vindo de Locke e encontrando um desenvolvimento até então
desconhecido. A crítica dos princípios é endereçada inicialmente, como em
Locke, às idéias inatas de Descartes. Serve agora também a fins bem mais
abrangentes do que Locke poderia ter sugerido.
A recusa das idéias
inatas, tão presente na época que torna-se supérfluo tentar arrolar os que a
ostentam, sendo tarefa mais complicada encontrar quem não o faça, serve agora
para recusar aquela geometrização da natureza tão característica do século
XVII. A censura de Voltaire a Descartes não tinha o sentido de reabilitar a
matematização da metafísica, por assim expressar, mas sim de situar os
domínios. A geometria tem um alcance dentro do seu campo, a matemática, mas só.
A crítica ao espírito de sistema era uma crítica à geometrização sistemática do
“todo” – Natureza.
A crítica iluminista
atinge, certamente, a teoria do conhecimento do racionalismo cartesiano, como
era o escopo de Locke, mas se estende aos princípios mesmos, não apenas à
questão de sua fonte. Na verdade esse movimento já se encontrava em Locke, ao
desfazer a centralidade de noções metafísicas como Ser ou Substância. Mas a
generalização do procedimento converge agora com fatores importantes da
Episteme. Posteriormente examinaremos o comprometimento da causalidade. Por ora
será mais conveniente mostrar como a crítica do princípio que envolve a relação
de todo e de parte se entrelaça com a visão da natureza que a ciência está
possibilitando.
Seria inaceitável à
razão, assim como ela se conceitua no século de Descartes, que se pudesse negar
algo como “o todo é mais que a soma das partes”. Na verdade esse princípio está
na base das grandes visões da Natureza de Descartes, Leibniz e Spinoza. Esse
todo não se parece com o Universal antigo. No caso do universal o pensamento de
algo como uma “parte” seria forçado, estranho. A forma está no interior da
matéria, in-formando-a, ou, na hipótese do demiurgo, formando-a. Á época de
Descartes a incorporação do neoplatonismo cristão já permite propor o Verbo
como Filho ou Pensamento, a Idéia de Deus sendo o correlato de cada coisa no
mundo, tornando importante a noção de parte pois é o que concede a participação
como relação com Deus, não como cópia ou imitação ou simples impressão. O que
força a transição parece ser a criação, o Deus criador do cristianismo,
enquanto na Grécia tratava-se de uma continuidade, de uma imanência, de physis.
Mas ao examinarmos a
teoria da natureza, no século XVIII, verificamos que sua oposição básica entre
o fixismo e a hipótese de uma corrente entre as espécies, que se estende ao
modo de compreender as coisas mesmas, não só os fenômenos ligados à vida, não
abole uma visão comum que forçosamente tem que abrir mão daquele princípio. Não
há universal, forma, como já o século XVII propõe, mas tampouco se pode
postular agora um todo que se acrescenta como uma realidade em si às partes,
por mais que isso pudesse repugnar à razão. Na verdade é essa razão mesma que
está em causa, na medida em que ela se dá como um conjunto de princípios. Assim
o exame dessa teoria da natureza parece inseparável daquele da teoria do
espírito. Mas apesar disso é preciso ter em vista a observação de Carpeaux:
nesse âmbito “não há linhas retas na evolução das idéias”.
Bréhier traça um
quadro do século XVIII que deve muito de sua inteligibilidade à demarcação de
três períodos que relançam de certo modo a exposição de Carpeaux. Temos inicialmente
o período entre 1700 a 1740, que na “história da filosofia” abrange Berkeley,
Wolff, Vico e Montesquieu. A seguir, o segundo período, entre 1740 e 1775, é
aquele em que “se afirmam e se desenvolvem as idéias mestras do século XVIII”.
É a época tumultuosa em que campanhas polêmicas, violentas, interessam e
apaixonam toda a sociedade, o que frequentemente acarreta a intervenção dos
poderes civis e eclesiásticos no âmbito filosófico. Aqui nem precisamos
consultar o índice, pois Bréhier mesmo se apressa em informar que “é nesse
intervalo que Hume, Montesquieu, Condillac, Diderot, d’Alembert, Voltaire,
Rousseau, Adam Smith, Buffon publicam suas principais obras”. Esse é o período
que corresponde efetivamente ao Enlightment, ou Iluminismo, ou Aufklärung,
conforme a expressão alemã, a que se costuma no entanto relacionar o século
inteiro. Bréhier estende ainda um terceiro período que abrange o momento
pré-romântico, na verdade de espírito bastante oposto ao “iluminismo”.
É interessante notar
que Bréhier inclui Montesquieu nesse segundo período, após ter fechado o
primeiro precisamente com a exposição sobre o Espírito das Leis, que, no
entanto, é de 1748. Isso se pode, creio, explicar pelo fato de que Montesquieu
já havia publicado na Inglaterra, em 1734, suas Considérations sur les
causes de la grandeur et de la décadence des Romains”. Assim se a geração a
que Montesquieu pertence deve ser localizada mais no primeiro período, sua
influência se faz sentir mais propriamente a partir do segundo, de modo que não
há incoerência, quanto a isso, na visão geral do século delineada por Bréhier.
Carpeaux, cuja
preocupação habitual em desfazer todas as faibles convennues atinge
nesse período o paroxismo, pretende tornar inviável a “divisão do século XVIII
em uma primeira metade racionalista e uma segunda metade pré-romântica”. Assim “os
dois movimentos têm fontes comuns e a mesma idade”, podendo-se traçar a
evolução de ambos, desde a década de oitenta do século XVII em França e
Inglaterra, até a Revolução francesa. Mas se é inútil tentar nessa exposição
contradizer a tese assim afirmada, as duas vertentes repõem de certo modo
aquilo que encontramos em Bréhier, pois em todo caso trata-se de articular
alguma inteligibilidade entre elas, sendo que se opõem frontalmente. No
entanto, a exposição de Carpeaux admite um certo turning point por volta de
1775, quando Samuel Johnson escreve sobre a inutilidade da instituição do
mecenato. Trata-se do ápice de um movimento de deriva da intelectualidade, dos
Salões das grandes damas da sociedade aos clubes e cafés – desde o clube de l’Entresol,
frequentado por Montesquieu, aos cafés Florian de Veneza, Thermopolium de
Estocolmo, White´s Chocolate-House, St. James, Graecian, Will’s, e mesmo a Grub
Street, na Inglaterra.
Essa deriva é importante
porque significa a entrada do grande público no mundo intelectual de literatos
e filósofos, tornando-os independentes da tutela das classes abastadas, a
nobreza ou a alta burguesia . Contudo, a mudança não desemboca numa constatação
de que o pré-romantismo encontra assim afinal uma razão ou um espaço de
existência, mas sim de que os traços estilísticos ligados à licenciosidade ou à
crítica de convenções, marcantes nos movimentos Rococó, e mesmo précieux, já no
Hotel de Raimbouillet e nos Salões que de certo modo o continuaram, todos esses
ambientes de concentração da nobreza e da alta burguesia, haviam transmigrado
para o sentimentalismo popular, criando uma estética do grande público,
estética de crítica social, de protesto, informando de dentro a Revolução.
O turning point se
expressa, teoricamente, na impossibilidade da Poética da imitação, isto é,
impossibilidade de uma compreensão da literatura apenas como ato de
relançamento da tradição, logo, como o surgimento da Estética como disciplina
filosófica, o que se verifica com Baumgarthem e a publicação de sua Aesthetica,
em 1750. Mas sua consequência prática, a independência do “philosophe”, essa
imagem de filósofo do século XVIII como homem de razão, homem de emancipação –
liberto de toda sujeição de classe ou de tradição por sua destinação ao grande
público, fiel apenas ao seu espírito – se deve às duas formas de veiculação ao
público, nascentes então, o jornalismo e o romance sentimental.
Ora, desde que o Neobarroco das últimas décadas do século XVII possa ser localizado como ponto de partida comum tanto da Ilustração quanto do Pré-Romantismo – e por aí a possibilidade de leitura dos excessos localizáveis na poesia das Arcádias como infiltração de uma tendência já pré-romântica, a própria Arcádia sendo uma das expressões neobarrocas – trata-se de compreender a tensão sempre presente no interior de cada uma das características imputáveis ao século, entre essas duas tendências opostas, o que Carpeaux identifica fundamentalmente ser o caso do otimismo da “Harmonia do Universo”: ele não tem apenas raízes racionais. A inserção aqui de Shaftesbury é estratégica para mostrar que a oscilação é entre razão e algo como sentimento, o que se pode verificar estar em pleno acordo com a visão de Bréhier, ainda que na leitura da história da filosofia só se possa recuperar essa constatação após um exame mais minucioso. Em ambos os casos há a intenção de reverter as perspectivas demasiado simplistas que ora localizam o século XVIII como totalmente iluminista ou racionalista, ora o vêem apresentando um corte pré-romântico mas apenas na transição para o XIX.
– da natureza, do
espírito e da moral
1 –
Bréhier agrupa os
teóricos da natureza do século XVIII de modo a tornar mais fácil a apreensão
daquilo que se podem estabelecer como suas vertentes mais notáveis. Comum a
todas essas orientações é a “desmatematização” anti-cartesiana.
Há assim o
continuísmo, a visão do fluxo e da “circulação”, que resumem a visão de Diderot
e d’Alembert, autores responsáveis pela fundação da Enciclopédia. Um outro
grupo, formado em torno de d’Holbach, enfatiza a independência dos mecanismos
locais e o monismo materialista estrito, isto é, destinado a explicar todo tipo
de fenômeno observável. Finalmente há o naturalismo de Buffon, que relacionado
à história natural, como vimos em Foucault, vai estabelecer a noção de corrente
ou série entre as espécies. Paralelamente a física de Newton está na origem da
concepção oposta, a do fixismo, que se verifica em Voltaire.
Se o fixismo pertence
mais ao início do século, como a própria influência de Newton, essas visões de
corrente ou de fluxo, relacionadas esquemática e respectivamente a Buffon e
Lamarck, assinalam o transcurso da época na aproximação à modernidade.
A física de Newton
revelou a impossibilidade de uma ciência à antiga, na qual ainda se pode
arrolar Descartes, isto é, uma explicação total do mundo derivada de uma
observação setorizada como a matemática do cálculo ou da análise. Agora
sobretudo não há teoria que dispense a observação da coisa mesma – por exemplo,
gravitação que pudesse se estabelecer sem correspondência com a observação do
céu. Mais geralmente ocorre o deslocamento da centralidade da matemática pelo
desenvolvimento das teorias que se ocupam com os fenômenos relativos aos seres
vivos.
Essas constatações
estão na base do espírito que informa a Enciclopédia. As medidas são sujeitas a
aberrações, nenhuma geometria pode ser exclusivamente competente para
estabelecer o conhecimento dos fenômenos do mundo existente. Assim, o núcleo do
que se considera científico está nesse momento se transferindo da matemática à
física. Quanto à matemática, com d’Alembert, há a necessidade de tratá-la de
modo inverso ao que se havia tentado, por exemplo com Leibniz, quando se
pretendia nela inserir o concreto, o efetivo. Agora se esse efetivo é domínio
do observável, à matemática só se reserva um papel lógico puro, quanto mais
abstrato, tanto mais adequado à sua função de ciência de princípios, conforme a
teoria do movimento de d”Alembert, oposta à de Leibniz por incluir apenas o
conceito de movimento puro, não mesclado àquele de força.
Mas nessa
perspectiva, a ciência é um negócio de encontrar o fato fundamental,
conservando-se assim a função da dedução. Somente o fato fundamental não
pertence à exterioridade da ciência, não podendo ser um princípio metafísico.
No interior de cada ciência, porém, é desse fato fundamental que tudo o mais
deve ser deduzido. Todas as ciências, não importando a diversidade de seu campo
de aplicação, se exercem do mesmo modo, identificando esse fato para dele
encadear as verdades deriváveis.
Ora, essa unidade de
método vai importar, principalmente na segunda metade do século, em uma
perspectiva hostil a todo procedimento que se reduz à classificação a partir de
um grupo de caracteres previamente concebidos, como é o caso de Lineu e mais
geralmente das perspectivas fixistas. Trata-se de desfazer qualquer ilusão
metafísica de essência. Aqui é interessante observar que a exposição de Bréhier
conserva a terminologia do todo ao mesmo tempo em que fornece a expressão
precisa que demonstra sua inadequação nesse contexto. Assim após haver afirmado
que essa intuição não-fixista acarreta intuições da natureza como um “todo em
que se absorvem os seres particulares”, Bréhier menciona o Sonho de d’Alembert
para mostrar que não há “no indivíduo, outra unidade que a unidade de
agregação que, sem cessar, varia, se transforma”.
O que parece induzir
a conservar a terminologia do todo é algo que na verdade se relaciona apenas
com a realidade do particular, tal como proposta nessa visão “enciclopédica” de
Diderot e d”Alembert. O particular é um agregado que não se transforma apenas
no sentido de que seus elementos constitutivos se estão sempre transformando,
isto é, apenas enquanto o sistema local, que o mantém como agregado, dura. Tudo
na natureza está constantemente se transformando, circulando, de modo que o que
compõe o particular não tem fim, logo o próprio particular também não tem um
fim verdadeiramente. Penso que isso não significa reabsorção “no todo”,
inicialmente porque o todo nesse caso não tem nenhuma essência que o
caracterize como algo mais do que o que está no processo de transformar-se, e
também porque o que se opõe a particular não é todo, mas geral.
O que ocorre
geralmente é um processo de transformação, fluxo, circulação de elementos como
momentos no vir a ser, nessa visão da natureza. O fluxo transmuta as espécies
umas nas outras, como os planetas e as épocas. Mas se os elementos circulam, “todo
animal é mais ou menos homem; todo mineral é mais ou menos planta; toda planta
é mais ou menos animal”, conforme Diderot que, conforme Bréhier, enuncia a
teoria transformista que será plenamente estabelecida por Lamarck na
aproximação ao século XIX .
Já o monismo
materialista de La Metrie, autor do Homem-Máquina, que será observado em
d’Holbach e Helvétius, afirma um determinismo preciso que não reproduz a
fisiologia cartesiana, aproximando-se mais da visão estrutural pela qual os
órgãos são como pequenos sistemas independentes com sua própria estrutura e
força, como os autômatos fabricados na época. Se a alquimia poderia ser
relacionada à perspectiva teórica “enciclopédica” – não fosse a tendência
puramente científica e racionalista desta – o mito do Golem tem mais a ver com
tal perspectiva materialista.
A matéria possui um
princípio motor que lhe é inerente, conforme La Metrie, o que Holbach também
afirma especificando esse princípio como sendo o movimento. Os corpos não são
naturalmente inertes, o movimento não lhe é acrescentado do exterior. Holbach
imagina assim ter encontrado o princípio de explicação, a que Newton havia
renunciado, da gravitação universal. Esse movimento inerente varia conforme a
matéria considerada, negando-se a tese cartesiana da homogeneidade da matéria.
Trata-se então de encontrar a série de tipos fundamentais a partir da matéria,
isto é, as qualidades fundamentais em que ela se organiza, todos os seres sendo
composições desses seres mais simples.
O teórico da série ou
corrente, frontalmente oposto a Lineu, é Buffon, que parece também ter
influenciado os enciclopedistas Diderot e d’Alembert. Ele define “espécie” como
um grupo de animais fisicamente idênticos e suscetíveis de reprodução
indefinida por acasalamento. Ora, em vez de postular um grupo de caracteres
aptos a um procedimento de classificação dos seres, trata-se de utilizar as
espécies mesmas como as unidades reais fundamentais. Então pode-se situar essas
espécies numa fila única e contínua onde cada uma parece mais com as que lhe
são vizinhas do que com as que lhe são mais afastadas. Aqui Leibniz se
conserva, pois é seu axioma da continuidade qualitativa que serve de regra a
esse esquema, isto é, sua concepção da plenitude de formas, pela qual tudo o
que é compossível existe efetivamente.
A série não implica
descendência, transformação de espécies umas nas outras, como será é o caso da
teoria do fluxo de Diderot ou do transformismo de Lamarck, mas sim uma unidade
ou plano natural, como num quadro bem traçado de tipos que manifestam uma
continuidade de características. Buffon crê na fixidez das espécies criadas uma
a uma. Elas surgem conforme as condições de resfriamento da terra lhes permitem
estabelecer os hábitos constitutivos.
Bréhier situa de modo
mais extenso a perspectiva transformista apenas ao tratar a teoria da
Epigênese, que implica uma metamorfose efetiva, a transformação de formas umas
nas outras. Na exposição de Bréhier, a epigênese parece só começar a ser
afirmada com Goethe, a partir da fisiologia de Camper, contra a teoria
leibziana do encaixe de germens. No entanto, ele já havia observado a
semelhança da perspectiva de Diderot com a que será desenvolvida por Lamarck,
se bem que nesse volume Bréhier nem elabora com maior precisão o pensamento de
Diderot quanto a esse aspecto, nem expõe a teorização de Lamarck.
Ainda assim Bréhier
localiza, nessa teoria da transformação como epigênese, a exigência de um tipo
de inteligibilidade não redutível ao proporcionado por Newton e Locke, mais
próxima do sentimento e da arte, o que se torna preponderante na ambientação do
pré-romantismo, já nas décadas finais do século XVIII. Sendo Buffon uma
influência dos enciclopedistas, parece-me que há uma ênfase em Bréhier no
sentido de mostrar que apenas uma perspectiva da corrente ou série não basta
para localizar um espírito oposto ao do “iluminismo”.
O que torna a leitura
algo complexa é que Bréhier ao mesmo tempo localiza nos enciclopedistas a
influência de Buffon e, através de Diderot, uma perspectiva transformista, à
Lamarck. No entanto, creio que a intenção de Bréhier é, ao mesmo tempo,
registrar a convergência por vezes contraditória de influências, característica
da ambientação intelectual dessa época, e especificar as três tendências
teóricas que determinam, com uma certa preponderância, como que três períodos
sucessivos no interior do século: o domínio do fixismo, correlato à influência
de Newton e à classificação de Lineu, a teoria de Buffon, que é a da corrente
ou série como tipos que manifestam uma continuidade de caracteres mas não
transformação, e a teorias do fluxo, de Diderot, que se assemelha ao
transformismo de Lamarck, transformismo enunciado na epigênese de Camper e
Goethe. É interessante observar que esse esquema tripartite serve a Foucault
para estabelecer, de um lado, a oposição fundamental da epistemê clássica,
entre Lineu e Buffon, mas também localizar a noção de transformação como limite
epistêmico dessa época, como transição à modernidade.
O procedimento
classificatório de Lineu é designado de modo crítico, conforme Bréhier, como “metódico”,
isto é, um método de princípios, não uma verdadeira dedução a partir de
fenômenos observáveis. Contribui para desacreditá-lo e influencia Buffon as
observações de Daubenton, que demonstra haver relações essenciais entre órgãos
pertencentes a grupos diversos, bastante afastados, o que impede a via das
pequenas diferenças sobre o que se estabelecia o “método”. Ora, Buffon conclui,
a partir dessa teoria da série, não um transformismo de uma série em outra, mas
sim a hipótese de um ser fundamental que se transforma continuamente,
percorrendo toda a série. A compreensão da série seria assim a “história” de
seus tipos fixos, história propriamente “natural”, como se “a” natureza fosse
esse ser, ao mesmo tempo o quadro e o que nele se inscreve.
É interessante
observar que essa terminologia não se justapõe à bipartição operada por
Foucault no interior da história natural do clássico, que ele nomeia como
oposição de Sistema e Método. Nessa partição, Lineu é adepto do sistema,
opondo-se a Buffon, Adanson e Jussieu, relacionados ao método. Em todo caso, se
sistema e método se opõem “como se opõe uma concepção rígida e clara da
natureza à percepção fina e imediata de seus parentescos” (As palavras e as
coisas, p. 54) trata-se da mesma contraposição que Bréhier está
estabelecendo entre o procedimento “daqueles que se designam ‘metodistas’” (história
da filosofia, p. 257), contra os quais se insurgem Diderot, especificamente
referindo-se a Lineu, e a hipótese da série, de Buffon.
Na história natural
de Buffon, são as relações inerentes a cada estado desse ser que importa
compreender como constituindo ao mesmo tempo cada espécie e toda a história,
não tanto as circunstâncias que impõem a continuidade das espécies na série.
Pode-se assim superar a visão de Leibniz que se contentava com a organização
concebida ao modo de uma transição do confuso ao distinto, para estabelecer um
termo da série que seria o mais perfeito, o ser humano. Essa é a perspectiva de
Charles Bonnet e de Robinet.
Bonnet propõe
estabelecer o lugar de cada animal na série por semelhança com a organização
humana, enquanto Robinet visa o ser humano como a solução mais elegante do
problema da natureza que consiste em fazer com que a matéria, que é sempre
viva, realize suas funções – de nutrição, reprodução e crescimento.
Ora, Bréhier vai
observar que se a observação impõe uma complexidade crescente nesses projetos
de estabelecer uma progressão na série, de modo que o traçado linear precisa se
ramificar conforme observa o naturalista Pallas, exigência que Buffon cumpre
utilizando o esquema de rede, o que resulta é uma pluralidade de concepções da
própria série: a corrente linear a interpreta no sentido de uma degradação
desde um tipo supremo; a árvore ramificada a interpreta como tendência a
realizar um tipo superior, tendência que por vezes pode degenerar no monstro ou
na aberração; a rede é uma interpretação da série como uma realização a cada
grau de todos os tipos possíveis, tantos tipos quanto cada grau comporta.
Trata-se em todo caso
de estabelecer, entre os tipos ou seres que povoam a série, uma ligação nítida,
que manifesta claramente ao espírito sua dependência ideal à série. Ora, não há
melhor modo de enunciar uma relação que não se concebe nos termos do problema
da individuação no âmbito do universal – conforme Bréhier, não há preocupação
com a gênese efetiva das formas – ou no âmbito do todo como realização de uma
idéia – já que o que importa é a relação entre uma forma e outra, sua
diferenciação ou fusão, possivelmente postuláveis, não sua correspondência a
uma essência que seria a da série em si. Essa relação é do particular ao geral,
sendo que a inteligibilidade aqui consiste em compreender como o geral pode
ser, não uma soma ou uma substância, mas o generalizável do particular – logo,
como o particular pode ser purificado de tudo o que não o torna relacionável ao
outro particular como particulares desse geral.
Ora, se a
solidariedade dessa teoria com a epistemê clássica é bem visível, ela se
encontra ainda expressa na concepção de Boscovich, isto é, no âmbito de uma
teoria cosmológica já incluindo a teoria da gravidade, pela qual o universo é
conjunto de pontos de força que se repelem ou se atraem mutuamente. Mas cada um
desses pontos não apresenta qualquer determinação intrínseca, por si só nada
sendo, recebendo seu “ser” apenas do lugar que ocupa no conjunto. Observe-se
que tampouco o conjunto poderia ser considerado à parte, só podendo consistir
na confluência daquilo que nele se organiza.
É como se a grande
Natureza do século XVII não houvesse sido de todo deslocada, mas transformada,
uma vez que não suporta agora uma determinação substancial, sendo apenas uma
constitutividade observável de relações de que resultam os acontecimentos, as
singularidades, como fenômenos. No entanto, emancipar esse singular da
generalidade constitutiva, , eis o que parece ser transgressivo, ou mesmo
impensável nessa consistência epistemológica.
Eis porque a “natureza”
deixou mesmo de ser um nome conveniente – conforme Voltaire trata-se de “arte”,
um puro artifício. O universo é um relógio, expressa a fórmula de Newton, que
dela se servia para provar a existência de Deus. Concordando, Voltaire
restringe a possibilidade da prova às causas finais, não à contingentia
mundi. Ora, esse mecanismo é o mais imutável e fixo possível, o que
contribui enormemente para o entusiasmo de Voltaire pela física de Newton: se
ela é tão minuciosa quanto não pode explicar sua perfeição intrínseca, tanto
melhor para provar que Deus criou um universo eternamente o mesmo, definitivo e
permanente. O tempo e o espaço absolutos da física de Newton são tantos mais
argumentos em favor da liberdade absoluta dos decretos de Deus – assim sendo
impossível afirmar qualquer transmutação, seja de espécies, seja de elementos
químicos.
Se essa perspectiva
de Voltaire tem o mérito de negar a geração espontânea de Needham, em
compensação ela nega também qualquer diferenciação progressiva entre espécies,
qualquer convulsão ou revolução física como evolução no globo terrestre: as
montanhas foram feitas para facilitar a vida dos animais, assim como os
aquedutos provêem água às cidades. Voltaire nega até mesmo o testemunho dos
fósseis. Ora, o que se deduz por esse meio é que tudo o que se descobre como
imputável à matéria – por exemplo, a gravitação – é essencialmente assim
imputável. Tudo é qualidade oculta, eis o que deixa de ser um obstáculo para
ser o fundamento que permite à ciência se erigir em visão de mundo, conforme
Voltaire. Mas essa essência é como a de um mecanismo local no âmbito de uma
máquina, apenas um funcionamento na engrenagem, de modo algum um “ser”
autônomo, uma essência platônica.
Observa-se uma razão
da oposição, algo que unifica o campo, um a priori enunciável, nessas teorias
da natureza do século XVIII. Quanto a isso é interessante observar o modo como
Bréhier expõe as perspectivas antípodas de Voltaire e Goethe. Com efeito, é a
mesma fórmula da “arte” – seja para compreender o universo como mecanismo,
artifício de um Deus criador, seja como inclinação espiritual para confrontar
uma “natureza” que reverte o conceito habitualmente associado a esse termo,
como algo constante, imutável, no âmbito de uma teoria epigenêtica, “transformista”.
É certo que Bréhier estende um quadro de nítida partição temporal. Mas
observando-se bem, não há como evitar o entrelaçamento dos mesmos motivos que
servem a tendências opostas.
Contudo, creio que
uma ênfase na oposição será algo importante a reter. Assim, a essas três
tendências teóricas poderemos aproximar perspectivas estéticas nitidamente
recuperáveis no interior do século XVIII. Não seria forçado, a meu ver, desde
já constatar que essas visões se aproximam da cisão estética entre um
sentimento da natureza como se expressa nas formas do neoclassicismo – ao menos
assim como prescreve sua arte poética, já que as realizações parecem sempre
algo misturadas – e aquele que resgata a continuidade neobarroca, e que o pré– romantismo
tornará ostensivo.
Aquilo que permite
uma exposição da literatura do século à Carpeaux, sem a habitual partição
temporal desses estilos, é já a constatação de que o sentimento de natureza da
Arcádia, exaltação do prazer mais visão de mundo calma, otimista, íntima,
organizada, abriga uma corrente subterrânea de índole oposta, na qual a
natureza é contínuo movimento, logo contém alguma exaltação, e nessa época se
fala muito em “inquietude”. Torna-se claro que esses dois sentimentos da
natureza se relançam na oposição mais evidente da época, a fixista e as que se
enunciam em termos de corrente ou fluxo.
Ora, o cenário
pré-romântico que Bréhier situa esquematicamente a partir de 1775, é por ele
assimilado ao predomínio do sentimento, algo que deveremos examinar no âmbito
das teorias do espírito e da moral. Aqui o importante é ver que as referências
que ele associa a essa tendência não são exclusivas desse período, já pelo
exemplo de Dubos. Suas reflexions critiques sur la poésie et sur la peinture
são de 1719, e Bréhier expressa que essa tese, que deve ancorar no sentimento o
próprio conhecimento do objeto, é afirmada já bem antes desse período “pré-romântico”.
O que ocorre na
exposição de Bréhier é uma mudança de ambiente que agora, relacionando-se ao
pré-romantismo, vai se concentrar não tanto nos círculos “bem pensantes”, mas
nas correntes de ocultismo como dos maçons ou da teosofia, Nesse cenário o que
predomina como visão da natureza é a hipótese da série, da corrente de seres.
Só que não se afirma essa visão como resultado da pesquisa “científica” ou a
observação, ou a análise racional dos dados. Aqui a crítica dos princípios se
estende para abarcar aquilo em nome de que ela vinha se fazendo, isto é, a
razão observadora, empírica, como no modelo da filosofia de Locke. Mas se
devemos nos aproximar dessa extensão da crítica mais a frente, quando se tratar
das teorias do espírito e da moral, agora é importante notar que uma vez tendo
esses ocultistas completado o seu percurso crítico e firmemente estabelecido o
predomínio do sentimento , da intuição e da revelação, sua visão da natureza
vai recuperar as conclusões de Buffon, e mais geralmente, adotar o tom e as
maneiras de expor dos filósofos.
Bréhier exemplifica a
influência expressa de Buffon nesses círculos do “iluminismo místico” com
Restiff de la Bretonne: retomando a cosmogonia de Buffon, ele imagina um centro
de onde emana o sol, e do sol se destacam os planetas, seres viventes que dão
nascimento a espécies derivando uma da outra até o ser humano.
Bréhier mostra que
André Chénier repete essa imagem dos planetas como seres vivos que dão origem a
espécies em série, de modo que se confirma a perfeita continuidade que estamos
observando entre o que ocorre na produção do saber, nesses círculos ocultistas
e na produção literária. Buffon e a teoria da corrente das espécies, no
exterior do domínio puramente teórico, prevalece incontestavelmente,
suportando: doutrinas da revelação que condenam a enciclopédia, hostilizam a
religião natural ou as “luzes” puramente intelectuais (Dutoit-Membrini, Fabre d’Olivet);
o comunismo como consequência da interdependência dos indivíduos que integram o
“grande animal” que é o mundo (Boneville); uma visão da história que abarca a
natureza e os acontecimentos humanos como continuidade a partir de um tipo
originário, postulando-se como tipo perfeito a que tudo deve conduzir, de um
reino a outro mais organizado, dos animais ao ser humano, de todas as
civilizações à européia (Herder); e, o que mais importa sublinhar, a idéia de
que à série de seres se relaciona uma força universal que a percorre, como uma
espécie de élan, cujo exemplo célebre é o fluído universal de Mesmer.
Essa noção de força,
relacionada à da corrente, torna-se importante pois será crucial para
compreender, no âmbito literário, o entrelaçamento e a transição de formas que
expressam a operação de hegemonia em curso, da nobreza à burguesia. Com efeito,
veremos que esse “élan” influi desde a conversão da moral do sentimento ao “sentimentalismo”
popular do romance, até a assimilação do espírito dos “Libertins”, ligados à
nobreza, pelas classes burguesas de modo a resultar o libertinismo e o ímpeto
revolucionário.
Mas a continuidade
que observamos entre esses domínios, as teorias da natureza, “científicas” e
especulativas, as concepções de espírito e de moral, e a produção artística,
converge de modo particularmente esclarecedor quando se trata de localizar, na
mistura de tendências que se verificam nessa época, três vertentes no que tange
ao sentimento da natureza. A oposição entre essas vertentes traduz, ao mesmo
tempo, uma alternância de estilos e uma progressão historicamente retraçável da
evolução em curso.
Como vimos, os
manuais de escola costumam descrever o século XVIII através de uma oposição
esquemática entre as duas metades, a barroca e a neoclássica, as Arcádias
sendo, nessa descrição, tipicamente neoclássicas. O que a leitura de Carpeaux
permite antepor a esse esquema é que, não só nele não se localiza o rococó e o
pré-romântico, mas também que assim não se compreende o fenômeno mesmo do
neoclassicismo.
No esquema
tradicional neoclássico é sinônimo de arcadismo, definindo-se como a estética
do iluminismo que, por sua vez, é uma das causas da revolução burguesa de 1789.
Na visão de Carpeaux essa partição mascara a irredutibilidade entre os
classicismos, o da ilustração e o propriamente neoclássico, não localiza a
multiplicidade de fenômenos estéticos que se arrolam sob o rótulo de
continuação do barroco, errando inclusive sua datação na metade inicial do
século, e sobretudo não permite compreender a contraposição de tendências que
dentro do assim designado “iluminismo” tanto podem ser favoráveis quanto
opostas à Revolução. Isto é, o esquema tradicional interfere na compreensão do
fenômeno mais importante do período que é a operação da hegemonia pela qual a
burguesia se torna repositária da tradição que antes pertencia à nobreza,
formulando-a como que em sua linguagem, na sua escala de valores.
Tratando o período na
perspectiva da progressão, um esquema mais adequado deveria incluir: rococó,
classicismo da Ilustração, pré-romantismo e neoclássico. Mas se cada estilo
revela uma certa preponderância temporal, de modo que a progressão abrange o
decurso do século, até a época napoleônica, dentro de cada tendência
preponderante, enquanto estilo, convivem algumas outras tendências estilísticas
latentes, de modo que para compreender cada tendência, enquanto época, não
basta descrever seu estilo mas, o que é tão importante quanto, sua contradição
de valores e tendências. Ora, essa preponderância mesma precisa ser explicada,
e Carpeaux ancora sua perspectiva no sentimento da natureza que orienta cada
tendência.
Isso não é o
bastante, pois ao redor desse sentimento se tece a trama histórica que o situa.
Será preciso examinar oportunamente o plano específico dessa evolução
histórico-estilística, aqui valendo destacar essas visões da natureza,
articuladas como estão, entre outros fatores, às teorias que estamos
examinando. Por esse meio poderemos compreender, por exemplo, porque é tão
impreciso situar a Arcádia como um fenômeno “neoclássico”.
Ora, nas Arcádias
podemos localizar o sentimento da natureza como artifício, que se encontra em
Voltaire. Um outro modo de ver é aquele que se aproxima do sentimento do
maravilhoso, orientando o pré-romantismo, algo melancólico, porém, já que esse
resgate do natural “agreste”, produto da visão do countryside, não de uma
idealização de salão, agora encontra a realidade da crescente transformação do
campo num anexo da produção capitalizada, em pleno processo de transformar a
manufatura em fábrica. A observação dos campos, do céu puro e das fontes já não
pode evitar a fumaça das oficinas, o crescimento do proletariado, a
transformação da cidadezinha com seu ar bucólico na vila onde se explora o
trabalho, com seu ar miserável. Mas com o decorrer dos acontecimentos, eclode o
sentimento da natureza selvagem que se encontra no Sturm und Drang.
Carpeaux não
identifica o Sturm und Drang como algo orientado no sentido “neoclássico”, mas
surpreendentemente o situa no capítulo destinado ao neoclassicismo. O movimento
é pré-romântico, mas já exibe um sentimento da natureza novo, o que se explica
também pela situação peculiar da Alemanha. No entanto, vemos que essa evolução
no interior do pré-romantismo não pode ser contornada , e se torna mais
localizável a partir da compreensão da evolução paralela, do classicismo da
ilustração ao neoclássico pós-revolucionário que abrange o estilo Empire
napoleônico.
Ocorre que os
fenômenos ligados a esse período neoclássico que se pode então designar, mais
precisamente, classicismo pré-romântico ou pré-romantismo classicista, são
decisivos para a compreensão da transformação epistêmica que rompe o espaço do
quadro, precipitando a formação das ciências humanas e o fender do tabuleiro,
lançando o pensamento no domínio do impensável (Kirkegaard) após a mudança na
ênfase do particular-geral ao geral-particular possibilitada, contudo, pelo
vazio: a forma, agora vazia, da lei (Kant).
É relativamente fácil
identificar o sentimento do artifício e as teorias da natureza fixistas, cujo
expoente máximo é Voltaire. A progressão do neobarroco rococó do início do
século a esse classicismo da ilustração é como uma curva descendente que se
acentua à medida que o conservadorismo se torna mais pronunciado, o que se
constata pela fórmula classicismo-patriarcal-reacionário de Johnson e Richard
Jago, e mesmo Burke, Walter Scott e Canning, expressões do conservantismo
inglês que encontra ressonância na França, com Gilbert. Quanto ao sentimento do
maravilhoso, ele se relaciona manifestamente com as teorias do fluxo e da
corrente, tanto que Carpeaux situa os enciclopedistas, como também a senhorita
de l’Espinasse, no capítulo “pré-romantismo”, desta vez sem estar com isso
localizando-os como contracorrente da tendência dominante a examinar. A curva
agora se torna ascendente, conduzindo à conversão burguesa-revolucionária dos
valores culturais anteriormente cultivados pela nobreza. Mas se
Para compreender a
mudança de sentimento que conduz ao Sturm und Drang e ao neoclássico, deve-se
também associar a visão resultante a uma transformação teórica. Contudo, agora
o domínio dessa transformação não está nas teorias “físicas” ou da história
natural, isto é, nas disciplinas que se ocupam propriamente da natureza, mas
sim na eclosão de áreas que se ocupam do pensamento humano.
Continua a haver uma
interligação de teoria e produção artística, mas o foco teórico se desloca, se
bem que permanece uma associação afirmável desse novo sentimento da natureza
selvagem e a hipótese epigenética. No entanto, agora não há uma derivação
explícita nesse sentido, sendo mais como uma conveniência manifesta, enquanto
que a renovação da imagem histórica da Antiguidade atua de modo bem mais
decisivo.
O fator mais
importante a ressaltar, quanto a isso, é a transformação do conceito de “Grécia”,
que ocorre devido ao progresso da historiografia. Assim o modelo dos classicistas
da ilustração, a Antiguidade, não coincide de todo com o modelo dos
neoclássicos pós-revolucionários. A Grécia de “antes” está misturada com Roma,
filtrada pela visão dos romanos, ainda que seus cultores não pudessem se
aperceber desse fato e pensassem que seu modelo era a Grécia autêntica. Nasce,
à época do neoclássico, na transição entre os séculos XVIII e XIX, aquela visão
da Grécia originária que se encontrará posteriormente em Heidegger. Isso
ocorre, sintomaticamente, na Alemanha, já a partir do helenismo de Wielkeman. O
neoclássico vai apresentar assim duas vias, agora já devidamente identificadas
como independentes, a grecizante, de Goethe , e a latinizante, de Schiler,
Mas é importante
observar a decalagem entre essas teorias da natureza, a que se pode, de um modo
ou de outro, aproximar os sentimentos da natureza que informam de dentro a
produção artística. Ora, quanto a isso é bastante oportuno repor a tese de As
Palavras e as Coisas, pois é aí que Foucault vai localizar o turning
point do clássico ao moderno.
Trata-se de
estabelecer uma certa continuidade, ou ao menos, uma solidariedade arqueológica
comum, entre o Sistema e o Método, ou seja, entre Lineu e Buffon, por um lado,
e a ruptura epistêmica que se enuncia com a hipótese transformista, que
Foucault associa a Lamarck e que em Bréhier abrange a epigênese de Camper .
Foucault descreve o
movimento dessa evolução a partir de Jussieu, que sintomaticamente vinha sendo
caracterizado como adepto do procedimento do “Método”, junto a Buffon, Bonnet a
Adanson. A transição tem lugar entre os anos 1775 e 1795, não apresentando
ainda uma mudança de objeto, como seria o caso se esses teóricos que a
introduzem, Jussieu, Lamarck e Vicq d’Azyr, já pudessem estar caracterizados
como “biólogos” no sentido estrito do termo. Mas se eles se conservam no âmbito
da “história natural”, inserem agora alterações significativas, de modo que a
transição já se movimenta nos “limites da representação”, conforme a expressão
de Foucault.
Penso que esse espaço
clássico, assim como descrito por Foucault, pode ser figurado por um quadro de
Vermeer. É o espaço da visibilidade plena, e o discurso da ciência se estende
como a representação do representação, encadeando no quadriculado do quadro,
tudo o que existe e que, por isso, é nomeável. A classificação estende esse
quadriculado como o espaço do mundo, definindo-se como a articulação dos
lugares, o que é prévio a cada ser que surge na disposição representável ou
Natureza. Vermeer soube transmitir a impressão que essa imagem da natureza,
subjacente a todas as suas variações teóricas, estabelece. É uma intimidade
feita de plenitude que se expressa na textura, uma luminosidade abrangente mas
não crua, a unidade da representação garantida por cada movimento sugerido pela
gestualidade intrinsecamente coerente dos personagens.
É o que se poderia
designar um regime de visibilidade plana, pois uma representação observável,
por sua vez representada pelo signo ou caráter, sendo a ciência taxonomia ou
combinatória universal, só remete a outras representações que a tornam visível
e designável. Assim, sistema ou método, representar o que se representa perante
o olhar, nele mesmo ou numa escala de comparação, trata-se do mesmo regime.
Ora, o que se introduz nesse período de transição é a exigência inesperada de
uma inteligibilidade inerente ao próprio representável, ou seja, a captação de
algo inteiramente não visível pelo próprio discurso do saber.
É a exigência de um
princípio interno à constituição dos seres e que informa aquilo que se dá a
ver, na exterioridade representável. Um princípio de organização que
encontra a expressão mais adequada a partir da noção de função. Surge assim uma
hierarquia de caracteres, pois não mais se deve apenas justapor lado a lado
características isoláveis, sendo a declinação das identidades e diferenças
aquilo que sintetizava o regime clássico do visível. Agora, trata-se de
estabelecer, entre os caracteres observáveis, aquele que se torna fundamental,
isso que só se pode resolver a partir de um critério que o visível, por si só,
não pode fornecer.
Sendo o critério a
função, desde que se compreende agora o ser como organização, trata-se de
descobrir a relação que cada caráter mantém com as funções organizadas. Se há
caracteres que podem estar ou não presentes, conforme a diversidade de gêneros,
espécies e famílias, e caracteres que são, inversamente, absolutamente
constantes, podemos estabelecer ao mesmo tempo o que é mais essencial aos seres
vivos e o que define especialmente uma família ou uma espécie.
Creio ser bastante
oportuna a comparação com a orientação que existe atualmente em biologia,
relativamente ao conceito de função. Conforme Jaques Monod (O Acaso e a
Necessidade), localiza-se atualmente três funções que permitem estabelecer
a especificidade do ser vivo. A teleonomia, é a capacidade de realizar
performances a partir de fins propostos pelo projeto orgânico estrutural. Ora,
a teleonomia pode ser interpretada em função de projetos locais, os organismos,
mas esses sistemas parciais estão agenciados a um projeto geral, mais
essencial, a conservação da espécie, e por aí a teleonomia é uma função básica
do ser vivo que se articula com as outras funções, igualmente básicas, a invariância
reprodutiva que no ser vivo manifesta a capacidade de transmissão da
informação genética e a morfogênese autônoma ou capacidade inerente de
articulação de sua forma específica.
Encontrar a
especificidade dos seres vivos já é uma tarefa do clássico, conforme Foucault,
presente em Lineu como em Bonnet. Assim, há desde aqui a substituição da
divisão tradicional de três ou quatro reinos da natureza em apenas dois, o
inorgânico e o orgânico, que Foucault salienta como importante no transformismo
de Lamarck .
Monod desenvolve a
observação da especificidade daquelas funções, em relação ao ser vivo, traçando
um paralelo com os cristais. A situação de comparação ideal entre todos os
seres existentes seria a de um programador de informática que estivesse lidando
com as performances dos sistemas, inorgânicos e orgânicos, e devesse descobrir,
sem conceitos pré-fixados da ciência biológica mas apenas através das
regularidades constatáveis, a especificidade do orgânico.
O programador iria
então pouco a pouco reduzir as semelhanças a dois grupos, os cristais e os
seres vivos. Esses grupos se tornam semelhantes pela manifestação das três
funções e a surpreendente constatação de Monod é que o programador poderia sim
localizar dois grupos, não apenas um, mas isso apenas devido à complexidade de
informação que os seres vivos exibem. O que permite a oposição de cristais e
seres vivos é então apenas a quantidade de informação. As estruturas
cristalinas representam uma quantidade de informação menor, em várias ordens de
grandeza, à estrutura que é transmitida através das gerações mesmo nos seres
vivos mais simples.
No âmbito da história
natural articulava-se a comparação entre corpos sólidos e seres vivos. Lineu
pensava que a “justaposição” faz crescer o mineral, enquanto pela “intuscepção”
o vegetal se desenvolve, nutrindo-se. Bonnet opõe o “agregado” dos “sólidos
brutos” à “composição dos sólidos organizados”, que se “entrelaça num número
quase infinito de partes, algumas fluídas, outras sólidas”.
É assim instrutivo
justapor essa visão mecânica do clássico, assim como sua oposição do inorgânico
ao orgânico, e a atualidade, como expressa em Monod. Ora, aqui trata-se de
iniciar por uma abordagem “maquínica”, a situação do programador, que logo
parece interposta, pois Monod vai mostrar que a máquina difere do ser vivo por
seu modo de construção, já que qualquer artefato deve sua estrutura
macroscópica a forças exteriores, a utensílios agindo sobre a matéria para
impor uma forma, enquanto que a morfogênese , como função básica do ser vivo, é
autônoma, não depende dessa exterioridade.
No entanto, o limite
do orgânico vai se tornar algo oscilante, já que o paralelo com os cristais
transpõe agora, quando se trata de compreender o mistério dessa morfogênese em
nível microscópico, a simples divisão em reinos separados. Com efeito, o mais
importante nesse processo morfogenético, a capacidade de reconhecimento que as
moléculas de proteína apresentam, e por aí sua aptidão à associação, ao
grupamento, é estreitamente comparável à formação de cristais moleculares, de
modo que essas moléculas constituem verdadeiros cristais microscópicos. É
somente na transição desse nível corpuscular àquele dos bacteriófagos que se
torna inaplicável o conceito de cristalização, isso devido exclusivamente ao
grau de complexidade destes. No entanto, mesmo assim se mantém a afirmação de
que as interações químicas postas em funcionamento são da mesma natureza que as
que constroem um cristal molecular.
Por esse meio se pode
observar que a contemporaneidade compreende a especificidade da vida numa
espécie de limite entre o inorgânico e o orgânico. Não se depende agora de uma
divisão estanque entre esses domínios, a molécula ela mesma é cristal. Ora,
pelo que vimos da comparação clássica entre o mineral, o sólido bruto e o
organismo, lá é exatamente o oposto. O que torna evidenciada a irredutibilidade
epistêmica entre o clássico e a “modernidade”, no sentido de Foucault.
A biologia já tem por
objeto a vida, portanto sua inteligibilidade permanece intacta independente da
classificação estrita dos seres, o problema sendo agora como articular os
níveis micro e macroscópico. Já a “história” é “natural”, ou seja, seu domínio
é uma natureza que só se pode compreender, então, a partir de uma delimitação
básica dos seres, seus constituintes. Creio que essa comparação permite apoiar
bastante bem a tese de Foucault quanto à impossibilidade de estabelecer a “história
natural” como uma biologia primitiva, pois vemos assim que os objetos, os
domínios mesmos de inteligibilidade, são irredutíveis. Ilumina-se também a
pertinência, na atualidade, de visões filosóficas como as de Deleuze, que se
interessam por essa oscilação entre o inorgânico e o orgânico, uma vez que a “imanência”,
como conceito nuclear dessa filosofia é sinônimo de “vida”. Na verdade só se
compreende a obra de Deleuze no âmbito de uma transversalidade constitutiva com
a produção epistêmica contemporânea, o que resgata sua criação conceitual do
regime “cristalino” ou anorgânico como sendo aquele de uma ética dos devires.
E seria interessante
mostrar como a cibernética transforma completamente a questão da funcionalidade
no momento mesmo em que abole a divisão dos sistemas, biológicos ou mecânicos,
de modo não redutível à compreensão do homem-máquina do materialismo clássico.
Justamente, trata-se da interposição de um outro conceito de matematização, a
partir de um campo epistêmico já constituído pelo transcendental, capaz de
repor a noção de formalização. Contudo, só poderemos bem compreender essas
questões na continuidade do exame da transição à modernidade.
Entre Lineu e Bonnet
observa-se a intervenção desse novo conceito de composição, de organização.
Foucault observa também que na progressão dessa preocupação com a delimitação
do orgânico começa a se evidenciar uma aproximação ao conceito de Vida. Mas é
através das obras de Vicq d’Azyr, Jussieu e Lamarck que a organização começa a
funcionar como critério, subordinando os caracteres uns aos outros,
relacionados agora a funções. Ao procedimento que se traduzia inteiramente no
grafismo, se substitui uma arquitetura tanto interna quanto externa, ou seja,
abarcando tanto o invisível quanto o visível.
Só aqui, na teoria
transformista, se insere a transição que conduzirá à formação de uma Biologia.
No entanto, o essencial da tese de Foucault é que nenhuma transformação
exclusiva de uma positividade pode explicar a precipitação das empiricidades
modernas. Não é só que o conceito de Vida se apresenta a partir de um certo
limiar, como se ele fosse uma coextensão de um outro conceito, da mesma
espécie, aquele que creio poder ser designado como Natureza. O que muda é o
estatuto do objeto. Enquanto Natureza é um domínio inteiramente representável e
empírico, a Vida já é esse quase-transcendental, assim como o Trabalho e a
Linguagem. Compreender essa transformação será inerente à descrição do que ocorre
a partir de Kant.
Note-se que não se
propõe, nessa transição, a idéia de um entrelaçamento de funções capaz de
articular o exemplar à sua espécie. Inversamente, cada espécie tem uma função
básica que a visibilidade exibe através da disposição dos caracteres
observáveis. Assim se o número de cotilédones torna-se decisivo para
classificar os vegetais é porque desempenham um papel determinante na sua
função principal, de reprodução. E se Storr pode propor a classificação dos
mamíferos conforme a disposição dos seus cascos é porque esta se relaciona aos
modos de deslocamento e possibilidades motoras do animal que, por sua vez,
estão em correlação com a forma de alimentação e os órgãos do aparelho
digestivo. Conforme Vicq d’Azyr estabelece expressamente, há uma função que
comanda a formação dos indivíduos, e no caso do animal, sem dúvida essa função
é a alimentar.
A nomenclatura,
totalmente inserida na região da visibilidade, não mais abarca toda a
especificidade da classificação, e essa cisão é determinante, conforme
Foucault, no desbordamento do espaço clássico do quadro. Ora, essa quebra da
visibilidade pode aparecer como limite da representação uma vez que não se
trata mais da relação das representações entre si, mas da relação da
representação de certo domínio do saber, visível, com o que funda sua
legalidade, sendo da ordem do invisível.
No projeto de as
palavras e as coisas, compreender a transformação de um espaço de
justificativa para uma fundação de legalidade, no abismo entre o passado e o
futuro, o clássico e o moderno, abarca: a formação das ciências positivas da
contemporaneidade, a formação da literatura, a volta da filosofia sobre seu
próprio devir, a emergência da história ao mesmo tempo como saber e como modo
de ser da empiricidade, e o deslocamento de uma metafísica como “ideologia” , à
Condillac e Destutt de Tracy, ao criticismo kantiano. Creio ser acrescentável a
mudança de ênfase do particular ao geral.
Ora, o que faz a
irredutibilidade da visão de Foucault está em não se propor como tarefa
explicar a descontinuidade entre as épocas. É um acontecimento, que acomete o
pensamento, aquilo que se pode apenas enunciar. Em compensação, a arqueologia
pode “percorrer o acontecimento”: designar as configurações inerentes a cada
positividade do saber (a substituição da importância do nome pela flexão em
gramática, a dependência do caráter à função, na história natural), compreender
o papel dos seres empíricos que povoam essas positividades (a substituição do
discurso pelas línguas, das riquezas pela produção), o deslocamento das
positividades (relações entre biologia, linguagem e economia, que não se
reduzem às observadas entre história natural, gramática e análise das
riquezas).
Esse acontecimento
fundamental se nomeia por uma dupla afirmação, concernente ao empírico. Ele
agora pode ou não ser formalizável, enquanto até então não poderia haver essa
dúvida. O espaço da representação se tornou apartado da possibilidade da
síntese, esta devendo estar se constituindo no limite do visível, como condição
de possibilidade, lá onde o procedimento da nomeação, que quadriculava o espaço
de modo a estabelecer o lugar prévio a cada ser, não alcança. Trata-se da
separação da máthésis e da ciência universal da ordem, um acontecimento tão
decisivo, no limiar do século XIX, como a transição do espaço da similitude ao
método cartesiano o havia sido, no início do século XVII.
Como consequência,
temos agora os novos domínios empíricos ligados a reflexões sobre a
subjetividade, o ser humano e a finitude que se interpõem ali onde só a
filosofia articulava o discurso. Surgem as ciências humanas, no século XIX e,
mais geralmente, ocorre a centralidade da antropologia, aquilo que se poderia
designar o seu círculo. Pois a antropologia é esse modo de pensamento onde os
limites do conhecimento, de todo saber empírico, são ao mesmo tempo as formas
concretas da existência, assim como se dão nesse mesmo saber empírico.
Examinarei os aspectos da questão que se relacionam especificamente com o plano literário e artístico oportunamente. Mas observando as teorias do espírito, e assim com uma base mais ampla para compreender o que se processa no âmbito das teorias da moral, a compreensão desse acontecimento, no tocante à transição em curso no século XVIII, se tornará bem mais favorecida.
O homem máquina de La
Mettrie possui uma alma. Mas essa alma não se compreende por sua relação com
algum princípio teológico ou metafísico. Trata-se de fazer a sua “história”. A
história da alma é o reflexo, na teoria do espírito, da história natural, na
teoria da natureza. Não se trata de uma história social, ou de acontecimentos.
Essa história compete ao “cientista” ou fisiólogo narrar.
Negando completamente
qualquer dualismo, trata-se de compreender a alma como aquilo que deriva de
forças orgânicas, produzidas pela força motriz inerente à matéria. Ora, La
Mettrie compreende as funções intelectuais na dependência do sistema nervoso,
do cérebro. A noção de alma está bastante transformada, já que seu sentido
tradicional era totalmente relacionado ao dualismo. Com efeito, a partir dessa
época a “alma” deixa cada vez mais de ser uma noção utilizável, na proximidade
da psicologia e da medicina do cérebro.
A noção de alma se
substitui, geralmente, pela de consciência. Contudo, ainda hoje, nessas áreas altamente
especializadas, parece não haver consenso quanto à possibilidade de considerar
a consciência apenas como um epifenômeno da “matéria”, isto é, do funcionamento
do cérebro, apesar da neurociência se esforçar bastante nesse sentido. La
Mettrie, no século XVIII, compartilha esse esforço. Sua visão da alma ou
espírito, que nele se traduz como intelecto, é tão mecanicista quanto sua visão
de organismo, de modo que todas as atividades intelectuais, involuntárias ou
instintivas e voluntárias ou conscientes se explicam por estruturas cerebrais e
corporais. La Méttrie nega assim qualquer diferença essencial entre esses tipos
de atividade.
Na perspectiva do
século XVIII o dualismo de alma ou espírito e matéria havia sido geralmente
ultrapassado pela oposição entre atividades voluntária e involuntária, instinto
e consciência. O que a maioria dos pensadores procura agora é ultrapassar
também essa oposição, no sentido de aproximar cada vez mais a antiga noção de
alma daquela de consciência. Essa estratégia é utilíssima quando se trata das
teorias de moral, engajadas, por sua vez, na tarefa de formar o particular para
que se possa ter da sociedade, enquanto geral, a imagem de função do
particular, explicando assim a existência e o papel do vínculo social e político.
O fundamento do liberalismo é ser o particular intrinsecamente consciente e
responsável. A palavra que sintetiza essa qualidade fundamental do particular,
requerida para que possa ser o fundamento do gera, é autonomia. Mas a autonomia
só pode ser plena como característica de um ser onde não há sombra de
inconsciência na motivação de suas atitudes.
O problema será então
como considerar a consciência ou espírito, minimizando o instinto ou qualquer
coisa que pudesse manchar a clareza da autopercepção como ser consciente e
autônomo. Assim a oposição teórica porta entre caracterizar a consciência como
razão ou como algo mais, que abrange, por exemplo, o sentimento ou a volição. A
visão funcionalista de La Mettrie compreende o ser humano como uma máquina, um sistema
auto-suficiente, com partes que se inter-relacionam a partir de uma orientação teleonômica,
se utilizarmos aqui a expressão atual, que vimos caracterizada em Monod. Mas a
visão de La Mettrie não estende a imbricação da função teleonômica com outras funções,
entendendo-a em termos de realização do ótimo relativo ao próprio organismo,
como a única função essencial da estrutura.
Em outros termos, La
Mettrie não utiliza esse conceito de Monod, mas creio que já apresenta a noção
de teleonomia, apenas desvinculada das implicações teóricas atuais, como da
ligação com as outras funções, de modo que sua visão do homem-máquina,
totalmente autônomo, é a mais característica desse período.
Ora, essa imagem do
homem máquina ressoa com a hipótese da estátua, de Condillac. Trata-se agora
não tanto de uma perspectiva global do sistema nervoso, e seu caráter
determinista com relação à consciência inserido na inter-relação estrutural do
organismo como um todo, mas de uma teoria que se especializa na compreensão do
funcionamento do espírito. Isto é, em termos de século XVIII, a partir da
crítica de princípios inatos universalmente recebida de Locke, trata-se de
estender uma visão da relação entre consciência ou mente e experiência.
A hipótese da estátua
consiste em supor um autômato destituído de idéias, mas capaz de ter sensações.
Reduz-se a sua aptidão sensitiva a apenas uma espécie de sensação, a mais
simples, o odor. Nessas condições, para Condillac, o ser humano poderia aceder
a todas as faculdades do entendimento, do mesmo modo que o faz possuindo os
cinco sentidos. A tese afirmada é portanto, conforme Bréhier, a equivalência
dos cinco sentidos uns em relação aos outros, como se cada sensação contivesse
todas as faculdades.
Condillac generaliza
um problema da época, a procura da relação própria entre cada um dos sentidos e
o funcionamento do espírito. Sua resposta consiste nessa equivalência dos
sentidos, e com isso ele amplia consideravelmente o alcance crítico de Locke.
Com efeito, Locke criticava a idéia inata, mas não o funcionamento do intelecto
através da idéia formada no contato com o mundo ou pela reflexão desse contato.
A teoria de Locke implicava uma semiótica do conhecimento, isto é, uma
compreensão do processo cognitivo em termos de ligação de idéias e signos.
Condillac nega que esse tipo de ligação seja o fundamental, As faculdades
mentais são anteriores ao signo como à idéia, ainda que isso que é anterior
permanece inferior a essa capacidade semiótica que permite, por exemplo, contar
mais do que apenas três objetos.
Torna-se assim
preciso compreender a relação dessa capacidade mais desenvolvida com aquilo que
no intelecto é o mais básico, a saber, a sensação. Ora, Condillac situa a
sensação como algo transformável, de modo que as operações da alma consistem, a
partir de uma sensação primitiva, em transformar esse dado inicial nas
faculdades intelectuais específicas como a atenção, a comparação, o juízo,
todas essas faculdades integráveis pela idéia e pelo signo em raciocínios
sempre mais complexos. A observação psicológica só vê faculdades conhecidas,
entre as quais inclui a sensação. Mas o dado básico permanece desconhecido, e
podemos, no entanto, deduzi-lo como sendo a sensação, uma vez que só essa
faculdade do espírito se mistura a todas as outras, sua variação podendo
explicar todas as outras, não o inverso. A teoria de Condillac não se traduz
como uma psicologia, uma observação dos fatos da consciência, mas se propõe
como uma análise do espírito.
A sensação se fixa
pela atenção, se conserva pela memória, o que se conservou e o que está se
fixando agora podem ser comparados, os termos a comparar implicam a declinação
de juízos de valor acerca das semelhanças e diferenças, comparação e julgamento
repetidos já formam a reflexão. A estátua pode mesmo, diante de algo
desagradável, pensar em algo agradável, atingindo assim o nível da imaginação.
O entendimento é o conjunto dessas faculdades que se derivam da sensação mais
simples, no exemplo, o odor.
A vontade deriva da
variação básica inerente à sensação, que pode ser agradável ou não. A tendência
ao agradável explica o desejo, que acentuado é paixão, ou amor, seu oposto
sendo o ódio, e a estátua oscila entre o medo do desagradável e a esperança do
agradável. Se o desejo se aquieta pela satisfação, se a estátua reflete, ela
pode então abstrair as idéias gerais, como o prazer, comum a várias sensações.
Mais geralmente, ela atingirá a noção de mundo exterior, desenvolvida a partir
da sensação de obstáculo que outro corpo pode lhe oferecer.
Nessa teoria nada se
deve ao inconsciente, a percepção não é algo possivelmente adquirido, como se
havia proposto na época devido à questão de se alguém que começasse a ver,
tendo tido sempre o tato, poderia reconhecer o círculo oposto ao quadrado,
assim como o tato lhe permitia identificar. A experiência de Cheselden, feita
com um jovem recém curado de catarata, sugeria que não. Condillac permanece
negando, ainda assim, essa possibilidade de uma percepção adquirida, pois ela
poderia implicar a existência de julgamentos inconscientes. Sua explicação é de
que o jovem, que parecia não ter a noção visual de distância e profundidade, no
momento de recuperação da visão, na verdade possuía as sensações
correspondentes, independentes do tato, apenas não havia ainda desenvolvido a
idéia precisa, resultando da transformação desse conjunto de sensações nas
faculdades necessárias à consecução da noção completa de sua própria
experiência.
Destutt de Tracy,
utilizando essa teoria da sensação de Condillac, a designa “Ideologia”, como um
procedimento de análise das idéias a partir do dado mais básico e simples
transformável, a sensação. Ora, Foucault pensa que um confronto dessa Ideologia
de Condillac e Destutt de Tracy, afirmada também por Gerando, com a Crítica de
Kant, pode assinalar a unidade daquele acontecimento fundamental que define a
transição do clássico ao moderno, inaugurando a contemporaneidade.
Unidade importante,
pois ela se define na contraposição ao múltiplo dos fenômenos de superfície que
poderiam figurar como causas do acontecimento. Ora, não se trata de uma mudança
de interesses culturais, como que sob a influência do nascente romantismo, que
volveria o foco aos temas complexos da história, da vida, e da sociedade. Não
se trata, tampouco, de redistribuição das opiniões e dos juízos, nem do
aparecimento de novas formas no discurso científico, como se, desde um
racionalismo submetido ao modelo da mecânica, subitamente se introduzissem
regras de análise e leis do entendimento nesses fenômenos complexos da
biologia, da história das línguas ou da produção industrial.
O que importa
destacar então se torna a ênfase, em vez dessa superfície móvel dos fenômenos,
no fundamental, aí onde os conhecimentos se enraízam em sua positividade. O
acontecimento não concerne aos objetos visados, analisados ou explicados no
conhecimento, ou mesmo a maneira de os conhecer ou racionalizar. Mas à relação
da representação para com o que nela é dado, a esse desnível ínfimo, essencial,
da representação consigo mesma, pelo qual ela deixou de poder, por si mesma, no
seu desdobramento próprio, no jogo de sua duplicação sobre si, subsumir todas
as relações de união desses elementos que por ela deveriam se compor. Nenhum
dos procedimentos da representação – a análise de identidades e diferenças, a
ordem do quadro, as sucessões na superfície, podem mais ligar as
representações, já que a possibilidade desses liames reside agora em algo que
não se confunde com a própria representação. O conhecimento só pode vir a se
fundar a partir de um mundo subjacente, mais profundo que a representação, essa
fundação sendo a de uma espessura entre o visível e o que o vincula, cume ou
extremidade não acessível, “no coração mesmo das coisas”.
É inevitável lembrar
o regime das assinalações da magia do Renascimento, lá onde a marca se ocultava
também no mais íntimo, de modo que o que havia a ver estava sob a veiculação do
oculto. Ocorre que a marca, e essa relação oculta, só estava invisível para ser
descoberta como um elemento numa trama de relações inteiramente visíveis, ao
menos de direito. A marca no interior da planta assinalava o seu parentesco com
o planeta de que deveria proceder sua influência, como sua esfera de ação
eficaz. Na Renascença havia um espaço de adjacências, relações que se instauram
entre elementos já dados, mas vertical, procedendo do oculto, do fundo, à
superfície, ao visível, da relação às coisas. O encontro dos dois planos era o
signo. O espaço clássico estabelecia a adjacência na horizontalidade do nome,
pois tudo da representação é visibilidade. A mudança no regime do signo, com
Port-Royal, como vimos, correspondeu à redução da operação de significância a
dois termos, duas idéias. A modernidade não opera um espaço de adjacências,
vertical ou horizontal.
Pode-se falar de
verticalidade, mas não como se a partir de uma significação fundamental se
estabelecessem as relações assinaláveis pelo olhar. As relações não são marcas,
não admitem nenhuma metáfora do visível, nem mesmo como um qualquer já
significado ou relação que a alma capta como o olho apreende o que está no
mundo físico. Na modernidade trata-se de um espaço interno. As coisas se
oferecem à representação como que por perfis ou fragmentos, a partir dessa
força constituinte, a que convém bastante a designação que Chauí estabeleceu
como título do seu livro sobre Spinoza: Há nervura do real, “secretas
nervuras”, conforme a expressão de Michel Foucault, dessas coisas com sua
organização própria, o espaço que as articula, o tempo que as produz. Quanto à
representação, trata-se desse após, onde as coisas se anunciam sempre
parcialmente e sempre a uma subjetividade, consciência, indivíduo psicológico,
ou esforço singular de algum conhecimento.
Ora, se os três lados
desse triedo fundamental do saber contemporâneo estão despontando nesse
momento, na segunda metade do século XVIII, pode-se localizar, em cada caso, o
que apontam: o trabalho, que antes era caracterizável pelos elementos
analisáveis de um ser natural representável, se torna certa relação interior a
esse ser natural como sua organização, a produção. O que permite definir uma
língua não é mais o modo como representa as idéias, mas uma arquitetura
interna, seu sistema flexional. `A ligação de uma estrutura parcial num caráter
definido é preciso agora relacionar-se leis puramente biológicas, fora de todas
as marcas, organizando relações entre funções e órgãos.
Mas nesse período
deve-se lembrar que se Smith, Jussieu e Jones utilizaram as noções de trabalho,
de organização e de sistema gramatical, foi apenas para instaurar no espaço do
quadro uma forma de ligação que fosse ainda analisável, constante e fundada,
tratando-se sempre de encontrar a ordem geral das identidades e das diferenças.
Esse período, que Foucault situa muito precisamente nos decênios finais do
século XVIII, mas que penso poder ser vislumbrado, se estendermos a observação
não apenas a essas três empiricidades mas também à produção artística e a certa
contextura do pensamento filosófico, ao século XVIII como um todo pode então
ser caracterizado como apresentando uma “configuração epistemológica ambígua”.
Essa caracterização se torna então plenamente recuperável na dualidade
filosófica que abrange, no desfecho do século, a coexistência da “Ideologia”,
agrupando Destutt de Tracy, Condillac e Gerando, com a “Crítica” de Kant.
Foucault localiza a ideologia
naquilo em que se apresenta como a única forma racional e científica da
filosofia e como o único fundamento filosófico das ciências. A ideologia, como
ciência das idéias, pretendeu ser um conhecimento do mesmo tipo que aqueles que
se concedem por objeto os seres da natureza, as palavras da linguagem ou as
leis da sociedade. Mas ao passo que tem por objeto as idéias, a maneira de
expressar essas idéias em palavras e de ligá-las em raciocínios, ela se supôs
valer como a Gramática e a Lógica de toda ciência possível. Ora, a Ideologia
jamais interrogou o fundamento, os limites ou a raiz da representação, apenas
percorreu o domínio das representações em geral, fixando as sucessões,
definindo as relações constatáveis, manifestando as leis de composição e decomposição.
Todo saber é alojado assim no espaço das representações. Formular o saber das
leis que organizam esse espaço é apenas uma questão de percorrê-lo.
O saber do saber é
como o clímax da reduplicação da representação, pois todo o representável se
erige sobre uma representação a que jamais se escapa. O pensar se manifesta no
juízo, mas o juízo se erige sobre uma sensação, a que constata uma relação, uma
ligação, que o juízo manifesta mesmo a si quando se reflete como um “eu penso isto”.
O ato básico do pensamento é então esse sentir, como afirma Destutt de Tracy, o
que, conforme Foucault, corresponde exatamente a cobrir, sem dele sair, o
domínio inteiro da representação. A sensação é forma básica da representação,
ou melhor, o que ela atinge é a representação mais básica, o conteúdo mínimo do
representável mesmo.
O mais simples da
representação é, no entanto, o mais complexo da natureza. A mais complexa
singularidade zoológica, pois o conhecimento dos animais deve compreender as
suas faculdades intelectuais: se a ideologia integra a zoologia, é no ser
humano que a ideologia vem a desfrutar de toda a sua importância. Ela se torna
assim como que o projeto de uma ciência natural do homem. Aqui duas observações
são igualmente oportunas.
Inicialmente o fato,
de que veremos mais tarde as consequências, da abrangência desse projeto na
problemática epistemológica relacionada ao sentido ético do conhecimento. Mais
imediatamente, a irredutibilidade da interrogação crítica de Kant, que desse
mesmo ponto de origem – a relação entre as representações – desloca
inteiramente a aplicação, pois recusa estabelecer essa relação ao nível da
representação, mesmo atenuada, isto é, nos termos de uma atribuição de
conteúdo, como a sensação é sempre “de” alguma coisa. A invés, trata-se de
interrogar o que torna possível a relação em sua generalidade. Também aqui será
oportuno aguardar a confrontação das consequências. O importante sendo,
contudo, apreender o alcance, a importância da Ideologia, no espaço clássico da
Ordem, pois ela aqui funciona como a súmula, a constituição mesma ou a
cartografia desse espaço.
A hipótese da estátua
ocorre também em Charles Bonnet, como a proposta de uma análise das faculdades
da alma, mas isso como projeto crítico àquele de Condillac. Pois enquanto
Condillac pensava as transformações de modo algébrico, descontínuo, Bonnet,
informado pela teoria natural da série, pensa que o importante é apreender as
ligações, reduzindo ao máximo a postulação de qualquer ato em separado na
hipótese considerada. Trata-se de pensar a continuidade ou nexos na corrente da
existência da estátua. Assim, creio tratar-se mais de uma história da alma do
que, propriamente, análise.
Ora, a história
natural, que depende dessa idéia de série e continuidade de formas, não deixa
de encontrar a tarefa de compreender a razão da ligação, conduzindo à hipótese
de um ser que atua suas possibilidades progressivamente, um tipo ótimo a ser
realizado pela progressão. A idéia da corrente supõe a noção do ato desse
encadear de tipos. Assim Bonnet localiza a atividade como algo mais básico do
que a própria sensação “passiva”. A preferência é uma ação mais básica, e
irredutível à sensação que a estátua escolhe como mais agradável. Preferir, ao
invés de sentir, consiste em se determinar, em agir. Fugir da dor, procurar o
prazer, não se confunde com ter uma ou outra sensação, e a atenção tampouco
pode ser reduzida às sensações.
Bréhier localiza a
dificuldade de se conceituar essa teoria como análise, pois ele observa que
Bonnet reintroduz a importância da observação. No entanto, em todo caso ainda
não se podem identificar essas teorias com uma psicologia efetiva no sentido de
uma ciência, como na contemporaneidade. A oposição, quanto a isso, entre Bonnet
e Condillac porta assim sobre a legitimidade da observação interna. Condillac
pensa que o dado básico não está acessível a essa observação, sendo
desconhecido, apenas inferível pela análise. Bonnet pensa que, inversamente, só
a observação interna permite repor o essencial, a saber, a conexão entre os
dados, a atividade realizada, o que corresponde ao objetivo da teoria que é a
compreensão do funcionamento do espírito, não apenas nomear os elementos numa
escala de antecedências.
Creio que se pode ver
assim aquilo que informa essa oposição, sendo comum entre ambas as vias
apontadas. Em todo caso o espírito é algo a ser explicado no seu “funcionamento”,
estando a enunciação dependendo da hipótese aceita do “homem máquina”, ser
autônomo. É só nesse a priori epístêmico que o pensamento pode sugerir sua
ambiência como simulação, a partir de um seccionamento, não questionado na sua
legitimidade como posição do problema, pelo qual temos uma “estátua”,
reduzindo-se as funções e relações do ser humano a dados ou atos concebidos
como isoláveis, básicos, assim como numa ligação de mecanismos.
É interessante
observar que esse a priori se mantém na gradação de posições atinentes à
emergência de uma psicologia, ainda que compreendendo-se esse termo no sentido
do século XVIII, como observação da realidade do espírito. A recusa da
observação funda a opção analítica de Condillac. A compreensão da observação
como votada à experiência interna funda a “história da alma” de Bonnet, algo
que pode ser conceituado como “psicologia” apenas nesse contexto de época.
David Hartley lança a via de uma psicologia inteiramente mecanicista, “biologista”,
ouso afirmar. Trata-se agora de sensação e de observação, mas não de pura
dedução, nem de observação interna.
Hartley utiliza a
sensação como dado no contexto de uma interrogação mais ampla que abrange a
associação de idéias. Aceitando a hipótese da Ótica de Newton, ele compreende a
sensação como efeito produzido pelas vibrações de um éter contido nos órgãos
sensoriais, os nervos e o cérebro. A ligação de idéias resulta da ligação no
cérebro de pequenas vibrações que tendem a reproduzir aquelas que se fizeram
originalmente pelos sentidos. A observação porta sobre os movimentos,
automáticos e voluntários, os sentidos, a linguagem e o julgamento, se bem que,
ao que parece, não apresentando um método preciso.
A tradução francesa da obra de Hartley, Observations of man: his
frame, his duty, and his expectations, é de 1755. O De l’Esprit de Helvétius é de 1758. A obra de Helvétius lança
sobre a hipótese biologista de Hartley a questão sobre a diversidade de valor
espiritual, sendo a sensibilidade física idêntica no ser humano e no animal e
tudo, no espírito, tendo como proveniência a sensibilidade física, que aqui
está designando o registro dos dados dos sentidos, provenientes do contato com
o mundo. Essa questão não está expressamente votada a Hartley, mas há uma
relação manifesta entre o modo como Helvétius põe a indagação e a limitação da
observação psicológica a uma física da sensibilidade. Ora, a intenção expressa
de Helvétius é repor o tema no domínio da filosofia, ao mesmo tempo em que esse
mesmo tema esclarece sobre a função social do filósofo, uma vez que Helvétius
introduz a importante exigência de religar espírito e existência social, em vez
de seccionar faculdades para explicá-las numa base puramente mecânica.
Helvétius localiza a
diversidade espiritual na capacidade variável da atenção, que também pode
variar quanto à sua orientação. O critério da variação é a paixão que elide
certos objetos e se concentra em outros. Mas a paixão se define como fuga da
dor e procura do prazer, ou seja, em função da sensibilidade física. Essa
sensibilidade pode assim explicar a diversidade dos espíritos, mas não numa
base puramente material, pois ela resulta do jogo da paixão que se encena de
modo irredutível, na pessoa, no particular. A base da sensibilidade é uniforme,
a mesma para todos, mas ela não explica o exercício mesmo da sensibilidade, que
só se compreende no âmbito da variação da atenção conforme a intensidade da
paixão. Helvétius sustenta assim que a inteligência se explica pela paixão, já
que sem se estar profundamente interessado não há concessão de atenção,
processo ou envolvimento intelectivo.
No entanto, se a
sensibilidade deixa de estar se situando no plano puramente material e pareça
estar atingindo o singular, Helvétius prossegue no sentido de mostrar que se a
diversidade de espíritos se explica pelo particular, ainda não se compreendeu a
atribuição de valor. Ora, quanto a isso, deixa de ser possível ancorar a
explicação apenas no indivíduo e Helvétius postula uma interligação básica de
particular e geral, pessoa e sociedade. É a estima dos outros seres humanos, em
função do interesse geral da sociedade, o critério desse valor. Em função das
necessidades sociais, um avaro, que permanece muito razoável, por exemplo, não
tem o valor espiritual de um chefe de armada. O critério da comparação é
extrínseco às capacidades intelectuais apenas consideradas no sentido
intrínseco do desempenho, portando agora sobre a relação com o meio. Assim,
aqueles que são mais valorizados em um tipo de sociedade, em um certo tempo e
lugar, podem não ser admirados em outro tipo de sociedade, com outras
necessidades práticas. Somente o filósofo tem a competência do geral, isto é,
do valor que permanece independente das diferenças de meio, aquele que alcança
o ser humano mesmo.
Esse critério mais
geral ou humano de valor, sendo enunciado apenas pelo filósofo, faz com que em
cada sociedade particular seja o filósofo o responsável por sua evolução,
porque em cada caso ele vislumbra o desnível entre a situação localizada e a
possibilidade mais abrangente da humanidade. O oposto do filósofo é o
sacerdote, pois ele se incumbe de sacralizar o critério particular da
sociedade, seus pré-conceitos. Ora, as paixões não são devidas à fisiologia,
elas são como que o lote do espírito, aquilo que ele traz pessoalmente de
irredutível a tudo mais. Mas como a relação com o meio é ela mesma do interesse
de cada um, é a educação que modela a atuação da paixão.
O materialismo de La
Mettrie e Holbach não ostenta a pretensão de interferir na conduta social.
Helvétius, em contraposição, pôde ser visado como tendo enunciado algo como uma
doutrina da fabricação do espírito, suscitando as críticas não só de La Mettrie
e Holbach, mas também de Voltaire e Rousseau. No entanto, é extremamente
importante observar a oposição no interior dessas críticas.
Quanto a Voltaire,
torna-se bastante consequente o desacordo. O interesse dominante em Voltaire é
estabelecer, contra o pessimismo cristão de uma destinação pecadora do ser
humano, a visão otimista, “ilustrada” , da humanidade como fundamentalmente
apta ao autogoverno, à autonomia, ao domínio do mundo, à reforma de todas as
instituições pela razão que as pode conduzir à perfeição relativa permitida
pela inconstância dos tempos e dos costumes. Assim, torna-se bastante
valorizável o conhecimento do presente, que pode inspirar a juventude de hoje,
mais do que o do passado, que não reflete a tendência atual, não podendo
portanto orientar as decisões do agora.
Mas o que se mantém
útil e que é constante, mesmo através dos tempos, é aquilo que no ser humano se
exerce como seu espírito de invenção, manifesto geralmente em pessoas que não
recebem da sociedade a mesma fama e destaque dos assim considerados sábios “oficiais
e ignorantes”, cuja sabedoria é totalmente relativa aos preconceitos de cada
época. As invenções que realmente contribuem para o progresso humano são as
mais corriqueiras e úteis, a charrua, a tecelagem, por exemplo. Esse espírito é
“mecânico”, isto é, menos votado à teoria do que ao prático, ao instrumental.
Não poderia haver nada de exterior que determinasse a realização desse
espírito, e Voltaire censura também Montesquieu, pois a fundação de uma
religião depende mais dos acasos de uma época, de forma alguma de algo
extrinsecamente determinante como o clima.
Assim, uma posição
como a de Helvétius, que de certa forma torna a deliberação, como o exercício
mesmo do espírito, dependente de leis sociais, ainda que estas tenham a ver com
o tempo e com o lugar, deveria parecer bastante censurável à intenção de
Voltaire. É interessante observar que Helvétius designa “espírito” como
faculdade de julgar, do mesmo modo que Voltaire, como vimos anteriormente,
pensa que o sentido próprio do termo se enuncia em termos de bem julgar. No
entanto, as imagens que cada um forma dessa capacidade parecem bastante
contrastantes, pois à independência e espontaneidade de Voltaire, Helvétius
opõe uma relação determinante com o meio. Essa espontaneidade será, como deveremos
observar, um traço recorrente nas teorias do espírito desse período,
inversamente à posição mais relacional de Helvétius.
Já a divergência dos
materialistas La Méttrie e Holbach a Helvétius está relacionada ao problema de
estabelecer o nexo entre a especulação e a prática. Helvétius teria assim
transposto a fronteira entre esses domínios que deveriam permanecer
irredutíveis e, principalmente, o papel do filósofo parece relançar uma
possibilidade de dominação que repugna à ideologia das Luzes, um pouco como o
rei platônico da República. Mais problemático é compreender a oposição de
Rousseau, já que sua obra deve se inserir, nessa exposição das teorias do
espírito, como um turning point dessas visões “ideológicas”. Ora, o sentido
dessa mudança se torna predominante nos meio que Bréhier situa como
propriamente pré-românticos, em que a influência de Rousseau é enorme.
O crucial quanto a
isso é a afirmação de que a inteligência, no sentido do raciocínio, é algo
posterior e dependente do sentimento. Ora, apenas o raciocínio é o nível em que
uma educação à Helvétius poderia atuar, uma vez que o sentimento está sendo
postulado como o mais autêntico do ser humano, o que é irredutível a qualquer
influência exterior. Assim, parece haver uma certa oscilação em Helvétius, pois
ele faz a paixão preceder o exercício da inteligência, mas ao mesmo tempo essa
paixão é ela mesma moldável, o que parece um paradoxo, do ponto de vista seja
dos materialistas, para quem o espírito é um funcionamento orgânico e autônomo,
seja dos “sentimentalistas”, para quem o nível da inteligência é aquele da
deliberação ou do julgamento, portanto só ele é modulável: podemos aderir ao
pregador na deliberação de aceitar ou não alguma coisa, mas não podemos negar
que sentimos aversão ou atração por um objeto de nossa atenção.
Creio que Helvétius
não propõe algo tão paradoxal, pois o papel do interesse é operar uma espécie
de seleção da atenção, tanto escolhendo o objeto quanto liberando uma escala de
intensidade de aplicação a ele. O gênio se explica por essa dupla operação de
seleção, não por uma quantidade ou diversidade de elementos constantes do
espírito, que são os mesmos em todos. Ora, é esse critério da atenção a
conceder que se torna culturalmente modulável, visto que podemos compreendê-lo
não apenas como resultado das inclinações pessoais, mas devido à valoração que
aprendemos socialmente. É algo que ressoa com o problema contemporâneo da
aplicação de testes de inteligência em culturas irredutíveis ao Ocidente. Não
há interesse, em certas culturas, pelo que Piaget designa o “operatório”, a
capacidade de lidar com o raciocínio formal. Assim, torna-se problemático
julgar que a pouca inclinação ao cálculo matemático nessas culturas seja um
problema quantitativo de inteligência, não qualitativo de valoração.
No entanto não há
como supor que sua teoria não seja inserível no contexto do século XVIII. Com
efeito, vemos que ela parece pouco compreensível a uns e outros nessa época.
Para o materialista o espírito é constante, o mesmo em todos, por isso ele não
é moldável. Para os sentimentalistas o espírito não é constante, não é comum a
todos, o sentimento sendo irredutível, por isso ele também não é moldável.
Helvétius insere um espírito constante, moldável.
Ora, o irredutível do
sentimentalista não quer dizer que o espírito é incomensurável com a sociedade,
com o geral. Muito inversamente, a censura do sentimentalista ao materialista é
seu ateísmo, é a possibilidade, ao menos implícita, do materialismo conduzir à
negação dos valores espirituais tidos nesses meios místicos, pré-românticos,
como sagrados. O sentimento, finalmente, é uma conexão com Deus, é a faculdade
de apreensão da revelação, a fé, essa certeza independente da razão, como em
Jacobi, uma vez que não mediada pela necessidade da prova.
Naturalmente há uma
gradação expressiva entre os sentimentalistas, conforme se situem apenas como
defensores da religião revelada e dos valores mais tradicionais, como Lavater,
ou defendam um misticismo revelado, como Fessler e os franco-maçons, ou se
relacionem a uma espécie de revelação da arte, como Lessing, Herder ou Jacobi.
No entanto, não se rompe a inteligibilidade da hipótese daquela ênfase
particular-geral, pois o sentimento, nesse caso e desde Rousseau, é o mais
firme vínculo entre esses termos, e a compreensão do geral se funda na imagem
da autonomia do particular tanto mais garantida pela fidelidade ao sentimento
próprio
O que muda na
gradação, e mais geralmente, opõe ilustração e misticismo, ambos no interior do
iluminismo, é que o geral está sendo ora postulado, e cada vez mais, no sentido
de uma sociedade laicizada e democrática, ora no sentido conservador do
despotismo, “esclarecido” mas não ao ponto de negar a fé, a revelação e a
autoridade da hierarquia social.
Ora, a constância do espírito
em Helvétius desempenha a mesma função de vínculo entre particular e geral,
tendo ainda sua teoria o mérito de cobrir o relativismo do geral pelo papel do
filósofo. E observe-se que essa função do filósofo não deveria parecer tão
chocante a uma sociedade que tão bem aceitava Rousseau e sua Religião Civil,
pela qual o pacto, a completa alienação , ganha expressão institucional na
sociedade ideal do Contrato.
A questão é então
compreender porque Helvétius causa tanto incômodo, e é bem possível que o que é
anômalo em sua teoria seja uma certa assimetria no compromisso do particular e
do geral, de modo que o dogma do liberalismo de Locke, a estabilidade do
particular, se vê algo comprometida. Helvétius não rompe o vínculo, mas parece
fazer oscilar a ênfase, antecipando-se a Kant, só que a partir dos dados da
questão assim como o empirismo havia colocado. A preponderância do geral parece
já entrevista, como possibilidade, por Helvétius, e talvez seja isso que
suscita tanta aversão por sua obra no meio intelectual do século.
No entanto, a
pertença de Helvétius ao meio epistêmico do século XVIII é notável, pois sua
teoria se baseia no moldável a partir de uma funcionalidade comum, não havendo
uma proposição no sentido de alterar essa visão mecânica que prescreve a teoria
nos termos de uma regulagem, um funcionamento.
Quanto à assimetria
introduzida por Helvétius no compromisso da época entre particular e geral,
Carpeaux oferece uma espécie de justificativa. Helvétius teria deduzido sua
teoria de um conhecimento maior não só da crueldade do sistema colonial como
também da relação de sua implantação com as missões cristãs, simples pretexto
para escravização e exploração dos povos colonizados. Carpeaux ironiza. Isso
poderia ter conduzido, sim, ao materialismo histórico, mas, numa espécie de
passo que não foi dado, não ocorreu tal dedução. Inversamente, Helvétius teria
concluído que os egoísmos são capazes de contribuir para o progresso técnico e
econômico da sociedade, formulando-se um utilitarismo avant la lettre.
Mas assim, enquanto um Diderot pertenceria à classe que a revolução derrotou, a
pequena burguesia, Helvetius pertence à classe vencedora, e a teoria de
Helvetius corresponde à prática adotada, ainda que não expressa, em todos os
lugares que se podem afirmar ter sido palco da vitória burguesa. A igualdade
intelectual dos seres humanos expressa, conforme Carpeaux, a igualdade de
oportunidades, meio da concorrência pessoal dentro da economia liberal já mais
próxima do século XIX do que do XVII.
Ora, nada mais
frontalmente oposto ao pré-romantismo dominante na transição do século, aonde o
sentimentalismo conduziu ao culto do gênio, negando completamente a base
teórica de uma igualdade espiritual, ou uma modulação exterior do intelecto,
para afirmar a irredutibilidade da autonomia do particular. Aqui poderíamos
localizar como que uma contracorrente da tarefa “iluminista” de purificar o
geral de todos as parcialidades, isto é, de erigir o geral como função
reguladora e fiduciária do particular, uma vez que esse mesmo particular é a
mais estável expressão da autonomia, fundamento do direito, como da sociedade.
Mas seria essa “contracorrente” tão incomensurável com aquela tarefa?
Aparentemente nada
mais inverso a ela do que a proliferação das sociedades secretas na segunda
metade do século XVIII, algo que se complementa bem com a explosão do romance
gótico, noir ou o Schauerroman na expressão alemã, aquela literatura do
poltergeist, de fenômenos espíritas, de espectros e assombrações. Em ambos os
casos conflui o desejo do milagre, do fantástico realizado perante nossos
olhos, e a tendência parece ter sido tão dominante que até mesmo a “religião
natural” dos deístas, conforme Carpeaux “serve-se de rituais bem esquisitos”.
Mas o que essas
sociedades secretas alegavam era o fato de possuir uma sabedoria iniciática,
imemorial, isto é, proveniente da origem da humanidade, a qual deveria
caucionar a pretensão de reformar a degenerada sociedade oficial. Aqui a
parcialidade é o veículo mesmo da tarefa de purificar o geral. É interessante
que o romance gótico vai se inspirar numa estética de castelo feudal,
deturpando o sentido das ruínas históricas, ora interpretadas como ambiente
sinistro dos contos de terror, enquanto os artistas pré-românticos recorriam à
mesma estética de castelos e catedrais, mas para pesquisar a sua realização
estética
O iniciador do
romance gótico é Walpole, epistológrafo sublime e autor do The castle of
otranto (1765), nobre como os frequentadores das sociedades secretas e a
ambiência dessa literatura. No entanto seu sucesso é tipicamente um fenômeno do
público burguês interessado em assimilar os padrões da nobreza, o que integra
bastante bem a operação de hegemonia em curso nesse período. O Frankestein
de Mary Shelley, do início do século XIX, pertence a essa vertente.
Ora, quanto ao
conceito de gênio, que poderia parecer correlato a uma revolta de tipo
subjetivista contra o constrangimento das relações particular-geral, vemos que
ele se conceitua já no início do século na teoria do espírito de Vauvenargues,
a que Helvétius frontalmente se contrapõe. Mas o acme de sua aceitação ocorre
entre os “Sturmer” pré-românticos, na segunda metade do século. E entre esses
artistas pré-românticos o conceito de gênio, conforme Carpeaux, é um
instrumento à serviço da derrubada do Antigo Regime. Aqui conflui a operação do
sentimentalismo, de traduzir em termos de alma e espírito a nobreza que antes
era de sangue. O gênio não pertence a uma classe social, é fenômeno do
espírito. Logo o gênio se identificou com a figura popular do herói, a
genialidade sendo o critério da verdadeira nobreza, podendo ocorrer mesmo entre
os mais pobres, os socialmente estigmatizados pelos padrões da hierarquia
tradicional. Interpondo uma espécie de religião do dom, o culto ao gênio, os artistas
interpretam de modo revolucionário o talento poético, e estendem uma imagem de
sociedade sem barreiras, mas provida de critérios éticos e estéticos tão
sublimes quanto o que povo sabia ser, e sempre havia admirado como tal, os da
nobreza. O gênio proporcionava agora ao povo, como sua aquisição, por meio de
instrumentos artísticos como os romances, esses mesmos critérios, essa mesma “nobreza”
de espírito.
A teoria dos tipos de
espírito, de Vauvenargues, já havia, em meados do século, lançado o tema do
gênio. Carpeaux interpreta a forma aforismática de seus escritos numa linha de
continuidade com Galiane e Lichtenberg que, salvo a irredutibilidade histórica
do século XVIII ao XIX, conduziria a Nietzsche. Mesma valorização da natureza,
desvalorização da razão, supremacia dos instintos sobre a deliberação
refletida. No entanto, Carpeaux vislumbra nessa tendência teórica, que
considera cética, mais do que uma solução pelo sentimento, uma oscilação algo
conflituosa entre sentimento e razão, daí a forma do aforisma, a
descontinuidade textual expressando a irresolubilidade teórica.
Bréhier pensa,
inversamente, que em Vauvenargues a forma aforismática é simplesmente
circunstancial. Vauvenargues seria assim um sistemático, intentando formar uma
noção coerente do espírito humano. Contudo ambos, Bréhier e Carpeaux, localizam
sua discordância em relação às tendências dominantes do século.
Ocorre que Bréhier
situa essa discordância como fundamento de sua asserção sobre a intenção
profunda de uma visão coerente do espírito, em Vauvenargues. O que ele critica
no século é a forma dispersa dos conteúdos do saber, sintoma, como o gosto pela
discussão, de um interesse pelo conhecimento que se reduz à simples
curiosidade, de modo que não ocorre uma verdadeira preocupação pelas
contradições apresentadas nesse tipo de obra, dicionário ou enciclopédia, que
se assemelha ao hábito do colecionador que forçosamente, já que seu interesse
está no acúmulo, não conserva o essencial em cada exemplar. Ou seja, Bréhier
localiza na crítica de Vauvenargues à sua época o inverso do afirmado por
Carpeaux, já que ele considera que seu tempo é que se tornou incapaz de
apreender o conjunto, a coerência, o sentido completo do fenômeno.
Carpeaux acentua o
anti-racionalismo de Vauvenargues, e sua admiração por Pascal seria mais pelo
ceticismo do que pela fé. Assim, a perspectiva de Carpeaux mostra Vauvenargues
como “professor de energia”, empenhando-se com otimismo sincero, pela crença do
deísta na bondade básica do ser humano, em ensinar a confiança no instinto
natural, na ação inspirada pelo “coração”, logo, a suspeitar da Razão.
Carpeaux sublinha a
oposição de Vauvenargues, como de Galiani e Lichtenberg, às tendências gerais
da época. É interessante observar que Foucault destacou apenas as reflexões de
Galiani sobre o valor em As palavras e as coisas, enquanto Carpeaux se
interessa mais em relacionar essa reflexão, que ele vê como correlata à teoria
econômica mais atual do marginalismo, com perspectivas sociais e políticas. O
comum a Galiani, Vauvenargues e Lichtenberg é uma valorização dos instintos – e
mesmo do inconsciente e do sonho em Lichtenberg .
Contudo, Carpeaux os
realinha historicamente pois mostra que se Nietzsche, um século e meio à
frente, deduz desse mesmo problema da supremacia do instinto, ou ao menos do
conflito entre instinto ou sentimento e razão, um anti-racionalismo como
falência da civilização tecno-racionalizada ocidental, a dedução desses
pensadores do século XVIII, partindo das mesmas premissas, será, inversamente, “a
substituição da razão individual pelo sentimento coletivo”.
Essa interpretação é
bem comensurável com o que identifico em termos de compromisso século XVIII
entre o particular e o geral, já que mostra como a tendência sentimental da
época, que conduziu ao Sturm und Drang e ao culto do gênio, muito inversamente
a significar uma contracorrente individualista, é sintomática desse mesmo
compromisso, pois sempre se está religando o particular ao geral e isso de modo
a erigir a imagem do particular autônomo como fundamento do geral.
Bréhier, que
identifica uma crítica da religião natural em Vauvenargues, prefere acentuar
sua pertença ao século XVIII mostrando que, em vez de um gosto pelo
descontínuo, ele exibe uma preferência expressa pela visão de conjunto, prerrogativa
do espírito que considera os seres em suas relações mútuas, atingindo de um
golpe toda a tessitura das coisas que reúne como que em um centro comum, um
mesmo ponto de vista. É a idéia mesma do encadeamento universal, onipresente
nessa época, que orienta as teorias da série e da corrente. Sintomaticamente,
para realizar o encadeamento no que tange ao espírito, trata-se de descrever os
tipos, do mesmo modo que na história natural em relação às espécies. Tipos que
se excluem, mas que manifestam uma espécie de continuidade de formas, cada um
pretendendo ser a representação do espírito mesmo, somente o teórico estando
consciente de que um tipo é apenas uma realização parcial de algo maior.
Os tipos de espírito
são: o vivo, o penetrante, o justo, o profundo, o poético, o racionalista. A
oposição entre esses tipos se manifesta exemplarmente naquela que se pode
observar entre o vivo e o profundo. O espírito vivo é o das pessoas do mundo,
enquanto o espírito profundo lhes parece tenebroso. Ora, entre as pessoas
dotadas do espírito profundo também existe desentendimento. Agora, porém, esse
conflito é positivo, já que permite que se libere a criatividade. A poesia, por
exemplo, não permite acordo, manifestando estados de alma irredutíveis a
outros, o lirismo sendo a expressão do que é mais subjetivo, mais original. É
interessante aproximar essa visão valorativa da originalidade inerente ao
subjetivo com o problema teórico literário da época, que consiste em inverter a
ordem de prioridade até então observada.
Vimos que nesse
momento ocorre uma recolocação da perspectiva histórica sobre a Antiguidade.
Assim, se o ideal artístico modelar do clássico havia sido a realização do
artifício pelo domínio da técnica, pelo conhecimento elaborado de princípios
cada vez mais desenvolvidos da arte, agora a intuição de uma Grécia
desvinculada de Roma, entre outros fatores, contribui para um novo culto da
originalidade poética, manifesta na oposição ao cuidado técnico e ao artifício.
Homero se torna valorizado aí onde só se utilizava Virgílio. Traduções de
Homero que tentam resgatar sua originalidade helênica, deslatinizando-o, marcam
a irredutibilidade dessa perspectiva. Enquanto as traduções de Dubois , de
1777, ainda são clássicas no sentido da ilustração, isto é, latinizadas, as de
Monti, Pindemonte e Cowper, no início do século XIX já são neoclássicas,
visando a originalidade sem artifício, mais poética do que induzida.
Creio que se pode
associar essa tendência à transformação da mentalidade, desde o modelo da
nobreza, para quem o conhecimento da tradição desempenha o papel de distintivo
de classe ao passo que a realização técnica implica na espessura com relação ao
natural ou vulgar, numa mentalidade burguesa onde o talento deve sempre ter
algo da espontaneidade, do inesperado, logo, do popular. A teoria literária da
época procurava explicar o talento de Homero pelo fato de não ter tido modelos,
conforme as Conjectures on original composition de Young (1769).
Converge aqui aquela pretensão da posse de uma sabedoria originária. Ocorre que
se originária, essa sabedoria pertence à humanidade, não a uma classe ou a um
saber técnico, isso que agora aparece como que acrescido ao essencial que
cumpre resgatar. Temos assim algo que funciona nessa operação de hegemonia que
inspira a Revolução.
Ora, a teoria dos
tipos de espírito de Vauvenargues assinala, a despeito de sua valorização do
conjunto, a irredutibilidade não apenas entre os tipos, mas também no interior
de cada espírito, em relação ao todo. A parcialidade é um traço do espírito
existente, enquanto que a tendência ao conjunto é apenas uma aspiração
abstrata. Assim, a via extensa, que a tudo quer abarcar, como a enciclopédica
ou o cidadão simples que pensa poder saber um pouco de tudo, só atinge o
superficial de cada coisa, enquanto que a via estreita, que se especializa em
seu objeto, tem o mérito de desenvolver a real potencialidade do espírito. “Muitos
objetos confundem a vista”, é a citação de Vauvenargues que Bréhier prefere
selecionar, enquanto Carpeaux evidencia aquela que traduz sua confiança
estóica: “A razão nos engana mais frequentemente que a natureza”. Ocorre que
esse estoicismo parece bem transformado, já que separa razão e natureza, de
modo que Carpeaux acrescenta: “Os grandes pensamentos vêm do coração”.
A tese de Vauvenargues
é frontalmente oposta à de Helvétius: em vez de igualdade de inteligências,
trata-se de compreender o fenômeno do gênio, que ele explica como sendo aquele
que combina os tipos de espírito habitualmente incompatíveis, por exemplo, a
tendência filosófica à tendência poética. Descartes e Pascal, filósofos dotados
de imaginação, Racine e Moliére, poetas dotados de um juízo firme. A unidade do
espírito é uma exceção muito rara, não o ponto de partida do espírito ou o que
é popular, comum a todos, a maioria estando votada à parcialidade. O gênio é,
pois, irredutível ao método.
Vauvenargues lembra
Spinoza, pois afirma a paixão como ideal da potência, o que o faz também algo
próximo de Nietzsche. A paixão tem sua origem no sentimento de potência que se
deseja aumentar, e assim a alegria é a fonte do sentimento comum de potência,
ao passo que o sentimento melancólico ou a inquietação se relaciona à pequenez
e à sujeição que se deseja evitar. Bréhier situa aqui uma aguda crítica de
Vauvenargues ao estoicismo, enquanto Carpeaux observa que nele, o conceito de
instinto relança a doutrina estóica da matéria informada, do Logos
Spermatikós, as sementes da forma implícitas na matéria.
A crítica de
Vauvenargues, que Bréhier estende ao estoicismo, é aquela que se pode
reencontrar em Nietzsche ou Spinoza, de uma vontade “livre” , como querer puro
ou arbítrio. Trata-se, inversamente, em Vauvenargues, de vontade sempre já
determinada pela paixão, de modo que não tem sentido propor moderação ou
continência a alguém dominado pelo apetite, ou mesmo propor o egoísmo como
fundamento humano, de modo semelhante a La Rochefoucauld, pois a paixão não se
limita por algum amor próprio, procurando seu objeto no exterior e conforme sua
intensidade pouco se importando com a própria comodidade ou segurança. Bréhier
aproxima expressamente essa doutrina daquela que Nietzsche saberá conceituar
através da Vontade de Potência. A virtude como limite da paixão se determina
apenas pelo interesse social, o que não deixa de ser útil à conservação dos
seres humanos particulares. Vemos assim que a teoria de Vauvenargues conduz a
uma valoração moral que não tem por critério a virtude, mas a grandeza da
paixão ou da alma capaz de experimentá-la.
Ora, o que Bréhier
deduz dessa teoria do espírito é sua comunidade de intenções, o que podemos,
creio, designar como solidariedade ao a priori epistêmico, em relação àquilo de
que se pode ver também a expressão na hipótese da estátua de Condillac e
Bonnet. Trata-se em todo caso de criticar a pretensão de uma razão natural, que
por si se direciona a uma ordem transcendente, conforme uma visão teleológica
da natureza. A ordem agora é imanente ao ser, logo o herói de Vauvenargues,
como o gênio do cenário pré-romântico, é aquele que reduziu a parcialidade, o acréscimo
de toda “cultura”, é aquele que se deu por regra não observar outra fidelidade
que não seja ao seu espírito, à sua paixão dominante. Nesse sentido há
concordância entre Bréhier e Carpeaux, já que essa perspectiva de Bréhier não
parece contradizer o diagnóstico de “sentimentalismo subversivo” a essa
tendência “heróica”que Carpeaux estende também a Galiani e Lichtenberg.
Creio que, não
obstante a solidariedade fundamental ao a priori epistêmico não ter sido
seriamente contestado ainda assim, parece ser legítimo observar nessa tendência
à valorização do instinto, também afirmada em Diderot, uma deriva em relação ao
que é mais característico do século, algo que também ocorre em Helvétius, se
bem que por razões opostas, como vimos. No entanto, qualquer que seja a margem
de contracorrente que se possa vislumbrar assim, essas tendências algo
desviantes serviram bem à ambiência do século, sendo assimiladas na operação de
hegemonia burguesa, de um modo ou de outro. Mais geralmente, parece que a razão
de sua incomensurabilidade é o fato de ter apresentado respostas singulares a
questões que permanecem comuns à época como um todo, o que não reduz a sua
originalidade ou a margem de oposição que representam.
Mas como compreender
essa singularidade? Vimos que as teorias do espírito devem estender sob esse
termo uma variedade de significações a que se relaciona o modo de exercê-las.
Em comum, a desvinculação do conceito de sua dependência da perspectiva
dualista. O espaço do século XVIII, ainda que permanecendo clássico, já não se
confunde com o do barroco, lá onde a linha nítida separava cartesianamente os
dois domínios da matéria e do espírito. Uma vez isso estabelecido temos ora uma
análise, ore uma história, ora uma psicologia
Mas cada uma dessas
vias pode abrigar bifurcações. Assim a análise e a história são do espírito
principalmente enquanto funcionamento intelectual (Condillac, Voltaire). A
psicologia pode ser desse funcionamento intelectual ou de algo que abrange mais
o sentido de personalidade (Bonnet, Vauvenargues). Mesmo no plano intelectual a
psicologia pode se desenvolver como observação interna ou física da
sensibilidade (Bonnet, Hartley, La Mettrie, Holbach). Quanto à psicologia como
descrição da personalidade ou do modo de ser, ora temos a vinculação com a
sociedade (Helvétius), ora uma compreensão da origem a partir dos instintos
(Galiani, Vauvenargues, Lichtenstein). Ora, a quebra se verifica no interior da
psicologia como descrição da personalidade.
Ela se impõe ora como
transformação no regime da visibilidade da representação, ora no modo de
relação entre domínios de representação. Como a evidenciação do instinto é a
obscuridade, o inconsciente é aquilo que não se instaura no espaço pleno do
representável – nem como relação significável enquanto virtude eficaz, nem como
apreensão nomeável do dado primeiro ou mais básico – mas aponta para uma
relação que é do interior com algo ainda mais interior, pré-significativo, o
que se torna importante. Helvétius subverte a relação entre os domínios
teóricos. A tarefa de descrever esse particular como a imagem possível de
fundação ou justificação do geral pertencia à teoria do espírito enquanto o
geral já devidamente erigido em caução do particular autônomo deveria se
representar em sua localização própria, a teoria política. No máximo entre
ambos a teoria da moral poderia moldar a pertença do particular ao geral, uma
vez já estabelecido o papel desse geral. Helvétius, inversamente, confunde os
dois domínios, colocando na fundação da autonomia a generalidade dos costumes.
Creio que se pode observar assim o mesmo deslocamento constitutivo da ruptura
com o espaço clássico que se enuncia com Smith, Jones ou Jussieu.
Contudo, o que
assinala o fato de que mesmo assim ainda não se inaugurou o espaço epistêmico
da contemporaneidade, é isso que funda a possibilidade de reinserção de toda
análise ou mesmo Ideologia no âmbito de uma psicologia – enquanto o que
instaura a ruptura máxima é a história, conforme Foucault, no momento em que a
história se tornar aquela do tempo interior, tempo de uma organização que se
desenvolve conforme suas leis imanentes. Com Bonnet já podemos observar a
transição entre a exigência da análise à psicologia, pois nele a própria
psicologia se torna subjacente a uma interrogação mais fundamental, tarefa de
uma história da alma, encontrar o mais essencial à sensação mesma, o ato
fundador de toda representação possível.
Assim, no interior da teoria do espírito vemos que o mais característico do século, as hipóteses do homem– máquina, de uma análise como seccionamento a partir de um protótipo ou estátua, de uma física da sensação, se defronta com esses sintomas de uma ruptura: a obscuridade do inconsciente, a interdependência do social aí onde só se devia apreender o natural, a interrogação sobre o ato originário do espírito, como tal independente do dado. É lá onde a análise se redobra na psicologia, que se apreende o clássico no que apresenta de mais genuíno. Mas é lá onde a psicologia se subverte, no sentido de uma história, que se apreende o ponto de ruptura.
3)
É no âmbito das
teorias de moral que o desnível do século XVIII em relação ao clássico, sua
vocação subversiva, mais se evidencia. Com efeito, as teorias da moral desse
período podem ser observadas a partir de dois deslocamentos fundamentais.
Aquele que desvia o problema ético da Razão para a temática da Paixão, o que
abrange a gradação: a) da moral do interesse, nobre e conservadora; b) ao élan
humanista e revolucionário; e c) ao utilitarismo pós-revolucionário do Império
e da organização do republicanismo. E aquele que desvia a questão da Verdade à
função da Mentira, deslocamento que será essencial na inserção do problema
ético do conhecimento que só pode se propor a partir dessa época, e só se pode
compreender, mesmo na sua formulação contemporânea, no enfoque que recupera a
formulação desse problema assim como surge nesse período.
Vimos como Descartes
já havia estabelecido uma espécie de função da paixão na economia da
conservação do ser humano. Também em Descartes já se encontra uma afirmação dos
direitos do pensamento contra a autoridade. Bréhier sublinha com ênfase o
engano que reside na derivação dessa afirmação como fundadora do que se
estabelece no século XVIII. Penso que o mesmo engano se poderia verificar
quanto ao tema da paixão.
O deslocamento
essencial quanto à independência ou autonomia do pensar, conforme Bréhier, está
em que agora as regras do pensamento e da ação são visadas como dependendo
apenas do núcleo mesmo da experiência mais pessoal, que juntamente ao raciocínio
próprio fará o papel de juiz em última instância, sem necessidade de mais
garantias. É devido ao seu esforço que o ser humano deve emergir do caos e
organizar sua ciência e sua ação.
Aqui Bréhier estende
as duas vias contrastantes, a partir desse princípio comum. Há por um lado “o
século incrédulo”, que debocha de todo finalismo, enquanto “o século crente”,
com reserva, trata os desígnios de Deus. No entanto, esse finalismo assegurado
pela crença é bem outro, em relação àquela inabalável coesão do século XVII,
garantida pelo Deus dos filósofos. É como que em uma cumplicidade de Deus, que
vem mesmo a se tornar a simples natureza dos sistemas materialistas.
Em todo caso, é a
autoridade transcendente, seja a Igreja ou o rei, as idéias inatas ou a razão
humana, que agora aparece como não mais que arbítrio, estratagema de sacerdotes
e políticos, pré-conceitos de filósofos. A natureza só se apresenta, em sua
potência ordenadora, a uma observação sem pré-julgamentos. Bolinbroke descreve
a visão desse Deus do século XVIII: monarca à inglesa, agindo conforme a
conveniência que resulta da natureza das coisas, limitado pelas regras que sua
sabedoria infinita prescreve aos eu poder infinito.
O deísmo trata de
estabelecer, a partir dessa visão de Deus, as consequências para o ser humano:
Deus criador de uma ordem na qual não se observa vestígio de livre arbítrio nem
drama da redenção. Ora, a moral do sentimento deve procurar então, no interior
do ser humano, essa ordem de vivência e coexistência que articula o seu modo
mesmo de ser. Inclinações sociais naturais, estabelecidas pela providência, que
são, para cada espécie animal, dirigidas ao bem da espécie, mantendo assim a
harmonia perfeita da ordem do Universo. Observa-se aqui a tendência a inserir a
ciência do homem como uma ciência ao mesmo tempo natural. Shaftesbury, bem no
início do século, introduz essa exigência de um “senso moral” do ser humano,
que lhe faz conhecer o que é o bem e o mal. Hutcheson prossegue a via de
Shaftesbury , encarregando-se da tarefa de fornecer as provas desse senso moral
inato que não pressupõe, contudo, nenhuma idéia inata.
Hutcheson deriva a
evidência da existência do senso moral a partir do julgamento desinteressado
que portamos sobre pessoas que desempenham certas ações. Ele funda, portanto,
nossa avaliação humana, pois esse julgamento não insere apenas um juízo de
valor na sua positividade, mas se relaciona à estimativa do valor humano da
ação: sem o que alguém que mora num país distante poderia usufruir da mesma
admiração que concedemos às montanhas de um lugar longínquo, um animal seria
tão estimado como uma pessoa.
As idéias que derivam
do senso moral, como a noção de honra, não podem ser creditadas à influência de
uma doutrina religiosa, pois elas se presentificam mesmo sem conhecimento de um
ser supremo ou da espera de suas recompensas. Nem mesmo o bem social lhe é
anterior, pois alguém que faz bem ao nosso país, mas falta com seu dever com
relação ao seu próprio, nos parece condenável. O senso moral tem por objeto uma
virtude efetivamente existente naquele em quem a estimamos, não apenas
atribuída por nós mesmos.
Bréhier observa com
precisão o decisivo quanto aos efeitos da teoria. Quando Diderot traduz
Shaftesbury, em 1745, estabelece que o escopo dessa moral é mostrar “que a
virtude é quase indivisivelmente ligada ao conhecimento de Deus e que a
felicidade temporal do homem é inseparável da virtude”. Bréhier nota que nessa
frase “a segunda oração torna o primeira inútil”. A felicidade não depende do
acesso a uma doutrina interpretada, imposta, mas do auto-conhecimento.
A doutrina do senso
moral de Shaftesbury se baseia, nversamente a uma visão “hobessiana” do ser
humano como essencialmente egoísta, aproximando-se mais de Locke, no
pressuposto de uma boa vontade natural do ser humano para com os outros. Assim
é que a felicidade é acessível ao ser humano a partir do auto-conhecimento,
independente de todo constrangimento externo. Ora, Hobbes havia relacionado
expressamente o egoísmo natural do ser humano a uma necessidade de
constrangimento externo a fim de que se pudesse induzir alguém a agir
virtuosamente. Esse postulado de Hobbes se vê mais severamente contradito pela
perspectiva de Mandeville.
É interessante
observar que Hobbes estabelece um estado de natureza que se torna
insatisfatório a partir da limitação que os seres humanos se impõem uns aos
outros, isto é, pressupondo-se fundamentalmente não o egoísmo assim como pode
ser concebido já na relação estabelecida entre seres, em sociedade, mas o
absoluto do ser enquanto ser. Assim, penso que Hobbes não está postulando que o
ser humano é naturalmente mau, mas que o mal e o bem só se podem estipular na
inter-relação social. Contudo, é plenamente aceitável mostrar que a partir
dessa espessura entre o em si e o para os outros a virtude surge como resultado
forçado de um jogo de interesses, o bem como o reverso do mal que a sociedade
conjura no ato mesmo em que a coexistência se impõe.
Mandeville introduz,
nesse contexto em que a questão porta sobre o bem ou o mal como fundamentais ao
ser humano, a mesma deformação na interpretação de Hobbes como afirmando um
egoísmo ou maldade inerente à espécie humana. No entanto, imbuído da convicção
do século de uma harmonia providencial inscrita no coração da natureza, vai
estipular esse egoísmo, essa maldade, como um bem na ordem das conveniências
ulteriores, de modo que a virtude, se deve ainda a um constrangimento bem pouco
virtuoso, mas interior. Assim as paixões e mesmo os vícios, o egoísmo, a
vaidade, fornecem o fundamento das atividades comercial e industrial, que
poderiam ser completamente supérfluas numa ordem inteiramente moral e ascética
da existência. Ordem abstrata, sem dúvida, apenas pensável ou hipocritamente
postulável, já que o ser humano efetivo não dispensa essas afecções.
Mandeville não
considera um meio termo entre o ascetismo e o luxo. Para ele, seja o que for
que não caiba na mais severa ordem ascética é sensualidade, inclinação viciosa,
que a providência soube conjugar numa ordem social apta a transformar a cupidez
pessoal em empresa lucrativa, organização do Status Quo. Ora, se os atos
aparentemente desinteressados do ser humano particular, como o devotamento à
pátria, só se obtém pela habilidade de um legislador, o que essa habilidade põe
em ação é apenas uma paixão mais forte que as outras, nesse exemplo a vaidade,
que faz com que se desprezem os prazeres assim sacrificados. Em todo caso o que
constrange é uma paixão interior.
Bréhier destaca o que
o século reteve de Mandeville. Não o seu rigorismo, seu severo ascetismo, mas o
acordo perfeito entre o egoísmo natural e a utilidade social. Já Carpeaux
apresenta Mandeville como “inimigo da moral ascética”, encarregando-se de
liquidar os preconceitos econômicos feudais e cristãos. O maniqueísmo implícito
em sua visão moral transforma os dados da cisão antes estabelecida entre o bem
e o mal, de modo que o mal inextirpável do mundo se torna instrumento da
felicidade geral.
É interessante
observar a partição de Mandeville entre o particular e o geral. Não ocorre de
modo algum uma fundação do particular pelo geral. Mandeville está nos antípodas
de Kant. Mas, o que é próprio da época, a fundação do geral pelo particular, se
vê efetivada por uma operação inversa à co-extensividade costumeira pela qual é
a autonomia do particular que dá lugar à função de garantia do geral. Em
Mandeville, inversamente, é a deficiência do particular que se conjuga, a
despeito de si mesmo, numa ordem geral, como num lance surpreendente de um jogo
de equivalências. A sociedade, já totalmente concebida como atividade
empresarial lucrativa, não precisa sobrepor uma ação de natureza diversa, ela
resulta automaticamente de uma composição local levada ao infinito, por assim
expressar.
A inversão de meios
tem como correlato uma extrema coincidência de fins, pois trata-se de uma visão
moral que subentende a sociedade liberal na sua rigorosa definição: jogo livre
de todos os egoísmos, de que se supõe como resultado a mais perfeita harmonia.
Assim tanto Carpeaux quanto Bréhier destacam a relação a estabelecer entre
Mandeville e Adam Smith.
Na perspectiva de
Carpeaux , Mandeville antecipa o liberalismo econômico de Smith, enquanto
Bréhier se limita a atribuir a interpretação de Mandeville como asceta
rigoroso, à exposição de sua tese por Smith. No entanto, algo curioso ocorre no
modo como Bréhier articula a exposição desses dois pensadores, Mandeville e
Adam Smith. Com efeito, Mandeville figura logo no início do volume, sob a
rubrica “o deísmo e a moral do sentimento”. Mas sob essa rubrica se encontram
apenas Shaftesbury e Hutcheson, representando a teoria do senso moral inato, e
Mandeville, o apóstolo da harmonia pública pelos egoísmos particulares. Quando
se trata, bem mais à frente, já no segundo período do século, pós 1740, de
expor o pensamento de Adam Smith, arrolado como Hume e Vauvenargues sob a
rubrica “Teoria do espírito”, então o moralismo de Smith aparece como “sentimentalismo”,
e nos apercebemos que a moral do sentimento só agora se torna algo apresentado
de fato, como a etiqueta de uma filosofia, se bem que a exposição sobre Hume já
havia assinalado o alcance dessa afirmação da dependência de todo fato moral a
um sentimento de aprovação relacionado ao que se considera ser a virtude.
Mas após o
desenvolvimento desse sentimentalismo, em que o sentimento de aprovação de Hume
se estende, com Smith, a um princípio de simpatia, comunhão de sentimentos que
se torna moral uma vez que essa simpatia não supõe nenhum interesse, Bréhier
mostra que Smith, “em economia política”, afirma o jogo de egoísmos que basta, se
permanece livre da interferência dos poderes governamentais, para figurar como
fator do incremento das riquezas da nação, o que sem dúvida, ainda que não
expresso, força a lembrar a Fable de Mandeville.
Creio não haver
dúvida quanto à conexão da Fable of the Bees de Mandeville (1723) com o
liberalismo. No entanto, o que se deve resgatar aqui é a conexão desse modo de
ver a harmonia como resultante de um equilíbrio negativo e aquela moral do
interesse cujo representante seria La Rochefoucauld, cujo compromisso político
não tem a ver com o liberalismo burguês, mas com a perspectiva da nobreza. Por
esse viés poderemos compreender o percurso de Mandeville a Adam Smith.
A ambiência de La
Rochefoucauld é anterior, suas Máximas tendo sido publicadas em
meados do século XVII. Ora, nessa época ocorrem processos importantes,
envolvendo, por um lado, a evolução do pensamento religioso, por outro, a
transformação da nobreza, do frondeur ao cortesão. Observando os dois processos
podemos compreender como confluem na operação da hegemonia, em curso no século
XVIII.
Vimos anteriormente o
problema bem século XVII, a querela envolvendo jesuítas e jansenistas. Aqui
será oportuno reter algo do cerne dessa controvérsia, naquilo em que ela
envolve também o plano literário.
Os jesuítas, de quem
a moral de Descartes conserva alguns traços, não conceituam o problema moral em
termos de razão versus paixões, mas de conflito entre vontade e paixão, isto é,
entre vontades contrastantes que, no interior do mesmo ser humano, batalham pela
supremacia que reverterá na ação escolhida. Entre os jesuítas as paixões são as
vontades a subjugar, a Vontade é a firme convicção orientada pela fé, pelo
conhecimento revelado da virtude, mas ela nada seria sem o auxílio sobrenatural
da Graça. A questão jesuítica será então uma disciplina da vontade contando com
a graça, de modo que não resulta uma moral severa, mas um ideal de comedimento,
de justo meio na apreciação das coisas do mundo, restando o otimismo da
intervenção, que se espera, da Graça, a partir do exercício cultivado de nosso
livre arbítrio.
O jansenismo, que se
tipifica de um modo ou outro com Pascal, isto é, mesmo se posteriormente Pascal
pareça ter superado a fase polêmica das letttres provinciales, é uma
doutrina que substitui a Graça pela Predestinação. Todos igualmente
predestinados à queda, alguns à salvação, não se tendo como saber quem é ou não
eleito, resta apenas a via do ascetismo mais extremo, independente da “recompensa”
ou salvação. Sem dúvida aqui a moral porta sobre a decisão racional, já que é
ela que aponta a via ascética e que se responsabiliza pela constância aí. O
sentido probabilista da aposta de Pascal, cremos em Deus, pois apostar na sua
existência só redunda em vantagens, restando que as probabilidades o apóiam, já
mostra a via racional dessa atitude ascética, que não conta, por outro lado,
com a possibilidade. Havendo ou não a salvação e mesmo a graça, a via de
conduta já está de antemão assegurada como a mais fundamentada, dadas as
circunstâncias da condição humana. A influência do jansenismo não elide a
penumbra das meditações, a crise perante a consciência da queda, da destinação
humana ao pecado. Mas elege a via esclarecida da imperturbável escolha de ter
feito o melhor.
Carpeaux tipifica o
contraste entre essas duas correntes de religiosidade que agitam o século XVII
através de uma confrontação de Corneille e Racine, acentuando assim o fato de
que a cisão se opera no interior de um mesmo mundo, aquele do classicismo
francês. Em todo caso esses autores deslocam a representação clássica
renascentista por localizar o drama não mais na exterioridade do mito mas na
interioridade psicológica de que o mito ou a história poderiam fornecer agora
apenas o contexto, a cena.
Corneille não encena
o conflito da razão contra a paixão, mas entre vontades no interior dos
personagens ou na exterioridade política. O anacronismo das peças, sempre
representadas com a mesmas roupagens, o mesmo palácio no fundo da cena, e até o
mesma retórica, a linguagem sempre igual de gregos e romanos, não impede que
Corneille tenha sido considerado “grande historiador” por um contemporâneo,
Saint – Evremond. Trata-se da mesma motivação do teatro jesuítico colonial, a
crença numa História ideal, que se repete em todos os tempos: em Corneille, a
captação do conflito entre vontades e paixões políticas, assim como a Antiguidade
pode ter plasmado as formas, como já se propôs a história de Roma fosse o
arquétipo histórico de todas as civilizações. Mas, e mais geralmente, a
evolução do conflito interior como educação da vontade pela intervenção da
Graça que conduz infalivelmente à conversão. Corneille não apresenta os seres
humanos como devem ser, conforme se supôs, mas sim como gostariam de ser – o
teatro jesuítico como súmula do sonho humano universal.
Em contraposição, o
teatro de Racine já não é o do conflito, mas o da crise. Aqui a ambiência é
jansenista e mais próxima de Eurípedes do que de Roma ou mesmo da Grécia de
Sófocles, que a latinização da Antiguidade havia imposto no classicismo, até
então, como única alternativa grega ao Sêneca romano.
Racine encena a crise
psicológica diante do mal radical, a condição do ser humano predestinado ao
pecado. Carpeaux o designa “poeta do lado noturno da alma”, das paixões
mórbidas, perversas. Mas o que Racine pinta no palco são retratos de
personagens, por isso ocorre caracterizá-lo pelo seu naturalismo ou realismo. A
inserção histórica já não tem muito sentido, o importante agora sendo a
peripécia que deixa ao personagem todo o peso do espaço no palco. A crise psicológica
não depende do mito ou da situação política, ela se desenrola no ambiente
familiar, interiorizando a universalidade da predestinação. Bem inversamente à
motivação jesuítica, exteriorizável pela simpatia de um percurso a realizar, do
conflito à conversão, e assim bastante aplicável à missão de colonização, a
crise da cena em Racine se limita por uma ambientação familiar que ressalta a
confluência das linhas do Destino, conduzindo irresistivelmente a paixões
contra as quais nada pode a vontade. É´ dessa consternação que se abre a
perspectiva da reflexão, da expiação, típica via jansenista da ascese.
Ora, Carpeaux situa,
entre Corneille e Racine, entre a História e o Retrato, entre Roma e Grécia, a
via de La Rochefoucauld, como aquela dos “moralistes”, observadores do
comportamento humano que criam não apenas “portraits”, mas também “maximes”
e “réflexions”. Aqui, porém, se impõe a constatação de que a leitura
desse volume sobre o século XVII permite localizar um desnível essencial entre
a razão de ser dessa via, aparentemente do meio, e aqueles dois extremos.
Com efeito, a razão
de ser daquela cisão religiosa é comum a ambas as soluções apontadas, a saber,
a universalidade do gênero humano, a abertura que a perspectiva cristã
subentende do ser humano ao outro, e assim as linhas do destino, por mais
irredutível que ele seja, sempre entrelaçam um ser para outro, na interioridade
das relações familiares, do mesmo modo que os conflitos da História se
desenrolam na exterioridade do Mundo como interdependência dos tipos. Assim,
essas duas vias, a jesuítica e a jansenista, se complementam, no panorama do
século XVII, por uma importante corrente que vem se desenvolvendo desde a
ruptura com o estado de coisas tipicamente feudal. É a via da Igreja
Espiritual, que reúne a doutrina de Joaquim de Fiori, o anúncio da realização
da felicidade terrestre, francamente oposta à tradição agostiniana que só
situava a felicidade na Cidade Celeste, de modo algum no mundo da matéria, mas
também o erasminianismo.
Essa corrente religiosa
se recupera ainda no pré-romantismo, através da influência de Jacob Boehme, e
desempenha um papel histórico importante já que, afirmando a identidade
universal do ser humano e de sua espiritualidade, atua entre as seitas,
denominações ou mesmo religiões oficiais as mais opostas, como catolicismo e
protestantismo, sendo o seu desígnio a integração de um cristianismo
originário, o qual estaria na base dessa promessa de realização da felicidade
no mundo. Essa atuação permite como que um intercâmbio espiritual entre
perspectivas que se desenvolvem no interior de regiões de outro modo destinadas
a um isolamento completo, devido à irredutibilidade de suas opções oficiais.
No entanto, a moral
subjacente às máximas de La Rochefoucauld não se compreende no interior desse
processo religioso, pelo qual o jesuitismo da contra-reforma está sendo
contraditado por uma mentalidade mais “moderna”, a jansenista, mais próxima
daquela que se expande a partir das perspectivas protestante ou calvinista,
envolvendo a célebre proposição de Max Weber entre a conveniência dessa visão e
o espírito do capitalismo desenvolvendo-se nessa época rumo à Revolução
Industrial e ao triunfo da burguesia. Assim, podemos ver nessa problemática
religiosa, de que a Igreja Espiritual sintetiza a aspiração universalista,
liberta de todo constrangimento parcial, dogmático, como da autoridade “feudal”
, uma ambientação tipicamente burguesa.
Já a ambientação dos
moralistas, que estendem seu polimorfismo expressivo às “memórias”, à
epistolografia e mesmo ao romance, se estabelece no interior do processo que
nessa época atinge a nobreza. Assim, o tipo que se insere como momento
inaugural nessa linha é o Cardeal de Retz, chefe da revolução da Fronde que
havia tentado subverter o absolutismo em proveito da nobreza, enquanto que a
evolução abrange La Rochefoucauld e Madame de La Fayette, ele frondeur de
juventude, ela aristocrata plenamente contextualizada no ambiente cortesão.
A transformação que
informa a nobreza é, portanto, do frondeur guerreiro, de uma solene
independência, ao cortesão literato, dependente do Rei mas senhor dos seus
privilégios. O adeus às armas se converte na dedicação ao estudo, à observação
psicológica de si mesmo e dos outros. Ora, a razão de ser que estabelece essa
consciência de condição da nobreza não pode ser um universalismo, mas bem
inversamente, um agudo senso de diferenças, de hierarquia social, de espessura
entre os seres.
O egoísmo se torna
assim o cerne dessa razão de ser, como modo fundamental do ser irredutível ao
outro. A mais célebre máxima de La Rochefoucauld, “nossas virtudes, o mais frequentemente,
não são mais que vícios disfarçados”, se fundamenta pela convicção de que “os
vícios entram na composição das virtudes como os venenos entram na composição
dos remédios”. Carpeaux aproxima essa visão, tão oposta pela origem, àquela dos
jansenistas: pessimismo incurável, conceito da natureza humana como
profundamente corrupta. Mas o que faz de La Rochefoucauld um anti-Pascal é que
ele, não sendo cristão, não procura uma via ascética que deixa à Providência o
arbítrio da salvação. Inversamente, trata-se de agir de modo a alcançar o maior
proveito, o que esse conhecimento do ser assim das coisas tanto mais favorece.
Essa moral do
interesse é fundamentada por uma visão do ser humano como basicamente egóico,
voltado a si, o que se torna bastante coerente como perspectiva de uma nobreza
que deve justificar, num panorama de côrte, não mais de castelo feudal, a
consciência de sua própria singularidade. Esse tema é importante. Uma das
vertentes filosófico-literárias que se desenvolvem, de modo algo subterrâneo,
por todo esse período, até Nietzsche, se relaciona a ele. Trata-se da recusa do
processo de aburguesamento, no caso da nobreza, mas mais geralmente, da recusa
do processo de equalização dos seres humanos, processo esse tipificado pela
formação do particular autônomo, esse “privado” que justifica o público para
mais tarde ser ele mesmo constituído como tal na legalidade desse público. Como
numa cena do Wall de Pink Floyd, o trem está cheio de bonecos mascarados, a
mesma máscara para todos os bonecos, de modo que o personagem, o ser humano,
vivencia uma crise de identidade, pois não há como encontrar no exterior a
reflexão ou aceitação do seu próprio ser enquanto singular.
Assim essa recusa não
poderia ser aplatada como apenas um conflito de classe, desaparecendo após o
triunfo burguês. Sua expressão inicial sem dúvida se insere nesse conflito, mas
as consequências da decisão que conduziu a Ocidentalização na via da industrialização
e da tecnologia, logo da racionalização niveladora de toda sensibilidade,
desbordam o problema da injustiça de classe, só tendendo a se agravar no
desenvolvimento do processo A desigualdade social é injusta, mas o correlato
não precisa ser que toda desigualdade é injusta, ou que todos os seres humanos,
sendo iguais por seu direito à existência, precisam ser igualados por sua
constituição fundamental. E mesmo a injustiça social, na perspectiva da
nobreza, comportava agora um alcance cultural não negligenciável, pois se
traduzia pela convicção quase iniciática de uma pertença espiritual superior.
Assim, a transição de
La Rochefoucauld a Madame de La Fayette se expressa pelo deslocamento da noção
de virtude nobre. Em vez de resultar, como uma composição, dos vícios, ela se
constitui por um sentimento, a honra. O seu La princesse de clèves é
considerado por Carpeaux como o pioneiro exemplar do gênero Romance
psicológico. Ora, o sucesso do gênero não se mede pelo isolamento dessa obra
pioneira, ainda no século XVII. O que se pode já compreender pelo fato de que a
ambientação ideológica aqui ainda pertence ao mundo da nobreza, enquanto que
esse sucesso estará relacionado à transposição do gênero ao grande público
burguês.
Ainda no contexto
problemático da nobreza de corte, oriunda da mentalidade da Fronde e convertida
em produtora cultural de gêneros destinados, ironicamente, a fomentar a
operação da hegemonia burguesa, localiza-se o Temple, reduto dos Libertins,
epicureus materialistas que professam uma ideologia à La Rochefoucauld:
Saint-Evremond, Theophile de Viaux, Cyrano de Bergerac, La Fontaine, e mesmo
Moliére, esse “burguês culto de Paris”, o que se compreende pelo vínculo da
alta burguesia e nobreza, nessa época a operação de hegemonia ainda não sendo
algo viável mas estando a pressão social que a impõe contornada pelas alianças
de sangue, os casamentos de conveniência com nobres, e as titulações
meritórias, isto é, compradas quando não cedidas pela autoridade real. Em todo
caso, a superioridade cultural da nobreza ainda é um fato de ordem “espiritual”,
isto é, assimilado como solidariedade ao Status Quo que o vínculo Rei-Burguesia
não está interessado em romper.
O que muda
consideravelmente no século XVIII é esse interesse, que deixa cada vez mais de
ter sentido no ambiente de crescente açambarcamento da produção pelo capital,
logo de crescente autonomia desse mesmo capital. Surge assim o espaço, a
oportunidade mesma, da efetiva operação de hegemonia.
Ora, no início do
século XVIII Carpeaux assinala a emergência de um gênero jornalístico destinado
ao grande público burguês, esse novo personagem na cena cultural, cuja entrada
se pode relacionar com vários fatores, entre os quais a concentração da
população nas cidades e a crescente penetração da escolarização das classes
médias. São os semanários morais, que se publicam em vários países, Inglaterra
(The spectador) , França (Le spectateur français, Le pour e le
contre), Holanda (Hollandsche spectator), Suécia (Svenska argus),
Alemanha (Vernuenftler, Patriot), Suíça (Discourse der Mathlern),
Dinamarca (Nordischer aufseher) e Itália (Gazzeta veneta, Osservatore
veneto). A observação da evolução desse gênero, confluindo com aquelas do
romance e do libertinismo, esclarecerá bastante tanto o desenvolvimento da
moral do sentimento quanto a operação da hegemonia que conduziu à Revolução.
Os semanários
veiculavam a ideologia do chevalier, elegante e espirituoso, ao grande
público. Nesse estilo funcionou como revista, misturando crônica de
acontecimentos mundanos, política, problemas de vida doméstica com objetivo
educativo e moral, literatura e crítica literária.
Em torno do tipo
dominante, o cavalheiro classicista, se tecem as variações que comportam a
adaptação dessa ideologia de côrte e de salão às classes médias do público
burguês. Assim, um dos modos de veiculação do semanário consistia em tratá-lo
como uma espécie de folhetim, com personagens fixos abordando os assuntos em
tela. Mas também se encontra a evolução do gênero ao formato “jornalístico”
costumeiro, ainda que os artigos tenham mais a feição textual de expressão da
opinião própria ou perspectiva sobre o tema do que a de notícias, “impessoalmente”
narrando acontecimentos quaisquer.
Contudo, o importante
é reter que esse cavalheiro classicista conserva do nobre apenas o tipo “espiritual”.
Assim, desde que seja educado e fino, ele tanto pode ser um próspero navegador
ocupado com negócios nas colônias, quanto banqueiro ou comerciante. A virtude é
que confere a “nobreza”, e as opiniões pessoais veiculadas como pertencendo a
estes personagens manifestam a probidade e a retidão de seus julgamentos. Ora,
surge assim um novo ideal, o do gentleman burguês. O que faculta a sua
aceitação, pois sua prosperidade já não choca, é uma transformação correlata no
âmbito da religiosidade, em curso no século XVIII.
Vimos que o século
XVII foi palco da polêmica acerca do jansenismo. Em comum havia a mesma recusa,
de jansenistas e jesuístas, da perspectiva do ganho material, a atividade
lucrativa, comercial ou bancária, como meritória. Assim o domínio “espiritual”,
isto é, cultural, da nobreza era garantido por todos os meios, ao mesmo tempo
detendo o monopólio do saber e a legitimidade da superioridade de classe, pois
sua renda não provinha dessas atividades até então consideradas pecaminosas ou
não virtuosas. Um comerciante ou banqueiro cristão, nesse período, seria algo
espantoso aos olhos da população religiosa, pois a mentalidade geral separava
totalmente atividades lucrativas e honestidade cristã.
Agora, no século XVIII,
o que os semanários morais veiculam é uma ideologia completamente transformada,
apoiada pela mutação nos círculos do calvinismo e mesmo do luteranismo, pela
qual a graça se manifesta pela prosperidade. O que integra a atividade
lucrativa na vida espiritual, pois o que ela busca é a confirmação dos frutos
da fé e da eleição de Deus pela bem-aventurança material. Compreender essa
transição nos meios religiosos não é algo tão complexo, pois os países que
adotam o protestantismo, particularmente o luteranismo, praticam uma estrita
separação entre a atividade da igreja e a administração pública.
Carpeaux registra uma
consequência desse panorama na Alemanha, onde o mesmo intelectual aguerrido e
revolucionário na universidade é o conformista votado à ortodoxia nos bancos da
igreja. E quanto a isso torna-se inevitável a referência a Weber, com sua tese
sobre a religiosidade calvinista, ascética e industriosa, vendo no lucro o
retorno merecido do trabalho e a confirmação da eleição ou do favor de Deus,
como força propulsora do capitalismo. Carpeaux relativiza essa conclusão.
Poderia bem ser afirmado que foi a mentalidade capitalista que se apoderou,
como de um instrumento, do espírito calvinista atenuando-o a fim de obter
sanção religiosa a objetivos econômicos.
Em todo caso a
transformação da mentalidade se tipifica, conforme Carpeaux, no caso de Maffei,
historiador de Verona, jansenista que protesta contra a censura dos dominicanos
ao empréstimo público, a juros, à cidade. Assim Carpeaux identifica na sua peça
Merope, lançada no início do século, o sinal do pioneiro escritor
completo da burguesia. E de modo significativo Carpeaux aproxima a exposição
sobre Maffei da que se desenvolve a propósito de Mandeville.
Com efeito, vemos em
Mandeville uma tranquila enunciação das atividades lucrativas como benéficas,
moralmente sancionadas, de modo que se tornam mesmo o padrão do bem moral não
atribuível a todo interesse particular. Nesse ponto encontra-se a mutação que
as teorias da moral do século XVIII enunciam. Poderíamos traçar um esquema
simplista, associando visões pessimistas como evoluções do jansenismo, se
burguesas, ou da moral do interesse, se nobres ou relacionadas ao libertinismo.
Assim teríamos Mandeville. E as visões otimistas, como a de um senso moral ou de
uma simpatia comum ao ser humano, de Shaftesbury a Adam Smith, teriam a ver com
o espírito do jesuitismo ou com o ideal da Igreja Espiritual. No entanto, tal
esquema, não comportando a transformação no interior da própria religiosidade,
não apreenderia o otimismo no interior do próprio pessimismo, pois já não se
fala em vícios privados sem se pensar nos benefícios públicos.
Aquilo para o que
essa transformação aponta pode ser rastreado na evolução da comédia. Aqui
Carpeaux evidencia que a comédia de caracteres e mesmo o teatro de Moliére,
ligados ao século XVII, deixa de apresentar interesse no século XVIII, que
prefere as comédias realistas e sociais que se iniciam com Dancourt. Ora, esse
teatro de caracteres se fazia para entretenimento do público nobre, enquanto a
comédia realista e social se faz para entreter o público burguês. O otimismo
subjacente aos enredos dessas peças está basicamente alicerçado na percepção de
que a sociedade, tendo se tornado móvel, oferece a oportunidade para a
realização pessoal e a ascensão social. Assim Carpeaux localiza no Gil Blas de
Santillane o pioneiro romance realista francês, publicado no início do século
XVIII por Lesage, autor profissional, não o tipo de aventureiro que está na
tradição do romance picaresco espanhol, como Alemán, ou o nobre de ação
política como Quevedo.
Concomitantemente a
essas transições do pessimismo barroco ao otimismo do século XVIII, no sentido
da avaliação moral do ser humano, e no âmbito da mentalidade religiosa, naquilo
que tange à valoração da mobilidade social, que podem ser relacionadas à
progressiva conquista da hegemonia pela burguesia, observa-se um deslocamento
semântico quanto ao libertinismo.
É só no início desse
século que o termo começa a significar algo como devassidão, até então
compreendendo o sentido de livre-pensamento. Ora, o próprio movimento dos
Libertins evolui. Carpeaux observa que enquanto esse movimento permanece
restrito aos nobres ele se desenvolve do cultivo abrangente de gêneros, que
inclui o teatro de Cyrano de Bergerac, a uma limitação à comédia de caracteres,
como Gresset, ou ao epigrama, como Piron, gêneros que deixam de ser atuantes
desde o sucesso da comédia realista. Mas se está se estabelecendo assim uma
partição entre o libertinismo livre-pensador do século XVII e esse libertinismo
amoralista, ainda nobre, do início do século XVIII, ocorre ainda um
libertinismo completamente novo no período revolucionário, mas agora de tipo
burguês, a transição sendo implementada pelo sentimentalismo .
Ora, o ideal do gentleman
reverte de certo modo a relação em que a moral, até então, se propõe no âmbito
cultural e social. Enquanto a nobreza é a detentora da hegemonia, que aqui está
se compreendendo como legitimidade de posição, não apenas posse de bens
materiais, a moral é consciência religiosa, de um lado, ou o que, como
contracorrente, a nobreza mesmo produz, por outro, em termos culturais,
expressando-se nos gêneros literários e no pensamento filosófico. A oposição
pode ser tão aguda, entre essas duas vertentes, quanto se pode avaliar entre
algo como o libertinismo e as profissões de fé cristãs. No entanto, é o mesmo
Status Quo do Ancien Regime que se mantém, num caso ou noutro, já que a
ideologia da igreja até o século XVIII não prevê mobilidade social, as classes
sendo mais ou menos como expressões da vontade de Deus.
Quando se trata de
transpor as formas culturais na linguagem da burguesia, aí onde a mobilidade
social é um fato que penetrou tão profundamente no modo de funcionamento da
sociedade que não se pode mais contorná-lo, a moral se torna, ela mesma, o que
permite identificar a ascendência de classe, não o produto de uma superioridade
de direito, por assim expressar, ou mesmo de natureza – se o nascimento nobre
ou plebeu é algo que Deus decide a cada um. Assim o sentimentalismo é, no plano
literário, ao mesmo tempo a transposição das formas da cultura na linguagem
burguesa e a transformação dessas formas em veículos de conscientização de uma
moral que os teóricos estão se encarregando de verter no domínio mundano, isso
de que antes se encarregava apenas a autoridade religiosa ou a filosofia para o
público letrado, até então, nobre.
Assim, enquanto a
comédia nobre de caracteres se converte, na transição entre o XVII e o XVIII,
na comédia realista de Dancourt, desde o início do século XVIII a comédia
obscena oriunda do mesmo panorama do libertinismo, se converte na comédia do
sentimentalismo, como em Steele, pondo em cena o mesmo tipo ideológico que
preside a consciência dos semanários morais e que estará também na base do
drama burguês e do romance psicológico, como os de Jane Austen. É o gentleman, “cordial
e firme, cristão sem hipocrisia, alegre sem excesso, sentimental sem fraqueza”,
conforme a expressão de Carpeaux, o ideal das classes médias, entre o
puritanismo, o calvinismo e o que virá a ser o novo catolicismo. Pela
universalidade dos gêneros que esse ideal como que fornece a sustentação,
pode-se ver o quanto ele se tornou universal na consciência da sociedade
burguesa. Na verdade ele fundamentou a operação da hegemonia, e desde que se
possa localizar o seu domínio, já se pode considerar essa operação realizada.
1789 não poderia ocorrer sem ele.
O que se pode
constatar confrontando as teorias da moral, de modo que Montesquieu se torna um
caso típico. Com efeito, essas teorias do século XVIII propõe ora um otimismo a
priori, baseado em algum conceito que assegura a moralidade inata no ser
humano, ora um otimismo a posteriori, que confia à pressuposta harmonia de fins
o resultado ótimo de uma precariedade de meios. Mas essa precariedade, ela
mesma, se torna conjugável a partir de seu caráter de cálculo, os poderes se
medem e se limitam, de modo que o resultado é uma equalização por equilíbrio.
Assim não só a moral de Mandeville, o liberalismo político de Smith, mas também
a visão política de Montesquieu. Ora, Mandeville e Montesquieu jamais
conduziriam à Revolução por si só, por mais que um estabeleça a atividade
lucrativa como finalidade da harmonia ou que o outro pense na solução
constitucional inglesa.
Em todo caso trata-se
de uma alternativa que poderia viabilizar a transição social capaz, no entanto,
de conservar o Status Quo, a nobreza e a burguesia. O egoísmo não
atrapalha, ele é mesmo útil, assim como o poder do rei só se torna plenamente
legitimado, isto é, culturalmente assimilável, se o rei é o cavalheiro ideal de
uma classe destinada por Deus à condução do povo. Essa posição, a moderada,
conserva uma coerência no panorama do século XVIII, que cada vez mais se
desfaz. A ligeireza do processo, aqui, não só se torna impressionante ao
observador que vem acompanhando a história desde a Renascença, mas é de suma
importância para compreender a natureza do que esse processo envolve.
A coalescência desse
ideal burguês, que possibilita uma linguagem cultural inteiramente vertida nos
padrões plebeus da burguesia, é a pedra de toque ou o catalizador que acelera a
tomada do poder. O gentleman tem algo de heróico nessa época, e com efeito,
escapando das páginas e exibindo uma atuação eficaz no real, é como se ele misturasse
as estórias e a História, precipitando a Revolução e libertando uma classe até
agora sufocada no seu poder de expressão.
Contudo, como em todo
romance que se preza, esse ideologema – na expressão de Jameson – não resiste a
um exame sério. O gentleman realmente agiu como fator decisivo no processo.
Desde que ele emerge como tipo capaz de envergar o discurso da moralidade, a
operação da hegemonia está assegurada. Mas o gentleman, como a burguesia, não
pode agir sem uma base sólida, essa terra que suporta o mundo, a saber, o
proletariado em pleno processo de formação. Rude Paidéia, que não funciona pela
positividade do ideal a admirar e imitar, mas, inversamente, como o tipo que
plasma a injustiça social, esse mesmo gentleman no seu papel de capitão de indústria,
a odiar sem poder, no entanto, não servir. Essa Paidéia ensina, sem dúvida, a
compreender a ilegitimidade, mas, pardoxalmente, também a suportá-la e mesmo, a
assimilar o que a traveste em ordem estabelecida, as formas culturais da
linguagem burguesa.
Só mesmo nesse século
XVIII pode-se pensar numa classe como aquela do terceiro estado: todos os
descontentes, todos os plebeus. Em termos de teoria da moral podemos observar
esse incrível amálgama no Sobrinho de Rameau.
Trata-se, nessa
espécie de conto, do encontro de um intelectual e de um marginal. Assim
Diderot, que parece identificar a voz narrativa com a visão do intelectual, ao
mesmo tempo encena a identificação que a sociedade está legitimando nessa época
entre o intelectual e o burguês. O sobrinho de Rameau é culto, professor
particular de música, mas não tem a legitimidade do ethos do intelectual. Ele é
mesmo sobrinho de alguém importante, o Rameau músico famoso em sua época. Não
importa, todo o processo da cena se desenvolve em torno dessa assimetria
fundamental, tão universalmente evidenciada que não se precisa nem mesmo
problematizá-la, apenas percorrer as suas consequências.
Entre o intelectual
burguês e o proletário marginalizado, é o drama da pequena burguesia e dos
sans-cullotes que se está encenando. Ora, o problema é visado do ponto de vista
moral. Trata-se de um debruçar-se, por parte do intelectual burguês, sobre essa
figura amoral de artista pobre. O tema do riso retorna, esse clown tem
que fazer rir aos seus protetores. Mas agora o tema é como que dissecado, uma
psicologia ou técnica do riso se torna enfocado: eles riem? Como? E se, como na
situação do conto, o riso que eles não podem deixar de ter, é ao mesmo tempo
algo que eles não podem deixar de desprezar? Essa interrogação enfeixa a
problemática visada pelo conto, entre o artista dublê de proletário e a
burguesia leiga, não intelectualizada, apenas detentora do poder econômico e do
prestígio social, mais o esclarecimento, as luzes proporcionadas pelas
enciclopédias, as escolas públicas e os professores particulares. Logo, entre o
artista anárquico, o Libertin plebeu, e o gentleman, il meme.
Mas essa oposição de
fundo se está a refletir sobre aquela que ocupa a frente da cena, entre o
intelectual burguês, ele sim, detentor originário da moralidade que a burguesia
apenas compra ou assimila, e o artista marginal que sem dúvida, nesse contexto
específico, está podendo se revestir da capa do proletariado, o que faz a
singularidade, não só do conto mas da própria situação do século que conduzirá
à Revolução. Ora, o sobrinho de Rameau não tem moral, ele tipifica o egoísmo
sem benefício público – que benefício, se ele não tem penetração no mercado, se
ele é pobre, não pode comprar? Assim, sutilmente, a noção de egoísmo se desloca
por aquela de oportunismo. Enquanto a burguesia é o egoísmo bom, o pobre é o
oportunismo mal, restando impensável ou não expressável o fato de que o caráter
fundamental devia ser o mesmo, o fato irredutível da subjetividade. Ocorre que
o egoísmo, como conceito herdado da nobreza, tem livre trânsito pela mediação
do gentleman na classe burguesa. A mediação cultural do proletariado ainda não
veio. 1789 já é possível, Moscou ainda não.
Ora, em termos de
teoria da moral, o resultado dessa universalização do gentleman é Adam Smith,
que pode conciliar a livre iniciativa com a simpatia natural dos seres humanos
uns pelos outros, sendo essa simpatia um real poder de compreensão dos
sentimentos do outro. Nesse momento abolem-se as distinções de classe, todos
sentem as mesmas inclinações, desaprovam a injustiça e anseiam pela nobreza de
caráter. Já todos têm o sentimento de honra, não apenas as damas nobres. Não se
precisa nem mesmo postular um qualquer egoísmo fundamental.
Ainda nesse contexto,
é oportuno o exame do Sonho de d’Alembert, ali onde se põe a questão da
deliberação, da vontade, em relação à subjetividade. Como Diderot apresenta a
perspectiva de Bordeau, que é a mesma que d’Alembert havia insinuado em seus
balbucios, entre o sonho e a vigília, tem-se a lembrança do homem – máquina de
La Mettrie. A hipótese é de que todos os atos do espírito são epifenômenos do
funcionamento psíquico garantido através de meadas de nervos que seriam
responsáveis por certas funções, como a memória, o julgamento, a inteligência,
a vontade. Sendo assim a moral se torna algo bastante relativizável por ter
ficado problemática a relação do ato com a responsabilidade pessoal, estando em
jogo a questão mesma da identidade.
Sendo apenas o
resultado mecânico de um funcionamento físico, orgânico, eis que a atividade do
ser humano se vê confrontada por dois determinismos, o interno, esse sistema
físico de que seus atos e aptidões são apenas o efeito, e o externo, a coação
dos hábitos, a rotina social e mental de um sujeito que se relaciona com os
outros conforme instituições de costumes e calcula ou medita conforme uma
ordenação racional que é, do mesmo modo, um sistema de regras independente dele
mesmo. Esse autômato não se distingue de seu próprio sonho, onde ele tampouco
age de modo autêntico ou efetivamente deliberado. Em todo caso o determinismo
impede que se possa compreender algo como a possibilidade de uma ação
verdadeiramente livre. Isso, contudo, paradoxalmente, pois o sujeito que não é
livre é, de modo indubitável, o sujeito que é autônomo, o particular
generalizável da sociedade liberal.
Ora, o que se torna
assim um problema é a verdade. É cômico o efeito de ser a Senhorita de l’Espinasse
a perguntar se “essa doutrina” não seria perigosa e ser Bordeau a responder com
outra pergunta acerca de ser ela verdadeira ou falsa. Então é a senhorita de l’Espinasse
quem deve julgar da veracidade da teoria e ela afirma, estrategicamente, crer
que é verdadeira, asserção da qual Bordeau tira a conclusão de que a
senhorita de l’Espinasse pensa “que a mentira tem suas vantagens, e a verdade
seus inconvenientes”, o que a interlocutora confirma ser o caso.
O problema se
desenvolve agora no sentido de mostrar que esse instrumento sensível que é o
ser humano é naturalmente propenso à verdade uma vez que ele não passa de um
eco, uma ressonância daquilo que existe, isto é, do fato. Assim como um
instrumento musical, ele vibra numa certa frequência, a mesma que o fato lhe
provoca ao modo do tanger do artista às cordas. Mas sendo assim, e se todo
relato ou é histórico, ou é poético, como compreender a introdução desse
poético, “essa mentira”?
Bordeau explica o
mecanismo das associações, que fazem agora ao funcionamento do instrumento
sensível mais convir a metáfora do canto do que a do instrumento, já que o canto,
uma vez tendo um núcleo temático, pode apresentar variações, modulações – eis
aí a explicação do delírio, faculdade de compor frutos bizarros como um animal
feito de pedaços de outros animais, Frankestein avant la lettre. Já as
abstrações, “a” beleza”, “a largura”, “a profundidade”, recebem um tratamento
mais imoderado. Simplesmente não existem, constituindo-se apenas de elipses ou
alongamentos como que irrefletidos, assim como certas máquinas exibem um
intervalo de cessação após ser desligadas. Ora, o motivo pelo que destaquei
esse trecho é que me parece ser extremamente oportuno à colocação do problema
da verdade no contexto, agora igualmente problemático, da moralidade.
Bréhier enfatiza a
solução “naturalista” de Diderot, quanto à moralidade. Trata-se de uma
deformação do espírito, produzida pelas leis e pela religião, que se pode
reverter através de um primitivismo voluntário, retorno à pureza da vida
instintiva, mais utópico do que real, mas com o mérito de se erigir como
contracorrente ao dilema da moralidade inata ou do egoísmo irredutível. Esses
instintos não são necessariamente egóicos ou mesmo o seu inverso, eles são uma
espécie de estado de natureza considerado como o mais autêntico e viável ao ser
humano.
Carpeaux observa o
papel desse pensamento como ponte entre o libertinismo pré-romântico, aquele
que já integra a burguesia, e o “radicalismo consciente” que seria como uma
visão intelectual, uma compreensão da inteligência. Carpeaux localiza na “aliança”
desses dois fatores a possibilidade da Revolução, como convergência de vontade
e intelecto, ação e pensamento. No entanto, assim como os ventos da revolução,
Diderot não produziu uma obra coerente, menos ainda quanto à moral, oferecendo
apenas aproximações, evoluindo do deísmo de Shaftesbury ao materialismo de
Holbach interpretado como vitalismo panteísta, sem programa político definido,
apenas um pequeno-burguês individualista rebelando-se contra as instituições.
O que penso ser
importante nesse trecho sobre o problema da mentira, no entanto, não está
destacado nessas exposições, ainda que Bréhier tenha enfatizado a preocupação
epistemológica de Diderot acerca do papel das matemáticas, sua crítica da visão
cartesiana, sua vocação “desmatizadora” do real. A questão, porém, da mentira,
no Sonho de d’Alembert parece-me portar um alcance epistemológico, capaz
de situar a transição, de imensa importância, que se desenvolve nessa época.
O problema
epistemológico pode ser bem delineado a partir da perspectiva de uma ética
do conhecimento assim como expressa por Monod. Já no Sonho de d’Alembert
vimos a veracidade da teoria ser associada à conveniência do seu enunciado.
Não obstante a intenção irônica do texto, penso que o problema real é o mesmo
que Monod localiza ao traçar uma linha de demarcação muito nítida entre a
mentira “animista”e a verdade “científica”. Sem haver necessidade aqui de uma
incursão crítica quanto à hipótese do “animismo” poder mesmo se encarregar de
todas as nuances requeridas para ocupar o lugar de vilão da história, o que
Monod enfeixou sob essa rubrica é nada menos do que todas as “explicações” de
mundo anteriores à formulação – tão recente – da objetividade científica.
O desenvolvimento da
questão abrange o paradoxo ético dessa objetividade ter que ser agora, ela
mesma, um valor, já que a cientificidade só pôde se constituir por sobre
a cisão daquilo que o regime animista mantinha unido, a saber, a necessidade
genética de explicação do real e do lugar do ser humano aí, e uma doutrina de
valores morais derivada dessa explicação necessariamente mentirosa porque não
científica e mitificadora da realidade.
O que ressoa com a
questão de Diderot que me parece estar equacionando os fatores da conveniência
social da moralidade, sua utilidade mesma, e de sua inconsistência frente ao
que a ciência objetiva descobre ser o real. Assim como Monod, o fato da ciência
é de início impactante porque despojado de toda inserção “humana”, de toda
inserção tranquilizadora de um lugar do homem no cosmos. Esse cosmos
inteiramente material, neutro, indiferente ao ser e ao não ser, essas leis que
fazem o próprio ser humano estranho a si mesmo já que regula até a sua
experiência mais íntima na forma de um funcionamento que sua deliberação
subjetiva não pode controlar nem ter por responsabilidade. Logo, a subjetividade
nem mesmo poderia se reconhecer em suas próprias ações, sendo agora, para
cúmulo de sua consternação, paradoxalmente identificada com essas ações, de que
no entanto a razão de ser lhe escapa, pois qualquer outra ação seria a de
outrem, esse agora o mais tênue vínculo do ser consigo mesmo.
Mas Monod pensa que o
retorno da inteligibilidade científica sobre sua própria constituição poderia
oferecer a solução desse impasse. Estamos agora, com efeito, na posse dos dados
do problema: a necessidade de explicação é genética , é por ela que
aceitamos a mentira, as mistificações, mas ela mesma não é uma abstração ou um
capricho. O tipo de explicação requerido deve, ademais, apresentar uma espécie
de justificativa moral, tornando compreensível a inserção do lugar humano no
universo. Esse é o complicador, o que faz a ciência insatisfatória, pois se ela
pode fornecer explicações sobre o universo, não pode acrescentar uma
perspectiva falsamente humanista ou teleológica pela qual se prova qualquer ato
ou inteligência guiando o curso da natureza no sentido da existência humana.
Inversamente, tudo o que a ciência tem a apresentar é a perspectiva mais oposta
a essa teleologia tranquilizadora, mas inteiramente fictícia.
Ora, o fator decisivo
é a objetividade, não só naquilo em que é o fundamento da inteligibilidade
científica, mas também naquilo em que demarca, na sua emergência, algo
essencial ao espírito humano, não certamente um traço, mas uma démarche. Porque
a inteligibilidade científica só começa a ser atuante no momento em que se dá a
renúncia do compromisso prévio entre a subjetividade e a realidade, isto é,
quando se renuncia a só tratar a realidade nos limites prescritos pelo
interesse da própria subjetividade. Assim a objetividade encerra algo mais do
que uma simples faculdade operatória, o amadurecimento do “sujeito epistêmico”,
conforme a expressão de Piaget. Ela subentende algo como um sujeito ético,
alguém capaz de se desprender de seu centramento original para ver e avaliar as
coisas nelas mesmas, independente das disposições do observador . Logo essa
démarche se torna um valor, ele mesmo moral. A objetividade se torna algo mais
do que aquilo que devia ser pelos limites que ela mesma havia prescrito.
Instaurando-se pela mais severa cisão entre a moral e o saber, ela vai poder
agora oferecer a única moral viável a partir do modo pelo qual se estabelece
esse saber. O – novo – compromisso com a objetividade, característico da
sociedade tecnológica, isto é, moderna, provê então “a” moral viável em nosso
tempo, a “ética do conhecimento”,conforme a expressão de Monod.
O problema me parece
então comum, tal como enunciado, no sonho de Rameau e em o acaso e a
necessidade. Resta o que a espessura da escansão temporal esconde. O que
torna tudo tão igual é uma coincidência de condições: só há dois fatores em
oposição, a mentira conveniente e a objetividade do conhecimento, essa dura
verdade. Mas a conveniência não parece casual, e sim de uma necessidade tão
rigorosa, tão verdadeira, quanto a própria objetividade. O que se insinuou no
entretempo, porém, foi um outro modo de conceber essa oposição. Há, sim, uma
inteligibilidade nem objetiva nem mentirosa, o que permite inclusive
transformar os termos da questão da “explicação” enquanto uma necessidade
genética.
Entre esses dois
autores é inevitável recordar Bergson, e o conceito de função fabuladora como
fonte da moralidade como da religiosidade. A teoria de Bergson,
desenvolvendo-se no início do século XX, integra um desenvolvimento que, desde
a época do Sonho de d’Alembert, se produziu no sentido da enunciação de algo
que se tornava cada vez mais visível, um tipo de inteligibilidade cuja base se
opõe à que a ciência da natureza pode oferecer como objetividade, já que o
objeto desse ramo de indagações não está numa exterioridade radical, mas
abrange, na sua constituição, o observador mesmo.
Ora, é do anseio de
tratar esse ramo de objetos com a mesma isenção com que o físico trata o seu
fenômeno, que resultou a percepção dessa impossibilidade, se bem que ambos, o
anseio de uma objetividade universal e a percepção da irredutibilidade do campo
humano, nem sempre convergiram e podem ser vistos, por vezes, como expressões
de tendências teóricas opostas no interior de uma mesma disciplina. Contudo,
entre ambos parece haver não apenas uma oposição estática, mas um
desenvolvimento histórico, pois prevalece a convicção – quando não se trata a
ciência humana apenas como um dispositivo de controle social – dessa
irredutibilidade, o que veio a ser uma fonte teórica de projetos no sentido de
conceituar o seu alcance, os seus limites, a sua constituição.
A história desse
desenvolvimento é o caminho da compreensão do Devir das Ciências Humanas, e
nesse momento, na transição do século XVIII ao XIX, ocorre uma série de
acontecimentos fundamentais que embasam a perspectiva do que há de irredutível
a uma visão objetivista no tratamento do humano. Inicialmente temos a transição
da História, que está se tornando agora uma ciência humana, desprendendo-se da
simples erudição, aí onde podemos observar já a inserção da hermenêutica, com
Schleiermacher, enunciando a via de uma especificidade na inteligência do devir
histórico, enquanto fator necessário de inserção do ser humano na vivência
social.
Creio que se pode
localizar uma continuidade na ênfase dessa irredutibilidade da compreensão do
humano através do nexo que une, através do século XIX, Schleiermacher, Humboldt
e Dylthey. Não obstante, paralelamente, a observação da gênese das ciências
humanas, e mesmo do problema dessa irredutibilidade, abrange as fundações
disciplinares baseadas no anseio da objetividade, e o panorama epistêmico
derivado da Crítica de Kant.
Ora, Bergson,
situando-se posteriormente a Dylthey, já enuncia a via de convergência, como
que o resultado teórico, dessa oposição que vinha alimentando a produção
intelectual do século XIX, enquanto que o século XX, após Bergson, se encarrega
do campo já assim preparado. Com efeito, Bergson já se beneficia de uma posição
teórica plenamente estabelecida quanto ao fato dessa irredutibilidade, ao mesmo
tempo em que sua limitação, que será a da metade inicial do século XX, estará
na indissociabilidade entre essa conquista teórica e a recusa da cientificidade
objetiva. Ocorre como uma inversão pela qual a radicalidade simplificadora de
uma ética do conhecimento, que parece não consciente do perigo social que
representa ao se estatuir como poder de excluir qualquer veleidade de sentido
ou de verdade ao não estritamente objetivo, encontra a posição simétrica de uma
inteligibilidade humana que recusa a objetividade como um dado válido de
sentido autêntico.
Não creio que se
possa enunciar já haver, hoje, a superação desse impasse. No entanto,
espero mostrar que a partir da ambiência pós-moderna reuniram-se meios
conceituais viáveis nesse sentido. Mas isso só poderá ser elaborado
oportunamente, quando se tratar da contemporaneidade. Aqui, porém, não me
parece ser de todo deslocado inserir a perspectiva de Bérgson no que se
relaciona a essa questão da necessidade genética de uma “explicação”, até porque
é essa via explicativa como adequada à produção de verdade que se tornou o dado
problemático na interrogação sobre a inteligibilidade das ciências humanas
nascentes.
Em as duas fontes
da moral e da religião, Bérgson enuncia a inserção do humano na natureza do
ponto de vista científico da evolução. Até aqui estamos na ambiência daqueles
projetos de uma ciência natural do homem, caros ao século XVIII. Bérgson trata
a evolução em termos de duas linhas, não convergentes, que conduzem ao ótimo
como solução de cada lote de problemas de que as linhas assinalam os limites do
desenvolvimento. Assim o máximo a que o instinto chega é o inseto como
realização da ordem, enquanto que, no outro rumo da evolução, temos o máximo
apresentado pela inteligência como realização do ser humano, só aqui podendo-se
falar de progresso, não mais apenas de ordem.
As sociedades humanas
jamais serão como as das formigas ou das abelhas, pois não são totalmente
fechadas, sempre havendo alguma mudança com o tempo, aperfeiçoamento de instituições,
alteração de modos de apreensão ou construção do real. No entanto, a simetria
que permite tratar as duas linhas em paralelo se recupera numa certa
transversalidade traçável ao menos de direito. Pois o que o instinto é para a
sociedade do inseto, a função fabuladora é para a sociedade humana fechada.
Ora, creio ser de
grande importância o deslocamento da conceituação do animismo – enquanto
fabricação do mito e da religião, ou seja, enquanto fabricação de uma visão
teleológica justificada pela postulação de uma vontade ou inteligência cósmica,
pessoal ou não, atuando na conformação do universo – desde uma necessidade
genética de explicação a uma performance evolutiva de fabulação.
A necessidade de
explicação é pessoal, como que no âmago de cada ser humano, endereçando-se como
uma vontade de verdade. A performance de fabulação é também concebida como
necessidade, mas agora como necessidade coletiva de adaptação social, de
inserção do individual no social. A função fabuladora contorna a resistência
natural do indivíduo à coação do vínculo social que lhe é, não obstante, também
natural, já que desse vínculo depende a sobrevivência do indivíduo e da
espécie. O mito, a religião ou em todo caso a moralidade, fecham uma totalidade
social, de modo que essa performance pode ser enunciada como a mímesis do
instinto. O que ela funda é a Ordem.
A cada vez essa
fundação pode ser um progresso em relação ao que lhe precedeu, mas a cada vez
ela só pode se erigir como uma barreira a todo progresso subsequente, logo,
como uma Ordem. Então a questão é como conceber a abertura relativa que se
insinua nas brechas entre as Ordens sociais historicamente concretizadas.
É aqui que a simetria
inteligência-instinto, fábula-ordem, se desfaz. Pois o que cria a fábula é tão
inapreensível, imprevisível, que jamais poderia se desenvolver como o instinto,
numa progressão de continuidade como que pré-estabelecida. Trata-se da
inteligência criadora, da criatividade, do espírito.
A história exibe,
portanto, uma evolução coletiva, a das sociedades que, desde seu fechamento
como fato fundamental, se tornaram sociedades abertas, como as democracias
ocidentais aspiram ser. A evolução se estende entre a comunidade original e a
humanidade autêntica, aqui onde o mito já não torna irredutível o intercâmbio
entre os seres humanos, fechados na irredutibilidade das culturas. No entanto,
como se deve observar, não se pode apontar a objetividade, nem mesmo como
princípio de uma ética baseada no elo entre seres todos racionais, como a
ruptura da comunidade à sociedade.
Se a sociedade não é
uma comunidade aumentada, quantitativamente, se ocorre transformação
qualitativa de um a outro estado social, o fator de ruptura é a criatividade, o
espírito, como aptidão a formular valores novos, não como a realização
progressiva de um ideal. Aqui Bérgson se contrapõe quase que profeticamente a
Monod, pois em o acaso e a necessidade a questão é bem a do platonismo
enquanto enunciador de um critério de objetividade, a forma ou essência na sua
realidade irredutível ao subjetivo ou ao mundo da aparência, dos sentidos.
Bérgson mostra que o procurar fundamentar a moral por uma idéia do Bem,
subjacente a todas as Razões opostas que o personificam como esse ou aquele
princípio, é uma operação típica do intelectualismo puro, que, no entanto, a
partir desse atrativo do Bem como princípio da obrigação, não pode estabelecer
objetivamente qualquer critério pelo qual se identifica a proximidade ou a
distância da Razão adotada como princípio ao Bem ideal. Mesmo que o pudesse, não
poderia explicar a obrigatoriedade que vincula o individual a essa Ordem. O
ideal só se torna obrigatório se já for atuante, o cerne não estando no
discurso ou na idéia, mas na ação, na prática.
O que se constata,
através do exame das múltiplas realizações de sociedades, é que o ser humano
superpõe à natureza, à sua necessidade natural, essa tensão do criativo no
interior de si mesmo. A fábula é ela mesma criação, mas de uma ordem, o
criativo é o progresso, desde a ordem, a novos padrões de moralidade que se
tornam cada vez mais abrangentes até abarcar algo como a humanidade. Bérgson
detecta, na formação da democracia ocidental moderna, em Kant e Rousseau, por
exemplo, a importância da religião cristã que já exibe um anseio pela
humanidade, não se estabelecendo como uma fabulação fechada, mas se endereçando
numa abrangência maior de solidariedade e valores de coesão não apenas locais.
Ora, não parece que
Bérgson esteja assim limitando a questão no sentido do universalismo liberal,
mas sim mostrando que seria impossível compreender a atuação dessa criatividade
que conduz da necessidade natural à realização espiritual, sem detectar os
meios, os valores, as linguagens éticas que formulou através do tempo, as
rupturas que introduziu, as transformações que operou, atuação irredutível às
condições objetivas, seja do meio natural, seja do fechamento econômico e
social, ainda que não sem relação com elas. O caminho da intuição não se reduz
à objetividade, mas é também atuante, eficaz, e inteligível. Ao invés de um
instrumento sensível, o humano é um ser criativo.
A via de Bordeau, no sonho
de d’Alembert, parece ser a de um compromisso com a mentira, não só com a
fábula, mas com a convenção mesma da moralidade. A de Monod em o acaso e a
necessidade é a de uma aliança inquebrantável com a objetividade, ou seja,
com a verdade. Mas se a verdade não está no limite estreito da objetividade – e
poderíamos observar que a ambiência dessa ética da objetividade exclui, como na
República, a inteligibilidade da arte – ela se estende à criação conceitual de
valores éticos e estéticos que conferem sentido aos fenômenos quaisquer com os
quais o ser humano não apenas “lida”, do exterior, mas abrange na constituição
de algo como Mundo. Essa criação evidentemente não se interpõe como uma
explicação, como uma resposta objetiva, nem mesmo como a contrapartida de uma
necessidade de verdade, mas como a atuação de uma capacidade de expressão. O
que se expressa criativamente é ao mesmo tempo autocompreensão e dotação de
sentido, pelo que a própria objetividade adquire um modo de ser. Aqui a
historicidade é fundamental, pois não se formula um valor como uma equação
válida independente das condições de sua própria formulação. No entanto, ela
cifra também o sentido mesmo dessas condições, registrando concomitantemente a
abertura que conduz à sua compreensão futura.
Atualmente a
sociedade tecnizada parece anunciar por todos os lugares o fato de uma
hegemonia incontestável da ciência e da objetividade. Na realidade a epistemê
contemporânea é palco de uma crise, que a veleidade de uma racionalidade
universal também no âmbito dos valores não consegue esconder mesmo quando
enuncia a falsa constatação de que a hermenêutica não causa mais nenhum
problema. Ocorre bem o inverso, pois a pós-modernidade já lida com a irrupção
do problema da irredutibilidade dessa inteligibilidade humana no interior mesmo
do que se considerava o templo intocável da objetividade, a saber, a física.
Lyotard expressa bem os limites do “objetivo” na atualidade: nada pode ser considerado
adquirido a partir de uma neutralidade objetiva sem previamente ter sido
traçado o plano, nem mais lógico, e já axiomático, do seu sentido. Assim a
ciência não tem problemas em enunciar que opera por paralogismos. Apenas
unificou o campo da linguagem onde pode estender a sua operação específica, a
cada vez. Uma teoria dos conjuntos epistêmicos, na sua descontinuidade
constitutiva?
Essas questões não
são de molde a ter resposta, pelo menos nesse momento em que a atualidade vive
de modo agudo a sua insistência. Em todo caso a inteligibilidade adequada à
viabilidade das ciências humanas parece estar se plasmando na transição do
século XVIII ao XIX, e é através da compreensão desse período que poderemos
iluminar certos problemas que ainda hoje persistem.
– de literatura,
história, historiografia, psicologia e sociedade
1)
Poderíamos tratar a
formação da sociedade ocidental da atualidade a partir de um trauma
fundamental, o acontecimento de 1789. Nesse momento, e ao mesmo tempo, a
sociedade atual registra a sua cena de sonho originária. A situação simbiótica
do terceiro estado reproduz a relação mãe-filho, e aqui poderíamos até incluir
o pai já que se trata de uma sociedade, não de um indivíduo. No fundo do sonho
ou da simbiose está a liberação anárquica, os instintos sem coerção da lei, a
coextensão do Moi ao Meio, na ação social destrutiva da Revolução.
Ora, erige-se assim a
constitutividade do Je. O lugar do pai incluído – que tipifica o estiramento
revolucionário traumático – deve agora ser ocupado pela figura do filho, o
gentleman, ideologema de fundação, como intermediário da totalidade social
reencontrada na legitimidade da Ordem burguesa. Tudo isso se parece com
Metropolis. A linguagem cênica é onírico-industrial. O gentleman é a figura da
fundação, no inconsciente da sociedade até hoje, o anseio pelo intermediário
que ignora a espessura da burguesia e do proletariado e restabelece o estado de
coisas original e simbiótico da cena do sonho (o terceiro estado).
Naturalmente o sonho
tem o propósito de conjurar a angústia provocada pelo temor – ou secreto anseio
– de uma repetição do estado de coisas revolucionário, temor agora associado ao
comunismo, à revolução real, a proletária – que poderia liberar o instinto,
esse fundo do desejo, mas que seria ao mesmo tempo auto-destrutivo, logo tendo
que ser contornado, simbolizado, sublimado como a Utopia da Alma: o filme
permanece filme, o sonho permite acordar aliviado.
A ruptura que
introduz o gentleman no espaço dos valores se enuncia pela inversão da equação
moral que governou por milênios o Ocidente. O “sou nobre (por nascimento),
logo, tenho a hierarquia dos valores” se substituiu pelo “tenho os valores,
logo, sou nobre (de espírito)”. Contudo, se isso concretiza a realidade da
sociedade burguesa, isso ainda não enuncia a decisão que fez a sociedade
ocidental enveredar pela tecnocracia, pela via do geral sobre o particular.
Pois, se bem que o particular já devia ser generalizável, o século XVIII
comporta esse crepúsculo do “homem”, no interstício microscópico entre a
retumbante afirmação egóica da nobreza e o grito, o jorro, do ser singular que
percebe a operação da hegemonia como algo que não lhe diz, particularmente,
respeito, sendo ou não plebeu.
É interessante notar
que a galeria de figuras femininas que a história da literatura exibe, no
século XVII, é como que de uma continuidade tranquilizadora. Há apenas
especificidade de gêneros, Madame de La Fayette romancista, Madame de Maintenon
e Madame de Sévigné, epistológrafas. O ambiente da nobreza é o mesmo, assim
como a ambiguidade entre o mundanismo e a religiosidade que a urgência do
jansenismo tornou atualizada. Já no século XVIII, não apenas Carpeaux, mas um
pouco por todo lugar encontramos oposições “fundamentais” entre damas: Zucker,
Gombrich, o mostram de modo algo indireto. Carpeaux esclarece bem a questão.
Assim, temos a
ruptura típica, de madame Du Dufand e a senhorita de l’Espinasse. Carpeaux
localiza o incidente – evasão da senhorita de l”Espinasse do salão de madame
Duffand , em 1764, e fundação do salão da senhorita de l”Espinasse – como a
vitória do pré-romantismo na França. Se o salão de madame Du Duffand é
importante em 1750, o salão da senhorita de l’Espinasse o eclipsa totalmente,
já em 1770. Carpeaux utiliza como termo da comparação entre os dois movimentos
os traços mesmos da personalidade das duas damas: madame Du Duffand, de
espírito “claro, seco e ocioso”, seria a epítome do classicismo da Ilustração, “e
a paixão sentimental, instintiva e revoltada de mademoiselle de Lespinasse”,
sendo características do clima pré-romântico. A ambiência dos dois salões
também é tipicamente oposta, confrontando a antiga importância do personagem
nobre com a centralidade de Helvétius, pobre de origem, no salão da Senhorita
de l’Espinasse.
Quanto a Gombrich,
creio que algo bastante sintomático na sua história da arte é o
contraste entre Reynolds e Gainsborough. Com efeito, não há utilização de
contrastes na obra, cada pintor ocupando, ao longo da exposição, como que o
centro visual estabelecido pelo vigor narrativo, o que favorece a impressão da
vivacidade, da urgência mesma com que as questões estéticas surgem e se
desenvolvem, concretizando-se no fazer artístico através do tempo. No entanto,
logo na curva do século XVIII, pouco antes de se instaurar o estado de coisas “moderno”
– Gombrich trata assim os estilos que se sucedem após a Revolução, isto é,
desde o Neoclássico e o Romantismo até à arte abstrata e experimental do século
XX – encontramos esse contraste significativo que parece enunciar algo mais
profundo do que a simples confrontação de dois artistas com suas tendências ou
visões de arte pessoais.
Ora, para compreender
a estratégia de Gombrich, e sua própria perspectiva da periodização, esse
contraste se torna fundamental, o que contribui particularmente para a
compreensão da complexidade estilística do século XVIII. Assim, por um lado,
temos aquilo que a oposição Reynolds versus Gainsborough tipifica, a saber, a
rivalidade dos dois estilos, o Rococó e o Clássico, que impregnam o século até
as décadas de 70 e 80. O barroco, cuja influência ainda se propaga no início do
século através da recente conclusão do feérico Versailles, se recupera de certo
modo no Rococó que atenua a obscuridade e ilumina a cena, mas não o faz sem
preservar a pompa e o gosto da nobreza francesa.
Mas na Inglaterra a
imitação de um Versailles, conforme Gombrich, seria economicamente inviável.
Ocorre que esse país se torna modelar na Europa, ao longo do século XVIII, o
que vemos através de Montesquieu e Voltaire. Aí a visão profusa do Barroco ou a
ligeireza elegante do Rococó são deslocados pela tendência clássica, mais
conveniente à frugalidade dos meios. A recusa da arte pela arte e do
libertinismo, a ênfase na missão moral da cena, como em Hogarth, contudo,
parece algo atenuada pela oposição de Reynolds e Gainsborough, através de que
se pode entrever que a situação era mais complexa do que um simples assunto de
nítidas partições estilísticas sublinhadas por fronteiras geográficas.
Com efeito trata-se
de retratos de meninas, Reynolds apresentando Miss Bowles com seu cão (1775)
e Gainsborough, o Miss Haverfield (1780). A rivalidade entre os dois
pintores era notória na época, mas o que me parece importante destacar é, se
bem que Gombrich não utilize os termos, o fato de que a exposição sobre
Gainsborough acentua valores que são típicos do pré-romantismo, enquanto
Reynolds aparece como representando o classicismo. Ora, Reynolds insere
elementos “quentes”, uma visão de intimidade mesmo na ambientação exterior de
algo como um parque, preocupação com o sentimento, inocência e ternura, a
candura da menina e sua afetividade pelo animal, de modo que o retrato de
Barreti, do mesmo Reynolds parece, em contraste, bem mais “cool” e “clássico” ,
mais conforme à ambição do autor para quem os mestres da Renascença eram os
modelos perenes da verdadeira arte. No entanto, prevalece uma preocupação com a
harmonia, ou com a correção dos traços, que permitem compreender esse
classicismo de Reynolds mesmo tão modulado no tratamento de um tema que
compreende a infância e mesmo nesse período de transição em que seria natural
que o artista já pudesse ter assimilado algo das inovações do tempo.
Quanto a
Gainsborough, sua habilidade consiste no agudo senso de improviso, como se a
captação de um momento de espontaneidade transmitisse mais sinceridade do que o
quadro de Reynolds, ainda que sinceridade pareça ser a principal preocupação do
Miss Bowles. Por isso a pintura de Reynolds se torna tão decepcionante
quando contrastada ao quadro de Gainsborough, apesar da perfeição esmerada,
típica do classicismo.
O fundo do quadro de
Gainsborough parece não inteiramente concluído, a pose da personagem é de um
meio gesto indefinido, talvez de apenas tocar maquinalmente o cordão da capa ou
de conscientemente desamarrá-lo. A profusão de sombras, a cor escura da capa
que cobre a figura alva da menina, como que inserem o ser humano na natureza,
transmitindo a impressão de integração, como se a paisagem circundante
refletisse o sentimento ou o espírito do modelo humano, enquanto o modelo de
Reynolds se destaca completamente do meio, impondo-se na sua irredutibilidade
ao fundo. Reynolds parece pintar uma bonequinha feito gente, Gainsborough
apresenta um ser humano nessa infância não idealizada, mas que se apresenta com
toda perplexidade, concentração e seriedade de que uma criança é capaz, apesar
dos estereótipos cultivados sobre inocência despreocupada ou felicidade,
inerentes à idade.
Reynolds havia se
especializado em retratos, mas sua ambição era a pintura de cenas mitológicas
ou da História Antiga, temas tipicamente clássicos, enquanto Gainsborough
desejava pintar paisagens, preocupava-se com a visão real da natureza mas ao
mesmo tempo querendo realçar as possibilidades do reflexo dos estados de
espírito na paisagem. Vemos assim tipificado o contraste do classicismo e do
pré-romantismo.
Essa tendência
paisagística se inaugura com o “pinturesco”, que será decisivo no romantismo,
conforme Welleck. O pinturesco surge como termo na ambientação do século XVII,
relacionado a Claude Lorrain, soberbo pintor de paisagens capaz de capturar o
mais conspícuo visível, isto é, pintável, de uma cena exterior, e mais tarde a
Van Goyen que transferiu essa qualidade a coisas ou perspectivas simples como a
de um moinho. Contudo, a recuperação do pinturesco – ou pitoresco – no
pré-romantismo deve apresentar essa ligação da cena com o sentimento ou
espírito que dela se depreende, não apenas com a sua visualidade pura ou grau
de realização apenas estética, formal.
O romantismo
acentuará de modo tão intenso essa tendência que um novo sentimento da natureza
será então afirmável, aquele que, conforme Welleck, não reflete uma concepção
determinada – como artifício ou maravilha ou selvageria – do ser humano que
contempla ou sente, mas sim o estado de alma variável desse ser humano.
Conforme a citação de Sénancourt – o seu Obermann é de 1804 – “a
natureza só é sentida nas relações humanas”. A eloquência das coisas é a eloquência
do homem: a terra fecunda, os céus imensos, as águas inconstantes
“são apenas expressão das relações que nossos corações produzem e contêm”.
Carpeaux esclarece a
partição de pré-romantismo e romântico: a índole pré-romântica se caracteriza
pelo desenvolvimento de capacidades insuspeitas na sensibilidade do mundo
exterior, a natureza e as relações sociais. Já o Romantismo “pretende
conquistar novos mundos interiores” e por isso o seu ambiente de eleição é o
Sonho. Vemos assim a complexidade do período, pois justamente aqui, na
transição ao século XIX, por volta de 1800, coexistem: algo do pré-romantismo,
o apogeu neoclássico do estilo Império e o Romantismo nascente.
Ora, Gombrich não
deixa de exibir alguma ambiguidade no tratamento dos temas “clássico” e “neoclássico”.
Assim, já na ambiência do século XVII, o “neoclássico” se desenvolve como um “programa
de natureza idealizada”, uma espécie de academicismo estabelecido em torno do
modelo clássico que, no entanto, não havia se prescrito programa algum – aqui o
termo “clássico” parece estar podendo designar a arte da Renascença, tanto
quanto a da Grécia ou de Roma, como um estilo organicamente integrado num
complexo cultural que privilegiava determinadas perspectivas temáticas.
Contudo, o termo
Neoclássico ressurge quando se trata da situação de transição, entre os séculos
XVIII e XIX. Agora o Neoclássico é esse estilo “lúcido”, de “ampliação de
regras simples” em arquitetura, que prevalece na França de Napoleão e nos
Estados Unidos de Jefferson. E quanto ao academicismo, em pintura, o termo está
agora utilizando-se no sentido pioneiro de escolas de arte, já que é nesse
momento que a pintura começa a ser ensinada publicamente como um ofício, e “academia”
não mais tem o significado de um “studio” fechado em torno de um mestre
e seus aprendizes escolhidos ou de um local de reunião de artistas.
Em todo caso, essa
ambiguidade parece menos importante ao se notar que Gombrich registra a mesma
ênfase de Carpeaux no que opõe esse neoclássico de transição e as visões da
harmonia anteriores: trata-se de um conhecimento novo da Antiguidade,
principalmente da Grécia. Assim o projeto de Soanne para uma residência
campestre (1798) surpreende, se compararmos o resultado com as realizações
anteriores da arquitetura inspirada nos padrões “clássicos”. O estilo agora
recupera o “puro” jônico grego, enquanto até então o que se pensava ser o
modelo helênico aparecia somente através dos ideais latinos ou Renascentistas.
Vemos então como se mantém a conveniência de associar o termo Neoclássico mais
a esse momento inaugural do século XIX, convindo o classicismo da Ilustração
para a tendência mais tradicional, oposta ao Barroco como ao Rococó, que
predominou no século XVIII até a ambiência pré-romântica.
Contudo, a estratégia
de Gombrich parece ser evidenciada ao tratar os acontecimentos do século XVIII
como uma “ruptura da tradição”. Por esse meio, em vez de uma acentuação no
problema da classificação desse polimorfismo estilístico, Gombrich se permite
uma liberdade maior na consideração da contribuição de cada grande mestre que
se destaca a partir desse momento. O que ocorre é que o florescimento das
academias como escolas de pintura coincide com a formação de um público
comprador. Também nas artes plásticas está havendo a superação da dependência
do artista ao mecenas. Com o acesso ao público o artista conquistou ao mesmo
tempo um status intelectual – até então ele costumava ser visto como um artesão
– e uma liberdade temática. Assim o contraste entre Reynolds e Gainsborough se
torna efetivamente culminante, já que inaugura uma oposição que se relaciona de
modo mais exclusivo com a preferência ou eleição do caminho estético por parte
do artista do que com um contraste entre escolas ou estilos que deveriam
governar as suas escolhas, limitando a imagem do fazer da arte.
Por isso, quando
subsequentemente Gombrich não enfatiza as características do romantismo como um
estilo específico, ainda que se demore na apreciação de Goya e Blake, ou mesmo
quando aproxima Turner de Reynolds e Constable de Gainsborough , o procedimento
se torna compreensível. Goya e Blake se inscrevem nesse limiar da liberdade
temática e profissional recém-conquistada, e por esse motivo, bem mais que pela
simples pertença a uma escola, seus quadros apresentam um tão acentuado grau de
inovação. Quanto a Turner e Constable, se é surpreendente a associação
respectiva a Reynolds e Gainsborough, já que Turner é o pintor das paisagens
furiosas e quase que puramente anímicas enquanto Constable deseja pintar apenas
o estritamente observável do objeto, o critério utilizado nessa aproximação
comparativa é o que guia a escolha do caminho estético: Turner se inscreve numa
tradição, Constable cria sua linguagem.
Contorna-se por esse
meio a complexidade gerada pela coexistência das tendências, na transição dos
séculos XVIII e XIX, muito estrategicamente, pois a partir desse momento essa
coexistência só tende a se tornar mais complexa, as tendências e estilos
proliferando progressivamente enquanto o artista conquista seu lugar no mercado
e na sociedade, até que a Revolução em arte se torna Permanente, na transição
ao século XX. Ocorrem novos problemas, como a dependência do gosto, isto é, do
público, a avalanche da reprodutibilidade técnica, até que essa Permanência da
Revolução artística se instale através da Vanguarda, com o novo papel
proeminente do Artista. Mas o traço geral parece ser a conveniência de um
tratamento dessa história do modo menos atrelado a rótulos e mais interessado
na visão que o artista traz quanto ao sentido das inovações que introduz.
Quanto a esse momento
de transição do século XVIII ao XIX, e particularmente ao Neoclássico, Zucker,
assinala de modo exemplar o contraste entre o Rococó, que havia sido
predominante na metade inicial do século XVIII, e o “Empire”, comparando o Madame
de Pompadour, de Boucher (1757) e o Madame Recamier , de David
(1800). O contraste entre os dois estilos não poderia ser mais evidente ao
simples olhar dessas telas. Zucker destaca o acentuamento das curvas e volumes,
a atribuição da mesma importância estética no tratamento do ambiente interior e
do modelo, o relevo da posição social mais marcada na figura do que os próprios
traços de personalidade, a preocupação com os detalhes luxuosos e o cuidadoso
visual estudado do porte, como característicos do estilo Rococó, de Boucher.
O quadro de Madame
Recamier impressiona pelo absoluto inverso dessas características,
mostrando exclusivo manejo da linha, neutralizando os volume ou mesmo a cor,
estendendo um clima de tranquila perfeição e simplicidade algo sublime. A meu
ver o contraste entre esses quadros não impõe a mesma impressão de superação,
não certamente em termos de realização mas de um estilo, como é o caso do
contraste destacado por Gombrich. A arte de Boucher soube captar as nuances que
o Rococó entrelaça, de modo que as limitações não são tão aparentes, na possibilidade
de um confronto, como ocorre com Reynolds. Mesmo assim, o efeito da tela de
David sobre Boucher é inegável.
O que se torna
manifesto com David é a consecução de um resultado magistral através de uma
extrema frugalidade de meios, o que desafia, de certo modo, a profusão de
Boucher. Assim a justaposição das telas faz parecer toda suntuosidade de
Boucher um pouco pueril ou mesmo excessiva, por se opor frontalmente à
austeridade que domina a cena em David, sobrinho de Boucher que, conforme Zucker
informa, não terminou a tela de Madame Recamier, temendo a crítica. Mas
se os quadros de David excedem, por sua importância, o relato que cerca essa
tela, ela não deixou de ser sua mais famosa pintura e mesmo o inacabamento
parece ter contribuído para o efeito paradoxal de solidez ou estabilidade
combinada à impressão etérea que o quadro transmite.
A visão de Zucker
quanto ao panorama geral do século XVIII é um pouco contrastante com a de
Gombrich porque Zucker prefere acentuar a influência francesa, enquanto vimos
Gombrich enfatizar mais a situação inglesa. Assim, Zucker acentua a influência
de Versailles, “copiado em cada país ou principado europeu”, e a imposição do
estilo da pintura em voga na França. Aqui Zucker sublinha a gratuidade da
concepção de arte dominante no Rococó, de modo que o artista nesse período,
mais do que em qualquer outro, é praticamente considerado um artesão de artigos
luxuosos.
Zucker situa no
interior do período Barroco, que ele insere no decorrer do quinhentos e do
seiscentos, a bifurcação entre uma tendência mais próxima da realização
renascentista de Michelangelo e uma preferência academicista, mais austera, que
trata seus temas de modo mais elaborado, planificado, estudado, derivando a
prática de teorias estritamente delineadas. Assim o que ocorre no século XVIII
é que a rivalidade entre essas tendências se desloca por uma partição temporal
de sua predominância. Enquanto o estilo mais hedonístico predomina por dois
terços do século, o “estilo classicista dos acadêmicos” só se torna hegemônico,
na França, Inglaterra e Alemanha, no período restante. Observamos assim que a
bifurcação das tendências recupera algo da oposição apontada por Gombrich entre
o “clássico”, a arte sem programa, e o “neoclássico” (Carracci e Reni), dentro
do período barroco, no século XVII.
A compreensão de
Zucker dessa época de predomínio de uma arte mais exuberante associada ao “estilo
Luís XIV” abrange o barroco romano típico de Rigaud, no início do século, e por
volta dos anos vinte o Rococó de Watteau, Nattier, Lancret, Pater, Boucher e
Liotard, uma arte especialmente decorativa, alegre, de côrte.
Fragonard já
representa a transição à arte da assim designada “era da Razão” . Agora existe
um investimento mais pessoal do artista que não se contenta com a mera
reprodução de temas instituídos e utiliza o improvisado e o informal. Em geral
a tendência é opor o interior cortesão à natureza livre, ou às cenas comuns. No
entanto, se isso poderia conduzir a uma identificação com a arte inglesa de
Gainsborough ou Hogarth, Zucker prefere acentuar o temperamento típico da
Inglaterra e sua situação peculiar em relação à França monárquica e
revolucionária. Assim, a arte inglesa permanece menos marcada pelo
convencionalismo das tendências, mais associada à iniciativa pessoal do artista
e mantém uma perspectiva menos sentimental, mais reservada do que a francesa,
de modo que a cena da tela inglesa sempre acentua alguma distância em relação
ao espectador.
Zucker enfatiza a
qualidade da produção artística na América nesse período, que não se deve
apenas à tradição inglesa mas inclui aspectos da pintura holandesa e dos países
do Norte da Europa. Smibert, Pelham, Feke, Badger, Peale e Trumbull são
artistas que Zucker destaca tanto pelo talento quanto pelo fato de ter aliado o
conhecimento da arte européia com as tradições dos artesãos nativos do
continente americano, recuperando assim algo da cultura pré-colonial, e
especializando-se na reprodução realista do tema.
Zucker acentua a
inconveniência de se manter a perspectiva divisória da arte após o século
XVIII, mostrando que o contraste entre clássico, mais especificamente “neoclássico”,
e romântico é algo quase sem sentido, pois “as mudanças no pensamento
filosófico, literário e sociológico” associadas ao romantismo “não acarretam
transformações fundamentais nas concepções visuais”. No entanto, Zucker
registra a importância do “picturesco” (Lorrain, Gainsborough, Turner), como um
reflexo em artes plásticas da interpretação romântica da natureza. Mais
geralmente o neoclássico e o romântico seriam derivados de contracorrentes do
século XVIII que se haviam insurgido contra o Barroco e o Rococó,
contracorrentes que na transição ao século XIX se tornam dominantes.
Mas permanece
contraproducente , conforme Zucker, qualquer tentativa de localizar uma
ascendência entre essas duas tendências, clássica e romântica, já que se
apresentam misturadas no interior da produção de um mesmo pintor, como entre os
seguidores de Gainsboroughh na Inglaterra, e mesmo as maiores figuras do
período, Turner e Constable “não podem ser subsumidos a qualquer fórmula única”.
Já onde a tendência romântica parece mais acentuada, por exemplo, em Blake,
Zucker deriva a criação plástica de um pendor poético, estando a atividade do
artista entre pintura e escritura. Apenas na Alemanha o romantismo, em pintura,
parece ser um rótulo apreciável, principalmente pela escolha de temas, a
paisagem fortemente emocional, intimidade de ambientes familiares, contos de
fadas e cenas poéticas. Já no século XIX essa influência alemã se estendeu à
produção das artes plásticas nos Estados Unidos, tornando assinalável o
romantismo de Bierstadt e Iness.
O que a cena
romântica introduz, a ênfase intimista fortemente espiritualizada e simbólica,
influenciará decisivamente o curso do pensamento humano nessa fase em que se
está delineando a epistemê da “modernidade”, conforme a expressão de Foucault.
Esse período antecede a eclosão das ciências humanas, formalmente
introduzindo-se ao longo do século XIX, mais especialmente na segunda metade.
Não há dúvida, porém, quanto ao fato de que áreas constitutivas de algo como uma ciência da literatura estão se formando agora, especificamente a teoria literária e a literatura comparada. Também a História já apresenta os contornos nítidos do seu desenvolvimento posterior nessa transição do século XVIII ao XIX e, mais geralmente, começa nesse período um intenso investimento em questões centrais da problemática epistemológica que embasa a produção científica especificamente humana. A psicologia se torna uma fonte de contribuições nesse sentido, de modo que a gênese de uma ciência psicológica autêntica, que como as outras disciplinas só se localiza na transição ao século XX, e mesmo qualquer interrogação epistemológica sobre sua legitimidade atual, dependem da recuperação de temas do período pós-revolucionário.
Creio ser este um dos
momentos mais importantes da pesquisa por algo como o devir das ciências
humanas. Com efeito, a transição do século XVIII ao XIX fornece a observação do
evento que poderia ser descrito em termos de ponto de mutação da Episteme, pelo
qual se assiste a formação do campo de saber onde as ciências humanas, seu
estatuto, sua legitimidade e sua atribuição, se tornam acessíveis.
Habitualmente
distinguimos dois pólos antagônicos na teoria do conhecimento que emerge do
século XVII, racionalismo e empirismo, com que o século XVIII deve lidar, e o
faz de modo a resultar na síntese kantiana que, sendo tal interpretação correta
ou não, julga-se geralmente que tenha favorecido o racionalismo. Ora, para
compreender a emergência das ciências humanas é preciso reconhecer que esse
esquema permaneceu demasiado simplista.
É preciso mostrar o
que se ocultou por trás desses rótulos, a saber, esse outro aporte teórico que
marcou o século XVIII e que costuma ser simplesmente ignorado, por isso a custo
nomeável, de modo que só se evidencia a uma pesquisa mais minuciosa, “histórica”,
logo, aquela que costuma se debruçar sobre o que não importa muito ou o que
para todos os efeitos úteis pode permanecer esquecido.
Vimos tratar-se nesse
período de uma supremacia do “sentimento” . Mas uma reunião dos fatos
relevantes, relacionados ao emergir da Epistemê contemporânea, mostra que esse
particular não se determinou apenas como um fenômeno “estético”, funcionando na
verdade como uma transformação do problema do conhecimento assim como havia
sido deixado pela antinomia Descartes – Locke, o que tanto é a base da
compreensão da inteligibilidade das ciências humanas quanto pode mesmo embasar
a inserção da contribuição de Kant.
Assim o que mais se
relaciona a essa filosofia do sentimento é uma torção fundamental do campo
epistêmico, uma dualidade até então impensável, que torna o discurso da
Ideologia, por exemplo, inoperante. Torna-se importante então mostrar que no
século XVIII estavam em marcha quatro teorias do conhecimento: a) o
racionalismo estrito cartesiano, como ineísmo da razão; b) a razão empírica de
Locke, como domínio racional do “adquirido”; c) o sentimentalismo ineísta, como
o de Rousseau; d) o sentimentalismo do “adquirido”, como em Condillac. Ora, na
transição ao século XIX enuncia-se, e) uma dualidade básica entre o espontâneo
e o refletido, de modo a reposicionar a dialética do adquirido e do inato,
conforme a oposição de domínios passivo (sentimento variável e mutável) e ativo
(reflexão estável).
Foucault localizou
Bichat como o personagem importante dessa transição, pois o sintoma dessa
Episteme moderna começa por se enunciar a partir de sua concepção
revolucionária do que opõe as definições médicas do estado de não-vida àquela
de vida, isto é, a transição é comandada, conforme o esquema do triedo dos
saberes, pelo que ocorre na emergência da Biologia.
Quanto à problemática
das ciências humanas, creio que é interessante observar como Bréhier também
situa, precisamente aqui, uma nota sobre Bichat, como contraditor exemplar da
Ideologia, mas não por essa oposição e sim pela descoberta de uma dualidade
fundamental entre vida orgânica (órgãos não simétricos, funções de exercício contínuo
como digestão, circulação, etc., que originam paixões “instintivas” como a
cólera ou o temor) e vida animal (órgãos simétricos, funções de exercício
intermitente, entre os períodos do sono, origem do intelecto e da vontade).
Essa dualidade, interditando a via do monismo, estaria na base do pensamento
dessa época, informando tanto a psicologia de Maine de Biran quanto, mais
tarde, a sociologia de Comte, conforme Bréhier.
No entanto, a meu
ver, é com Maine de Biran que se pode localizar a enunciabilidade do percurso
de emergência das ciências humanas porque aqui a dualidade epistêmica
fundamental dessa inteligibilidade de campo, por assim expressar, que torna
efetivo o seu exercício, se pode consubstanciar entre Ser e Existência, ainda
que Biran não o tenha conceituado expressamente.
Mesmo assim podemos
observar o vínculo apontado por Huismann-Vergez entre o pensamento de Maine de
Biran e a filosofia da existência de que, na história dos filósofos, Biran
é considerado um dos iniciadores. Não só por essa aproximação, mas também pelo
modo mesmo pelo qual Biran desenvolve a sua observação do sentido interno me
parece revelar que ele visou efetivamente uma oposição assim enunciável.
A importância do que
está em jogo só pode ser alcançada através de uma recapitulação dos
antecedentes. Utilizando-se, em vez de uma oposição entre “empirismo” e “racionalismo”,
uma conceituação que inclui uma razão empírica e um racionalismo estrito, vemos
que a teofísica cartesiana implicava uma rigorosa separação de matéria e espírito,
mas de modo que a inteligibilidade, pertencendo ao espírito, deveria ser
teologicamente assegurada, garantindo-se assim o ineísmo de idéias e princípios
racionais. A razão empírica de Locke deixava um campo bem mais vasto à
cientificidade, pois implicava na minimização do problema da relação entre
matéria e espírito. Não havia necessidade ou mesmo, talvez, a possibilidade de
esclarecer a dependência do espiritual ao material ou vice-versa, uma vez
resumindo-se os dados ao observável dos fatos da experiência. Essa razão
empírica permanece, a meu ver, como a conquista basilar da cientificidade que
tem seu modelo na física, pois ela permite a maior margem de manobra nesse
campo. Assim a enunciação do princípio do determinismo laplaceano deriva dessa
ambiência empirista.
Ora, o problema da
causalidade se torna assim contornado, não “resolvido”. Na verdade ele é como
que neutralizado. Torna-se impensável, mas agora de modo consciente, positivo,
o que é uma revolução notável, sem dúvida. No entanto, o cartesianismo havia
deixado o problema da causalidade, na problematização de Malebranche, na forma
do ocasionalismo, de modo a permanecer, como fundo do racionalismo estrito, a
dependência a algo mais do que o puro exercício científico, o aporte
filosófico-teológico, mantendo o vínculo com Deus. Só assim algo como a relação
entre um impulso do espírito e seu efeito na matéria poderia ser assegurado.
Aqui entra em cena o
personagem que, ao lado de Maine de Biran, eu gostaria de colocar nesse limiar
da Epistemê contemporânea, a que inclui as ciências humanas. Trata-se de
Giambatistta Vico. Sabe-se que Vico se destaca por sua contribuição à História,
enunciando uma teoria da inteligibilidade histórica em meio ao cenário clássico
de maior desprezo por esse tema como algo “científico”, isto é, na época de
maior influência de Descartes. Ora, Vico estabelece na História o único campo
de conhecimento autêntico a partir dessas premissas cartesianas. Como a via da
causalidade se encontra interdita pelo mais completo dualismo, resta, se não a
teologia do ocasionalismo, uma causalidade certa como a que o ser humano
encontra na base de seus próprios atos, isto é, na história enquanto produto do
fazer humano.
Contudo, a despeito
da teoria cíclica da história de Vico, ou talvez mesmo por isso em relação a
que essa teoria serve como sintoma, só esse princípio de inteligibilidade não
implica numa reviravolta tão decisiva a ponto de determinar algo como uma
inteligibilidade plena do humano. Se, como vimos, é na transição do século XVII
ao XVIII que se enuncia o princípio científico determinista, com Laplace, a
compreensão do que é “ciência” deve agora envolver um campo de objetividade
exaustivamente delimitado. A causalidade histórica preenche essa condição
quanto à inteligibilidade, pois fornece algo como um princípio de plenitude
inteligível dentro desse conjunto de fatos humanos, mas se restringe a uma
temática histórica, não podendo valer para a totalidade dos fatos do espírito.
Mais, ela permitiria, por si só, uma coextensividade da história e do paradigma
epistêmico das ciências da Natureza.
Mais profundamente,
tanto a razão empírica quanto o racionalismo estrito se movimentam na ambiência
desse limite objetivo. É verdade que a razão empírica não depende de um
dualismo de matéria e espírito, mas a sua consequência mais importante, a
Ideologia, revela o que ela pode apenas fornecer quando se trata de compreender
o ser humano, isto é, o projeto de uma ciência natural do homem. Assim, resta
essa dualidade de corpo – consciência, como algo a superar pela análise, quando
sua instituição como algo irredutível parece estar na base da reversão da
psicologia de Maine de Biran, o que marca a compreensão de uma Episteme
contemporânea, incluindo as ciências humanas na sua competência não extensível
àquela das ciências da natureza.
Uma das consequências
mais imediatas dessa dualidade introduzida por Maine de Biran a partir de um
investimento na psicologia, é a compreensão do próprio alcance ou organização
disciplinar. Um tipo de reflexão única como a Ideologia ou a Filosofia deixa de
ser adequado para instituir a competência sobre algo tão complexo como a
natureza da consciência. Torna-se pensável a constituição de uma área de saber
como a psicologia que se forma a partir de conhecimentos oriundos de
disciplinas múltiplas, como a fisiologia, a patologia, e mesmo, nessa época, a
observação interior.
Ora, o que essa
observação interior tem a mostrar agora não pode ser transposto em termos de
uma cadeia de proposições que repousam sobre a identidade da proposição
inicial, isso que Ampère, prosseguindo na via de Biran, vai designar como “a
ridícula identidade”, sem dúvida tendo como alvo o estabelecido por Condillac
como princípio da Análise, pelo qual as proposições derivam , como na
geometria, de uma identidade transformada desde a inicial. O método de Biran
consiste, bem inversamente, em separar os dados do sentido íntimo, a partir da
oposição ou dualidade originária entre aquilo que no espírito é ativo e o que
nele é passivo.
Trata-se de uma decomposição
dos dados imediatos, é verdade, mas agora “decomposição” tem um sentido outro,
não aquele de uma enumeração das formas e caracteres diversos que toma, por
exemplo a sensação, ao se transformar, essas formas e caracteres se recobrindo
pelo termo genérico “pensamento”. Pois desde que a oposição entre o que se
sofre e o que se faz, entre o passivo e o ativo, se torna fundamental, como
observa Bréhier, a novidade imensa não atinge apenas os resultados, mas abarca
um novo “plano de clivagem”, como se à decomposição mecânica por divisão, se
substituísse uma decomposição química, que separa numa realidade aparentemente
uniforme os elementos heterogêneos. A dualidade se torna assim um princípio de
proliferação do saber em áreas convergentes de uma mesma positividade.
Essa oposição de
ativo e passivo se estabelece a partir de um completo ultrapassamento da
metafísica da substância. Pois nesse âmbito substancialista uma questão sobre,
por exemplo, a liberdade, depende de um conhecimento do princípio motor da
vontade que só pode ser concebido a partir da relação entre matéria e espírito,
as duas substâncias que compõem o ser humano. Ora, esse “mistério impenetrável”,
conforme a expressão de Biran, torna-se inútil quando se desloca o foco da
pesquisa para o sentido íntimo que nos faz conhecer o poder que temos quanto à
aplicação da atenção sobre um objeto.
Poder e limites, pois
Biran, às voltas com sua fraqueza e suas doenças, sempre constata na observação
interna que a ação do espírito se localiza entre dois constrangimentos, externo
e interno, o físico, o estado de seus nervos, e o espiritual, aquilo em que o
espírito mesmo é passivo e variável. Nossos sentimentos se interpõem no curso
de uma decisão, do mesmo modo que o estado físico permite ou não uma atividade.
E esses sentimentos, dados tão palpáveis quanto os fisiológicos, são mutáveis
no ser humano.
O sentimento se
interpõe, como também o organismo, entre a subjetividade e seu ser. Parece-me
plenamente constatável a partir da psicologia de Maine de Biran, uma opacidade
do ser, não devido ao devir, mas ao modo mesmo pelo qual o ser é. Hegel se
torna enunciável, opondo o ser humano como não-ser à natureza como ser. Assim
Biran concede também um novo sentido ao devir, pois não se trata de um puro vir
a ser mas de um tornar-se, incluindo a reflexiva, a realidade do espírito.
O hábito se torna um
critério de contraste através do qual se separa o que pela observação do
sentido íntimo se revela passivo ou ativo. O hábito impõe a algumas faculdades
a sua degradação, ao passo que aperfeiçoa certo domínio de atividades que se
tornam mais ágeis, como a percepção. Ora, o hábito tende a desbotar a linha de
demarcação que estende a dualidade originária da consciência, de modo que a
própria sensação aparece apenas como passividade. O que Biran localiza assim
não parece ser uma classificação entre o que é exclusivamente passivo ou ativo,
mas um limiar a partir do que o espírito age sobre aquilo que recebe ou sobre o
seu próprio funcionamento. A memória não se constitui só como armazenagem de
dados, mas sobre esses dados os mais primitivos ela se engendra como uma
elaboração progressiva.
O que a observação
deve ter como objetivo é disponibilizar essa atividade essencial que o hábito
mascara como pura aquisição ou funcionalidade. Se, por exemplo, o pensamento
opera através de signos ou da linguagem, reverter o exercício dessa operação,
de modo a encontrar a atividade que se tornou comodamente supressa pela
palavra, repõe o conhecimento da idéia que estava efetivamente em trânsito no
momento de sua formação, isto é, a atividade mesma do espírito. Ora, esboça-se
assim uma teoria da subjetividade que se torna efetivamente “psicologia”
através da identificação do fato primitivo da consciência, a saber, o esforço
muscular pelo que o “eu” se autopercebe como força hiperorgânica produtora
desse movimento sobre o músculo. A subjetividade se conhece a título de causa
agindo sobre uma matéria que lhe resiste.
Essa teoria do
Esforço se enuncia reduzindo toda autopercepção ao fato básico da aplicação de
si como força sobre aquilo que lhe resiste. Assim o ato fundamental do “Eu” é
ao mesmo tempo afirmação ou posição do mundo exterior. A autoconsciência é
sempre união íntima desses dois elementos heterogêneos, uma força imaterial e
uma resistência material, o “eu” se compreendendo como causa no esforço,
inseparável do efeito que produz. Aqui penso localizar-se o ultrapassamento
efetivo da metafísica da substância a um pensamento da subjetividade que se
enuncia pela renúncia do “quê”, da coisa, pela busca do “como”, isto é, da
Atuação.
Aqui me parece
inserível a suposição de que Biran tenha mesmo tido consciência de uma oposição
mais básica, entre Ser e Existência, designável a partir da observação do senso
íntimo, desde a assunção da dualidade do espírito entre o ativo e o passivo.
Assim, Biran não fala do sentimento de ser, mas do sentimento de existência – conscium
sui, compos sui – como correlato da consciência. Expressamente, ele
identifica o “eu” com esse sentimento de Existência, contrastando esse termo
com a ausência de “fundamento interior” no Ser visado como cópula numa
proposição à Condillad, na qual a subjetividade apareceria apenas identificada
com a modificação sensível. Ora, esse sujeito seria apenas proposicional,
vazio, uma vez que o “eu” não é, precisamente, o que se identifica com as
modificações que experimenta, mas o fato primitivo daquilo que lhe resiste. “Subjetividade”
seria assim um termo impróprio.
Considerando a
hipótese da estátua, Biran mostra que a impressão sensível inicial é bem “a
concepção mais simples”, mas não o fato primitivo, pois não há nesse nível
subjetividade, sujeito que conhece opondo-se à coisa conhecida. E essa oposição
é aquilo sobre o que se pode estabelecer o fato de consciência mais básico. A
tese de Biran sustenta que o esforço ou ação desejada ou volição é o verdadeiro
fato primitivo do sentido íntimo. Nesse enunciado cada um dos núcleos de
significação, “fato”, “primitivo”, “sentido íntimo”, é epistemicamente
relevante.
O sentido íntimo se
percebe como volição frente a algo que lhe resiste, no momento do esforço.
Certamente esse algo põe o mundo, mas a forma desse pôr é ainda apreensão da
experiência íntima, o termo resistente é sempre o próprio corpo na experiência
da subjetividade. O fato básico da consciência apreende o “eu”, o próprio corpo
e o mundo no sentimento confuso de uma “extensão interior”. Se conseguimos
levantar os halteres a vitória é, na experiência interna, como que sobre nosso
próprio corpo, limite ou resistência. Não haveria uma experiência que pudesse
ser mais básica do que aquela que se engendra como sentido de Existir, mas essa
experiência, na tese de Biran, só pode se estabelecer no momento em que se
compreende como um “eu”.
Huismann-Vergez
observam que essa teoria do esforço transforma a questão da relação entre alma
e corpo, a partir de Biran, pois até então pensava-se, como Malebranche havia
enunciado, que o esforço era uma prova da limitação humana, uma evidência da
impossibilidade da subjetividade se atribuir como causa de seus próprios atos.
Assim Deus só poderia ser a causa ocasional da efetuação do movimento material
que a subjetividade almejava. O argumento de Biran consiste em mostrar,
refutando ao mesmo tempo esse ocasionalismo e a importância do ser “simples”, que
o problema é que não se observou suficientemente o que opõe uma sensação
sofrida – seja um odor, seja uma resistência – e esse algo que continua a
querer, seja aspirar ou não o odor, seja mover ou não o peso. A experiência
interna abrange todos esses constituintes, mas o que se torna relevante é que a
observação pode delimitar algo que é autenticamente ativo, Liberdade frente a
todo dado ou necessidade. A causalidade auto-experienciada se torna consciência
de Liberdade, esse “sentimento da existência ou do eu”. Vemos assim que a “psicologia”
do biranismo se interpõe como “metapsicologia”, pois a Liberdade assim
conceituada já é um conceito metafísico.
O salto da reflexão
de Biran inclui essa “metafísica experimenta, vivida”, conforme a expressão de
Huisman-Vergez, mas nesse mesmo movimento creio ser possível constatar a
irredutibilidade desse pensamento a uma psicologia como ciência no sentido mais
atual do termo. Ora, é justamente a tese de Canguilhem mostrar que o postulado
da rejeição de certa idéia do homem, da decisão de tratá-lo como instrumento
útil para realizar a adaptação ao meio ambiente, logo, instrumento de
instrumento, é o que marca a emergência da psicologia como ciência no momento
mesmo de sua ruptura com outras disciplinas psicológicas que encontram seu
sentido originário em filosofias ou em antropologias.
Mas essa tese de
Canguilhem tem um sentido polêmico, na verdade uma intenção de resgate da maior
pluralidade de vias, pois uma tal situação “chega a privar, do ponto de vista
epistemológico, o estatuto da psicologia de toda garantia de especificidade”
(Chatelet, história da filosofia, v. 7, a filosofia das ciências sociais, Michel
Bernard, psicologia, p. 38). Conforme Canguilhem, esse postulado
antepõe a ruptura da psicologia atual com a psicofisiologia e a psicopatologia,
com a psicofísica e com a psicanálise, respectivamente associadas ao
aristotelismo, ao mecanismo cartesiano e à “reflexão bironiana” (op. cit. P.
37).
O problema está na
centralidade conferida ao conceito de adaptação na história da psicologia, que
Canguilhem aponta como marco da opção epistêmica de uma filosofia do
comportamento , contestada como algo justificável por Pagès, que prefere ver a
psicologia atual como área em que uma pluralidade de ramos tendem a se interpenetrar
de modo que o psicólogo não poderia, como pretendeu Canguilhem, limitar-se ao
fazer de um psicotecnicista.
Sem aprofundar o
sentido dessa polêmica, algo que se tornará posteriormente oportuno, penso que
o importante é observar que localizando na oposição Ser – Existência, oriunda
do contexto biraniano, a emergência de uma episteme que inclui as ciências
humanas, podemos ao mesmo tempo compreender a reflexão de Biran na sua
atualidade e na sua limitação. Não me parece que o tratamento da questão da psicologia
como ciência possa ser destacado do tema que a relaciona à experiência, a
partir de Fechner e Wundt, de modo que o “vivido”, a observação do “sentido
interno”, aparecem como características de uma ambiência pré-científica. Na
verdade, Biran voluntariamente se quer singular em relação a um procedimento
como o de Cabanis, “ideólogo” que pretendeu inserir a análise, como ciência
natural do homem, em sua prática de medicina.
O problema então se
torna a situação dessa teoria que já não pode se definir estritamente
filosófica, mas também não chegou a um estatuto como ciência. É interessante
observar a contribuição de Gagey, pela qual pode-se estender uma história da
ciência, como da psicologia, sem o pressuposto de um único estágio de sua
validez,de modo que o estatuto de ciência se mede a cada vez relativamente ao
campo epistêmico que dota de sentido o seu projeto. Ora, quanto a isso penso
que o problema real encontra mais uma vez o sintoma de sua enunciabilidade com
Biran, pois as séries dessa história progressiva da ciência não poderiam ser
simplesmente superpostas, mas teriam que encontrar o foco de iluminação pelo
que os valores do campo poderiam se tornar aquilatáveis. Vejo no biranismo,
precisamente, a constatação desse momento em que o projeto de um conhecimento
humano já se destacou daquele de uma ciência natural, mas ainda não se forjou
inteiramente na via de uma “ciência humana”, uma vez que isso só ocorre quando
se constata a renúncia do discurso, fenômeno de que a “adaptação” de Canguilhem
pode ser sintomático, mas que está bem mais claramente explícito em as
palavras e as coisas.
É por esse motivo que
designo essa época – os períodos revolucionário (1770 a 1800) e
pós-revolucionário (1800 a 1830) como o crepúsculo do “homem”. Aqui o Saber
ainda encontra as figuras de sua própria enunciabilidade, ainda “se” enuncia,
por assim expressar, quando o que ocorre na emergência das “ciências humanas”
autenticamente informadas é que as leis dessa enunciabilidade escapam a todo “vivido”
e se tornam inferíveis apenas no campo transcendental que as suporta. A forma
escapa ao conteúdo, os quase-transcendentais de vida, trabalho e linguagem não
são a composição vazia do que a experiência vem atualizar, mas objetos que se
furtam ao horizonte do evento e que, no entanto, condicionam a sua
possibilidade mesma. Eis porque Foucault pôde observar que as ciências humanas
surgem ali onde o humano não mais está.
Mas podemos pensar
que o situamento da ciência como metafísica, por Heidegger, se embasa na
percepção de que sendo da subjetividade, esse pensamento da modernidade se
funda pela opacidade fundamental do Ser, que se torna irredutível à Existência,
determinando a proliferação constitutiva de uma área epistêmica nas suas
disciplinas “atomizadas”, interditando a unidade do Ser que permite a
postulação de um Pensar que lhe é idêntico. Assim a recuperação dessa unidade
poderia estar na região de uma Existência como originário Ser-Aí do humano. E
de fato, será preciso compreender o percurso das ciências humanas até a época
de Heidegger para tratar esse enfoque crítico da inteligibilidade “científica”,algo
que heidegger empreendeu precisamente a partir de uma percepção aguda da
oposição Ser – Existência assim como enunciada em sua obra Ser e Tempo, de
modo que se opõe tudo o que é ao ser humano que existe. Mas por
agora é importante ver que a opacidade do Ser determinou um domínio novo de
inteligibilidade não-objetiva, mas tão plenamente assegurável quanto o campo
epistêmico laplaceano poderia exigir.
O ultrapassamento da
metafísica da substância se enuncia pela crítica do Cogito, pela qual Biran
mostra como essa reflexão de si sobre si, completamente independente da ação
causal sobre o corpo, conduziu ao isolamento da substância pensante, ela mesma
como uma “coisa”, da substância extensa. Mas seria todo o conjunto do
conhecimento até então, baseado na dualidade de matéria e espírito, que seria
preciso deslocar por esse novo dualismo de Ser e Existência fundando o domínio
da plenitude de inteligibilidade que é o da experiência interna e seus dados
imediatos. Ora esse domínio assegura de modo certíssimo a ligação da
consciência como ação sobre o exterior, o ato originário sendo esforço para
vencer resistências. O senso íntimo não nos dá nenhuma substância, mas uma
força ativa, solidária do termo passivo sobre o qual age atualmente. A
interconexão sujeito-objeto não se põe como uma proposição universal, mas como
experiência íntima, incomunicável. E, no entanto, capaz de fundar um domínio
legítimo de inteligibilidade, dotado de um princípio recolocado de causalidade
eficaz, o sentimento do esforço voluntário como causa atual do movimento, cuja
evidência a qualquer pessoa se efetiva pelo contraste com seu próprio movimento
convulsivo do hábito.
O esforço consciente
se reporta sem mediação à atividade dos sistemas musculares, ao funcionamento
da visão, por exemplo, na ação de distinguir as percepções visuais, de modo que
se verifica novamente a dependência da psicologia da consciência em relação à “fisiologia”.
A força hiperorgância que comanda o esforço se transforma em energia nervosa
necessária à contração do músculo, atividade que se torna cada vez mais
automática pelo hábito de modo a liberar a força para novos atos. Ora, a
transição do orgânico ao “espiritual” não está sendo proposta como numa
continuidade. Não se trata da formulação de Bonald, pela qual o humano seria
como uma inteligência servida por órgãos, ou que a ação espiritual se insere na
do organismo como num progresso interno gradual do animal ao racional. O problema
é justamente como conceber a ação do humano sobre sua inserção orgânica, ou
como o centro motor do corpo se põe, como que repentinamente, ou num “golpe de
Estado”, à serviço da força livre do espírito.
Em todo o caso o fato
principal é ver que o humano é duplo: simples na vitalidade, duplo na
humanidade, animal e racional, o que esclarece sobre a pluralidade de
fatos primitivos. Ao ato do esforço sobre uma resistência, ajuntam-se a
sensibilidade animal e o estado místico, esses três fatos aportando uma triangulação
epistêmica: a psicologia depende da fisiologia e mais geralmente dos
conhecimentos biológicos que regem o funcionamento orgânico. Mas também de uma
antropologia, pois os agentes humanos não são redutíveis à individualidade e
estendem uma ligação intersubjetiva, ao mesmo tempo que se absorvem numa
realidade abrangente que Biran nomeia Deus.
Podemos observar o
quanto a dualidade instituída por Biran como originária do espírito, entre o
ativo e o passivo, que penso estar enunciando algo epistemologicamente mais
básico como oposição entre Ser e Existência, está relacionada à emergência do
campo de saber constitutivo das ciências humanas, a partir dos trabalhos de
Ampère, tão mais famoso por sua contribuição à física através da descoberta da
lei do eletromagnetismo (1820). Com efeito, Ampère é correspondente de Biran
desde o inicio do século XIX, e vimos como sua negação da identidade analítica
de Condillac se harmoniza com a cisão operada no biranismo.
Ampère se limita mais
à pesquisa da origem do conhecimento do que propriamente à da consciência.
Assim, sua concepção implica uma progressão do raciocínio, e é isso que o
conduz àquela rejeição da identidade geométrica. Somente o raciocínio
progressivo é capaz de descobrir o Novo. Ampère identifica a possibilidade da
progressão através da intuição das relações existentes entre os dados. Ocorre
que essas relações intuídas são completamente independentes dos próprios dados
sensíveis, leis de coordenação “numênicas”, isto é, ao mesmo tempo
constitutivas dos fenômenos e independentes dos dados sensíveis. Aqui também se
pode ver a ligação dessa via “psicológica” do início do século com o que será a
lógica de Hegel, se bem que Ampère já revele o conhecimento das sínteses a
priori de Kant. No entanto, parece que Ampère interpretou o kantismo como um
subjetivismo, de modo que por essa via a validez do a priori seria apenas
fenomênica, Ampère propondo que ela se estende numenicamente, isto é, ao ser em
si do real.
A contribuição de
Ampère à psicologia é sua classificação de fenômenos psicológicos. Inicialmente
ele aceita a oposição de Biran entre fenômenos passivos (não perceptíveis pela
subjetividade) e ativos (vontade e razão), mas interpretando a passividade,
como “sistema sensitivo”, isto é, já como um conhecimento das mudanças atuais
coordenadas por justaposição (autopsia) a que se sobrepõe o conhecimento da
causalidade subjetiva (emestese) localizada a partir do esforço muscular. A
partir desses dois sistemas, autopsia e emestese, nasce a atribuição ao “eu” da
força, e a atribuição à exterioridade da resistência. Ora, a coordenação por
justaposição faculta um sistema independente, o comparativo ou lógico,
formativo das idéias gerais e das classes por semelhança, e ainda um outro
sistema, a sintetopsia ou intuição das relações independentes dos termos. A
sintetopsia localiza as relações que intui com os três sistemas precedentes que
nos fenômenos parecem misturados: a extensão (autopsia), a causalidade
(emestese), a classificação (comparação).
Ampère estende um complexo
quadro de relações que se podem estabelecer através desses sistemas. Aqui
importa reter como Bréhier destaca o desacordo de Ampère com Biran no modo de
concebê-los, pois este pretende liberar um campo de ação puro a partir do senso
íntimo, enquanto Ampère almeja, estabelecendo o conhecimento desde o sistema
básico de autopsia, lá onde Biran só via fenômenos afetivos não acessíveis à
consciência, fundar como que um ponto de partida da validez numênica da física.
Ora, o que me parece importante é que a partir da oposição fundamental, que não
me parece ter sido contraposta, entre o passivo e o ativo, já que trata-se de
estabelecer um nível de relações independentes dos termos dados, Ampère fornece
uma classificação das ciências que já inclui a partição do cosmológico e do
noológico, isto é, da natural e do humano. Assim, se as “ciências cosmológicas”
estudam a natureza exterior, as noológicas estudam o reino humano “intelectual”,
ou seja, um conhecimento da fisiologia do ser humano não poderia estar no noológico,
mas no cosmológico.
Essas ciências
noológicas deveriam abranger, conforme a classificação de Ampère, três áreas
bem demarcadas. A das ciências filosóficas (psicologia, ontologia e ética), as
ciências nootécnicas (tecnoestética ou estudo das artes, glossologia ou estudo
da literatura), e ciências sociais (ciências etnológicas como etnologia,
arqueologia, história, e ciências políticas). No entanto, assim como a “psicologia”
de Biran jamais atinge o estágio experimental, logo não pode ser considerada
uma ciência no sentido restrito da psicologia atual, a classificação de Ampère
ainda se endereçava como uma enciclopédia metódica, que deveria deslocar, é
certo, a dispersão da ordem alfabética mas ao mesmo tempo se instituindo como
um pedagogia racional que hierarquizava as ciências.
Não me parece,
portanto, de modo algum exequível qualquer tentativa no sentido de localizar
aqui algo como o surgimento das ciências humanas na sua especificidade, mas sim
a emergência do campo epistêmico no interior do qual elas podem vir a se
constituir. É como se três constitutivos básicos desse campo se tornassem
repentinamente articulados. A causalidade eficaz da história (Vico), o campo
destacável da Existência (Biran) ao que se complementa aquilo que penso poder
se designar como razão hermenêutica (Schleiermacher), pela qual a plenitude de
inteligibilidade quase-objetiva fornecida ao mesmo tempo por Vico e Biran se
dota de uma atualidade singular, a saber, aquela que retroage sobre a
autocompreensão do próprio “objeto”, isto é, o ser humano.
Assim a dependência
da religiosidade, mesmo interior ou não dogmática, em relação à crítica
histórica da Escritura. Ora, o que Schleiermacher constata assim é uma
dependência histórica da própria autocompreensão do ser humano, mas isso de
modo que a linguagem se torna inseparável do pensamento. Sendo, porém, a
linguagem algo absolutamente não universalizável, relativa ao saber, algo como
o “infinito indeterminado”, instaura-se uma relação circular de saber e
linguagem cujo meio é o conceito historicizado, ou a humanidade em seu devir.
Aqui a causalidade
eficaz da ação humana como que se dobra sobre si mesma e se relança num outro
tipo de causalidade, dessa vez a transcendental. Se as publicações de
Schleiermacher datam de 1799 e 1800, sendo contemporâneas dos trabalhos de
Kant, já aqui ocorre uma historização dessa filosofia transcendental que o
kantismo tornará dominante no cenário do saber, de modo que o itinerário do
pós-kantismo deve evoluir no sentido dessa historização que no entanto está de
algum modo lançada na ambiência do seu lançar-se. No entanto esse itinerário
parece relevar um sentido de minimização da relatividade implicada na
hermenêutica de Schleiermacher, de modo que o ápice dessa reflexão surge com o
Absoluto de Hegel.
O que importa reter
nesse momento é a convergência desses fatores conceituais a partir dos
personagens históricos Vico, Maine de Biran, Ampère e Schleiermacher. A questão
que se insinua é então como compreender a “ideologia” – agora utilizando o
termo no sentido contemporâneo de crítica do poder, não no sentido dos “ideólogos”
do século XVIII – que se relaciona a essa cisão no Saber pela qual a opacidade
do Ser instaurou uma região autônoma da Existência. Ora, é inevitável observar
que isso só ocorre uma vez que – e tão logo que – se processa a operação de
hegemonia pela qual a burguesia se instaura como classe dominante.
Essa operação parece
ser bem relacionável com uma cisão incontornável entre Natureza e Cultura, isto
é, entre o que se “é” por natureza e aquilo que se conquista pelo esforço, numa
ideologia de self-made-class. Não seria o “mal-do-século” um efeito colateral
dessa separação do humano e do natural, compreendendo “natural” como qualquer
horizonte de justificação transcendentemente assegurável? O ser humano se torna
aquilo que ele mesmo produziu, sua autocompreensão depende só do que ele mesmo
empreendeu, a humanidade dominou a natureza, mas se encontra só no Universo.
Ora, um vez
assegurada a hegemonia, torna-se exequível a inversão pela qual o liberalismo,
que havia se justificado pela compreensão da propriedade como bem do particular
enquanto fundamento do laço de legalidade formado pelo pacto social, pode agora
ver a legalidade mesma como fundamento de toda relação particular assinalável.
Pois essa Ação que permite instaurar um domínio de Existência é menos fortuita
do que a própria passividade condicionante do Ser. É notável a transformação de
mundo pela qual algo como a propriedade pôde ser fundamento do vínculo social,
se pensarmos na ambiência feudal em que tudo devia se basear na vontade de
Deus.
Mas esse vínculo
comportava assim um problema de legitimidade, não por não estar suficientemente
justificado, mas porque restava a questão do modo pelo qual se poderia liberar
a Generalização do particular. No outro pólo, isso se tornava incontornável
pelo fato de que só restava, como contra-oferta, a Vontade de Deus. No entanto
a Ação revolucionária não pôde se realizar enquanto não foi possível o critério
da hegemonia pela qual esse ser de classe se encarregava de valores tão
estáveis quanto aqueles que estiveram na base da sociedade estamental cuja
garantia parece ter sido inteiramente relacionada com uma ética teologicamente
informada.
E do mesmo modo vemos
que essas disciplinas que se erguem agora, a história, a teoria literária, ou
mesmo a “psicologia” espiritualista, exibem como correlato de sua emergência
uma confiança em sua quase-objetividade que as insere sem problemas na
ambiência epistêmica do determinismo de Laplace.
Aqui já se pode
observar algo daquela evolução que conduz, desse período pós-revolucionário,
àquele da emergência das ciências humanas. Por um lado temos um verdadeiro
indício dessa ultrapassagem no desacordo de Biran e Ampère. Entre ambos o que
se quer confirmar é o potencial de quase-objetividade do sentido íntimo, ou
esse novo objeto que se descobriu ao Saber. Mas a insistência mesma de Biran
sobre o caráter de fato atribuível à tendência ou esforço subjetivo pôde
ser posteriormente recuperada como sinal da índole positivista do seu
espiritualismo. Huisman-Vergez destacam a observação de Ravaisson, quanto a
isso, já em 1867, que serviu de base para a conclusão de Gouhier, pela qual “a
oposição entre espiritual e positivo” se torna apenas “um preconceito” no
momento em que Biran estabelece que “um fato não deixa de ser um fato, ao ser
definido como interior” (op. cit. P. 346).
Assim a coexistência
de um discurso do ser humano no interior dessa episteme determinista se estende
como domínio de uma pré-cientificidade paradoxal, pois não se contrapõe
absolutamente mas estende vias de ruptura e de continuidade com as ciências que
ainda estão por emergir, ao mesmo tempo em que seu exercício já tange o domínio
de áreas que estão se constituindo agora. É o que se reconhece, por exemplo,
com Niebuhr , o “iniciador” da historiografia alemã do século XIX, conforme
Chatelet, cuja história de Roma se elabora entre 1811 e 1832. Ora, a profissão
de fé desse historiador é nunca ter dito qualquer coisa, conscientemente, que
não fosse “verdadeiro”. Essa profissão de fé deveria equivaler como a caução da
legitimidade da “ciência” e das “letras”, pois, inversamente só teriam servido
para “corromper” ou “perverter”. “Objetividade historiadora”, conforme a
expressão de Chatelet, que interpreta a novidade de Niebuhr no sentido de uma
coextensividade ao “desejo de controle” que seria “característico das ciências
naturais”.
Assim, enquanto até
aqui ora se tratava o relato conforme sua verossimilhança, ora conforme a
inspiração de chefes ou heróis, ora julgando a evolução social a partir de uma
verdade prévia, conforme Chatelet, agora pressupõe-se que a verdade das sequências
históricas devem ser estabelecidas e corretamente delimitadas a partir do
próprio fazer historiador, isto é, ocorre a pressuposição de que “a verdade do
passado” surge apenas “do estudo deste próprio passado”. Chatelet completa essa
visão de que a autonomia da história se deve a uma coextensividade das ciências
naturais, traduzida em termos de uma comum “exigência de verificação”.
O que me parece
coextensivo é, sim, a transposição do meio, desde uma epistemologia da
justificativa a essa da legalidade, de modo que o determinismo se torna
enunciável como um campo estável do saber orientado para a indubitável “verdade”
– por mais relativa ou hermenêutica ela conserva a sua chave
transcendentalmente fundamentada. No entanto, não me parece que a emergência
dessas áreas “humanas”, assim como das questões envolvendo a especificidade
existencial de certas regiões, se veja favorecida por uma simples inserção no
paradigma da Natureza. Bem inversamente, creio que esses fenômenos dependem da
torção fundamental pelo que se delimitou uma inteligibilidade plena, mas
quase-objetiva, não menos verdadeira, que se torna operante epistemicamente apenas
no âmbito de uma autodelimitação frente ao domínio outro do Ser.
A partir desse
pressuposto, somente a observação do que ocorre no âmbito de cada ciência
esclarece sobre o sentido histórico de sua constituição no tempo, ao longo do
século XIX.
Mas o que se torna extremamente interessante agora é o que ocorre nessa região aparentemente inerte, entre os dois domínios considerados. Como é que a objetividade interfere com o seu “quase”, como é que, inversamente, se desenvolve um anseio por restaurar o “ouvido poético” no âmbito mesmo das ciências físicas, e em que as oposições que se instauram no interior de cada domínio devem algo de sua imposição não inteiramente nomeável a partir da especificidade,mas sim do que se esconde alhures, na exterioridade do que se pensa “aqui”. A visibilidade da região “neutra”, mais a constituição progressiva do campo novo dessa inteligibilidade Existencial devem ocupar o foco das observações subsequentes.
A plena posição do
historiador só pode ser afirmada pela constatação de uma positividade do seu
fazer, capaz de se impor sobre a forma mesma dessa atividade, a saber, a
literatura. Com efeito, a história da história encontra no século XVIII um
capítulo importante, pois se trata aqui do sentido pelo qual essa independência
do ato em relação ao seu veículo de atuação pôde ser estabelecida.
O contraste exemplar
poderia ser proposto entre Gibbon e Niebhur. Gibbon é o caso paradigmático da
historiografia literária. Carpeaux atribui à sua obra o caráter de “grande
literatura”, mas não apenas isso, permanecendo uma fonte proveitosa de consulta
historiográfica. Vitor Manoel utiliza o “declínio e queda do império romano”,
de 1775, citando o procedimento de John Ellis, como exemplo de obras cuja
origem é extra-literária, mas que se tornam, posteriormente, absorvidas pelo
público no registro da literatura.
Niebuhr, como vimos,
é o ponto de referência da História como ciência, com Chatelet, a partir de que
nele se encontra um projeto de objetividade ligado ao desenvolvimento metódico
do trabalho historiador. Gibbon é sempre citado no círculo dos teóricos
procupados com a história dos gêneros, no plano literário, enquanto Niebuhr
aparece exclusivamente no registro da história da ciência. Carpeaux, por
exemplo, não registra a sua histoire romaine.
Ao se estabelecer
como área epistêmica autônoma, a linguagem da história escapa da região
indefinida onde persistem as interseções que se desdobram na questão em torno
dos gêneros. Ora, o século XVIII representa um ponto chave nessa destinação da
hsitoriografia, pois é aí que a ruptura fundamental com o dualismo
matéria-espírito, no rumo do ultrapasamento da metafísica da substância, está
podendo se enunciar como ruptura com o fundamento dessa dualidade, naquilo em
que ele se instituiu como decisão da Ocidentalização.
Trata-se do
fundamento onto-teo-lógico patrístico-escolástico que dependeu basicamente de
uma compreensão pessimista da história humana bifurcando-se por uma valorização
super-otimista da história espiritual. Nessa perspectiva o espírito, como o que
se opõe à matéria, não tem em si o seu sentido, assim como a história não o
poderia encontrar no presente dos seus acontecimentos.
Nesse aporte
agostiniano, não é o acontecimento presente que faz ou decide o futuro, mas sim
o futuro, escatologicamente interpretado, que permite compreender o
acontecimento presente, isto é, julgar de sua pertinência à descrição, avaliar
o seu bem ou o seu mal. O sentido do espírito é a sua decisão frente à
história, mas o sentido da história é a Redenção pelo Juízo vindouro, de modo
que a decisão está entre a Queda e a Conversão.
Ora, a leitura de
Carpeaux permite assinalar que é no século XVIII que a historiografia deixa de
incluir a versão sacra para considerar apenas a história do mundo, frente a que
duas atitudes parecem razoáveis, a pessimista de Voltaire e Gibbon, ou aquela
do “otimismo progressista” que marcou a ambiência dessa época como responsável
pela descoberta do “mundo histórico” que o Barroco havia condenado, e seria
esse, conforme Carpeaux, o aporte do trabalho de Dilthey sobre o sentido
iluminador da história no século XVIII.
Mas dentro dessa
perspectiva histórica do século XVIII, já descomprometida com o dualismo
agostiniano e ainda movendo-se na indiferenciação dos gêneros, a opção pela
leitura disfórica ou eufórica da narrativa historiográfica se torna reveladora.
Ela ao mesmo tempo demarca de certo modo um limite entre a dispersão do
literário e o esforço metódico, como ainda se relaciona à dotação de sentido do
fenômeno da modernidade.
Assim Carpeaux
identifica a perspectiva disfórica de Gibbon e Voltaire na ambiência
enciclopédica da Ilustração. Uma vez que os fatos atomizados não conservam
laços entre si, o presente só se desenvolve como confluência de forças
conflitantes, o acontecimento resultando de uma pressão interna do tempo,
incapaz de se estender como lógica no limite do Outro acontecimento, ligado a
novos fatores, novos tempos.
Já a visão otimista
poderia ser simetricamente proposta no eixo da organização explicativa de uma
História pensada como inteligibilidade imanente. Ora, essa visão otimista
marcou a ambiência desse período, embasando também a transformação espiritual
que permitiu fazer da história o lugar de uma absorção utópica dos eventos rumo
a uma certa realização prometida, como a reunião das Igrejas no misticismo da
igreja espiritual ou a era da felicidade terrestre prevista pelo racionalismo
que localizava na Razão a evolução confirmada de todas as possibilidades do
humano.
O aporte místico do
otimismo se revelou de um alcance surpreendente. Ele assinala a transformação
da perspectiva espiritual do tempo a partir da ruptura com o dualismo da
história do agostinismo, de modo que a realização prometida pela história
exclusivamente espiritual convergia agora com o horizonte da história do mundo,
o que permitiu a interpretação da modernidade como um novo Gnosticismo, uma
redivinização ou sacralização do mundo, a partir do próprio cristianismo, que
teria fornecido o conjunto de símbolos relacionados à auto-interpretação da
sociedade política moderna.
A nova ciência da
política de Voegelin estendeu esse simbolismo a partir da profecia
minelarista de Joaquim de Fiori: a concepção da história como sequência de três
eras no rumo de uma felicidade perfeita, a pessoa do líder (príncipe ou
super-homem), a pessoa do profeta desse novo milênio, a irmandade de pessoas
autônomas na qual a Igreja se torna espiritual, não mais uma instituição
localizada. O texto procura reduzir os acontecimentos da história e das idéias
da modernidade a cada um desses símbolos, a utopia marxista e as idades de
Comte na sequência das Eras, etc.
O essencial é que a
auto-compreensão da modernidade teria sido liberada a partir da imanentização
da Utopia apocalíptica, ou seja, de uma transformação da concepção mesma da
História pela qual ela se dotou de um eidos, uma forma intrínseca a se
desenvolver através do tempo. Isso não me parece transgressivo apenas com
relação a Santo Agostinho ou ao cristianismo ortodoxo, mas também à perspectiva
mecanicista de Descartes, o que torna a hipótese de que todo o fenômeno
do progressismo moderno seja devido a um movimento de imanentização oriundo de
uma evolução do próprio cristianismo, algo duvidosa.
O texto interpreta o
progressivismo das Luzes, de Diderot ou d’Alembert, como uma variante dessa
imanentização que teria acentuado o componente teleológico, o movimento para a
realização, em detrimento do outro componente do simbolismo, o axiológico, que
valoriza mais o sentido do objetivo a alcançar. O utopismo seria, inversamente,
a acentuação do objetivo, ao invés do movimento. Finalmente algo que reúne os
dois componentes, estendendo-se a imanentização à totalidade do símbolo
cristão, resulta no “misticismo ativo de um estado de perfeição a ser atingido
através da transfiguração revolucionária da natureza do ser humano, tal como,
por exemplo, no marxismo”(op. cit. P. 93).
Se o progressismo das
Luzes esconde uma possibilidade reacionária, isso se deve a que, tendo
obnubilado o telos, resta a seleção arbitrária de fatores desejáveis como
modelos no movimento, enquanto no caso do utopismo o problema é a óbvia
limitação a um idealismo inaplicável na prática. No entanto, apesar de parecer
que o texto estende uma compreensão do marxismo como a via correta, o que se
pretende é considerar como falacioso todo o empreendimento de dotar a história
com um eidos. Uma vez que a totalidade da história não pode ser objeto
da experiência, o significado da história é uma ilusão.
Não obstante o texto
interpreta a modernidade mesma como o futuro dessa ilusão, uma Gnose decorrente
como solução ao problema da perda da fé que havia se tornado agudo no declínio
da Idade Média e que o Ocidente teria resolvido abraçando essa possibilidade de
sacralizar a imanência, trazer Deus ao interior da existência do ser humano.
Gnoses intelectuais de Hegel ou Shelling, volitivas de Comte, Marx ou Hitler,
escatológicas como o milenarismo de Joaquim de Fiori, em todo caso mostrando
que essas soluções que parecem tão irredutíveis possuem a mesma raiz. Uma lógica
interna do desenvolvimento político ocidental a partir do imanentismo de Fiori
e mais geralmente das heresias medievais, que se estende pelo humanismo,
iluminismo, progressivismo, liberalismo e positivismo. Mas se a história não
tem uma forma, porque a sociedade teria uma tal unidade? E de que modo se
poderia separar as transformações históricas de uma mesma lógica de
desdobramento social da história mesma? Afinal o texto conclui que existe uma
regra existencial de todo esse ativismo gnóstico, a saber, o totalitarismo, e é
essa a forma final da civilização progressista, o futuro daquela ilusão. Creio
que embutido nessa conclusão está o Apocalipse como esse outro destino
trans-histórico irredutível à materialidade dos fatos: a história do ser humano
não deve ter um eidos, mas o pecado humano tem, assim como para o seu
mau procedimento o ser humano não precisa de auxílio, permanecendo o único
responsável, mas no caso de ser boa a sua ação, então ocorre que Deus concedeu
a Graça.
Carpeaux demarca a
relação daquela dispersão dos fatos, na visão historiográfica de Gibbon ou
Voltaire, que até aqui se explicou como uma consequência do enciclopedismo, com
o cartesianismo, uma vez que nele não se admite leis científicas na
exterioridade do mundo físico-matemático. Mas Carpeaux assinala, quanto a isso
um paradoxo, pois uma certa transformação místico-platônica do cartesianismo, o
ocasionalismo de Malebranche, teria suportado uma versão otimista da história
como lugar assegurado da intervenção de Deus. Como o ocasionalismo interpreta
toda conexão fenomênica causal nos termos dessa intervenção, a história seria o
resultado natural de uma constituição de sentido sobrenatural, não tanto
“miraculosa”.
Carpeaux relaciona a
atitude de considerar o passado como progresso rumo ao presente, e por isso de
reabilitação do mundo feudal, com o progressismo otimista. Confrontando a
dispersão dos fatos dos pessimistas Voltaire e Gibbon, parece ser lícito
considerar que Carpeaux relaciona o esforço metódico, simetricamente, a um certo
otimismo. É o caso de Muratori que se caracteriza como precursor da
historiografia científica, a partir de que seu relato se torna profusamente
documentado, não mais apenas um negócio de “contar”, mas de coligir, pesquisar,
avaliar criteriosa e criticamente a aplicação das fontes. Assim, Carpeaux
localiza as “simpatias estéticas” de Muratori pela idade Média.
Isso resulta numa
certa ambiguidade de Carpeaux ao tratar Vico. Certamente uma teoria cíclica da
história não pode ser considerada “otimista”, pois não comporta o progresso sem
o retorno da barbárie. No entanto, Carpeaux não apresenta Vico sem ao mesmo
tempo situá-lo num paralelo com Maquiavel, que também apresenta uma teoria
cíclica. Ora, Carpeaux reverte o pessimismo inerente a ambos, pois Maquiavel
conjura a tendência cíclica “natural” pela intervenção do príncipe como
garantindo o Estado forte que mantém a ordem e o progresso, enquanto Vico pensa
a história sacra dos judeus como na exterioridade do ciclo que repõe estado
ciclópico de natureza, idade dos deuses, dos heróis e dos homens, superpondo-se
na mesma ordem. Sendo essa história sacra dos judeus o modelo da evolução
futura do cristianismo, entre Maquiavel e Vico se estabeleceria uma conversão
burguesa. Como Vico estabelece leis históricas independentes da natureza, sua
solução não depende de um arbítrio intervencionista, a evolução parecendo
pragmaticamente justificada . Com efeito, Carpeaux aproxima Vico de Bacon.
É bastante
interessante observar que numa interpretação oposta, José Guilherme Merquior
localiza Vico, numa convergência com Rousseau e Levi-Strauss, como evidência da
impropriedade daquela versão da modernidade como Gnose mística. Para tanto
Merquior deve considerar esses pensadores como antepostos a qualquer visão
progressista da história que pudesse legitimar uma versão legitimadora da
Ocidentalização racionalizante. O Vico e Levi-Strauss (Merquior, 1970),
é bem abrangente, pois não apenas se apresenta como crítica da versão gnóstica
da modernidade, mas contém instigantes aportes acerca de uma possibilidade
estruturalista na leitura de Vico que importa numa contribuição importante à
problemática da constituição das ciências humanas. Por esse meio verificamos
que qualquer reflexão séria sobre a história implica nessa mesma problemática
de modo que se estende como uma indagação sobre a especificidade dessas
ciências.
Merquior destaca os
seguintes pontos de convergência entre Vico e Levi-Strauss: a) a idéia de uma
lógica da imaginação, que em Vico se apresenta como os conceitos classificatórios
da imaginação e em Levi-Strauss como o caráter lógico do mito e do totemismo;
b) a idéia de contradição entre o resultado e a intenção da ação hsitórica, que
aproxima o parágrafo 110.8 do Scienza Nuova e “a apoteose de Augusto” do
Tristes tropiques; c) a idéia de uma capacidade combinatória do
espírito, em Vico, gerando “ordens” concebidas ou vividas cujo conjunto
constitui a sociedade, que estaria enunciando a noção dos códigos estruturais
que permitiu a Levi-Strauss pensar a etnologia como sendo inicialmente uma
psicologia encarregada da tarefa de compreender o “esquema conceitual”
interposto entre a práxis social total e as práticas específicas que o esquema
governa e define.
Merquior observa que
o interesse por Vico na contemporaneidade se deve, o que também comenta
Carpeaux, a Croce. No entanto, o historicismo idealista de Croce interditou a
apreensão do alcance da visão cíclica da história , ainda assim o mais
conspícuo traço na recepção da obra de Vico. Ora, Merquior pensa que essa visão
é “prefácio e complemento da denúncia de Rousseau ao culto do progresso”. Na
evolução espiritual de Vico ela teria sido “uma resposta às ilusões” da mística
de Joaquim de Flore. Mas também da escatologia de Santo Agostinho e do
prospectivismo esclarecido.
O traço de
convergência Vico / Rousseau / Levi-Strauss poderia ser
finalmente enunciado como uma crítica da cultura, algo que se enderaça
contra a “beatitude narcisista” da cultura ocidental no limiar da Revolução
Industrial que erigia seus valores como norma universal e apogeu da história da
humanidade. Mas Merquior demarca cuidadosamente os traços próprios à démarche
de Vico, pois a rejeição da perspectiva unidirecional do progressismo dessa
época não deixa de ser universalista, opondo-se assim ao “gosto herderiano”
pela diversidade das culturas, conforme a expressão de Merquior.
Esse universalismo de
Vico se choca efetivamente com uma tendência que vem se afirmando no século
XVIII, no sentido de conceituar a especificidade cultural da Nação, o que veremos
estar na origem da literatura comparada que Carpeaux localiza na historiografia
pré-romântica de Herder. Na verdade ocorre que essa época pode ser vista como o
apogeu de um processo histórico que vem se desenrolando desde a transição
feudal como construção do Estado moderno, nacional.
Carpeaux salienta
assim, através de uma comparação de Herder, Vico e Montesquieu, o progresso
verificado na ambiência do fazer historiográfico, pois nesses três pensadores
ocorre a evitação dos “anacronismos de Voltaire” por um esforço metódico no
sentido de postular condições de evolução histórica, os fatores geofísicos, em
Montesquieu, as distinções das idades, em Vico. Herder, nesse mesmo intuito,
porém, destacou o sentido espiritual dessas condições e postulou uma cooperação
entre o espírito dominante de cada época e o espírito particular de cada nação
ou raça. A expressão mais completa dessa combinação de fatores seriam as
literaturas nacionais, criando assim a história literária comparada, novo
método histórico, conforme Carpeaux, o “historismo” que domina o trabalho
científico do século XIX, “expressão máxima do espírito burguês”.
Ora, a época de
Herder ainda é o período revolucionário. Assim, essa teoria que prevê o
desenvolvimento histórico como um progresso lento e natural só pôde encontrar
acolhida no momento seguinte, quando a operação burguesa de hegemonia já estava
assegurada, e então o importante era precisamente se dotar de uma compreensão
dos fatos presentes como o estado mais lógico, natural, e estável. Os contemporâneos
só poderiam valorizar Rousseau. Mas a posteridade parece ter visto algo mais no
historismo, e algo completamente não imputável a Herder, utilizou o seu
nacionalismo cultural como substrato de doutrinas totalitárias como o
pan-germanismo ou o pan-eslavismo. Herder conservou a fé no progresso, e aqui
confirma-se a impressão de que Carpeaux vinha mesmo associando esforço metódico
em historiografia e visão otimista da história, pois ele parece concluir da
comparação entre Herder, Vico e Montesquieu, que essa fé era comum nesses
pensadores, mas que Herder apenas havia aproximado esse progresso infinito da
humanidade ao humanitarismo à evolução separada de cada meio cultural singular
ou Nação, como uma convergência, enquanto Vico e Montesquieu consideram esse
progresso mais “em linha reta”.
Vemos que Merquior
não interpreta os ricorsi viquianos numa perspectiva otimista, o que
implica a reflexão sobre o papel histórico de Rousseau. Ora, o que haveria em
comum entre Vico, Rousseau e Levi-Strauss seria o “aniquilamento da cultura”,
total rejeição do evolucionismo. Merquior considera mesmo essa perspectiva como
“neo-rousseauismo”, que teria penetrado na sociologia francesa apenas através
de Levi-Strauss quando, inversamente, ela teria sido o pão cotidiano da
kulturkritik sociológica alemã. A idéia subjacente é que a civilização gera a
entropia, a cultura não só está na rota da dissolução mas é em si mesmo
desintegradora, o ser humano dos tristes tropiques tendo se definido como “uma
máquina... aperfeiçoada...trabalhando para desagregar uma ordem original”.
A atitude não crítica
da sociologia francesa teria sido imposta a partir de Durkheim, a sociologia
alemã tendo se inspirado, inversamente, em Tönnies. Merquior rastreia a relação
de Durkheim com Comte, que, conforme a expressão de Carpeaux, teria com a “sociologia
da Restauração” de de Maistre, Bonald e Donoso Cortés, autores ostensivos da
reação, em comum a “obsessão da anarquia”, como observa Merquior. Conjurar a
desordem parece ter sido algo imperativo no período romântico da Restauração.
Carpeaux observa esse mesmo traço comum entre o romantismo político dos
reacionários alemães, de inspiração herderiana, como Adam Muller, e a
sociologia da Restauração na França. Contudo, Carpeaux mostra que há oposição
entre esses dois movimentos, pois na Alemanha tratava-se, como o qualificativo “herderiano”
já torna explícito, de um ideal da nobreza que é puramente estético e
nacionalista, enquanto na França tratava-se de princípios clássicos e
universalistas. Em comum o catolicismo e o misticismo, de modo que a oposição
não se apresenta como irredutível, Burke, o detrator mais polêmico da
Revolução, estando na confluência desses movimentos.
Merquior relativiza
um pouco seu retrato de Durkheim como um evolucionista que superestima a
solidariedade orgânica da sociedade industrial, ao propor que essa
característica seria apenas um pressuposto ideológico de sua obra que, no
entanto, apresenta força inovadora e atual. Mas na perspectiva de Merquior isso
não minimiza o fato de que a sociologia francesa permanece afastada de uma
crítica da cultura até o estruturalismo. Ora, aqui o fato principal parece ser “a
religação das ciências humanas com Rousseau”, através de Levi-Strauss, enquanto
o potencial crítico da sociologia alemã havia se garantido pela ligação com
Nietzsche.
O papel da Revolução
se torna assim ambíguo, pois me parece ser afirmável que na base do élan
revolucionário estava embutida uma visão progressista, o que o Contrato
de Rousseau poderia mesmo caucionar, uma vez que assegurava à humanidade uma
destinação justificada de sua própria constutividade social. No entanto,
Merquior acentua mais o Discurso Sobre a Desigualdade como visão
antievolucionista da história, o que, se explicitamente destacado em Rousseau por
Levi-Strauss, poderia também ser recuperado em Vico, conforme Merquior.
Merquior assinala os
limites da aproximação do estruturalismo com a kulturkritik sociológica do
panorama romântico, pois ali a crítica se associa frequentemente a uma
idealização da sociedade tradicional, do passado medieval como imagem de uma
sociedade orgânica, o que serve como ligação dessa o funcionalismo, versão
sociológica da estabilidade pela qual a estrutura social aparece como conjunto
harmonioso de sistemas funcionais, como em Parsons. A Antropologia Estrutural
de Levi-strauss seria o inverso dessa visão pois aqui os vários sistemas que
compõem a sociedade atuam uns sobre os outros de modo que a tensão entre essas
ordens não coincidentes gera a história. A estrutura não pode ser harmônica,
sua estabilidade é um fenômeno raro.
Merquior observa que
a comparação de Vico e Herder , implementada por Auerbach, continua válida, o
que pode favorecer a convergência Vico / Rousseau / Levi-strauss. Assim,
enquanto Vico pensa o momento primitivo, a idade poética, como já
institucionalizado, Herder propõe a origem como espontaneidade, estado de
liberdade instintiva sem leis ou quaisquer coerções. Ora, o que se interpõe
assim com Vico seria o mesmo que a rejeição da idéia de uma estabilidade
constitutiva da sociedade, pois a idade poética não subsiste para sempre, e a
descontinuidade, a tensão no interior da cultura, também marcando profundamente
o pensamento de Rousseau, poderia fazer de Vico um “precursor da luta de
classes”.
Ora, quando se trata
de focalizar essa convergência na ambiência de uma “epistemologia das ciências
humanas”, ocorre uma curiosa reversão desse pessimismo, que me parece informar
não apenas Rousseau, mas o próprio Merquior. O núcleo da elaboração conceitual
agora é o texto de Levi-Strauss, “Jean-Jacques Rousseau, fondateur des
sciences de l’homme” (1962).
Esse texto fornece a
convergência de Vico / Rousseau / Levi-Strauss, na perspectiva de Merquior,
através da noção axial de piedade. Com efeito, Levi-Strauss compreende o
Discurso sobre a Desigualdade como obra pioneira da Etnologia geral,
concomitantemente a Descartes ter rejeitado a tarefa de fundação de uma
sociologia por ter optado pelo início como cogito associal, comos e
fosse possível um percurso do homem diretamente ao mundo sem considerar a
sociedade.
Rousseau,
inversamente, utiliza o conceito de piedade que Levi-Strauss considera apto a
assegurar a tríplice relação da natureza com a cultura, do sentimento com o
conhecimento, da animalidade à humanidade, cada um desses binômios comportando
o percurso do primeiro ao segundo termo. O que a piedade constitui é a presença
da alteridade, a consciência do outro, não como algo decorrente de um
desenvolvimento artificial, mas como algo inerente ao sentir do ser humano.
Assim, o golpe contra o preconceito etnográfico de considerar as culturas não
cristãs ou não ocidentais como “primitivas”envolve essa noção de Rousseau que
Levi-Strauss aplica para explicar o totemismo. A piedade é o fundamento dessa
lógica do sensível em exercício no âmbito da humanidade que não pode ser
separado da socialidade, como na proposição de um conceito vazio de
subjetividade pura.
Vico utiliza a mesma
noção de piedade (pietas) como o “fundamento das nações”. Contudo, em
Vico a noção se constitui a partir de uma aproximação religiosa. Os homens
solitários criam família e sociedade pela presença da idéia de Deus, a
divindade como algo ameaçador que os compele a unir-se para proteger-se
mutuamente ou para conjurar a força desse algo sobrenatural. Vico pensa a
instituição do casamento como o sintoma desse temor religioso na base do
fenômeno social, pois esse sentimento básico de medo perante as forças do
desconhecido se transmuta na vergonha do sexo perante o Deus todo-poderoso. “Nuptiae”
vem de “nubendo”, isto é, “cobrir”, a vergonha de Adão e Eva seria o mitema
explicativo do liame social.
Merquior assinala a
convergência dessa explicação do social pela repressão da libido a Totem e
Tabu, de Freud, e observa que Levi-Strauss não se furtou a procurar
explicar estruturalmente essa obra de Freud que localiza a fundação social no
pacto instituído pelos irmãos após o parricídio. Levi-Strauss pensa que o mito
expressa algo que nunca ocorreu de fato. O que o relato mítico tem a fazer é
contra-efetuar a realidade social perene a partir da apresentação daquilo que a
ela se opõe, aquilo que ela se encarrega de fazer jamais ser , o incesto, e que
no entanto permanece como desejo.
A contraposição de
Vico a Descartes poderia também, conforme mostra Merquior recuperando a leitura
de Croce, marcar a especificidade do social e a autonomia das ciências humanas.
Ora, mesmo que a pietas de Vico se informe de uma religiosidade original,
enquanto a piedade do rousseauísmo se enderece mais no sentido de “uma
compreensão do homem que coloca o outro antes do eu”, Merquior considera aqui
um ponto de contato de Vico e Rousseau.
Em todo caso, o que
permite a Levi-Strauss considerar Rousseau como fundador das ciências humanas é
que estas seria epistemologicamente determinadas por essa idéia de alteridade
constitutiva. No entanto, o que o estruturalismo institui como episteme
revolucionária é a substituição do modelo intuitivo de verdade, o critério
cartesiano de evidência imediata, por uma busca do significado além de qualquer
imediatidade. A compreensão dos fatos depende de algo oculto, surgindo como
resultado de um conjunto de operações lógico-interpretativas. Isso abarca ao
mesmo tempo a ultrapassagem do senso comum e as estratégias do descentramento
ideológico.
Conforme Merquior,
Vico parece ter consciência desse ocultamento fundamental, pois a oposição ao
método cartesiano já se propõe em suas pesquisas etimológicas, de modo a
resgatar o sentido oculto. Aqui Merquior realiza uma espécie de mapeamento
geral do saber humano de sua época, pois mostra que ele se estava
caracterizando por uma clivagem fundamental entre o neo-rousseauísmo
estruturalista representado por Levi-Strauss, Heidegger, estendendo-se a
Chomsky , e o neo-cartesianismo fenomenológico representado por Husserl,
Merlau-Ponty e Paci. Como o traço fundamental do estruturalismo é o ocultamento
do sentido, ele de algum modo pode ainda ressoar com o construtivismo
epistemológico de Peirce, que Max Fich havia mostrado ter sido antecipado por
Vico, que Merquior mostra também explicitamente associado ao estruturalismo por
Leach.
Atualmente o
estruturalismo não apresenta a característica de uma quase consensualidade,
como ocorria na década de setenta. Concordo com Merquior quanto à hesitação
frente a uma “existencialização” do cogito, seja ele epistemológico ou
cartesiano. Mas creio que uma aproximação muito radical de Heidegger com o
estruturalismo minimiza precisamente o que há de extremamente importante na via
da Existência como oposta, ou autônoma, em relação ao Ser, de modo que o dasein
heideggeriano procura recuperar a existencialização dentro da noção abstrata de
ser, transformando inteiramente seu sentido.
Assim a questão das
ciências humanas não precisa prescindir de sua complexidade, pois ao mesmo
tempo que essa oposição demarca a possibilidade do seu emergir, o efetivo
exercício dessas ciências não pode se traduzir como simples coextensividade a
essa possibilidade mesma, mas recobre uma série de relações complexas com a
objetividade. Heidegger considera, por exemplo, a teoria científica da
linguagem o mesmo que a técnica dos foguetes, isto é, ele considera que as
ciências humanas enquanto cientificidade se afastam frequentemente do pólo “existência”
para investir sua legitimidade à sombra do modelo da natureza, o pólo que
designo “ser”. No entanto, o resgate da alteridade pode bem ser interpretado na
proximidade do existir, sendo no entanto, redutor pensar que apenas o
ocultamento formal do sentido pode valer como estratégia anti-ideológica. Seria
preciso perguntar antes sobre essa possibilidade mesma, das ciências humanas
emergirem como discurso isento de ideologia.
Não embuti tal
premissa na interpretação da oposição ser/existência como constitutiva da
episteme contemporânea, cenário de inclusão do exercício das ciências humanas.
A tarefa é bem complexa, pois trata-se de procurar ver em que aspectos a
ideologia mesma se contra-efetua, em que sentido ela é constitutiva, como essa
clivagem orienta as oposições, de modo que não se pode simplesmente, por
exemplo, associar uma oscilação ao pólo “ser” ao recobrimento ideológico maior
do discurso. A questão é quando e onde ocorrem quebras do “discurso”, isso
mesmo que poderia traduzir uma prática de saber como ideologia.
Algo dessa polêmica
envolvendo a estrutura, por exemplo, ressurge na oposição Chatelet– Veyne a
propósito da história, o que em Veyne se explicita como uma problemática
envolvendo as ciências humanas na totalidade. Lembrando o que já examinamos a
propósito da perspectiva de Chatelet, o fundamental é sua idéia de que história
significa um fazer que lida com o passado mas que está inevitavelmente atado ao
presente, nele o “fazer” contraefetuando-se , por anular a distância de que o
discurso se revestia na delimitação conscienciosa de si como erudição e como
Saber, logo por anular o efeito ideológico de sua miragem –atemporal,
recuperando-se na enunciação do seu presente, como força destinada a
alterar as condições, precisamente, históricas.
Chatelet pensa assim
que muitas questões surgidas no devir desse fazer da história não valem tanto a
pena ser recompostas – como as oposições explicação/compreensão, estático
sociológico / dinâmico evenemencial, por exemplo. Inversament, Paul Veyne
procura destacar a História como lugar de aplicação das ciências humanas a
partir do momento em que qualquer cientificidade nesse campo se assegura por
uma atitude não narrativa e passiva como aquela dos leitores comuns dos
jornais, mas sim explicativa e singular. Ora, não há fato que já não seja
interpretação, como se sabe desde Nietzsche, o que transforma ao mesmo tempo o
problema da verdade e o foco disciplinar, pois apenas a vocação do inventário
permite localizar a história que, para todos os outros efeitos, é sociologia.
Assim temos aqui a
confrontação de três conceitos: a história narrativa, a evenemencial e a
História. O narrativo não é a História, é pré-ciência, gênero literário. O
evenemencial (evenement = acontecimento) é o lugar do histórico, mas não se
confunde com a História. O evenemencial é a manifestação científica que supõe
uma competência como cientificidade. A História, finalmente, é o não-dito, o
impossível de dizer que a cientificidade des-interditou. Nem toda manifestação
é, porém, evenemencial strictu sensu. Opõe-se o acontecimento, esse ou aquele
fato histórico, às focalizações de longa duração, mas nesse domínio permanece
em comum o fato de realizar o que não se diz, a atitude que, inversamente à
narração passiva, delimita o interior da disciplina, cumpre o que o historiador
pretende, isto é, fazer o inventário completo do passado, resgatar o “gosto”
inerente ao fato registrado, singularizando o acontecimento.
A manifestação
salvaguarda o histórico, a disciplina “história”, mas a competência devolve ao
mesmo tempo a cientificidade, enquanto humana, e a sociologia enquanto centro
de convergência do que se pode designar as ciências políticas. Os historiadores
não podem se debruçar sobre um fato –guerra ou cidade – sem uma teoria
sociológica implícita que define o campo de atribuição desses conceitos. Ora, o
que a História conceitualiza a partir de uma sociologia constitutiva de sua
atividade é o invariante que permite explicar os acontecimentos, atuando sobre
variáveis. A história não pode ser de indivíduos, de sujeitos, mas da
singularização dos fenômenos através da invariância, por exemplo no marxismo,
em que a luta de classes, o modo de produção, a ideologia e o Estado como
instrumento da classe dominante atuam como invariantes que esse ou aquele
Estado, esse ou aquele estágio das forças produtivas, etc, são as variáveis
locais.
No entanto, a
localização desse núcleo de cientificidade está mais para Foucault do que para
Marx, pois não se trata de uma redução determinista da estrutura, e sim da
maior pluralidade na via da escolha de problemáticas, de modo que a única coisa
que não está implicado é a continuidade, o quadro didático “narrativo”. Pode-se
mesmo individualizar os fatos sem essa moldura. Por exemplo, escrevendo-se uma
história cujo sumário, ao invés de apresentar, “Roma”, “A Idade Média”,
trataria “Da profissionalização da economia”, “do poder por direito subjetivo
ao poder por delegação”, etc., aqui Veyne fazendo referência a Le Roy Ladurie
que havia tido essa idéia. Veyne enfatiza que o termo invariante pode se
compreender como “estrutura”.
O que essa idéia
permite apresentar é a surpreendente noção de repetibilidade histórica, o único
fator que permitiria saber o que é história e o que é sociologia – ambas
escrevendo a mesma página, aquela por exemplos, esta pela teoria subjacente.
Essa repetibilidade não se depreende da realização. O livro de história já não
se distingue muito de uma obra sociológica. A repetibilidade tampouco repõe
qualquer possibilidade “cíclica”, mas sim a decalagem da variação ao
invariante, do esquema às suas atualizações, da explicação às diferenças. O que
reconstitui a inteira problemática do estruturalismo. Na perspectiva de Veyne,
trata-se de nesse ponto inverter exemplarmente o intertexto, isto é, o artigo
de Chatelet que vinha atuando nos bastidores como aquilo que se estava a “superar”.
Então agora o récit
chega ao seu ápice mostrando que a verdade não é o mais elevado dos valores do
conhecimento, enquanto Chatelet “iniciava” o artigo sobre a história no volume
de ciências sociais de sua História da Filosofia com Niebuhr e a
cientificidade definida na proximidade do verdadeiro. Como Leibniz afirmava,
Veyne constata que aquilo que expôs sobre a História informa um real “rodeado
duma zona indefinida de compossíveis não realizados” (O inventário das
diferenças, p. 42). No entanto, bem inversamente á conclusão de Leibniz
isso não significa uma determinação do mundo por Deus e sim a liberação do Jogo
da máxima inteligibilidade no fazer do humano.
Creio ser possível
observar nessa reversão de Leibniz por Leibniz a vocação mais própria das
Ciências Humanas, sua Transgressão originária como traição do discurso
filosófico, isto é, sua mais completa “tradução”. Esse texto de Veyne como que
se reporta à interlocução da problemática estrutural justamente por ter, na seu
otimismo aparente, suscitado o complexo lacunar que interfere com a temática
das ciências humanas no seu posicionamento contemporâneo.
Essa problemática se
relaciona ao fato de que talvez o estruturalismo não seja mais que uma “controvérsia”,
em vez de ter essa controvérsia se configurado apenas no âmbito do seu
ultrapassamento, na dobradura do seu “pós” Utilizo as notas reunidas por
ocasião de um encontro de pesquisadores a propósito do estruturalismo visado ao
modo de um problema, não como uma resposta, ainda que o subtítulo pudesse ter
sugerido o desejo de manter o estatuto desse movimento como uma via às “linguagens
da crítica” na região das “ciências do homem”.
Inicialmente creio
ser importante mostrar que Michelet, que havia atuado como pivô na polêmica
sub-reptícia de Veyne com Chatelet, retorna agora para resituar toda a questão
da história. Com efeito, em Chatelet o papel de Michelet era o de instituir o
momento no qual a objetividade assegurada com Niebuhr se transmutava na
intervenção, no fazer paradoxal do historiador como agente da história.
Chatelet recuperava assim, sem explicitar, muito do movimento conceitual que
envolve o século XVIII, notadamente a causalidade eficaz como ato humano (Vico)
e a circularidade do saber, da linguagem e da história (Schleiermacher). Veyne
arrola Michelet com o narrativo jornalístico, a passividade do senso comum.
Pois para Veyne não teria sentido um intervencionismo que ignora o trabalho do
conceito. Assim Michelet, escritor da transição, entre os séculos XVIII e XIX,
aparece como o pivô da polêmica mesma que cercou o estruturalismo, a sua
renúncia de toda livre interação, a sua opção pela opacidade do Signo – ainda
que Veyne tenha se esforçado por mostrar que essa monstruosidade era só
aparente, que se tratava na verdade de uma sujeição quase que banal.
Na Controvérsia
Estruturalista Michelet aparece no pronunciamento de Barthes, ilustrando
algo que penso ser importante aplicar nesse contexto de compreensão da
emergência da história no terreno da cientificidade. Ocorre que não se deve
relacionar essa emergência no sentido de uma simples transposição de gêneros,
por exemplo, como se até um certo momento a história houvesse sido um gênero
literário narrativo e de repente ela começasse a se apresentar como um gênero literário
explicativo que só por isso autorizaria a substituir esse grifado por “científico”,
para todos os efeitos práticos. O literário teria sido conservado
extrinsecamente, ele teria se transposto do linguístico ao metalinguístico
assinalando com isso, um tanto jocosamente, a mudança de departamento do
produto, dos estudos de “letras” para o de “história” ou “ciências sociais”,
enquanto que na onipresença do literário pós-desconstrução à Paul de Mann, o
produto retorna como “a coisa” a classificar.
Muito inversamente a
esse vicus of recirculation – a referência de Joyce a Vico no Finnegans
Wake – trata-se de constatar o que é que determina a cientificidade inerente a
essa textualidade, algo que precisamente não deve estar no texto, ou então é o
caso de tudo ser literatura e retórica, mas na “atitude” ou no método, para que
se trate então de ciência. Ora, Barthes ilustra com Michelet a duplicidade do
sistema temporal estudado por Benveniste em muitas línguas, especialmente no
indo-europeu. Há assim um sistema temporal em que a temporalidade do discurso
se adapta à do falante, a enunciação sendo o momento gerador. Há também o
sistema “narrativo”, que se adapta ao relato de eventos passados, sem
intervenção do falante. Barthes exemplifica. Enquanto “clássicos de estória
popular e a história da França recontados nos livros escolares” se apresentam
nessa temporalidade puramente “narrativa”, um romance de Camus ou a história da
Revolução de Michelet são exemplos de textos naquele outro sistema temporal.
Michelet se identifica
com o ponto em torno do qual todo o discurso gira, assim como o Estrangeiro de
Camus encena uma autobiografia. Trata-se aqui da relação entre o falante e sua
enunciação. Michelet não seria histórico se identificássemos esse rótulo com um
gênero explicativo puro, onde costuma-se encenar uma linguagem sem relação com
o enunciador, o clássico manual escolar. Mas, apesar das restrições de Veyne,
ele pode constar como historiador a partir de uma atitude exatamente
oposta a essa perspectiva, intervencionista, como sugeriu Chatelet, ou
simplesmente “inventariante”. A questão que resta porém, e que Veyne soube
tornar incontornável, é a da articulação entre o inventário e a invariância.
Essa problemática se torna explícita no pronunciamento de Derrida.
Ora, Derrida constrói
a sua argumentação precisamente em torno do trabalho de Levi-Strauss.
Inversamente à oposição de Rousseau, alinhado com o estruturalismo e oposto ao cogito
cartesiano e/ou fenomenológico, Derrida mostra que Rousseau e Husserl
mantém em comum com Levi-Strauss a necessidade de pôr de lado todos os fatos no
intuito de recapturar a especificidade da estrutura, e seria esse o sentido de
Rousseau precisar conceber a origem de uma estrutura, na ruptura com a
anterior, a partir do modelo catastrófico do Discurso, isto é, apelando
para a natureza e as intempéries, trata-se de opor a continuidade ao acaso e ao
descontínuo que cercam o estabelecimento de uma estrutura na sua
irredutibilidade ao narrativo, ao linear. Ora, isto equivale, conforme muitas
vezes se antepôs e conforme Derrida concede, a uma neutralização do tempo e da
História, contrastando-se assim essa questão, central na polêmica estrutural
contemporânea, com a tranquila identificação desse mesmo proceder como traço
distintivo da História, em Veyne.
Não me aprece que
Veyne não tenha tido boas razões para confiar nessa identificação. Recompor o
movimento desse texto de Derrida aos trabalhos de Foucault e ao pós do
estruturalismo poderá evidenciar esse fato.
Derrida entrelaça os
temas do fim da metafísica, da emergência das ciências humanas e de estrutura
centrada. Ora, todas esses “avant la lettre” da estrutura, as tentativas
de localizar o estruturalismo não nomeado no passado filosófico, se reúnem sob
o fato de que uma estrutura com um centro é o mesmo que episteme, discurso,
filosofia ou metafísica e tão antigo quanto essas démarches. Derrida se demora
nos paradoxos da centralidade, mostrando que através da história da metafísica
a impossibilidade de nomear o centro se demarcou pelas estratégias de
substituição desse lugar funcional cujo papel sempre havia sido o de se opor à
totalidade, a estrutura mesma. O centro salvaguardava a livre interação no
interior da estrutura uma vez que ele mesmo estava imóvel (interdito, proibido,
inomeável) e garantia a sua inteligibilidade plena enquanto estabilidade
auto-assegurada.
A história da
metafísica vinha sendo a série de substituições do centro enquanto presença,
eidos, arché, telos, energeia, ousia, aletheia. No entanto o Evento que suporta
o récit derrideano é uma ruptura com essa estratégia de centralidade,
quando ela mesma se torna pensável, logo substituível pelo tema da
estruturalidade. Repetição localizada contrastada com a destituição do Sentido,
pois agora a substituição não substitui sem se substituir pelo processo. O
substituinte não ocupa o lugar como o centro, ele é visto como o papel de uma
função de estruturalidade plena. Derrida identifica o Evento como o momento de
conversão da filosofia da consciência para a problemática da linguagem, isto é,
quando ocorre a falta do significado transcendental, pois tudo se torna sistema
ou linguagem ou estrutura.
Derrida mostra que
esse momento é de uma intensa atualidade. Ora, ele têm sido rastreado como o
relato do fim da metafísica em Nietzsche, Freud ou Heidegger, mas o problema
aqui é que a metafísica pareceu ter exibido o estranho poder de não ser
superável pela simples decisão humana, uma vez que “todos esses discursos
destrutivos terminam prisioneiros de uma espécie de círculo”, a saber, a linguagem
mesma da metafísica de que se servem seus detratores mas o caso é que não há
Outro da linguagem pelo que se poderia meramente expressar qualquer coisa.
Uma dessas aventuras
destrutivas consiste justamente nas Ciências Humanas, e poderia ser descrita
como a aventura do Signo. Ora, o conceito de signo se determina pela oposição
do sensível e do inteligível, do significante e do significado, mas a sua
inserção metafísica consiste em que o funcionamento é uma estratégia de
apagamento dessa diferença, seja pela redução do processo ao significado ou
pensamento puro, seja pela tentativa de ignorar a oposição quando,
paradoxalmente, não se pode fazê-lo sem já estar opondo. Assim a Etnografia
nasce no momento em que a cultura ocidental européia foi deslocada como a
referência universal da inteligibilidade, no momento em que a pluralidade
cultural constitutiva se tornou incontornável. Mas por mais que queira,
conforme Derrida, o etnólogo não pode rejeitar todas as premissas do
etnocentrismo no momento mesmo em que as denuncia pois elas estão embutidas no
seu discurso que repõe insistentemente o legado da metafísica ainda que as
Ciências Humanas se constituem na tarefa de destruição desse inconveniente
passado.
Ora, o exemplo de
Levi-Strauss não poderia ser melhor aplicado, pois o que ele, enquanto
etnólogo, estava procurando era um meio de contornar a oposição
natureza/cultura pois não havia como torná-la aceitável no âmbito desse projeto
contra-etnocêntrico, justamente uma oposição assim, tão manifestamente construída.
Todavia, intervém o escândalo, e Levi-Strauss constata que essa oposição é
universal como a interdição do incesto, e mais, ela é uma oposição
universalmente paradoxal pois parece exigir por essa cosntância, ao mesmo tempo
os atributos de natureza e de cultura: é onipresente, portanto deve ser
natural, mas se exerce como fundamento do liame social, portanto é
manifestamente um fato, “o” fato da cultura.
Derrida observa que
isso só tem caráter de escândalo no interior de um sistema de conceitos que sanciona
a diferença entre natureza e cultura. Ora, o que me parece constatável aqui é o
escândalo desse escândalo, pois essa constatação surge como o mais inesperado
quando ela já havia sido “constatada” desde o início, como vimos ser o caso em
Freud, e principalmente pelo fato de que ela não confronta a consequência de
que, sendo assim, a nossa sociedade seria o caso anômalo em que essa proibição
deixou de ser constitutiva no momento em que ela se tornou nomeada no esquema
do inconsciente edipiano.
No entanto,
independente dessa observação, o que Derrida mostra é que Levi-Strauss, ao
contornar os efeitos desse paradoxo através da relativização do valor-verdade,
na estratégia científica, em proveito do método. Conserva-se a oposição
inaceitável porque ela é metodologicamente útil, ainda que não ontologicamente
válida. Derrida assinala assim que esse procedimento crítico da linguagem das
ciências humanas sobre si mesma é um meio eficaz de ruptura com a metafísica.
Parece-me assim que Derrida identifica a positividade de um procedimento
oblíquo contrastando-o com as tentativas de ataque frontal como aqueles
exemplificados no início com Nietzsche e Heidegger.
Ora, esse
procedimento se estende à problemática de estrutura versus história. Se a
estrutura é o jogo do Signo manipulado pelas ciências humanas, cuja
cientificidade se assegura pela consciência mais precisa dessa manipulação –
elas se constituem manipulando, ou seja, reduzindo o campo intotalizável do
empírico ao traçado de uma gramática, à sintaxe que o opera – a história é o
suplemento do signo, é da ordem da intotalização tanto pela abertura ao devir
quanto pela não-centralidade do seu jogar (ser lançado). Ora, a história está
para a estrutura como a significação está para o signo. No entanto, a significação
se tornou assim a razão suplementar, de modo que todo o pensamento se
tornou derivado, dependente do regime significante, sempre em excesso,
flutuante – isto é, suplementar, com relação ao que ele significa. Aqui incide
a crítica de Derrida a Levi-Strauss,
A livre interação
como repetição do jogo no empírico da história provoca uma tensão conceitual,
se compreendo a colocação de Derrida, entre “livre” interação, história e
presença, porque a história não seria nem livre nem contínua, dependendo da abrupta
emergência da estrutura – aquele Momento cuja captação por sobre a ordem dos
fatos fazia toda a convergência de Rousseau a Husserl – e se constata assim que
esse jogo se lança entre presença e ausência, de centro como do sentido mesmo
do percurso recuperável de sua continuidade. Ora, Levi-Strauss manifesta uma
nostalgia das origens, uma ética da presença, contraditória com seus próprios
resultados.
Levi-Strauss
interpreta como perda do centro, ocidentalização contra-natura, o que Derrida
pensa como não-centro que torna o jogar extremamente feliz – afirmação do
acaso, como em Nietzsche, isto é, da potência. Assim Derrida identifica no
interior das Ciências Humanas duas tendências, uma que a fecha sob o discurso
da metafísica e se endereça a uma intenção de recuperação de uma Origem livre
da “livre interação” ou o que poderia ser uma livre interação autêntica
presumida como tendo existido algures, e aquela que celebra a impossibilidade
dessa origem, que afirma a livre interação como a superação da “carga” humana
que seria justamente o anseio metafísico da presença, da totalização do jogo. O
quanto essa carga marcou a humanidade parece estar evidenciado pela hesitação
em atribuir uma possibilidade a-histórica de escolha: trata-se,
parece-me, da gestação do futuro.
Esse pronunciamento
de Derrida me parece singularmente a propósito para tratar a questão histórica
do ponto de vista do que seriam os folhetos desse estrato designável o Hoje.
Assim, ele ressoa com o problema da Alteridade, tratado por Lacan nesse mesmo
encontro. O que se inter-põe como linguagem ao sujeito é aquilo que define a
região do inconsciente. A linguagem – da mesma natureza do português ou do
inglês – é sempre Alteridade e é por isso que o sujeito não “começa” como uma
unidade frente a um outro, mas como dois, um movimento de Repetição que apaga o
que o sujeito repetiu. No entanto o sujeito aparece como um objeto perdido, a
constituição do sujeito é a introdução de uma perda na realidade. Isso porque a
realidade é o pleno, a linguagem que se completa a si mesma, o sistema do
signo.
O significante não
representa o sujeito para outro sujeito, mas para outro significante. O signo
sim, representa algo para alguém, mas como também Barthes observou, se alguém
não é a não-pessoa (o “ele”), permanece como o indefinido. Assim nos dois casos
o sujeito não se encontra (= perda). O círculo da alteridade, da esfera da
linguagem, faz do sujeito o evanescente que percorre o círculo significante
onde não tem lugar. O desejo desse sujeito evanescente que anseia por se
reencontrar só pode ter por objeto o fantasma, (objeto perdido), o desejo tendo
se tornado a metonímia da significação, logo, o que se interpõe entre o sujeito
e o objeto é a estrutura mesma – sua totalidade.
O gozo (jouissance)
do sujeito se limita pela sua natureza – ninguém pode ir além do que lhe é
suportável mesmo quando se trata de prazer. Mas a cisão do sujeito e do objeto
pela estrutura, a alteridade como totalidade que se inter-põe a cada realização
empírica de sua linguagem ou do seu prazer, é essa impulsão do desejo, sua
evanescência, o anseio pela coisa definida pelo fantasma – isso é o que impede
que o ser humanos seja simplesmente Inércia. Lacan vê aqui o sentido valioso
oferecido à nossa vida – mesmo que esse princípio seja mais o do (des) prazer.
Ora, é exatamente
essa relação entre Alteridade e Totalidade que me parece importante para
resgatar a compreensão das rupturas interpostas entre Rousseau, Kant e as
Ciências Humanas. Assim, penso poder também localizar a transposição de um
estruturalismo que põe o funcionamento como um processo de ventriloquismo,
contraposto ao da bricolagem, ambos não sendo o que se enuncia com a sua “superação”
.
Rousseau,
inicialmente. É interessante que um texto caracterizável como sendo “sobre a
desigualdade” tenha se intitulado “discurso”, enquanto aquele que seria “sobre
a sociedade” tenha vindo a designar-se “contrato”. A desigualdade se
expõe como uma história, o contrato é um ato sociológico. Ora, a piedade parece
marcar o momento de encontro, o fundamento dessa partição. Porque o que
interesse de noções como mana, Wakau, oranda, na perspectiva de Levi-Strauss,
era o fato de serem ao mesmo tempo força e ação, qualidade e estado,
substantivo e verbo, abstrato e concreto, onipotente e localizado, ou seja, ao
invés de uma palavra na livre atuação da linguagem comum das sociedades
tradicionais consideradas, esse termo designava uma função semântica, que
deveria assegurar ao pensamento simbólico sua operação mesma a despeito das
contradições que o caracterizam. Penso que se pode afirmar que o funcionamento
ou o emprego dessa palavra funciona como a metonímia do sistema simbólico que
em que ela encontra o sentido. Ora, esse termo e esse funcionamento se encontra
no sistema de símbolos constituídos por todas as cosmologias, e Levi-Strauss o
identifica como o valor simbólico zero, análogo ao fonema zero que Jakobson
havia contraposto à ausência de fonema.
Mas não se poderia
observar aqui um certo regime de alteridade? Ao invés de uma correlação da
natureza como uma totalidade oposta à cultura, haveria uma noção de não-outro,
que transporta a alteridade para dentro do sistema simbólico ao mesmo tempo em
que o sistema simbólico, como Autor do relato cuja Cena é a origem de certa
comunidade como uma comunidade de cultura, se encarrega de proscrever aquilo
que ele não é, a “natureza” ou exterioridade. A natureza mesma é algo ambíguo,
portanto, pois ao mesmo tempo é o que complementa a cultura, o conteúdo do
símbolo, e o que deve permanecer na exterioridade, seja como o conjurável
(conjurado pela cultura, pelo símbolo), seja como o que conjura (o
Sobrenatural, o Poder que informa o valor zero).
Assim Rousseau ainda
é o ser humano desse complexo que o Ocidente só desloca por uma reversão total
desse regime, ali onde a Alteridade se interpõe como Totalidade, mas não entre
a natureza e a cultura, e sim entre o empírico e o transcendental o ser e o ato
de ser que é o outro do ser. A piedade é assim, no discurso
o que há de mais
natural, como se o outro estivesse antes do eu, mas como essa piedade se
verifica até nos animais, observa-se que esse “outro” é coextensivo ao eu no
espaço de uma mesma dotação de sentido. Assim, quando se trata do ato
constitutivo da sociedade, a alienação – que deveria ser a alteridade – se transforma
em religião civil, ou seja, assegura-se o retorno do Mesmo na coextensividade
do sentido.
A observação do que
ocorre na compreensão da História com Kant mostra o quanto esse quadro se
reverte pela causalidade transcendental. Ora, aqui é preciso inicialmente
convir que o ser humano é Mau. O que parece contradizer a expectativa da Razão
Prática, pela qual a Liberdade não mais necessita do apoio de qualquer
exterioridade e se garante pela Lei Moral inscrita na própria Vontade. No
entanto, se Nietzsche deverá opor a vontade de domínio à autêntica Vontade de
Poder, quando se tratar de algo irredutível à localização do kantismo, Kant
está opondo algo que se poderia designar a vontade da lei ao que seria a
vontade de exceção. O ser humano individual é mau, ele é inevitavelmente guiado
pela vontade de ser a exceção à generalidade que o constitui pela lei moral. No
entanto, a história é o espaço do encontro, aí onde necessariamente ocorre a
limitação de vontades, umas por outras, aí onde se é determinado a convir.
Individualmente mau, o ser humano é coletivamente bom, numa fórmula
simetricamente inversa à do discurso de Rousseau.
A história se torna
algo duplo, podendo ser conceituada do ponto de vista filosófico ou do ponto de
vista propriamente disciplinar. Filosoficamente a história se inteligibiliza
conforme uma idéia prática, conforme a exposição de Marco Zingano (Razão e
história em Kant). Idéia cosmopolita, a lei moral sendo a universalidade
que unifica a multiplicidade do desejo, lembrando que essa multiplicidade não é
como que uma possibilidade contornável, mas o modo mesmo de desejar. A unidade
é então composição de um sistema sobre o que se põe à disposição.
Ora, Deleuze procedeu
a aproximação da Alteridade entre Kant e Rimbaud, mostrando que na síntese da
razão pura já se encontra assegurada a separação entre o “je” e o “moi”, pois o
“je” é um ato, a operação de uma síntese do tempo e do que ocorre no tempo, de
modo a estender a cada instante o passado, o presente, e o futuro, enquanto que
o “moi”é o passivo, o receptivo, o eu empírico que experimenta mudanças no
tempo. Rimbaud, autor da fórmula que poderia, conforme Deleuze, tão bem
enunciar essa concepção do kantismo, “je est um autre”, contudo, já situa a
perspectiva da alteridade na ambiência do aristotelismo, pois o que Rimbaud
opõe é a matéria e a forma, como se houvesse uma inocência na matéria, uma
indiferença à forma.
Mas o que percebo
dessa forma vazia, é que, apesar da irredutibilidade das duas críticas, assim
como a operação do entendimento e a da vontade, assegurar paradoxalmente a
unidade do kantismo, há algo comum ao tempo e à lei, uma independência do
objeto como do mundo e da natureza. Mas o que poderia tornar a “natureza” como
exterioridade algo inteiramente destituído de sentido, para inversamente tornar
“natureza” como uma inteligibilidade, contraposta ao caótico dos dados
sensíveis, sendo Razão, vemos que seu exercício não torna a vontade
independente da história, ainda que sem correlação com o objeto, mas
inversamente, a torna formalmente a enunciação da lei dessa “história” . Logo,
o vazio é a forma da totalidade social que reparte o sujeito e o objeto, o bem
e o mal.
A forma vazia é o
descentramento do sujeito, e aqui penso estar sendo enunciado o princípio da
estrutura enquanto modo de ser atuado pela sociedade a partir do contexto da
operação de hegemonia burguesa. Uma sociedade como a do Antigo Regime não
poderia se interpor como totalidade à “intromistura” do sujeito, conforme a
expressão de Lacan, porque nela a classe não se determinou pelo ato de sua
instituição “sobre” o reino dos fatos, “sobre” o passado, “sobre” o discurso.
Assim Foucault localiza nesse momento inaugural da epistemê contemporânea, ou
da modernidade no pós do clássico, a quebra do discurso, a entrada na linguagem.
A totalidade dessa sociedade que se instituiu por um Ato não-contratual, mas de
posse integral de sua Inteligibilidade, é agora Alteridade, o Outro é a
estrutura não metonimizada pelo sentido passivo, pela livre interação do
Sujeito. Também não é o “je”, que se põe, a Tese do si na sín-tese do devir,
mas a forma que se inter-põe.
Esse estruturalismo
se torna mais ou menos inviável, como um folheto abaixo, no momento em que a
estrutura, que agora é causalidade transcendental, se deve tornar virtual, com
Marx, assim como observado por Althusser e colegas. Então trata-se do
ventriloquismo da estrutura, e aqui é interessante retornar ao problema da Voz
Média, abordado por Barthes. Conforme esse aporte, Benveniste teria retomado a
oposição de Panini acerca das vozes ativa e média, com o exemplo do sacrifício:
na voz ativa o sacrificador o faz por outro, como sacerdote, na voz média, quem
sacrifica é o ofertante mesmo. Barthes procura assinalar o movimento da
literatura atual – “experimentalista” como em Robbe-Grillet – que consiste em
transformar o verbo escrever, de algo que vinha sendo enunciável na
transitividade do ativo, em algo intransitivo, como na voz média. Essa
intransitividade tem a ver, ao mesmo tempo, com a apropriação do escrever pelo
escritor e com a transformação do escrever em um meio de contestação da
subserviência do pensamento ou da existência ao Signo que se assegura na
ideologia mesma do código.
Barthes mostra assim
que a literatura contemporânea apresenta o esforço no sentido de marcar a
irredutibilidade entre a pessoa psicológica e o autor do texto, entre o “eu”
que narra e o “eu” que é narrado, liberando assim o que os linguistas
Damourette e Pinchon designaram o recurso a uma ocorrência de linguagem para
determinar a pessoa, o nun-egocentrismo. Trata-se, a meu ver, de uma estratégia
para subverter precisamente aquele efeito ideológico elementar, conforme a
colocação de Althusser, a miragem do sujeito gerada pelo presente da
interpelação, isto é, pela estrutura da linguagem na pragmática da
interlocução. O num-egocentrismo (num=agora) é um recurso que assegura a
impossibilidade do discurso ser “um lugar em que uma pessoa previamente
depositada é inocentemente restaurada”, conforme a expressão de Barthes que
exemplifica com o “Je suis seul ici maintenant” de Robbe-Grillet em Dans
le labyrinthe.
Ora, no caso do
ventríloquo, de que lado deveria estar o que fala por si e o que fala pelo
outro? O boneco fala pelo manipulador, que fala por si, ou o boneco fala por
si, enquanto o manipulador fala pelo boneco? No exterior de qualquer
estratégia, o indivíduo é o boneco manipulado na medida que sua manifestação
não pode ser dada como algo mais ou salvaguardado de um efeito da estrutura. No
entanto, é a própria estrutura que só existe na recirculação de seus
agentes-atores.
No entanto, Nietzsche
fez do lance de dados uma afirmação do acaso, como uma afirmação do jogo,
furtando o virtual dessa imagem do ventriloquismo. Parece haver aqui a
confluência do descentramento, não mais no sentido de que uma classe engendrou
no seu fazer o seu duplo, a outra classe – o descentramento em relação ao
transcendental estando na proximidade da entrada em cena do proletariado. Aqui
as Ciências Humanas emergem como o descentramento mesmo da Cultura, que
Establet, utilizando Bourdieu, mostra ser um sinônimo idealista da noção de
formação social como um todo abrangente, quando a oposição pertinente deve
envolver cultural e social. (Revista Tempo Brasileiro : 36 / 37. A
história e os discursos:Establet, R. Cultura e Ideologia.
Assim, teríamos, ao
invés de um conceito de cultura como o de Benedict, que define o termo como a
forma de uma sociedade, logo, como sua unificação por valores dominantes, o
discurso monstruoso do culturalismo, uma crítica da cultura como oposta à
sociedade de modo que se põe de um lado o social, a estrutura, os níveis, as
relações de força, o significante, e por outro, o cultural, as relações de
sentido, o significado. Por exemplo, a consumação conspícua de Veblen não se
explica apenas pela sociedade como exigência ampliada da reprodução do capital,
ou seja, não se trata apenas de atualizar uma prática econômica, mas de
expressar o pertencimento a um grupo que se opõe a outro.
Com essa oposição é
possível lidar com o conflito cultural de modo a observar, por exemplo, como
uma mesma classe exibe estratégias culturais de contestação que se endereçam no
contraste à cultura que lhe é imposta pela classe dominante como “sua”, isto é,
oposta por sua vez à dessa classe dominante. É o caso da utilização pela
cultura popular da cultura de massas, enquanto que a cultura de massas veicula
uma versão da cultura da classe dominante, para ser imposta às classes
dominadas, que pode se opor à cultura “erudita” dessa mesma classe dominante.
Nietzsche deslocou o
problema da liberdade, desde o contexto da moral e da história, àquele do devir
e da arte. Com isso, penso que ele se coloca no desenvolvimento de
investimentos que atravessam como contracorrente o século XIX, de que podemos
ver também algo na filosofia de Bérgson. Ora, assim podemos compreender como o
estruturalismo se apresentou não mais como a descrição do processo de ventriloquismo,
e sim naquele fazer do bricoleur como enunciava a propósito do seu modo
de tratar os mitos, Levi-Strauss.
Aqui a estrutura como
Totalidade de uma Alteridade se pulveriza, de certo modo, pois não se trata
mais de ver que je suis um autre, mas que a unidade que devia constituir
o sujeito havia se desfeito junto com a impressão de que a cultura européia era
um universo auto-suficiente capaz de estatuir toda a ordenação do mundo. Algo
que sem dúvida, como mostrou Derrida, está na constitutividade mesma das
ciências humanas.
A irrupção da
Revolução Industrial, quanto a isso, poderia ser equiparada ao papel do príncipe
de Maquiavel, conforme Rousseau: serve tanto ou mais para alertar o povo do que
para instruir o soberano. Se houvesse qualquer dúvida quanto à possibilidade da
monarquia ser mais do que uma instituição de dominação que não considerava o
bem do povo, mas que só funcionava na base de sua exploração, a leitura de
Maquiavel a deveria anular. A Revolução Industrial não permitiu que subsistisse
qualquer utopia de um “estado” como aquele de 1789. É verdade que nesse ínterim
a comuna já se havia pronunciado como o testemunho dessa constatação, óbvia no
desenrolar dos fatos já antes de Napoleão. No entanto, a sociedade industrial
atuou o capitalismo na sua determinação de irredutibilidade entre as classes no
momento da exploração máxima do trabalho.
O descentramento do
sujeito se estabeleceu num estado de coisas complexo, pois o estrutural é
percebido na correlação com as forças do sistema social, e por isso o potencial
crítico ou anti-ideológico ou científico do estruturalismo iria resultar nulo,
não fosse a reversão no interior mesmo de sua elaboração, ali onde o que estava
em jogo não era mais apenas O Outro, comos e fosse o caso empírico de uma
relação entre pessoas, mas tampouco o Outro como a Voz da linguagem, isso que
fala por todos os sujeitos, mas sim esse Outro que não poderia nunca falar, o
sujeito des-centrado que, no entanto, tampouco poderia ser agora apenas “um”: “o”
responsabilizado, “o” culpado, “o” doente, “o” cidadão, “o” sujeito da
Interpelação. A proliferação das diferenças assinala que o devir abole a
oposição simples eu-outro.
Ora, isso põe em jogo
aquilo que Deleuze observou sobre a História em Foucault. Aqui a estrutura como
a invariância não se põe como o regime Significante, o Signo, a subserviência,
mas sim como a proliferação do Jogo, conforme a expressão de Derrida. Ora,
Deleuze mostra que,s e podemos afirmar que Foucault repôs a história na
estrutura – ou os invariantes na história – ao mesmo tempo ele conduziu a uma
história que é sempre a do presente, pois com isso ele teria introduzido o
écart entre história e devir, assim como entre o arquivo (a parte da história,
aquilo que já não mais se está sendo) e o diagnóstico (a parte do atual, aquilo
que estamos vindo a ser). A história separa o que se é do si mesmo que se está
sendo, enquanto que o atual é o Outro com que já devemos estar em coinciência.
O novo, o intempestivo ou inatual na expressão de Nietzche, é o devir que
bifurca a história, o diagnóstico que deve assegurar a continuidade do fazer “historiador”
com outros caminhos.
A história é a “borda
do tempo” que envolve o presente, que o põe na sua alteridade, pois se faz a
partir dos discursos que precisamente deixaram de ser os nossos. Ora, o
diagnóstico se estabelece como esse presente que se põe pelo que difere do que
está deixando de ser, isto que se trans-põe sem adiantar um prognóstico, mas
bem inversamente, ao enunciar que existe liberdade, só se fará o não-conhecido.
Assim, não tem
sentido posicionar a Revolução francesa, como o dispositivo ou agenciamento de
poder, como aquilo que determina a causalidade transcendental, ainda
que, quanto a isso, seja interessante observar que naquele momento da mais
extrema ilusão do Ocidente – no início do século XIX pensava-se que 1789 só
havia mostrado que, como pensava Montesquieu, o regime democrático era o mais
inaplicável por ser essencialmente instável – Kant havia assinalado com a maior
firmeza que após o evento da Revolução comportava um elemento de
irreversibilidade no caminho de uma sociedade racionalizada que seria o mundo
republicano.
O que se pode ver é que os enunciados e os agenciamentos se interpõem na proximidade dos acontecimentos que permitem conceituar uma região de invariância, algo como um mundo de sentido que no entanto não está estaticamente coagulado no Mesmo de sua História, mas que se põe no movimento de constituição de seu horizonte de alteridade, o passado e o futuro – nem mesmo o Outro é somente um. Afirmar o devir, não para demarcar os limites da história, mas para compreender o que não se deixa aprisionar na solidão do Signo. Nesse momento seria forçoso incluir o ultrapassamento da falta, do desejo como fundamento deslocado ou fantasmático do sujeito, para confrontar a afirmação do inconsciente como produção, como atividade, como investimento do campo social. Os folhetos que animam a nossa história poderiam recuperar uma vontade transcendental subjacente ao empreendimento psicanalítico de reintroduzir o Outro como Totalidade para reconstituir um Sujeito operante ao modo de uma Unidade. Universal da totalidade, Universal da Linguagem ou da comunicação, em todo caso, penso que o que se torna importante é detectar a dobradura ideológica no interior das ciências humanas, assim como a sua recusa dessa cumplicidade no interior de seu Saber.
A história é ou depende
da sociologia, mas a sociologia releva mais de uma associação com a psicologia.
Com efeito, não apenas Levi-Strauss concebe uma compreensão que se quer na
proximidade da ciência social, a da etnografia, a partir de uma base
psicológica, mas Freud já havia situado a sociologia como uma psicologia
aplicada. Ora, a psicanálise se desenvolve, por sua vez, na determinação mais
abrangente da História. Por esse vicus of recirculation, é a história
que apresenta um aspecto singular, ao mesmo tempo como motivo e como telos
de uma evolução que pertence ao devir das ciências humanas no percurso mesmo de
sua constituição. Interrogar esse estatuto ambíguo da história torna-se assim
uma tarefa fundamental.
Pois não se trata
apenas, na psicanálise, de ter descoberto uma história que é a do sujeito, e
assim ter se desenvolvido como um desenterramento de estratos consecutivamente
sobrepostos no desenvolvimento de um sintoma ou de uma personalidade. É certo
que nesse mister a descoberta propriamente científica consiste na determinação
dos invariantes dessa história – arqueológica – do sujeito. No entanto, o que
se desdobra por esse meio é uma teoria da cultura, uma leitura da história, que
se endereça como um diagnóstico da sociedade.
O percurso que
recobre desde Totem e Tabu até o Mal-Estar na Civilização
testemunha a ampliação de uma ambição epistêmica. Tratava-se de fornecer a
explicação antropológica do fenômeno de agregação social, inicialmente, e
depois a questão já se postulava como o diagnóstico desse imenso sintoma que se
tornou a sociedade. Nesse ínterim, a teoria da cultura se desenvolveu como uma
incursão epistêmica ao seu próprio âmago enquanto teoria do conhecimento.
Assim, conforme Pierre Kauffmann, como a teoria da transferência origina a
teoria da cultura de Freud, “a genealogia das ciências do homem” enquanto
psicanaliticamente informadas, deriva do “campo de conceptualização” originado
por Totem e Tabu , de modo que “em definitivo, uma epistemologia
comparada” é o que precisamos para nos ser restituído “o itinerário do destino
impulsional” – ou seja, a própria “história da alteridade”. (Chatelet,
história da filosofia, O século X. Kaufmann, P, Freud, a teoria freudiana da
cultura, p. 68).
Temos assim uma
convergência até então impensável entre as histórias do sujeito e da cultura,
de modo que a psicanálise, ao mesmo tempo em que erige o nível da historicidade
como aquele a que compete as ciências do humano, só o pode fazer por ter
desenvolvido esse nível como superação da oposição eu / outro, indivíduo
/ sociedade, isto é, por ter logrado constituir esses pares numa relação
epistêmica própria, irredutível à simplicidade do que se verifica nos fenômenos
de natureza.
No entanto, seria de
esperar que interrogássemos esse estatuto científico da psicanálise, do ponto
de vista de um tempo em que já faz sentido postular algo como uma
esquizoanálise. Ora, para não simplificar, de modo a não apresentar uma
oposição simétrica extremamente redutora dos problemas incontornáveis que nessa
região se propõem, aqui evitarei uma confrontação direta entre Freud e Guattari
/ Deleuze, e ao invés, utilizo o contraponto de Bauman, que no Mal-Estar
da pós-modernidade (1997) mostrou que a teorização de Freud respondeu sim,
e muito bem, por algo tão complexo como a Modernidade, se bem que nosso momento
já lhe é posterior. Assim, em vez de categorias universais da psique e do
inconsciente, Freud teria iluminado o sentido mais profundo da autocompreensão
moderna, isto é, desde o sujeito para-si até à civilização em-si. Na atualidade
o deslocamento do sentido fez escorregar muitos desses conceitos chaves da
psicanálise, principalmente devido ao descentramento familiar, de modo que o
sujeito de hoje se constitui, como observam Guattari-Deleuze, na produção e no
mundo, bem mais do que no fechamento da sexualidade dos pais.
Ora, a teoria da
cultura de Freud nos permite compreender assim o fundamental desse momento
histórico de constituição das ciências humanas, na medida em que a psicanálise
é o seu recorte mais completo e abrangente. Pois se, como penso, esse campo
epistêmico principia com a liberação de uma região independente do Ser, a
psicanálise o expressa perfeitamente ao inverter o problema da moralidade.
Aquilo que venho
designando como Existência, ou região de independência frente ao Ser, Foucault
conceituou nos seguintes termos. Excluir a biologia, a economia política, e
mesmo a ciência da linguagem desse domínio do humano, significa que o objeto
das ciências humanas “jamais se dá ao modo de um funcionamento”, ou
mesmo de “atividades específicas” que pertenceriam ao ser do homem. O
objeto das ciências humanas se institui “lá onde se liberam representações,
verdadeiras ou falsas, claras ou obscuras, perfeitamente conscientes ou
embrenhadas na profundidade de alguma sonolência, observáveis direta ou
indiretamente, oferecidas naquilo que o próprio homem enuncia ou detectáveis
somente do exterior”. ( op. cit. p. 369). É porque o ser humano vivo
“constitui representações graças às quais ele vive e a partir das quais
detém esta estranha capacidade de poder se representar justamente a vida”,
que as ciências do humano puderam se constituir como um Logos autônomo.
No cenário de as
palavras e as coisas a liberação das representações de todo domínio do
funcionamento ou da atividade em si, isto é, daquilo que se constitui natureza
ou ser, se correlaciona historicamente ao esfacelamento da Mathesis, na
curva de superação do clássico. Pois um saber absolutamente unificado não
poderia jamais restituir ao humano aquilo que lhe é mais íntimo, seu espaço
mesmo de atuação naquilo em que essa ação não é uma “atividade” regulada pelo
organismo, mas liberada pela linguagem literária, pela criatividade. É por isso
que as ciências humanas dependem da formação do triedo dos saberes, atuando no
espaço que as três faces instituem.
Essa formação
responde pela fragmentação do campo clássico, instituindo-se, cada uma dessas
disciplinas, economia política, biologia, ciência linguística, na autonomia do
seu objeto, não mais na adjacência daquilo que alhures se constitui.
No entanto, já no
cenário da história da sexualidade a coextensividade dessa liberação tem
que ser visada no lado do poder, não do saber. Assim trata-se de compreender a
formação dessa moderna sociedade disciplinar, o que põe no plano mais saliente
o tema da família, esse núcleo que comanda a emergência da psicanálise. Aqui
convergem as pesquisas de Foucault e Ph. Ariès, mostrando que a família não se
constitui como um agregado natural , mas se realiza progressivamente de
modo que esse período que estamos examinando, na transição ao século XIX, é um
momento importante no qual se está praticamente plasmando a imagem que nos é “normal”
da família como um interior onde se reúnem os adultos e as crianças bem
especificados nas suas peculiaridades respectivas.
Ora, a formação da
criança como algo não redutível a um pequeno adulto se configurou nessa época,
juntamente com a agregação da família, isto é, com a criação dos filhos junto
dos pais. Até então a criança não apresentava nada de particular em relação ao
adulto, a não ser o seu tamanho. Não havia roupas feitas para crianças, por
exemplo. Elas utilizavam peças velhas dos membros mais maduros da família ou
peças novas, mas feitas à semelhança do que os adultos usavam. As crianças se
educavam em casas de outros, os pequenos nobres aprendendo as regras de
etiqueta servindo como “garçons” – meninos, jovens – nas residências de outros
nobres, e daí a origem desse termo, conforme Ariès. Ora, na curva do clássico
ao moderno tudo isso se altera.
A instituição da
escola substitui o antigo espaço de adjacência – as outras casas – de
modo que a criança permanece, nos seus momentos de lazer, no interior da sua
própria família. Se até aqui as crianças muito pequenas, que ainda não se podia
ter enviado a outros, não conhecia dependências particulares, a casa de família
sendo construída como um único espaço em que se sobrepunham adultos e crianças,
agora os projetos residenciais já apresentam a separação de cômodos,
tornando-se cada vez mais impensável que as crianças durmam no mesmo quarto dos
pais, o que antes era costume universal.
É interessante notar
que, uma vez que essa mudança tem a ver com a formação dos espaços sociais de
vigilância, a inserção do trabalho infantil pela revolução industrial pareceu
nessa época como uma providência útil no sentido de manter os menores oriundos
de classes inferiores, que não podiam manter o nível exigido pela escola, sob
controle e supervisão. Assim o problema quanto a essa população infantil era
como ser observada nos períodos de lazer e por isso, estritamente relacionado
ao espaço do trabalho infantil nas fábricas, surgiu o investimento paroquial
dominical, para que se pudesse manter o controle mesmo nessa contingência do
ócio.
Bauman observa que
Ariès e os pesquisadores dos hábitos populares associam a mudança no tratamento
das crianças, a descoberta da criança como uma criatura irredutível ao adulto,
à percepção moderna da realidade social, aquilo que localizei como a
autocompreensão da burguesia como self-made-class que se erige sobre a
natureza. Assim, conforme Bauman, essa percepção da realidade social moderna
apresenta a carreira dos seres humanos como processo de amadurecimento, algo
que não ocorre por si mesmo, isto é “não podendo ser deixado à mercê da
sabedoria da natureza” (op. cit. 178). Como observa Bauman, “só a
sociedade moderna pensou em si mesma como uma atividade da ‘cultura’ ou da ‘civilização’”
(op. cit. p. 7). Até então a sociedade sempre se havia postulado na
co-extensão de como a natureza prescrevera o ser dos homens, o que lhes devia
ter sido garantido como saber pela mediação do sagrado. A burguesia descobriu
que precisava tomar o destino em suas próprias mãos e assim procedendo o que se
estava desenvolvendo era o progresso, a sociedade como um produto, um construto,
não uma decorrência do Ser.
E de modo geral,
sendo essa época moderna a de uma sociedade panoptizada, cujo centro de
convergência é o Olhar, a criança se torna um objeto privilegiado de
supervisão. A masturbação infantil é o grande tema desse período, sendo visada
como o grande mal a vigiar e combater a todo custo. Todo um processo de
formação da consciência da criança contra o que se considerava, algo
bizarramente, um vício inerente à natureza, se desenvolve durante o século XIX.
Especialmente a vigilância encontra assim uma justificativa e um lugar de
exercício.
Ora, é essa família
nuclear composta como que sobre o ego do infans que se tornou o foco da
procura psicanalítica, no momento em que ela pode ser problematizada na
exterioridade da referência ao Ser, na sua representação para-si. O que se
enuncia na inversão do problema da moralidade, que até aqui deveria explicar o
recalque, o desprazer do Sexo. Numa perspectiva do ser, essa conclusão seria
óbvia, mas naquilo em que a focalização mudou do Ser à Existência, é o
desprazer do Sexo, o recalque, que explica a moralidade. Pois na perspectiva
inversa, o fato de não ser preciso uma explicação da moralidade a evidenciava
como algo natural, derivado do ser do humano que pertencia ao sagrado de que
provinha.
Somente se essa
moralidade se tornava inatural, assim como o liberalismo explicava pela
parcialização da instância social os males das instituições presentes, ou seja,
se dela se abusasse, sobreviria o recalque, a rejeição daquilo que é o mais natural,
o prazer regulado pela instituição do casamento. Ora, Freud deve então explicar
esse mecanismo do recalque que implica a moralidade como algo inteiramente
construído, a fortiori. Para isso, como para qualquer compreensão do que
pertence genuinamente ao campo de imanência das representações subjetivas nem
sempre conscientes, trata-se de reconstituir uma história. Mas de modo que essa
história sempre se repita.
Como observa
Kaufmann, a história assim instrumentalizada não pode ser pensada como o desenvolvimento
de uma idéia. Penso que se poderia conceituá-la como o avesso da estrutura.
Pois, com efeito, se a interdependência de história e cronologia deve ser agora
muito relativizada, é por não poder ser interpretada em um sentido linear. A
história só se compõe na forma de uma arqueologia que, à semelhança do que
estava se processando no domínio da linguagem, com as descobertas de Grimm e
Bopp, apresenta seus fenômenos por estratificação. Aqui a superação da “ideologia”
de Condillac se completa pela impossibilidade de postular uma explicação a
priori de formas subsistindo umas ao lado das outras por uma idéia tomada
como base. Assim trata-se, em psicanálise, de restituir esses estratos que
compuseram a descontinuidade do sujeito, e se as categorias que jazem, ao lado
ou acima das outras, conforme o estrato em que se as localiza, podem ser
tomadas como verdadeiras constantes estruturais, os movimentos que se insinuam
na formação dessas invariantes podem, contudo, revelar-se como falhados, isto
é, movimentos falsos, movimentos desviados do seu percurso, todo o mapa das
doenças da psique podendo ser assim traçado. A transferência é o cursor desse
traçado, mas se esse mapa constitui o avesso da estrutura, ele ao mesmo tempo
ilumina o sentido estrutural do movimento para a frente, para a cura.
O recalque se explica
assim pela estratificação sociopsíquica que deve recortar no corpo as zonas
erógenas. Freud pensa que inicialmente o corpo da criança é um local de
investimento sexual todo-erógeno, mas que aos poucos, conforme se erigem as
fases de consituição do sujeito, esse todo se repõe sob muitas formas de
recorte e diferenciação até constituir as zonas específicas da erotização do
adulto. O recalque se associa como sentimento de rejeição ligado a uma zona abandonada.
As zonas abandonadas são fantasmatizadas, os impulsos associados ao fantasma
são recalcados.
Mas se aqui intervem
uma importante oposição epistemológica entre condição e causa, deve-se
constatar que Freud situou o fantasma no limite da repartição das zonas, de
modo que pode haver retrospecção dessas zonas pelo fantasma, cuja função é
parcializar o gozo, não deixar que ele se relacione a porções do corpo que
devem ser sexualmente desinvestidas. O ato em curso no recalque é o do
afastamento da lembrança que é o mesmo que o degosto diante do objeto atual.
Compreender, sendo
igual a desenterrar, reporta a história arqueológica ao mito endopsíquico, à
atividade psicomitológica da autorepresentação (projeção) da estrutura psíquica
ao seu próprio sujeito. Ora, penso que assim se pode falar de uma projeção
categorial, pois a psicanálise atua universais mitológicos que encenam a
transferência de modo a permitir a restituição dos folhetos, como dos estratos.
O discurso é ambíguo, assim ele é sintomático, dando conta dos compromissos
entre o inconsciente e o consciente. A psicanálise está lidando por esse meio
com uma noção de verdade que só funciona como efeito na recepção, lá onde deve
ser recolhida, não de onde o discurso devém. O amor de transferência encena o
retorno do recalque e fornece assim o acesso à estratificação formadora da
história e do sujeito.
Está também lidando
com a noção de teorias como sistemas parciais, tópicos, ao invés de sistemas
totalizantes, uma mathésis. Essas teorias parciais apresentam uma dominância,
uma pertinência. Assim a sexualização é um processo epistêmico, o sujeito se
constitui construindo explicações teóricas da sexualidade dos pais, isto é,
interpretando o que ocorre entre ambos os protagonistas do seu voyeurismo.
Essas teorias devem se suceder à medida que falham, cada fracassso sendo
precedido por uma percepção que obstaculiza a construção explicativa anterior.
Assim as teorias são parciais, isto é, devem suceder-se na região de suas
anomalias, mas elas apresentam uma pertinência, como por exemplo, os
componentes do impulso sexual infantil, que impele a criança na via da
sexualidade dos pais, operam já pelo orgânico.
A sexualização
saudável, cujo correlato é a personalidade constiuída, é esse processo
epistêmico em que se constituem os folhetos teóricos que se sucedem na
maturação da Explicação suscetível de refazer, no pensamento da criança, a
realidade dos fatos sexuais que engendram a a relação mesma dos pais na qual a
criança vem a existir, duplamente, a se constituir (como ser biológico, e como
personalidade) – a criança se constitui realmente nessa relação dos pais, seja
como organismo, seja como pessoa.
Mas toda teorização é
um processo cultural, sendo as teorias delírios do mundo, estados posicionais
da Existência. A cultura é sublimação, processo histórico e psicológico, na
medida em que a sublimação libera a potência operacional do intelecto. Assim,
as perversões são movimentos de regressão específicos entre um e outro momento
teórico. O que repõe a história como o destino impulsional, ou seja, sempre a
progressiva organização psíquica dos impulsos desde um narcisismo primitivo até
a constituição inteira da alteridade como estrutura, ao mesmo tempo, do objeto
independente e da Verdade. Por isso a psicose terá um papel tão central na
psicanálise, uma vez que implica “o desmoronamento conjunto” dessa estrutura do
Outro, desse horizonte de alteridade que é também o da Realidade, ao mesmo
tempo wirklichkeit e Realität, o real do sujeito e a verdade do
objeto.
Da fase primitiva ou
narcísica, em que a criança não tem consciência de si como algo individualizado
com relação ao mundo, emerge uma teorização original pela qual a mãe possui um
pênis. Essa teoria original vai precisar ser deslocada quando a criança
registrar uma anomalia, aquela que evidencia o fato de que o pai penetra no
corpo da mãe. A cavidade exigida pela penetração é o problema que se endereça à
explicação anterior da sexualidade dos pais como posse do pênis pela mãe, isto
é, condensando a ambiguidade do Logos na impressão de que é o corpo da mãe que
possui o pênis. Freud localiza aqui a incerteza do obsedado. O limite teórico
implica o isolamento frente ao mundo. Ora, a sexualidade amadurece como
constituição saudável da personalidade quando a criança, sem se fixar nesse
momento inicial, ou no intervalo de sua incerteza, pode asceder a uma teoria
adequada à realidade, concebendo a vagina da mãe e atribuindo o pênis ao pai.
Aqui Freud faz a convergência com a cultura, correlacionando:
Posse do pênis pela mãe – Matriarcado
Mãe – testemunho dos
sentidos – teorias sensualistas, percepção, ordálias, verdade pela apreensão
concreta do dado.
Posse do pênis pelo pai – Patriarcado
Pai – testemunho do Intelecto – representação abstrata, lógica, tribunais, verdade pela prova.
No recalque ocorre
fixação àquilo que se oculta, de modo que o fracasso do recalque é o retorno do
recalcado, aquilo mesmo que se deveria rejeitar. Assim o objeto é desinvestido,
ocorre deserção do mundo. Na fase religiosa o ritual desempenha o papel do
cerimonial compulsório do neurótico que não pode asceder à sublimação perfeita,
à identificação com o pai. Freud identifica progresso e patriarcado, sendo o
pai a mediação do sujeito ao objeto, garantindo o bom delírio, aquele que
fornece a re-construção do objeto, na objetificação mais perfeita que é a da
cientificidade.
Ora, a civilização é
o lugar do mal-estar, seja porque a culpabilidade retorna pelo viés do
arrependimento pelo crime, ou pela supressão da natureza no proceso da cultura.
A cultura se forma como o lugar da crença, correlato do narcisismo em que o
sujeito se representa como todo-poderoso ou estende o ser todo-poderoso que
cuida e zela especialmente pelo sujeito. No entanto a crença estende como seu
avesso a falta ou a angústia, associadas ao movimento oscilante entre a
insatisfação e a satisfação cujo meio termo é o social, os outros, a quem nos
endereçamos não apenas como sujeitos de necessidade mas principalmente como
sujeitos do desejo. A angústia é sempre de castração, o estado desse sujeito de
desejo sendo o da derrelição, o estar lançado na exterioridade do sem-cuidado,
ao menos até que sobrevenha o pólo positivo da oscilação, o perigo a que todo
sujeito está exposto no meio social.
Em correlação a essa
angústia do sujeito está o mal-estar da civilização, a culpabilidade. Quanto a
esse tema, Kaufmann parece registrar uma evolução no pensamento de Freud, que
se expressa na importância crescente à noção de impulsos, seu conflito e o
horizonte de sua tensão energética.
Os impulsos de
destruição e de criação (Eros), enquanto conflitantes, são expressos pela
culpabilidade (ódio versus amor). O assassínio do chefe satisfez o
impulso de destruição, liberando o amor que retorna como remorso, ao mesmo
tempo em que erige a identificação com o pai. Constituindo-se por esse meio o
Superego, restitui-se ao pai a sua aptidão a punir a agressão sofrida. No
entanto, se com isso o que se põe em funcionamento é a renúncia impulsional,
esse funcionamento tende a se inverter, transferindo energia para a
consciência. Cada renúncia intensifica o Superego, a severidade, a intolerância
da consciência, o que Freud pensa ser o indício da tendência histórica ao
crescimento da culpabilidade coletiva, como o mal-estar da civilização.
É aqui que se
implementa o lugar do Édipo, pois se a culpabilidade é expressão do conflito
entre os impulsos de destruição e de amor, esse conflito se torna evidente
quando se trata da tarefa de viver em comum, de modo que, enquanto o
estabelecimento da comunidade envolver a família, a culpa se manifestará no
complexo de Édipo. A constituição da consciência é ao mesmo tempo instituição de
culpabilidade.
Mas também se propõe
o problema da culpa ao considerar o indivíduo, agora na sua correlação à
espécie, como engendrando a sua humanidade pelo ultrapassamento do instinto e
da natureza. A culpabilidade se torna o preço a pagar da civilização pelo seu
abandono do estado de natureza, aqui expressando-se claramente o conflito, pois
esse abandono reflete o instinto destrutivo. Ora, Freud pensa que a aptidão à
neurose pode ser esse retorno do recalque, esse preço a pagar aos estágios
anteriores instintivos, imposto à racionalidade.
O sujeito traduz essa
culpa na tensão do indivíduo com o meio, a angústia da castração é essa tensão
quando o meio é o social, a angústia de reabsorção (voltar ao inanimado fundido
com o natural) é essa tensão quando o meio é o ambiente físico. Ora, a teoria
da cultura deve situar a progressão epistêmica que se desenvolve entre esses
momentos de angústia até o acesso a uma wirklichtkeit irredutível, ainda
que correlata, à Realität, isto é, a cultura articula através dos
movimentos epistêmicos – do mito, ao direito, à religião, à filosofia e à arte
– a inserção plena do princípio de realidade. Trata-se então, para Freud, de
prover esse significado da arte.
A agressividade e o
desejo de destruição contrapõem-se ao Eros como função de dessexualização. O
que se mostra assim é que há uma quebra na analogia do neurótico ao primitivo,
uma impossibilidade de se formar uma correlação perfeita da série da
coletividade àquela do indivíduo, isto porque a conexão do transferencial e do
cultural só se repõe sob a forma da Ilusão. O silêncio do psicanalista se põe
nessa lacuna, do nada à subjetividade, entre a cultura e o “eu”. O silêncio
corresponde à incerteza quanto à própria identidade
O outro é sempre um
despojamento do sujeito de sua pretensão sobre o mundo. Mas as “grandes
instituições culturais”, o mito, o direito, a religião, se desenvolvem como
compensações. Nelas o sujeito encontra o lugar de onde pode retirar uma
identidade substitutiva do seu narcisismo. Contudo, nenhuma dessas isntituições
sustenta por si a instauração de um campo de atividades novo, ou a emergência
de uma espécie de realidade alternativa. A arte é a atividade que pode
constituir esse campo, a obra apresentando-se como surplus do real. Assim ela
desdobra um momento da criação como fazer do artista (wirklichekeit) e
um momento da obra, que é o objeto produzido enquanto artístico (Realität).
Ora, se as outras
instituições não completam a devolução da plena identidade ao sujeito despojado
pelo socius, ou diante da natureza, a arte assegura a completude do processo de
socialização, porque o que ela produz são fantasmas que asseguram a comunicação
da estrutura social. A sociologia torna-se uma psicologia aplicada por se
encarregar de determinar, a cada vez, em cada caso, a interdependência entre os
impulsos, as variações étnicas e remanejamentos culturais que concorrem na
fixação pela organização social, isto é, por se exercer como o estudo do ser
humano em sociedade. Trata-se de uma realização epistemológica que delimita a
região de atualização efetiva do ser humano enquanto sujeito de um desejo
universalizado pela cultura, precisamente o desejo que reproduz a crença do infans
em sua onipotência , lá onde a crença no ser todo-poderoso, substitutiva
dessa caução, se torna substituída, por sua vez, pela crença numa ordem que se
exerce em benefício de todos os sujeitos, constituindo-os, expressa nas
instituições que controlam a situação de derrelição, operação a ser
complementada, como vimos, pela arte. Complementada,mas não completamente
assegurada, a julgar pelo prognóstico de Freud quanto ao porvir da civilização.
É então esse o
momento, já configurado como aquele porvir, de indagarmos quanto ao prognóstico
de Freud. Insere-se assim a perspectiva da pós-modernidade, na qual o complexo
de fatores que convergiram em torno da família nuclear se transforma. A
desagregação cultural que envolveu a família se estende mais amplamente a um
processo outro de constitutividade social, aquele da desregulamentação e
privatização, do deslocamento do controle que produzia o cidadão – soldado
assético modelado pelo purismo calvinista para a ambiência da sensação pela
consumação, que só pode se erigir sobre a pessoa particular que usufrui. Bauman
observa assim que o desinvestimento do sexo nucleado como instrumento de uma
sociedade ultrapassada se torna correlato da instrumentalização dessa sociedade
do desejo. O prognóstico de Freud obtivera sua validade no domínio de uma
sociedade cujo preço de agregação havia sido o scrifício do princípio do prazer
pelo princípio de realidade. Nosso mundo inverteu esse esquema.
Liberdade do sujeito
tornou-se o valor supremo, referencial a todos os outros, para que os idéias
outrora impostos como a Ordenação Social – a beleza, a limpeza, a ordem – pudessem
ter se tornado a realização mais pessoal na lógica da consumação. Assim Bauman
não prevê a civilização de um mal-estar, mas sim uma civilização cujas
múltiplas malevolências se devem ao fato de ter invertido a busca da segurança
pelo preço do prazer, de modo que agora é a minização da segurança que está na
base dos temores desse “pós”, preço, contudo, a que a sociedade atual não está
disposta a renunciar, por ter entronizado o prazer como seu maior bem , a
felicidade como seu estado de normalidade no paraíso da transmutação dos
valores e da consumação ilimitada.
A consequência
inesperada é que a reversão da repressão sexual engendrou uma transformação
também na centralidade do que há para ser visto, da criança aos pais. Se na
ambiência moderna de Freud os pais são objetos do investimento sexual dos
filhos, agora são os filhos os possíveis objetos da sexualidade dos pais, e em
vez do temor da masturbação infantil, o tema contemporâneo de Bauman é o
escândalo do abuso sexual dos filhos pelos próprios pais – Bauman narra como
esse temor dominou a cena na Grã – Bretanha, e como isso determinou um novo
tipo de relação entre as crianças e os pais, tipo marcado pela separação, pela
demarcação muito estrita de limites quanto à gestualidade do afeto, que não deve
ser muito “plena” para não dar ocasião a ser processado pela autoridade pública
e ser coagido a provar que não se estava abusando da criança abraçada e
beijada.
Poder-se-ia ver nisso
não a denegação, mas a convergência do aumento do mal-estar na civilização?
Ora, o problema agora é o inverso, pois não se trata de uma culpabilidade com
relação ao pai, que apenas desloca o chefe, mas de uma objetificação da criança
no Logos do sexo, que se torna o alvo, não mais o sujeito, do desejo. Bauman
conceitua esse processo na rota da impessoalização, o hedonismo tendo
paradoxalmente revertido a sexualização das interações e determinado a
ambientação cool das relações interpessoais e até mesmo eróticas, pois
se trata agora nesse campo de uma valorização do encontro corriqueiro e da
impermanência. E repondo aqui a argumentação do anti-Édipo, o que se vê é um
desejo não correlacionado à falta, essa plenitude engendrando, contudo, mais
uma auto-satisfação criativa do que uma tipificação revolucionária como aquela,
dos tempos de predomínio do marxismo, onde havia um forte apelo à união, às
atividades de massa.
É certo que
Guattari-Deleuze pensam sempre em termos de coletividade, mas esse termo está
relacionado à multiplicidade que desloca a “centralidade” do sujeito unificado
mais do que a uma subsunção do aspecto revolucionário do devir à prática
conjunta na extensão. Finalmente as possibilidades de realização virtual
liberadas pela revolução informática também estão nesse processo de positivo
isolamento do sujeito. Em todo caso trata-se de uma transformação na
compreensão do desejo, logo, da necessidade de teorizações atualizadas quanto
ao papel do inconsciente. Mas há algo que, parece-me, Freud nos legou de modo
definitivo. A inserção da historicidade em qualquer compreensão desse papel, e
com isso, a exigência de se posicionar a compreensão de história que se está
interpondo no desenvolvimento teórico que venha a se encarregar desse tema.
5 –
O período que se
estende desde a Revolução francesa até à estabilização da República, isto é,
aproximadamente aquele que recobre aos anos de 1790 / 1870 é bastante
complexo, apesar de, aparentemente, poder ser bem demarcado a partir do
contraste entre o Romantismo e o Realismo. Na verdade esse contraste é bastante
cômodo, tanto mais que, ao situar o Realismo a partir da segunda metade do
século XIX, tem a vantagem de evidenciar a viragem que o fenômeno de
estabilização da república francesa acompanha, isto é, do Realismo aos
acontecimentos precursores da Vanguarda, como o Simbolismo e o Impressionismo.
O que torna esse
procedimento algo mais complexo é a situação paradoxal do Romantismo. Esse é
provavelmente o estilo artístico mais célebre, aquele que se poderia contar
como o mais popularmente acessível. Se perguntarmos, na exterioridade dos
estudos especializados sobre o tema, o que é Romantismo, não há dúvida que não
se deixará de obter uma resposta, por mais vaga que seja, o que não se garante
quanto a Neoclassicismo ou arte de Vanguarda, creio que nem mesmo quanto a
Realismo, que seria mais associado a uma atitude psicológica do que a
realizações artísticas tais como “romance”, “drama”, etc.
No entanto, mais do
que com relação a esses outros movimentos, o rótulo “Romantismo” é o conceito
enganoso por excelência, no que tange à sua definição ou compreensão. Vimos as
ambiguidades que certos conceitos estilísticos de época evocam, o que se
ilustrou bem nos casos de classicismo e neo-classicismo. Mas o problema quanto
a isso parecia se prender a uma sobreposição de duas designações bem diversas
em torno de uma palavra que se utilizava como de sentido único. Assim, o que
era o estilo e o que era a época, eis o que bastava discernir para apreender a
complexidade das oposições em jogo. Mas não ocorre o mesmo quanto ao
Romantismo.
Habitualmente esse
fenômeno estilístico evoca a Revolução, a revolta contra o Status Quo, a
aspiração a um mundo em que a pessoa, individualmente considerada, possa ser
contemplada no seu desejo de justiça, fraternidade, equidade. Assim, o
Romantismo é visto como um movimento essencialmente progressista, cujo intuito
é a libertação, a luta contra todas as opressões.
Mas, se podemos
efetivamente postular algo como “O” Romantismo – o que não deixou de ser
severamente contestado – o que o termo recobre é, bem inversamente, a expressão
do descontentamento da classe desfavorecida pela Revolução, os ecos daquilo que
ela personificava como transfiguração idealista de uma época de transição, o
interregno de conservação de um estado de coisas social que está sendo definitivamente
superado.
Com efeito, esse
período abrange a liquidação da nobreza como classe – ela continua a existir
como fato social inteiramente solvido na ordem burguesa – e o nascimento de uma
classe trabalhadora assalariada, o proletariado. As oscilações que a história
política deve assinalar nesse interregno iluminam fortemente a ambiguidade a
que essa transposição social expõe a burguesia, ao passo que esta se decompõe
conforme os interesses de pequenos e grandes. Como eles se alinham com
referência ao que deve surgir, isso que faz tremer a base liberal do
compromisso burguês como sendo o de uma unidade exemplar, a que a racionalidade
mesma devia conduzir no seu papel de organizadora de todos os aspectos da
existência, da produção aos costumes abrangendo a educação, eis o que faz mover
a história.
Mas essa ambiguidade
projeta suas linhas sobre um foco indubitavelmente nítido no seu traçado, a
Revolução Industrial. É o que elide ao menos um pouco a complexidade do estudo
do Romantismo, já que permite compreender ao mesmo tempo a peculiaridade que se
torna irredutível agora, entre os processos culturais nacionais, e o
internacionalismo do movimento.
O Romantismo, nessa
perspectiva, é interpretado como o período de aliança entre a pequena e a
grande burguesia, antes que o pequeno-burguês tenha que enfrentar a opção de se
transformar no proletário autêntico, pós-Marx, ou se alinhar com a grande
burguesia incapaz de compreender o seu esforço e necessidades próprios. Assim o
conceitua Carpeaux. Mas é também o período em que o que contrasta essa aliança
subsiste como algo devotado a um fim, a nobreza como classe, a ideologia da
Natureza que concede ao ser humano o dom – impossível por sua atividade ou
vontade – de tudo o que nele é valoroso, assim como ser nobre é algo que se tem
por nascimento, jamais por conquista pessoal.
Mas como a evolução
dessa ambiência ao momento crucial da opção depende dos estágios da Revolução
Industrial, responsável pela eclosão dessa ordem social contemporânea, pode-se
compreender os processos culturais nacionais naquilo em que sua cronologia de
industrialização não coincide, só vindo a confluir decisivamente quando o
processo dessa “modernização” se dá por completo na Europa – então se estará na
ambiência da guerra imperialista de 1914, quando se deve resolver os rumos da
industrialização no restante do mundo.
Ora, tudo isso não
anula a importância da objeção quanto à referência de “um” movimento romântico.
Com efeito, os “romantismos” só tenderiam por esse meio a se multiplicar, seja
na contraposição de seus efeitos nacionais, seja na impossibilidade de situar o
que ele tem de internacional no panorama de uma lógica de classe, já que nesse
momento nem mesmo ocorre que todos os países europeus situem a oposição básica
de nobreza e burguesia, em muitos casos o estágio industrial sendo tão atrasado
que o conflito é apenas entre nobreza e campesinato: à pergunta “quem fala a
língua do romantismo”? teria que se sobrepor como resposta personagens cujas
finalidades são as mais contrastantes possíveis.
Assim a polêmica, no
plano estilístico-literário, se tipifica entre Wellek e Lovejoy. Em “conceitos
de crítica” René Wellek utilizou Lovejoy como contraponto ao seu intuito de
fornecer “o conceito de romantismo em história literária”, de modo que o
leitor não pode deixar de se aperceber do fato de que Lovejou é aí visado como
porta-voz de uma opinião de modo algum idiossincrática, mas bastante aceita
entre críticos de literatura, pela qual a palavra “romântico” teria deixado de “exercer
a função de signo verbal” por já poder significar qualquer coisa que se queira.
O que se pudesse apontar de denominador comum “nunca foi demonstrado claramente”
e as idéias românticas não só eram heterogêneas como logicamente independentes
e “essencialmente antitéticas umas das outras”.
Wellek, no entanto,
continua a crer que o conceito de Romantismo é teoricamente válido e útil.
Assim ele escreve seu artigo, inicialmente fornecendo uma cronologia do uso
crítico do léxico “romântico”, e depois recenseando as noções que ele localiza
como responsáveis pela legítima proposição de um estilo internacional de época
designado como Romantismo. No entanto, num anexo, Wellek exibe as reações que
seu artigo causou, especialmente a resposta de Lovejoy, o que permite a Wellek proceder
um “reexame do romantismo” . O problema então se desloca do romantismo
para o conceito de período, e Wellek recenseia quase toda a polêmica assim
formada, desde Lovejoy e Crane a Paul de Mann e Hartman, abrangendo numerosos
críticos.
Lovejoy e Crane se
tornam agora a exceção, insistindo na recusa de uma conceituação válida, de
modo que sua atitude é tipificada por Wellek através da grande objeção de
Valéry: é impossível pensar seriamente com palavras como Classicismo,
Romantismo, Humanismo ou Realismo”, ou seja, ninguém fica bêbado “com rótulos
de uma garrafa”. Mas o recenseamento crítico de Wellek, que ilumina bastante
quanto às visões do Romantismo através de tantas obras teóricas importantes,
enfatiza que existe “acordo convincente”, pois excetuando-se aquelas recusas
explîcitas, encontra-se sempre “a implicação de imaginação, símbolo, mito e
natureza orgânica”, compactuando o mesmo “esforço para superar a cisão entre
sujeito e objeto, o eu e o mundo, o consciente e o inconsciente” como conceitos
críticos que designam o “credo central dos grandes poetas românticos na
Inglaterra, na Alemanha e na França”, ou o “corpo de pensamento e sentimento em
perfeita coerência”.
Penso que Wellek não
está errado ao constatar uma coerência notável, mas não creio que isso seja
tanto a “essência ou natureza” do Romantismo. A tentativa de identificar
sujeito e objeto, conciliando todos esses termos antitéticos apontados, pode
ter sido vista como um aspecto na poesia, mas certamente é algo que não se
limita ao fazer poético, ou melhor, a conceituação mesma de poesia nessa época
responde por uma coerência que é superior ao só fazer da arte. Podemos
compreender a importância e abrangência desse fenômeno, inteiramente dependente
do quadro da superação da nobreza como classe, através da mudança de sentido
dos termos “natureza” e “história”.
Temos visto
exaustivamente que nos éculo XVII a natureza era um todo abrangente, ainda que
bifurcado pela linha da Dobra barroca. Assim, o mecanicismo cartesiano, sua
ânsia de compreender geometricamente a extensão, compactava o espaço do quadro
pelo qual compreender o funcionamento de uma série factual significava
localizar a sua adjacência, assim o mecanismo corpóreo na dependência dos
espíritos animais poderia sempre ser revertido pelo controle da alma, a série
fixa das espécies se comportava de modo a permitir a sobreposição do grafismo e
do exemplar, as línguas evoluíam do simples ao complexo. Já no século XVIII,
natureza se torna o modo específico de cada ser que mantém com os outros seres
uma relação de movimento, não de adjacência. Funcionamento agora significa algo
como o desenvolvimento interno de faculdades, a partir de uma gênese. Em vez de
quadro, uma organização.
Ora, nesse período
inicial do século XIX o conceito de natureza evolui para aquele de uma competence
sem performance. Utilizando a terminologia de Chomski, sabe-se que a competence
é a invariância de um funcionamento autônomo, o da langue. Mas nessa
abrangência epistemológica que é a da nossa atualidade, essa invariância só se
garante como autonomia porque ela se reporta a uma performance, a uma
realidade atuante da prática da linguagem como parole. A novidade aqui é
que esse complemento de invariância e variação permite uma ciência da
linguagem, não só porque localiza constantes, mas porque assim a linguagem se
torna uma realidade como objeto independente para uma ciência individualizada.
A linguística não precisa dar conta da psicologia nem do significado do ser
humano no universo, porque a linguagem guarda um funcionamento perfeitamente
explicável na independência de si como fenômeno da articulação do signo.
Nada disso é
postulável nesse período inicial do século XIX, se bem que já não se precise,
tampouco, pensar o desenvolvimento interno de faculdades ou funções a partir de
uma corrente que as reponha na circulação total da Natureza. O exemplo mais
abrangente aqui é a onto-psicologia que perdura por todo esse momento,
especialmente no ambiente do espiritualismo.
É interessante
verificar que essa psicologia, destinada a uma superação conclusiva pelo
surgimento da psicologia como ciência, entre os anos sessenta e setenta desse
século, estendeu seus efeitos à contemporaneidade pela via da filosofia, no
intuicionismo de Bérgson ou mesmo no existencialismo.
No entanto, aquilo
pelo que ela se caracteriza nesse momento “romântico” – de Maine de Biran a
Vitor Cousin, é exatamente a localização do problema psicológico em termos de
uma competência que, no entanto, ao invés de remeter às regras de uma
realização prática, servem para explicar o ser do humano, mantendo-se, na
completa exterioridade de uma possibilidade experimental, no âmbito ontológico
de uma inserção do significado de Ser – e assim a legitimidade de conceituar
esse movimento como espiritualismo, já que a vertente desse Ser humano deve ser
postulável como uma região que é Espírito.
Ao mesmo tempo temos
assim um critério do sentido desses empreendimentos, pois se um Maine de Biran
acolhe o sentido ontológico da psicologia como descoberta da Existência, Vitor
Cousin e os espiritualistas muito imbuídos de catolicismo devem reconduzi-la ao
Ser como essa região do espírito. Ora, no momento posterior, quando as classes
presentes já não se constituem ou se diferenciam pelo que são, por seu
nascimento, mas pelo que fazem, e assim temos a burguesia e a classe
trabalhadora como aqueles que servem à industrialização ou àqueles que dela
possuem e controlam os meios, não se pode postular um funcionamento sem
perguntar ao mesmo tempo pela sua realização.
Reencontramos assim,
nessa persistência do Ser, anterior a esse momento, aquela tentativa de síntese
que Wellek atribuía exclusivamente ao romantismo, de modo a anular a espessura
do humano e do natural, do sujeito e objeto – e porque não de uma classe nobre
por nascimento e uma burguesia da Gironda, que agora devia estar se concedendo
o mesmo aporte “libertino” e “moderador” da antiga nobreza, seja por relação ao
modo de se auto-compreender, seja pela necessidade de coibir o que a ela vinha
a se opor, a pequena burguesia jacobina e o nascente proletariado?
Quanto a isso penso
ser decisivo aquilo que Bréhier observou sobre Cousin, a saber, que ele
interpretava o kantismo como uma psicologia. Ora, justamente o transcendental
kantiano opera a anulação daquelas dicotomias, atuando como fator essencial no
âmbito mesmo do que Wellek conceituou nos termos exclusivos da poesia. A
inserção de Kant nesse panorama torna-se fundamental à compreensão do que está
em curso. Como uma visão mais aproximada do kantismo só se deverá verificar no
decurso da exposição, aqui penso ser preciso registrar a relativização com que
o termo competence está sendo utilizado no contexto do espiritualismo,
pois com isso obviamente não designo um conjunto de regras de derivação no
sentido estrito da linguística atual, e sim o que na época se distingue das
deduções do período anterior conforme a prática dos ideólogos, e se exercita
como a inserção de funções e faculdades que devem abranger o funcionamento
mesmo da psique, ao mesmo tempo do ponto de vista da introspecção e da inserção
ontológica.
Quanto à história
política dessa época, vemos que não pode ser compreendida apenas como uma
oposição de burguesia (girondinos e jacobinos) e nobreza (clero e cortesãos),
mais o funcionalismo que gravitava em torno do Rei (ultra-realistas). Ela
abrange, nos interstícios do panorama de alternância entre revolução-império versus
restaurações, a latência de um outro aporte revolucionário, que atua sob todos
esses movimentos de contestação à restauração da nobreza e que só se revela no
seu singular estatuto após 1848, a saber, a tendência socialista que assinala a
cisão no interior da classe média e o surgimento de uma classe trabalhadora.
Abrange também o novo
papel do intelectual, como não-classe, à margem do processo político. Se no
ambiente revolucionário do pré-romantismo ele havia atuado decisivamente na
formação de uma consciência de classe burguesa, agora o predomínio dos valores
exclusivamente utilitários da burguesia, mais a crescente especialização dos
ramos do saber, atua no sentido de tornar necessário uma revisão das relações
de intelectualidade, principalmente no âmbito da criação artística, e
sociedade.
O sintoma da
ambivalência de valores no meio burguês abrange os dois impérios napoleônicos,
mostrando a indecisão pequeno-burguesa no reconhecimento de sua situação que a
emergência da classe trabalhadora põe cada vez mais em evidência enquanto
irredutível ao Estado Liberal de banqueiros e industriais. Ora, se o Romantismo
como uma época estilística está longe de apresentar uma solução poética entre
valores antagônicos, a poesia e a literatura servindo muito mais, inversamente,
para tornar patente a sua irredutibilidade, o que o plano literário expressa em
termos desse antagonismo é uma série de tendências contraditórias, que devemos
examinar pormenorizadamente: Estado e nação, política e sociedade, modernização
e identidade de povo, passado como tradição e passado como atuação, tantos
termos que se tornam agora antagônicos ao expressar as transformações no trânsito
da era moderna à contemporânea, via revolução industrial.
O que se mostra por
esse meio, contudo, não é a obsolescência dos estudos sobre “o” contestável
conceito estilístico de romantismo unificado , mas sim que o estudo da
literatura de época romântica é extremamente útil na compreensão desse
momento inicial do século XIX, dos antagonismos que a modernização e o Estado
nacional consolidado impôs à sociedade.
Isso não significa
que temos uma época na qual, ao lado de um estilo romântico predominante, se
sobrepõem contracorrentes, no entanto importantes, que com ele coexistem, mas
sim que na subsunção de uma época romântica, sobrepõem-se várias correntes,
vários romantismos, que nem podem ser caracterizados como um só estilo, nem
podem, por isso mesmo, ser designados como contracorrentes ao que seria esse
estilo.
A especificação dos
romantismos, algo sugerido por Lovejoy como a necessidade de se discriminar o
significado exato que o termo está associando em cada caso, sem prejulgar uma
significação universal única que só serve para obscurecer o que se está
procurando evidenciar a cada vez, é aquilo de que precisamos para compreender o
que está em curso nessa época em termos de transformação social. Esse é o uso
que Carpeaux observa ao tratar o termo romantismo no plural quando se trata do
título de capítulos em que se deve historiar os desenvolvimentos concretos do
movimento, enquanto que o “romantismo” no singualar se rerva aos capítulos em
que se mostra a multiplicidade seja de fontes, seja dos fenômenos sociais que
influem na época.
Ao mesmo tempo, por
paradoxal que pareça, as observações de Wellek sobre conceitos onipresentes no
que seria por esse meio caracterizável como um movimento coerente, não deixam
de apresentar interesse, ainda que não por provar a unidade internacional do
rótulo, mais por mostrar como esses conceitos se articulam com os problemas
mais importantes que essa transformação impôs ao pensar. O texto de Wellek tem
também um valor inestimável quanto ao seu teor informacional. É aqui que
poderemos compreender a transformação que sublinhei, concernente ao termo “história”.
O que se depreende,
quanto a isso, da leitura de Wellek, e que Carpeaux confirma inteiramente, é
que a introdução do termo Romântico, entre os séculos XVII e XIX, na crítica
literária, se relaciona ao intuito que será característico do romantismo
estrito, enquanto movimento estético ou estilo de época canônico em história da
Literatura. Esse intuito se mostra como uma contraposição, que só faz crescer
até atingir a maturidade no século XIX. O que está sendo contraposto é o dogma
classicista que apenas se sobrepõe à mentalidade de toda sociedade tradicional,
a saber, que no passado um certo conjunto de acontecimentos resumiu todo o
sentido da história posterior, que só se compreende a partir do conhecimento
desses acontecimentos fundadores. A isso se pode designar o alicerce mítico
da sociedade tradicional antiga, transposto a partir da Renascença, como
consciência histórica .
O que Renascença e
classicismo fizeram foi transpor esse fundamento mítico, que creio não haver
problemas em se evidenciar como característico de uma sociedade como a cristã
feudal, à Grécia e à Roma da Antiguidade. Ora, na medida em que a tradição
assim designada “clássica”, greco-latina, deve prover o sentido ou o paradigma
do que se faz na atualidade, ou seja, o sentido da história, esse conjunto de
textos e preceitos ou de acontecimentos do passado clássico são “a” história a
conhecer.
Assim qualquer tarefa
que deva se incumbir da produção literária, por exemplo, só tem como meio
mostrar a relação, mais ou menos exitosa, de imitação do modelo clássico.
Também, do mesmo modo, a compreensão da sociedade de hoje se torna um negócio
de comparar os fatos com aqueles, modelares, da antiguidade, e desenvolver as
consequências dessa aproximação – ou afastamento, pois o que se revela
problemático no agora pode bem ser devido ao desvio em relação ao que foi
outrora, ou seja, ao que devia estar sendo repetido.
É oportuno sublinhar
que ao transpor o alicerce mítico numa consciência histórica, o que a aurora
moderna do Ocidente operou foi notável, pois nas sociedades tradicionais, a
relação mítica dos acontecimentos inaugurais ou fundadores com o presente se
assegura de modo “sagrado”, isto é, não explicável mas revelado, enquanto que o
modelo histórico clássico deve surgir como a racionalidade imanente ao devir,
teoricamente assegurada, de que tudo o que se desvia parece não transgressivo,
mas irracional ou aberrante ou imoral.
O que começou a se
contrapor a isso, a esse modelo de história clássico tradicional, no plano
literário, se esboça na transição, entre os séculos XVII e XVIII, na França e
na Inglaterra, conforme Wellek. O exemplo palpável que ele fornece, porém,
pertence já ao contexto do pré-romantismo no século XVIII, a History of
English Poetry (1774 – 1881) de Thomas Warton. Aqui a novidade é que
autores típicos do barroco, assim como os romances de cavalaria do período
feudal, evidentemente não passíveis de se compreender a partir do paradigma
clássico, não são apenas ignorados ou criticados como casos falhos, de que se
deve recuperar apenas o que a custo podemos aproximar do modelo, mas são
pensados na positividade de seu estilo irredutível e para reunir tudo o que não
se designa clássico, utiliza-se o termo “romântico”.
Ora, por esse meio o
que se permite iluminar é também a criação nacional, pois se em geral ela se
nutre da inspiração popular, dos contos e lendas do repositório da memória do
povo, então ela não pode se inscrever na adoção dos modelos clássicos
greco-romanos, nem pode pretender uma designação unívoca, um rótulo pelo qual
se explica a extrema variedade de formas e temas, mas exige uma transformação
na atitude crítica, que deve ser flexível o bastante para compreender a
irredutibilidade cultural das nações e épocas. Assim Carpeaux relaciona Warton
e Herder, como se Warton fosse um precursor da crítica literária de
nacionalidades que Herder cinzelou.
Esse conceito de
história, como uma atuação do povo que se desenvolve continuamente no tempo, de
modo que todos os acontecimentos numa certa linha de pertinência – por exemplo,
política ou estética – se somam conduzindo ao presente, se enuncia como “história
progressiva”. Ele se contrapõe, como vimos, simetricamente, a uma “história
tradicional” como acesso a certo núcleo factual parado no momento que se
considera principal do passado. O rótulo romântico, contraposto a clássico, se
introduziu assim como a senha de um método crítico, não como a definição
unívoca de um estilo. Romântico devia ser aquele conjunto de produções a que,
para se compreender o sentido imanente, se devia proceder um estudo próprio, ao
invés de poder ser lido a partir de um cânon estabelecido de antemão.
Se o “romântico”
arrolava assim tanto realizações nacionais irredutíveis, como criações do
barroco e do período feudal, o que pertencia exclusivamente a esse passado
cavalheiresco poderia aparecer como “gótico” contraposto a “clássico”. Note-se
que assim os dois termos contrastados tem um mesmo sentido, sendo ambos estilos
definidos, enquanto que na oposição de “romântico” e “clássico”, o sentido dos
termos não permanece no mesmo nível. No entanto, como entre os sentidos de
romântico estava a produção cavalheiresca, encontra-se por vezes uma
sobreposição de “gótico” e “romântico” , como sinônimos. Wellek registra essa
ocorrência em Herder.
Ora, o núcleo desse
estilo cavalheiresco pôde ser separado, conforme a índole do crítico, de modo a
se tornar algo em si recuperável no presente. Assim, Herder conceituou o gótico
romântico como uma mistura de religião cristã e regras cavalheirescas de modo a
resultar o gosto espiritual e devoto que Herder associou ao italiano. No
entanto, esse conceito se tornou comum no pré-romantismo e Eichorn o aplicou
também à literatura espanhola. O uso se ampliou e à época de Warton, Ariosto e
Tasso, Shakespeare, Calderón e Cervantes são designados “românticos”.
Contudo, é com
Novalis e os irmãos Shlegel que o termo se torna aplicável no sentido modelar,
ao presente. Assim, não apenas a história literária pôde se ampliar, de modo a
não se delimitar apenas aos “clássicos” antigos e ao classicismo francês que o
imitva. Se o termo romântico permitiu que se recuperassem obras importantes,
agora, a partir das Conferências sobre arte dramática e literatura (1809
– 11) de William Shlegel, tudo o que se produzia como romances e contos de
fadas, de tipo peculiar, conforme a definição adotada de Novalis, poderia se
considerar também romântico, teorizável, compreensível.
As conferências de
Schlegel inovaram por inicialmente associar simplesmente tudo o que pertencesse
à cristandade, feudal e renascentista, como “moderno”, não – clássico, e
portanto “romântico” : isso devia abolir o traçado da arte da Renascença como
clássica, ainda que seus autores admirassem a antiguidade. Mais tarde as
conferências incluíram a idéia de que a antítese romântico-clássico poderia ser
associada como aquela entre orgânico-mecânico ou pinturesco-plástico. Nesse
momento, Schlegel retorna a uma concepção que permite separar tanto a antiguidade
quanto o neo– classicismo ( a poesia de perfeição ), das manifestações poéticas
do desejo infinito que seriam românticas, e assim não mais propõe apenas um
corte temporal tipo greco-romano versus cristão. Contudo, conforme
Wellek, a adoção do termo “romântico” como enunciando um movimento artístico da
contemporaneidade dos críticos só ocorre com Bouterwek em 1819 e Heine em 1833.
A obra de referência parece ser a de Haym, que arrolou o grupo de Iena como “escola
romântica”: os Shlegels, Novalis e Tieck, que, no entanto, não se consideravam
a si mesmos como pertencendo a um estilo comum.
O conceito de
romantismo como estilo de produção de contos de fadas, pitoresco, sem aspiração
ao fechamento perfeito mas compreendendo o desejo infinito, que veio de
Schlegel, se generalizou e da Alemanha conquistou a Europa: Wellek registra a
influência do romantismo alemão na Suécia, Dinamarca e Holanda. O mundo latino
e a América do Norte recebem essa influência por meio de Madame de Staël, cujo De
l’Allemagne inclui o paralelo de clássico e escultural, romântico e
pinturesco, drama grego de acontecimentos e drama moderno de caracteres, a
poesia do Destino contra poesia da Providência, poesia da perfeição contra
poesia do progresso. Essa conceituação que é também de Schlegel, foi utilizada
por Coleridge, mas suas conferências, tendo sido publicadas bem mais tarde, não
desmentem o mérito de Madame de Staël como responsável pela influência
romântica no mundo latino. Wellek, porém, registra o Lectures on General
Literature, de James Montgomery (1833), que veremos desempenhar importante
papel na evolução do romantismo.
O termo assim
introduzido causou polêmica, pois para os clássicos significava apenas mau uso
da rima, lirismo vazio. Assim, o alinhamento de autores da época, ou da
história recente, como românticos em alguma obra crítica, tanto poderia
significar uma severa depreciação de sus criação quanto uma valorização que
transformava o autor no fundador de algo que agora parecia mais como um
movimento do presente. A avaliaçãoatual quanto ao papel histórico dessas
críticas, porém, não parece consensual. Assim, a importância da obra de
Montgomery se relaciona a que ele lançou a idéia amplamente aceita de Southey,
Wordsworth e Coleridge como fundadores do estilo na Inglaterra, o que Wellek
não contesta. Carpeaux considera essa idéia, ainda que tão propalada, como uma fable
convenue. Já a batalha d ‘ Hernani, isto é, a polêmica causada pela
encenação da peça de Vitor Hugo, em 1830, considerada por Carpeaux como o marco
do romantismo francês como estilo predominante, algo de que não há comparação
na Alemanha ou na Inglaterra, pois toda a juventude se mobilizou para superar a
oposição acadêmica na noite de estréia da peça, parece a Wellek algo que
propende a induzir contra-sensos.
Pois Wellek argumenta
no sentido de que, ainda que o De l’Allemagne tenha tido importância
considerável por fornecer através da conceituação de Schlegel algo como uma
autocompreensão de época quanto ao que estava ocorrendo no plano estético, nem mesmo
na Alemanha se pode considerar as realizações artísticas do romantismo como
algo derivado apenas do passado nacional. Assim, Wellek pensa que o decisivo
nesse movimento alemão é a influência que certas tendências espiritualistas –
de Jacob Boëme, Spinoza, Giordano Bruno – exercem, enquanto na França bem antes
de 1830 o essencial quanto à estética romântica já vinha se desenvolvendo. O
caso francês seria exemplar já que o espiritualismo teve bastante peso, desde o
pré-romantismo e o iluminismo místico, .
O que se deve inferir
assim é que o romantismo é uma estética singular, bastante bem conceituável,
independente de idiossincrasias nacionais ou históricas. Portanto, se na
Alemanha o movimento foi mais forte do que nos outros países, isso não se deve
a que a realização estética derive daí, sendo que deve ser considerado algo
generalizado como estilo de época, mas que o atraso da industrialização causou
um interregno maior não controlado pela burguesia racionalista. A “inteligentzia”
do romantismo alemão, mais do que o inglês e o francês, teria se emancipado da
necessidade de engajamento político pelo fechamento do regime, devendo criar
uma literatura de evasão, na exterioridade da realidade comum ou da preocupação
social.
Aqui, apesar das
divergências, temos algo comum a Wellek e Carpeaux, pois se este último não
pretende de modo algum acentuar uma tão assegurada unidade conceitual, sua
descrição da evolução dos romantismos nacionais utilizando como estratégia a
sobreposição dos gêneros múltiplos que expressam várias intenções sociais
convergindo no movimento como um todo, há a mesma evidenciação de que esses
gêneros são muitas vezes de reação à modernização: tanto nos sentidos negativos
de uma veiculação das idéias da nobreza ou da alienação política, quanto
positivo de uma valorização da cultura popular e da identidade nacional. No
entanto, Carpeaux sabe evidenciar a gama múltipla desses interesses, enquanto
Wellek pensa que há a possibilidade de fusão, numa só fórmula, de todas esssas
vertentes. Wellek quer evidenciar apenas o aspecto formal, considerando o nível
de intenções, politicamente interpretável, apenas como algo marginal ao
fenômeno estético.
Conforme Capeaux
aquilo que a fable convenue reuniu em torno de Coleridge, Wordsworth e
Southey – este último autor de uma História do Brazil, nessa época em
que o fenômeno estético literário devia ser encontrado na produção de todos os
lugares, já que devia poder ser conceituado indendentemente do modelo clássico,
o que aumentava o interesse por nacionalidades “exóticas” – se designa não
tanto a partir do que ela conceituou, ou seja o comum “romantismo” desses três
poetas, mas sim o gênero que praticaram, a Lake Poetry.
Assim, pode-se
localizar o que seria o percurso dos lakistas – poesia do lago, que se faz em
regiões bucólicas, afastadas do ambiente urbano e que se caracteriza por uma
forte valorização da natureza de índole místia e visionária: início
revolucionário, pró-1789, depois conversão religiosa, renúncia do progressismo
das luzes, busca, por meio da poesia, da revelação mística. A Lake Poetry foi
cultivada pela nobreza européia, temerosa da revolução, como na Polônia e na
Alemanha, de modo que a mentalidade predominante, abrangendo a temática das
raízes nacionais, se impregna de valores conservadores, típicos da reação.
Carpeaux observa que
não reduzindo-se à reação, a Lake Poetry produziu poderosa música verbal, e que
Coleridge enunciou, como crítico literário, algo não redutível a esse
esteticismo puro. Sua oposição entre Fancy ilusória e Imagination
criadora, aquela redundando no mero esteticismo, esta permitindo a visão
mística que obriga a autêntica “suspensão da descrença” que se exige
para a compreensão e apreciação da obra de arte, não deixam de ser valores
peculiares à Lake Poetry, que parece assim não se esgotar no descompromisso
político e alcançar uma ressonância mais espiritual. Carpeaux considera a
teoria de Coleridge como ligação entre o lakismo e o romantismo autêntico de
Iena, o meio universitário que compôs o movimento em torno dos irmãos Schlegel.
Contudo, Carpeaux
pensa que se pode, sim, pensar um estilo europeu romântico. Ele seria algo
voltado ao mesmo tempo contra o passado e o futuro: o passado sendo o
neoclássico decorrente da Revolução via Império, e o futuro sendo o racionalismo
que o Realismo tornará esteticamente relevante, mas que designa a modernização
industrializante do mundo plenamente burguês – a era que Burke conceitou como a
dos “sophisters, economists and calculator”. Ora, o que decorre dessa rejeição
é a valorização do subjetivismo emocional, sendo “emoção” algo não definível
por princípio. Logo, Carpeaux observa que seria mais conveniente utilizar “romantismos”
no plural, já que esse subjetivismo pode ser relacionado a intuitos os mais
vários.
No entanto, historicamente
aquilo que veio dessa multiplicidade de intenções confluiu a partir do contato
pessoal ampliado entre os intelectuais europeus, algo peculiar a esse momento,
de modo que é por isso que o estilo se tornou internacional – de todos o mais
homogêneo, mas só a partir dessa confluência, como um fato a posteriori,
não derivado do modo de ser único conceituável simplesmente nos termos da
oposição ao objetivismo, já que, isso que serviu de base à conceituação de
Wellek é, para Carpeaux, justamente o que não permite uma compreensão
precisa em termos de suas múltiplas realizações efetivas.
A ânsia de uma
síntese de sujeito e do objeto, ou o subjetivismo que parece designar a mesma
síntese, aparecem assim, em Wellek e Carpeaux, como um mesmo conceito relacionado,
porém, a métodos irredutíveis de tratamento do fenômeno romântico.
Wellek enfatiza como
algo comum no início do romantismo a oposição a Pope, poeta de perfeita
expressão do common sense. Carpeaux relativiza um pouco essa rejeição,
mostrando que ela não ocorre em Byron, mas de modo geral confirma a impressão
oriunda do romantismo de que senso comum e poesia são antitéticos, o que
contribuiu para o esquecimento da poesia de Pope nessa época.
O essencial aqui, a
imaginação, está se encarregando de transpor o milagre do sagrado ao
fantástico, laicizando ou humanizando o mistério. Assim o romance gótico do
século XVIII encontrou a oposição do novo “Shilksalsdrama” que deslocou até
mesmo a preferência do romance sentimental – em vez de contos de terror nos castelos,
as complicações misteriosas cujo encadeamento só se deve ao destino, não às
assombrações ou aos sentimentos.
O milagre fantástico
é algo que a literatura deve à criação, como exercício puro da imaginação, não
à fé, ou à aceitação do sobrenatural ou mesmo a compreensão do íntimo dos
personagens. Assim tanto se pode criar quanto desfazer, não por uma lógica
qualquer, por exemplo, porque algo é mal, mas pelo jogo complexo da
criatividade. Os romantismos encenam contra-relatos: o processo da “Rahmenerzaehlung”,
ilusão teatral na qual a história é narrada por um personagem, desmentido por
outro personagem que conta novamente a mesma história mas com um outro
desenvolvimento ( Wackenroder) ; a extensão desse processo quando se trata de
reverter a Paidéia oficial, vista agora como falsos princípios de educação
oriundos dos ambientes politicamente comprometidos (Jean Paul, Byron);
A reversão da
identidade pelo duplo, tema essencialmente romântico, pode a meu ver ser
tratada também como um processo de contra-relato. Ele atua a partir de uma
história do sujeito enquanto aquele que experimenta um processo de relato
perdido, por exemplo os ideais traídos da Revolução ou alguém destituído do que
pensava ser e que depois, por seu esforço concertado acede a algo como um
relato reencontrado, por exemplo, o império napoleônico ou algum estado
satisfatório na vida. No entanto, o destino encena o seu contra-relato, nesse
exemplo o que seria a latência de uma revolução socialista ou a manifestação da
restauração da nobreza, ou um duplo que lhe contesta a identidade – sendo que
por vezes o duplo, que pode ser um sósia, se torna ameaçador apenas porque o
personagem não cumpre o pacto previsto no reencontro do seu relato que só havia
se tornado possível pela intervenção do duplo ou sósia, como em Hoffman. Ora,
isso permite reintroduzir o destino já que não foi apenas a iniciativa do
personagem que permitiu reconstruir a sua identidade: o Shilksalsdrama da
história francesa dessa época ou do percurso do personagem do romance. E
Carpeaux interpreta o tema do duplo a partir da quebra da realidade social pela
Revolução.
Nesse mesmo âmbito
insere-se a Comédia não Divina, de Krazinski (1835), que Carpeaux situa
como obra de questão social, encenando o conflito da nobreza e do proletariado,
ambas as classes anuladas pela visão do sagrado, a Cruz – assim o relato “histórico”
se contrafaz por uma realidade separada. Se essa comédia é não-divina, o relato
de Dante também se contrafaz. Pois Krazinski localiza essa realidade do Sagrado
não nos termos de uma finalidade lógica, as regiões de destinação das almas
consequentemente estatuídas pelo sentido dos seus atos e escolhas, como fez
Dante. A contrafacção se garante pelo patético dessa realidade que não excede a
pura Visão, não sendo mais que Símbolo, logo, algo imanente ao fazer artístico
que se torna não apenas sobreponível, mas mais efetivo do que a luta – já agora
sem sentido – entre “classes”, sujeitos igualmente ilusórios de uma falsa
situação vivenciada, no entanto, como o relato que o prosaísmo, o common sense,
o cálculo racional, poderiam ter por objeto: aquela realidade mesma do
cotidiano, assim falseada, como uma teoria inadequada do que é o Real.
Assim a arte de
Kleist que reverte todas as expectativas da lei. A partir de uma ambiência bem
posterior, quando a ordem burocrática se transforma na realidade do mundo
burguês, Kafka tematizou a lei como absurdo, uma forma vazia. Em Kleist,
tipificando o problema romântico, a lei não é ainda absurda, ela é
insuficiente. A lei é objetividade, a pessoa pertence a uma ordem irredutível,
subjetiva. A boa intenção, conforme à lei, é forçosamente punida, eis o que o
fatalismo shicksalsdramen de Kleist sempre encena através de personagens que
por suas virtudes e serviços só recebem o oposto do que queriam ou esperavam.
Isso porque a lei é injusta com o indivíduo ao mesmo tempo em que fundamenta a
sociedade – o conflito se instala entre o particular e o geral assim como o
ambiente pós-revolução não pôde absorver o programa iluminista nem desenvolver
todas as consequências do kantismo, que a sociedade da época de Kafka tipifica.
O personagem de Kleist, punido pela lei social, o foi só por ter tentado agir
conforme a lei da virtude. O texto da lei, relato do Bem, encontra o seu
contra-relato na espessura entre o sujeito e a sociedade.
A lei “social” ou
seja, que fundamenta a sociedade, é política, a lei da virtude, sendo a da
pessoa é a “social” verdadeira, não política no sentido de ser o que favorece
os que estão no poder, mas que o expressa os direitos e garante a liberdade do
povo. Esse “povo” nunca contemplado devido ao uso da lei pelos poderosos – no
entanto, essa leitura já sociológica do problema não esgota a do romantismo que
dessas premissas evolui para uma confrontação mais básica entre a expressão da
lei como discursiva, logo objetiva, e o acontecimento pessoal irredutível,
subjetivo. Alguns gêneros dessa época expressam esse conflito do político e do
social, como o costumbrismo, o folclorismo e uma certa vertente do romance
histórico.
O costumbrismo
explora a descrição de costumes antigos, dentro de um ambiente social bem
localizado, por exemplo a Madri do Rococó ( Somoza , Artículos em prosa,
1842). O gênero se endereça como crítica da modernização, como tentativa de
preservar algo original, uma identidade cultural, local ou nacional, isto é, o
nível do social, que o processo da industrialização ou da racionalização
desloca de maneira inexorável, sendo ao mesmo tempo manobrado politicamente
pelo Estado.
O folclorismo,
iniciado no romantismo – Carpeaux localiza Goerres, professor da Universidade
de Heidelberg como o inspirador do movimento – recolhe fontes populares como
poesias, músicas e costumes, que podem vir a servir na elaboração estética
nacional. Os contos de fadas dos irmãos Grimm, também folcloristas, figuram
como exemplo dessa utilização. O folclorismo se tornou universal, algo que
desde o romantismo se encontra em todos os continentes. É observável o
contraste, nesse âmbito, entre os conceitos de cultura popular e “cultura” internacional,
oficial.
Algo que não parecia
claro até então, pois a tradição situava a monarquia como detentora de um poder
unificador que devia ser culturalmente sancionado nos termos biológicos de
raça. No quadro europeu da época, por vezes um Estado recobre várias nações, e
o Império Napoleônico tendeu a homogeneizar politicamente territórios
culturalmente irredutíveis. O mesmo problema se enuncia no conflito jurídico
criado pelo código napoleônico, a cuja implantação nas outras nações européias,
mesmo que por iniciativa do governo independente local por favorecer a
burguesia, alguns juristas confrontavam como imposição arbitrária. Surgia assim
dois conceitos de lei, a obra do “profissional” do direito e aquela que não
deriva dos códigos mas sim do “Volksgeist”, o espírito do povo.
Carpeaux situa
geralmente essas tendências opostas a partir da historiografia romântica, o que
se estende ao romance histórico. Ele contrapõe tipicamente Herder e Burke. A
crítica de Burke à revolução envolvia a idéia de que a evolução histórica deve
ser gradual, não violenta nem provocada pelo arbítrio. No entanto, essa idéia
mantém o progresso numa acepção global, enquanto Herder pensava que qualquer
desenvolvimento só pode ser criteriosamente avaliado conforme a lógica de cada nação.
Assim o romance histórico hesitou entre uma criação paternalista, burguesa mas
conservadora, e aquele de índole nacionalista, patriótica, podendo também
apresentar-se eivado de conservadorismo. A história paternalista recuperava o
passado institucional, enquanto que os patriotas procuravam recuperar a força
social atuante que deveria evidenciar o papel do povo na evolução dos
acontecimentos. Assim a partir de um mesmo tema, por exemplo, a sociedade
feudal, ora se poderia enfatizar as instituições de honra, fé cristã, heroísmo,
ora se poderia enfatizar a intervenção do espírito nacional, do povo, em cada
nó de acontecimentos.
O gênero foi
cultivado a partir do paternalismo, como evasionismo, explorando o pitoresco, o
longínquo, na acepção paternalista e burguesa. Já a patriótica apresentou-se
por vezes tendenciosa, forçando versões concordantes com a perspectiva
nacionalista que se intencionava marcar. Em geral Carpeaux assinala a
substituição da padronização – certas épocas consideradas históricas porque
apresentando certas características valorizadas, por exemplo o progresso da
razão – pela relativização das eras como igualmente importantes, devendo sua
valorização depender da compreensão da imanência de seus processos
irredutíveis, isso que hoje designa-se “senso histórico” tendo se originado
aqui.
Carpeaux mostra que
essa conquista não eximiu historiadores como Michelet de interpetrarem o
passado à luz do presente, atualizando-o ou modernizando-o. Assim cada época
devia sua inteligibilidade ao modo como se endereçavam ao horizonte da
atualidade liberal, burguesa. Ranke introduziu a historiografia “positivista”,
na qual se devia permanecer isento desse anacronismo de Michelet, enquanto
Thierry, Guizot e Grevinus introduzem a “história política” que interpetra o
passado conforme oposições internas, não uma luta de classes (econômicas), mas
de grupos (políticos) governantes e oposicionistas. Interpetrada de modo
nacionalista, romântico, essa história política se tornou um instrumento de
definição da identidade cultural, nacional, em nações que ainda não haviam se
industrializado. O momento romântico, nesse sentido, é particularmente
importante no Brasil.
No entanto, ali onde
a Indústria ainda não penetrou, logo, onde o tradicionalismo de uma época na
qual a nobreza ainda subsiste como classe mesmo no contexto das revoluções
políticas, a ambiguidade dessa situação histórica muitas vezes se expressou num
certo interregno de dominação, seja de uma casta nobre, seja de uma burocracia
monárquica, de modo que se instalou uma severa censura, completa interdição de
atuação política social, a ação política se restringindo ao governo, ambientes
totalmente vigiados, controlados por uma polícia política rigorosa como na
Restauração francesa – A esse momento designa-se Biedermeier, um período que
antecede a definição da situação européia e internacional a partir do
republicanismo industrializado.
O Biedermeier se
expressou como estilo literário de esteticismo, exaltação do idílio,
proivincianismo, cultivo da música e das artes como símbolos de uma beleza
pura, plástica, algo não inteiramente romântico já que é um estilo de
afastamento tanto do elemento público quanto da infinitização do desejo. A
atitude do Biedermeier é como a da Lake Poetry, de descompromisso social, mas
não mantém uma relação com a natureza, inversamente caracterizando-se por um
investimento da cidadezinha, dos interiores, do vestuário, da mobília.
Creio que a situação
do estilo se tipifica pelo fato de Carpeaux localizar no brasileiro Manuel
Antonio de Almeida (Memórias de um sargento de milícias, 1855), um
Biedermeier latino-americano. Ora, sabe-se, e Carpeaux registra, que essa obra
se costuma classificar como de transição, na história da literatura do Brasil,
entre o romantismo e o realismo. O Biedermeier mantém elementos costumbristas,
uma vez que é nostálgico e lírico, altamente ilusório. Mas cultiva uma
valorização das coisas prosaicas, pequenas, do cotidiano, isto é, da
atualidade, que o exime do ardor da participação ou do anseio de participação
política social, isso que se vê proibido, mantendo-se na resignação da arte
pela arte – o recalque desse anseio, afinal bem saudável, pode se traduzir na
atitude suicida de um Beddoes.
Carpeaux situa vários
acontecimentos como estabelecendo a superação do romantismo: o relato da
conversão de Newman ao catolicismo, exposição mais objetiva que pessoal ou
angustiada, a filosofia de Kierkegaard contra a igreja do seu país , a
renovação religiosa na França com Lamennais, o manifesto comunista de Marx.
Por todos os lugares
há uma identificação entre superação do movimento romântico e implementação da
revolução industrial. Assim, conforme Carpeaux, há uma vertente exclusivamente
francesa de romantismo social antecedendo a revolução de 1848 – o feminismo de
George Sand, a influência internacional de Hugo – que ele afirma dever-se ao
fato de que até essa época ainda não há propriamente revolução industrial na
França, sendo a exceção a Inglaterra. Assim a penetração da influência francesa
se deveria a uma homogeneidade da evolução econômica européia no exterior do
ambiente inglês. (...)
Mas a partir de 55 o
desenvolvimento industrial na Europa é notável o suficiente para determinar a
separação das classes, a redefinição do espaço político que virá a constituir o
cenário da sociedade contemporânea. O Realismo, que surgiu no interior do
romantismo, desde aproximadamente a década de trinta do século XIX, como uma
tendência exagerada aos pormenores da descrição presente em escritores
tipicamente românticos como Scott, Hugo ou Mérimée, tornou-se um estilo
estabilizado a partir da descrição de costumes em Murger e Balzac, oposto ao
costumbrismo por tematizar o contemporâneo, sem nostalgia, com agudo senso de
perspectiva e restrição do relato ao descritivo. Observação minuciosa, análise
profunda – prospectos da Representação que deslocam inteiramente o subjetivismo
romântico numa ordem social destituída de significado intrínseco para investir
apenas a racionalidade funcional. A era dos sofistas – intelectuais
pequeno-burgueses, conforme Carpeaux – e dos economistas e calculadores, a
burguesia.
O império
pequeno-burguês de Napoleão pareceu expressar uma via de compromisso com o
prosaísmo, as idéias limitadas do cotidiano. Mas a implantação da república
impôs um modo de vida anônimo, uma lógica de mercado que excluía a participação
pelo papel cada vez mais importante do monopólio, da grande indústria, da
exportação. A pequeno-burguesia proletarizada tornou-se socialista e utópica. A
sociedade de classes irredutíveis tornava-se uma evidência, de modo que sua
contrafacção pelo idílio ou pelo sentimentalismo se revelava agora como
deserção de um alinhamento necessário. A identidade pessoal se tornava um caso
desse alinhar-se político, a espessura romântica havia se exaurido. A aproximação
de Realismo e emergência das ciências humanas não se revela, porém, um tema
simples, até porque esse movimento coexiste com o que lhe sucede, a vanguarda.
É nesse momento de confluência que se poderá contextualizar a psicologia
científica de Fechner e Wundt, e a obra sociológica de Comte.
· Berkeley-Hume e Kant-Fichte-Scheling-Hegel
– Introdução
Na evolução do
empirismo (Berkeley – Hume) à filosofia transcendental (Kant – Fichte– Schelling),
poder-se-ia pretender um desenvolvimento conceitual perfeito, como um
desdobramento lógico de conclusões a partir de certas premissas, como se cada
filósofo só enunciasse o seu pars construens após haver cuidadosamente
recolhido, de modo algum destruído, o que o seu predecessor havia, por sua vez,
ajuntado. Os hiatos seriam breves, na verdade relançamentos em várias vias
daquilo que antes só se pôde enunciar em bloco.
O que se antepõe a
tal interpretação não é a diversidade dos rótulos, o empirismo, o criticismo, o
romantismo dos idealistas. Mas algo muito mais profundo, desconcertante mesmo,
que se impõe entre kant e o seu pós. Esse fenômeno tão singular envolve
certamente a compreensão do Romantismo, esse “movimento de conjunto” que
Bréhier considera bem errôneo visar ao modo de “uma teoria literária”, pois “ele
afeta todas as direções do pensamento e do sentimento” (op. cit. 338).
Ora, de Berkeley a
Kant a filosofia conserva sua auto-imagem como produtora de saber acerca do
real. Apenas esse saber está cada vez mais se definindo como filosófico,
pois integra resultados das ciências, mas não seus novos métodos
especializados, indutivos, que as separam daquilo que anteriormente formava o
campo unificado pela metafísica. Mas o fato de que o filósofo por vezes também
é um cientista, como Descartes e Leibniz, já esclarece sobre essa atividade
filosófica e produtora de saber.
O filósofo deve
enunciar as leis de domínios que ultrapassam os especializados da matéria, mas
com a mesma isenção e a mesma atitude do cientista que se apóia na experiência.
Em todo caso a atividade racional deve explicar o aspecto da realidade que
conceitua. Assim, à observação, a transição, dos grandes sistemas que abraçam a
natureza inteira desde o ponto de vista de sua conexão íntima com o espírito,
no século XVII, ao ambiente de perspectivas atomizadas, precisas, seccionando a
“natura” como o microscópio permite fazer com um tecido de que se deve isolar
os sistemas celulares constitutivos, do século XVIII, é bastante coerente. Como
a filosofia e a ciência comungam o mesmo ideal que finalmente se pôde
auto-nomear Esclarecimento, a curva do predomínio de Descartes a Locke
parece paralela ao avanço das ciências da natureza no rumo da especialização e
do desvendamento de novos reinos de visibilidade.
A tendência
quase-científica do pensamento humano no século XVIII parece assim poder se
inserir sem dificuldade nesse quadro evolutivo. A quebra da Mathêsis se fez
como que por dentro, à medida que o saber rompe os limites da percepção e força
a concentração em áreas que se autodelimitam progressivamente até poder se
dotar, como que de súbito, desse objeto que as fecha sobre si e as torna
independentes, recém ingressas cidadãs de um território epistêmico igualmente
novo – a biologia, a economia, a ciência da linguagem no Saber contemporâneo.
Se o processo só se completa no século XIX, com a emergência das ciências
humanas, vemos que sua tendência se manifesta nesses precursores do século
XVIII, que se caracterizam por uma intenção de autonomizar o campo de sua
reflexão de fenômenos humanos, à exemplo de Montesquieu na teoria política.
Então, paralelamente
ao avanço das ciências, a filosofia está fornecendo teorias do conhecimento que
se pretendem cada vez mais flexíveis, aptas a captar essa competência
minuciosa, essa tendência à exatidão, essa autonomia de interesses que as
ciências põem em exercício. O intuito da filosofia é principalmente a teoria do
conhecimento, e aquilo que lhe sobra de mais autêntico, a moral, a compreensão
do humano em seu ser e seu coexistir, se elabora de modo a repor a mesma
exigência de autonomia do fenômeno. A filosofia evolui, consequentemente, no
rumo de uma Crítica, desde que pretende eximir a atividade teórica da
necessidade de implicação metafísica, tão característica da Mathésis clássica,
que não podia liberar um campo conceitual sem manifestar sua dependência a
todos os demais.
A filosofia de Kant,
de modo tão elegante produzindo críticas autônomas do entendimento, da moral e
do gosto, é de fato a culminância desse processo, cujo desenrolar pareceria
dever convergir “naturalmente” com a explosão de campos autônomos capazes de
tomar a seu encargo o pensamento humano setorializando-o conforme questões
concernentes a horizontes temáticos independentes. No entanto, o que se
verifica desde Fichte, e que perfaz aquele movimento de conjunto de que fala
Bréhier, é uma tendência simetricamente oposta a essa evolução de tão longo
alcance.
A exigência agora, na
transição ao século XIX, é de uma audácia – para não dizer arrogância –
extrema, e visa justo o que se vinha tentando cada vez mais evitar. Quer-se a
implicação mais rigorosa entre os fenômenos de proveniências diversas,
precisa-se a todo custo fabricar ou construir explicações totalizantes do real
e o que há de audacioso na altissonância das expressões manifestas se reconstitui
pelo bizarro, pelo fantástico como que proposital dessas gigantescas narrativas
filosóficas que fundem religiosidade e filosofia da história.
Mas essa fusão não se
faz por uma transcendência, como no passado gnóstico. Se Kant, a meu ver,
impossibilita aquela versão da modernidade como neognosticismo destorcido, é
porque sua crítica, ao impor o transcendental, desloca completamente o sentido
do pensar, que se torna independente ou mesmo imune a toda inserção do sagrado.
O pensamento só se elabora no âmbito de suas leis, modernidade, quanto a isso,
é imanência. No entanto, a conjuntura a que se propõe o rótulo “romantismo”,
esse período de trinta ou cinquenta anos que manifesta uma tão notável
coerência interna ao mesmo tempo que uma igualmente notável discrepância no
quadro evolutivo do seu antes e seu depois, essa conjuntura repõe o sagrado
pela fusão entre o devir e a espiritualidade, só que para isso utiliza a
Subjetividade.
Em Hegel isso se
estende à inteligibilidade, ao conceito. Ora, isso faz com que Hegel apareça
como o limite desse momento bizarro, no qual o pensamento renuncia à coerção da
inteligência, muda a atitude esclarecida, científica, que vinha mantendo, e
envereda decisivamente com todo o peso do “sombrio ardor” romântico, na expressão
de Bréhier, na via do misticismo: nem mesmo um misticismo cuidadosamente
mesclado aos limites do observável, mas tempestuoso, exuberante, quimérico,
fantasioso e ambicionando tudo poder. A senha desse momento é Absoluto, que só
se lê subjetividade, o “eu” duplicado em empírico e transcendental.
Mas Hegel, que não se
furta a nenhum desses arroubos nem peca contra o tempo por falta de grandiloquência,
vem repor as coisas em seus lugares devidos. A “Subjetividade” se volta a ler “Razão”,
e o Absoluto ou está nesse retorno ao Conceito e ao pleno jogo da
inteligibilidade, ou se limita a ser posto como o fundo indiferenciado dos
discursos que nada significam. A partir do momento hegeliano, a observação
reencontra a marcha da especialização, da cientificidade, mas agora
surpreendentemente acrescida de força e vigor. O campo das ciências humanas se
estabiliza, as disciplinas se formam, consubstanciando seus limiares
epistêmicos perante nós.
O “Romantismo” parece
ter sido um sonho, mas o que há de inquietante é que ele se desenvolve no
espaço mesmo da mais zelosa vigília, e por isso não parece despercebido, se
impõe à reflexão. Mas não se vê como “explicar” esse fenômeno. Teria sido o fim
da filosofia, um momento de furiosa liberação conceitual, tanto mais bizarra
quanto mais gratuita, colhida de sua inutilidade frente à já evidentemente
inevitável fragmentação da Mathésis, à coalescência de tantos objetos novos
correlatos a tantos saberes “revolucionários”? Mas a filosofia continuou. Na
transição ao século XX ela está em plena atividade criativa e a fantasia de seu
declínio “pós-metafísico” parece bem contrastada pelo cenário pós-estrutural,
onde é do interior das teorias do humano que eclodem essas controvérsias mais
aptas a repor a necessidade do filosofar. Mesmo se pode observar que o século
XX, em que as ciências humanas se desenvolvem plenamente, é um momento
particularmente fecundo de elaboração filosófica.
Assim, no interior de
sua própria circunscrição disciplinar, a filosofia hoje compreende setores precisos,
uniformes quanto ao campo de interesse, bem delimitados quanto à orientação
temática, mas singularmente amplos quanto à possibilidade de convergência
interdisciplinar. O momento atual não parece, quanto à partição dos saberes,
muito estabilizado, mas oferece muitas variáveis de transformação, de que a
rubrica “estudos culturais” se tornou emblemática, de modo que nem isso afeta a
filosofia apenas, mas todo o campo do Saber.
Aqui, porém, o foco
está nesse desenvolvimento histórico que nos faz defrontar o “Monstro” do
Romantismo, inevitavelmente. E se ele continuar, como se pode prever que o
fará, incompreensível, meus votos se concentram no intuito de, ao menos, não
desfigurar demasiado aquilo que ele tanto tentou preservar.
Mas pode ser que seja
preciso mais que humildade, ou paciência, para sequer esperar encontrar
precisamente aqui, no Romantismo, algo de extremamente valioso, assim como a
chave de um sonho – seria Cumplicidade?
– Berkeley e Hume
O século XVIII é
marcado pela conjunção, conforme Bréhier, de dois traços bem nitidamente
visíveis no pensamento de Berkeley. A crítica do conhecimento, voltada contra o
imediatismo das auto-apreensões cartesianas e a ciência que assim deriva o seu
fundamento; e uma forma de espiritualidade que se enuncia como um profundo
sentimento da onipresença do espírito. Esses traços me parecem convergir na sua
comum dependência à fórmula empirista que transforma o conceito de objeto. Em
vez de uma “coisa”, uma realidade perceptível dotada de um “estofo”, para usar o
termo de que se servirá mais tarde William James, o objeto é limitado pelos
empiristas a correlato da consciência. Quanto a isso, Berkeley e Hume comungam
o mesmo princípio.
Mas se ambos devem
assim a precedência a Locke, cuja influência vimos preponderante nesse período,
é preciso agora deliberadamente observar as diferenças. É interessante
sublinhar que também em Locke há uma vinculação da recusa ao inatismo com uma
atitude espiritual. O que, no entanto, não permite a conclusão de que esses
traços do século XVIII apenas repõem as premissas de Locke é tanto a natureza
do exercício crítico quanto a espiritualidade que o embasa.
Assim, a crítica de
Locke ao inatismo se faz por meio de uma “história da alma”, ao invés de um
romance, como observou Voltaire louvando o realismo característico da obra de
Locke. Resta que essa “história” tem muito de “natureza”, e quanto a isso Locke
pertence ao seu século, mesmo se não é negável que ele possui um senso de “relatividade
sociológica”, conforme a expressão de Vergez-Huismann, incomum em sua época.
Mas o que desejo enfatizar com essa aproximação de história e natureza é que as
análises de Locke, desfazendo os mistérios que permitiam postular a autonomia
onto-teo-lógica das idéias, dependem principalmente da ligação de consciência e
mundo.
O fato de que a
partir da liquidação do pressuposto de uma impossibilidade de conceber os
princípios do intelecto a não ser como auto-suficientes, por sua
auto-evidência, segue-se uma transformação correlata na noção de objeto não parece
fundamental à compreensão do escopo da crítica de Locke ao inatismo. Assim, ao
opor dois tipos de ciência, as ideais e as experimentais, Locke não precisa
fundar a oposição a partir de uma decisão clara sobre o objeto dessas ciências,
mas sim sobre o modo pelo qual eles se estabelecem.
As ciências “ideais”
são as matemáticas e as que envolvem os fenômenos humanos, como a moral. Elas
não são ideais por estarem portando sobre coisas mais reais, e sim porque seu
modo de se estabelecer depende de noções constantes, forjadas pelo espírito.
Enquanto que as ciências experimentais precisam ser reguladas por um confronto
constante com o mundo, já que a validez de seus juízos porta sobre a
coexistência das idéias neles afirmadas e as relações que se verificam na
realidade.
A crítica de Locke
supõe uma confiança no ser assim das coisas conforme a representação que delas
temos, ainda que não dependa exclusivamente da afirmação de que as coisas são
efetivamente como temos delas a sensação. As idéias gerais, os universais,
seriam obra do ser humano, mas “fundada sobre a natureza das coisas”, conforme
a citação de Locke por Bréhier, de modo que as idéias de sensação, aquelas que
se reportam diretamente à exterioridade, são ao mesmo tempo representativas do
real e elementos irredutíveis da consciência.
Essa duplicidade se
expressa, por exemplo, pelo fato de que se as idéias de sensação captam tanto o
essencial das coisas (qualidades primeiras, como movimento, existência, número)
quanto impressões subjetivas (qualidades segundas, como a cor, o sabor, etc),
resta que , um pouco conforme Spinoza, as idéias de substâncias, quididades ou
essências, são sempre incompletas, pois não sabemos jamais que poderes
desconhecidos pode revelar a experiência.
No interior da obra
de Locke esses traços não me parecem resultar numa ambivalência especialmente
acentuável, pois a motivação da crítica como que une essas sugestões de modo
inequívoco. O trabalho de Locke tem um alvo preciso, a doutrina das idéias
inatas, nisso pelo que essa doutrina acarreta uma espécie de certeza
indesejável, que torna estéril o impulso do conhecimento científico por se
dotar de um falso critério de validez. O idealista, como o platônico Cudworth
ou o moderno Descartes, enuncia suas idéias sem perceber que não há nada nelas
que assegure sua verdade, pois o que fazem é, a partir de noções construídas
pelo espírito, como as verdades matemáticas, derivar uma realidade autônoma,
auto-evidente, de outros tipos de idéias que, apenas para eles, possuem o mesmo
grau de clareza e generalidade, como os princípios de religião e de moral.
É por isso que a
crítica ao inatismo está relacionada a uma atitude espiritual bastante nítida.
Locke pretende, por um lado, mostrar que a verdade científica precisa ser
descoberta e demonstrada pela experiência, não apenas “revelada” a partir de
visões interiores. Isso, já que ela porta sobre o que não está, precisamente,
nesse interior, mas no mundo sobre o qual o espírito pode, sim, enunciar juízos
válidos, já que aquilo que ele conhece, de que não pode duvidar seriamente pois
são suas sensações vividas, lhe vem sempre de elementos dessa exterioridade,
ainda que ele se sirva desses elementos para construir sistemas abstratos.
Mas assim, purgando a
ciência de um critério falso de segurança, purga-se ao mesmo tempo a moral, já
que esses princípios inatos se arrogam a revelação da universalidade de
preceitos e crenças que não estão de modo algum garantidos como tais, mas que
são impostos aos outros como se fossem uma questão de honestidade aceitá-los. A
atitude espiritual de Locke se expressa como moralidade, sentimento de
legalidade social que deve ser preservada contra as pré-concepções impostas
pela parcialidade de interesses não inteiramente expressos, disfarçados por
doutrinas que se arrogam uma autoridade que não podem fundar sobre nenhuma
ordem demonstrável.
No entanto, não
julgando do ponto de vista da obra como um todo, mas de postulados precisos que
ela garante, o empirismo posterior à Locke prossegue numa via de continuidade
com seus princípios, mas também crítica de suas ambiguidades setorizadas. Assim
Berkeley rejeita inteiramente o valor representativo das idéias para conservar
apenas a sua natureza de elementos últimos da consciência, o que se mantém como
traço comum no empirismo, desde então.
Ora, a essa restrição
se pode relacionar uma mudança de enfoque, pois ao tipo de análise concreta,
realista, ancorada na relação da consciência com a exterioridade, que é
característica do texto de Locke, se substituem os diálogos e tratados de
Berkeley e Hume, onde predomina um clima de revelação sensacional, de reversão
dos fundamentos estabelecidos pela convenção na percepção do mundo, ao mesmo
tempo em que a atitude espiritual não se prende à simples preocupação com a
liberdade de consciência, social e moral, mas se estende a uma concepção do
real transmutada a partir dessa reversão.
No entanto, já se
pode apontar um afastamento de Hume a Berkeley, quanto a isso, pois se Berkeley
fica fiel a essa espiritualidade de modo a interpretá-la de modo místico, Hume
a utiliza mais como uma catarse, uma liberação, como se maximizasse as
premissas legalistas de Locke no sentido mais individualista, e por aí seus
escritos jocosos inspirados no ceticismo, em que ele explora a impossibilidade
de “provar” doutrinas metafísicas metamorfoseando sua linguagem para apresentar
exposições igualmente “coerentes” mas opostas, de teses sustentadas por todos
os tipos de “escolas” filosóficas , idealista, estóica, epicurista, etc.
Contudo, essas
démarches se revelam algo paradoxais. Assim, o misticismo de Berkeley, apoiado
na redução do real ao imaterial percebido, reverte finalmente numa aproximação
à teologia que não permite à sua posterior guinada ao platonismo parecer
demasiado surpreendente. Quanto a Hume, na crítica da religião atinge o máximo
do humor crítico, cáustico e sarcástico, não sem revelar seu poder de
penetração ao submeter o fenômeno religioso ao exame. Mas resta que, como notam
Vergez-Huismann, o texto sobre “religião natural” , no qual encena a
controvérsia entre três personagens representantes de três vertentes religiosas
opostas, permanece complexo, nada fácil de interpretar quanto à posição do
autor. Assim não se pode derivar sem mais, em Hume, a atitude crítica a uma
indiferença espiritual, e cada uma dessas características observáveis no seu
tratamento do assunto se relaciona a consequências importantes na compreensão
de sua obra.
................
Algo notável na
evolução desse período é uma espécie de reposição de meios, que se reencontram,
mas sempre de modo algo deslocado quanto ao uso, na obra de cada filósofo.
Assim, o diálogo, que se torna o instrumento da crítica do conhecimento, em
Leibniz, Berkeley, Hume, ressurgindo com Fichte. Mas também a contraposição
antitética ou dialética de afirmações que o empirismo torna igualmente
improváveis. Collier o utiliza, demonstrando igualmente bem a tese e a
antítese, seja quanto a existência do mundo exterior, seja quanto à sua
infinitude, seja quanto à indivisibilidade da matéria, seja quanto à existência
do movimento, procedimento que culmina nas antinomias de Kant, mas envolve
também as paródias de discursos filosóficos, de Hume.
Assim também Berkeley
parece inicialmente apenas repor, ainda que nem sempre no mesmo gênero, aquele
consciencioso exame de idéias característico de Locke. Mas sua arte de
decomposição parece mais extrema e se estende ao percebido não para determinar
como nossas idéias são formadas conforme a modalidade de sua apreensão por nós,
mas, quase que inversamente, como ele não corresponde à objetividade que nós
lhe emprestamos ao apreendê-lo.
Essa decomposição do
percebido deve atomizar o dado em tantas regiões da experiência quanto a
imediatez de nossa apreensão determina, em vez de começar pelo pressuposto de
sua unidade para nós como sendo um critério válido da sua objetividade em si. O
exemplo é o do conceito de espaço, que supomos uma unidade ou “sensível comum”
às regiões irredutíveis dos sentidos tomados separadamente, como a visão e o
tato. Berkeley se empenha na demonstração de que o espaço visual não coincide
com o espaço tátil. Aquele se limita a comprimento e largura, não portando a
profundidade senão como um cálculo aproximado de luz e sombra que a experiência
ensinou a interpretar em termos de distância percorrida, isso que pertence
apenas ao tato.
Assim a
correspondência dos dois espaços nada tem de a priorística, mas depende da
experiência que ensina a ligação da mudança de claridade com a mudança de
distância. Nós devemos aprender essa relação do mesmo modo que aquela que se
interpõe entre o signo verbal, isto é, a palavra, e o objeto que ele designa. O
“objeto” é construído na experiência como horizonte dessas fontes irredutíveis,
para cada qual existe, na realidade revelada pelo exame, um objeto próprio. A experiência
das coisas é ela mesma uma linguagem, e é assim que deduzimos um Espírito
Universal que a institui, do mesmo modo que a linguagem verbal supõe um
espírito que a constitui. As séries táteis e visuais induzem a afirmar uma
correspondência providencial que só pode ser garantida por Deus.
Em geral trata-se de
utilizar todos os meios para surpreender a inconsistência das afirmações
derivadas do inatismo, considerando-se toda a filosofia cartesiana como uma
tautologia. Especialmente Berkeley se exercita na impossibilidade de manter a
matemática como um tipo de conhecimento puro ou “espiritual”, não tanto porque,
como construção do espírito, ela supõe elementos fornecidos pela experiência, e
mais devido a que aquilo que ela constrói como verdade inegável não resiste a
uma consideração isenta do pré-conceito dessa inegabilidade, isto é, um exame
do dado na realidade de sua vivência pelo ser humano: a linha se move,
alterando suas pretensas dimensões estabilizadas quando nos movemos, o tempo é
uma sensação e suas flutuações tem a ver com as do espírito, nada tendo de
puramente objetivas. Não existe “o” triângulo, a abstração, nem mesmo na mente,
que só lida com essa figura aqui, desenhada como isósceles ou escaleno ou equilátero.
Ora, isso torna o
mundo material ele mesmo espiritual, no sentido de produzido pelo espírito que
o vivencia. Por isso Berkeley rejeita igualmente a diferenciação de Locke
acerca das idéias, pois o que poderia opor a sensação da reflexão, o branco e a
sua percepção? Essa oposição apenas poderia consolidar aquela de matéria, o que
é o objeto da sensação, e espírito, que percebe. As coisas são modos da
existência das pessoas que as vivenciam, são puramente percepções.
Se a motivação moral
de Locke se relacionava a purgar o conhecer de sua pretensão a priorística,
Berkeley mostra que a tarefa crítica deve visar principalmente a linguagem,
pois é ela que devemos responsabilizar pela crença aberrante nas abstrações,
isso que compromete a ciência mais do que o inatismo, já que o uso comum da
linguagem induz a uma confiança na objetividade do dado independente de estar
sendo proposto a prioristicamente ou não.
A crítica de Berkeley
abrange assim tanto Descartes quanto Locke, pois o erro fundamental é a crença
numa realidade independente do espírito e isso não parece ter sido
especialmente enfatizado por Locke. Inversamente, ele manteve a doutrina das
idéias abstratas como fabricadas pelo espírito, independente da questão da
correspondência à essência que, se permanece desconhecida, é, no entanto, real.
Como vimos, para Berkeley qualquer espécie de abstração não existe, pois o
espírito não pode por uma idéia que não manifesta as suas implicações, como um
movimento que não é nem lento nem rápido, um triângulo que não determina a
relação dos seus lados ou ângulos, etc. A idéia abstrata é uma fantasia dos
filósofos, um modo de considerar o funcionamento da mente que não corresponde
ao real.
Fantasia cuja fonte é
a linguagem ingenuamente utilizada, pois, pensa-se que ela não teria
significação se cada palavra não correspondesse a uma idéia geral ou abstrata,
não redutível a qualquer particular, mas enunciando o que há de mais comum a
uma classe de seres. Berkely mostra que, inversamente, o que o nome designa é a
quantidade ilimitada dos seres possivelmente classificáveis na abrangência do
seu uso. A palavra não tem por correlato um todo, mas uma multiplicidade ou um
sentimento, uma posição ou estado do espírito. Aqui se insinua o “monstro” na
filosofia, pois trata-se de mostrar que a idéia abstrata é um monstro lógico,
esse epíteto que veremos ressoar na filosofia de Fichte.
O que se trata de
preservar é a indeterminação do signo, mais profundamente a relatividade da
experiência ao espírito, mas de modo que a fluidez não deve se estancar
tampouco numa concepção rígida acerca da Subjetividade, como o que “põe” à
frente algo desde que se pro – põe como realidade irredutível. Visto desse
modo, teríamos duas abstrações, a de um ser cuja idéia tem como conteúdo a tese
da existência em geral, e aquilo que dele subtraindo-se assegura ao mesmo tempo
a sua realidade e a desse ser previamente dado.
O espírito, em
Berkeley, começa por assegurar-se, não por “uma” idéia, mas como um movimento,
uma causa motriz do fluxo de idéias, que se sucedem e se combinam de certos
modos precisos. Se essas idéias são provocadas, isso só induz à interação entre
espíritos, não a uma necessidade de postular “coisas” na exterioridade, que por
si deveriam impor a experiência como sendo a de uma objetividade. E se restam
idéias que parecem não depender da vontade, de outros espíritos como agentes,
podemos postular a existência de Deus como Mente ou Vontade infinita que atua a
ordem e a harmonia das coisas naturalmente perceptíveis.
O espírito se
auto-apreende como essa causalidade livre, que compreende a interação com
outros espíritos, e ele pode generalizar a posição do espírito universal, Deus,
agente livre da natureza, dessas idéias que se agrupam, séries regulares de
percepções cuja coerência se interpõe, como vimos, pela convergência
providencial de regiões irredutíveis de perceptibilidade.
Sciacca propõe aqui
uma convergência de Berkeley e Malebranche. Conforme a tese ocasionalista de
Malebranche toda postulação de causa compreende a ação de Deus, já que a
aceitação do dualismo irredutível entre matéria e espírito deve impossibilitar
que se estenda qualquer interferência entre as substâncias. Assim, conforme
Sciacca, a “solução ocasionalista” reverte na produção, por Deus, das idéias
nos espíritos que compreendem assim a linguagem da natureza. A proposição
essencial de Malebranche, como destacam ainda Vergez-Huismann, é que a verdade
é Deus, e o que vemos não são criações, mas “vemos em Deus”, é nele que
atingimos as idéias das coisas, arquétipos ou modelos eternos, sendo o pensamento
de Malebranche bastante platonizado.
Ora, aqui Malebranche
como que joga Descartes contra Descartes, pois a adoção do mecanicismo
cartesiano se faz pela contrafação da tese cartesiana pela qual o intelecto de
Deus e sua vontade são completamente independentes, o que se opõe à doutrina do
agostinismo, que é a de Malebranche, da visão em Deus. Pois essa doutrina
depende da vinculação da criação à necessidade racional, restando a vontade de
Deus livre apenas no sentido de escolher quais dentre essas coisas serão
chamadas a existir. Compreender uma relação necessária no mundo é, portanto,
ver no intelecto mesmo de Deus, reconstituir a correlação mesma que aí se
institui.
Descartes se opôs
veementemente a essa perspectiva, consistindo essa oposição, como acentuou
Bessayde, na tese inaugural de sua obra. Para Descartes isso equivaleria a
submeter Deus ao destino. A razão é constituída por determinadas relações
porque Deus quer, não porque sua vontade devesse se subordinar ao seu
entendimento. Essa desvinculação de vontade e entendimento em Deus é, a meu
ver, o que permite a Descartes lançar a hipótese de um Deus enganador, já que
por vontade Deus teria o poder de induzir uma realidade no intelecto humano que
não corresponde ao que Deus efetivamente pensa.
Assim, na perspectiva
de Sciacca, a interconexão espiritual que garante o percebido como natureza, em
Berkeley, seria uma reposição do ocasionalismo. Penso que não há dúvida quanto
à convergência de intenções teológicas em ambos os pensadores. Mas, não obstante
a diversidade de vias, essa intenção, que é a de assegurar o poder absoluto de
Deus, é também a de Descartes. Vergez-Huismann acentuam bem mais o que
realmente separa e relaciona as perspectivas de Descartes, Malebranche e
Berkeley. Em todo caso trata-se de fazer de Deus a causa de nossas idéias, e
Berkeley começa por estar de acordo com Descartes. Mas o que opõe Descartes e
Malebranche é que desde sempre Malebranche não propõe Deus como causa de nossas
idéias sem ao mesmo tempo supor que ele é a morada dessas idéias. Ora, é isso
que Berkeley vai sustentar na guinada platônica de sua velhice, após a leitura
de escritos neoplatônicos durante sua estada na América.
Mas é importante
enfatizar aquilo que está implicado nessa reversão do postulado cartesiano.
Trata-se da noção de idéia como representação. Sciacca sublinha que para
Berkeley as idéias são inativas, passivas, como que produzidas, seja pela
vontade de outros espíritos, seja pela vontade de Deus, já que nessa
perspectiva, como notou Bergson, “a matéria seria uma língua em que Deus nos
fala” (Vergez-Huismann, p. 243). Assim elas nem são simples
representações subjetivas no sentido de Locke, já que o percebido é real, nem,
consequentemente, são destituídas de valor ontológico como no sentido de Descartes,
pelo qual ela é apenas um ato mental. Berkeley recusa todo ceticismo, aceitando
os dados como aparecem. Como não seriam exatamente assim, se não são mais do
que o seu ser percebido?
Contudo,
Vergez-Huismann mostram que o que há em comum a Berkeley e Manlebranche se
limita ao ocasionalismo, sendo a idéia visível não uma causa real, mas apenas
uma “causa ocasional”, isto é, o signo da idéia tangível produzida por Deus no
espírito, e à doutrina da visão em Deus. Mas enquanto Malebranche estende o
ocasionalismo à própria vontade das criaturas, que seria também uma simples
causa ocasional, Berkeley atribui à pessoa humana uma liberdade real, uma ação
eficaz. E Malebranche jamais estendeu a sua teoria no sentido do imaterialismo.
Conforme Bréhier, o
imaterialismo de Berkeley se relaciona a uma reversão da espistemologia
clássica. Pois nesse período aceita-se geralmente uma oposição, seja no sentido
de Locke, entre idéias primárias e secundárias, seja no sentido de Malebranche,
entre idéias que têm seu objeto em Deus, e sensações, simples modalidades do
espírito, ou mesmo, em Descartes, entre idéias claras e distintas, obscuras e
confusas. Essas oposições servem a uma fundamentação da matemática e da física
mecânica, pois só essas ciências se justificam ao ser atribuídas como domínio
de idéias estáveis, correlatas ao modo de ser indubitável das coisas mesmas.
Berkeley critica tais
oposições, para afirmar que essa atribuição é arbitrária. Como num círculo
vicioso, são essas ciências que procuram se justificar, conferindo um valor
especial a uma classe de idéias. As matemáticas se formam, na realidade, apenas
como uma linguagem arbitrária com a qual podemos expressar o que percebemos.
Bréhier assinala os
limites e o interesse desse empreendimento crítico. Berkeley, movido pelo
intuito de somente considerar real o percebido, rejeita nas matemáticas toda
criação que não pode ser de algum modo reduzida ao perceptível: tanto a
divisibilidade ao infinito quanto o número irracional e a noção de um espaço
maior que qualquer espaço dado. Mas rejeita também a noção de causa ou força na
física mecânica. Assim, contudo, ele chega a uma concepção de ciência singular
e original, pois por essa crítica da causa, postula uma física como ciência de
leis, o que antecipa o positivismo, ainda que conserve o finalismo.
O que Berkeley
preserva por esse meio é a impossibilidade de se considerar a causa como uma
necessidade, o produto do conhecimento como garantido por um sistema de razões
que por si se mantém, quando a “natureza” só se nomeia como providência. O que
há de inteiramente ordenado se deve ao conhecimento que recupera a ordem, a
beleza, as qualidades inerentes à criação, no sentido forte do termo,
isso que se comunica ao espírito que percebe o real. Como em Descartes, o que Deus
cria não está na dependência de uma necessidade, mas como em Malebranche, nada
há na exterioridade do espírito mesmo de Deus.
A imagem do universo
se articula a partir do espírito que se expressa aos outros espíritos, isto é,
Deus. Essa expressão se faz por meio de uma linguagem organizada, constante, a
física sendo a apreensão dos signos dessa linguagem, a metafísica, a
compreensão de sua significação. Ora, na obra da velhice Berkeley enuncia uma
concepção algo afastada dessa premissa imaterialista, sustentando o conceito de
universo animado, cujos movimentos são regrados por um fogo sutil, ou fluído
vital, tornando-os simpáticos, convergentes. O ser supremo que utiliza esse
fogo ou fluído é Deus: força, bondade e inteligência.
Bréhier acentua o que
há de singular nessa transformação do pensamento de Berkeley. O platonismo que
havia restado a partir do século XVII e na ambientação das luzes, como no
exemplo de Cudworth, estava purificado das interpretações místicas da magia do
Renascimento. O que se devia evitar eram as consequências neoplatônicas do
panteísmo ou da negação ao Uno das características de subjetividade, como
inteligência ou consciência, que convém à crença em um ser como Deus. Ora,
Berkeley interpreta a massa de escritos neoplatônicos e neopitagóricos oriundos
da Renascença no sentido de uma filosofia oculta, sabedoria originária
pertencente às eras mais antigas do mundo, tipo de mistério transmitido à
margem do pensamento oficial. Quanto a isso Berkeley não deixa de antecipar a
atitude que vimos emergir no pré-romantismo.
Assim Berkeley visou
o platonismo pelo viés de seu destacamento das coisas sensíveis, por sua
limitação ao puramente intelectual. Ora, a crítica das ciências em Berkeley,
isso que o faz algo deslocado desse período, abarca precisamente toda
dependência teórica de uma realidade material ou sensível. Enquanto que o seu
platonismo místico, modulado no sentido de um cristianismo avant la lettre,
pode sustentar o conceito de um universo inteiramente relacionado à ação de Deus.
O fogo sutil não contradiz o imaterialismo, já que atua como força, não
desviando a natureza de seu caráter intrínseco que é o de ser percebida.
O platonismo parece bastante conveniente, então, por permitir contornar o problema do conhecimento nessa ambiência imaterialista, já que estabelece a relação do conhecimento apenas no plano das realidades espirituais, não das coisas sensíveis. Ora, Bréhier mostra que mesmo na obra anterior à guinada platônica, a crítica da religião natural e a defesa da religião revelada, em Berkeley, ilustravam bastante bem o imaterialismo, pois o argumento dessa defesa se baseia na impossibilidade para o senso comum de se servir dos raciocínios sutis dos filósofos que fundamentam a religião natural, enquanto que os preceitos e oráculos da religião revelada se acomodam melhor à aptidão do povo e ao bem da sociedade. Ou seja, conforme o imaterialismo, a verdade não imediatamente alcançável só é real pelo concreto, pelo imediatamente percebido, assim como a matemática pela sensação, a razão pela revelação. Já no âmbito do platonismo, Berkeley mantém a inacessibilidade da realidade espiritual na exterioridade da revelação.
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A importância de
David Hume com relação à filosofia se mede pelo fato de que a compreensão do
seu pensamento enseja o questionamento do sentido do exercício filosófico. Mas
também porque trata-se de uma visão original do pensamento humano, ou “como
observou Deleuze, “da ciência do homem”, nisso pelo que ela se concebe agora
como uma “psicossociologia” (Empirismo e Subjetividade, p.43). Assim, se
fosse o caso de identificar precursores, Hume, não inicialmente Rousseau, teria
favorecido a formação das ciências humanas.
Essa originalidade
não se mostra sem, ao mesmo tempo, estar numa relação profunda com aquilo de
que se destaca. Com efeito, o que implica a observação de Deleuze é a
constatação de que Hume subverte o problema dos vínculos entre natureza e
sociedade, mas também aqueles existentes entre necessidades e instituições. A
via pelo qual a exposição da filosofia de Hume reencontra a questão atual do
sentido da filosofia é a que envolve o tema da Instituição.
Hume desloca bem mais
do que Berkeley, em relação a Locke, a cena da reflexão empirista. O problema
do conhecimento e a análise das idéias só aparentemente relançam as
classificações já praticadas por Locke a respeito da oposição entre dados
provenientes do exterior e afecções devidas à atividade do espírito. Isso se
torna claro na perspectiva de Bréhier, que mostra a insuficiência de se situar
Hume, por exemplo, como crítico da causalidade, naturalmente após Locke,
crítico da noção de substância, e Berkeley, crítico da noção de causalidade
física. Nesse aporte inadequado, Hume apenas teria aprofundado a crítica de
Berkeley, estendendo-a à causalidade em geral, enquanto aquele havia conservado
essa noção no âmbito da interação entre os espíritos.
Bréhier situa a
originalidade de Hume como o mérito de ter transformado a metafísica numa
crítica, anteriormente a Kant. Assim, ele ousou a liberação do campo do
pensamento humano de duas coerções, da ação e da autoridade, que o haviam
mantido como análise, mesmo empirista ao modo dos ideólogos, limitada como tal
pela pré-concepção de uma harmonia já estabelecida entre a verdade e as necessidades
humanas. Assim o pensamento de Hume não se apresenta como uma genealogia ou
composição de idéias, mas se endereça como busca de justificação em nível de
princípios.
O que ocorre é, mais
profundamente como assinala Deleuze, uma reversão no âmbito da significação do
empirismo. A exposição de Bréhier desenvolve esquematicamente as crítica do
conhecimento e da religião, mais o pensamento moral, de modo que resulta uma
espécie de dependência do conjunto em relação à gnosiologia. A originalidade de
Hume está, conforme Bréhier, preferencialmente, registrada nessa circunscrição
inicial.
Assim a
espontaneidade da crença, base do seu pensamento religioso, deriva dessa
concepção da filosofia dogmática como um tipo de superestrutura inútil. Aqui a
crítica atinge os dogmatismos mais opostos: tanto de substancialistas como de
imaterialistas como Berkeley, no que tange à natureza do espírito; tanto da
postulação da identidade subjetiva como realidade permanente independente das
impressões, quanto da conceituação dessa identidade como senso íntimo,
consciência de si; tanto da prova ontológica da existência de Deus, pois a
imaginação permanece livre para negar a pretensa necessidade, como da prova da
contingência do mundo, pois as conclusões que se seguem da noção de um universo
como artifício, à Voltaire, são espantosas: Deus como operador humano, tão
imperfeito como qualquer artesão, universo limitado como um relógio, etc.
É o mesmo quanto à
moral, tratando-se de, uma vez desqualificadas as pretensões do racionalismo , estender
a desqualificação às teorias que pretendem fundamentar as relações éticas com a
mesma objetividade das relações matemáticas, isto é, no domínio da necessidade
racional. Ora, tendo-se já mostrado na crítica do conhecimento que esse domínio
de necessidade não se justifica por si, resta o apelo à crença e ao sentimento
no âmbito da moralidade. Bréhier registra também quanto a esse aspecto algo de
original, pois Hume “reverte os termos do problema” ao recusar tanto o
liberalismo de Whigs quanto o absolutismo de Tories, lançando o aporte do
utilitarismo e constituindo o liame social não na origem da sociedade mas na
conveniência atual da instituição do governo.
O desenvolvimento da
exposição de Bréhier, destacando os aspectos principais das inovações que Hume
concretiza, não permite porém observar o alcance do que ele propicia. Os
estudos de Deleuze sobre Hume esclarecem bastante nesse sentido, pois me parece
que o âmbito utilitário aqui abrange algo mais do que apenas um modo de
reverter a conexão particular-geral deslocando o tipo de teoria do contrato,
que supõe o interesse particular generalizável, por uma utilidade que desde
sempre se estabelece como sendo a do geral, no horizonte de que o interesse
particular se acomoda. Se esse papel pertencerá ao utilitarismo desde o século
XIX, com Bentham, em Hume trata-se mais de transformar a relação de natureza e
humanidade, pelo que os conceitos assim decorrentes apresentam consequências
relevantes no panorama atual das controvérsias concernentes a essa problemática
Os dois registros em
que se desenvolve a exposição de Deleuze sobre Hume abrangem Empirismo e
Subjetividade e o artigo correspondente no volume IV de Chatelet. Nesse
artigo Deleuze logra uma visão de conjunto particularmente esclarecedora, de
modo que se pode sucintamente estabelecer três domínios conceituados por Hume
como articulações que abrangem a relação do ser humano com o mundo, seja no
processo de conhecer (mundo natural), seja no processo de se constituir moral e
socialmente (mundo cultural). Esses domínios são o do espírito, da natureza
humana e da paixão.
O domínio do espírito
subsume a faculdade da imaginação e aquilo com que ela se elabora, a fantasia
(ficção). No domínio da natureza humana se localizam os princípios de
associação que estabilizam as relações pelas quais a experiência se torna
coerente. Essas relações, de causalidade, semelhança e contiguidade, são
interpostas entre as sensações e idéias provenientes do mundo, sendo as
impressões resultado do contato imediato com as coisas e as idéias essas mesmas
impressões, mas como que esmaecidas, recolhidas pela memória após o contato
real.
O espírito se
constitui como uma coleção de idéias soltas, sem relação de necessidade umas
com as outras porque o essencial aqui, conforme a tese empirista que fará o
escândalo de todo idealismo, é que as relações são exteriores a seus termos,
sendo esses termos as impressões e idéias. Atomismo significa que as
idéias remetem a mínima punctuais, como observa Deleuze, que produzem o espaço
e o tempo a partir da sensação. Associacionismo significa que as
relações que se estabelecem entre esses termos mínimos são exteriores a eles e
dependem de outros princípios.
Os princípios de que
dependem as relações são os da natureza humana. Ora, o espírito não espera os
princípios dessa boa natureza – boa porque estabelece o mundo ordenado da
experiência – para estabelecer ele mesmo formas de transição entre idéias. O
ser humano possui, junto com sua boa natureza formadora de relações lícitas,
uma imaginação como faculdade irrefreável de forjar relações ilícitas,
propriamente fantasiosas. Supõe-se, portanto, que as relações fixadas
pelos princípios da natureza humana estão de acordo com o que ocorre na
natureza ou mundo físico. Mas aquelas forjadas pela imaginação são como que
deslizamentos operados na vizinhança de uma conexão legítima de idéias,
induzindo a partir de relações “normais” consequências ou relações fictícias,
nem sempre do tipo “cavalo alado”, mas também do tipo causalidade física, Alma,
Mundo, Deus pessoal, necessidade a priori, etc.
Assim temos uma
natureza ou mundo físico, como resultado do ultrapassamento da experiência, mas
a partir de princípios consequentes que pertencem à natureza humana. Esse
ultrapassamento é da experiência enquanto ela subsume a coleção de percepções
distintas. O que ele garante é a constituição, ao mesmo tempo, do Mundo como um
todo ordenado e do Eu, constituído no dado. Mas temos também uma
contra-Natureza ou mundo fictício onde a imaginação assegura a fusão de
qualquer coisa, ao invés da fusão apenas do que convém, pelo que se pode
afirmar que o fundo do espírito é o delírio.
Aqui é preciso nos
deter um pouco mais, pois é o caso de observar a transposição que Hume operou
no campo do ceticismo, pela qual se afirma que ele institui o que se designa ceticismo
moderno. O que o opõe ao ceticismo antigo é que a crítica, a ser manejada
pela reflexão sobre os conceitos formados a partir da experiência, se endereça
às “verdades” do espírito, não se propondo como um ceticismo da razão. Ou, como
mostra Deleuze, se o ceticismo antigo repousava sobre a variedde das aparências
sensíveis e os erros dos sentidos, o ceticismo moderno repousa sobre o estatuto
das relações e sua exterioridade, e por isso, seu ato pioneiro consiste em
descobrir a crença na base do conhecimento, isto é, em naturalizar a crença,
estando assim fundado o positivismo.
O que ocorre é que
não simplesmente se pode manter distintas a natureza humana, de um lado, e a
imaginação inconsequente, por outro. Pois em certo nível sempre se pode
corrigir a distorção que a imaginação impôs à natureza, mas em certo nível isso
não é possível. Assim, podemos, através de um cálculo severo das
probabilidades, corrigir a ultrapassagem delirante, ou a relação fingida, no
que concerne à causalidade, e compreender que ela se limita a um princípio de
associação, não pertencendo à experiência por si mesma. Mas a ilusão se insinua
no âmbito mesmo da natureza humana quando se trata de crenças legítimas
inseparáveis de crenças ilegítimas, sendo estas condições de formação daquelas
– quando o uso fantasista dos princípios da natureza humana se torna ele mesmo
um princípio.
É esse o caso de
idéias como alma, mundo, Deus, existência contínua e distinta dos corpos, e as
relações que decorrem dessas idéias, as quais se tornam parte da nossa
natureza, como destaca Deleuze, ou como especifica Bréhier, dos três grandes
problemas que agitam a filosofia desde o século XVIII: existência do mundo
exterior, imaterialidade da alma, identidade pessoal. Hume evidencia o fato de
que não se pode atribuir à razão, mas a uma crença anterior a qualquer
raciocínio, a postulação da identidade de corpos que são para nós, na
realidade, um agregado, série ou coleção de impressões. Trata-se de uma crença
produzida pela imaginação, mas é o horizonte mesmo de todas as nossas crenças
legítimas, conforme observa Deleuze, que se constitui por essas crenças
ilegítimas.
A filosofia dogmática
não faz mais do que aderir à espontaneidade da crença, reproduzindo-a como
verdade garantida eternamente pela razão, quando o que se precisa é da
filosofia crítica para mostrar que “se tudo é crença, até mesmo o conhecimento”,
como observou Deleuze, “tudo é uma questão de graus de crença, até mesmo o
delírio do não-conhecimento”.
Seria interessante
repor o devir da idéia de paixão no âmbito da filosofia moderna, assim como
Alquié o empreendeu com relação à noção de causalidade. Veríamos assim que ela
recobre uma certa funcionalidade desconhecida no registro da filosofia antiga e
medieval, desde Descartes, para quem a paixão funcionava no interesse da razão,
regulando de certo modo as disposições orgânicas, o que se pode verificar
também em Spinoza, que mostrava a impossibilidade de se tornar completamente
independente da paixão na duração. Agora, com Hume, a paixão recobre
efetivamente um domínio ulterior à imaginação e à natureza humana, assegurando
uma conexão entre eles.
Pois mesmo que se
estabeleça a imaginação, através da crença, no fundo do saber, como natureza,
resta que o exercício crítico da filosofia recupera, ao menos de direito,
aquilo que de fato se mostra inseparável, a saber, o que pertence a um e a
outro domínio considerado. Resta que o ser humano deveria assim estar sendo
caracterizado por uma separação intrínseca, uma irredutibilidade fundamental
consigo mesmo, e principalmente, não haveria como distinguir no âmbito do
espírito, o que é apenas imaginação e o que se reveste de um interesse não
restrito ao conhecimento objetivo da natureza, mas alcança as regulações da
própria existência como ser apto a se conceder sentido moral e social.
O que se trata de
mostrar, com Hume, é que a paixão, cujo elemento é o artifício, não tem como
correlato o egoísmo, mas a parcialidade, de modo que o que ela assegura é a
partição ou fixação do espírito com relação a idéias ou objetos especialmente
eleitos.
O conhecimento, nossa
adesão aos seus princípios mais do que ao arbítrio da imaginação, se encontra
justificado pela constância daquilo que estabelece como relação legítima, e
para corrigir os simulacros de crença estabelecidos pela fantasia precisa
utilizar o cálculo, uma seleção. Mas os princípios da paixão não operam do
mesmo modo. Eles estabelecem parcialidades, preferências, restringem a adesão
do espírito a um círculo sempre limitado de simpatia pessoal. Então o problema
não mais pode se “resolver” por um cálculo, mas envolve a invenção, isso que se
designa “artifício”.
O que Hume está
deslocando inteiramente assim é a teoria do contrato social, que depende da
postulação do ser humano como basicamente egoísta, ou pelo menos visado na
simplicidade do indivíduo cujo correlato é a propriedade inalienável. O
contrato se destina como limitação dos egoísmos, responde a esse problema
apenas. Ora, mas o problema social, conforme Hume, não é o da limitação do
egoísmo natural. Já que o “natural” no ser humano não é o egoísmo, mas sua
parcialidade, a questão é de como ampliar o círculo, como inventar artifícios
que forcem as paixões a ultrapassar a parcialidade, as preferências pessoais,
para abranger a sociedade, formar sentimentos de moral, de justiça, de equidade.
Como se vê, esses sentimentos nada tem de naturais, eles devem ser produzidos.
Os artifícios
necessários a essa produção se derivam de uma aliança entre a paixão e a
imaginação, pois agora o espírito ou a fantasia são solicitados para refletir a
paixão, fazê-la ressoar, ultrapassar os seus limites de parcialidade. Esses
artifícios são formações culturais, engendram a cultura como o conjunto de
instituições sociais aptos a ampliar o jogo da paixão, a fixar o espírito, por
meio de seu afeto, numa relação confiável e estabilizada com a sociedade.
O que torna essas
instituições aquilo que são é que essa tarefa da cultura se confronta com dois
problemas. Um deles é a indeterminação da imaginação, que pode produzir
praticamente qualquer sentido, independente de regras. Mas também o fato de que
as paixões ampliadas devem ter o mesmo grau de vivacidade que as paixões
naturais – por exemplo, aquela entre a criança e seus pais, a que existe entre os
sexos, as relações familiares, as amizades. Pode-se observar que não se
compreende bem como as paixões que envolvem a sociedade podem conservar a mesma
vivacidade que esses exemplos de paixões naturais demonstram.
Hume mostra que essa
extensão do poder da paixão pode ser assegurado através dos aparelhos de sanção
sociais que, pelo manejo da aprovação, confere aos sentimentos ampliados
(paixões refletidas) algo como um grau de vivacidade e de crença suplementar.
Aqui intervém o governo, mas também instâncias menos localizadas como o costume
e o gosto. Assim Hume desloca também o problema do governo, que não se
determina como oda representatividade, mas como aquele de ser apto a assegurar
a crença.
Quanto à questão da
determinação institucional, ela mostra que a paixão assegura a conexão dos
outros dois domínios que lhe são irredutíveis, a imaginação e o conhecimento,
pois mesmo que a crença se estabeleça no fundo do saber, esses domínios teriam
se mantido como independentes, o ser humano sendo pensado a partir de
faculdades desconexas, quase conflitantes. Assim, se a paixão deve se refletir
na imaginação, a fantasia devendo inventar formas pelas quais a tendência dos
afetos ganham expressão ampliada formando o mundo da cultura, essa reflexão não
se faz sobre uma imaginação neutra, mas já fixada ou naturalizada pelos
princípios de associação, através de suas crenças.
Os princípios de
associação fornecem regras gerais aos princípios da paixão refletidos na
imaginação, de modo que é na associação que se podem localizar tanto as fontes
dos sentimentos estéticos, como regras de gosto, quanto as paixões de posse,
determinando o mundo da jurisprudência e da legislação.
Mas também assim se
compreende que os meios pelos quais há satisfação de tendência não são determinados
pela generalidade da própria tendência e sim pela particularidade do modo de
sua satisfação.
O que implica tanto o
fato de que a instituição não se deriva diretamente da necessidade, ou seja,
não pode se compreender pela via objetiva da correlação organismo-meio, mas
supõe o círculo compreensivo entre parte e todo conforme o liame de sua mútua
dependência, como também, por isso mesmo, a perplexidade do historiador e do
antropólogo, frente ao multiformismo da cultura através do tempo e do espaço.
Ora, o problema aqui
é aquele, extremamente importante no cenário atual, da relação entre instinto e
instituição. Assim colocado, o problema deixa de constituir o tema passível de
se abranger por meio de um discurso explicativo do governo ou do laço de sociedade,
como em Rousseau e Locke, para investir tanto a psicossociologia na compreensão
da regra geral ou instituição, quanto a antropologia, para compreender a
conexão de natureza e cultura no sentido da humanidade.
São três elementos a
considerar: a utilidade, a regra geral e o liame que as une. Inicialmente, a
utilidade põe a questão do funcionalismo, que mais tarde ressoará na emergência
da sociologia estrita. Nesse nível, trata-se da relação da cultura com a
natureza, do ser humano com o instinto. A tese funcionalista põe a sociedade
como explicável pela utilidade, a instituição, pela tendência ou necessidade.
Hume efetivamente propõe que a tendência natural se satisfaz em uma
instituição. Mas seu utilitarismo não implica na tese funcionalista, pois envolve
um círculo a partir da crítica da noção de instinto humano.
Hume se interessa
pela psicologia animal, e Deleuze mostra que ele pensa que determinados
princípios atuam também sobre o animal, mas o efeito decorrente permanece
simples. O animal, que possui instinto, o mantém na atualidade, não os fantasia
nem procede reflexivamente sobre o artifício, por isso não possui cultura nem
história.
O ser humano não
possui instintos, não está submetido à atualidade pura de um presente. Assim as
suas tendências se liberam e podem se vincular à imaginação. A satisfação agora
só se encontra na tendência refletida pela instituição, nunca na própria
tendência “natural”. Ora, o círculo que se verifica aqui é que a reflexão se
faz pelo sentimento, não podendo ser se não interessada, mas o sentimento não
está, tampouco, diretamente ligado à tendência, é ele, não a tendência, que
coloca os fins e reage a todos. Só há sentimento quando os fins da tendência
são ao mesmo tempo, todos, aos quais a sensibilidade reage.
Como a imaginação já
está submetida aos princípios da associação, ela reflete a tendência e seus
fins no espírito conforme regras gerais, mas não de modo que essa reflexão
exprima diretamente os fins nas regras. A imaginação produz modelos a partir
desses todos que são, e/ou que serão, aqueles aos quais a sensibilidade
reage. O artifício que favorece a transição da natureza à cultura é ao mesmo
tempo fantasia, sendo a fantasia agora reflexão. Mas é preciso novo limiar
reflexivo para que a fantasia, produzindo o frívolo, o bizarro, o multiforme
que as instituições revelam historicamente, se corrija progressivamente
formando o mundo sério da cultura, não tanto, creio, no sentido de uma
filosofia da história que explicasse teleologicamente o percurso das
instituições rumo à estabilização “racional” no mundo ocidental, mas no sentido
de que em qualquer cultura trata-se de uma negociação originária, que deve
instituir sobre a instituição a sua seriedade: no exemplo de Hume, o que basta
para se apossar de uma cidade vazia, lançar o seu dardo na porta da cidade ou
tanger a porta com o dedo? A negociação sobre isso já poderia parecer frívola,
mas é precisamente o que transpõe, no domínio institucional, o âmbito do
frívolo àquele do sério. O frívolo é qualquer dessas alternativas, pois elas
são artificiais, inventadas. O sério é que elas se tornam instituições,
cultura, modos de sentir.
A legislação se torna
o grande campo da invenção humana, e o que se inventa é o sistema de meios
orientados, o conjunto determinado da regra geral, isso que garante a
ampliação da simpatia, a estabilização de um ponto de vista comum, firme e
calmo, independente da situação presente, pelo que o pensamento de cada um
representa o de todos os outros, ou seja, o que garante a existência social.
Sendo artificial, a obrigação que se produz já como senso do dever não
identifica no interesse particular ou natural o móvel da ação, mas se
estabelece como âmbito de uma razão prática, que põe seus próprios fins e se
constitui como conversação entre possuidores.
A propriedade é o
artifício pelo qual as ações de cada um se relacionam com as dos outros,
instaurando-se o esquema ou conjunto simbólico (todo social), a conversação é o
exercício mesmo da razão prática, pois o interesse comum só se torna eficaz ao
se expressar, ao se instituir reflexivamente na forma determinada pela qual a
satisfação se pode garantir.
Assim, compreende-se
a necessidade do liame entre o que seria o instinto, isto é, a tendência, e a
instituição, já que essa determinação da forma nunca pode ser diretamente ou
objetivamente derivada da tendência. Por esse meio Hume pode recusar tanto as
teses que atribuem o cultural, mesmo a justiça, à necessidade pura, natureza ou
instinto, quanto as teses que tudo atribuem à política e a educação, mesmo a
virtude. É nesse ponto que incide a crítica à teoria do contrato, que supõe a
lei como essência do social. Hume mostra que a lei é uma limitação da ação,
portanto não pode ser fonte de obrigação. Inversamente, a obrigação já suposta
pela lei implica a utilidade, que é já social. Com efeito, trata-se de recusar
também a noção de estado de natureza, dos direitos naturais, pois a sociedade
não pode garantir direitos preexistentes. Se o ser humano entra em sociedade, é
porque ele não possui direitos preexistentes. O que é básico na sociedade é a
instituição, que pode fornecer o modelo das ações, o sistema de meios de
satisfação.
A utilidade é vínculo
entre instituição e necessidade, a regra geral é a instituição que encontra seu
princípio na utilidade, mas o liame é o espaço da invenção, as formas sempre
criativas de satisfação social que variam historicamente. Em Hume a moral se
orienta aos adultos, consistindo na invenção de meios artificiais para que os
maus aspectos da natureza humana não possam triunfar. Assim temos séries de
regras que se estabelecem por níveis, aquelas que fundam a propriedade e
estabilizam a posse, aquelas que avivam o interesse geral transmutando o
particular e ampliando o círculo da paixão, e aquelas que transpõe as consequências
da desigualdade, fundando a economia política, em que Hume também exibe a
inovação que será desenvolvida na teoria econômica do utilitarismo, a idéia de
que a atividade econômica implica a motivação qualitativa, não se limitando aos
efeitos atribuídos normalmente à quantidade da moeda.
A significação do
empirismo se esclarece assim por uma confluência da reversão da filosofia
dogmática com a inserção do pensamento humano em vias de especificar suas áreas
constitutivas: sociologia, antropologia, economia política, psicologia. No
entanto, a transformação da ambição filosófica em exercício crítico não esgota
a reflexão na negatividade do momento cético, que, inversamente a Descartes,
não se ultrapassa tampouco como numa sequência destinada a recuperar modos de pensar
que já haviam sido postas sob suspeição.
Vimos a abrangência
do pensamento social de Hume. Ora, ele só se desenvolve no âmbito de uma
filosofia que estabelece novo limiar ao pensamento, desde que empreende de
outro modo o pensamento humano. O empirismo se reveste dessa significação pela
qual, mesmo se o intuito for o de reverter suas premissas, esse intuito está
doravante determinado por isso que só se exerce partindo desse limiar. Assim o
problema do kantismo, como mostra Deleuze, será o da finalidade, do nexo entre
princípios de experiência e objetos da experiência, entre natureza humana e
natureza física, postos como independentes pelo empirismo.
É importante
enfatizar a irredutibilidade do pensamento humano de Hume, seja à dedução
transcendental, seja a uma gênese psicológica. O sujeito só se constitui “no
dado”, porque é preciso recorrer aos princípios para compreender a
subjetividade. Esses princípios não supõem, porém, o acordo com o dado, mas
correspondem a um uso físico, a uma natureza experimentável, sendo o empirismo
algo como um fisicalismo. Mas também a uma natureza humana, como espírito
transformado pela ação desses mesmos princípios, espírito passivo em relação
aos princípios que o ativam como subjetividade, espírito tornado ativo ao sofrer
sua transformação em sujeito. O associacionismo é utilitarista, já que em vez
de definir um sujeito cognoscente, ilumina um sujeito prático cujos objetivos
são de ordem passional, moral, política e econômica, a associação de idéias
estendendo um conjunto de meios à satisfação desse sujeito.
Ora, é em prol desse
mesmo sujeito que se pode propor uma finalidade intencional, como unidade na
subjetividade que funciona como um todo, sendo que aqui o essencial é não
confundir causalidade com utilidade. Pois o vínculo entre o meio que se estende
ao sujeito e os seus objetivos não é uma simples causalidade, mas uma
utilidade, o útil sendo a posse de um bem, efeito dos princípios da
afetividade, o que desloca a definição do empirismo como psicologia do conhecimento
para informá-lo como a teoria de tudo o que é prático (ação, moral,
jurisprudência). Mas se o que se compreende na região da subjetividade é a
esperança e a crença, mais a invenção, o dado se transforma em Natureza,
conforme ao Ser. Conformidade que se denomina finalidade, estabelecida entre
Natureza e finalidade intencional, mas também que só pode ser pensada, jamais “comprovada”.
O empirismo não institui a filosofia como pensamento do Ser, mas daquilo que se
faz.
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Considero oportuno
inserir aqui um paralelo entre a filosofia de Hume, e o confronto de Appel e
Arnold Gehlen (Karl.Otto Appel, transformação da filosofia, vol I).
O tema controverso é a instituição, mas a teorização de Gehlen, partindo desse
núcleo, abrange não apenas o sentido da filosofia, como também sua relação com
as ciências humanas, de um modo que se choca com as perspectivas de Appel. Na
medida em que ambos os aportes me parecem contrastantes com a posição de Hume,
que penso poder ser tomada como equivalente à de Deleuze, a apreciação desse
confronto se torna particularmente útil em relação ao propósito de avaliar a
significação epistêmica do empirismo.
Inicialmente Appel
analisa a implicações do percurso teórico de Gehlen, de modo que se poderia
considerá-lo relacionado aos pressupostos do empirismo já transformado desde o
positivismo de Comte, que cancelava sua coextensividade ao campo da filosofia
para situar todo empreendimento epistêmico dotado de sentido atual no âmbito
das ciências particulares. Gehlen havia desenvolvido inicialmente uma pesquisa
antropológica a partir de pressupostos “positivamente” visados como nexo entre
utilidade biológica e temática cultural.
Ora, posteriormente,
frente a críticas que o levam a concordar que o ponto de vista da retroalimentação
biológica do comportamento pensante se vê superado, ele intenta a transformação
da antropologia em “antropologia cultural”, o que implica numa conceituação
extremamente negativa da filosofia “pura” para investi-la empiricamente, o que
equivaleria a fundar uma “filosofia empírica”.
Assim, Gehlen
apresenta uma oposição à metafísica, que Appel vê determinando-se pelo fato de
que ele não procura responder a nenhuma questão ontológica essencial,
relacionada à pretensão de trabalhar imediatamente no plano das ciências
empíricas. Ora, para sustentar essas posições, Gehlen está se estabelecendo, na
interpretação de Appel, como o fundador filosófico de um tipo novo de ciência,
na região da antropologia e do que seria uma sociofilosofia.
O que se deveria
garantir, a partir da constatação da superação da tese biologista, conforme
Gehlen, seria um campo de pesquisa novamente empírico, histórico-sociológico,
devendo validar o epíteto “cultural” dessa antropologia ampliada. A diferença
entre filosofia e ciências particulares deveria se caracterizar, não pelo
anseio metafísico pela verdade ou na limitação ao nível de reflexão superior,
que pertenceria apenas à filosofia, mas porque ela precisa propor os próprios
conceitos fundamentais, além de sustentá-los em meio à reflexão crítica. Ora,
para realizar essa tarefa conceitual, o que se constitui é um campo de pesquisa
empírica, de modo que a filosofia finalmente se vê obrigada a apreender a
proposição de questões de uma ciência particular como uma interpretação
essencial do mundo, independente de sua correção factual, para estabelecer a
relação ética vinculada a essa “antecipação” da essência embutida no plano
empírico.
Esse é o escopo de O
ser humano primitivo e a cultura tardia, onde o autor indaga sobre como a
humanidade, caracterizada pela redução do instinto, pode exibir um
comportamento semi– automático, não obstante a instabilidade de suas impulsões
e a plasticidade de seus impulsos, o que, conforme Appel, equivale a lançar as
bases do que seria uma “filosofia das instituições”.
Observe-se que essa
pergunta já supõe uma perspectiva de abordagem do problema, ou como conceituou
Appel, uma antevisão da essência. Gehlen está lidando, efetivamente, com a
noção de ser humano como “ser atuante”, noção estabelecida conscientemente como
hipótese de trabalho destinada a possibilitar a dedução de proposições
passíveis de verificação empírica. O círculo assim apenas aparentemente evitado
pela estratégia de que se trata de uma “hipótese” se evidencia comparando-se a
questão levantada por Gehlen com a que Hume propõe acerca do mesmo tema. Com
efeito, o que Hume indaga é: por que esse regime de propriedade, essa forma de
contrato, se em outras épocas e em outros países se verificam ser possíveis
tantos modos alternativos?
A questão de Hume se
lança na decalagem entre instinto ou tendência e instituição, na medida em que
não pressupõe que se possa explicar um pelo outro, mas que é preciso
compreender o liame. Aqui também intervém a observação antropológica, a
importância da etnografia, como destaca Deleuze, na obra de Hume. Mas essa
observação não se introduz como antecipação do que se considera o dado, ela
apenas permite localizar a questão relevante.
No entanto, Appel
observa que ao estabelecer a hipótese antropológica do ser atuante,
evidenciando que as características específicas do ser humano como a linguagem,
a inteligência, a objetividade e a cultura, são necessárias à manutenção do ser
biológico, não são apenas complementos a essa base vital, Gehlen não deixa de sublinhar
que esse vínculo de antropologia e biologia, cultura e necessidade, não basta
para responder a questão da essência do ser humano. Intervém assim a
transformação da hipótese da utilidade biológica na hipótese da utilidade
social.
O que se mantém como
meio da transformação é a observação no campo da pesquisa comportamental
comparada pelo que Konrad Lorenz tornou provável a redução do instinto no ser
humano, paralelamente ao verificado no animal: por exemplo, os animais não
atacam companheiros da mesma espécie, enquanto no ser humano, por mais
primitivo, se mostram atitudes de agressão. Assim Gehlen deduz que no ser
humano o instinto foi substituído pela instituição, que por esse meio se
responsabilizou pela orientação de sentido e estabilização do comportamento
frente ao exterior.
Ora, essa dedução
conduz Gehlen a constatações frontalmente opostas a Hume, pois trata-se de
rejeitar o nexo de subjetividade e formas institucionais, isso que Appel
designa como o que nesse contexto seriam “meras idéias fantasiosas”, fornecendo
como exemplo a função fabuladora de Bergson relacionada à religião. Aqui o que
se antepõe é que se está pressupondo um instinto especificamente finalista
(teleológico), pertencendo ao ser humano, que se manifesta pelo conceito da
fabulação como destinada ao “encorajamento da vida”.
A relação necessária
que se está postulando deve verificar-se apenas entre as “composições do
espírito objetivo”, o que na linguagem de Hegel significa as instituições
culturais, com uma indagação sociocultural, ou seja, com uma análise categorial
semi-objetiva do comportamento social cristalizado nas instituições A crítica
de gehlen envolve assim também a noção de Compreender psicológico de culturas
estrangeiras, de Dilthey, pois a instituição se insere como idéia retora no
momento completamente irracional do confronto ativo do ser humano com o mundo,
momento que a imaginação intelectiva seria incapaz de antecipar. O que se
insere nesse écart entre a ação e a intelecção é a mediação institucional. Por
esse meio Gehlen pensa estar tornando supérfluas as oposições entre mundo
interior e mundo exterior, sujeito e objeto, já que o ser humano atuante supõe
as idéias que tornam seu comportamento como que objetivamente determinado.
Assim o compreender psicológico de Dilthey se substitui pela dedução objetiva
do maior número de particulariddes comportamentais, de modo a atingir as
estruturas das instituições dominantes.
No entanto, o que
demarca também a irredutibilidade de Gehlen a Hegel é que a mediação, pela qual
a humanidade se dota de uma teleologia secundária, institucional, não se faz
por meio do espírito, e sim pela natureza do ser humano. Hegel concebia o
historicamente contingente na mediação cultural, relacionado aos teores
subjetivos da consciência pela confrontação prática com o mundo, como
exteriorização do espírito que devia, por sua vez, ser acolhida na reflexão da
consciência, suprassumindo-se como “aparência” no interior da subjetividade
enquanto “idéia”. Gehlen substitui tal idealismo pela análise empírica,
histórico-sociológica, de modo a recuperar o contingente como afastamento em
relação à determinação estrutural que institui a cultura. Appel considera
entretanto que o que se substitui foi apenas uma metafísica idealista por uma
metafísica biológico-sociológica, na medida em que a conciliação prometida
entre as instituições e a subjetividade na qual supera-se a auto-alienação se
torna essa auto-alienação mesma objetivada na instituição como conjuração da
periculosidade portada pela subjetividade.
Parece-me que essas
substituições e afastamentos não deixam de oferecer uma perspectiva de leitura
do empreendimento de Gehlen na proximidade da filosofia de Hegel, já que o
extremo conservadorismo se depreende de ambos os registros partindo do mesmo
pressuposto de que é apenas impelindo-se para fora de si que o ser humano pode
assegurar o ultrapassamento, no caso de Hegel, da consciência infeliz que
mantém a subjetividade no círculo da dialética senhor-escravo, no caso de
Gehlen, da instabilidade e da anarquia que poderiam não apenas impedir a
socialização mas também impelir à auto-compreensão hedonista da existência
humana. Essa exteriorização se propõe sempre como objetificação espiritual,
pelo que, conforme Gehlen, o risco que a instituição impõe ao indivíduo se
contrabalança pelo oferecimento de uma liberdade que é superior em relação a
daqueles que insistem na “afirmação de si mesmo”.
O que se depreende
assim é uma perspectiva altamente desvalorizadora da história factual,
paralelamente a uma valorização extrema da alienação da subjetividade em favor
do ingresso no mundo e na história como lugar da cultura, onde funcionam
idealmente as instituições como relações estabilizadas de obrigação entre as
pessoas. Isso por que Gehlen vê de modo pessimista o que seria a evolução
histórica desde o homem primitivo à atualidade, momentos mediados por aquele
designado como surgência do monoteísmo.
No momento primitivo
teria havido uma completa isomorfia entre integração institucional e
subjetividade espiritual, traduzindo-se pela forma comportamental de “transcendência
rumo a este mundo” correspondente às instituições arcaicas. O “valor próprio na
existência”, transcendendo o “valor existencial” respectivo, lograva obrigar
absolutamente o comportamento humano, os ritos representativos vinculando a
impulsão, desobrigada de qualquer instinto, aos tabus ou institucionalizações
dos desígnios naturais – alimentação e procriação. As instituições se
conceituam como meios para determinados fins apenas a partir do momento em que
o ser humano chega a um conceito racional desses fins como desvinculados das
formas rituais que asseguraram, no alvorecer da humanidade, a subsunção da
natureza aos seus objetivos.
Se a “magia” já
operou um certo deslocamento daquele vínculo institucional absoluto, como um
tipo de racionalização secundária do rito, foi só o monoteísmo que mudou a
forma comportamental agora designada como de “transcendência rumo ao além”. O
ritual representativo do monoteísmo libera o comportamento experimental do ser
humano e possibilita o novo limiar cultural, o “racional-finalista” do mundo
técnico e científico da modernidade, pois transpõe o domínio da espiritualidade
à vida interior, à relação subjetiva do ser humano com Deus.
Ora, aqui é a
filosofia em pessoa que surge como o avatar desse limiar extremo, pelo qual a
secularização do conceito de espírito, próprio do monoteísmo, se complementa
pela noção de espírito como realizando-se através das idéias retoras da
história e da cultura, isto é, desobrigando inteiramente o ser humano, agora
emancipado, para escolher sua versão de idéia condutora a bel-prazer, essas
idéias que para Gehlen, à medida em que são fruto da reflexão subjetiva, não
passam de “frutos da imaginação”.
Assim Gehlen porta
sua crítica também ao idealismo hegeliano, aproximando-se do existencialismo de
Kierkegaard no temor de que a religião mesma, que se tornou afinal mais
desejável do que essa possibilidade de “discussão socialmente desobrigada de
simples opiniões”, se torne uma instituição apenas aparente, sem qualquer fé
autêntica.
Aqui Appel aproxima
Heidegger e Gehlen, nisso pelo que ambos condenam a emancipação favorecida pela
ciência em relação à vinculação do ser humano, seja, respectivamente, para com
o “Sagrado”, seja para com a “obrigação”. Como a filosofia mesma se
institucionaliza apenas casualmente, ou ela se torna uma reflexão solitária, ou
se presta a uma busca ilusória de validade pública, já que Gehlen não considera
pertinente a idéia de que a filosofia atualmente possa fornecer idéias retoras
capazes de motivar a subjetividade. O que resta é a “filosofia empírica”, como
empreendimento negativo ou de ascese, lançando o ser humano na via de sua
desincompatibilização com os mecanismos culturais meramente reforçadores da
opinião pública, e uma antropologia como programa positivo que se prescreve
descobrir sempre mais sobre o ser humano autêntico.
O que se evidencia
assim é o caráter privilegiado da linguagem como metainstituição, mesmo na
ambiência contemporânea, da qual seria impossível desobrigar-se, mesmo no
contexto de uma discussão livre de opiniões relacionada ao mecanismo cultural.
Ora, aqui Appel parece convergir com Gehlen, a quem vinha criticando desde que
o conservadorismo desses aportes antropológicos não deixou ver nem por um instante
o papel renovador da subjetividade que se confronta com instituições tornadas
obsoletas ou sem sentido, isto é, o papel positivo da revolta justificada.
Nessa convergência o
que temos é, porém, uma correlação da filosofia, identificada – já problematicamente
– como idéia retora da metainstituição da linguagem, e o exercício da
democracia. Appel expressa, com efeito, que Sócrates instituiu na filosofia, de
modo pioneiro, a discussão das bases da constituição do Estado no diálogo com
seres humanos individuais. No entanto, isso parece ter sido característico da
democracia grega, de modo tão independente do empreendimento socrático que se
poderia mesmo apontar o fato de que este se investe, por vezes, de um caráter
de oposição aos pressupostos da própria democracia.
Penso que, quanto a
isso, a intenção de Appel é designar a filosofia como tendo concentrado a forma
que permite o funcionamento democrático, enunciando-o, por meio do exercício
dialógico, como Logos. Assim, a filosofia só se torna essa forma, idéia
emancipadora em relação ao mito a partir do funcionamento metainstitucional da
linguagem, com Sócrates Ora, o que a pesquisa de Vernant-Detienne mostra é o
inverso. Conforme Paul Veyne, devemos nos precaver quanto às deduções causais
muito apressadas no que tange à história, de modo que o que vemos como
determinando um fenômeno pode muito bem ser apenas estruturalmente contíguo a
ele, o que se verifica testando hipóteses que explicam um fenômeno por outro e
o inverso, sem alterar a inteligibilidade global do período (Veyne,
Acreditavam os gregos nos seus mitos?). Assim, sem prejulgar se foi a
instituição da pólis que determinou o êxito da filosofia a partir da decadência
do mito, ou se na Cidade a filosofia apenas se apresentou como um discurso em
meio aos outros, incluindo o poesia e o mito, conforme as hipóteses de Veyne,
temos, conforme Vernant-Detienne, que a pólis, ao estabelecer o contexto
jurídico, de administração da prova por via da argumentação racional, está na
convergência com a origem na filosofia nisso pelo que liberou um conceito de
verdade até aqui inviável na abrangência do mundo mágico-religioso arcaico.
Ao invés de ser a
democracia parlamentar uma incorporação institucional do espírito da filosofia,
como propõe Appel, deveríamos sustentar que a filosofia só se mantém garantida
em seu exercício na ambiência democrática. O que torna menos problemático ou
comprometido o posicionamento da questão, pois na perspectiva de Appel temos
uma vinculação democracia-logos-diálogo-sentido da filosofia que pressupõe
muitas vias de aproveitamento ideológico. Ou, conforme Guattari, seria preciso
lembrar que antes do Ser está a política. A crítica do logocentrismo pode não
determinar, como também mostrou Derrida, uma via especificamente anti-democrática.
O que se subentende
nesse aporte de Appel é uma concepção de subjetividade como diálogo racional,
metainstitucional, que se deveria pressupor em qualquer intuito de compreender
a inserção do ser humano como ser social. Assim, a sua crítica mais profunda a
Gehlen é que a desvinculação ou desobrigação que ele tanto anatemizou seria na
verdade constitutiva da possibilidade mesma da vinculação ou de qualquer
obrigação, pois a discussão dialética, como método desse diálogo racional,
reincide até mesmo na instituição última da reflexão como tal, o que significa
a tarefa e o sentido da filosofia, conforme Appel, a saber, o asseguramento
metódico da mediação dialética, ao invés do asseguramento de uma revelação
concreta do sentido da ação dada de maneira imediata.
O resultado crítico
da confrontação de Appel e Gehlen é extremamente irônico, pois ele observa que,
se o livro de Gehlen evidencia que a filosofia questionou o mito e as
instituições arcaicas, então ele pôs em relevo a missão mesma da filosofia, e
por essa via, tornou-se utilmente interpretável como “provocação socrática” –
não tendo essa utilidade a possibilidade de se estender à expressão de sua
tendência política, já que “reacionária, a propósito”. Quanto a esse
diagnóstico político de Gehlen, não discordo de Appel, parecendo-me que também
ele corretamente aplica essa apreciação à totalidade da tentativa de derivar
uma antropologia “cultural” de fatos pretensamente estabelecidos como
antropológicos – por exemplo, Gehlen ainda lida com um conceito de “totemismo”
como instituição universal, o que foi sobejamente criticado por Levi-Strauss.
Ora, é muito
instigante que Empirismo e Subjetividade de Deleuze, que se revela como
um desenvolvimento amplo das implicações da teoria institucional de Hume,
contenha também uma definição de filosofia. Aqui se mostra que qualquer crítica
a uma teoria só se endereça convenientemente se considera a natureza do
problema ao qual ela responde, problema que lhe fornece fundamento e estrutura.
No entanto, a teoria filosófica não se limita como a resposta ao problema que
lhe vem estruturar, mas sim como o desenvolvimento, ao extremo, das implicações
necessárias de uma questão, “a” questão que ela formula. Assim, inversamente ao
que Gehlen havia sustentado, a filosofia não começa por ter que apresentar
conceitos, ela se constitui no desenvolvimento de uma questão.
As coisas são
submetidas à questão que as coage, forçando-as a revelar, em função da questão,
a sua essência. Mas as coisas não seriam essas, não iriam apresentar essa
essência, se a questão não fosse essa mesma. Assim, não há crítica de soluções,
mas de problemas, conforme Bergson, consistindo algo importante na empresa
filosófica a tarefa da negação de falsos problemas. A criação de conceitos, que
Deleuze utilizou como resposta à indagação “O que é a filosofia?” só se torna
viável na ambiência da questão que os torna necessários. Não se contradiz um
filósofo antepondo-lhe que “as coisas não são assim”, mas trata-se de descobrir
se a questão que as torna assim é rigorosa, boa, ou não.
Mas seria preciso
compreender a inserção das questões filosóficas no contexto de uma
problematização da Imagem do Pensamento, para só então se colocar a questão do
que se conserva como dogmatismo e do que se pode enunciar como criação. Não se
pode transferir todo o peso dessa interrogação para algo metainstitucional,
para o diálogo, para a linguagem, a fim de resolvê-la fazendo intervir o Logos,
a Razão. Como a imagem do pensamento se instituiu assim é o que resta por
explicar, aliás, sendo o que se deve explicar, ainda que se esteja posicionando
como sendo isso mesmo a explicação total.
Ora, utilizando o
exemplo de Sócrates poderíamos lembrar que, pelo modo como Platão recuperou a
conversação socrática, o intuito que dela se depreende é o de criticar o modo
como, precisamente, a discussão das bases da constituição do Estado vinha sendo
conduzida pela sofística, que se enunciava como ensinamento do manejo das
estruturas pelas quais se instituía o campo de controvérsia política, que na
Atenas democrática se exigia público. O que Sócrates faz da filosofia é
forjá-la como um meio, via Logos, de estancar toda controvérsia ou discussão
possível, a partir da fixação de definições “absolutamente” fundamentadas como
arquétipos ou conceitos.
A partir de Sócrates
o que se formou foi a imagem dogmática do pensamento que opera como Razão
fundadora, inibidora de qualquer possibilidade de que seus pressupostos sejam
postos no regime da conversação ou contestação, já que o que a filosofia
deveria estar enunciando é a Verdade. O diálogo platônico serve exemplarmente
ao desmascaramento das intenções que se ocultam sob o disfarce da “conversação
racional”, na medida em que o que se delimita como aceitável nesse
empreendimento não pode evitar estar na dependência de núcleos conceituais como
definições, identidades ideais.
Se esse é o domínio
de um regime de linguagem, podendo-se mostrar que há outros regimes, e se esse
regime se designou Significante (Guattari– Deleuze, Mille Plateaux, sur
quelques regimes de signes), o cerne da crítica não reside no fato de que
tudo aqui se reduz finalmente a uma intenção de significar (semântica). O
interesse da posição de Deleuze ao descrever os regimes de signo é mostrar que
eles não se finalizam a partir de si mesmos, mas que se estendem ou interferem,
de seu modo determinado, com toda a gama de agenciamentos que implementam as
sociedades, atuando sobretudo em nível inconsciente.
Assim pode-se
pretender reduzir o regime significante a formas que nada tem a ver com o
significado, mas que são puramente pragmáticas, por exemplo, o prometer,
esvaziado de significação, que se verifica como compromisso ético pela sua
forma de interação com o outro que espera. Esse é o sentido, parece-me, do
estabelecimento transcendental da comunidade de comunicação em Appel, ou do
agir comunicativo, de Habbermas. No entanto, o que Appel não questiona, ao
menos no registro de transformação da filosofia, é a linguagem como
potência, já que ele a toma como solução da questão prévia que envolve a inserção
comunitária da hermenêutica , ou seja, da questão de como estender à
hermenêutica a via da comunicação, da intersubjetividade.
Mas questionar a
linguagem mostra os limites da questão assim designada, pois tratar-se-ia de
indagar sob que meios estamos conduzindo a compreensão da linguagem na
abrangência mais geral da semiótica. Como essa abrangência tem sido recalcada
para que se estabeleça a imagem de linguagem autônoma, intrinsecamente conforme
à intenção de aclaramento do sentido por ser a forma de constituição do Logos,
seria inevitável que o comprometimento “ideológico”, embutido no próprio regime
significante, se mantivesse intocado, não tematizado.
Retornando à
filosofia de Hume, sua aproximação com o pensamento de Deleuze pode ser
observada através da leitura do artigo “Instintos e Instituições”, que
de certo modo suplementa Empirismo e Subjetividade. Aqui Deleuze
conceitua a oposição de Hume entre simples satisfação do instinto e invenção
dos meios de satisfação da instituição. No entanto, nesse contexto, Deleuze
insere o tema não tanto na irredutibilidade do homem e do animal, mas entre o
orgânico e o subjetivo.
Assim visada, a
questão não comporta uma ruptura com a conclusão básica, comum a perspectivas
mais opostas, encontrando-se por exemplo tanto em Hume quanto em Gehlen, de que
o ser humano não tem instintos, produz instituições. No entanto, a condução do
tema se mostra mais complexo aqui, pois o texto põe um movimento conceitual
entre o que seria oposto, mas que se mostra mais como variações conduzindo a um
limite.
Opera-se então duas
séries como continuuns: instinto, organismo, animal, espécie; e
instituição, inteligência, ser humano, indivíduo, sociedade. O instinto se
apresenta como uma tendência no âmbito orgânico que apresenta reações
específicas. No entanto, esse âmbito se encontra bifurcado, seja no sentido da
espécie, seja no interesse do exemplar individual. Ora, em qualquer caso, ao
ultrapassar o limite da espécie, parece deixar de haver uso para o termo
instinto, lançando-se o problema na região do reflexo, tropismo, hábito e
inteligência.
A associação de
instinto e espécie serve para fundar o meio ótimo de perfeição do instinto como
potência de síntese original, irredutível, da tendência ao objeto que a
satisfaz. A perfeição assim observada pode ser designada como completa
determinação. Mas no movimento de aproximação ao individual, gradativamente se
acentua o indeterminado, o espaço de hesitação, a variação e indecisão
inseparáveis do jogo dos fatores individuais internos e das circunstâncias
exteriores. Assim o instinto precisa ceder ante à inteligência, pois é nesse
intervalo de variação que se pode inserir a oportunidade da criação, da
mudança, da evolução.
Nesse trecho Deleuze
parece estar fornecendo uma compreensão do problema em nível amplo, para poder
centrá-lo então no especificamente humano e relacionado à instituição. O que se
torna básico nesse nível amplo é que toda experiência individual supõe a priori
a preexistência de um meio no qual essa experiência é conduzida – o meio
podendo ser a espécie ou a instituição. Assim Deleuze está relacionando a
instituição, indubitavelmente, com a satisfação de uma tendência, podendo-se,
quando a tendência correspondente não aparece nitidamente, supor um nível
institucional secundário que já operam sobre comportamentos
institucionalizados.
Ora, essa potência
secundária da instituição fornece a ligação do ser humano individual com o
social, e por esse meio, a relação entre a inteligência e a sociedade. Se a
instituição é, como vimos a propósito de Hume, sempre um sistema organizado de
meios, resta que o social mantém uma relação com as tendências, assim como a
inteligência encontra no social o meio que lhe permite desenvolver-se.
O social integra as
circunstâncias variáveis num sistema de antecipações, e os fatores internos,
num sistema que regula a sua surgência, sendo assim caracterizada a relação da
sociedade com as tendências. Logo, o social substitui a espécie, a instituição
desloca o instinto. Os meios de satisfazer a tendência são sociais, e por isso,
são originais, fornecendo modelos ao corpo que atuam até no involuntário,
fornecendo também saber, capacidades de antevisão e projeto, à inteligência.
A satisfação via
instituição é ao mesmo tempo a de uma exigência – que desloca a urgência – e
oblíqua, nunca inteiramente direta, mostrando-se como constrangimento,
transformação, sublimação, nisso pelo que deve marcar sua irredutibilidade
frente ao simples, ao puramente útil. O problema sociológico que reside na
teoria da instituição, aquilo que, no registro dos estudos sobre Hume, Deleuze
enunciou em termos de psico-sociologia, consiste na identificação da instância
da qual dependem as formas sociais de satisfação das tendências, os ritos de
uma civilização.
Uma genealogia das
instituições seria assim algo correlato à empresa marxista, apresentando os
meios de produção como instância fundadora das formas superestruturais,
culturais, de um certo conjunto social, histórico. O importante aqui, já que
Deleuze não se ocupa na análise dessa solução do marxismo, é mostrar que, como
no contexto da humanidade a utilidade nunca será uma simples utilidade, a
instituição remete a uma atividade social constitutiva de modelos, atividade
que é inconsciente aos indivíduos. A relação da instituição com a tendência,
expressamente afirmada, não implica que a instituição esteja se explicando na
sua forma atual pela tendência – o homem do ritual é sempre o inconsciente do
usuário. O que equivale a afirmar que a teoria social que venha se ocupar dessa
genealogia não deve se manter em nível descritivo, do puramente recuperável por
cada um através do discurso que, justamente, recobre as operações
inconscientes, se destina a ocultá-las.
A crítica do que pode
haver de neurose na instituição envolve, portanto, a crítica da linguagem, não
podendo pressupô-la como instância final de aclaramento, instância neutra do
sentido, Logos. O problema da instituição repõe a decalagem entre o ser humano
e a espécie, a qual se acentua tanto mais quanto a instituição obtém êxito.
Isso parece ter sido visto por Gehlen. Mas ao invés de , como ele, supor esse
fenômeno como uma “queda” , conforme a expressão de Appel, Deleuze insere aqui
espaços, o teórico, as questões que se abrigam na conceituação da instituição,
e o prático, na liberação da inteligência e da criatividade, o que se estende à
implicação do pensamento deleuziano com a microbiologia do cérebro, visado ao
modo de “sistema incerto”, rizoma, mecanismos probabilitários, semialeatóreos e
quânticos.
Quanto a isso o importante é o que o pensamento filosófico marca no cérebro, em termos de freagens, ligações, sinapses, movimentos novos, através da criação de conceitos. O sentido da filosofia, já conforme o que se depreende do cenário empirista, não se limita como tarefa de fundação de consenso, e nesse sentido a relação da inteligência com a instituição, assim como conceituada por Deleuze, não deixa de localizar o intervalo nômade em que o ser se libera da tendência, já que a satisfação sempre se institui como variável, não como obrigação de que seria “pecado” desvincular-se.
Se a filosofia, como
costuma repetir Deleuze em seus registros,
detesta a discussão,
se ela não tem como definição a tarefa de forjar consensos, se o cerne da
teoria corresponde à questão que a provocou, seria oportuno iluminar a crítica
de Kant a Hume, conforme empirismo e subjetividade (p. 120), do ponto de
vista de uma crítica dos problemas.
Propor que Hume tenha
sido o precursor das ciências humanas equivale a resgatar o seu projeto como
tendo sido o de fazer uma “ciência do homem”. Ora, poderíamos considerar o
século XVIII como uma espécie de turning point em favor dessa intenção,
já que nele se substitui a causalidade cartesiana por um pensamento humano cada
vez mais consciente das vias que deveriam se oferecer à teorização, a partir da
ação do ser humano: teoria política, doutrinas da sociedade, análises ou
psicologias do espírito. Vimos, já no início do século XIX, em Ampère, o
desígnio de construir uma área de problematização especificamente encarregada
desses ramos, tomados programaticamente como disciplinas. Então poderíamos
interpretar esse projeto de Hume como algo dentro de uma corrente mais ampla,
situando o seu contexto. Assim não teria muita importância o epíteto “precursor”,
pois de qualquer modo isso seria feito, sendo a tendência, geral.
No entanto, o que
Deleuze especifica sobre esse projeto é que sua originalidade consiste em
substituir uma psicologia do espírito por uma psicologia das afecções do
espírito. Assim, parece-me lícito mostrar que o modo pelo qual Hume se antecipa
no rumo das ciências humanas constitui um aporte que estará , se bem que não
diretamente como retomado dele, nem sob as mesmas condições e métodos, no cerne
da psicologia científica, na transição dos séculos XIX e XX.
Observando por
exemplo aquilo que historicamente se põe como transição, desde as teorias “discursivas”,
para utilizar o termo foucaultiano, do século XVIII, até o exercício estrito
das ciências humanas, ou seja , a psicologia espiritualista de Biran e dos
ecléticos, parece que se pode considerá-lo no sentido de um investimento
teórico que logrou singularizar-se através da delimitação de algo como o
espírito na confrontação, ao mesmo tempo, com o orgânico e com a alteridade
enquanto vivência coagida da exterioridade pela subjetividade.
Ora, Hume considera,
conforme Deleuze, toda psicologia do espírito algo impossível. Vimos por quê. O
espírito corresponde ao aleatório, ao indiferente, à recepção desordenada
daquilo que por si tampouco constitui uma ordem. São as leis da natureza humana
que permitem à imaginação tornar-se ela mesma uma faculdade, essas afecções que
podem constituir o objeto de um saber. Assim também a progressão à ciência
psicológica empírica se fez pela separação do bloco “realidade espiritual” ou “mente”,
pela circunscrição de fenômenos mais ou menos isolados, aptos a exibir um
perfil de ordenação, passíveis de ser descritos a partir de princípios, de
constantes. Certamente não se pode creditar a Hume a característica que unifica
tantos projetos com essa premissa de base, o fato de manejarem seus resultados
a partir de uma almejada força de repetição: a experiência controlada que deve
exibir fatos recuperáveis a qualquer tempo e lugar, sob os mesmos meios de
condução.
Mas Hume pensava que
responder à questão de como o espírito se torna natureza, compreender suas
afecções ou aquilo que o ativa, é compreender aquilo que se manifesta como
uniformidade das paixões do ser humano. O termo “ciência” está sendo utilizado
numa acepção rigorosa. O que torna essas ciências do ser humano não está apenas
no fato de que se endereçam ao que sobrevém ao espírito como natureza, mas na
implicação que o empirismo assegura entre o passional e o social, as formas sob
as quais o espírito é afetado, formas que fornecem o objeto de uma ciência
autêntica – é preciso uma teoria da moral, uma sociologia e uma história para
que se possa construir uma psicologia.
Assim reencontramos o
sentido da limitação que observamos no tipo de exposição clássica sobre Hume,
algo que se conserva em Bréhier. Pois mesmo quando o texto é particularmente
cuidadoso na recuperação dos pontos mais importantes, mostrando também em que
eles inovam, como é o caso de Bréhier, sente-se que há uma preeminência da
crítica do conhecimento, como se Hume houvesse pensado um sujeito que por ser
cognoscente de um modo não “racionalista”, devesse confrontar as consequências
disso no terreno da moral, da religião e dos costumes. No entanto, seria mais
estratégico, para se colocar a perspectiva desse empirismo de Hume, observar
que se nele a questão é a do sujeito, o que se põe sob o alvo de sua crítica é
precisamente a idéia de que o sujeito possa ser um sujeito cognoscente.
Esse viés
gnosiológico da filosofia de Hume parece derivar de uma tradição kantiana, que
define classicamente o empirismo como teoria pela qual o conhecimento não só
começa com a experiência como dela deriva, conforme observa Deleuze, mostrando
que fazer o conhecimento começar com a experiência não teria sido privilégio do
empirismo – todo mundo começa assim, de Platão a Leibniz – mas que postular a
derivação do conhecimento pela experiência é algo que ao menos especifica
a teoria de algum modo, se bem que totalmente insatisfatório. Pois vimos que o
sujeito se constitui pelo ultrapassamento da experiência, pela ativação do
espírito sob a ação dos princípios da natureza humana. Ora, o problema que a
questão, assim endereçada como sendo a do sujeito, coloca, é aquele do
dualismo: entre as relações e os termos, o sujeito e o dado, os princípios da
natureza humana e os poderes da Natureza.
O problema é o do
nexo entre os componente de uma mesma dualidade que se manifesta nesses
exemplos . O empirismo de Hume o soluciona pelo acordo, o que impede a via,
seja do psicologismo, seja do transcendental kantiano. Ora, o essencial aqui
está na oposição entre a sensação e a reflexão, isto é, entre os dois tipos de
impressão.
Tudo ocorre como se a
subjetividade fosse um devir, um processo, tendo, no entanto, uma regra que
atua entre os dois tipos de impressão como aquilo que permite selecionar,
dentre o que o primeiro tipo oferece, somente o que interessa ao segundo. É
nesse sentido que penso poder se afirmar aí a natureza circular dos processos
de constituição dos todos, totalização de efeitos na subjetivação, totalização
de sentimentos na instituição ou socialização.
Os princípios da
paixão escolhem impressões de dor e prazer, os princípios de associação
escolhem as percepções que se unirão em um complexo. Não há disposição virtual
alguma na sensação que pudesse determinar o que vai ser escolhido na reflexão.
Esse papel seletivo pertence apenas aos princípios. Ora, se a teoria estende
dos princípios os efeitos – idéias gerais, substâncias, relações naturais,
idéias abstratas, modos e relações filosóficas, para a associação; direto e
não-direto para a paixão, o importante é que a teoria opera por decomposição,
como que justapondo as partes de um movimento uno – esse o sentido estrito do “fisicalismo”
de Hume, conforme Deleuze, que anteriormente empreguei de modo extenso. Esse
movimento corresponde à natureza daquilo que a decomposição permite
compreender, isto é, corresponde a algo em si mesmo uno. O espírito se torna
sujeito, é verdade, mas o sujeito não deixa de ser, com a força plena do
termo.
Então o problema do
dualismo não se resolve propondo o nexo apenas como identidade de natureza
entre a ação dos princípios de índole oposta, como os da associação e da paixão
que, todavia, operam do mesmo modo selecionando o que devem refletir. Exige-se
para a indecomponibilidade de fato, que é a do sujeito, algum sentido que
oriente todo o processo. É esse o papel da paixão, já que todas as
relações constituídas encontram aqui o seu sentido: a associação supõe
projetos, intenções, objetivos, e mais geralmente, a seleção só se faz em
relação a impressões de sensação já submetidas às necessidades da vida prática,
necessidades constantes, afetividade.No entanto a afetividade não põe
apenas o sujeito de modo solipsista, sendo seus objetivos – desde que de ordem
passional – também morais, políticos, econômicos. Assim podemos constatar a
importância do pensamento sobre a instituição, na teoria empirista de Hume. Mas
também a objeção de Kant.
Pois do mesmo modo
que Hume, Kant situou o problema do dualismo na imaginação. A questão acerca do
sujeito pode também ser enunciada em termos de como é que a imaginação se torna
uma faculdade, isto é, como é que a reprodução dos fenômenos da natureza se
torna as representações coerentes do sujeito. Assim a objeção de Kant é que se
nada houvesse no fenômeno que não pudesse ser postulado das relações, nada na
imaginação que não correspondesse a si mesma como faculdade, então nada se
poderia enunciar, ao modo de uma ciência, sobre esse poder que relaciona o
mundo e o eu.
Por que Hume
equacionou o problema em termos de acordo, ele deixou de possibilitar a
compreensão do que seria, para Kant, o mais importante, ou seja, reportar o
dado ao sujeito, invertendo o modo de colocar o problema. No entanto, como
constatamos, o projeto de Hume se viu, pelo modo mesmo de desenvolvimento da
questão, favorecido como um posicionar múltiplo dos aspectos essenciais de uma
ciência do ser humano, possibilitada pela separação que Kant, como filósofo,
almejava precisamente evitar, a saber, o espírito e suas afecções, já que a
doutrina das faculdades no kantismo devem remeter à unidade inquestionável da
Razão. Assim o termo “ciência” em Kant ainda se especifica no antigo sentido de
um conhecimento unificado, “filosófico”, sobre algo que deve portar em si uma
inteligibilidade total como necessidade ou Razão.
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Ora, aqui torna-se
oportuna a observação de Creusa Capalbo (Fenomenologia e Ciência humanas)
acerca da transformação que o conceito de Natureza exibe no contexto da
transição ao século XIX e que, creio, pode ser relacionada a Hume. Isso porque
Capalbo situa com precisão o corte a partir da recusa de todos os significados
desse termo que se radicam no que Bastide chamou de “ontologia cosmológica”.
Assim, aquilo que vimos Deleuze enunciar quanto a Hume em termos do problema do
nexo ou da dualidade aparece agora, nos termos de Capalbo, como o que “põe em
questão esta ontologia cosmológica” no registro da filosofia de Kant. O
problema é que se acentua no kantismo o abismo “entre a afirmação de um sujeito
transcendental face a um sujeito empírico, formalismo do pensamento face às
vivências” do sujeito na existência (p. 25).
No entanto, a mudança
de termos na enunciação da questão – por um lado o dualismo é entre a natureza
humana e a Natureza, agora ele porta sobre a forma e o conteúdo, no interior da
Subjetividade mesma – capta a distância percorrida já que traduz o esmaecimento
do conceito de natureza que se torna progressivamente apenas “abstração
normativa”. O importante é acentuar que não é a Natureza que está sendo
conceitualmente recusada, apenas, mas também a natureza humana, pois as suas
potencialidades não devem significar mais “possibilidades já inscritas no ser
humano” e sim possibilidades que conquistamos ao passo que nos realizamos “em
contato com o social”, conforme Mikel Dufrenne, citado por Capalbo nesse
trecho.
O que está sendo
recusado agora é “a dicotomia Natureza e Cultura”, conforme Capalbo, e o que
está começando a ser afirmado é que “o homem é por natureza um ser de cultura”.
Assim nem mesmo os instintos humanos são independentes da cultura. O biológico
se reordena no cultural, como no exemplo de Levi-Strauss, pelo que a
sexualidade (elemento natural), se submete a uma “finalidade onde a Regra irá estabelecer
as formas de aliança (elemento cultural)”, na expressão de Capalbo.
Ora, vimos
precisamente o mesmo aporte na filosofia de Hume que Deleuze mostra descrever a
formação do “mundo da cultura” conforme “regras gerais”. O mundo moral não se
reduz a um instinto moral, mas só afirma sua realidade quando se constitui esse
sistema invariável, artificial, que é o das regras gerais, das obrigações
produzidas. Os elementos da moralidade, as simpatias, são dados naturalmente
mas não podem por si constituir um mundo moral, pois, como vimos, eles só se
limitam ao parcial, às preferências do círculo mais íntimo, dos amigos, dos
parentes, ou daqueles que um interesse particular poderia fazer desejar
favorecer, enquanto que a moralidade, o mundo da cultura, exige a ampliação dos
interesses naturais, o esquematismo pelo qual “os interesses naturais” são
relacionados “à categoria política do conjunto”, do todo ou sociedade, isso que
não se dá de forma alguma na natureza – fica claro que nem na natureza humana
definida assim como parcialidade.
Hume e Kant devem se
debruçar sobre a problemática da finalidade, o que determina o novo patamar de
conceituação da história. Penetra-se assim, pouco a pouco, no domínio do
obscuro e confuso, esse que o pensamento ocidental não poderá deixar de
confrontar ao esboçar a intenção de forjar um conhecimento humano, ou ao
precisar intentar um conhecimento assim, logo que sua ambição o conduz ao
Mundo, via colonização. Mas encontramos aqui o problema novo da filosofia, o
complexo de motivos que fazem esse termo evoluir, do comum significado com “ciência”
a algo irredutível a isso.
Assim, se, como
Bastide observou (Conclusão de um debate recente: o pensamento obscuro e
confuso), o papel da filosofia se tornou, desde Descartes, ensinar a
transpor as idéias obscuras e confusas para conduzir e limitar o pensamento às
idéias claras e distintas “transformando o caos num encadeamento lógico”, as
culturas, desde que se oferecem como o objeto de um provável saber, “como
estuda o etnólogo”, se oferecem como “multiplicidade caótica”, impossível de
ordenar. Bastide se interessa nesse artigo sobretudo pelos mecanismos de defesa
contra o irracional inventados pela etnologia. Entretanto ele delineia uma
irredutibilidade e um percurso, entre o cogito cartesiano e a dedução
transcendental do kantismo, que estaria informando a própria Etnologia.
Há inicialmente uma
irredutibilidade que forma o Ocidente no confronto com o não-ocidental, o
objeto do relato etnográfico: clareza e distinção de um lado, obscuridade e
confusão, de outro. No interior do que seria o claro e distinto não pode deixar
de emergir o obscuro e confuso, não mais de índole inerte, como Natureza
física, e sim como o outro da cultura, o selvagem ou primitivo. Então, como
informe Bastide, duas posições são exemplificadas como vias passíveis ao
Ocidente, personificado pelo etnólogo, nesse confronto. Temos a posição de
Levi-Strauss, que repõe Kant e transforma toda indistinção, obscuridade e
confusão, como o conteúdo aparente de uma forma clara, os esquemas formais
recuperáveis que destituem de significação isso que a cultura vivencia para
investir apenas o que a permitiu construir-se. No pólo oposto, Leenhardt
conserva a vivência e procura, no Outro, o que ele vê, para descobrir no
obscuro e confuso uma via positiva de pensamento, um modelo cultural, não
apenas uma estrutura mental, sendo inevitável que assim esse Outro ponha em
cheque o Mesmo, e o pensamento rejeitado do Ocidente, o “conteúdo” da
experiência, se mostre como mais adequado do que a forma que o conjurava na
apreensão do real.
No entanto, o texto
de Bastide encena essa mesma oposição de vias no registro da própria história
da filosofia, isto é, no interior do Ocidente, naquilo que lhe é essencial e
confere a identidade.
Assim temos
inicialmente Descartes que evidencia, seja a oposição no interior da cogitatio
como o que separa o claro do obscuro, o distinto do confuso, como, o que teria
sido sua ambição filosófica maior, a oposição fundadora entre Cogito e cogitatio.
No interior do pensado, do conteúdo do Cogito, a alma se posiciona
de dois modos, conforme sua situação existencial. Enquanto ela é irredutível ao
extenso, a alma concebe clara e distintamente as idéias que possui, mas
enquanto ela está unida ao corpo, a todos os corpos que a cercam, seus
sentimentos não são puros pensamentos, mas percepções confusas, derivadas do
acaso e dos efeitos dos encontros. Mas se pode-se assim sempre operar a
transição do sensível ao inteligível, do obscuro ao claro e do confuso ao
distinto, resta que é o Cogito, fora de todo conteúdo, que garante a
realidade do “eu” e do conhecimento.
Aqui incide
historicamente o espaço filosófico de crítica a essa pretensão de Descartes. E
nesse espaço a confrontação de vias, pois a crítica ora encena a positividade
do que se excluiu tanto num como no outro meio de purificação, tanto o que a
alma concebe enquanto unida ao corpo quanto o conteúdo mesmo do pensamento como
impossível de ser separado do ato de pensar, ora tende para concluir a obra
cartesiana, aceitando a sua posição de princípio mas conjurando aquilo que a
impede de efetuar o que pretendeu ser legítimo como tarefa.
Na via da recuperação
do não estritamente claro e distinto como positividade do pensamento
encontramos, por exemplo, Vico e Malebranche. Kant será o grande artífice da
forma, pois mostrando a limitação do empreendimento cartesiano ele soube
realizar o que havia de legítimo, do ponto de vista da Razão, na sua proposta.
Confrontado ao
não-ocidental, o Ocidente repõe de algum modo essa bifurcação. Assim,
superficialmente enunciando a teorização de Lévi-Strauss, já que oportunamente
deveremos retornar ao estudo de sua obra, aqui sendo evidenciada apenas por sua
relação com o contexto da reversão dos conceitos de natureza, sociedade e cultura,
que a filosofia de Hume torna um problema agudo, podemos, como Bastide, mostrar
que ela retoma a via do kantismo. Tudo aquilo que é sentido, vivenciado,
subjetiva e coletivamente, na instituição que a etnologia estuda, deve ser
posto entre parêntesis para que, através de uma sobreposição exaustiva do
diverso nas culturas, sobressaia o esquema que o informa, esquema que se repõe
em todos as amostragens dadas.
Assim haveria uma
estruturação inconsciente, pertencendo inequivocamente aos seres humanos, dos elementos
que se oferecem naturalmente no contexto de um problema a resolver.
Estruturação oposicional que equaciona dois a dois as formas da natureza e da
sociedade, como séries homólogas, quando se trata de resolver o problema
cultural da partição dos grupos, formação de identidades coletivas como
agregação simbólica das pessoas.
O totemismo não é um
fenômeno universal nos entido de ser verificado em todas as culturas, e aquilo
que se arrolou sob esse termo muitas vezes exibiu confusões de práticas, mas onde
se verifica atua sempre o mesmo formalismo: as espécies animais que se opõem
entre si correspondem por essa oposição aos grupos sociais que devem se opor
para constituir o mundo de identidades culturalmente instituídas. Para essa
conclusão o requisito é, repetindo, abstrair todo conteúdo, aliás mutável, das
práticas que atualizam para as pessoas sociais a instituição totêmica.
Mutável porque o
caráter não-universal do totemismo se revela também nisso pelo que não ocorre o
mesmo nível de importância ou identificação espiritual dos membros da sociedade
com o simbolismo animal em todos os lugares em que o totemismo se verifica. O
que não importa para a dedução. Tanto faz que o membro da cultura vivencie
intensamente o símbolo ou o veja quase com indiferença, a regra da composição
institucional é a mesma.
Já o que Kant objetou
a Descartes havia sido que ele não havia apresentado uma razão que pudesse
sustentar a transição do “penso” ao “sou”, a relação permanecendo abstrata ou
pressuposta. Sendo assim, como poderia ele ter fornecido o conceito do Cogito,
separado de qualquer cogitatio? Torna-se evidenciado assim que Kant só
retoma a crítica a Descartes no âmbito da posição transformada do problema
herdado de Hume. Ao mesmo tempo conceituar o que ultrapassa a experiência e o
que a unifica. Kant desenvolve então o princípio da dedução transcendental, o “eu”
e o “penso” só se reúnem na exterioridade de qualquer representação empírica,
enquanto formas a priori da sensibilidade e das categorias do espírito. Assim não
ocorre uma transitividade assegurada no interior da alma entre o obscuro e o
confuso, o claro e o distinto. O empírico e o transcendental formam esferas
irredutivelmente separadas no kantismo e também, como mostra Bastide, no
pensamento de Lévi-Strauss que se livra da “parte sombria” dos conteúdos para
se ater apenas à Forma. Que fazer dessa parte sombria se não atribuí-la ao
historiador?
Mas é precisamente no
âmbito de um pensamento voltado à história, em Vico, que a crítica a Descartes
se endereça de modo inteiramente outro do que aquele que podemos cosntatar em
Kant. Pois agora não se trata de objetar a Descartes que ele não foi claro o
bastante, que ele não soube salvaguardar completamente a cidadela das idéias
puramente racionais. O que Vico critica, conforme mostra Bréhier, é a limitação
espantosa das idéias claras e distintas, mais vícios que virtudes, pois elas se
aplicam muito bem ao que o espírito fabrica, a geometria ou a física, mas o que
testemunha a grandeza do ser humano é o que só pode ser objeto de uma percepção
infinita, todo esse lado obscuro, profundo, “que penetra a intuição dos
historiadores e dos poetas”.
A percepção dos
nossos próprios sentimentos não oferece forma ou limite. E se podemos postular
algo como a comunidade dos seres humanos, é devido à exequibilidade de postular
algo que os une, localmente ou planetariamente, sem precisar apelar para a
Razão, já que os relatos não mostram, inversamente ao que propõem os eruditos,
desde o início a razão atuando na história das nações particularmente visadas.
Assim, Vico postula esse fator em termos de senso comum, julgamento
irrefletido, intuição que se plasma na realização dos mesmos estágios de
desenvolvimento, a cada vez, por todas as nações. Ora, essas leis ideais
intuídas sempre do mesmo modo são leis não-racionais, leis espirituais. Não são
os homens sábios, individualmente, que fundam a sociedade pela resolução
racional do problema da partição dos direitos, mas é a existência do Estado ou
da civilização que permite o exercício da sabedoria ou da razão.
A preponderânmcia
aqui pertence à imaginação. As crenças que asseguraram, no alvorecer de cada
grupamento social considerado, a sobrevivência da humanidade, foram forjadas
pela imaginação que instituiu relatos bastante sugestivos para apartar, pelo
medo, o ser humano da violência dos seus apetites, tornando-o social. É´ ao
estágio da imaginação que sucede o estágio da razão, e esse enunciado é o de
uma lei sociológica que preside a história das nações aprticularmente
observadas.
Vimos a importância
da postulação de um senso comum fundado no sentimento como laço de moralidade e
mesmo de religiosidade, em Hume. Quanto à história, ele a conceitua na
transição da imaginação, da fantasia à natureza dos princípios. É´ a associação
que fixa no espírito a generalidade do conhecimento, é a paixão que fornece ao
espírito o conteúdo dessa constância que torna possível a atividade prática e
moral, fornecendo assim significação à história. Esse duplo movimento permite à
imaginação tornar-se uma faculdade.
Ora, assim como a
crença está para a causalidade, o motivo está para a ação, a história devendo
ser concebida como uma física do ser humano. As regras gerais determinam o
detalhe da natureza e constituem o mundo da moralidade, mas sob o termo crença
há uma “prática do entendimento e, sob forma de organização social e da
justiça, há uma teoria da moral” (empirismo e subjetividade, p. 25), de modo
que não se delimita sistema de entendimento e teoria de um lado, sistema da
moral e da paixão e prática, de outro. A finalidade, como resolução do problema
do dualismo, deverá realizar a redução da natureza humana ao sentido
institucional da cultura , a única teoria possível sendo uma teoria da prática,
não da separação de um domínio puro de racionalidade.
As variações se
tornam uma via da liberação, a multiplicidade cultural traduzindo a
criatividade do ser humano. O que impede a totalização dessa multiplicidade
como forma é que a finalidade prática na filosofia de Hume não se realiza de
modo independente ao vivencial, ao sentimento, não se secciona a regra de sua
atualização, a positividade histórica permanece garantida no âmbito mesmo do
relato etnográfico.
Ora, no contexto da
etnologia a via do kantismo trilhada por Levi-Strauss denega a grande
classificação de Levi-Bruhl que opõe de um lado o ocidente como domínio das
idéias claras e distintas, de outro o não-ocidental como operando apenas o
obscuro e o confuso. Mas se essa denegação se encontra também em Leenhardt, o
motivo é oposto. Para Levi-Strauss o inconsciente cultural é absolutamente
claro, formalizante, independente da proveniência étnica, isto é,
universalmente postulável assim. Para Leenhardt o não-ocidental revela o que o
percurso do Ocidente obscureceu, uma positividade “universal” , sim, mas do
obscuro e confuso. O sentimento, a participação do pessoal no cultural, deixam
de ser os elementos a descartar para revelar a potência do pensamento operante
na cultura.
Na realidade o todo é
anterior às partes, enquanto o pensamento claro e distinto procura separar o
que no real une o todo às partes que ele engendra como tais no seu
comportamento setorizado. Isso que se depreenderá da observação etnográfica de
Leenhardt repõe a crítica de Malebranche a Descartes: o conhecimento confuso do
corpo é básico, precedendo o puramente ideal, assim como não se têm a priori
uma noção clara da alma. Os sistemas de parentesco que evidenciam estruturas
duais (tio-sobrinho, genro-sogra, pai-filho), conforme Leenhardt, são
corporificados, não imóveis ao modo de Levi-strauss, mas sentidos como
continuidades revitalizadoras. Assim, quanto ao totemismo, em vez de uma
formalização inconsciente que precisa, para ser traçada, recalcar o conteúdo da
crença, Leenhardt procura o que se realiza no modo como a pessoa sente a instituição:
totem, órgão sexual, matriz que realiza a continuidade vivificante no processo
da gênese.
Ora, nesse estado
confuso e obscuro, pertencendo ao pensado, não ao puro pensar, se estendem os
processos de troca – de bens, de palavras e de mulheres. Levi– Strauss os
distingue como três ramos separados de atualização de um mesmo conjunto de leis
gerais, que são as leis de comunicação, emergência do simbólico pela troca
significante, transferindo novamente ao Pensar o conteúdo recalcado do pensado.
Leenhardt, inversamente, como mostra Bastide, evidencia aqui um processo de
formação identitária irredutível às relações formalmente instituídas no
Ocidente pela racionalização que opõe identidade e diferença. Assim Levy –Bruhl
havia suposto que o primitivo distingue o que é igual e não distingue o que é
diverso, permanecendo assim na concepção de que o pensamento confuso se
caracteriza pela identidade pura, enquanto Leenhardt supõe, pela equivalência
entre os três ramos da troca, uma ausência de fronteira entre o diverso e o
idêntico ( por exemplo, entre mulher e palavra, que são o mesmo desde que podem
ser , ou não, “boas”).
E se o pensamento
obscuro e confuso é o que se liga ao corpo, como conceituou negativamente
Descartes, inversamente a um dualismo que opõe a “participação”, pela
afetividade, da pessoa ao grupo, à inteligência, como formalização das relações
(Levy-Bruhl), Leenhardt propõe a participação como pensamento assim como a
idéia, a afetividade sendo ressonância do espiritual no corporal: a personalidade
não se limita ao corpo próprio, se estende ao dos outros, seja dos seres do
grupo social, seja dos seres da natureza (pedras, animais e vegetais).
Resta que, conforme
Bastide, para a recuperação desse Outro do pensamento que obriga à crítica do
ocidente cartesiano é preciso recusar a operação do significante, retornar ao
liame do signo com o significado, o valor. Ora, reencontramos assim o próprio
Kant, já que ele, inversamente a Levi-Strauss, não se ateve à Razão Pura, e
compreendeu o horizonte prático como historicidade reintroduzida no pensar
enquanto humano. No entanto, o que Levi-Strauss teria produzido, radicalizando
a racionalidade pura do kantismo, seria uma Etnologia do presente, pois o que
se realiza entre Descartes e Kant é o “movimento da cultura ocidental, enquanto
produto da sociedade industrial” , Bastide afirmando que o mundo que nasce com
o desenvolvimento do capitalismo é aquele onde as coisas só valem como signos
de troca.
Assim, o interregno
entre Descartes e Kant é aquele da eliminação do conteúdo que ainda se poderia
subministrar, como afetividade, à efetividade da propriedade burguesa
(afetividade do dinheiro, da casa, da família). Kant seria o pressentimento do
novo momento capitalista, que é o da experiência atual, em que esses conteúdos
se esvaziam no âmbito de um regime puramente significante : convergência de
Lévi-Strauss e Kant como expressando a mesma cultura, atualmente no apogeu.
A relativização
propiciada pela sociologia do conhecimento, disso que se evidencia como mistificação,
conforme Bastide, portaria sobre o não-absoluto desse pensamento que se
ofereceu como a formalização inconsciente de todo pensar mas que se revela
apenas como a expressão das leis do conteúdo de sua atualidade transitória.
Seria preciso reconduzir da forma aos conteúdos, do Pensar ao pensamento, das
constantes às variações. No entanto, aqui nos convém retomar o movimento
kantiano para mostrar como a preservação do horizonte prático aí recuperou uma
conceituação necessária da história, no percurso que marca o recuo dos
conceitos de natureza e de sociedade (os animais também são sociais, como
lembra Capalbo), e a evidenciação daquele mais restrito, da cultura.
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Para observar essa
transição do natural-social ao cultural, se mostra conveniente examinar a
irredutibilidade da conceituação da história em Kant, mas para isso devemos
compreender o alcance da inserção desse tema no contexto do projeto crítico.
O desenvolvimento da
questão crítica assim como transposta do empirismo por Kant é algo notório como
tendo se lançado em termos de uma dedução ao mesmo tempo que seu objeto se
tornou o transcendental, a razão estabelecendo o meio em que qualquer
experiência pode meramente ocorrer. As duas críticas, da razão pura e da razão
prática, operam então o aclaramento conceitual concernente aos domínios do
conhecimento e da moral, do entendimento e da vontade.
No entanto, se o
transcendental se oferece como obstáculo intransponível à via de transição
entre o domínio da forma àquele dos conteúdos, entre o transcendental e o
empírico, as duas críticas não deixam de exibir a interessante propriedade pela
qual, se ambas só podem ser manejadas como deduções por portarem sobre o
elemento formal, resta que a razão prática está lidando com o numênico, com o
ser humano ele mesmo em si.
O transcendental
agora como que se inflete sobre o empírico, sem abandonar sua espessura
enquanto imperativo formalizante da vontade, sem tampouco, como observou
Bréhier, que esse numênico conserve qualquer traço de mistério. Inversamente as
coisas se desenrolam no domínio da razão pura, onde o em si resta
incognoscível, o númeno aproximando-se perigosamente do Numen, o sagrado
permanecendo à espreita, no obscuro do que para sempre deve estar na
exterioridade do sentido.
No entanto isso não
se introduz como obscuridade no Pensar formalizante para o qual tudo o que se
oferece é experiência. Novamente de modo bastante interessante e algo
paradoxal, o obscuro da ausência irremediável de sentido se torna a garantia da
impossibilidade de todo não-sentido. Não ocorre experiência incompreensível ou
não passível de aclaramento, não existe a opacidade, a impenetrabilidade no
dado, tudo é formalizado, existindo como objeto de uma possível apreensão
intelectiva.
Resta o problema da
finalidade. Gostaríamos de pensar que o pássaro nasceu para voar, mas tudo o
que podemos afirmar é que as aves voam. A natureza se oferece sem véus, mas
também sem desígnios ulteriores. Em nós mesmos encontramos o desígnio, temos a
escolha, ou o caminho imediato do mal ou o caminho refletido do bem, mas não
possuiríamos só por isso a chave do nosso acordo com o mundo. A crítica do
juízo completa a dedução transcendental, mostrando que a finalidade pode ser
garantida como acordo de nossas faculdades, de modo que é pelo lado do sujeito
que o acordo se torna algo mais do que uma convenção.
Agora se justifica
até mesmo o uso algo transbordante da razão, lembrando de certo modo o viés
estilístico de Hume que não deixava de apontar a peculiaridade dos princípios
de ativação espiritual, pela qual sempre que uma região se ilumina, por
exemplo, o interesse prático de uma regra geral, ela não deixa de transbordar,
iluminando algo mais que não estritamente relacionado por necessidade, por
exemplo o artifício do costume forjado pela imaginação, que cerca essa regra,
sendo o sujeito da psicologia associacionista mais do que suas partes
constituintes redutíveis pela análise, sempre da ordem do inesperado e do
criativo. Ora, a Razão do kantismo, que em cada síntese produz seus a priori
recuperáveis pela dedução como condições de experiência ou operação do
transcendental, não deveria parecer mais sóbria e mais contida?
Porém devemos nos
lembrar mais uma vez do exemplo das aves, que poderiam imaginar de bom grado
que na ausência do ar seu voo seria muito facilitado, pois não haveria
resistência. Sabemos nós que elas assim não poderiam sequer alçar-se do solo. A
razão inventa finalidades lá onde não existem, além do entendimento e aquém da
faculdade correspondente ao juízo. Esse uso transcendente não deixa de ser
reconduzido ao bom emprego, já que tudo ocorre como se... Regulando o
acordo finalmente legitimado, sobrepondo a essa legitimidade das relações do eu
com o mundo aquela do “eu” consigo mesmo.
O plano em que se
lança a atuação da crítica repõe esse efeito, como que de refração, que estamos
constatando sob tantos aspectos no pensamento kantiano. Pois, como Guillermit
destacou da Crítica da razão pura (Chatelet,história da filosofia, Vol. V), Kant
enunciou seu longo esforço teórico não como a formulação laboriosa de uma
conceituação complexa desde o início claramente determinada, mas como o lento
auto-esclarecimento de uma idéia “profundamente oculta”, até vir a ser
plenamente percebida, esboçando-se “de modo arquitetônico um todo conforme os
fins da razão”. Se essa idéia se designou finalmente como ambição de fazer da
metafísica uma ciência, o que importa ressaltar é que ela não parece
independente daquilo que posibilitou, isto é, essa arquitetônica, ao modo de
realização formal – textual de algo como um propósito consciente. Aquele desse
todo conforme a uma finalidade racional.
Guillermit o
compreendeu, creio, ao mostrar que o projeto de uma metafísica como ciência
depende de que ela permanece um conhecimento, o que se imiscui entre a
limitação do especulativo e o alcance prático. Como algo mais do que simples
conteúdo de um conceito pensado, o conhecimento não deve ser procurado nas suas
fontes teóricas, mas sim nas suas fontes práticas.
O desenvolvimento do
kantismo, o modo como se faz a preeminência do prático sobre todo teórico,
enuncia na verdade o objetivo incontestável da crítica, o reconhecimento da
supremacia do poder prático da razão, mas parece-me que esse objetivo, tão bem
observado em suas implicações por Guillermit, se lança como algo mais, como
ambição filosófica , pelo que solve-se a cisão do formal-textual e do
propósito intrínseco. A ambição não poderia ser de enunciar os fins da razão
sem ser ao mesmo tempo o de assegurar uma unidade inquebrantável entre as
críticas.
Ou, em outros termos,
se o fato da razão só encontra sua preeminência como comando não-condicionado,
na região do suprasensível que é a dos seres livres, sujeitos de vontade, na “opacidade
impenetrável” da ordem que se impõe sem outra justificação do que ela mesma, no
sentimento, como respeito pela lei moral, não num tipo qualquer de
conteúdo puramente intelectivo, conforme a expressão de Guillermit, resta que o
que se encontra assim é o lugar desse sujeito num mundo que ganhou por esse meio
algum sentido.
Assim, se Guillermit
enunciou também um outro efeito como que de refração – a racionalidade do mundo
se justifica por uma via que é vontade, não intelecto – o que desejo enfatizar
sobre isso pode ser visado confrontando seu texto com o de Ph. Mengue sobre o
livro de Deleuze a propósito de Kant. Pois aqui Mengue cita o pronunciamento de
Deleuze sobre Kant, num outro registro, o de Nietzsche e a filosofia, em
que ele observa o gênio de Kant no fato de conceber uma crítica imanente: a crítica
da razão não se faz por qualquer instância exterior, o “coração”, por
exemplo...
Para que a razão
possa, de certo ponto de vista imanente, tomar a seu encargo a totalidade do
mundo, a crítica se desdobra. A razão precisa se revestir de uma multiplicidade
de interesses – originalidade do kantismo, conforme Deleuze.
Ora, a unidade
assegurada entre os três projetos críticos devém desse múltiplo. Assim podemos
ver que essa originalidade se confrontou com duas objeções de índole inversa.
Guillermit, por exemplo, afirma que se a filosofia crítica propôs “um balanço
de liquidação da metafísica antiga”, o que ela pretendeu foi na verdade sua
restauração. A mudança de método não comparte uma recusa do objeto. Deus,
liberdade, imortalidade da alma, esses são os objetos problemáticos de toda
metafísica como busca de sua solução, seu objetivo último e único, o que penso
ser destacável como mais um argumento em favor da hipótese de que a real
motivação e ambição do kantismo é a arquitetônica, ou a unidade mais assegurada
da Razão.
Já no registro da
história da filosofia de Sciacca a preminência da esfera prática não se lê como
recuperação de um projeto de unidade, mas como impossibilidade da metafísica,
ao menos como ciência, permanecendo limitada à fé moral. Assim a interpretação
do kantismo é agora não a de uma unidade assegurada – metafisicamente – através
da razão prática, mas de uma impossibilidade, um obstáculo teórico
intransponível a essa unidade que seria verdadeira e proveitosa metafísica. O
que teria sido assinalado filosoficamente por Kant, não se sabe se com amargor
ou orgulho, como se o obstáculo se interpusesse maugrado o objetivo almejado ou
ao modo de uma descoberta no âmbito de uma pesquisa desinteressada.
Em todo caso, a
objeção de Sciacca é de índole teológica, pois, muito inversamente a considerar
um retrocesso, uma limitação à metafísica, essa preeminência do prático
investida pelas idéias de Deus, alma e liberdade, ele observa que o que houve
foi uma redução dos elementos do conhecer ao intelecto, sem que a subsunção das
categorias ou do a priori à condição transcendental tenha sido efetivamente
justificada. Assim, o projeto fundamental se comprometeu irremediavelmente pois
o que Kant não pôde alcançar foi precisamente uma crítica da metafísica, do seu
conceito. Se a adequação do conhecimento ao mundo se fez por uma subsunção de
toda verdade à razão, Deus não se fez implícito no problema da experiência,
assim como está quando se compreende que ela só pode ser pensada racionalmente
já como dependente da existência de Deus.
Ou seja, a objeção de
Siacca é de índole escolástica. Ela supõe que o kantismo substitui Deus pela
forma da subjetividade, o “Eu penso” legislador da natureza e do mundo moral, e
por isso interpreta a autonomia da razão, pura e prática, assegurada pelo
kantismo, apenas como um projeto de fundação da ciência natural e humana
independente da metafísica e, “portanto, da teologia”.
Assim o que as duas
objeções enunciam é, ora que sob a alegação de estar submetendo a metafísica a
uma crítica, Kant não se ocupou desse conceito, mas fez apenas uma crítica da
ciência (Sciacca), ora que sob essa mesma alegação Kant apenas relançou a
metafísica, renovando sua temática (Guillermit). Ou seja, de um modo ou de
outro a metafísica teria ficado intacta, apesar de todo o aparato “crítico”.
Parece simples
iniciar por uma refutação da objeção de Sciacca, já que seu argumento se baseia
numa argumentação que há muito se constatou falaciosa. Pois a subsunção que
teria caracterizado a reviravolta operada pelo kantismo, da verdade à razão,
foi apresentada como ilegítima sob o pressuposto de que seu inverso é que seria
o certo, mas isso de modo que afirmar que é a razão que deve se subsumir à
verdade significa aceitar a prova da existência de Deus a contingentia mundi,
ou, conforme Sciacca, “pelo fato que eu sou (e o mundo existe), Deus existe” (história
da filosofia, p. 202).
Anteriormente já
examinamos esse tema das provas da existência de Deus, que tiveram um papel
preponderante na ambiência cartesiana da filosofia do século XVII. Aqui não
seria inútil porém examinar detidamente o percurso de inviabilização desse tipo
de argumento. Creio que algo importante quanto a isso é lembrar que não deve
ser considerado uma questão de simples opinião tomar a sério a crítica da
causalidade assim como operada por Hume. Pois ele mostrou indubitavelmente que
não há demonstração possível da causalidade na exterioridade da natureza
humana. O que se conserva ao alcance da controvérsia é se e como a causalidade
pode ser manejada dentro desse domínio, o que se revela como via muito bem
aproveitada pelo kantismo.
Ora, o argumento pela
contingência repousa sobre uma ligação causal de modo que seu viés vicioso se
mostra formalmente como uma petição de princípio. Algo, o mundo, a experiência,
existe, logo deve ter uma causa, a causa de algo como o mundo só podendo ser
Deus. No entanto, que a causalidade seja comprovável pela posição da existência
qualquer é exatamente o que está em questão quando se pergunta sobre a
existência de Deus. Assim, o que se conserva uma simples questão de opinião é
pensar que independente da impossibilidade de uma demonstração, continuamos a
crer que há uma causa ou que Deus existe.
Porém Kant mesmo
tratou desse problema ao analisar a ilegitimidade da argumentação que Sciacca
apresenta como se houvesse se mantido impensada no registro de sua filosofia.
Assim, Abbagnanno mostra que na Crítica da razão pura Kant considerou a
prova pela contingência, que ele designou “prova cosmológica”, apenas uma prova
ontológica mascarada, sendo que quanto a esta, seu caráter falacioso se
demonstrou do seguinte modo: se for julgada implícita no conceito de Deus a sua
existência, então não se trata de um conceito simples, mas se não se a
considera implícita, a existência deverá ser acrescida ao conceito
sinteticamente, por via da experiência, não ocorrendo, porém, que Deus esteja
acessível a qualquer experiência possível.
Resta examinar o
alcance da objeção de Guillermit. No entanto, o que se mostra agora é algo
bastante curioso, pois o que essa objeção enuncia, que Kant permanece no
interior da metafísica, deveria fazer retornar a Heidegger e ao tema da
história do ser. Que enuncia, efetivamente, “A tese de Kant sobre o ser”
? Algo impensado na metafísica, mas não porque teria sido na tese o pensado, e
sim porque permaneceu ali impensado, no entanto tendo sido de algum modo posto.
Ora, o curioso nisso é que o modo pelo qual Heidegger posiciona o tema nesse
texto repõe de modo inequívoco, como sendo o fio condutor adequado ao exame
dessa tese, precisamente o problema da prova cosmológica da existência de Deus.
A história do ser,
sabemos, tornou-se a história do questionar acerca do ente. No entanto, Kant “realiza,
e precisamente pela Crítica da Razão Pura, uma reviravolta decisiva” (Col.
Pens. Heidegger, A tese de Kant sobre o ser, p. 237), e portanto esperamos
que ele desenvolva a questão central dessa obra em torno da questão do ser,
modulada como deve ser na vizinhança da pergunta sobre o ente. Mas o tratamento
desse termo na obra de Kant não apresenta um espaço próprio, surgindo de modo
descontínuo, sempre ligado a questões precisas, o que se verifica também aqui,
já que nesse contexto crítico, a questão do ser aparece apenas na seção que se
intitula “da impossibilidade de uma prova cosmológica da existência de Deus”.
Heidegger apresenta o
problema a partir da duplicidade que a pergunta sobre o ente porta: pois ela
não indaga apenas “Que é o ente em geral enquanto ente”?, mas também, no mesmo
lance: “Qual é o ente no sentido do ente supremo e como é ele”? A ambivalência
da questão se justifica pelo fato de que o ser do ente se mostra sempre com o
caráter do que se designa o fundamento. Mas o que afirma Kant sobre o ser? Que
ele não é, “evidentemente, um predicado real, que se pudesse acrescentar ao
conceito de coisa. É somente a posição de uma coisa, ou de certas determinações
em si mesmas”. Assim Heidegger ilumina a conexão entre as noções de fundamento
e de posição. “Positio, ponere”, isto é, “estar pro-posto,
estar posto como fundamento” (p. 238).
Ora, a ambivalência
invade assim o texto kantiano mesmo, já que a tarefa de mostrar o que é o ente
supremo sempre se suplementa pela obrigação de demonstrar a sua existência. O
enunciado kantiano sobre o ser é ao mesmo tempo negativo (não é um predicado) e
positivo (é uma posição). Mas o outro registro em que se encontra esse
enunciado duplo sobre o ser, um texto anterior à Crítica da Razão Pura,
também é de natureza teológica , “O único argumento posível para uma
demonstração da existência de Deus”. Aqui o conceito de “ser” se enuncia em
termos de “existência em geral” e apresenta a mesma fórmula de negação e
afirmação.
A questão do ser do
ente, como se vê, está sendo sempre tratada no interior da teologia filosófica,
mas não de modo fortuito ou por um capricho de Kant, e sim porque a teologia
domina a totalidade da questão, o que se repõe, precisamente, como “a
metafísica em seu conteúdo nuclear”. Que a questão exiba um elemento biforme (
o que é o ente, e qual é o absolutamente ente) se reúne sob a expressão
onto-teo-logia.
O que ocorre é então
que, de modo muito inesperado, não somente se contrapõe que Kant houvesse
saltado por sobre a questão da relação entre Deus e existência, mas também que
ele houvesse realmente sobreposto a metafísica num patamar de transformação
dessa questão, por exemplo, a partir de uma pura e simples negação da
possibilidade de afirmação demonstrável da relação. Conforme Heidegger, existe
sim uma unidade manifesta como impulsão do projeto crítico, e ela se enuncia
como o “aguilhão secreto” entre as principais obras desde a Crítica da razão
pura. É´ a questão de “saber se e como e em que limites” a proposição “Deus
é” deixa de ser insustentável (p. 240). Essa perspectiva de Heidegger se
coaduna com a minha leitura da unidade do projeto crítico kantiano porque eu a
situo no sentido de uma almejada convergência assegurável entre os domínios
especulativo e prático, objetivo que Kant maneja através da ordenação funcional
das idéias reguladoras da razão, pelo que a questão da existência de Deus se
torna central.
--------------
Guillermit localiza a justificativa de se postular
a unidade do projeto kantiano já na Crítica da Razão Pura (CRP), em que se
define o objetivo da obra em termos da constituição de uma teoria moral. O laço
com a teologia e a ética se assegura para Kant no sentido de fins. Alma, Deus e
liberdade são objetivos da metafísica. Bem inversamente a se ter limitado,
voluntariamente ou não, à crítica do conhecimento, como que reduzindo a metafísica
e seu conteúdo nuclear teológico e moral, Kant reordenou os meios para o
alcance desses mesmos fins metafísicos, mostrando a inexequibilidade de sua
consecução a partir de uma posição não crítica como a de Sciacca, isto é,
pretendendo derivar apenas da experiência sensível, no mesmo lance, Deus e a
razão.
Como bem acentuou Guillermit, Kant conceituou sua
conversão, desde a preocupação pré-crítica exclusiva com a ciência, à convicção
de que todo valor da pesquisa deveria ser garantir os interesses da humanidade,
em termos de transposição da noção “escolástica” (unidade sistemática,
perfeição lógica do conhecimento) à noção “cósmica” (o que interessa a todos os
seres humanos) da filosofia.
Transforma-se assim não só a imagem do pensamento,
mas também a imagem do filósofo. Ele não deve ser um “artista da razão”, mas
sim o seu “legislador”. Ora, o artista da razão é o “sábio” (“savant”,
conforme Guillermit), com quem o filósofo não mais se identifica. Com efeito, o
momento histórico do kantismo é aquele em que se estão precipitando as
condições de impossibilidade da filosofia como saber total, o que vinha
vigorando há milênios no Ocidente, desde os gregos. Urgia seu necessário
acercar-se de uma limitação objetiva.
Mais profundamente, a preservação dos fins da
metafísica, purificados os meios pela atividade crítica, estava traduzindo a
estratégia equivalente a deslocar a identidade da filosofia com o Saber para
fazê-la portar entre filosofia e razão, ao mesmo tempo em que a Razão deveria
ser algo mais do que a simples capacidade de saber.
Porque a Razão é legisladora – poderíamos recordar
a terminologia de Deleuze e situar aqui o “grito” de Kant – o filósofo não é o
sábio, é o legislador, se a filosofia veio a ser “a ciência da relação que
comporta todo conhecimento aos fins essenciais da razão humana”.
É por esse viés que se pode compreender a escassez
e o caráter aparentemente circunstancial das declarações de Kant sobre o ser.
Conforme se depreende do texto de Heidegger, existência e ser estão sempre
sendo pensados por Kant no âmbito especulativo,apenas no terreno do
entendimento.
O ser como posição (Setzung) abrange dois sentidos,
como dois usos possíveis do termo, conforme Kant. O uso lógico é aquele do ser
como cópula (algo é isso, algo é aquilo). O uso ôntico é aquele do ser como
posição absoluta (algo é = algo existe). Heidegger demarca os registros desses
dois usos no interior do percurso kantiano. No âmbito pré-crítico, Kant
limitou-se ao uso ôntico, visto por ele como algo cujo sentido se manifesta apenas
na relação com as capacidades do nosso entendimento, o que restringe, no seu
entender, consideravelmente, o grau de clarificação que esse sentido pode
atingir. O uso ôntico limita-se à posição de existência, nada pode predicar. Já
no âmbito crítico, Kant teria mudado o seu modo de conduzir a questão do Ser e
se debruçado sobre o problema do sentido do termo agora do ponto de vista do
uso lógico.
Em todo caso,
conforme Heidegger, examinando-se a polissemia do termo “posição” se vê que a
Setzung situa o pôr no sentido do “representar”. O que se põe está posto
para/por alguém (nós mesmos). A representação põe a coisa que vem, por esse
meio, à sua posição. Então “ser” não se relaciona de modo algum às coisas, não
concerne à coisa em si e para si, mas tão somente à representação.
Ao desenvolver a
questão do Ser sob o ponto de vista do uso lógico, Kant estende o sentido do
ser como cópula da proposição (algo é isso) em nível de modalidade (ser
possível, existente ou necessário), isto é, aos modos de ser. Ora, assim, como
Heidegger mostra de modo exemplar, o termo Ser ilumina eficazmente a
transposição transcendental de todo o problema do conhecimento, pois Kant vai
mostrar, na CRP, que por um lado, o ser não limita mais sua significação ao
entendimento apenas estabelecendo-se de modo inequívoco numa relação com os
objetos da intuição sensível, a saber, que eles são.
Agora é o modo de ser
dessa relação que precisa se compreender, restando o inteiro problema do
conhecimento logo que se afirma simplesmente que o juízo representa uma relação
entre dois conceitos. O problema crítico se enuncia, então: como se pode
estabelecer a relação se não já subentendendo, sinteticamente, a modalidade em
que ela se afirma, o modo de ser que ela representa, isso mesmo que vimos não
poder portar sobre as coisas mesmas, logo, jamais podendo originar-se dos
sentidos?
O salto do
pré-crítico ao crítico se torna bem evidenciado por Heidegger. Pois do uso
puramente ôntico ao uso lógico, a questão do Ser sob a condução de Kant
abandonou a circunscrição de sua relação própria com as capacidades do nosso
entendimento para franquear a região problemática da relação de entendimento e
mundo, isto é, abrange agora também a intuição sensível, ao passo que se
iluminou a necessidade de ajuntar à explicitação do ser também a dos modos de
ser, o que se apresenta como tarefa de justificar, fundamentar o ser em seu
sentido.
Podemos agora
compreender o entendimento como faculdade de representação, completando o
percurso crítico, pois a posição tem presentemente o caráter de pro-posição, do
juízo, pelo que algo é pro-posto como (enquanto) algo, e o predicado é
atribuído ao sujeito através do verbo ser (cópula). O que se justificou ou
fundamentou foi a relação de atribuição, do predicado em sua relação com o
sujeito.
Mas o termo que
concentra o historial é então “síntese”, nisso pelo que o “ser” fundamenta a
atribuição, o juízo e o que este apresenta , o conhecimento como unidade
objetiva da apercepção. A cópula se esclarece como a relação do “é” com a unidade
da ligação tornada proposicional no juízo. Heidegger lembra que o co-pertencer
de éon e hén, do ser e da unidade, já se mostra desde o começo
helênico da filosofia ocidental: que por um lado enunciou o Lógos (essência
unificante-desvelante) e o ser (presentar que se desvela) mas, por outro,
deixou impensado o co-pertencer de ambos.
Kant teria esse
mérito de expor o co-pertencer de ser e unidade, até aqui jamais esclarecido?
Heidegger exorta que nos devemos ater ao percurso, inversamente a perseguir tenazmente
desde o início o resultado, de modo que aquilo à mostra como o que força a
pensar é nesse momento o sentido de “síntese”.
Syn-thésis traduz:
com-posição. O que o “é” permite distinguir é a unidade objetiva das
representações (o que se atribui ao objeto, por exemplo, o peso) por relação à
sua unidade subjetiva. Assim, para Kant, o associacionismo havia apenas
tematizado a unidade subjetiva (a sensação do peso). Mas aquilo sobre o que a
ligação sintética, atuada no juízo pelo “é”, incide, são representações no
objeto, independente dos estados do sujeito.
A unidade da síntese
originária da apercepção possibilita o ser do ente, conforme Heidegger, isto é,
conforme Kant, a objetividade do objeto. Mas ela não está no objeto, e sim mais
alto, no domínio do transcendental.
O que se mantém, do
pré-crítico ao crítico é, sempre, a questão do ser no âmbito especulativo, isto
é, na relação com o entendimento. O cume especulativo, que é o de toda a
lógica, pertence à apercepção, elemento presente de antemão em qualquer
representação, enquanto elemento unificador, e de antemão necessariamente
vinculado à afecção, isto é, ao dado da intuição sensível. A lógica, a partir
da síntese da apercepção, fornece a adequada caracterização do ser do ente e
por isso pode servir de fio condutor na determinação de seus princípios e
categorias (conceitos). Essa lógica deixou de ser apenas formal, tornando-se
transcendental podendo assim fundamentar a ontologia.
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Conhecemos o caminho
pelo qual o Logos, na acepção de “o lógico”, chega a ser a essencialização do
pensar. Heidegger o reenuncia na Introdução à Metafísica. O Logos,
aquilo que reune, na Sentença de Parmênides que identifica Ser e Pensar, se
enuncia decisivamente como manifestação originária da essencialização do humano
como aquele que assume a reunião na percepção recolhedora do ser dos entes. Mas
assim o que se enuncia é o exercício do vigor da re-velação e da sua
conservação: mantém-se na linguagem a consistência do ser.
Ora, a consequência se
desenvolve inversamente à conservação do sentido da sentença, isto é, à sua
proteção contra o ocultamento. Pois o que se interpretou foi o humano como ser
racional, o Logos agora na acepção de Razão. Paradoxalmente, desse início da
história da metafísica como ocultamento, o acabamento é o completo aclaramento
da questão do ser. O paradoxo é que “acabamento” , desde que relacionado à
história, não significa extinção, mas realização. O mais perfeito aclaramento
apenas cumpre o que se iniciou como operação de ocultar.
Pois o que a sentença
deixou ver foi o Logos como deficiente (carente) frente à prepotência do que
vigora, enquanto ele, o Logos, só deixa perceber o ser da re-velação no seu
hesitar perante o que tem a fazer, a saber, instaurar violentamente, por sua
vez, ele mesmo o vigor.
Porque sempre que se
descobre ou re-vela, ao mesmo tempo se oculta, sempre que olhamos esse “aqui”
ao mesmo tempo renunciamos àquele “lá”, sempre o existir do ser é ser – aí, o
pré da “pre”– sença manifesta o problemático, o deficiente, como domínio
essencial do ser como questão. O ser não pode se dar se não pelo que ele deixa
vir à pre-sença, ao mesmo tempo ocultando-se no demorar-se do que veio a ser,
isto é, o ente, o ser é sempre essa estrutura problemática, hermenêutica desse “como”
do que vem a ser a cada vez.
No entanto, a
história da metafísica se deu como tarefa a eliminação do problemático
entrevisto no hesitar ainda registrado na sentença, transformando o Logos como
razão. O ocultar nesse caso é o mesmo que afastar, não des-velar. O que o exame
heideggeriano da tese de Kant sobre o ser desenvolve, agora no registro do Nietzsche
II, se conclui por aquilo mesmo que a Introdução à metafísica
enuncia: Kant pensou que a completude da lógica apenas “pareceu” ter sido implementada
por aristóteles, mas o que ele mesmo, com sua obra crítica favoreceu, foi a
confirmação de que isso ocorre mesmo assim, pois essa obra não acrescenta nada
à essencialização originária da lógica, estabelecida no momento helênico da
interpretação do Logos como Razão, da subjugação da Aletheia à Idéa.
O que se entrevê com
Kant se cumpre com Hegel, a transformação da metafísica em lógica: a ciência da
lógica nada mais tem com um manual de lógica comum. Mas parece haver uma
contradição no texto heideggeriano. Ao mesmo tempo a lógica se transformou na
ciência da forma absoluta da verdade, com Kant e Hegel, isso que ela antes
nunca havia sido, mas também, não apenas “parece” que a lógica permaneceu a
mesma desde os gregos. A expressão “esencialização originária” esclarece: não
sendo contraditórios , os enunciados implicam a transformação transcendental
como realização da eliminação de todo o problemático que ainda pudesse ter
restado quanto ao Ser. A transformação se dá como realização da
essencialização, a perfeição do manifestar-se do Mesmo.
Esse completo
aclaramento foi de fato implementado no kantismo, pois o “Eu “Penso” funda
agora a possibilidade transcendental da lógica pelo se re-presentar original
que inter-liga a presença, o ser – presente e a “substância” ( ou o
representado). Porque a posição implica o caráter do ser posto, o ser e o
pensar se estão equivalendo a partir da subjetividade que põe a síntese. Já nos
postulados do pensamento empírico em geral, um dos quatro princípios que
explicam as modalidades do ser, temos que ser-possível, ser-atual e
ser-necessário não exprimem o que é o objeto, mas o como da relação do objeto
com o sujeito. Ou seja, na perspectiva de Heidegger, eles fecham a relação na
formalidade da posição, de modo a instituir toda a constituição de mundo no
aclaramento como objetificação.
O que a posição
determina a partir da modalidade é o afirmado do objeto, enquanto objeto, do
ponto de vista de sua objetividade, de sua própria existência, não sob o ponto
de vista de sua realidade, de sua coisidade. Agora o ser como modalidade já se
possibilita como predicado mas não como predicado real, ôntico, e sim
transcendental, ontológico. O ser continua sendo aquelas “certas determinações
em si mesmas”, mas se elas se relacionam às coisas, “coisa” significa tão
somente objeto do conhecimento, as determinações sendo não-reais, apenas
modalidades do ser, apenas as suas posições.
Se a Tese de Kant
sobre o Ser desenvolve as implicações do ser posto enquanto possível (o que
concorda com a forma da intuição), atual (o que está em conexão com a
percepção) e necessário (o que é encadeado com o atual, conforme as leis da
experiência), para mostrar que esses diferentes caracteres do ser-posto são
determinados a partir da fonte da posição originária que é a pura síntese da
apercepção transcendental como ato do pensamento que conhece, o texto do Nietzche
II maneja a transição dos núcleos semânticos da síntese (unidade, posição)
à objetividade detendo-se no relato da transformação do termo alemão gegen-stand.
Desde o século XV esse termo, que se traduz comumente por “objeto”, começa
a se compreender no sentido de “resistência”, para Lutero significando o “estado
oposto”, como o dos judeus e o dos cristãos. Após o século XVIII o termo traduz
objectum, restando controverso quanto a utilização como gegen-wurf
(contra-jecto : ob-jeto) ou gegen – stand (contra-estado : obstante).
Obstante seria o por
-diante como representar. O ob-stancial no obstante, seria o colorido, o
extenso. O ob-stantivo seria porém aquilo que constitui o “se manter ao
encontro”, o se manter em si mesmo do obstante. O obstancial manifestando o
ente, o obstantivo, o ser, a oposição dos termos expressa a distinção
ontico-ontologica de ente e ser. Então Heidegger se interroga como é que a “ob-stantividade”
mesma pôde vir a constituir propriamente a essência do ente enquanto tal, no
momento em que traduz o termo como “objetividade”. Ora, uma vez concebendo-se o
ser como ob-stantividade, já ocorreu o esforço para conceber o ente em si tendo-se
esquecido a oposição dos termos, tendo-se feito equivaler ente e ser. “Oubli”
possibilitado, por sua vez, porque o ser se tomou como presencialidade.
Lembrando a
inssurreição que vimos enunciar-se como a introdução da metafísica da
subjetividade ou Tempos Modernos, subjectum tornando-se ego, a res
cogitans como certeza, a ousia como essência da unidade determinada
pela verdade como certitude na relação com a re-presentação, seu momento
decisivo se enuncia: onde o humano se torna sujeito, e sujeito se torna o “eu”
(“ego cogito”), o obstante se torna objeto no sentido absoluto quando sua
essência é concebida enquanto “unidade sintética da apercepção transcendental”.
O nexo fundamental
aqui deve se estabelecer entre o sujeito e o objeto, de modo que o ser como
posição é requerido para fundamentar o decisivo do momento. Trata-se de
compreender que o fundamento da oposição entre a possibilidade e a atualidade
das coisas encontra-se no sujeito, na natureza de sua capacidade de conhecer,
isto é, nos seus modos de posicionar, seja conforme a representação se
relaciona apenas à nossa capacidade de pensar (possível) ou àquilo mesmo que é
representado (atual). A representação se desdobra, se reflete, conforme
uma tópica, o conceito podendo ser localizado no entendimento ou na
sensibilidade. Assim, da síntese à objetividade, o exame da tese de Kant sobre
o ser conduz à Reflexão.
Os dois registros, a
tese de Kant sobre o ser e o Nietzsche II convergem agora sobre a
referência à Crítica da Razão Pura (“Sobre a anfibologia dos conceitos de
reflexão” e “nota à anfibologia...). A aproximação à interpretação de Heidegger
sobre esse trecho será favorecida se nos acercarmos da sua ambientação
consultando o texto kantiano.
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Kant vinha
estabelecendo o que pertence, como uso, ao empírico e ao transcendental, no
contexto de uma elucidação a propósito do fundamento da oposição dos objetos em
geral em fenômenos ou noumenos. O uso empírico dos conceitos do entendimento
referem-se apenas aos fenômenos enquanto objetos de uma experiência possível. O
uso transcendental consiste no fato de se relacionar a coisas em geral e em si
mesmas.
Como todo conceito
requer tanto a forma lógica quanto um objeto ao qual se relacione, e como a
recepção do objeto supõe obrigatoriamente a intuição empírica, isto é, a
experiência, segue-se que o sentido de qualquer conceito do entendimento só se
assegura pela união dessas duas exigências. Kant o demonstra pelo exame de
conceitos como o de magnitude, realidade, substância, causa, comunidade, de
modo que geralmente se opõe a possibilidade lógica, que é apenas o
representar-se de algo que não se contradiz a si mesmo e se restringe ao
conceito, e a possibilidade transcendental que pertence às coisas, como
correspondência possível do conceito ao objeto. O entendimento puro restringe
seus conceitos ao uso empírico, pois nada mais podem fazer do que antecipar
formas da experiência possível. É somente nos limites da sensibilidade que
podem ser dados objetos. Resta que a subsunção do objeto à forma supõe ainda a
intervenção da capacidade de julgar, completando assim a efetividade de toda
síntese a priori.
Kant mostra que se
não podemos dividir os objetos mesmos em noumena e phaenomena, o
mundo em mundo dos sentidos e do entendimento, podemos opor os conceitos
conforme forem sensíveis ou intelectuais. Os conceitos intelectuais se
restringem como não objetivamente válidos. No entanto, o conceito de noumenon
se vê irredutivelmente inevitável, ao mesmo tempo que indeterminável quanto ao
objeto. Portanto, esse conceito permanece como problemático. Mas como os
conceitos do entendimento puro podem concernir aos princípios da exposição dos
fenômenos, restando vazios na exterioridade da experiência, pode-se propor que
aquilo que na história da filosofia se circunscrevia sob a designação “ontologia”
pode agora se compreender como âmbito de uma analítica do entendimento. O que
se insere nessa analítica não faz o conhecimento progredir, isto é, não
constitui o ato de conhecer, mas apenas expõe o modo pelo qual qualquer
conhecimento é possível. Somente ligados entendimento e sensibilidade algo como
conhecimento existe.
Ora, a referência à
história da filosofia, desse trecho, se relança no apêndice que trata da
anfibologia dos conceitos de reflexão, pois aqui trata-se, inicialmente, de uma
oposição entre investigação , que porta sobre a certitude do conceito, por
exemplo, se realmente entre dois pontos só pode haver uma linha reta, e
reflexão , que se exerce sobre a fonte ou capacidade do conhecimento sob a qual
o conceito se representa. Mas essa reflexão praticada permite a Kant um reexame
da história da filosofia.
A reflexão
transcendental porta sobre representações, sobre as relações possíveis entre os
conceitos e o estado da mente. É o ato pelo qual se aproxima a comparação das
representações com a capacidade cognitiva, de modo que se possa estabelecer se
tais representações se comparam enquanto pertencentes ao entendimento puro ou à
intuição sensível. As relações nas quais os conceitos podem encontrar sua
co-pertinência em um estado da mente são: identidade e diversidade,
concordância e oposição, interno e externo, determinável (matéria) e
determinação (forma).
As relações
estabelecem a espessura entre o empírico e o transcendental em relação ao regime
do objeto. O objeto empírico (fenômeno) porta a diversidade, a oposição, só
pode apresentar como interno um complexo de relações com o que, no entanto, lhe
é externo. O objeto do entendimento puro é somente identidade, concordância e
não possui nenhuma relação com qualquer coisa diversa.
Quanto à relação de
determinável e determinação, a reflexão transcendental permite inverter o que
se vinha geralmente postulando ao longo de toda a história da metafísica
ocidental, pois Kant mostra que sob vários aspectos sempre se havia pensado a
matéria como precedendo a forma, quando o que a crítica mostra é que a forma é
algo originariamente dado, isto é, sua existência não depende de uma matéria
sobre a qual se exerceria como capacidade de ordenação, mas é ela mesma
fundamento, informando a intuição pressuposta à possibilidade da matéria se
realizar como percebido. Assim reverte-se também a suposição milenar da
impureza da sensibilidade, sua confusão e obscuridade, frente à clareza
reservada ao entendimento puro.
A reflexão
transcendental poderia assim parecer restringir o seu caráter historicamente
reversivo à apresentação da relação entre matéria e forma, mas Kant utiliza
exemplos, na exposição de cada relação, que iluminam esse mesmo viés de
reversão a propósito de cada um deles. Heideger localiza precisamente aqui o
momento decisivo da insurreição, pois o que se desvela assim é a essência do
obstante (o objeto / Gegenstand) na sua obstantividade, (a objetividade
/Gegenständlichkeit), agora determinando-se como “novo obstante verdadeiro”,
pensado como o não-condicionado. Esse texto, que pareceria um simples adendo ao
corpo da Crítica, se preenche com uma “perspicácia”, como “tomada de posição”
que são essenciais em relação à tudo o que precede na história da metafísica.
O contraponto aqui é
Leibniz, pois Kant se vale constantemente de suas posições para mostrar como o
transcendental opera a reversão, essas posições sendo sempre deriváveis do
postulado ingênuo da razão que ignora a espessura, o fato de que as fontes são
duas, não apenas uma. Assim Leibniz pôde propor a indiscernibilidade como
princípio, no âmbito mesmo dos fenômenos; supôs que o conceito de mônada, como
seres simples dotados de capacidade representativa, pudesse abranger todo o
existente, como se dos fenômenos pudessem ser abstraídas as relações externas
sem que isso exaurisse sua possibilidade de ser representados; conceituou o
espaço e o tempo na dependência das supostas coisas mesmas, as mônadas,
respectivamente, através da relação dessas substâncias e da conexão de suas
determinações recíprocas.
Particularmente sagaz
é realmente o modo como Kant, estabelecendo o alcance da reflexão
transcendental, no mesmo lance limita a filosofia de Leibniz ao domínio
pré-crítico. Mas aqui esse movimento crítico do que precede envolve também a
posição oposta a Leibniz, abrangendo a ele e àquilo contra o que seu pensamento
se voltou, a saber, o sensualismo de Locke.
O que a reflexão
transcendental tem a fazer é determinar a que capacidade cognitiva pertence o
conceito, seu “lugar transcendental”, a posição que lhe pertence, seja na
sensibilidade, seja no entendimento. A tarefa abrange assim uma tópica
transcendental. A anfibologia consiste, pois, como ilusão, na comparação pura
de conceitos, como se equivalessem todos por sua natureza, sendo que o
mal-entendido a que conduz se põe ora como redução de todo real conceituável ao
entendimento, no exemplo do “sistema intelectual do mundo”(Leibniz), ora como
sensualização do mundo como reflexão da intuição sensível (Locke).
A tópica permite
portanto, situar entre essas duas fontes a co-pertinência do conceito de modo a
estabelecer sempre a irredutibilidade entre noumena e phaenomena, já que a
simples comparação lógica, o ater-se a apenas uma fonte sem compreender a
duplicidade originária, equivale a tomar a representação pela coisa em si.
Assim vemos que,
quanto à relação de identidade e diversidade, o mesmo só vale quanto ao
entendimento puro, bastando que dois fenômenos sejam dados à intuição para que,
mesmo que subsumidas ao mesmo conceito, tenham que ser tomados como duas
representações irredutíveis, dois objetos, não o mesmo, pois a irredutibilidade
entre eles se relaciona à do espaço intuído em que somente podem ser dados, por
isso refutando-se o princípio leibniziano dos indiscerníveis. Quanto à
concordância e oposição, somente no entendimento se pode pensar que toda a
realidade possa ser convergente, já que na realidade da experiência sempre algo
pode anular o efeito do que precede ou se lhe opõe (x-x = o). O fenomênico não
pode ser dado como se dele se pudesse abstrair as suas relações espaciais,
externas, refutando-se assim o conceito de mônadas. E vimos que quanto a
matéria e forma trata-se de reverter a precedência da matéria.
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A leitura de
Heidegger inicialmente se concentra na duplicidade do termo Reflexão assim como
utilizada nesse texto por Kant. Pois temos (a), que a reflexão é “já
essencificiante” (Nietzsche II, p. 375), isto é, inexpressa nas
re-presentações. Aqui, sem dúvida, poderíamos fazer intervir o importante papel
da reflexão no kantismo, seja na teoria do conhecimento, seja na articulação
entre os domínios crítico e prático, seja naquilo que suporta ambos os aportes
precedentes, isto é, aí mesmo onde se expõe a significação e as implicações do
ato de reflexão, a saber, a teoria do juízo. No entanto, o texto heideggeriano
parece inclinar-se mais, no que se refere ao inexpresso na representação, para
uma especificidade do termo reflexão assim como relacionado a “conceito” na
terminologia “conceito de reflexão”.
Mas também, na Tese
de Kant Sobre o Ser e aqui temos (b), a reflexão é especialmente efetuada
como transcendental. Ela atenta aos estados e relações da representação pelos
quais se torna delimitável o ser do ente, como reflexão sobre as ramificações
no lugar do ser. Assim, a posição do ser-possível se relaciona com as condições
formais da experiência, logo, com o conceito de forma. Na posição do
ser-atual se expressam as condições materiais da experiência, logo, relacionando-se
com o conceito de matéria. Esses conceitos, forma e matéria, auxiliam a
determinar a relação de reflexão, sendo eles mesmos designados conceitos de
reflexão, de modo que o que eles determinam são os lugares do ser como posição.
Mas tais conceitos supõem, por sua vez, para serem determinados, uma reflexão.
Aquilo que Heidegger considera como a mais avançada determinação do ser como
posição se realiza numa reflexão sobre a reflexão, um modo especial de
pensamento, que se faz como pensamento do pensamento
A palavra-guia aqui é
Ser e Pensar. Pois o que se delimita pela reflexão transcendental é
sistematizado a partir dos pares conceituais de modo que cada um relança o
outro, sendo que sua sistematização depende da irredutibilidade entre as
posições, da fundamentação da oposição do possível e do atual, já que o atual
está além do possível, como o exterior está para o interior, como o que suporta
a desconveniência está para a pura conveniência, como, em geral, o que supõe a
sensibilidade está para o que pertence apenas ao entendimento.
Ora, o que se torna
essencial aqui é a relação da sensibilidade com o entendimento assim como
estrutura da subjetividade do ser humano onde o ser como posição se situa pela
reflexão. O entendimento, em Kant, é sempre pensado em função de sua
espontaneidade originária, aquilo que Hume compreenderia como “natureza humana”,
isto é, algo não pressuposto por nada na experiência, na exterioridade. A
sensibilidade é uma capacidade receptiva de percepção, relacionada de modo
fundamental com a exterioridade, com a “natureza” física ou experiência. A
reflexão se compreende agora como acesso à subjetividade.
A posição mostra-se
mais fundamentalmente no par conceitual matéria e forma pois sua relação se
interpreta estruturalmente conforme a subjetividade, ela mesma estruturada pela
relação do que se apresenta como pura espontaneidade e como receptividade.
Assim, a reflexão sobre esse par de conceitos de reflexão se orienta não para
os objetos, e sim à relação da objetividade dos objetos com a subjetividade do
sujeito. A palavra-guia, Ser e Pensar, ilumina essa imbricação do mais
objetivo, a objetividade mesma, com o mais subjetivo, o que se oculta na
aparente simplicidade do Eu Penso.
A imbricação dos dois
registros heideggerianos que estamos examinando se performatiza nesse momento
no próprio texto de A tese de Kant sobre o ser, mostrando que ambos
devem ser lidos conjuntamente para se compreender o movimento conceitual de
Heidegger.
Após mostrar o
sentido da palavra guia Ser e Pensar manifesto no conceito de ser como posição,
Heidegger se propõe compreender a ambiguidade que, apesar de tudo, permanece aí
envolvida. Mas para isso parece ser preciso antes inserir na interpretação de
Kant do ser a voz do passado metafisico. Assim Heidegger se volta sobre o texto
de Kant, citando o pré-crítico “Argumento” para uma “demonstração da existência
de Deus”, e sobre o seu próprio texto, citando o Nietzsche II, onde se
expõe a história metafísica do termo Existência, dos gregos a Nietzsche.
Na tese de Kant
sobre o ser Heidegger esclarece que o sentido que o texto kantiano supõe no
seu uso do termo “existência” é aquele que o Nietzsche II localiza na
mutação da energeia em actualitas, pois agora a exsistentia é
o actus purus como pura essência da atualictas, ato que põe aquilo que
con-siste no que e-xiste (quo res sistitur). Ora, a articulação
dos dois textos se deixa também aproveitar se inserimos, anteriormente à
apreciação histórica tanto do existir quanto do representar, da tese de Kant
sobre o ser, o modo como o Nietzsche II desenvolve o tema da duplicidade da
reflexão. Pos aqui trata-se de ver que, opondo-se ao sentido da reflexão já
essencificiante, a reflexão especialmente efetuada compõe ela mesma três
rubricas: enquanto desarticulação lógica ou comparação pura, sem relação ao
objeto (a folha é verde); a comparação objetiva como conexão de representações
em sua relação ao objeto (o sol aquece a pedra); e c) o “como” de “b”, ou seja,
o estabelecimento do transcendental, pelo que qualquer decisão acerca da
objetividade do objeto se desenvolve como decisão sobre a possibilidade a
priori de julgamento sobre o objeto, como ele é expressamente re-posto pelas
faculdades de representar. É enquanto objeto que algo se tem como tal na
unidade da intuição e do conceito, a união de ambos sendo condição do pôr e da
consistência do ob-stante.
Assim essas rubricas
assinalam a reversão crítica própria ao kantismo, nada menos do que a revolução
copernicana da filosofia, de modo que “reflexão e objeto e subjetividade” são
agora “interdependentes”. A experiência da reflexão é a experiência dessa
relação, conforme o Nietzsche II. Aqui, porém, já se desenvolve a crítica de
Heidegger à Crítica de Kant, pois a experiência dessa relação pressupõe a
relação ao ente como representação, atualização, o que se possibilitou
historialmente pela conversão da idéia como percepção, verdade como adequação,
pelo que, somente assim, representação se funda na reflexão se por reflexão
entendemos a essência do pensamento, o transcendental, o que evidencia a
importância da Anschauung (intuição) como aquilo que põe a coisa na presença,
acessa o ser presente.
Mas é a Tese de Kant
sobre o ser que maneja de modo mais extenso a crítica pois aqui Heidegger, já
pressupondo a compreensão do que o Nietzsche II registrou, isto é, a revolução
do kantismo, interroga o que Kant jamais se propôs como problema, a saber,
sobre a significação do ser “se a posição se deixa determinar pela estrutura de
forma e matéria”, pela dupla forma do sujeito (proposicional em relação ao
predicado, ontológica em relação com o objeto). O que fala a voz do passado,
nessa significação, é o termo grego “hypokéimenon”, é a interpretação do ser
como presença, o que já de antemão está (presença que dura). O termo se modula
no presente do kantismo, na sua interpretação do ser do ente como objetividade
(realidade objetiva).
Retorna então o texto
sobre a palavra-guia, mas tacitamente o que se relança é aquela indagação:
teria Kant enunciado o co-pertencer de ser e pensar, isso que ficou como questão
desde os gregos? Sem dúvida essa questão é a do “e” (ser e pensar),
Kant não tendo deixado de interpretá-lo. O problemático, deixado como tal pelos
gregos, reside na não sobreposição de igual e idêntico quando se afirmou “Pois
o mesmo é pensar e ser”. Mas a interpretação esclarecedora traduz, conforme
Kant a co-pertinência como relação cuja raiz está no pensamento como ato do
sujeito humano.
No entanto Heidegger
considera enganoso o aceno aproximativo que caracteriza o pensamento como reflexão
da reflexão, esse sendo também o momento de mostrar o sentido da ambiguidade
anteriormente apontada pois, por um lado, a caracterização implica a reflexão
como antecipação do horizonte de elucidação do ser e de suas modalidades como
posição, mas por outro, enquanto reflexão da reflexão, o pensamento é,
inversamente, o órganon (instrumento) da interpretação do ser. O pensamento
está sendo assim considerado ao mesmo tempo o horizonte e o instrumento
interpretativo, de modo que de antemão foi dado o meio que deveria ter sido
esclarecido no movimento de interpretação. Pois se o ser permanece em questão
como o que se ilumina e demora, não se tendo já interpretado como o que tem o
caráter de ser-posto na posição pelo entendimento, como poderia ter sido conceituado
de modo representativo, ao modo de horizonte de antecipação ou estrutura de
objetividade?
Não se poderia
conceituá-lo assim, sendo a presença que se ilumina e demora irredutível ao
caráter de ser posto. Ora, é a maneira de interpretar o ser que é preciso
deslocar, desde seu situamento “lógico” a uma interrogação abrangente do lógos
que se enuncie ao mesmo tempo como indagação sobre o “como” pelo qual o ser “é”
ou vem a ser : indagação sobre o dar-se do ser. Que o ser é o que é, no
sentido de tudo o que vem a ser , o ser é o que dá presença, só podendo
enunciar-se tautologicamente, é verdade, mas por essa limitação franqueando o
que deve ser sempre pensado, não interditando o pensar como resposta prévia
a toda dação.
O que se pode,
entretanto, afirmar acerca da tese de kant sobre o ser é o que permaneceu
impensado na insuficiência de sua interpretação do co-pertencer de ser e pensar
como condição do ser no pensar (transcendental). Mesmo assim a tese permanece
como “o cimo” na paisagem histórico-metafísica, Heidegger estabelecendo-o como
fronteira entre o passado grego, que determinou o ser como presença constante,
e o futuro hegeliano que o estabeleceu como conceito absoluto.
É oportuna a
comparação dessa crítica de Heidegger a Kant com aquela que Deleuze implementa
em Diferença e Repetição. Aquilo que Heidegger identifica como a
interdependência estrutural de objetividade e subjetividade, Deleuze está
situando em termos de Imagem do Pensamento. Assim como Heidegger expõe uma
história do ser como desdobramento metafísico das possibilidades conceituais de
uma identificação prévia do ser com a presença constante, Deleuze desenvolve as
implicações de uma Imagem dogmática, ortodoxa ou moral, do pensamento, que
desde Platão, não cessa de se impor como significação do pensar, ainda que
Deleuze observe com cuidado o que tem se furtado a essas implicações, às linhas
de fuga que nunca deixaram de se lançar como indagações e protestos, mas também
como atividade conceitual criadora.
A convergência do
pensar com o verdadeiro (afinidade ou conformidade) se expressa concedendo ao
significado de pensar a recognição, a identificação do objeto. Essa imagem é
moral porque pensar, definido como identificar o objeto, pode ser visto como o
exercício natural de uma faculdade que possui uma boa natureza, uma boa
vontade. Platão localizava o Bem como idéia das idéias, mostrando assim que o
verdadeiro está garantido moralmente nas próprias “coisas” desde que
objetivadas no pensar, não selvagemente deixadas à sua própria heterogeneidade,
à sua própria irredutibilidade consigo mesmas no mundo da mudança e do vir a
ser. Lugar da fixidez, da identidade, o bom senso é a coisa do mundo que melhor
se reparte, todo mundo sabe o que significa pensar.
A recognição se
define como o exercício concordante de todas as faculdades sobre um objeto
suposto como sendo o mesmo, tocado, visto, lembrado, imaginado, concebido...
como no exemplo do pedaço de cera de Descartes: o pensamento sabe que é o
mesmo, ainda que a cera se derreta, mude de aspecto, etc. Deleuze mostra que
esse modelo de pensamento é comum a Platão, Descartes e Kant. O problema aqui é
que o modelo da recognição supõe-se numa ruptura com a doxa, a opinião, mas na
realidade conserva a sua forma, apenas abstraindo o conteúdo, ou seja, ele
pressupõe como “natural”, conforme Deleuze, “deixa impensado”, como seria a
expressão de Heidegger, aquilo mesmo que fundamenta toda a teorização como “filosófica”,
a saber que é que significa pensar, como se poderia, partindo dessa questão,
colocar o problema do acesso ao Real.
Deleuze traça os
postulados dessa imagem dogmática do pensamento: princípio da Cogitatio natura
universalis, o ideal do senso comum, o modelo da recognição, o elemento da
representação, o “negativo” do erro, o privilégio da designação, a modalidade
das soluções, o resultado do saber. No percurso da exposição de cada postulado
e daquilo que se imbrica em cada caso Deleuze repõe a história da filosofia,
sendo que aqui nos importa ressaltar as referências a Kant. Quanto a isso, Deleuze
comparte sua crítica em três frentes: a doutrina das faculdades (senso comum),
o Eu Penso (Representação), e, mais à frente, o estatuto do problemático
(teoria das idéias).
Assim, conforme
Deleuze, a “ambiguidade da crítica” de Kant está na sua pretensa reversão do
dogmatismo, pois ele teria mostrado a insuficiência do erro, concebido como
extrínseco e devido ao comprometimento sensível, o alcance crítico devendo
portar mais propriamente sobre a ilusão como algo interno à própria razão – a
tarefa da filosofia consistindo precisamente na imposição de limites. No
entanto, como Kant jamais questionou os limites do senso comum, sua aptidão ao
verdadeiro enquanto conforme à objetividade, o que a crítica empreendeu foi a
multiplicação dos sensos comuns relacionados aos interesses “naturais” do
pensamento racional. Permanece havendo um senso comum em geral, resultando da
colaboração das faculdades, mas de modo que, como a colaboração se faz sob a
forma do Mesmo ou o modelo da recognição, a cada vez uma das faculdades é a
ativa que se encarrega de fornecer essa forma ou modelo com o que as outras
colaboram: imaginação, razão e entendimento colaboram no conhecimento, formando
o senso comum lógico, o entendimento sendo nesse caso a faculdade legisladora;
no senso comum moral é a razão que legifera, no senso comum estético são todas
as faculdades que entram em um livre acordo.
O que se torna
ilusório é somente a confusão de interesses, os domínios se imbricando uns nos
outros, sendo o que a crítica tem a limitar. Mas a moral, a reflexão e a fé não
são postos em questão, julgando-se que corresponde aos interesses naturais da
razão. Ora, o postulado da recognição se torna introdutório em relação ao da
representação, mais geral, se observamos o papel do “Eu penso” como princípio
generalizante da representação. Deleuze situa os elementos da representação :
identidade no conceito, a forma do Mesmo na recognição; oposição na
determinação do conceito, supondo a comparação dos predicados com os opostos;
analogia no juízo, relação do conceito com o objeto; semelhança no objeto, em
si ou relativamente a outros conceitos, supondo uma continuidade na percepção,
igualdade consigo mesmo. Esses elementos solicitam, cada um particularmente,
uma faculdade, mas estabelecem relações entre elas conforme o senso comum
(semelhança, por exemplo, entre uma rememoração e uma percepção). O Eu penso
atua então como fonte dos elementos e unidade das faculdades (eu concebo, eu
julgo, eu imagino e me recordo, eu percebo), estabelecendo o mundo da representação
em geral.
Mais oportunamente
desenvolveremos o exame do estatuto do problemático, pois sobre essa crítica
Deleuze irá implementar a sua própria teoria das idéias, de modo que seria
demasiado extenso examinar no todo por agora esse tema. No entanto, é nesse
âmbito que se sobrepõem as críticas de Deleuze e Heidegger, de modo que
deveremos focalizar aqui o que se pode destacar proveitosamente a respeito.
Ora, historicamente, conforme Deleuze, a filosofia vinha prolongando a ilusão
natural que consiste em decalcar os problemas sobre as proposições, de modo que
a verdade de um problema pareça estar na possibilidade dele receber uma
solução, por exemplo, como se fosse bastante dispor adequadamente os termos do
problema (dialética) para que se evidenciasse naturalmente o domíniod e sua
solução. No entanto, Kant teria inovado justamente aqui, aopropor o estatuto
problemático das Idéias da Razão na sua irredutibilidade aos conceitos do
entendimento, esses sim, adequados à síntese dos dados da experiência.
Mas Kant teria apenas
levado a forma da possibilidade de solução, como domínio da verdade do
problema, ao transcendental, refletindo sobre o uso legítimo das faculdades.
Círculo vicioso, conforme Deleuze, pois o fundamento se torna um simples
condicionamento exterior, ocultando assim o que se exige expressar, a
característica interna do problema, o elemento imperativo intrínseco que decide
de sua verdade e falsidade, isto é, aquilo que o problema produz como
verdadeiro no pensamento : gênese da verdade, pois as soluções são fundadas nas
condições do problema, não são indiferentes à sua gênese, e o que se trata de
avaliar é o que se deriva da posição do problemático – um pouco como Heidegger
pensa o ente já numa situação do Ser, de modo que “existência” é como uma
variável do devir pela qual o ente pode vir a ser.
E de fato, para
mostrar que o pensamento não se supõe como adequação ao dado, senso comum
(ratio ou cogitatio natura universalis), Deleuze pede que se lembre dos “textos
profundos” de Heidegger, que mostram que esse pressuposto limita o pensamento à
opinião, como sua possibilidade abstrata. O pensar precisa ser engendrado no
pensamento devido a algo que força a pensar, logos-hieróglifo, aquilo
que permaneceu impensado ou impensável, bem inversamente a decalcar o
transcendental sobre o empírico. Mas Deleuze supõe que Heidegger conserva o
tema de uma afinidade ou homologia entre o pensar e o que está para ser
pensado, parecendo-me aqui podendo-se repor a temática do “historial”, mas
também a situação existencial do ser humano, o modo como veremos Heidegger
conceituar o transcendental, pois Deleuze considera que se ele desloca a imagem
do pensamento portando a crítica sobre a estrutura da objetividade, Heidegger
conserva no entanto seus pressupostos subjetivos, a compreensão pré-ontológica
implícita do ser.
Independente do que
realmente afasta a conceituação do devir deleuziano em relação à inserção
ontológica da diferença de ser e entes própria a Heidegger, há uma convergência
notável no que tange à crítica do dogmatismo como restando impensado no projeto
kantiano da Crítica.
Aparentemente,
conforme o texto da Introdução à Metafísica, o kantismo teria
estabelecido de um lado o ser como posição do ente, e o ente, como o que é
experimentável para as ciências (naturais e humanas), mas de outro, para
resgatar a função normativa do Dever– Ser, ele a teria fundado no si – mesmo,
como imposição de valor. No entanto, o Nietzsche II põe entre parênteses “o
conceito de ser em Kant” após “Realidade e vontade” como título do trecho que
examina a relação de ser, consciência e reflexão, relação determinante do
abandono do Ser desvinculado da verdade do ente.. Ora, na rubrica Realidade e
vontade, o ser em Kant se enuncia conforme três sentidos: o da objetividade-certitude
enquanto representatividade da experiência, realidade da liberdade enquanto
coisa em si, isto é, vontade, e impressionabilidade da sensibilidade enquanto
ação exercida, eficaz.
Se bem que Heidegger
enuncia como algo a considerar se essas determinações do ser estão ou não
podendo ser pensadas unitariamente, parece claro que ele propõe a convergência
de racionalismo e empirismo, algo que poderia ser relacionado ao kantismo, como
manifestação convergência (reencontro) respectivamente, da objetividade (ens
certum) e da realidade (impressio), na determinação da realidade como real
eficaz. Já a vontade só pode se representar eficazmente o valor desde que
esteja sendo pensada numa estrutura unificada, o ser humano racional.
Realidade, como termo kantiano, se reveste assim de dois aspectos, seja
relativo à sensibilidade, seja à coisidade, ambos realidade do ser humano
enquanto eficiência e vontade, vis, actus. Portanto, “o ser é desprovido de
problemática”, logo, parece-me ser lícito ver aqui o ponto de junção da
crítica, a motivação da unidade do projeto kantiano.
Ora, seria preciso
agora ver em que essa unidade me parece ser efetivamente reversiva no interior
da história da filosofia. O que pode ser demonstrado, a meu ver, com relação a
dois pontos essenciais. Inicialmente a reversão da metafísica que se torna
ciência do ser humano, mas “ciência” no sentido de uma redefinição da própria
tarefa da filosofia na ambiência de um afastamento histórico irreversível entre
a filosofia tradicional e os novos saberes especializados. O projeto kantiano
porta assim sobre esse momento de transformação epistêmica e é determinante ao
que se deriva daí, inserindo-se assim o aporte foucaultiano , pelo que essa “ciência”
introduz o postulado antropológico que dominará o Saber contemporâneo. Mas por
esse mesmo viés, também reversão da metafísica no que se relaciona ao estatuto
dos seus objetos: Deus, o mundo, a alma. Quanto a isso, Deleuze soube mostrar
com precisão o alcance da crítica, a “transformação profunda”, introduzida por
Kant(La philosophie critique de Kant, p. 90). Mas é aqui mesmo que
reencontraremos o tema da história. Pois ao examinar a dependência dessa
transformação com o papel da Reflexão se evidenciará a transição da faculdade
de conhecer à faculdade de desejar, do interesse especulativo ao interesse
prático, e a questão da História como questão da realização da liberdade na
natureza. Será necessário então retornar a uma visão de conjunto do projeto
kantiano
orientada pela
Subjetividade como nexo de sua unidade.
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A exposição do
pensamento kantiano é extensa, abrangendo desde a década de 50 do século XVIII
até o início do século XIX. Geralmente podemos visar duas fases nítidas, já que
o “kantismo” se popularizou como doutrina Crítica. Assim, resta a indagação
sobre o Kant anterior à década de 80, quando surgiram as obras que consagraram
essa versão mais comumente conhecida de sua filosofia.
Quanto a essa fase
anterior, considera-se o percurso de Kant através de seus abundantes escritos,
de modo que se podem destacar indubitavelmente os temas, e nestes as ênfases de
seu pensamento, assim como as influências. A tese do ser como posição
desempenha aqui um papel central, envolvendo a problemática da necessidade e da
causalidade, assim como vinha se oferecendo à controvérsia nessa época, do que
se desdobra a questão da moralidade, do ato humano relacionado ao conceito de
liberdade. Consequentemente se apresenta o problema da relação da moral,
compreendendo-se na região do sentir, com o Intelecto, nas regiões do conhecer
e do pensar, como das relações entre liberdade e natureza. As obras de Leibniz
e Wolff fornecem o referencial dessa problemática. Rousseau e Hume exercem,
porém, influência considerável, desde que o racionalismo de Leibniz e Wolff se
apresenta, precisamente, como o alvo crítico-avaliativo tematizado
expressamente por Kant.
Mas utilizando os
registros da História da filosofia de Bréhier e da tese de Marco
Zingano, Razão e história em Kant (1989), vemos que desse percurso há interpretações
que se contrapõem conforme as ênfases que se prefere destacar.
Pode-se compreender
as soluções do Kant desse período mais como provisórias, como Zingano, ou mais
como introdutoras do pensamento crítico posterior, como Bréhier. Mais profundamente,
em comum temos que Kant, nesse período, se aproxima dos temas filosóficos que
convergem na polêmica do tempo entre racionalismo e empirismo, de um lado e de
outro chocando-se com as limitações teóricas dessas correntes, os problemas que
deixam irresolvidos: ou que ignoram ou que escondem. Mas assim Bréhier vê o
Kant dessa fase como pré – crítico, no sentido de um empirista que
deverá desenvolver posteriormente a perspectiva transcendental para
salvaguardar o conhecimento no âmbito da experiência, enquanto Zingano o mostra
mais como
pré – crítico
, no sentido de um racionalista que deverá se encarregar das questões
relacionadas com os limites do entendimento.
Bréhier mesmo
testemunha que a interpretação do Kant anterior à obra crítica como racionalista
é a mais comum. No entanto, pensa que não se adequa inteiramente ao percurso
verificado pelos escritos dessa época. Em todo caso, Bréhier admite algo como
uma aproximação de Kant ao racionalismo na década de 70, mas acentua a pertença
de Kant, mesmo aí, à tendência geral do iluminismo contra a discussão lógica,
pela urgência do problema da experiência, seja no domínio do conhecimento, seja
naquele do sentimento e da moral.
Para compreender os
problemas que Kant enfrenta nesse momento inicial de seu exercício filosófico,
é fundamental situar o tema da necessidade assim como determinado nessa época.
Abbagnano desenvolve a referência desse tema mostrando que o conceito se
reveste de duas inserções históricas precisas, a antiga e a moderna.
Na inserção antiga
temos dois modos de propor o nexo de necessidade, conforme desenvolvido por
Aristóteles: a) o sentido lógico, do constrangimento que obriga à conclusão a
partir das premissas, que é o sentido fundamental do conceito. O importante é
que nesse tipo de necessidade os termos não podem ser diferentes do que são
como quando se afirma que em um triângulo os três ângulos são iguais a dois
retos. Aqui a necessidade é “formal”, “natural e absoluta”, conforme a
terminologia de São Tomás. b) os sentidos de condição, concausa de um
efeito, por exemplo, da saúde pelo remédio, ou de força que impede certa
ação. Agora a necessidade é hipotética, aquela que se encontra nas
coisas, em sua matéria. Aristóteles também observou a oposição entre o que é
necessário em virtude de uma causa externa e aquilo que é a causa de sua
própria necessidade como as coisas que se consideram como simples, aspecto
especialmente ressaltado nas filosofias de Avicena e Spinoza.
Na inserção antiga
todos os sentidos da necessidade podem ser reduzidos ao fundamental. Se essa
conceituação e suas distinções permaneceram inalteradas na filosofia até a
modernidade, a transição ocorre com Leibniz que opôs de modo irredutível o que
designou como necessidade hipotética e necessidade absoluta. A necessidade
hipotética compreende: a) a física, ordem da natureza: e b) a moral, escolha do
melhor conforme o critério da sabedoria. A necessidade absoluta é simplesmente
a que compreende as verdades eternas, isto é, aquilo cujo oposto implica
contradição, o que ela afirma contendo a impossibilidade do contrário.
Ora, assim Leibniz
limitou a necessidade absoluta apenas às verdades matemáticas e algumas
verdades metafísicas, irredutivelmente contrapostas ao tipo de verdades de
fato, que se supõem como estando no âmbito da contingência mas que podem ser
garantidas no âmbito da necessidade hipotética, desde que Deus as previu.
Leibniz baseia finalmente a necessidade física na moral, já que a escolha das
leis da natureza se faz por Deus conforme o critério do melhor.
O século XVIII recebe
o conceito de necessário pelo texto de Leibniz. Wolff, cuja influência nessa
época é notável na Alemanha, utiliza os termos de Leibniz, mas torna a
necessidade física independente da moral, e de modo geral propõe constituir uma
Ontologia como ciência de que se derivam todos os outros conhecimentos.
O que Wolff realiza,
com esse intuito, é a evolução do princípio de razão leibniziano ao princípio
de contradição como sendo o de possibilidade de todo o existente, expressamente
repondo a doutrina do tomismo quanto ao tema da necessidade, pois assim
volta-se à identificação do necessário com o sentido formal, fundamental, do
termo, ainda que mantendo a noção de necessidade moral. Wolff, com efeito,
conforme Bréhier, define a filosofia como ciência de todas as coisas possíveis,
uma vez que o possível é agora o não-contraditório. Por esse meio a ontologia,
conjunto de proposições válidas para todos os objetos, pode não apenas
decompor, mas também demonstrar os predicados do ser: os princípios de inteira
determinação das coisas e da matéria como extensão e agregado de substâncias
simples, de que se derivam: a) a cosmologia, pois se o mundo é totalidade de
seres finitos, em relação uns com os outros, ele se compõe de corpos extensos e
móveis, átomos sem grandeza ou mobilidade, mas contendo o princípio de mudança;
b) a psicologia racional, pois de que a alma é força capaz de se representar o
mundo, se deduz que possui o conhecimento, representações confusas ou
distintas, e desejo ou tendência à renovação das representações. O desejo é
comandado pelo prazer (conhecimento da perfeição) ou pela dor (conhecimento de
uma imperfeição); c) a teologia natural, que afirma a existência de Deus como
necessária já que é fundamento da possibilidade dos outros seres que não
possuem em si sua razão de ser (prova pela contingência). A finalidade da
criação, supondo-se a natureza de Deus como ela é, só pode ser a existência de
criaturas racionais, os seres humanos, aptos a honrar e adorar o criador.
Essas premissas permitem
sustentar as perspectivas religiosa e moral inteiramente inseridas na exigência
racional, isto é, desvinculadas da revelação ou da fé. Wolff é particularmente
influenciado pela cultura chinesa, introduzida na Europa pelos escritos dos
missionários jesuítas. Ele compreende Confúcio como exemplo de uma moral de
acordo com a razão natural, pela qual se podem postular regras de ação
claramente estabelecidas apenas pelo intelecto. Assim ele lança o imperativo
moral como sendo agir de modo a tornar a nós e a outrem o mais perfeitos,
abstendo-nos do oposto, regra que não admite outra autoridade que a consciência
racional do que somos.
Bréhier assinala,
dentre as obras listadas no período pré-crítico, inicialmente três títulos que
resumem a teoria física de Kant (Von der wahren Schatzung von der
lebendingen Kräften, 1749; a Monadologia physica, 1756;
e o Primeiro fundamento da diferença das regiões do espaço, 1768)).
Aqui vemos uma filosofia da natureza que atribui a cada corpo uma força ativa
independente da extensão, essa monadologia situando-se entre Leibniz e Newton,
próxima de Boscovitch, pela qual a mônada representativa do leibnizianismo se
torna um centro de forças atrativa e repulsiva, preenchendo um espaço finito
absoluto, não pela pluralidade de suas partes mas por sua relação com as outras
mônadas.
O texto importante
desse período, porém, é a tese latina Principiorum primorum cognitionis
metaphysicae nova dilucidatio, de 1755, que Kant apresentou na faculdade de
filosofia de sua cidade, Könisberg. Bréhier , de modo bastante conveniente à
sua proposição do Kant dessa época como inclinado ao empirismo, não se detém
particularmente aqui, mostrando apenas que a tese se endereça contra Leibniz e
sublinhando os dois aspectos principais da argumentação, a saber, a crítica da
distinção entre necessidade absoluta e necessidade hipotética e, como consequência,
o fato de que tal pressuposição conduziria a subsumir a liberdade ao
determinismo, o que se mostra como contra-senso.
Em Zingano as
implicações desse texto são bem mais desenvolvidas e articuladas ao conjunto da
obra pré-crítica. A referência é Wolff, sob crítica de Crusius, que Kant
pretende em alguns aspectos resgatar mesmo aceitando certos traços dessa
objeção. Assim, inicialmente, Zingano mostra que Kant fundamenta todo o
conhecimento pelo princípio de identidade. Quanto ao princípio de contradição,
enquanto princípio da impossibilidade, Kant estabelece sua circunscrição ao que
não pode ser predicado, enquanto a vigência do princípio de identidade se estende
a tudo sobre o que se pode predicar algo. Em conexão com o conhecimento, o
princípio de contradição deve subordinar-se ao de identidade.
Quanto à predicação,
Kant a estabelece como determinação, a razão sendo o que determina um sujeito
por relação a um predicado e havendo dois modos dessa determinação: a) a razão
anteriormente determinante responde à questão “por que” (cur),
designando o ser ou devir, a razão de ser. Conforme o exemplo proposto
por Kant, atribuindo-o como tese a Descartes, a razão de ser da transmissão de
luz é a elasticidade dos glóbulos do ar; b) a razão posteriormente determinante
responde à questão “o que” (quod) e designa o conhecimento do
determinado, sua razão de conhecer. Nesse exemplo, são os eclipses dos
satélites de Júpiter que fornecem a razão de conhecer da propagação da luz.
Kant, aceitando a
crítica de Crusius acerca da ambiguidade do termo “suficiente” , observa como
consequência da oposição efetivada que o princípio de razão deve ser, mais
precisamente, dado como “determinante”. Afirmar que uma sentença é verdadeira é
determiná-la, ou seja, excluir o predicado oposto conforme uma razão, seja
anteriormente ou posteriormente determinada. Mas se a razão determinante se
torna a fonte da verdade, isso implica a necessidade de se ter uma razão
anteriormente determinante, pois “afirmar o que de algo implica
investigar o seu porquê” (Razão e História em Kant,
RHK, p. 22).
A intenção da tese de
Kant, porém, é defender a validade do princípio de razão, antes suficiente,
agora determinante. O problema se desdobra então, abrangendo a oscilação entre
determinismo e liberdade. Aceitar o princípio significa afirmar que tudo o que
ocorre está anteriormente determinado, a causa última da série em que consiste
esse mundo sendo Deus. Ora, assim os nossos atos dependem do destino que por
sua vez se deriva de Deus. Vimos que Wolff havia desvinculado necessidade moral
e necessidade física, mantendo, no entanto, a oposição de Leibniz entre o
hipotético e o absoluto. Kant recusa essa solução, pois para ele não pode haver
distinção entre duas espécies de determinação, pelo que algo poderia seria mais
ou menos determinado. Assim, a necessidade moral deve ter completa
determinação, sendo porém de natureza complexa, pois supõe que à determinação que
o entendimento representa se acrescenta uma inclinação da vontade como o nexo
necessário que decide à ação.
Zingano mostra por
esse meio que a argumentação de Kant consiste na manutenção no mesmo plano de
todos os eventos, seja o agir humano, seja os fatos da natureza, de modo que o “a
mais” da ação moral, a inclinação da vontade, a torna apenas algo mais
complexo, mas não diferenciado dos acontecimentos naturais, o que evidencia a
irredutibilidade dessa posição àquela que será a doutrina crítica do kantismo (RHK,
p. 28). Mas Kant já pretende também salvaguardar, pela determinação
completa, a liberdade do agir humano, afugentando a indiferença que incide
sobre a moral desde que se afirme o determinismo. Assim, se Zingano pôde
assimilar essa posição como racionalista, isso se deve a que Kant “assimila” a
razão à causa, o porquê dos seres contingentes a Deus, que determina o seu vir
a ser (RHK, p. 23).
A liberdade do agir
humano se propõe aqui como espontaneidade que se acrescenta à ordem das
coisas, definida nos termos de uma ação que procede de um princípio
interno, uma decisão de agir ou abster-se que se impõe desde que existe
uma relação entre o objeto de inclinação e as representações feitas pelo
entendimento. A razão interna inclinante que se acrescenta à determinação das
coisas é sempre o que conduz à decisão, mesmo que não de modo inteiramente
consciente.
Zingano acentua a
irredutibilidade desse racionalismo kantiano ao âmbito da crítica destacando da
tese apresentada conceitos que deverão ser nominalmente mantidos, mas mostrando
em quê seu valor depende do contexto. Assim, a oposição entre razão de ser e
razão de conhecer, tanto quanto a noção-chave de espontaneidade, que
desempenham funções importantes no cenário da Crítica da razão prática, estão
nesse momento sendo utilizados de um modo não apenas distanciado, mas
efetivamente avesso ao sistema crítico posterior.
Comprovando o
racionalismo dessa fase, Zingano observa que na tese ainda ocorre uma afirmação
de Kant cuja importância deverá ser evidenciada na referência que lhe segue, a
saber, o texto “Der einzig möglich Beweisgrund zu einer Demonstration des
Daseins Gottes (sobre o único argumento possível para a demonstração da
existência de Deus, 1763)”. Essa afirmação incide sobre a impossibilidade de
sustentação da causa sui como de algo que possui a razão de sua própria
existência, pois desde que a noção de causa é anterior à de efeito, a
mesma coisa seria anterior e posterior, o que é absurdo. Na tese, a negação da causa
sui só visa, como corolário, que a existência necessária de alguma coisa
não se deve a uma razão anteriormente determinada, mas sim à impossibilidade do
seu oposto.
Ora, ao examinar o
problema da prova da existência de Deus, Kant começa por negar que se possa,
como o havia proposto Descartes, deduzir analiticamente a existência a partir
de um conceito pensado como possível, isto é, que se possa demonstrar
racionalmente uma existência, o que conduz Bréhier à interpretação de um Kant
anti-racionalista.
Zingano mostra que a
consequência da negação da causa sui se relaciona apenas, é verdade,
enquanto impossibilidade do oposto de um ser, à nossa razão de conhecer tal
ser, mas nesse caso preciso, essa razão é suficiente, não apenas provisória.
Pois o interesse de Kant nesse momento, justamente por não pertencer ao âmbito
crítico, consiste em assegurar a existência necessária obtida através do
conceito de possibilidade, mas sem ter anteriormente nenhuma razão que o
determine, esse ser necessário sendo, inversamente, o que determina todas as
coisas. Assim a oposição entre razão de existir e razão de pensar assegura,
precisamente, a assimilação da razão de existência dos entes contingentes a
essa causa determinante, pois se desdobra na oposição, respectivamente, entre
pôr algo como relativo ao pensado ou pôr absolutamente uma coisa como
existente, aquilo que Heidegger observou como a tese inicial de Kant sobre o
ser. Essas oposições enunciam que pensar é predicar ou atribuir alo
relativamente a um objeto, mas ser é somente a posição absoluta do que existe.
O argumento ontológico que está sendo criticado procede como se o que se
atribui ao meramente pensável devesse se estender ao efetivamente existente.
Kant inverte a prova, mostrando que é preciso antes afirmar a existência para
então poder ser afirmada a possibilidade, ou em outros termos: “para que algo
seja possível, algo necessariamente existe” (RHK, p. 25), a tese sobre o
ser afirmando essa existência absolutamente necessária em geral, atribuída a
Deus como “aquilo cujo contrário é impossível”, conforme o texto kantiano do “argumento”.
A prova remonta,
pois, do possível como consequência à existência de Deus como princípio, o
possível só podendo ser pensado relativamente a um “ser existente, necessário,
simples, imutável, eterno”, conforme a expressão de Bréhier.
O “argumento” se
desenvolve, como mostra Zingano, conceituando a lógica da possibilidade
enquanto relação, segundo o princípio de contradição, de dados a sujeitos de
atribuição. Se não há nada dado, nada há que possa ser relacionado como
possível. O princípio de contradição que preside a possibilidade lógica,
enquanto possibilidade interna de um objeto, pressupõe que algo exista como
dado para se pensar o possível, pois se nada é possível, “ele abole a si”, e
portanto, “é impossível que nada existe, pois não haveria o pensar” (RHK, p.
25). Ora, o que Kant está estabelecendo é que a partir da afirmação de que se
existe algo então deve existir um ser que é sua razão ou essência, não se tem
uma consequência válida, pois não se tendo demonstrado a necessidade da
existência desse algo, sua razão também carece de necessidade. Assim o
argumento kantiano propõe, inversamente, que postular o conceito de existência
absolutamente necessária em geral implica, pela evidência de que seu contrário
é impossível, que burlar essa evidência seria negar toda possibilidade, não
apenas a de uma dada coisa, como o pensar, cuja negação não implica
contradição.
O que se assegura por
esse novo meio é a existência desse ente, causa de todos os entes, e suas atribuições,
listadas por Bréhier, de que Zingano mostra a derivação: Deus é único pois se
não haveria diversas séries sem conexão necessária, é simples, pois se fosse
composto ou teria que ser fundamentado ou iria fundamentar sem ser anterior ao
todo que fundamenta, é imutável e eterno, pois sua não existência é impossível.
Zingano desenvolve a
articulação de uma dessas derivações com um outro texto de Kant, não citado por
Bréhier, Allgemeine Naturgeschichte und Theorie des Himmels. A série
única como efeito, isto é, a natureza, se afirma desde que se tenha garantido a
existência necessária de Deus. Resta assim, ainda, a prova teleológica,
considerada por Kant, se bem que insuficiente, ao menos respeitável, pois
percebendo pela experiência a “ordem entre o ser fundante e a série como efeito”
(RHK,p. 26), pode-se propor o conceito fundamental de um ser absolutamente
necessária por meio da existência de efeitos dessa série. Zingano acentua a
vantagem da prova de Kant, pois ela se afirma como evidenciando a existência
necessária de Deus mas também a conexão necessária desse ser como causa da
ordem de efeitos na série contingente. A natureza é um plano de Deus sem que
seja preciso sua intervenção direta no mundo, a harmonia desdobrando
imperturbavelmente as virtualidades desse plano que inclui a liberdade do ser
humano.
Mecanicismo e a
teologia são assim reconciliados, o que vimos ser uma pretensão corrente na
época. Kant propõe o mundo criado por Deus, por um ato de vontade, mas uma vez
isso feito, o mundo “desdobra as virtualidades nele impressas” (RHK,p. 27).
Vimos já que Kant faz intervir a noção de inclinação da vontade para assegurar
a liberdade no âmbito mesmo desse plano traçado, de modo que o período
pré-crítico se mostra com uma determinação teórica completa, estabelecida em
torno de questões historicamente urgentes como a controvérsia sobre necessidade
ou contingência das leis naturais.
Mas a distinção entre
posição por identidade e posição real, conforme Zingano, traduz o problema que
surge no âmbito de um projeto como esse, o de fundar a existência necessária de
um ente por um novo meio já que partir da atribuição meramente conceitual se
revelou impróprio. A oposição enuncia a problemática implícita na tese sobre o
ser como posição absoluta, pois como se pode compreender “que para que algo
exista, existe outra coisa”(RHK, p. 24) ? Aqui já se está no domínio de “Versuch,
den Begriff der negativen Grössen in die Weltweisheit einzufuhren,
Ensaio para introduzir em filosofia o conceito de quantidade negativa”, 1763),
texto que desenvolve os aportes relacionados ao projeto que Zingano localiza
como pré-crítico, enquanto o momento crítico deverá, inversamente, envolver a
tarefa de mostrar de que modo não mais se precisa dessa hipótese sem perder a
inteligibilidade na investigação sobre o ser das coisas. Assim, o percurso
entre esses dois momentos se assinala como mudança no modo mesmo de pensar o
ser, desde a posição absoluta à postulação de uma relação inevitável com o
entendimento de que procede a forma geral da objetividade.
Já Bréhier localiza
no “Neg. Groessen” a crítica de Kant a Wolff como estando em
continuidade com o projeto anti-racionalista do “argumento”. Agora
trata-se de mostrar que o esforço de Wolff para reduzir o princípio de razão
suficiente ao princípio de contradição, verdades de fato a verdades de razão,
se baseia numa confusão entre dois tipos de oposição: a lógica, que se
estabelece entre um termo e sua negação, e a oposição real, que porta sobre
dois termos igualmente positivos, isto é, dois termos que reciprocamente se
anulam. São os racionalistas, conforme Bréhier, que confundem essas duas
espécies de oposição, como se a asserção de um fato pudesse implicar ou excluir
logicamente a asserção de um outro fato. Assim, a questão enunciada, “como,
porque algo existe, posso compreender que outra coisa venha à existência...?”,
se justifica, sendo só logicamente que podemos, uma vez tendo sido posta a
afirmação, concluir a negação da negação. A questão compreende então a relação
entre dois termos positivos. Noções como causa e efeito, força e ação,
pressupõe de modo equivocado uma relação lógica entre fatos, como se uma noção
pudesse estar implicada pela outra.
Bréhier acentua a
orientação empírica de Kant. Assim, no “Ensaio sobre a evidência dos princípios
da teologia natural e da moral” (1764), afirma-se a irredutibilidade entre
matemática e filosofia, pois aqui só se deve lidar com conceitos dados pela
experiência, frequentemente confusos, vagos, como “liberdade”, enquanto a
matemática lida com definições simples e completas, como o conceito de “um
trilhão”. E como enuncia o “Träume eines Geitessehers, erläutert
durch Träume der Metaphysic, Sonhos de um visionário explicados pelos sonhos da
metafísica “(1766), a alternativa que Kant maneja contra o misticismo supõe
que todo conhecimento deve ser fundado sobre a experiência, o que envolve
noções como causa , força, ação.
A alternativa porta
sobre a metafísica naquilo em que ela ou se limita a afirmações fantásticas ou
torna-se uma ciência dos limites do espírito humano. O metafísico, que fala de
realidades espirituais, está também submetido à alternativa: ou ele tem uma
experiência real do que enuncia ou deve se contentar com a afirmação de que
nada sabe. Ora, essa metafísica é o racionalismo mesmo que só pode ser
fantástico ou crítico, mas ninguém pode afirmar ter experiência de uma ação
espiritual, como a que relaciona a vontade à ação de um músculo, ou mesmo a de
um pensamento independente do corpo.
O “Träume”
critica especialmente Swendenborg por afirmar ter desenvolvido o sentido
íntimo, comum a todos os seres humanos mas ignorados por eles, que assegura o
contato com o mundo dos espíritos. Mas essa crítica de Kant está se estendendo
a toda metafísica espiritualista que relaciona a destinação moral com a teoria
racional da espiritualidade da alma, como se o postulado da eternidade devesse
assegurar a virtude, quando é a alma virtuosa que poderia conceber a hipótese
de um outro mundo, isto é, concebê-la somente pela fé moral, adequada ao ser humano
no seu estado atual.
Bréhier assinala aqui
as influências de Hume e Rousseau sobre Kant, pensadores que o afastam do
racionalismo de Wolff, mas ao mesmo tempo em que localiza esse texto como
estando numa perfeita continuidade com a Crítica da Razão Prática, e deixa
supor o epíteto de racionalista crítico extensível ao projeto kantiano,
prossegue afirmando expressamente o período pré-crítico de Kant como não sendo “de
todo, como se afirma frequentemente, racionalista, mas empirista”, o que se
afigura bastante ambíguo. Em todo caso, Bréhier observa como geral nessa época
o afastamento de Leibniz e de Wolff. Empirismo (Lossius), misticismo (Creuz),
ocasionalismo (Ploucquet), espinozismo (Edelman), são posições que exemplificam
tal afastamento, e onde se verificou, um pouco mais tarde, a recusa do
associacionismo, não foi para voltar a Leibniz, mas para já se expressar em
termos de “síntese de impressões passivas” e “espontaneidade do entendimento”,
como Tetens, já influenciado pelo texto pré-crítico decisivo de Kant, a
dissertação latina “Sobre a forma e os princípios do mundo sensível e
inteligível”, de 1770, em que Bréhier localiza uma mudança de perspectivas
como pivô do criticismo.
Zingano desenvolve o
tema do percurso kantiano entre o pré e a crítica, focalizando o problema do
ato livre, que havia recebido inicialmente a solução pela oposição entre
necessidade externa, que vigora de modo extrínseco sobre as coisas conforme o
plano concebido por Deus, e a necessidade interna “cujo consentimento a agir
depende de uma inclinação”, (RHK, 30) consciente ou não. A fragilidade
da solução inicial conduziu a severo descarte pelo Kant crítico, que a recusou
como “insignificante palavreado” . Mas até a teorização definitiva na Crítica
da Razão Prática, as tentativas de Kant, manifestando influências da escola
inglesa do sentimento moral (Shaftesbury, Hutcheson, Hume) e de Rousseau,
perseguem o mesmo intuito já manifesto naquela oposição, a saber,
impossibilitar o dissolver dos atos humanos “no espaço de um mecanismo natural
independente da consciência que os agentes teriam dele” (RHK, p. 34).
A influência da
teoria inglesa do moral sense se expressa no texto que vimos citado por
Bréhier, “Untersuchung uber die Deutlichkeit der Grundsätze der naturlichen
Theologie und der Moral, Sobre a evidência dos princípios da teologia natural e
da moral” (1764). Zingano assinala que Kant opõe agora o princípio da
moralidade, conceituado em termos do sentimento irredutível do bem, e o
princípio de conhecimento do verdadeiro, que discrimina razões. O sentimento do
bem nem é um predicado das próprias coisas, nem um saber sobre elas, mas
revela-se como relativo apenas a um ser dotado de sensibilidade, como o efeito “da
consciência do sentimento de prazer que acompanha a representação do objeto”,
conforme o texto kantiano.
Reafirma-se, conforme
vimos a propósito do “Träume” observado por Bréhier, a independência do
domínio moral, reservado ao sentimento e à ação, em relação ao âmbito
especulativo, na região do conhecer, o que Kant observa como uma descoberta do
seu tempo, algo que teria sido completamente “ignorado pelos antigos” conforme
ainda o “Nachricht von der Einrichtung seiner Vorlesungen in dem
Winterhalbenjahre”, um “anúncio ao curso de inverno” de 1765/66,
isto é, o projeto de investigar a ação do ser humano de modo irredutível ao
mundo das coisas naturais acessível ao conhecimento, à representação.
O sentimento do bem
no “princípios” é o conteúdo de uma forma geral da moralidade postulada
em termos de perfeição absoluta, a ser repensada no “Beobachtungen uber das
Gefuhl des Shönen und Erhabenen, Observações sobre o sentimento do belo e do
sublime” (1764), no âmbito do que deve ser pressuposto como relacionando os
seres humanos uns com os outros, princípios gerais, não ao modo de regras do
conhecimento, mas sim da consciência do sentimento que todo ser humano possui
como aptidão a ultrapassar as causas particulares de piedade e complacência:
sentimentos de beleza e de dignidade, respectivamente causas de benevolência e
estima.
Zingano situa o
pensamento kantiano desse período como estando a meio entre, por um lado, a
noção de plano secreto da natureza, e por outro a determinação da
irredutibilidade do espaço do agir humano. Ali onde Bréhier só vê continuidade,
Zingano é mais prudente. Inicialmente, como já observamos, ele delimita a
impropriedade de se confundir os conceitos do período pré-crítico, cuja função
se reduz ao contexto, àqueles que serão posteriormente utilizados, seja por uma
aparente analogia, seja por uma reposição terminológica que no entanto não
deixa de revestir a irredutibilidade na sua significação relativa. Apenas o
princípio de razão determinante parece uma exceção, pois Zingano mostra que se
tornará o “fundamento da experiência possível” , isto é, fundamento do
conhecimento objetivo dos fenômenos “naquilo que concerne às suas relações na
série sucessiva do tempo”, conforme o texto da Crítica da Razão Pura. No
entanto, também aqui verificamos que há uma evidente adaptação do conceito a um
âmbito não previsto no seu uso contextual pré-crítico.
Ora, quanto à Razão
Prática, o que mais poderia se aproximar daquilo que será apresentado na fase
crítica é o texto de 1770, onde se revela a influência de Rousseau. Aqui
trata-se de articular a intenção de postular princípios gerais da moralidade
com a noção de Vontade moral, geral, oposta às vontades particulares. A
oposição se propõe entre o particular como o que se volta, enquanto vontade,
somente a si, e o geral como o que se estende a outrem e permite pensar “a
constituição de uma comunidade de agentes” agora “sob o domínio da razão” (RHK,
p. 32). No entanto, Zingano acentua que, se Kant está localizando a
filosofia moral no entendimento puro, discriminando nessa região um uso real
que conhece as coisas e um uso prático como acesso à perfeição moral, a década
que separa esse texto da obra crítica inaugural ocultou inteiramente para Kant
as consequências que deveriam sobrevir na forma de sua filosofia definitiva. E
do mesmo modo, somente à luz do exame da obra crítica se poderá avaliar sobre
sua compatibilidade com a noção de plano secreto da natureza.
Bréhier porém observa
o texto de 1770 como uma espécie de transição à obra crítica, pois aqui é
lançada a oposição capital do kantismo, entre a afecção passiva dos sentidos e
o conceito do entendimento, sendo que se a sensibilidade atinge as coisas como
fenômenos, logo, como afecção, ela se organiza em torno de elementos
universais, necessários, uma estrutura determinada como uma forma ou lei
interna, enquanto o entendimento atinge as coisas como elas são. Esse texto
descobre, portanto, os princípios da Estética transcendental, as formas a
priori da sensibilidade, como tempo e espaço, que deixam de ser, ao modo de
Leibniz, ordem das coisas como sucessivas ou coexistentes, para se tornarem
maneiras pelas quais o ser humano é afetado pelos fenômenos. Mas o sentido
dessa descoberta, como o próprio Bréhier assinala, não se prende à arquitetura
de uma teoria completamente estabelecida, e sim ao quadro antinômico ou
aporético do entrelaçamento problemático da impossibilidade de aplicar
conceitos intelectuais às coisas sensíveis e da contradição implicada na
hipótese dessas coisas serem essencialmente diferentes dos objetos da
inteligência, logo, “do enigma de um mundo que deveria ser um todo e que não
pode sê-lo”.
Assim esses
princípios originam problemas que inspiram os cuidados de Kant durante o
interregno que precede a obra crítica, período de que a correspondência com
Marcos Hertz permanece como testemunha. Que à representação sensível exista o
objeto que lhe corresponda tornou-se compreensível pelo a priori da
Estética, mas como um objeto pode corresponder a um conceito do entendimento,
ou seja, como podemos postular a existência real de substâncias, causas, e
demais noções puramente especulativas que, no entanto, fornecem leis aos
objetos da experiência? Não se pode resolver a questão por meio da intervenção
de um ser superior que sabiamente tenha implantado em nós tais conceitos ou
princípios, pois isso seria, conforme o texto de uma das cartas, “subverter a
filosofia” (1772).
Zingano salienta que
Kant sempre insistiu na impossibilidade de reduzir o ser à razão, isto é, no
estatuto de manifestação experimental, mas se no período pré-crítico o conceito
de experiência exclui o que não se conforma a suas regras experimentais
estreitas, o texto de 1770 repensa esse conceito no sentido de encontrar algo
que lhe seja prévio. O que, para Béhier, se propõe como a questão que origina a
revolução crítica.
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A unidade das
Críticas poderia ser proposta como projeto epistêmico, se não mais geralmente o
de uma antropologia, se considerarmos que através da fragmentação dos títulos,
das obras, dos interesses, elas são sempre relativas a uma noção central no
kantismo, a Razão, definida como uma faculdade de agenciar, por meios oblíquos,
rodeios e astúcias, os fins que são apenas seus, irredutíveis aos da natureza.
Assim, um meio para compreender a sistematização que cada um dos textos
críticos elabora, é procurar o modo pelo qual os vários elementos específicos
se reúnem em cada caso para realizar os fins da razão conforme um ponto de
vista unitário que é ele mesmo proposto como transcendental. É a partir desse
conceito de unidade que se pode também localizar o empreendimento demonstrativo
de Kant.
Na Kritik der
reinen Vernunft (Crítica da Razão Pura) a estrutura da objetividade depende
da conexão da sensibilidade e do entendimento. O que se torna importante aqui é
a convergência entre conhecer e pensar, o que insere o conhecimento numa ação
mais geral de julgar. Assim temos, por um lado, a unidade da razão como
atividade transcendental que a cada vez harmoniza e utiliza todas as
faculdades, mas por outro, a unidade da subjetividade que se constitui
simetricamente à estrutura da objetividade constituída pela síntese do
conhecer, pela natureza sintética do pensamento em geral.
As séries sensível e
inteligível se produzem como atividades de formalização, de que a análise
permite reconstruir os meios: Tempo e Espaço, como formas a priori do sensível,
as Categorias como conceitos a priori do entendimento: unidade,
pluralidade, realidade, limitação, substância, causa, comunidade,
possibilidade, existência e necessidade. A exposição concernente às formas da
sensibilidade perfazem o âmbito da Estética transcendental, a que se relaciona
aos conceitos do entendimento implementam a Analítica.
Entre sensibilidade e
entendimento, a imaginação intervém como capacidade de esquematizar essas
relações espácio-temporais que realizam as relações conceituais, conforme
Deleuze, fornecendo o meio pelo qual o entendimento pode julgar com seus
conceitos sobre toda a diversidade do dado. O esquema é definido por Bréhier
como a regra pela qual são construídas as imagens correspondentes a um conceito.
Utilizando o texto
deleuziano (la philosophie critique de Kant), do ponto de vista do
conhecimento temos uma faculdade receptiva e três ativas, conforme o sentido do
termo “faculdade” pelo que se designa uma fonte específica de representações,
havendo tantas faculdades quanto há tipos de representação. A sensibilidade
intuitiva é uma faculdade de recepção, as faculdades ativas sendo a imaginação,
o entendimento e a razão.
Até aqui garantiu-se
a cientificidade da matemática e da física. No entanto, resta o problema da
pretensão metafísica, já que no seu âmbito lida-se com certas noções nem
inteiramente determináveis pela experiência, nem, historicamente, destinando-se
apenas a desenhar os seus contornos. O âmbito temático envolve agora a
dialética transcendental, onde se trata da intervenção da razão como uma
aptidão a formar Idéias “transcendentes”, como que desbordando os limites do
fenomênico: o Eu, o Mundo e Deus, mais as noções que se engendram na
proximidade desses núcleos, como Liberdade. Kant vai mostrar que essas idéias
podem portar um uso teórico ilegítimo, ou podem encontrar uma aplicação
ulterior no domínio prático
Limitando-nos por ora
ao âmbito teórico, Deleuze sublinha aqui a originalidade do kantismo em relação
ao racionalismo e ao empirismo. Enquanto ambos afirmam uma simples diferença de
grau, de clareza conforme o dogmatismo racionalista, de vivacidade por relação
à sensibilidade conforme o empirismo, Kant está opondo por natureza
sensibilidade e entendimento, um como faculdade de intuição, outro como
faculdade de conceitos.
Ora, entre o passivo
e o ativo não basta o esquematismo da imaginação aplicando-se a priori
às formas da sensibilidade conforme o conceito do entendimento. Para resolver o
problema desse hiato, já que Kant substituiu a idéia de uma harmonia
pré-estabelecida entre o sujeito e o objeto por uma submissão necessária do
objeto ao sujeito, intervém a noção de senso comum que não designa um “senso”
como uma “faculdade” particular, mas um acordo a priori entre as
faculdades, seja entre as ativas, seja entre elas e a receptiva. Senso comum
lógico sob a forma especulativa, isto é, quando expressando a harmonia das
faculdades no interesse especulativo da razão, aí onde a que preside é o
entendimento que legisla sobre os fenômenos do ponto de vista da forma,
subsumindo-os formalmente à unidade da síntese. Senso comum moral sob a forma
prática, quando é a razão mesma que legisla.
Assim podemos
compreender que no domínio teórico as Idéias da razão não encontram uma
aplicação por si, pertencendo o papel determinante ao entendimento que regula a
aplicação do conhecer à experiência, mas no âmbito prático, sendo a razão mesma
que legisla, suas idéias devem recuperar uma aplicação legítima. No entanto,
mesmo no âmbito teórico, a dialética como domínio do uso ilegitimo ou ilusório
das idéias da razão, se deixa ultrapassar pelo uso regulador dessas idéias,
fornecendo aos conceitos do entendimento um horizonte como máximo de unidade
sistemática, o que porém só se poderá compreender mais amplamente no
desenvolvimento da Critik der Urteilskraft (Crítica do Juízo), por se
reportar ao problema da finalidade.
No terreno da Crítica
da Razão Pura, se o senso comum se afirma apenas como um acordo, ainda que a
priori, ele semelha mais uma convergência do múltiplo do que a
especificidade de algo uno. A unidade da consciência aí se compreende melhor
como garantida pelo Eu Penso, que se constitui através de todas as
representações. Assim, a unidade mesma se propõe como transcendental. Como
enfatiza Bréhier, encena-se desse modo a demonstração da necessidade das
sínteses, o que constitui a epistemologia do kantismo enquanto destinando-se a
preencher o hiato entre o a priori analítico e o a posteriori empírico,
com o intuito de fundar o conhecimento como enunciação sintética a priori,
isto é, universal e necessária, fornecendo-se à razão não apenas um uso lógico,
mas um uso real.
A demonstração se
efetiva, pois desde que se põe ao espírito o diverso da intuição, a unidade do Eu
Penso exerce, por necessidade lógica, a construção da realidade objetiva. O
Eu Penso só se recupera na ligação universal e necessária que se
verifica na sucessão de representações, não por si mesmo em cada uma das
representações isoladas. Mas a cada representação tomada isoladamente há também
uma ligação que é função do julgamento transcendental, consistindo na subsunção
do objeto da intuição como caso particular do conceito, isto é, atuando na
relação de sensível e inteligível.
A unidade do Eu
penso realiza a síntese do múltiplo através das categorias, mas se ela
permanece transcendental, não deve ser subsumida à experiência, portanto não se
o deve confundir com o Eu empírico, de que temos a experiência como
sentido íntimo e que se deve à forma do tempo, definida como forma do sentido
interno enquanto a do espaço designa a do sentido externo.
Retornando ao texto
deleuziano, o significado mais costumeiramente associado ao termo “faculdade”
na filosofia de Kant, e que não se confunde com o que Deleuze havia assinalado
anteriormente, é aquele pelo que se designam as múltiplas relações de uma
representação em geral, um vez que toda representação sempre está em relação a
alguma coisa, objeto ou sujeito. Assim, nesse sentido, temos três faculdades
que se distinguem conforme os tipos de relação: faculdade de conhecer, em que a
representação se relaciona ao objeto do ponto de vista do acordo ou da
conformidade; faculdade de desejar, que é a de ser, por suas representações,
causa da realidade dos objetos dessas representações; e faculdade de sentir ou
de ser afetado pelo prazer ou pelo desprazer, na qual a relação da
representação com o sujeito é o efeito que ela exerce sobre ele. Cada faculdade
se eleva a um tipo de forma superior, quando encontra em si mesma as leis de
seu próprio exercício.
Visando a faculdade
de conhecer no seu aspecto superior, a localizamos não apenas sendo determinada
pelas leis da experiência, mas determinando o objeto como a que se atribui,
sinteticamente e a priori, propriedades não previamente constantes na
representação. Aquilo que corresponde à forma superior de cada faculdade e que
a torna autônoma, seu exercício conforme sua própria lei, é o que define
também o interesse da razão por poder assim se tomar a si mesma como
finalidade. A razão possui “naturalmente” um interesse especulativo que
experimenta por objetos que se subsumem à faculdade superior de conhecer, isto
é, por fenômenos, não por coisas em si, mas como o conhecimento a priori
é o mesmo que conhecimento racional, os julgamentos sintéticos a priori são
também princípios das chamadas “ciências teoréticas” da razão, matemática,
física pura e metafísica.
O fundamental aqui é
observar que essa teorização do conhecimento não se compreende apenas pela
intervenção “espetacular” da invenção conceitual de Kant, os juízos sintéticos a
priori. A faculdade de conhecer envolve também um outro tipo de juízo, o
determinante, pelo qual o universal, a categoria, é determinado no particular
ao qual se aplica. E do mesmo modo, no âmbito prático, é pelo juízo
determinante que se pode resolver se um ato é ou não conforme
à lei moral. Esse
outro tipo de ajuizamento não pertence porém nem ao âmbito teórico nem ao
prático. Ele resulta de um exercício da razão, é verdade, mas a cada vez supõe
já o conceito dado, seja do entendimento no âmbito teórico, seja da razão no
âmbito prático. Supõe, portanto, um acordo determinado entre as faculdades, sob
a dominância de alguma delas, conforme o caso, podendo assim determinar um
objeto conforme à faculdade que se põe como legisladora. Então a questão que se
deriva daqui é a que reporta esse acordo determinado à suposição de um acordo
livre e indeterminado, isto é, com uma função do acordo em geral, que não se
confunde nem com o âmbito propriamente teórico, nem com o prático.
Reencontramos portanto
o problema da unidade entre as críticas. A noção de senso comum tal como
apresentada até agora não parece suficiente para resolver o problema da relação
entre as faculdades, de modo que só se manifesta sua adequada colocação como a
questão de enunciar a conceituação desse acordo livre e indeterminado, função
que pertence ao senso comum estético, suposto para qualquer acordo determinado
que esteja já na ambiência de um interesse definido, de uma faculdade
específica como legisladora. Somente assim se pode colocar o problema da gênese
do senso comum ou do fundamento do acordo em geral: não só acordo entre as
faculdades mas também entre o exercício destas e a natureza mesma.
Estamos no âmbito do
julgamento, que não se deixa reduzir nem ao domínio prático, nem ao teórico.
Deleuze indaga sobre a pertinência do termo “faculdade”, nesse caso. Podemos
utilizar no sentido preciso de um “dom” ou “arte” específicos, não conforme os
significados que lhe vêm sendo associados, pois o julgamento não consiste numa
só faculdade, e sim no acordo entre elas, seja aquele já determinado por alguma
como dominante ou legisladora, seja aquele livre e indeterminado que constitui
o objeto de uma “crítica” do juízo em geral.
Assim, repondo o que
vimos, temos três tipos de julgamento: o juízo determinante que porta sobre o
acordo determinado, relacionando o objeto conforme essa determinação seja em
proveito do interesse prático ou teórico da razão. Os juízos reflexos portam
sobre o acordo livre e indeterminado entre as faculdades e podem ser estéticos
ou teleológicos. Em geral o julgamento é o que legisla sobre a faculdade de
sentir, quando se a toma sob sua forma superior.
Na Crítica do Juízo
trata-se de conceituar o que pode ser essa forma superior do sentimento. Nem a
sensação nem o contentamento poderiam preencher a determinação a priori de
um estado do sujeito como prazer ou desprazer, pois nesse caso teríamos,
respectivamente, ou o conhecimento apenas empírico ou a dependência ao desejar,
daquilo que produz o sentimento. Para ser designada como superior, ou seja,
tendo que encontrar apenas em si mesma suas leis, a faculdade de sentir não
pode se prender a um interesse, que teria então que ser teórico ou prático. A
forma superior da faculdade de sentir, a forma superior do prazer, só podendo
se afirmar como desinteressada, se produz como o efeito de uma
representação sobre o Eu, como expressão de um julgamento puro, de uma pura
operação de julgar. Ou seja, o objeto da Crítica do Juízo não será o
tipo de julgamento determinante, mas os juízos reflexos
Assim, quando se
afirma que “isso é belo”, é precisamente o caso desse tipo de operação, que
incide não sobre a existência material do objeto representado, e sim da
representação de uma pura forma de objeto. Ressalta aqui o papel da imaginação.
Forma significa reflexão de um objeto singular na imaginação. O esquematismo,
como ato da imaginação, permanece determinado conforme o conceito do
entendimento. No entanto, ao refletir a forma do objeto, ela se torna de algum
modo livre, imaginação produtiva, espontaneidade como causa de formas
arbitrárias de intuições possíveis.
Se a faculdade de
sentir só se torna superior quando não depende nem do interesse especulativo
nem do prático, isto é, quando a objetividade do julgamento estético é somente
o prazer e o que nele há de universal e necessário não depende de um conceito
determinado mas é sem conceito ou puramente subjetivo, esse prazer derivado da
operação de julgar porta sobre algo que supomos comunicável e válido. Isso que
sentimos como prazer incide sobre a relação da liberdade da imaginação que se
exerce, contudo, em perfeito acordo com o entendimento, uma vez que por esse
meio são fornecidas as formas da intuição sensível sem prejuízo da
espontaneidade de sua formação nem das leis que regem a possibilidade da
experiência. Essa relação de imaginação e entendimento se faz como acordo livre
e indeterminado entre faculdades, agora como senso comum estético, o gosto.
É o fato desse senso
ser comum que transmite a impressão de uma comunicabilidade do sentimento,
fundada assim sobre a idéia de um acordo subjetivo de faculdades, nem mesmo uma
faculdade ela mesma, mas tão somente uma pura harmonia subjetiva onde
imaginação e entendimento se exercem em sua espontaneidade. Ele não se põe como
uma forma a mais de senso comum, como que por sobre aqueles operados pela
determinação de um interesse, mas ele os funda ou torna possíveis, na medida em
que uma faculdade só pode absorver um papel legislador ou determinante se todas
as faculdades, conjuntamente, podem ser capazes dessa livre harmonia subjetiva.
Harmonia
experimentada entre imaginação e entendimento, no caso do julgamento do belo,
mas também entre imaginação e razão, no caso do julgamento do sublime. O prazer
do belo é sentido como a atividade de uma reflexão formal. O sentimento do
sublime se experimenta perante o informe ou o disforme, a imensidade ou a
potência, aquilo que ultrapassa o limite da imaginação que normalmente apreende
sucessivamente as partes e compreende de modo máximo e simultâneo as
totalizações, mas encontra a insuficiência de toda tentativa de totalização na
imensidade que a razão força a reunir como caráter do mundo, da Natureza. É de
modo negativo que o acordo impera agora, pois a imaginação, perante seus
próprios limites, é forçada a fornecer uma abstração, a presentação do
infinito, e então, por esse meio forçado, o que ela experimenta é o
esvanecimento dos limites, algo que amplia a alma, sentida como unidade
supra-sensível indeterminada de todas as faculdades, seu núcleo ou ponto de
concentração.
Esse acordo não é
apenas presumido, mas engendrado pelo desacordo inicial de imaginação -razão,
assimetria ou desnível, acordo que se faz, portanto, posterior, e que se
tornará garantia final de uma destinação do humano. Ora, também é assim em
relação ao belo, pois se aqui o julgamento deve ser desinteressado, nada impede
que lhe seja unido um interesse concernindo à sua produção na natureza, isto é,
àquilo que nela se compreende como matéria utilizada na produção dos objetos
capazes de se refletir formalmente e de modo espontâneo pela imaginação. Esse
interesse se define como racional, sendo experimentado relativamente ao acordo
das produções da natureza com nosso prazer desinteressado, definindo-se
portanto como acordo contingente da natureza com as nossas faculdades.
As livres matérias da
natureza, as cores e os sons, são indiretamente representadas pela razão como
Idéias produzidas, o que se designa simbolismo. O branco e a forma do
lírio se tornam símbolo de pureza ou inocência, mas assim o acordo da
imaginação e do entendimento se faz por um outro nível, liberando ambas as
faculdades de seu mútuo constrangimento esquemático, a forma agora sendo
refletida livremente, o entendimento podendo também ser alargado de modo ilimitado,
o acordo se tornando animado, vivificado, engendrado no interesse do belo. O
belo na natureza se torna símbolo do bem.
A natureza sensível
simboliza idéias da razão, permitindo ao entendimento também se alargar, à
imaginação se liberar, o interesse do belo testemunhando uma unidade
supra-sensível de todas as faculdades como ponto de concentração de que
decorrem seu livre acordo formal, sua harmonia subjetiva, o mais profundo da
alma.
O gênio pode ser
definido como aptidão a formar idéias estéticas, processo que se assemelha ao
simbolismo, mas que em vez de presumir indiretamente a idéia na natureza,
expressa na criação imaginativa do artista os símbolos de uma “segunda”
natureza, cujos fenômenos são verdadeiros acontecimentos espirituais, o gênio
podendo fornecer por esse meio a “matéria” que anima o gosto, por esse outro
meio também ampliando-se o entendimento e liberando-se a imaginação.
Deleuze localiza o
romantismo kantiano nas páginas da Crítica do Juízo que se desenvolvem
em torno do interesse do belo e do gênio, isto é, em certos parágrafos
constitutivos da “dedução dos juízos estéticos puros”, o que ele
conceitua como uma meta-estética material do gosto (cores e sons) ,
sobrepondo-se à estética formal (linha e composição). Mas assim a
sobreposição também se supõe como um “equilíbrio complexo” entre classicismo,
na proximidade do formal, e romantismo, já envolvendo o material.
É preciso aprofundar
essa apresentação do julgamento como implicando sempre as várias faculdades e
expressando seu acordo. O papel importante agora deve caber à Reflexão,
como atividade que pertence à imaginação, mas que só incide sobre o objeto de
modo determinado, para que os conceitos assim acessíveis ao entendimento sejam
conformes às Idéias da Razão. Ora, vimos que no interesse especulativo essas
idéias não possuem verdadeiramente um objeto. No entanto, elas conferem aos
conceitos um máximo de unidade sistemática, o que se põe como a concepção de
uma unidade final das coisas, ou seja, o que subsume um conceito de fim natural
apto a fornecer uma unidade aos fenômenos do ponto de vista de sua matéria ou
de sua particularidade, uma unidade do múltiplo sempre suposta como conciliável
com a diversidade das leis empíricas particulares.
Mas se esse conceito
de fim natural está se construindo na região do especulativo, sabemos que a
razão não pode ser aqui legisladora. No entanto, quanto a isso especialmente, o
entendimento também não o pode ser, já que ele legisla sobre fenômenos apenas
enquanto considerados na forma de sua intuição, seus atos legislativos, as
categorias, constituindo as leis gerais e se exercendo sobre a natureza como
objeto de experiência possível, por exemplo, conforme o que toda mudança tem
uma causa, etc. Mas o entendimento não pode determinar a priori a matéria
dos fenômenos, o detalhe da experiência real ou as leis particulares desse ou
daquele objeto, o que só podemos conhecer pela experiência, permanecendo
contingente. Resta o problema da unidade dessas leis empíricas, isto é, do
ponto de vista de sua particularidade.
O conceito de fim
natural não se confunde, portanto, com as Idéias racionais cujo uso
especulativo é puramente regulador. Com efeito, ele é um conceito de reflexão
derivado dessas idéias reguladores, e permite a reflexão sobre a Natureza do
ponto de vista de suas leis empíricas. Trata-se, nesse conceito, do segundo
tipo de juízo reflexo, o teleológico.
A relação que se põe
quase que naturalmente aqui é com a teologia. Por um lado, Deleuze mostra como
Kant impõe à noção dogmática do entendimento infinito uma transformação
profunda, pois essa noção implica algo como um entendimento arquétipo,
intuitivo, que seria, com relação à finalidade natural, o princípio ou o
substrato, pois nele a representação do todo seria ao mesmo tempo causa do todo,
o que permite defini-lo como causa suprema inteligente e intencional.
Essa noção de
arquétipo já havia se desenvolvido no kantismo na ambiência da Razão Prática. A
noção envolve sempre um tipo de causalidade. Assim o mundo supra-sensível, que
é o dos seres racionais, é aí conceituado como arquétipo, o mundo sensível, o
da natureza fenomênica, sendo o éctipo que contém o efeito possível da idéia do
primeiro. A relação entre as duas naturezas conceituava assim o problema da
realização ética, pois tratava-se de negar o indiferentismo moral de modo a
afirmar a exigência da realização da natureza supra-sensível no mundo sensível
mesmo, evidenciando-se que é no mundo dos fenômenos que se manifestam os
efeitos das decisões e atitudes dos seres humanos enquanto agentes racionais de
uma moralidade suposta, contudo, no terreno irredutível da racionalidade, como
sendo aquele da lei moral.
Agora na região do
Julgamento, o arquétipo, enquanto caráter de um entendimento conceituável,
também manifesta uma dependência como efeito, e aqui o sentido transformador
apontado por Deleuze, pois tudo o que ele expressa é a impotência do nosso
próprio entendimento, o limite ou impossibilidade que porta sobre a capacidade
de determinar, nós mesmos, o particular. Mas impotência dupla, pois também não
podemos não julgar conforme a imaginação de uma causa agindo por intenção, isto
é, não supor uma causalidade intencional. Somos como que forçados a determinar
Deus como causa intencional agindo à maneira de um entendimento, de modo que é
da teleologia natural que se deve conduzir a uma teologia física, não o
inverso.
Não deduzimos da
natureza fins que seriam os intencionais, relativos a Deus, mas já visamos
sistematicamente a natureza como comportando fins, e por isso, a ela ajuntamos
a idéia de uma causa intencional, Deus, como meio de sua compreensão,
refletindo sobre a unidade final que a experiência comunica no âmbito mesmo da
multiplicidade, por analogia com a causalidade natural que liga sinteticamente
os fenômenos tomados isoladamente.
Creio ser lícito
localizar aqui um tema epistemológico importante, relacionado à tese de
Foucault. Pois eis, no kantismo, o melhor dos meios para enunciar o novo
ambiente do determinismo laplaceano. Não mais se está no domínio ingênuo do
classicismo de um Descartes, onde a produção de saber se poderia compreender
numa unidade, como totalidade de enunciados que, no conjunto, deveriam dispor o
ordenamento da natureza “sabiamente” estabelecida, de modo que nada mais
razoável que supor uma dedução teológica desse propósito desde que se houvessem
recuperado seus elementos. No entanto, na transição ao século XIX, o que se
verifica é o panorama de um saber engajado na via de uma fragmentação nem
projetada nem evitável, na corrente vertiginosa da proliferação de meios e
acessos.
Mas esse terreno
fragmentado não deixou de oferecer a invariante de uma universalidade que,
longe de se restringir, só fez ampliar seu espaço de influência. Assim, como
Kant soube expor, havia por um lado a multiplicação de domínios, por outro o de
legitimidades. O que o kantismo “resolve” é a convergência desses fatores,
mantendo as premissas da irredutibilidade dessa fragmentação, trazendo à frente
da cena o que ela paradoxalmente evidenciou como o assegurar do universal no
âmbito mesmo do fenomênico, resultando assim algo de extremamente importante, a
autonomia da razão como domínio assegurado do humano, o que prefigura o desenho
de um território epistemológico em que se legitimizam as ciências “do homem”,
território que se tornou assim o de uma “analítica da finitude”, conforme a
expressão de Foucault, já que, se são agora os seres humanos os legisladores,
jamais o exercício das faculdades se abstrai do fato de uma razão finita,
propriedade de seres finitos, como mostra Deleuze ressaltando a originalidade
da doutrina das faculdades em Kant.
Assim, conforme
Deleuze, o dogmatismo afirmava uma harmonia entre o sujeito e o objeto,
invocando Deus, sujeito de faculdades infinitas, para garantir essa harmonia.
As duas críticas, a pura e a prática, asseguram a “revolução” do kantismo, pois
substituem o dogmatismo pela finitude da razão humana que, no entanto, garante
plenamente a submissão do objeto ao sujeito. Ora, poder-se-ia indagar se a Crítica
do Juízo não se mostra como uma “volta” da idéia de harmonia ou finalidade.
Isso não ocorre, conforme Deleuze, já que o essencial não se põe na duplicidade
da finalidade, subjetiva ou final, entre as faculdades, objetiva ou
contingente, entre estas e a natureza, mas sim no fato de que a Crítica do
Juízo fornece uma teoria igualmente revolucionária da finalidade,
correspondendo ao ponto de vista transcendental e conciliando-se com a idéia de
legislação, já que a finalidade agora não deriva de um princípio teológico,
inversamente, sendo a teologia um fundamento “final” ele mesmo humano, seja
como acordo de uma gênese particular, no interesse especulativo, seja, como
deveremos observar mais detidamente, como relação da Natureza e do ser humano
enquanto resultado de uma atividade prática deste último.
Conforme Deleuze,
podemos ver então que os dois tipos de juízos reflexos, o estético e o
teleológico, se relacionam ao acordo da natureza com as nossas faculdades. Mas
no caso dos juízos estéticos, é a finalidade interna da relação entre nossas
faculdades subjetivas, sua livre harmonia, que se manifesta como interesse pela
aptidão material da natureza em produzir o belo. O acordo aqui permanece
externo, como que predisposto por nós mesmos, não pelo mundo, a finalidade
sendo suposta como o objeto de uma representação estética, subjetiva. Mas essa
manifestação do acordo livre entre as faculdades, como vimos, reportando-se a
um interesse especial pelo belo, envolve a predestinação do ser racional como
ser moral, introduzindo o acontecimento da lei moral ou a supremacia do
interesse prático.
Quando se trata de
juízos teleológicos, contudo, a finalidade é objetiva, material, implicando
fins. O conceito de fim natural expressa empiricamente a unidade final das
coisas em função de sua multiplicidade mesma. É a reflexão que muda de sentido,
pois não se conceitua agora como reflexão formal do objeto sem conceito, mas
conceito de reflexão pelo qual refletimos sobre a matéria do objeto. É nesse
conceito de reflexão que nossas faculdades se exercem livre e harmoniosamente,
restando porém esse acordo entre faculdades inserido no acordo da natureza com
essas faculdades. Se os juízos reflexos estéticos só se compreendem na pureza
do julgamento, os juízos reflexos teleológicos permanecem plenamente no domínio
da faculdade de conhecer, se bem que mantendo-se a independência do
julgar-sentir em relação ao conceituar-entender, de modo algum supondo-se o
julgamento teleológico como um princípio a priori particular, já que, se
o conceito de fim natural é objeto de “representação lógica”, vimos que o
entendimento abandona nesse ponto suas pretenções legisladoras, não porém sem
que isso deixe de estar conforme o interesse especulativo. O prazer derivado do
julgamento teleológico se experimenta como impressão de uma natureza submetida
à faculdade de conhecer, em completo acordo com nossas faculdades subjetivas,
expressando menos um estado superior da faculdade de sentir do que o efeito da
faculdade de conhecer sobre a faculdade de sentir.
Mas até aqui o
conceito de uma causa criadora inteligente só se justifica do ponto de vista da
possibilidade das coisas existentes. A aplicação do conceito de finalidade
natural, não mais a fenômenos quaisquer ou à liberação de formas belas, mas a
seres organizados, a organismos, conduz à idéia da natureza inteira como um
sistema conforme à regra de fins, à idéia das relações entre esses seres como
devendo cobrir o conjunto do universo. Se a natureza só pode formar um sistema
assim em função de um fim último, é evidente que nenhum ser organizado pode
constituir um tal fim, nem mesmo o ser humano enquanto espécie animal. O
conceito de de finalidade natural será ultrapassado pelo de fim terminal, pois
agora o que ele enuncia é a necessidade não apenas de um fundamento de
possibilidade, mas aquele de uma razão de existir, como o que pertence a um ser
que possui em si sua razão de existência.
Ora, somente o ser
humano, enquanto ser racional, pode se conceder o conceito de fins, nessa
acepção de encontrar em sua existência mesma os seus objetivos. No entanto, conceituar
essa auto-atribuição não parece de modo algum algo fácil, pois se a situarmos
na capacidade de conhecer, resta a subsunção à experiência, ao fenomênico, e se
a localizarmos na procura da felicidade, o resultado seria o mesmo, já que a
felicidade depende de circunstâncias exteriores. A resposta é que o ser humano
poderia ser concebido como fim terminal apenas como ser moral. Compreender em
que a moralidade se está conceituando de modo perfeitamente livre, sem nenhuma
dependência circunstancial, já é algo que pertence ao âmbito prático, aí onde
reencontraremos o tema da História.
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Para introduzir o
tema da razão prática em Kant, penso que se poderia repor o exemplo que Deleuze
apresentou a propósito da liberdade em Leibniz, ligeiramente adaptado: alguém
que deseja superar a compulsão ao álcool se encontra à frente de todos os
objetos de uso da bebida. Lá estão as garrafas, os copos, a taberna. Sua
capacidade de entendimento, isto é, sua faculdade de conhecer, poderia abranger
quase uma infinidade de itens na designação dessas coisas associadas à ação de
beber. No entanto, ele precisa optar se adentra a taberna, ou não. Precisa
escolher se usa o copo, a garrafa, ou se abstém. Por mais que sua capacidade de
compreensão objetiva acerca do mundo pudesse se estender, ela jamais alcançaria
esse “objeto”. Onde se encontra “a” decisão?
Podemos sentir que
mesmo o conhecimento acerca das consequências físicas da ingestão da bebida
alcoólica não encerra o elemento de decisão. Assim, encontramo-nos aqui perante
o “abismo imenso”, conforme a expressão de Kant, entre o conhecimento e a
decisão da vontade. Essa irredutibilidade pode ser enfatizada também pelo modo
mesmo pelo qual, do ponto de vista puramente especulativo, a questão assim
apresentada não oferece uma determinação qualquer, restando aporética.
Lembrando o uso do exemplo em Leibniz, poder-se-ia ver aqui uma inclinação da
vontade, como liberdade, sem que isso se interpusesse no caminho de uma
validação da destinação do mundo como possível já escolhido por Deus, de modo
que essa “liberdade” é relativa ao agente, mas não acarreta uma real
divergência de resultados no plano dos fenômenos.
Vimos que Hume havia
já estabelecido o fato dessa irredutibilidade dos princípios da ação em relação
àqueles do conhecimento. Trata-se então, uma vez assim localizado o problema,
de encontrar o elemento de determinação dessa esfera autônoma que compreende os
atos humanos e a inclinação da vontade. O conceito procurado deve enunciar
portanto o fato básico dessa inclinação. Hume conceituou esse elemento em
termos de paixão, regida por princípios cujo fato básico se designa como a
oscilação entre o prazer e a dor, a preferência do prazer, a fuga da dor.
Compreende-se a tarefa do conceito. Ele deve não apenas nomear um tipo novo de
causalidade, por relação àquela que rege os fenômenos, mas também dar conta de
sua irredutibilidade mesma. Assim o conceito de impressões subjetivas, do
prazer e do seu inverso, mostra que o seu correlato humano– procuramos o
prazer e fugimos da dor– não está contido nem jamais se encontrará no prazer ou
na dor, mas apenas naquele que sente e elege o que é o seu bem ou mal.
Consequentemente a essência da ação está no vínculo meio-fim, mas agora essa
causalidade já não se comporta como simples vínculo causal, já se transformou
em utilidade.
Vimos tudo isso ao
examinar a filosofia de Hume, especialmente conforme o estudo de Deleuze (Empirismo
e Subjetividade). Assim podemos sublinhar o que permanece, no kantismo,
dessa colocação da questão por Hume: a irredutibilidade do interesse prático,
uma causalidade autônoma governando a esfera da vontade, a necessidade de
conceituar o elemento básico que rege essa causalidade autônoma, por fim a
subsunção de todos os processos humanos ao interesse prático, o que implica a necessidade
de uma reordenação epistemológica profunda, na vizinhança da qual podemos
localizar a emergência de uma cientificidade “do homem”.
Também Zingano
observou que o confronto Hume-Kant aqui é inevitável. Ele o situa, porém, em
nível da mais clara das oposições de que sobrevém as consequências: a) da
tentativa de reduzir a problemática tratada por um autor ao confronto com outro
autor; e b) da determinação da proposta metodológica de Kant naquilo que ela
mostra sua irredutibilidade a esse confronto específico com Hume.
Com relação a “a” o
problema envolve a limitação que se manifesta quando se tenta esclarecer noções
fundamentais num contexto filosófico a partir de seu uso em outro contexto, mas
também aquela que cerca o empreendimento de, no final, tentar mostrar que a
oposição não era tão decisiva assim. Quanto a “b”, Zingano mostra que a
proposta metodológica de Kant envolve a “suposição básica de uma crítica da
razão consigo mesma”. (RHK, 36).
Ora, se o fato de que
por esse meio já se ilumina de todo a oposição Hume-Kant como aquela entre a
condução do problema da irredutibilidade da esfera moral em termos respectivos
de paixão ou de razão, parece bem nitidamente designado, repõe-se o cuidado
sugerido já que mesmo considerando a relatividade histórica na qual se
desenvolve qualquer doutrina filosófica, o que inclui a razão prática do
kantismo, a proposta de Kant não se deixa reduzir a essa pura antinomia
paixão-razão mesmo nisso pelo que deverá ser julgada no horizonte da
atualidade, essa ambiência do hoje em que tudo parece estar sob o domínio do
relativo, do passional, Zingano utilizando “o refrão segundo o qual ninguém
salta além de sua sombra”,(RHK, 37). O que me parece bastante adequado à
nossa época, o ser humano -demasiado humano – tendo-se tornado justamente um
viandante inseparável de sua sombra – época cuja compreensão não se faz,
portanto, sem a inevitabilidade do pensamento de Nietzche.
No entanto, não seria
essa atualidade também, como propõe Zingano, o campo de uma terapêutica do
kantismo, naquilo em que ela poderia curar nossa “recusa a pensar com consequência”?
Em todo caso temos
assim a recolocação do problema por Kant. A irredutibilidade da esfera prática
é um fato mas ele não implica que essa esfera não possa ser racional. Antes de
decidir que ela não o pode ser, não seria preciso perguntar se ela pode? Não se
deveria indagar se a razão pura pode ser prática?
Mas devemos nos deter
um pouco mais sobre a contextualização histórica do kantismo. Pois há também um
outro motivo que concorre aqui. Vimos na fase pré-crítica, conforme Zingano,
que Kant havia retido da filosofia moral inglesa, isto é, também de Hume, a
irredutibilidade do sentimento do bem. Nessa época Kant compreendeu o
sentimento de prazer que acompanha a representação do objeto como o conteúdo de
uma forma geral vazia designada como a máxima perfeição ou fim absoluto da
ação, encontrando assim o princípio da moralidade. No entanto, a provisoriedade
dessa solução havia sido localizada desde a leitura de Rousseau, pois agora
evidenciava-se a necessidade do geral na vontade moral, isto é, para Kant
tornava-se claro que o problema não poderia ser conduzido sem que se pensasse “a
constituição de uma comunidade de agentes, só que, desta vez, sob o domínio da
razão” (RHK, 32).
Essa convergência com
Rousseau esclarece convenientemente a mudança no modo de visar a questão, de
Hume a Kant. O elemento novo que interveio aqui se designa “universalidade” e
ele está implicado no pensamento de uma “comunidade”, o qual não pode ser
minimizado ao se tratar o fato da moralidade pois a decisão deixou de ser
irredutivelmente moral por seu vínculo exclusivo com o sentimento individual de
prazer ou de recusa para se constituir assim no interior de uma trama social ela
mesma conceituada como “vontade”, isto é, como a mesma conformidade a
princípios manifesta em todos os agentes.
Fica bem nítido
também o intervalo de Rousseau ao Kant da fase crítica, se observarmos o salto
da “generalidade” (vontade geral) à “universalidade” (razão
prática). Pois como mostra Bréhier, o que se retém nos dois registros é que o
elemento básico foi transposto, desde o “sentimento” do bem ou do mal à
consciência do dever. O dever se tornou o fato básico como àquilo a que
a vontade já desde sempre aderiu, na verdade, mais do que um “aderir”, pode-se
propor que a constituiu como vontade do ser humano, que assim já se pode
compreender como sinônimo de agente moral.
O problema se
transformou, portanto, de modo a poder se enunciar por meio da questão de como
conceituar o dever. Ora, Bréhier mostra que Rousseau, que assim já havia
localizado os termos do tema da moralidade, o explicou como “instinto divino”.
Esse modo de estabelecer a resposta não deve ser historicamente subestimado.
Ele fornece o vínculo, o missing link como costuma se expressar Carpeaux
num outro registro, à observação de Zingano sobre o modo como o tema se tornou
costumeiro na atualidade, pois o que assim se enuncia é o absurdo da vontade
(Shopenhauer) que irá encontrar sua plena positividade em Nietzsche, o conceito
de Vontade de potência, não mais como absurdidade mas como criatividade, não,
tampouco, sem transmutar os valores de um mundo “moral” a um mundo “estético”.
Retornando ao
exemplo, a ordem que, afinal, consubstancia o elemento irredutível ao conhecer,
envolvida no sim ou não de beber, poderia parecer esse “puro irracional, ordem
sem apelo que fecha toda discussão”, conforme a expressão de Bréhier. Isso, um
tanto paradoxalmente, sobrevindo do contexto de Rousseau, onde se tratava de
generalizar a vontade, de instituir a questão da comunidade de agentes no âmago
do desenvolvimento do problema moral. Mas “instinto divino” não se exime de
expressar tão somente a absurdidade ou o irracional da ordem, subjetiva ou
geral, esse geral, podemos lembrar, sendo ainda a expressão do particular.
Hume, inserindo seu pensamento nesse mesmo contexto de predominância do
particular, havia também se confrontado com a necessidade de conceituar o
vínculo com o geral, o que se garantia por meio da instituição. A
característica desse viés parece ser que a subsunção ao subjetivo não pode
deixar de se expressar no limite do “irracional”, instinto ou paixão.
Assim, se Kant
reverte os termos do geral ao universal, é agora o geral que se torna, como
universal, decisivo. Ele não se compreende como a expressão do particular, mas
expressa um elemento que subsume o particular no sentido de que é ele que
permite que se compreenda o particular, não mais o inverso. Conforme Bréhier,
para Kant “universalidade” significa “racionalidade”. O percurso do século
XVIII ao kantismo é aquele que conduz do sentimento e do instinto à Razão.
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A forma superior da
faculdade de desejar se endereça à universalidade. Trata-se de determinar o
desejo por algo que não se confunde nem com o sentimento de prazer ou desprazer
que liga as representações dos objetos à inclinação da vontade, nem com a
representação por si desses objetos, sensíveis ou intelectuais. A forma
superior da faculdade de desejar se determina pela representação de uma pura
forma, a de uma legislação universal. A lei moral não se apresenta, conforme
Deleuze, no kantismo, como um universal comparativo e psicológico, como se
pudéssemos encontrar na reciprocidade empírica de nossos atos um princípio regulador
da ação ( não fazer aos outros o que não queremos que nos façam). O universal,
sendo agora proposto na exterioridade da experiência, portanto da psicologia, é
um absoluto lógico. A lei moral nos força a pensar a máxima de nossa vontade
como princípio de uma legislação universal, válida em todos os casos, para
todos os agentes. Assim, a ação válida é aquela que resiste a essa prova
lógica, ação cuja máxima pode, sem contradição, ser pensada como lei universal.
Temos duas consequências
, nesse modo de estabelecer a questão moral, ora concernindo à vontade, ora à
razão. O princípio da atribuição da moralidade às ações é racional, pois ser
racional é agir segundo representações de leis universais, conforme mostra
também Zingano (RHK, 112). Ora, a vontade determinada pela forma da lei,
não por conteúdos extrínsecos oriundos da representação, é livre. O ser
racional, portanto, tem vontade livre, autônoma, o princípio do querer
tornando-se assim objetivo e correspondendo à consciência da lei moral. Mas a lei
moral não é um fato no mundo, na natureza, e sim um fato da razão.
O kantismo pretende
assegurar quanto a isso uma demonstração cuja constringência lógica obriga ao
assentimento, de modo afastado de uma simples proposição subjetiva da vontade
que poderia, simplesmente, querer que todos fossem livres no melhor mundo
possível, ou querer “livremente” apenas nesse mundo. Trata-se então da
exigência de mostrar a realidade objetiva desse conceito prático racional de
liberdade, a síntese prática a priori, já que agora não ocorre, como na
região do conhecimento puro, poder-se delimitar essa mostragem pela
circunscrição ao fenomênico. Ou seja, trata-se de estabelecer o fato prático
que não pode ser simplesmente “conhecido”, nem mesmo do ponto de vista
transcendental, nos limites de uma dedução que porta sobre a representação do
mundo.
A história dessa
exigência, partindo da postulação de atos de origem inteligível poder
estabelecer o fato da razão prática e por aí a fundamentação de uma ética,
comporta inversões. Assim, Zingano registra, Kant muda sua posição que fôra, na
edição inicial da Crítica da Razão Pura, tratando do conceito de
liberdade, a de deduzi-lo como propriedade do ser racional. Na segunda edição,
Kant mostra ser preciso aceitar o fato da moralidade para então poder haver o
pressuposto da liberdade.
Ainda que seja um
tema polêmico o motivo dessa alteração do texto da crítica, creio que algo se
mantém, desenvolvendo-se como tema da Razão Prática, isso que Deleuze
enuncia em temos de uma definição da vontade livre como aquela que é
inteiramente determinada pela forma da lei. Assim, Deleuze afirma que as
fórmulas de Kant variam a esse respeito mas que o que permanece como constante
em seu pensamento é que a lei que determina uma vontade livre não é como uma
lei “natural” deduzida do curso dos fenômenos, e sim uma lei moral,
correspondendo, porém, à pura forma de legislação universal. Razão prática e
liberdade são de tal modo implicadas que se enunciam como o mesmo. No entanto,
conforme nossas representações, é o conceito de razão prática que conduz ao de
liberdade. É a lei moral que nos transmite a autocompreensão como seres livres.
A autonomia da vontade forma a síntese a priori do conceito de liberdade
como realidade objetiva da razão prática.
A representação é
racional, quando independe de toda condição sensível, como de todo sentimento
ou matéria. Mas a consciência da lei moral, não corresponde a um “raciocínio”,
isto é, a atuação da razão nesse âmbito não é simplesmenter “raciocinar” e sim
legislar. A razão é essa faculdade que legisla na faculdade de desejar, sem
mediação da representação ou do fenômeno, e é sob esse aspecto que se designa “razão
pura prática”. O fato da razão pura ser prática se torna assim seu ser
originariamente legislante, encontrando sua determinação apenas nela mesma
(autonomia da vontade).
Tratando desse mesmo
tópico, Zingano enfatiza a natureza oblíqua da visibilidade do fato da razão,
consciência da lei ou da liberdade. A lei só se mostra nos interstícios das
paixões. Em nosso agir podemos ou não acatar a voz do dever (senso moral), mas
não se pode descartá-la. A necessidade da prescrição moral se redobra pela
inevitabilidade do nosso prescrever. Assim, o fato da razão é que há razão e
que ela é prática, ou seja, em nós a lei moral é a atividade revelada como
auto-consciência da atividade da razão determinando a vontade. Ou seja, esse
fato é o meio lógico para o sentido de juízos práticos, desde que para que se
possa imputar moralmente uma ação a um agente, é preciso que os fins da ação
possam ser autodeterminados por um princípio a priori.
A importância dessa
factualidade prática é enorme, pois ela funda um domínio irredutível do humano
na ambiência mais geral dos fenômenos, isto é, funda uma esfera de objetividade
no entanto incompreensível pela via especulativa. Como mostra Zingano, o fato
da razão condiciona o estabelecimento desse domínio prático no território dos
fenômenos, em que certos efeitos são atribuídos a agentes conforme um caráter
inteligível. O que é ao mesmo tempo a possibilidade do agir, do ponto de vista
do agente, e da imputabilidade a ele da ação.
É bem notória a
posição limítrofe do conceito de liberdade na Crítica da Razão Pura. Ele se
inscreve entre as idéias que resultam do uso ilegítimo da razão se forem
afirmado como se portassem exclusivamente sobre uma série de fenômenos,
permanecendo antinômicas se forem legitimamente reportadas como idéias puras,
sempre entre sim ou não, as teses de sua existência ou do seu ser quimérico se
anulando ou contrabalançando por não haver como ancorar sua referência
empírica. Mas com relação ao conceito de liberdade o fato da moralidade se
insinua desde já, forçando o desenvolvimento da questão prática.
Kant observa, ao
tratar as teses e antíteses relativas às antinomias da razão, que as antíteses
exibem uma uniformidade, configurando um sistema coerente, um empirismo. Já as
teses se comportam de outro modo, desde que sobrepõem ao modo empírico de
explicação no interior da série fenomênica, também, como fundamento, “inícios
intelectuais”. No entanto, se estas não podem ser reduzidas a um único modo de
expor, não deixam de exibir um caráter essencial a que Kant designa “dogmatismo
da razão pura” .
Zingano introduz a
apreciação subsequente de Kant a propósito do dogmatismo numa aproximação com o
platonismo, propiciada pelo exemplo comum do levantar-se da cadeira. Como vimos
anteriormente, esse exemplo de ato livre já havia sido utilizado na crítica
socrática a Anaxágoras e à explicação mecânica dos atos. Esse platonismo, ou dogmatismo
implícito na tese de uma causalidade livre e independente da série fenomênica,
pelo que se pode iniciar absolutamente uma ação, é atrativo, pois conserva a
imputação de responsabilidade ao agente. Mas permanece na região da decisão
objetiva, sem situar o problema envolvido no desnível das premissas. Ora, se
causa e efeito restam fenomenais – o ato e o agente, ambos podendo ser pensados
no mesmo plano como fenômenos – a causalidade mesma escapa à série fenomênica
concernindo ao arbítrio, ao sujeito noumênico. Assim, algo se manifesta aqui de
suma relevância no curso do pensar. Pois o que permanece indubitável é que essa
causalidade não pode deixar de exibir um caráter empírico, seus efeitos
derivando de uma regra, a saber, aquela pela qual todo agir humano se subsume a
princípios que remetem a fundamentos e atos da razão.
A regra de que todo
agir é conforme regras subentende a ação que as prescreve, logo também a
vontade regrada (transcendentalmente) pela origem. A razão especulativa só
conhece o desenvolvimento do conceito – a liberdade como independência frete a
condições empíricas ou faculdade de iniciar uma série de eventos sem nada que a
determine previamente. Mas a exposição do que se manteve implicado, como
determinante, em nível de razão, já estabelece o âmbito prático na evolução do
pensar. Aqui trata-se de estabelecer a natureza do querer moral. Sendo a
essência da lei a sua universalidade, a referência da ação, enquanto regrada,
se endereça ao horizonte de uma comunidade racional de agentes, comunidade que
se torna conceituável apenas por essa referência.
O conceito de
liberdade, como idéia da razão, manifesta um caráter eminente sobre todas as
outras idéias, pois somente ele pode, sendo determinado praticamente, conforme
Deleuze, fornecer sentido às coisas em si e acesso ao mundo inteligível. A
razão prática fornece ao conceito de liberdade uma realidade objetiva por
legislar “sobre o ser livre enquanto coisa em si, sobre a causalidade noumênica
e inteligível desse ser, sobre o mundo supra-sensível formado por esses seres”.
Assim desdobram-se os
mundos, como as naturezas. A legislação por conceitos naturais é a do
entendimento, que legisla na faculdade de conhecer ou no interesse especulativo
da razão, tendo por domínio os fenômenos que formam uma natureza sensível como
objetos de experiência possível. A legislação pelo conceito de liberdade é
aquela onde a razão, determinando esse conceito, legisla na faculdade de
desejar, conforme seu interesse prático, formando o domínio das coisas em si,
pensados como noumenos, que integram uma natureza supra-sensível.
É certo que se
ressaltou a conexão entre a comunidade racional de agentes e aquilo que permite
que se a conceitue, a lei moral enquanto regra a priori da ação. No
entanto, e mesmo assim, seria de se indagar como é que isso escapa de ser, como
a República platônica, conforme a expressão do próprio Kant, algo como “o
exemplo” de “perfeição quimérica que só pode ter sua sede no cérebro do
pensador ocioso”. Conjurando essa consequência, todo o contexto da razão
prática se transfere para uma espécie de referência negativa em que a
impotência do agir efetivo se torna confrontado ao seu princípio enquanto ação
racional. Nessa espessura ou intervalo do querer ao fazer, muita coisa se
interpõe. Não somente o egoísmo que se poderia localizar na aderência do “eu”
somente a si, o problema das paixões, mas também a impossibilidade de contar
com a mesma observância estrita da lei na comunidade real, e mesmo as
circunstâncias do mundo que carregam, nesse intervalo, a necessidade de se
separar os conceitos de virtude e felicidade. A fundação de uma esfera prática
não poderia contornar a tarefa dessa referência, tampouco reduzir tudo a um
confronto na base da decisão moral ou resignar-se ao incoercível da espessura (
o inesgotável ). Pensar o mal radical precisa ser algo apenas no caminho de se
conceituar a possibilidade da afirmação do bem moral. Utilizando o texto
deleuziano, no que concerne aos aportes seguintes da razão prática, seria
oportuno iniciar esse caminho pela conceituação do termo “submissão”.
A causalidade livre
dos seres em si põe a necessidade de se pensar a identidade do legislador e do
sujeito sobre o qual incide a legislação. Ser submisso à lei moral compreende
esse paradoxo que encerra algo de sublime, pois seu sentido depende de que se é
ao mesmo tempo o legislador, não podendo haver, no plano ético, submissão sem
ação de legislar, com relação às mesmas pessoas. E é assim que se constitui uma
natureza supra-sensível, a pertença manifestando-se desde que para ser membro
dessa natureza, se é ao mesmo tempo legislador, o que se confere como o
princípio determinante dos seres enquanto racionais como princípio de sua união
sistemática.
Mas é assim, também,
que o mal se torna algo inteligível, algo cuja fundação se reporta ao caráter
inteligível dos sujeitos racionais. O mal se traduz como a opção contra a lei,
mas o pensamento de Kant quanto a isso não se joga exclusivamente no plano dos
fenômenos, como se a compreensão do mal, enquanto uma opção inversa ao agir
submisso à lei moral, se devesse encontrar na região dos efeitos (esse ou
aquele mal, ou infração determinada). Sem dúvida o mal se plasma no fenomênico
como tal ou tal infração, mas sua definição não está lá, e sim no domínio
inteligível, pois é aqui que se desenrola o mecanismo que deve conduzir à
vontade seja ao livre-arbítrio, seja à liberdade.
Se bem que o
livre-arbítrio seja uma zona interior à liberdade, ele parece mais como uma
antecâmera, um limiar entre o puro individual e a Natureza moral do
subjetividade, enquanto supra-sensível. O mal é conceder à sensibilidade a lei
que determina a vontade, renunciar ao poder de legislar, de ser legislador. Não
se perde por isso o caráter inteligível, mas sob a opção do mal esse caráter
não integra a natureza supra-sensível, a comunidade de legislação moral, ou
seja, o indivíduo não se põe como o sujeito. Como nada garante a um ser
racional que seus semelhantes irão compor, todos, a existência com a sua,
formando a natureza moral, essa natureza supra-sensível jamais se realiza
completamente.
O que permanece como
princípio inteligível, mesmo no que se refere ao mal, só pode se conceituar
tendo em vista a cesura entre o empírico e o transcendental. Ora, o âmbito
transcendental se tornou enunciável apenas como determinação dos usos imanentes
da razão: desde que se descobriu quais são os seus reais interesses, temos
também o critério do seu uso legítimo, em conformidade com esses interesses
racionais, e por aí tanto um critério de validez na esfera especulativa quanto
um critério de autonomia na esfera moral. Vimos, no âmbito especulativo, que a
garantia desse exercício imanente depende de um acordo entre as faculdades, um
senso comum. Agora trata-se então de compreender o senso comum moral, de modo a
estabelecer o caráter inteligível do mal como impureza prática, aquilo que
escapa à imanência e se dirige ao que transcende o interesse legítimo da razão,
ou seja, o que confunde o empírico e o transcendental.
A irredutibilidade
entre as duas naturezas, sensível e supra-sensível não se deixa minimizar de
todo, mas entre ambas tampouco deixa de subsistir uma analogia, a existência
segundo leis. Ora, devido ao instável do arranjo supra-sensível, ele não pode
ser pensado a não ser por analogia com a natureza sensível, o que se vê bem na
prova lógica da razão prática, onde a questão é estabelecer se a máxima de uma
vontade pode ter a forma prática de uma lei universal.
Inicialmente trata-se
de indagar se a máxima pode ser erigida em lei teórica universal de uma
natureza sensível, isto é, se uma regra de conduta moral pode encontrar o
critério de sua validez na conveniência natural sensível de seus efeitos. Por
exemplo, se todos mentissem, as promessas se destruiriam por si e seria
contraditório que alguém nelas viesse a crer. Logo, a mentira não pode ter o
valor de uma lei da natureza sensível, de modo que se a máxima de nossa vontade
fosse uma lei teórica da natureza sensível, cada um seria constrangido a falar
somente a verdade. Mas por esse meio mostra-se que a máxima de uma vontade
mentirosa não poderia sem contradição servir de lei prática pura a seres
racionais no intuito de compor uma natureza supra-sensível. A analogia com a
forma de leis teóricas da natureza sensível se utiliza portanto como meio pelo que
podemos estabelecer se uma máxima pode ou não ser pensada como lei prática de
uma natureza supra-sensível. A natureza sensível surge, no âmbito prático, como
“tipo” da natureza inteligível.
A forma prática da
harmonia entre as faculdades se revela por esse papel coadjuvante que o
entendimento – ele mesmo legislador quando se trata do interesse especulativo –
encontra agora, limitando-se a um raciocínio comparativo e a um simbolismo como
extração do tipo, sendo a razão somente que legisla aqui. Observe-se que não
retemos da natureza sensível, no âmbito prático, o que se reporta à intuição ou
à imaginação, mas somente ao entendimento enquanto a forma de conformidade à
lei, forma que se torna análoga à conformidade moral que está podendo fundar,
contudo, um domínio completamente irredutível, como aquele da liberdade.
Em todo caso a
harmonia entre as faculdades sempre concede àquela que não está no seu papel
legislador, no entanto, uma função insubstituível, que só ela pode ter mas que
lhe é imposto por aquela que legisla. Ora, no caso específico do âmbito
prático, o que impõe ao entendimento essa função coadjuvante é o conceito de
causalidade, isso mesmo que permite o salto da conformidade natural à liberdade
absoluta da vontade enquanto autônoma.
A causalidade, como
categoria do entendimento, não tem uma forma produtora originária, os fenômenos
não sendo de modo algum produzidos por nós. Mas quando a razão se apossa desse
conceito do entendimento – que só havia estado lá devido a um outro interesse
da razão mesma – ela une o conceito de causalidade ao de liberdade, pois agora
o conceito está implicado na definição da faculdade de desejar como relação da
representação a um objeto que o desejo efetivamente produz. É o fato de que a
causalidade se aplica, mesmo no âmbito especulativo que é o da coerção da
experiência, conforme um sentido puramente lógico, que faz com que essa
aplicação independa da condição, sensível ou não, do objeto.
Assim a causalidade
pode se estender a objetos não determinados pelo ponto de vista do
conhecimento, como supra-sensíveis, determinando-se como causalidade livre e
podendo formar uma “natureza”, ainda que por analogia. Ora, isso não impede que
esse senso comum moral, acordo do entendimento com a razão, sob a legislação da
razão, esteja sujeito a desbordar-se, em vez de uma harmonia natural (senso
comum) surgindo exercícios discordantes (não-senso). Não menos que na Crítica
da Razão Pura, é preciso agora, no âmbito da Razão Prática,
denunciar os exercícios ou usos ilegítimos, já que as faculdades podem
arranjar-se ilusoriamente, por exemplo, em vez de “simbolizar”, o entendimento
se põe a esquematizar, reportando à lei moral não o tipo de uma lei natural,
mas uma intuição. Ou em vez de comandar, sem nada deixar às inclinações sensíveis
ou aos interesses da experiência, a razão se põe a acomodar o dever com os
desejos da sensibilidade. Nas duas Críticas, trata-se da dialética quando a
tarefa é examinar os descaminhos ilusórios das faculdades, os exercícios
discordantes da própria razão.
Ora, o contrasenso
seria pretender que o que permanece em comum nas duas críticas se pudesse
enunciar como empreendimento crítico da razão pura. Pois somente no
âmbito do interesse especulativo a razão pura pode ser objeto de ilusões
internas. A razão pura prática, por sua vez, não tem a menor necessidade de
crítica desde que se demonstre que ela existe. No entanto, ela pode se deixar
condicionar empiricamente, como numa auto-renúncia, mas nesse caso ela deixa de
ser pura, a crítica só tendo como objeto propriamente uma razão tornada impura,
e, precisamente, pela ambição de um uso transcendente. Na Crítica da Razão
Pura, a ambição é a de uma razão especulativa que pretendia legislar por si
mesma. Na Crítica da Razão Prática, a ambição é a de uma razão que se deixa
condicionar empiricamente. Mas por que seria isso uma “ambição”? Porque em vez
de um objeto supra-sensível, em vez de uma lei que não pode ter absolutamente
nada que lhe fundamente do exterior, a razão se forja assim a monstruosidade do
que seria um seu objeto de intuição.
Contudo, poderia a
razão prática evitar por completo essa ilusão? E se fosse o caso de justificar
o seu desbordamento, o que se encontraria, se não uma ligação necessária entre
a felicidade e a virtude, ligação que a razão prática não pode deixar de se pôr
, mas que só a conduz a uma antinomia?
O antinômico entre
esses dois conceitos, felicidade e virtude, consiste em que nenhum deles pode
ser causa do outro. A lei moral tem que ser o determinante de uma vontade boa,
excluindo todo móvel extrínseco, mas as leis do mundo sensível não se regram de
modo algum sobre as intenções de uma boa vontade. E sem dúvida, conforme a
expressão de Deleuze, a idéia de felicidade implica a satisfação completa de
nossos desejos e inclinações. Observe-se que a ligação entre os conceitos em
causa não deriva de uma simples projeção de interesses empíricos, sendo a razão
pura prática que a reclama. Agora sim se pode novamente falar em termos de “ilusão
interna” da razão pura, mesmo no âmbito prático.
Ocorre ainda que a
fonte da ilusão é algo que mesmo os mais experientes não podem evitar, a saber,
algo como um prazer, o contentamento puramente intelectual que deriva da
evidenciação à faculdade de desejar de nossa independência com relação às
inclinações sensíveis. A ilusão é a confusão desse contentamento intelectual
ativo com algo como um sentimento positivo. Quanto a isso é preciso enfatizar
que Kant não define o contentamento com um sentimento, ainda que seja algo
análogo. Deleuze utiliza aqui o termo Jouissance, gozo ou desfrute, que
tem uma conotação teórica bastante conhecida, como por exemplo, em Barthes, que
explora a oposição que o termo mantém como algo de censurável (interdito)
frente a seu oposto legítimo, o “prazer” (plaisir) desinteressado da apreciação
da obra de arte. Assim, aqui, se a jouissance se libera como
contentamento moral, é porque ela pôde purgar sua oposição ao prazer, restando
puramente intelectual (“jouissance negativa”). O termo kantiano para
designar esse contentamento, constando tanto na tradução em português da Crítica
da Razão Prática, de Afonso Bertagnoli, quanto no texto deleuziano, é “satisfação”
(satisfaction), que Kant assimila ao sentido de “sensação”.
Kant mostra que ora
cremos que esse contentamento, que pensamos ser a felicidade, é a causa ou
móvel da virtude, ora que a virtude é ela mesma causa da felicidade. Agora a
impureza, que consiste na projeção de algo exterior, interesse ou desejo
empírico, na razão, não deixa de ser um princípio profundo dentro da razão pura
mesma, sendo esse um outro sentido da palavra dialética, aquele pelo qual a
ilusão se pôs não apenas como resultado de uma alienação, renúncia da
autodeterminação da razão, mas sim pelo próprio modo da razão prática se
exercer. Mas essa antinomia deve ser bem acolhida, pois se ela mesma não pode
fornecer uma totalização, sua posição nos propõe a busca de algo assim. Esse é,
com efeito conforme Kant, o erro mais benéfico em que a humanidade pôde
incorrer.
A superação da
antinomia só poderia se apresentar ao modo de um conceito que reunisse ambos os
termos que se contrapõem. Esse conceito é o do bem supremo. No entanto,
o que o conceito apresenta é um novo problema, pois não basta apresentá-lo, é
preciso que a ele se possam reunir os meios de sua realização. Ora, temos aqui
reintroduzida a questão do acordo entre as naturezas, sensível e inteligível,
mais geralmente, o da unidade das críticas como algo que se pudesse interpor ao
abismo do conhecer ao desejar. Conforme Deleuze, esse abismo só existe para ser
preenchido. O problema da realização da razão prática se endereça, pois, à sua
existência nesse mundo, o que torna a sua consideração algo pelo menos
sustentável como uma tarefa legítima.
Assim, se está
excluída a hipótese de que o desejo da felicidade seja o móvel da virtude, não
deveria parecer de todo impensável a máxima da virtude como causa da
felicidade. O que se interpõe nesse caminho é que de modo algum se pode cruzar
os domínios de legislação. A lei moral não legisla sobre o mundo sensível, que
tem suas próprias leis, indiferentes às intenções morais da vontade. No
entanto, o que se oferece como restando a pensar nessa via é que a conexão
almejada, que se pôs legitimamente, poderia não ser imediata, e sim proposta de
algum modo oblíquo, por exemplo, aceitando-se a perspectiva de um progresso ao
infinito (alma imortal), ou de um autor inteligível da natureza sensível, que
seria também “causa moral do mundo” ( Deus).
Essas Idéias da
razão, que na região do especulativo se haviam mantido como horizonte
regulador, agora recebem o status de postulados. A idéia psicológica da
alma e a idéia teológica do ser supremo recebem da lei moral uma realidade
objetiva. A antinomia nos conduziu, portanto, a uma crença pura prática, cujo
objeto se possibilitou por esses postulados, tornando assim o percurso, que
veio de uma ilusão, em algo não ilusório, mas necessário. A idéia cosmológica
de liberdade, porém, se não deixa de receber realidade objetiva da lei moral, é
mesmo aqui algo mais do que apenas um postulado, é o objeto de uma proposição
categórica, uma “matéria de fato”.
Essa solução, porém,
vai ocasionar uma bifurcação na exposição, de um lado apontando para a
exigência de se rever os meios do acordo entre as faculdades, mas por outro,
sugerindo a necessidade de se compreender a relação da razão e do mundo, logo
da existência do ser humano e da natureza, no âmbito de uma teleologia
sustentada pela Idéia de Deus devendo responder pelos meios conjuntos,
sensível e supra-sensível, de efetivação do real.
Quanto ao senso comum
moral, até aqui só foi possível constatar a relação da razão com o
entendimento, uma vez que, se nem os seres nem a causalidade livres podem ser
objetos de intuição, a sensibilidade só pode entrar como sentimento,
negativo aliás, pois trata-se do respeito pela lei, o que não se costuma
associar a um prazer. Esse sentimento é a priori determinado como “móvel”
moral, mas por si não confere nenhum papel à sensibilidade na relação entre as
faculdades no senso comum prático. Quanto ao contentamento intelectual derivado
da conformidade do ato à lei, como vimos, Kant não o pensa como um sentimento,
apenas como um “análogo” de sentimento, não podendo portanto ser identificado
ao respeito da lei. No entanto, se o respeito é o único móvel da moralidade,
isto é, se ele é o sentimento único que apresenta a moralidade como móvel da
ação, deve permanecer como preliminar, restando no exterior da positividade da
realização efetiva dessa ação.
Não ocorre o mesmo
quando se trata da imaginação. Vimos que os postulados, como Idéias da razão
que se tornam o objeto da crença pura prática, são meios, algo oblíquos, é
verdade, da conexão da virtude com a felicidade, logo, eles entram de algum
modo na problemática relacionada à realização da moralidade no mundo. Ora, esses
meios não são os únicos. É preciso também que as condições imanentes à natureza
sensível possam fundar nela a capacidade de exprimir ou simbolizar algo do
supra-sensível. Trata-se então de três aspectos dessa fundação: a finalidade
natural na matéria dos fenômenos, a forma da finalidade da natureza nos objetos
belos e o sublime no informe da natureza que permite que ela mesma testemunhe
da existência de uma finalidade superior. Mas nesses dois casos, do belo e do
sublime, sabemos, o papel importante e o da imaginação.
A consciência da
moralidade, isto é, o senso comum moral, não comporta, portanto, apenas
crenças, mas inclui os atos de uma imaginação pelos quais a natureza sensível
aparece como apta a receber o efeito do supra-sensível, de modo que a imaginação
faz parte do senso comum moral.
Reta ainda, nesse
mesmo tema do acordo entre as faculdades, algo que concerne ao outro sentido
desse termo, isto é, faculdades se compreendendo como tipos de relação entre a
representação e o objeto. Aqui o importante a considerar é que é o mesmo ser
que é fenômeno e coisa em si, submetendo-se à necessidade natural como
fenômeno, fonte da causalidade livre como coisa em si. E é a mesma ação, o
mesmo efeito sensível, que se relaciona tanto com o encadeamento de causas
sensíveis em meio a que ele é necessário, quanto, por meio mesmo do caráter
dessa necessidade, a uma causa livre de que o efeito é signo, expressão.
Torna-se bem
evidenciado que a causa livre não pode jamais ter seu efeito em si mesma. Nada
acorre ou começa nos seres livres, mas a causalidade livre só pode ter
algum efeito sensível. É válido portanto repetir, devido à importância
desse tópico: como a razão prática, enquanto lei da causalidade livre, deve ter
uma causalidade em relação aos fenômenos, a natureza supra-sensível, que os
seres livre formam segundo a lei da razão, deve ser realizada no mundo
sensível. O bastante para compreender o sentido de unidade que Kant garante
assim, é lembrar que se há dois domínios, duas naturezas, elas se encontram no
mesmo terreno que é o da experiência.
O bem moral torna-se
o termo dessa realização, como determinação de objetos conformes à vontade
livre, mesmo mantendo-se a interdição de que a determinação da vontade livre
seja feita pela representação do objeto. Lembrando a relação de cada uma das
faculdades, no caso do conhecer a representação deve ser reportada ao objeto do
ponto de vista da conformidade, enquanto que no caso do desejar, a
representação é causa da realidade mesma dos objetos. Trata-se então nesse
ponto de mostrar que quando a razão legisla na faculdade de desejar, é o desejo
que legisla sobre os objetos que formam o bem moral, de modo que o que a razão
se “representa” nesse caso é o objeto como algo de supra-sensível a realizar no
mundo sensível, como um efeito possível para a liberdade.
O sentido que pode
haver na consideração da oposição ou do auxílio entre a natureza e a liberdade
só se mantém se compreendemos a natureza como fenômeno, e os efeitos da
liberdade também como fenômenos nesse mundo sensível, esses efeitos sejam ou
não conformes à lei moral, e é isso que forma o tecido da experiência. Ora, do
ponto de vista da razão, a unidade da experiência só pode ser assegurada se
houver algum meio de fazer convergir os seus interesses, até aqui apresentados
como múltiplos e irredutíveis.
Com efeito, vimos que
os interesses da razão diferem por natureza, o que se mostra de modo suficiente
quando se constata que a razão não faz nenhum progresso especulativo quando
entra no domínio prático. Assim, por exemplo, a liberdade como Idéia
especulativa permanece problemática e indeterminada, mas a razão especulativa
não ganha coisa alguma em extensão quando essa Idéia recebe da lei moral uma
determinação prática. Contudo, o mundo sensível não apresentaria interesse
especulativo se, do ponto de vista do mais alto interesse, não testemunhasse da
possibilidade de realizar o supra-sensível. Os dois interesses não podem, pois,
ser simplesmente coordenados, devendo haver uma preminência do prático sobre o
especulativo, do desejo sobre o conhecimento, do valor sobre o fato. A crença é
uma síntese desses interesses, especulativo e prático, ao mesmo tempo marcando
a preminência do prático. Ela não se define como uma faculdade particular, não
obstante seu caráter sintético. Mas devido a essa constituição da crença, Kant
pôde assegurar a superioridade da prova moral da existência de Deus, isto é, a
afirmação de Deus como autor moral do mundo, sobre todas as outras provas.
Enquanto objeto de crença, Deus recebe uma determinação e uma realidade
exclusivamente asseguradas pelo âmbito moral.
Vemos então que o
problema do acordo entre as faculdades no senso comum moral, seja no sentido
das fontes de representação que nele atuam (razão, entendimento, imaginação),
seja no sentido da convergência das relações da representação (conhecer e
desejar), se desdobra no tema teológico do autor do mundo.
Ora, esse
desdobramento se observa também porque um interesse em geral implica um
conceito de fim. Já estabelecemos anteriormente que a observação da natureza
sensível, e mais geralmente a faculdade de conhecer, não fornece fins materiais
nem pode se representar um fim: o fato de ser conhecido não confere ao mundo
qualquer valor. Mas na medida em que fim terminal, como conceito, se aplica a
seres que devem ser considerados sempre como fins em si, o fundamento moral
sendo que jamais devemos tomar os seres humanos como meios para quem ou o que
quer que seja, somente esses seres se tornam aptos a fornecer à natureza um fim
terminal a realizar. O texto de Deleuze trabalha nesse ponto com uma oposição
entre fin dernière e but final, respectivamente, numa tradução
literal, fim último e fim terminal. No entanto, no Brasil as traduções de Kant
geralmente apresentam apenas a expressão “fim terminal”, o que mantenho aqui,
simplificando um pouco a leitura de Deleuze, mas sem falsear o sentido do
pensamento kantiano.
Somente a lei moral
determina o ser racional como fim, uma vez que ele constitui um fim no uso da
liberdade, mas por esse meio, ao mesmo tempo o determina como fim terminal da
natureza sensível ao nos prescrever a realização do supra– sensível pela união
da felicidade universal com a moralidade. Se a criação tem um fim terminal, só
o podemos conceber em harmonia com a finalidade moral que possibilita o
conceito mesmo de fim. Mas isso resulta na afirmação de que todo interesse,
mais profundamente, é prático, pois é da moralidade que se deriva o meio e o
horizonte do que permanece no âmbito especulativo.
Já vimos algo assim,
ao tratar o juízo teleológico, ora aplicando-se como fim natural (objetos dos
quais um é causa do outro), ou finalidade externa, ora como totalidade (a coisa
é causa e efeito de si mesma, as partes se produzem reciprocamente em sua forma
e sua ligação como em seres organizados, organismos), ou finalidade interna.
Ora, a finalidade externa permanece puramente relativa, hipotética, jamais
cessa de ser. Para que o pudesse fazer, seria preciso que se determinasse um
fim terminal, o que é impossível pela observação da natureza, como já
assinalamos tantas vezes. Nesse domínio, os fins são sempre meios com relação a
alguma outra coisa. No entanto, mesmo que devamos ser conduzidos a subordinar a
finalidade externa à interna, nunca se pode assegurar que a finalidade interna
não irá reenviar à finalidade externa, a questão do fim terminal permanecendo
insolúvel por esse meio de pura reflexão.
Sabemos que a solução
de Kant se encontra na esfera da moral, consistindo em conceituar o ser humano,
enquanto ser racional e moral, como aquele que, podendo encontrar a finalidade
do seu ser em si mesmo, pode também prescrever a lei moral como um fim sem
condição. Enquanto noumeno e supra-sensível, o ser humano prescinde da
indagação do porquê de sua existência, encontrando na liberdade algo que se dá
necessariamente um conteúdo como finalidade suprema determinada pela lei. Temos
assim a organização dos seres racionais sob a lei moral e a liberdade como
razão da existência contida em si pelo ser racional.
O autor inteligente
do mundo faz apelo à sua autoria moral, pois somente assim permite-se pensar um
fim terminal da criação como realizável. No percurso da teleologia natural à
teologia física, da reflexão dos nexos causais localizados na parcialidade dos
fenômenos sensíveis à idéia reguladora de um autor inteligente do mundo, a
insuficiência do se deixa ver pelo fato de que ele não permite que se esclareça
sobre a finalidade da criação. Ora, no âmbito prático o percurso se faz de uma
teleologia prática a priori, o conceito moral determinante do fim
terminal, a uma teologia moral, determinação suficiente da idéia de Deus, autor
moral, como objeto de crença. Resta a questão de como o ser humano, fim
terminal supra-sensível, pode ser um fim, também, da natureza sensível, ou
seja, a questão da realização prática, dos efeitos, no mundo, das atitudes e
decisões do ser moral.
O conceito de
liberdade deve realizar no sensível os fins impostos por sua lei, o que ou se
possibilita sob meios divinos que tornam possível o bem supremo como acordo do
sensível e do supra-sensível, da felicidade e da virtude, ou sob meios mundanos
que se relacionam à estética e à teleologia e viabilizam a conformidade do
sensível a uma finalidade superior. Em todo caso a realização da liberdade é
efetuação do bem supremo. O paradoxo envolvido aqui é que não se afirma que a
natureza realiza a liberdade, mas sim que o conceito de liberdade se realiza ou
se efetua na natureza. A história é a atividade sintética original do ser
humano como efetuação da liberdade e do bem supremo no mundo sensível,
portanto, não pode ser dada como um simples desenvolvimento da natureza. A
finalidade natural torna possível uma relação finalística da natureza e do
homem, mas ela não se mostra como razão suficiente nem condiciona essa relação
que só pode ser estabelecida e instaurada pelo ser humano como constituição
civil perfeita, o mais alto objeto da Cultura, o fim da história ou o supremo
bem mundano.
O paradoxo mascara
uma astúcia da razão. Finalmente a natureza sensível enquanto fenômeno aparece
como tendo por substrato o supra-sensível, isso em que se conciliam o que no
sensível se lança em termos de mecanismo, o necessário como objeto dos
sentidos, e de finalidade, o contingente como objeto de razão. A astúcia
pertence ao supra-sensível, e consiste em que o sensível não se baste para
realizar o “seu” fim último, que é ele mesmo supra-sensível como o que deve ser
efetuado. O contingente no acordo da natureza com as faculdades do ser humano
se revela como uma aparência transcendental, escondendo a astúcia da razão.
A história, no sensível, só mostra a aparência de uma marcha de insensatez. O que se mostra assim é a irredutibilidade da natureza como fenômeno, restando com suas leis independentes da vontade e da liberdade. Mas essa incapacidade inerente ao sensível de realizar qualquer fim terminal, não implica que essas mesmas leis impossibilitem a realização. A “insociável sociabilidade”, pão cotidiano no trato com a natureza sensível dos próprios seres humanos, esses mecanismos de forças e conflitos de tendências, presidem o estabelecimento da sociedade mas é somente essa sociedade o meio no qual o fim terminal pode ser historicamente realizado. O que o indivíduo percebe como algo supremamente insensato pode restar apenas como o detalhe de um desenho perfeitamente coerente do ponto de vista maior da espécie. A história não deve ser julgada de uma perspectiva pessoal, mas sim daquele que pertence à espécie. Mas essa dualidade também é uma astúcia da razão, que agora consiste em que a natureza supra-sensível quis que, mesmo no ser humano, o sensível proceda por suas leis próprias a fim de receber por fOra, aqui torna-se oportuna a observação de Creusa Capalbo (Fenomenologia e Ciência humanas) acerca da transformação que o conceito de Natureza exibe no contexto da transição ao século XIX e que, creio, pode ser relacionada a Hume. Isso porque Capalbo situa com precisão o corte a partir da recusa de todos os significados desse termo que se radicam no que Bastide chamou de “ontologia cosmológica”. Assim, aquilo que vimos Deleuze enunciar quanto a Hume em termos do problema do nexo ou da dualidade aparece agora, nos termos de Capalbo, como o que “põe em questão esta ontologia cosmológica” no registro da filosofia de Kant. O problema é que se acentua no kantismo o abismo “entre a afirmação de um sujeito transcendental face a um sujeito empírico, formalismo do pensamento face às vivências” do sujeito na existência (p. 25).
No entanto, a mudança
de termos na enunciação da questão – por um lado o dualismo é entre a natureza
humana e a Natureza, agora ele porta sobre a forma e o conteúdo, no interior da
Subjetividade mesma – capta a distância percorrida já que traduz o esmaecimento
do conceito de natureza que se torna progressivamente apenas “abstração
normativa”. O importante é acentuar que não é a Natureza que está sendo
conceitualmente recusada, apenas, mas também a natureza humana, pois as suas
potencialidades não devem significar mais “possibilidades já inscritas no ser
humano” e sim possibilidades que conquistamos ao passo que nos realizamos “em
contato com o social”, conforme Mikel Dufrenne, citado por Capalbo nesse
trecho.
O que está sendo
recusado agora é “a dicotomia Natureza e Cultura”, conforme Capalbo, e o que
está começando a ser afirmado é que “o homem é por natureza um ser de cultura”.
Assim nem mesmo os instintos humanos são independentes da cultura. O biológico
se reordena no cultural, como no exemplo de Levi-Strauss, pelo que a
sexualidade (elemento natural), se submete a uma “finalidade onde a Regra irá estabelecer
as formas de aliança (elemento cultural)”, na expressão de Capalbo.
Ora, vimos
precisamente o mesmo aporte na filosofia de Hume que Deleuze mostra descrever a
formação do “mundo da cultura” conforme “regras gerais”. O mundo moral não se
reduz a um instinto moral, mas só afirma sua realidade quando se constitui esse
sistema invariável, artificial, que é o das regras gerais, das obrigações
produzidas. Os elementos da moralidade, as simpatias, são dados naturalmente
mas não podem por si constituir um mundo moral, pois, como vimos, eles só se
limitam ao parcial, às preferências do círculo mais íntimo, dos amigos, dos
parentes, ou daqueles que um interesse particular poderia fazer desejar
favorecer, enquanto que a moralidade, o mundo da cultura, exige a ampliação dos
interesses naturais, o esquematismo pelo qual “os interesses naturais” são
relacionados “à categoria política do conjunto”, do todo ou sociedade, isso que
não se dá de forma alguma na natureza – fica claro que nem na natureza humana
definida assim como parcialidade.
Hume e Kant devem se
debruçar sobre a problemática da finalidade, o que determina o novo patamar de
conceituação da história. Penetra-se assim, pouco a pouco, no domínio do
obscuro e confuso, esse que o pensamento ocidental não poderá deixar de
confrontar ao esboçar a intenção de forjar um conhecimento humano, ou ao
precisar intentar um conhecimento assim, logo que sua ambição o conduz ao
Mundo, via colonização. Mas encontramos aqui o problema novo da filosofia, o
complexo de motivos que fazem esse termo evoluir, do comum significado com “ciência”
a algo irredutível a isso.
Assim, se, como
Bastide observou (Conclusão de um debate recente: o pensamento obscuro e
confuso), o papel da filosofia se tornou, desde Descartes, ensinar a
transpor as idéias obscuras e confusas para conduzir e limitar o pensamento às
idéias claras e distintas “transformando o caos num encadeamento lógico”, as
culturas, desde que se oferecem como o objeto de um provável saber, “como
estuda o etnólogo”, se oferecem como “multiplicidade caótica”, impossível de
ordenar. Bastide se interessa nesse artigo sobretudo pelos mecanismos de defesa
contra o irracional inventados pela etnologia. Entretanto ele delineia uma
irredutibilidade e um percurso, entre o cogito cartesiano e a dedução
transcendental do kantismo, que estaria informando a própria Etnologia.
Há inicialmente uma
irredutibilidade que forma o Ocidente no confronto com o não-ocidental, o
objeto do relato etnográfico: clareza e distinção de um lado, obscuridade e
confusão, de outro. No interior do que seria o claro e distinto não pode deixar
de emergir o obscuro e confuso, não mais de índole inerte, como Natureza
física, e sim como o outro da cultura, o selvagem ou primitivo. Então, como
informe Bastide, duas posições são exemplificadas como vias passíveis ao
Ocidente, personificado pelo etnólogo, nesse confronto. Temos a posição de
Levi-Strauss, que repõe Kant e transforma toda indistinção, obscuridade e
confusão, como o conteúdo aparente de uma forma clara, os esquemas formais
recuperáveis que destituem de significação isso que a cultura vivencia para
investir apenas o que a permitiu construir-se. No pólo oposto, Leenhardt
conserva a vivência e procura, no Outro, o que ele vê, para descobrir no
obscuro e confuso uma via positiva de pensamento, um modelo cultural, não
apenas uma estrutura mental, sendo inevitável que assim esse Outro ponha em
cheque o Mesmo, e o pensamento rejeitado do Ocidente, o “conteúdo” da
experiência, se mostre como mais adequado do que a forma que o conjurava na
apreensão do real.
No entanto, o texto
de Bastide encena essa mesma oposição de vias no registro da própria história
da filosofia, isto é, no interior do Ocidente, naquilo que lhe é essencial e
confere a identidade.
Assim temos
inicialmente Descartes que evidencia, seja a oposição no interior da cogitatio
como o que separa o claro do obscuro, o distinto do confuso, como, o que teria
sido sua ambição filosófica maior, a oposição fundadora entre Cogito e cogitatio.
No interior do pensado, do conteúdo do Cogito, a alma se posiciona
de dois modos, conforme sua situação existencial. Enquanto ela é irredutível ao
extenso, a alma concebe clara e distintamente as idéias que possui, mas
enquanto ela está unida ao corpo, a todos os corpos que a cercam, seus
sentimentos não são puros pensamentos, mas percepções confusas, derivadas do
acaso e dos efeitos dos encontros. Mas se pode-se assim sempre operar a
transição do sensível ao inteligível, do obscuro ao claro e do confuso ao
distinto, resta que é o Cogito, fora de todo conteúdo, que garante a
realidade do “eu” e do conhecimento.
Aqui incide
historicamente o espaço filosófico de crítica a essa pretensão de Descartes. E
nesse espaço a confrontação de vias, pois a crítica ora encena a positividade
do que se excluiu tanto num como no outro meio de purificação, tanto o que a
alma concebe enquanto unida ao corpo quanto o conteúdo mesmo do pensamento como
impossível de ser separado do ato de pensar, ora tende para concluir a obra
cartesiana, aceitando a sua posição de princípio mas conjurando aquilo que a
impede de efetuar o que pretendeu ser legítimo como tarefa.
Na via da recuperação
do não estritamente claro e distinto como positividade do pensamento
encontramos, por exemplo, Vico e Malebranche. Kant será o grande artífice da
forma, pois mostrando a limitação do empreendimento cartesiano ele soube
realizar o que havia de legítimo, do ponto de vista da Razão, na sua proposta.
Confrontado ao
não-ocidental, o Ocidente repõe de algum modo essa bifurcação. Assim,
superficialmente enunciando a teorização de Lévi-Strauss, já que oportunamente
deveremos retornar ao estudo de sua obra, aqui sendo evidenciada apenas por sua
relação com o contexto da reversão dos conceitos de natureza, sociedade e cultura,
que a filosofia de Hume torna um problema agudo, podemos, como Bastide, mostrar
que ela retoma a via do kantismo. Tudo aquilo que é sentido, vivenciado,
subjetiva e coletivamente, na instituição que a etnologia estuda, deve ser
posto entre parêntesis para que, através de uma sobreposição exaustiva do
diverso nas culturas, sobressaia o esquema que o informa, esquema que se repõe
em todos as amostragens dadas.
Assim haveria uma
estruturação inconsciente, pertencendo inequivocamente aos seres humanos, dos elementos
que se oferecem naturalmente no contexto de um problema a resolver.
Estruturação oposicional que equaciona dois a dois as formas da natureza e da
sociedade, como séries homólogas, quando se trata de resolver o problema
cultural da partição dos grupos, formação de identidades coletivas como
agregação simbólica das pessoas.
O totemismo não é um
fenômeno universal nos entido de ser verificado em todas as culturas, e aquilo
que se arrolou sob esse termo muitas vezes exibiu confusões de práticas, mas onde
se verifica atua sempre o mesmo formalismo: as espécies animais que se opõem
entre si correspondem por essa oposição aos grupos sociais que devem se opor
para constituir o mundo de identidades culturalmente instituídas. Para essa
conclusão o requisito é, repetindo, abstrair todo conteúdo, aliás mutável, das
práticas que atualizam para as pessoas sociais a instituição totêmica.
Mutável porque o
caráter não-universal do totemismo se revela também nisso pelo que não ocorre o
mesmo nível de importância ou identificação espiritual dos membros da sociedade
com o simbolismo animal em todos os lugares em que o totemismo se verifica. O
que não importa para a dedução. Tanto faz que o membro da cultura vivencie
intensamente o símbolo ou o veja quase com indiferença, a regra da composição
institucional é a mesma.
Já o que Kant objetou
a Descartes havia sido que ele não havia apresentado uma razão que pudesse
sustentar a transição do “penso” ao “sou”, a relação permanecendo abstrata ou
pressuposta. Sendo assim, como poderia ele ter fornecido o conceito do Cogito,
separado de qualquer cogitatio? Torna-se evidenciado assim que Kant só
retoma a crítica a Descartes no âmbito da posição transformada do problema
herdado de Hume. Ao mesmo tempo conceituar o que ultrapassa a experiência e o
que a unifica. Kant desenvolve então o princípio da dedução transcendental, o “eu”
e o “penso” só se reúnem na exterioridade de qualquer representação empírica,
enquanto formas a priori da sensibilidade e das categorias do espírito. Assim não
ocorre uma transitividade assegurada no interior da alma entre o obscuro e o
confuso, o claro e o distinto. O empírico e o transcendental formam esferas
irredutivelmente separadas no kantismo e também, como mostra Bastide, no
pensamento de Lévi-Strauss que se livra da “parte sombria” dos conteúdos para
se ater apenas à Forma. Que fazer dessa parte sombria se não atribuí-la ao
historiador?
Mas é precisamente no
âmbito de um pensamento voltado à história, em Vico, que a crítica a Descartes
se endereça de modo inteiramente outro do que aquele que podemos cosntatar em
Kant. Pois agora não se trata de objetar a Descartes que ele não foi claro o
bastante, que ele não soube salvaguardar completamente a cidadela das idéias
puramente racionais. O que Vico critica, conforme mostra Bréhier, é a limitação
espantosa das idéias claras e distintas, mais vícios que virtudes, pois elas se
aplicam muito bem ao que o espírito fabrica, a geometria ou a física, mas o que
testemunha a grandeza do ser humano é o que só pode ser objeto de uma percepção
infinita, todo esse lado obscuro, profundo, “que penetra a intuição dos
historiadores e dos poetas”.
A percepção dos
nossos próprios sentimentos não oferece forma ou limite. E se podemos postular
algo como a comunidade dos seres humanos, é devido à exequibilidade de postular
algo que os une, localmente ou planetariamente, sem precisar apelar para a
Razão, já que os relatos não mostram, inversamente ao que propõem os eruditos,
desde o início a razão atuando na história das nações particularmente visadas.
Assim, Vico postula esse fator em termos de senso comum, julgamento
irrefletido, intuição que se plasma na realização dos mesmos estágios de
desenvolvimento, a cada vez, por todas as nações. Ora, essas leis ideais
intuídas sempre do mesmo modo são leis não-racionais, leis espirituais. Não são
os homens sábios, individualmente, que fundam a sociedade pela resolução
racional do problema da partição dos direitos, mas é a existência do Estado ou
da civilização que permite o exercício da sabedoria ou da razão.
A preponderânmcia
aqui pertence à imaginação. As crenças que asseguraram, no alvorecer de cada
grupamento social considerado, a sobrevivência da humanidade, foram forjadas
pela imaginação que instituiu relatos bastante sugestivos para apartar, pelo
medo, o ser humano da violência dos seus apetites, tornando-o social. É´ ao
estágio da imaginação que sucede o estágio da razão, e esse enunciado é o de
uma lei sociológica que preside a história das nações aprticularmente
observadas.
Vimos a importância
da postulação de um senso comum fundado no sentimento como laço de moralidade e
mesmo de religiosidade, em Hume. Quanto à história, ele a conceitua na
transição da imaginação, da fantasia à natureza dos princípios. É´ a associação
que fixa no espírito a generalidade do conhecimento, é a paixão que fornece ao
espírito o conteúdo dessa constância que torna possível a atividade prática e
moral, fornecendo assim significação à história. Esse duplo movimento permite à
imaginação tornar-se uma faculdade.
Ora, assim como a
crença está para a causalidade, o motivo está para a ação, a história devendo
ser concebida como uma física do ser humano. As regras gerais determinam o
detalhe da natureza e constituem o mundo da moralidade, mas sob o termo crença
há uma “prática do entendimento e, sob forma de organização social e da
justiça, há uma teoria da moral” (empirismo e subjetividade, p. 25), de modo
que não se delimita sistema de entendimento e teoria de um lado, sistema da
moral e da paixão e prática, de outro. A finalidade, como resolução do problema
do dualismo, deverá realizar a redução da natureza humana ao sentido
institucional da cultura , a única teoria possível sendo uma teoria da prática,
não da separação de um domínio puro de racionalidade.
As variações se
tornam uma via da liberação, a multiplicidade cultural traduzindo a
criatividade do ser humano. O que impede a totalização dessa multiplicidade
como forma é que a finalidade prática na filosofia de Hume não se realiza de
modo independente ao vivencial, ao sentimento, não se secciona a regra de sua
atualização, a positividade histórica permanece garantida no âmbito mesmo do
relato etnográfico.
Ora, no contexto da
etnologia a via do kantismo trilhada por Levi-Strauss denega a grande
classificação de Levi-Bruhl que opõe de um lado o ocidente como domínio das
idéias claras e distintas, de outro o não-ocidental como operando apenas o
obscuro e o confuso. Mas se essa denegação se encontra também em Leenhardt, o
motivo é oposto. Para Levi-Strauss o inconsciente cultural é absolutamente
claro, formalizante, independente da proveniência étnica, isto é,
universalmente postulável assim. Para Leenhardt o não-ocidental revela o que o
percurso do Ocidente obscureceu, uma positividade “universal” , sim, mas do
obscuro e confuso. O sentimento, a participação do pessoal no cultural, deixam
de ser os elementos a descartar para revelar a potência do pensamento operante
na cultura.
Na realidade o todo é
anterior às partes, enquanto o pensamento claro e distinto procura separar o
que no real une o todo às partes que ele engendra como tais no seu
comportamento setorizado. Isso que se depreenderá da observação etnográfica de
Leenhardt repõe a crítica de Malebranche a Descartes: o conhecimento confuso do
corpo é básico, precedendo o puramente ideal, assim como não se têm a priori
uma noção clara da alma. Os sistemas de parentesco que evidenciam estruturas
duais (tio-sobrinho, genro-sogra, pai-filho), conforme Leenhardt, são
corporificados, não imóveis ao modo de Levi-strauss, mas sentidos como
continuidades revitalizadoras. Assim, quanto ao totemismo, em vez de uma
formalização inconsciente que precisa, para ser traçada, recalcar o conteúdo da
crença, Leenhardt procura o que se realiza no modo como a pessoa sente a instituição:
totem, órgão sexual, matriz que realiza a continuidade vivificante no processo
da gênese.
Ora, nesse estado
confuso e obscuro, pertencendo ao pensado, não ao puro pensar, se estendem os
processos de troca – de bens, de palavras e de mulheres. Levi– Strauss os
distingue como três ramos separados de atualização de um mesmo conjunto de leis
gerais, que são as leis de comunicação, emergência do simbólico pela troca
significante, transferindo novamente ao Pensar o conteúdo recalcado do pensado.
Leenhardt, inversamente, como mostra Bastide, evidencia aqui um processo de
formação identitária irredutível às relações formalmente instituídas no
Ocidente pela racionalização que opõe identidade e diferença. Assim Levy –Bruhl
havia suposto que o primitivo distingue o que é igual e não distingue o que é
diverso, permanecendo assim na concepção de que o pensamento confuso se
caracteriza pela identidade pura, enquanto Leenhardt supõe, pela equivalência
entre os três ramos da troca, uma ausência de fronteira entre o diverso e o
idêntico ( por exemplo, entre mulher e palavra, que são o mesmo desde que podem
ser , ou não, “boas”).
E se o pensamento
obscuro e confuso é o que se liga ao corpo, como conceituou negativamente
Descartes, inversamente a um dualismo que opõe a “participação”, pela
afetividade, da pessoa ao grupo, à inteligência, como formalização das relações
(Levy-Bruhl), Leenhardt propõe a participação como pensamento assim como a
idéia, a afetividade sendo ressonância do espiritual no corporal: a personalidade
não se limita ao corpo próprio, se estende ao dos outros, seja dos seres do
grupo social, seja dos seres da natureza (pedras, animais e vegetais).
Resta que, conforme
Bastide, para a recuperação desse Outro do pensamento que obriga à crítica do
ocidente cartesiano é preciso recusar a operação do significante, retornar ao
liame do signo com o significado, o valor. Ora, reencontramos assim o próprio
Kant, já que ele, inversamente a Levi-Strauss, não se ateve à Razão Pura, e
compreendeu o horizonte prático como historicidade reintroduzida no pensar
enquanto humano. No entanto, o que Levi-Strauss teria produzido, radicalizando
a racionalidade pura do kantismo, seria uma Etnologia do presente, pois o que
se realiza entre Descartes e Kant é o “movimento da cultura ocidental, enquanto
produto da sociedade industrial” , Bastide afirmando que o mundo que nasce com
o desenvolvimento do capitalismo é aquele onde as coisas só valem como signos
de troca.
Assim, o interregno
entre Descartes e Kant é aquele da eliminação do conteúdo que ainda se poderia
subministrar, como afetividade, à efetividade da propriedade burguesa
(afetividade do dinheiro, da casa, da família). Kant seria o pressentimento do
novo momento capitalista, que é o da experiência atual, em que esses conteúdos
se esvaziam no âmbito de um regime puramente significante : convergência de
Lévi-Strauss e Kant como expressando a mesma cultura, atualmente no apogeu.
A relativização
propiciada pela sociologia do conhecimento, disso que se evidencia como mistificação,
conforme Bastide, portaria sobre o não-absoluto desse pensamento que se
ofereceu como a formalização inconsciente de todo pensar mas que se revela
apenas como a expressão das leis do conteúdo de sua atualidade transitória.
Seria preciso reconduzir da forma aos conteúdos, do Pensar ao pensamento, das
constantes às variações. No entanto, aqui nos convém retomar o movimento
kantiano para mostrar como a preservação do horizonte prático aí recuperou uma
conceituação necessária da história, no percurso que marca o recuo dos
conceitos de natureza e de sociedade (os animais também são sociais, como
lembra Capalbo), e a evidenciação daquele mais restrito, da cultura.
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Para observar essa
transição do natural-social ao cultural, se mostra conveniente examinar a
irredutibilidade da conceituação da história em Kant, mas para isso devemos
compreender o alcance da inserção desse tema no contexto do projeto crítico.
O desenvolvimento da
questão crítica assim como transposta do empirismo por Kant é algo notório como
tendo se lançado em termos de uma dedução ao mesmo tempo que seu objeto se
tornou o transcendental, a razão estabelecendo o meio em que qualquer
experiência pode meramente ocorrer. As duas críticas, da razão pura e da razão
prática, operam então o aclaramento conceitual concernente aos domínios do
conhecimento e da moral, do entendimento e da vontade.
No entanto, se o
transcendental se oferece como obstáculo intransponível à via de transição
entre o domínio da forma àquele dos conteúdos, entre o transcendental e o
empírico, as duas críticas não deixam de exibir a interessante propriedade pela
qual, se ambas só podem ser manejadas como deduções por portarem sobre o
elemento formal, resta que a razão prática está lidando com o numênico, com o
ser humano ele mesmo em si.
O transcendental
agora como que se inflete sobre o empírico, sem abandonar sua espessura
enquanto imperativo formalizante da vontade, sem tampouco, como observou
Bréhier, que esse numênico conserve qualquer traço de mistério. Inversamente as
coisas se desenrolam no domínio da razão pura, onde o em si resta
incognoscível, o númeno aproximando-se perigosamente do Numen, o sagrado
permanecendo à espreita, no obscuro do que para sempre deve estar na
exterioridade do sentido.
No entanto isso não
se introduz como obscuridade no Pensar formalizante para o qual tudo o que se
oferece é experiência. Novamente de modo bastante interessante e algo
paradoxal, o obscuro da ausência irremediável de sentido se torna a garantia da
impossibilidade de todo não-sentido. Não ocorre experiência incompreensível ou
não passível de aclaramento, não existe a opacidade, a impenetrabilidade no
dado, tudo é formalizado, existindo como objeto de uma possível apreensão
intelectiva.
Resta o problema da
finalidade. Gostaríamos de pensar que o pássaro nasceu para voar, mas tudo o
que podemos afirmar é que as aves voam. A natureza se oferece sem véus, mas
também sem desígnios ulteriores. Em nós mesmos encontramos o desígnio, temos a
escolha, ou o caminho imediato do mal ou o caminho refletido do bem, mas não
possuiríamos só por isso a chave do nosso acordo com o mundo. A crítica do
juízo completa a dedução transcendental, mostrando que a finalidade pode ser
garantida como acordo de nossas faculdades, de modo que é pelo lado do sujeito
que o acordo se torna algo mais do que uma convenção.
Agora se justifica
até mesmo o uso algo transbordante da razão, lembrando de certo modo o viés
estilístico de Hume que não deixava de apontar a peculiaridade dos princípios
de ativação espiritual, pela qual sempre que uma região se ilumina, por
exemplo, o interesse prático de uma regra geral, ela não deixa de transbordar,
iluminando algo mais que não estritamente relacionado por necessidade, por
exemplo o artifício do costume forjado pela imaginação, que cerca essa regra,
sendo o sujeito da psicologia associacionista mais do que suas partes
constituintes redutíveis pela análise, sempre da ordem do inesperado e do
criativo. Ora, a Razão do kantismo, que em cada síntese produz seus a priori
recuperáveis pela dedução como condições de experiência ou operação do
transcendental, não deveria parecer mais sóbria e mais contida?
Porém devemos nos
lembrar mais uma vez do exemplo das aves, que poderiam imaginar de bom grado
que na ausência do ar seu voo seria muito facilitado, pois não haveria
resistência. Sabemos nós que elas assim não poderiam sequer alçar-se do solo. A
razão inventa finalidades lá onde não existem, além do entendimento e aquém da
faculdade correspondente ao juízo. Esse uso transcendente não deixa de ser
reconduzido ao bom emprego, já que tudo ocorre como se... Regulando o
acordo finalmente legitimado, sobrepondo a essa legitimidade das relações do eu
com o mundo aquela do “eu” consigo mesmo.
O plano em que se
lança a atuação da crítica repõe esse efeito, como que de refração, que estamos
constatando sob tantos aspectos no pensamento kantiano. Pois, como Guillermit
destacou da Crítica da razão pura (Chatelet,história da filosofia, Vol. V), Kant
enunciou seu longo esforço teórico não como a formulação laboriosa de uma
conceituação complexa desde o início claramente determinada, mas como o lento
auto-esclarecimento de uma idéia “profundamente oculta”, até vir a ser
plenamente percebida, esboçando-se “de modo arquitetônico um todo conforme os
fins da razão”. Se essa idéia se designou finalmente como ambição de fazer da
metafísica uma ciência, o que importa ressaltar é que ela não parece
independente daquilo que posibilitou, isto é, essa arquitetônica, ao modo de
realização formal – textual de algo como um propósito consciente. Aquele desse
todo conforme a uma finalidade racional.
Guillermit o
compreendeu, creio, ao mostrar que o projeto de uma metafísica como ciência
depende de que ela permanece um conhecimento, o que se imiscui entre a
limitação do especulativo e o alcance prático. Como algo mais do que simples
conteúdo de um conceito pensado, o conhecimento não deve ser procurado nas suas
fontes teóricas, mas sim nas suas fontes práticas.
O desenvolvimento do
kantismo, o modo como se faz a preeminência do prático sobre todo teórico,
enuncia na verdade o objetivo incontestável da crítica, o reconhecimento da
supremacia do poder prático da razão, mas parece-me que esse objetivo, tão bem
observado em suas implicações por Guillermit, se lança como algo mais, como
ambição filosófica , pelo que solve-se a cisão do formal-textual e do
propósito intrínseco. A ambição não poderia ser de enunciar os fins da razão
sem ser ao mesmo tempo o de assegurar uma unidade inquebrantável entre as
críticas.
Ou, em outros termos,
se o fato da razão só encontra sua preeminência como comando não-condicionado,
na região do suprasensível que é a dos seres livres, sujeitos de vontade, na “opacidade
impenetrável” da ordem que se impõe sem outra justificação do que ela mesma, no
sentimento, como respeito pela lei moral, não num tipo qualquer de
conteúdo puramente intelectivo, conforme a expressão de Guillermit, resta que o
que se encontra assim é o lugar desse sujeito num mundo que ganhou por esse meio
algum sentido.
Assim, se Guillermit
enunciou também um outro efeito como que de refração – a racionalidade do mundo
se justifica por uma via que é vontade, não intelecto – o que desejo enfatizar
sobre isso pode ser visado confrontando seu texto com o de Ph. Mengue sobre o
livro de Deleuze a propósito de Kant. Pois aqui Mengue cita o pronunciamento de
Deleuze sobre Kant, num outro registro, o de Nietzsche e a filosofia, em
que ele observa o gênio de Kant no fato de conceber uma crítica imanente: a crítica
da razão não se faz por qualquer instância exterior, o “coração”, por
exemplo...
Para que a razão
possa, de certo ponto de vista imanente, tomar a seu encargo a totalidade do
mundo, a crítica se desdobra. A razão precisa se revestir de uma multiplicidade
de interesses – originalidade do kantismo, conforme Deleuze.
Ora, a unidade
assegurada entre os três projetos críticos devém desse múltiplo. Assim podemos
ver que essa originalidade se confrontou com duas objeções de índole inversa.
Guillermit, por exemplo, afirma que se a filosofia crítica propôs “um balanço
de liquidação da metafísica antiga”, o que ela pretendeu foi na verdade sua
restauração. A mudança de método não comparte uma recusa do objeto. Deus,
liberdade, imortalidade da alma, esses são os objetos problemáticos de toda
metafísica como busca de sua solução, seu objetivo último e único, o que penso
ser destacável como mais um argumento em favor da hipótese de que a real
motivação e ambição do kantismo é a arquitetônica, ou a unidade mais assegurada
da Razão.
Já no registro da
história da filosofia de Sciacca a preminência da esfera prática não se lê como
recuperação de um projeto de unidade, mas como impossibilidade da metafísica,
ao menos como ciência, permanecendo limitada à fé moral. Assim a interpretação
do kantismo é agora não a de uma unidade assegurada – metafisicamente – através
da razão prática, mas de uma impossibilidade, um obstáculo teórico
intransponível a essa unidade que seria verdadeira e proveitosa metafísica. O
que teria sido assinalado filosoficamente por Kant, não se sabe se com amargor
ou orgulho, como se o obstáculo se interpusesse maugrado o objetivo almejado ou
ao modo de uma descoberta no âmbito de uma pesquisa desinteressada.
Em todo caso, a
objeção de Sciacca é de índole teológica, pois, muito inversamente a considerar
um retrocesso, uma limitação à metafísica, essa preeminência do prático
investida pelas idéias de Deus, alma e liberdade, ele observa que o que houve
foi uma redução dos elementos do conhecer ao intelecto, sem que a subsunção das
categorias ou do a priori à condição transcendental tenha sido efetivamente
justificada. Assim, o projeto fundamental se comprometeu irremediavelmente pois
o que Kant não pôde alcançar foi precisamente uma crítica da metafísica, do seu
conceito. Se a adequação do conhecimento ao mundo se fez por uma subsunção de
toda verdade à razão, Deus não se fez implícito no problema da experiência,
assim como está quando se compreende que ela só pode ser pensada racionalmente
já como dependente da existência de Deus.
Ou seja, a objeção de
Siacca é de índole escolástica. Ela supõe que o kantismo substitui Deus pela
forma da subjetividade, o “Eu penso” legislador da natureza e do mundo moral, e
por isso interpreta a autonomia da razão, pura e prática, assegurada pelo
kantismo, apenas como um projeto de fundação da ciência natural e humana
independente da metafísica e, “portanto, da teologia”.
Assim o que as duas
objeções enunciam é, ora que sob a alegação de estar submetendo a metafísica a
uma crítica, Kant não se ocupou desse conceito, mas fez apenas uma crítica da
ciência (Sciacca), ora que sob essa mesma alegação Kant apenas relançou a
metafísica, renovando sua temática (Guillermit). Ou seja, de um modo ou de
outro a metafísica teria ficado intacta, apesar de todo o aparato “crítico”.
Parece simples
iniciar por uma refutação da objeção de Sciacca, já que seu argumento se baseia
numa argumentação que há muito se constatou falaciosa. Pois a subsunção que
teria caracterizado a reviravolta operada pelo kantismo, da verdade à razão,
foi apresentada como ilegítima sob o pressuposto de que seu inverso é que seria
o certo, mas isso de modo que afirmar que é a razão que deve se subsumir à
verdade significa aceitar a prova da existência de Deus a contingentia mundi,
ou, conforme Sciacca, “pelo fato que eu sou (e o mundo existe), Deus existe” (história
da filosofia, p. 202).
Anteriormente já
examinamos esse tema das provas da existência de Deus, que tiveram um papel
preponderante na ambiência cartesiana da filosofia do século XVII. Aqui não
seria inútil porém examinar detidamente o percurso de inviabilização desse tipo
de argumento. Creio que algo importante quanto a isso é lembrar que não deve
ser considerado uma questão de simples opinião tomar a sério a crítica da
causalidade assim como operada por Hume. Pois ele mostrou indubitavelmente que
não há demonstração possível da causalidade na exterioridade da natureza
humana. O que se conserva ao alcance da controvérsia é se e como a causalidade
pode ser manejada dentro desse domínio, o que se revela como via muito bem
aproveitada pelo kantismo.
Ora, o argumento pela
contingência repousa sobre uma ligação causal de modo que seu viés vicioso se
mostra formalmente como uma petição de princípio. Algo, o mundo, a experiência,
existe, logo deve ter uma causa, a causa de algo como o mundo só podendo ser
Deus. No entanto, que a causalidade seja comprovável pela posição da existência
qualquer é exatamente o que está em questão quando se pergunta sobre a
existência de Deus. Assim, o que se conserva uma simples questão de opinião é
pensar que independente da impossibilidade de uma demonstração, continuamos a
crer que há uma causa ou que Deus existe.
Porém Kant mesmo
tratou desse problema ao analisar a ilegitimidade da argumentação que Sciacca
apresenta como se houvesse se mantido impensada no registro de sua filosofia.
Assim, Abbagnanno mostra que na Crítica da razão pura Kant considerou a
prova pela contingência, que ele designou “prova cosmológica”, apenas uma prova
ontológica mascarada, sendo que quanto a esta, seu caráter falacioso se
demonstrou do seguinte modo: se for julgada implícita no conceito de Deus a sua
existência, então não se trata de um conceito simples, mas se não se a
considera implícita, a existência deverá ser acrescida ao conceito
sinteticamente, por via da experiência, não ocorrendo, porém, que Deus esteja
acessível a qualquer experiência possível.
Resta examinar o
alcance da objeção de Guillermit. No entanto, o que se mostra agora é algo
bastante curioso, pois o que essa objeção enuncia, que Kant permanece no
interior da metafísica, deveria fazer retornar a Heidegger e ao tema da
história do ser. Que enuncia, efetivamente, “A tese de Kant sobre o ser”
? Algo impensado na metafísica, mas não porque teria sido na tese o pensado, e
sim porque permaneceu ali impensado, no entanto tendo sido de algum modo posto.
Ora, o curioso nisso é que o modo pelo qual Heidegger posiciona o tema nesse
texto repõe de modo inequívoco, como sendo o fio condutor adequado ao exame
dessa tese, precisamente o problema da prova cosmológica da existência de Deus.
A história do ser,
sabemos, tornou-se a história do questionar acerca do ente. No entanto, Kant “realiza,
e precisamente pela Crítica da Razão Pura, uma reviravolta decisiva” (Col.
Pens. Heidegger, A tese de Kant sobre o ser, p. 237), e portanto esperamos
que ele desenvolva a questão central dessa obra em torno da questão do ser,
modulada como deve ser na vizinhança da pergunta sobre o ente. Mas o tratamento
desse termo na obra de Kant não apresenta um espaço próprio, surgindo de modo
descontínuo, sempre ligado a questões precisas, o que se verifica também aqui,
já que nesse contexto crítico, a questão do ser aparece apenas na seção que se
intitula “da impossibilidade de uma prova cosmológica da existência de Deus”.
Heidegger apresenta o
problema a partir da duplicidade que a pergunta sobre o ente porta: pois ela
não indaga apenas “Que é o ente em geral enquanto ente”?, mas também, no mesmo
lance: “Qual é o ente no sentido do ente supremo e como é ele”? A ambivalência
da questão se justifica pelo fato de que o ser do ente se mostra sempre com o
caráter do que se designa o fundamento. Mas o que afirma Kant sobre o ser? Que
ele não é, “evidentemente, um predicado real, que se pudesse acrescentar ao
conceito de coisa. É somente a posição de uma coisa, ou de certas determinações
em si mesmas”. Assim Heidegger ilumina a conexão entre as noções de fundamento
e de posição. “Positio, ponere”, isto é, “estar pro-posto,
estar posto como fundamento” (p. 238).
Ora, a ambivalência
invade assim o texto kantiano mesmo, já que a tarefa de mostrar o que é o ente
supremo sempre se suplementa pela obrigação de demonstrar a sua existência. O
enunciado kantiano sobre o ser é ao mesmo tempo negativo (não é um predicado) e
positivo (é uma posição). Mas o outro registro em que se encontra esse
enunciado duplo sobre o ser, um texto anterior à Crítica da Razão Pura,
também é de natureza teológica , “O único argumento posível para uma
demonstração da existência de Deus”. Aqui o conceito de “ser” se enuncia em
termos de “existência em geral” e apresenta a mesma fórmula de negação e
afirmação.
A questão do ser do
ente, como se vê, está sendo sempre tratada no interior da teologia filosófica,
mas não de modo fortuito ou por um capricho de Kant, e sim porque a teologia
domina a totalidade da questão, o que se repõe, precisamente, como “a
metafísica em seu conteúdo nuclear”. Que a questão exiba um elemento biforme (
o que é o ente, e qual é o absolutamente ente) se reúne sob a expressão
onto-teo-logia.
O que ocorre é então
que, de modo muito inesperado, não somente se contrapõe que Kant houvesse
saltado por sobre a questão da relação entre Deus e existência, mas também que
ele houvesse realmente sobreposto a metafísica num patamar de transformação
dessa questão, por exemplo, a partir de uma pura e simples negação da
possibilidade de afirmação demonstrável da relação. Conforme Heidegger, existe
sim uma unidade manifesta como impulsão do projeto crítico, e ela se enuncia
como o “aguilhão secreto” entre as principais obras desde a Crítica da razão
pura. É´ a questão de “saber se e como e em que limites” a proposição “Deus
é” deixa de ser insustentável (p. 240). Essa perspectiva de Heidegger se
coaduna com a minha leitura da unidade do projeto crítico kantiano porque eu a
situo no sentido de uma almejada convergência assegurável entre os domínios
especulativo e prático, objetivo que Kant maneja através da ordenação funcional
das idéias reguladoras da razão, pelo que a questão da existência de Deus se
torna central.
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Guillermit localiza a justificativa de se postular
a unidade do projeto kantiano já na Crítica da Razão Pura (CRP), em que se
define o objetivo da obra em termos da constituição de uma teoria moral. O laço
com a teologia e a ética se assegura para Kant no sentido de fins. Alma, Deus e
liberdade são objetivos da metafísica. Bem inversamente a se ter limitado,
voluntariamente ou não, à crítica do conhecimento, como que reduzindo a metafísica
e seu conteúdo nuclear teológico e moral, Kant reordenou os meios para o
alcance desses mesmos fins metafísicos, mostrando a inexequibilidade de sua
consecução a partir de uma posição não crítica como a de Sciacca, isto é,
pretendendo derivar apenas da experiência sensível, no mesmo lance, Deus e a
razão.
Como bem acentuou Guillermit, Kant conceituou sua
conversão, desde a preocupação pré-crítica exclusiva com a ciência, à convicção
de que todo valor da pesquisa deveria ser garantir os interesses da humanidade,
em termos de transposição da noção “escolástica” (unidade sistemática,
perfeição lógica do conhecimento) à noção “cósmica” (o que interessa a todos os
seres humanos) da filosofia.
Transforma-se assim não só a imagem do pensamento,
mas também a imagem do filósofo. Ele não deve ser um “artista da razão”, mas
sim o seu “legislador”. Ora, o artista da razão é o “sábio” (“savant”,
conforme Guillermit), com quem o filósofo não mais se identifica. Com efeito, o
momento histórico do kantismo é aquele em que se estão precipitando as
condições de impossibilidade da filosofia como saber total, o que vinha
vigorando há milênios no Ocidente, desde os gregos. Urgia seu necessário
acercar-se de uma limitação objetiva.
Mais profundamente, a preservação dos fins da
metafísica, purificados os meios pela atividade crítica, estava traduzindo a
estratégia equivalente a deslocar a identidade da filosofia com o Saber para
fazê-la portar entre filosofia e razão, ao mesmo tempo em que a Razão deveria
ser algo mais do que a simples capacidade de saber.
Porque a Razão é legisladora – poderíamos recordar
a terminologia de Deleuze e situar aqui o “grito” de Kant – o filósofo não é o
sábio, é o legislador, se a filosofia veio a ser “a ciência da relação que
comporta todo conhecimento aos fins essenciais da razão humana”.
É por esse viés que se pode compreender a escassez
e o caráter aparentemente circunstancial das declarações de Kant sobre o ser.
Conforme se depreende do texto de Heidegger, existência e ser estão sempre
sendo pensados por Kant no âmbito especulativo,apenas no terreno do
entendimento.
O ser como posição (Setzung) abrange dois sentidos,
como dois usos possíveis do termo, conforme Kant. O uso lógico é aquele do ser
como cópula (algo é isso, algo é aquilo). O uso ôntico é aquele do ser como
posição absoluta (algo é = algo existe). Heidegger demarca os registros desses
dois usos no interior do percurso kantiano. No âmbito pré-crítico, Kant
limitou-se ao uso ôntico, visto por ele como algo cujo sentido se manifesta apenas
na relação com as capacidades do nosso entendimento, o que restringe, no seu
entender, consideravelmente, o grau de clarificação que esse sentido pode
atingir. O uso ôntico limita-se à posição de existência, nada pode predicar. Já
no âmbito crítico, Kant teria mudado o seu modo de conduzir a questão do Ser e
se debruçado sobre o problema do sentido do termo agora do ponto de vista do
uso lógico.
Em todo caso,
conforme Heidegger, examinando-se a polissemia do termo “posição” se vê que a
Setzung situa o pôr no sentido do “representar”. O que se põe está posto
para/por alguém (nós mesmos). A representação põe a coisa que vem, por esse
meio, à sua posição. Então “ser” não se relaciona de modo algum às coisas, não
concerne à coisa em si e para si, mas tão somente à representação.
Ao desenvolver a
questão do Ser sob o ponto de vista do uso lógico, Kant estende o sentido do
ser como cópula da proposição (algo é isso) em nível de modalidade (ser
possível, existente ou necessário), isto é, aos modos de ser. Ora, assim, como
Heidegger mostra de modo exemplar, o termo Ser ilumina eficazmente a
transposição transcendental de todo o problema do conhecimento, pois Kant vai
mostrar, na CRP, que por um lado, o ser não limita mais sua significação ao
entendimento apenas estabelecendo-se de modo inequívoco numa relação com os
objetos da intuição sensível, a saber, que eles são.
Agora é o modo de ser
dessa relação que precisa se compreender, restando o inteiro problema do
conhecimento logo que se afirma simplesmente que o juízo representa uma relação
entre dois conceitos. O problema crítico se enuncia, então: como se pode
estabelecer a relação se não já subentendendo, sinteticamente, a modalidade em
que ela se afirma, o modo de ser que ela representa, isso mesmo que vimos não
poder portar sobre as coisas mesmas, logo, jamais podendo originar-se dos
sentidos?
O salto do
pré-crítico ao crítico se torna bem evidenciado por Heidegger. Pois do uso
puramente ôntico ao uso lógico, a questão do Ser sob a condução de Kant
abandonou a circunscrição de sua relação própria com as capacidades do nosso
entendimento para franquear a região problemática da relação de entendimento e
mundo, isto é, abrange agora também a intuição sensível, ao passo que se
iluminou a necessidade de ajuntar à explicitação do ser também a dos modos de
ser, o que se apresenta como tarefa de justificar, fundamentar o ser em seu
sentido.
Podemos agora
compreender o entendimento como faculdade de representação, completando o
percurso crítico, pois a posição tem presentemente o caráter de pro-posição, do
juízo, pelo que algo é pro-posto como (enquanto) algo, e o predicado é
atribuído ao sujeito através do verbo ser (cópula). O que se justificou ou
fundamentou foi a relação de atribuição, do predicado em sua relação com o
sujeito.
Mas o termo que
concentra o historial é então “síntese”, nisso pelo que o “ser” fundamenta a
atribuição, o juízo e o que este apresenta , o conhecimento como unidade
objetiva da apercepção. A cópula se esclarece como a relação do “é” com a unidade
da ligação tornada proposicional no juízo. Heidegger lembra que o co-pertencer
de éon e hén, do ser e da unidade, já se mostra desde o começo
helênico da filosofia ocidental: que por um lado enunciou o Lógos (essência
unificante-desvelante) e o ser (presentar que se desvela) mas, por outro,
deixou impensado o co-pertencer de ambos.
Kant teria esse
mérito de expor o co-pertencer de ser e unidade, até aqui jamais esclarecido?
Heidegger exorta que nos devemos ater ao percurso, inversamente a perseguir tenazmente
desde o início o resultado, de modo que aquilo à mostra como o que força a
pensar é nesse momento o sentido de “síntese”.
Syn-thésis traduz:
com-posição. O que o “é” permite distinguir é a unidade objetiva das
representações (o que se atribui ao objeto, por exemplo, o peso) por relação à
sua unidade subjetiva. Assim, para Kant, o associacionismo havia apenas
tematizado a unidade subjetiva (a sensação do peso). Mas aquilo sobre o que a
ligação sintética, atuada no juízo pelo “é”, incide, são representações no
objeto, independente dos estados do sujeito.
A unidade da síntese
originária da apercepção possibilita o ser do ente, conforme Heidegger, isto é,
conforme Kant, a objetividade do objeto. Mas ela não está no objeto, e sim mais
alto, no domínio do transcendental.
O que se mantém, do
pré-crítico ao crítico é, sempre, a questão do ser no âmbito especulativo, isto
é, na relação com o entendimento. O cume especulativo, que é o de toda a
lógica, pertence à apercepção, elemento presente de antemão em qualquer
representação, enquanto elemento unificador, e de antemão necessariamente
vinculado à afecção, isto é, ao dado da intuição sensível. A lógica, a partir
da síntese da apercepção, fornece a adequada caracterização do ser do ente e
por isso pode servir de fio condutor na determinação de seus princípios e
categorias (conceitos). Essa lógica deixou de ser apenas formal, tornando-se
transcendental podendo assim fundamentar a ontologia.
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Conhecemos o caminho
pelo qual o Logos, na acepção de “o lógico”, chega a ser a essencialização do
pensar. Heidegger o reenuncia na Introdução à Metafísica. O Logos,
aquilo que reune, na Sentença de Parmênides que identifica Ser e Pensar, se
enuncia decisivamente como manifestação originária da essencialização do humano
como aquele que assume a reunião na percepção recolhedora do ser dos entes. Mas
assim o que se enuncia é o exercício do vigor da re-velação e da sua
conservação: mantém-se na linguagem a consistência do ser.
Ora, a consequência se
desenvolve inversamente à conservação do sentido da sentença, isto é, à sua
proteção contra o ocultamento. Pois o que se interpretou foi o humano como ser
racional, o Logos agora na acepção de Razão. Paradoxalmente, desse início da
história da metafísica como ocultamento, o acabamento é o completo aclaramento
da questão do ser. O paradoxo é que “acabamento” , desde que relacionado à
história, não significa extinção, mas realização. O mais perfeito aclaramento
apenas cumpre o que se iniciou como operação de ocultar.
Pois o que a sentença
deixou ver foi o Logos como deficiente (carente) frente à prepotência do que
vigora, enquanto ele, o Logos, só deixa perceber o ser da re-velação no seu
hesitar perante o que tem a fazer, a saber, instaurar violentamente, por sua
vez, ele mesmo o vigor.
Porque sempre que se
descobre ou re-vela, ao mesmo tempo se oculta, sempre que olhamos esse “aqui”
ao mesmo tempo renunciamos àquele “lá”, sempre o existir do ser é ser – aí, o
pré da “pre”– sença manifesta o problemático, o deficiente, como domínio
essencial do ser como questão. O ser não pode se dar se não pelo que ele deixa
vir à pre-sença, ao mesmo tempo ocultando-se no demorar-se do que veio a ser,
isto é, o ente, o ser é sempre essa estrutura problemática, hermenêutica desse “como”
do que vem a ser a cada vez.
No entanto, a
história da metafísica se deu como tarefa a eliminação do problemático
entrevisto no hesitar ainda registrado na sentença, transformando o Logos como
razão. O ocultar nesse caso é o mesmo que afastar, não des-velar. O que o exame
heideggeriano da tese de Kant sobre o ser desenvolve, agora no registro do Nietzsche
II, se conclui por aquilo mesmo que a Introdução à metafísica
enuncia: Kant pensou que a completude da lógica apenas “pareceu” ter sido implementada
por aristóteles, mas o que ele mesmo, com sua obra crítica favoreceu, foi a
confirmação de que isso ocorre mesmo assim, pois essa obra não acrescenta nada
à essencialização originária da lógica, estabelecida no momento helênico da
interpretação do Logos como Razão, da subjugação da Aletheia à Idéa.
O que se entrevê com
Kant se cumpre com Hegel, a transformação da metafísica em lógica: a ciência da
lógica nada mais tem com um manual de lógica comum. Mas parece haver uma
contradição no texto heideggeriano. Ao mesmo tempo a lógica se transformou na
ciência da forma absoluta da verdade, com Kant e Hegel, isso que ela antes
nunca havia sido, mas também, não apenas “parece” que a lógica permaneceu a
mesma desde os gregos. A expressão “esencialização originária” esclarece: não
sendo contraditórios , os enunciados implicam a transformação transcendental
como realização da eliminação de todo o problemático que ainda pudesse ter
restado quanto ao Ser. A transformação se dá como realização da
essencialização, a perfeição do manifestar-se do Mesmo.
Esse completo
aclaramento foi de fato implementado no kantismo, pois o “Eu “Penso” funda
agora a possibilidade transcendental da lógica pelo se re-presentar original
que inter-liga a presença, o ser – presente e a “substância” ( ou o
representado). Porque a posição implica o caráter do ser posto, o ser e o
pensar se estão equivalendo a partir da subjetividade que põe a síntese. Já nos
postulados do pensamento empírico em geral, um dos quatro princípios que
explicam as modalidades do ser, temos que ser-possível, ser-atual e
ser-necessário não exprimem o que é o objeto, mas o como da relação do objeto
com o sujeito. Ou seja, na perspectiva de Heidegger, eles fecham a relação na
formalidade da posição, de modo a instituir toda a constituição de mundo no
aclaramento como objetificação.
O que a posição
determina a partir da modalidade é o afirmado do objeto, enquanto objeto, do
ponto de vista de sua objetividade, de sua própria existência, não sob o ponto
de vista de sua realidade, de sua coisidade. Agora o ser como modalidade já se
possibilita como predicado mas não como predicado real, ôntico, e sim
transcendental, ontológico. O ser continua sendo aquelas “certas determinações
em si mesmas”, mas se elas se relacionam às coisas, “coisa” significa tão
somente objeto do conhecimento, as determinações sendo não-reais, apenas
modalidades do ser, apenas as suas posições.
Se a Tese de Kant
sobre o Ser desenvolve as implicações do ser posto enquanto possível (o que
concorda com a forma da intuição), atual (o que está em conexão com a
percepção) e necessário (o que é encadeado com o atual, conforme as leis da
experiência), para mostrar que esses diferentes caracteres do ser-posto são
determinados a partir da fonte da posição originária que é a pura síntese da
apercepção transcendental como ato do pensamento que conhece, o texto do Nietzche
II maneja a transição dos núcleos semânticos da síntese (unidade, posição)
à objetividade detendo-se no relato da transformação do termo alemão gegen-stand.
Desde o século XV esse termo, que se traduz comumente por “objeto”, começa
a se compreender no sentido de “resistência”, para Lutero significando o “estado
oposto”, como o dos judeus e o dos cristãos. Após o século XVIII o termo traduz
objectum, restando controverso quanto a utilização como gegen-wurf
(contra-jecto : ob-jeto) ou gegen – stand (contra-estado : obstante).
Obstante seria o por
-diante como representar. O ob-stancial no obstante, seria o colorido, o
extenso. O ob-stantivo seria porém aquilo que constitui o “se manter ao
encontro”, o se manter em si mesmo do obstante. O obstancial manifestando o
ente, o obstantivo, o ser, a oposição dos termos expressa a distinção
ontico-ontologica de ente e ser. Então Heidegger se interroga como é que a “ob-stantividade”
mesma pôde vir a constituir propriamente a essência do ente enquanto tal, no
momento em que traduz o termo como “objetividade”. Ora, uma vez concebendo-se o
ser como ob-stantividade, já ocorreu o esforço para conceber o ente em si tendo-se
esquecido a oposição dos termos, tendo-se feito equivaler ente e ser. “Oubli”
possibilitado, por sua vez, porque o ser se tomou como presencialidade.
Lembrando a
inssurreição que vimos enunciar-se como a introdução da metafísica da
subjetividade ou Tempos Modernos, subjectum tornando-se ego, a res
cogitans como certeza, a ousia como essência da unidade determinada
pela verdade como certitude na relação com a re-presentação, seu momento
decisivo se enuncia: onde o humano se torna sujeito, e sujeito se torna o “eu”
(“ego cogito”), o obstante se torna objeto no sentido absoluto quando sua
essência é concebida enquanto “unidade sintética da apercepção transcendental”.
O nexo fundamental
aqui deve se estabelecer entre o sujeito e o objeto, de modo que o ser como
posição é requerido para fundamentar o decisivo do momento. Trata-se de
compreender que o fundamento da oposição entre a possibilidade e a atualidade
das coisas encontra-se no sujeito, na natureza de sua capacidade de conhecer,
isto é, nos seus modos de posicionar, seja conforme a representação se
relaciona apenas à nossa capacidade de pensar (possível) ou àquilo mesmo que é
representado (atual). A representação se desdobra, se reflete, conforme
uma tópica, o conceito podendo ser localizado no entendimento ou na
sensibilidade. Assim, da síntese à objetividade, o exame da tese de Kant sobre
o ser conduz à Reflexão.
Os dois registros, a
tese de Kant sobre o ser e o Nietzsche II convergem agora sobre a
referência à Crítica da Razão Pura (“Sobre a anfibologia dos conceitos de
reflexão” e “nota à anfibologia...). A aproximação à interpretação de Heidegger
sobre esse trecho será favorecida se nos acercarmos da sua ambientação
consultando o texto kantiano.
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Kant vinha
estabelecendo o que pertence, como uso, ao empírico e ao transcendental, no
contexto de uma elucidação a propósito do fundamento da oposição dos objetos em
geral em fenômenos ou noumenos. O uso empírico dos conceitos do entendimento
referem-se apenas aos fenômenos enquanto objetos de uma experiência possível. O
uso transcendental consiste no fato de se relacionar a coisas em geral e em si
mesmas.
Como todo conceito
requer tanto a forma lógica quanto um objeto ao qual se relacione, e como a
recepção do objeto supõe obrigatoriamente a intuição empírica, isto é, a
experiência, segue-se que o sentido de qualquer conceito do entendimento só se
assegura pela união dessas duas exigências. Kant o demonstra pelo exame de
conceitos como o de magnitude, realidade, substância, causa, comunidade, de
modo que geralmente se opõe a possibilidade lógica, que é apenas o
representar-se de algo que não se contradiz a si mesmo e se restringe ao
conceito, e a possibilidade transcendental que pertence às coisas, como
correspondência possível do conceito ao objeto. O entendimento puro restringe
seus conceitos ao uso empírico, pois nada mais podem fazer do que antecipar
formas da experiência possível. É somente nos limites da sensibilidade que
podem ser dados objetos. Resta que a subsunção do objeto à forma supõe ainda a
intervenção da capacidade de julgar, completando assim a efetividade de toda
síntese a priori.
Kant mostra que se
não podemos dividir os objetos mesmos em noumena e phaenomena, o
mundo em mundo dos sentidos e do entendimento, podemos opor os conceitos
conforme forem sensíveis ou intelectuais. Os conceitos intelectuais se
restringem como não objetivamente válidos. No entanto, o conceito de noumenon
se vê irredutivelmente inevitável, ao mesmo tempo que indeterminável quanto ao
objeto. Portanto, esse conceito permanece como problemático. Mas como os
conceitos do entendimento puro podem concernir aos princípios da exposição dos
fenômenos, restando vazios na exterioridade da experiência, pode-se propor que
aquilo que na história da filosofia se circunscrevia sob a designação “ontologia”
pode agora se compreender como âmbito de uma analítica do entendimento. O que
se insere nessa analítica não faz o conhecimento progredir, isto é, não
constitui o ato de conhecer, mas apenas expõe o modo pelo qual qualquer
conhecimento é possível. Somente ligados entendimento e sensibilidade algo como
conhecimento existe.
Ora, a referência à
história da filosofia, desse trecho, se relança no apêndice que trata da
anfibologia dos conceitos de reflexão, pois aqui trata-se, inicialmente, de uma
oposição entre investigação , que porta sobre a certitude do conceito, por
exemplo, se realmente entre dois pontos só pode haver uma linha reta, e
reflexão , que se exerce sobre a fonte ou capacidade do conhecimento sob a qual
o conceito se representa. Mas essa reflexão praticada permite a Kant um reexame
da história da filosofia.
A reflexão
transcendental porta sobre representações, sobre as relações possíveis entre os
conceitos e o estado da mente. É o ato pelo qual se aproxima a comparação das
representações com a capacidade cognitiva, de modo que se possa estabelecer se
tais representações se comparam enquanto pertencentes ao entendimento puro ou à
intuição sensível. As relações nas quais os conceitos podem encontrar sua
co-pertinência em um estado da mente são: identidade e diversidade,
concordância e oposição, interno e externo, determinável (matéria) e
determinação (forma).
As relações
estabelecem a espessura entre o empírico e o transcendental em relação ao regime
do objeto. O objeto empírico (fenômeno) porta a diversidade, a oposição, só
pode apresentar como interno um complexo de relações com o que, no entanto, lhe
é externo. O objeto do entendimento puro é somente identidade, concordância e
não possui nenhuma relação com qualquer coisa diversa.
Quanto à relação de
determinável e determinação, a reflexão transcendental permite inverter o que
se vinha geralmente postulando ao longo de toda a história da metafísica
ocidental, pois Kant mostra que sob vários aspectos sempre se havia pensado a
matéria como precedendo a forma, quando o que a crítica mostra é que a forma é
algo originariamente dado, isto é, sua existência não depende de uma matéria
sobre a qual se exerceria como capacidade de ordenação, mas é ela mesma
fundamento, informando a intuição pressuposta à possibilidade da matéria se
realizar como percebido. Assim reverte-se também a suposição milenar da
impureza da sensibilidade, sua confusão e obscuridade, frente à clareza
reservada ao entendimento puro.
A reflexão
transcendental poderia assim parecer restringir o seu caráter historicamente
reversivo à apresentação da relação entre matéria e forma, mas Kant utiliza
exemplos, na exposição de cada relação, que iluminam esse mesmo viés de
reversão a propósito de cada um deles. Heideger localiza precisamente aqui o
momento decisivo da insurreição, pois o que se desvela assim é a essência do
obstante (o objeto / Gegenstand) na sua obstantividade, (a objetividade
/Gegenständlichkeit), agora determinando-se como “novo obstante verdadeiro”,
pensado como o não-condicionado. Esse texto, que pareceria um simples adendo ao
corpo da Crítica, se preenche com uma “perspicácia”, como “tomada de posição”
que são essenciais em relação à tudo o que precede na história da metafísica.
O contraponto aqui é
Leibniz, pois Kant se vale constantemente de suas posições para mostrar como o
transcendental opera a reversão, essas posições sendo sempre deriváveis do
postulado ingênuo da razão que ignora a espessura, o fato de que as fontes são
duas, não apenas uma. Assim Leibniz pôde propor a indiscernibilidade como
princípio, no âmbito mesmo dos fenômenos; supôs que o conceito de mônada, como
seres simples dotados de capacidade representativa, pudesse abranger todo o
existente, como se dos fenômenos pudessem ser abstraídas as relações externas
sem que isso exaurisse sua possibilidade de ser representados; conceituou o
espaço e o tempo na dependência das supostas coisas mesmas, as mônadas,
respectivamente, através da relação dessas substâncias e da conexão de suas
determinações recíprocas.
Particularmente sagaz
é realmente o modo como Kant, estabelecendo o alcance da reflexão
transcendental, no mesmo lance limita a filosofia de Leibniz ao domínio
pré-crítico. Mas aqui esse movimento crítico do que precede envolve também a
posição oposta a Leibniz, abrangendo a ele e àquilo contra o que seu pensamento
se voltou, a saber, o sensualismo de Locke.
O que a reflexão
transcendental tem a fazer é determinar a que capacidade cognitiva pertence o
conceito, seu “lugar transcendental”, a posição que lhe pertence, seja na
sensibilidade, seja no entendimento. A tarefa abrange assim uma tópica
transcendental. A anfibologia consiste, pois, como ilusão, na comparação pura
de conceitos, como se equivalessem todos por sua natureza, sendo que o
mal-entendido a que conduz se põe ora como redução de todo real conceituável ao
entendimento, no exemplo do “sistema intelectual do mundo”(Leibniz), ora como
sensualização do mundo como reflexão da intuição sensível (Locke).
A tópica permite
portanto, situar entre essas duas fontes a co-pertinência do conceito de modo a
estabelecer sempre a irredutibilidade entre noumena e phaenomena, já que a
simples comparação lógica, o ater-se a apenas uma fonte sem compreender a
duplicidade originária, equivale a tomar a representação pela coisa em si.
Assim vemos que,
quanto à relação de identidade e diversidade, o mesmo só vale quanto ao
entendimento puro, bastando que dois fenômenos sejam dados à intuição para que,
mesmo que subsumidas ao mesmo conceito, tenham que ser tomados como duas
representações irredutíveis, dois objetos, não o mesmo, pois a irredutibilidade
entre eles se relaciona à do espaço intuído em que somente podem ser dados, por
isso refutando-se o princípio leibniziano dos indiscerníveis. Quanto à
concordância e oposição, somente no entendimento se pode pensar que toda a
realidade possa ser convergente, já que na realidade da experiência sempre algo
pode anular o efeito do que precede ou se lhe opõe (x-x = o). O fenomênico não
pode ser dado como se dele se pudesse abstrair as suas relações espaciais,
externas, refutando-se assim o conceito de mônadas. E vimos que quanto a
matéria e forma trata-se de reverter a precedência da matéria.
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A leitura de
Heidegger inicialmente se concentra na duplicidade do termo Reflexão assim como
utilizada nesse texto por Kant. Pois temos (a), que a reflexão é “já
essencificiante” (Nietzsche II, p. 375), isto é, inexpressa nas
re-presentações. Aqui, sem dúvida, poderíamos fazer intervir o importante papel
da reflexão no kantismo, seja na teoria do conhecimento, seja na articulação
entre os domínios crítico e prático, seja naquilo que suporta ambos os aportes
precedentes, isto é, aí mesmo onde se expõe a significação e as implicações do
ato de reflexão, a saber, a teoria do juízo. No entanto, o texto heideggeriano
parece inclinar-se mais, no que se refere ao inexpresso na representação, para
uma especificidade do termo reflexão assim como relacionado a “conceito” na
terminologia “conceito de reflexão”.
Mas também, na Tese
de Kant Sobre o Ser e aqui temos (b), a reflexão é especialmente efetuada
como transcendental. Ela atenta aos estados e relações da representação pelos
quais se torna delimitável o ser do ente, como reflexão sobre as ramificações
no lugar do ser. Assim, a posição do ser-possível se relaciona com as condições
formais da experiência, logo, com o conceito de forma. Na posição do
ser-atual se expressam as condições materiais da experiência, logo, relacionando-se
com o conceito de matéria. Esses conceitos, forma e matéria, auxiliam a
determinar a relação de reflexão, sendo eles mesmos designados conceitos de
reflexão, de modo que o que eles determinam são os lugares do ser como posição.
Mas tais conceitos supõem, por sua vez, para serem determinados, uma reflexão.
Aquilo que Heidegger considera como a mais avançada determinação do ser como
posição se realiza numa reflexão sobre a reflexão, um modo especial de
pensamento, que se faz como pensamento do pensamento
A palavra-guia aqui é
Ser e Pensar. Pois o que se delimita pela reflexão transcendental é
sistematizado a partir dos pares conceituais de modo que cada um relança o
outro, sendo que sua sistematização depende da irredutibilidade entre as
posições, da fundamentação da oposição do possível e do atual, já que o atual
está além do possível, como o exterior está para o interior, como o que suporta
a desconveniência está para a pura conveniência, como, em geral, o que supõe a
sensibilidade está para o que pertence apenas ao entendimento.
Ora, o que se torna
essencial aqui é a relação da sensibilidade com o entendimento assim como
estrutura da subjetividade do ser humano onde o ser como posição se situa pela
reflexão. O entendimento, em Kant, é sempre pensado em função de sua
espontaneidade originária, aquilo que Hume compreenderia como “natureza humana”,
isto é, algo não pressuposto por nada na experiência, na exterioridade. A
sensibilidade é uma capacidade receptiva de percepção, relacionada de modo
fundamental com a exterioridade, com a “natureza” física ou experiência. A
reflexão se compreende agora como acesso à subjetividade.
A posição mostra-se
mais fundamentalmente no par conceitual matéria e forma pois sua relação se
interpreta estruturalmente conforme a subjetividade, ela mesma estruturada pela
relação do que se apresenta como pura espontaneidade e como receptividade.
Assim, a reflexão sobre esse par de conceitos de reflexão se orienta não para
os objetos, e sim à relação da objetividade dos objetos com a subjetividade do
sujeito. A palavra-guia, Ser e Pensar, ilumina essa imbricação do mais
objetivo, a objetividade mesma, com o mais subjetivo, o que se oculta na
aparente simplicidade do Eu Penso.
A imbricação dos dois
registros heideggerianos que estamos examinando se performatiza nesse momento
no próprio texto de A tese de Kant sobre o ser, mostrando que ambos
devem ser lidos conjuntamente para se compreender o movimento conceitual de
Heidegger.
Após mostrar o
sentido da palavra guia Ser e Pensar manifesto no conceito de ser como posição,
Heidegger se propõe compreender a ambiguidade que, apesar de tudo, permanece aí
envolvida. Mas para isso parece ser preciso antes inserir na interpretação de
Kant do ser a voz do passado metafisico. Assim Heidegger se volta sobre o texto
de Kant, citando o pré-crítico “Argumento” para uma “demonstração da existência
de Deus”, e sobre o seu próprio texto, citando o Nietzsche II, onde se
expõe a história metafísica do termo Existência, dos gregos a Nietzsche.
Na tese de Kant
sobre o ser Heidegger esclarece que o sentido que o texto kantiano supõe no
seu uso do termo “existência” é aquele que o Nietzsche II localiza na
mutação da energeia em actualitas, pois agora a exsistentia é
o actus purus como pura essência da atualictas, ato que põe aquilo que
con-siste no que e-xiste (quo res sistitur). Ora, a articulação
dos dois textos se deixa também aproveitar se inserimos, anteriormente à
apreciação histórica tanto do existir quanto do representar, da tese de Kant
sobre o ser, o modo como o Nietzsche II desenvolve o tema da duplicidade da
reflexão. Pos aqui trata-se de ver que, opondo-se ao sentido da reflexão já
essencificiante, a reflexão especialmente efetuada compõe ela mesma três
rubricas: enquanto desarticulação lógica ou comparação pura, sem relação ao
objeto (a folha é verde); a comparação objetiva como conexão de representações
em sua relação ao objeto (o sol aquece a pedra); e c) o “como” de “b”, ou seja,
o estabelecimento do transcendental, pelo que qualquer decisão acerca da
objetividade do objeto se desenvolve como decisão sobre a possibilidade a
priori de julgamento sobre o objeto, como ele é expressamente re-posto pelas
faculdades de representar. É enquanto objeto que algo se tem como tal na
unidade da intuição e do conceito, a união de ambos sendo condição do pôr e da
consistência do ob-stante.
Assim essas rubricas
assinalam a reversão crítica própria ao kantismo, nada menos do que a revolução
copernicana da filosofia, de modo que “reflexão e objeto e subjetividade” são
agora “interdependentes”. A experiência da reflexão é a experiência dessa
relação, conforme o Nietzsche II. Aqui, porém, já se desenvolve a crítica de
Heidegger à Crítica de Kant, pois a experiência dessa relação pressupõe a
relação ao ente como representação, atualização, o que se possibilitou
historialmente pela conversão da idéia como percepção, verdade como adequação,
pelo que, somente assim, representação se funda na reflexão se por reflexão
entendemos a essência do pensamento, o transcendental, o que evidencia a
importância da Anschauung (intuição) como aquilo que põe a coisa na presença,
acessa o ser presente.
Mas é a Tese de Kant
sobre o ser que maneja de modo mais extenso a crítica pois aqui Heidegger, já
pressupondo a compreensão do que o Nietzsche II registrou, isto é, a revolução
do kantismo, interroga o que Kant jamais se propôs como problema, a saber,
sobre a significação do ser “se a posição se deixa determinar pela estrutura de
forma e matéria”, pela dupla forma do sujeito (proposicional em relação ao
predicado, ontológica em relação com o objeto). O que fala a voz do passado,
nessa significação, é o termo grego “hypokéimenon”, é a interpretação do ser
como presença, o que já de antemão está (presença que dura). O termo se modula
no presente do kantismo, na sua interpretação do ser do ente como objetividade
(realidade objetiva).
Retorna então o texto
sobre a palavra-guia, mas tacitamente o que se relança é aquela indagação:
teria Kant enunciado o co-pertencer de ser e pensar, isso que ficou como questão
desde os gregos? Sem dúvida essa questão é a do “e” (ser e pensar),
Kant não tendo deixado de interpretá-lo. O problemático, deixado como tal pelos
gregos, reside na não sobreposição de igual e idêntico quando se afirmou “Pois
o mesmo é pensar e ser”. Mas a interpretação esclarecedora traduz, conforme
Kant a co-pertinência como relação cuja raiz está no pensamento como ato do
sujeito humano.
No entanto Heidegger
considera enganoso o aceno aproximativo que caracteriza o pensamento como reflexão
da reflexão, esse sendo também o momento de mostrar o sentido da ambiguidade
anteriormente apontada pois, por um lado, a caracterização implica a reflexão
como antecipação do horizonte de elucidação do ser e de suas modalidades como
posição, mas por outro, enquanto reflexão da reflexão, o pensamento é,
inversamente, o órganon (instrumento) da interpretação do ser. O pensamento
está sendo assim considerado ao mesmo tempo o horizonte e o instrumento
interpretativo, de modo que de antemão foi dado o meio que deveria ter sido
esclarecido no movimento de interpretação. Pois se o ser permanece em questão
como o que se ilumina e demora, não se tendo já interpretado como o que tem o
caráter de ser-posto na posição pelo entendimento, como poderia ter sido conceituado
de modo representativo, ao modo de horizonte de antecipação ou estrutura de
objetividade?
Não se poderia
conceituá-lo assim, sendo a presença que se ilumina e demora irredutível ao
caráter de ser posto. Ora, é a maneira de interpretar o ser que é preciso
deslocar, desde seu situamento “lógico” a uma interrogação abrangente do lógos
que se enuncie ao mesmo tempo como indagação sobre o “como” pelo qual o ser “é”
ou vem a ser : indagação sobre o dar-se do ser. Que o ser é o que é, no
sentido de tudo o que vem a ser , o ser é o que dá presença, só podendo
enunciar-se tautologicamente, é verdade, mas por essa limitação franqueando o
que deve ser sempre pensado, não interditando o pensar como resposta prévia
a toda dação.
O que se pode,
entretanto, afirmar acerca da tese de kant sobre o ser é o que permaneceu
impensado na insuficiência de sua interpretação do co-pertencer de ser e pensar
como condição do ser no pensar (transcendental). Mesmo assim a tese permanece
como “o cimo” na paisagem histórico-metafísica, Heidegger estabelecendo-o como
fronteira entre o passado grego, que determinou o ser como presença constante,
e o futuro hegeliano que o estabeleceu como conceito absoluto.
É oportuna a
comparação dessa crítica de Heidegger a Kant com aquela que Deleuze implementa
em Diferença e Repetição. Aquilo que Heidegger identifica como a
interdependência estrutural de objetividade e subjetividade, Deleuze está
situando em termos de Imagem do Pensamento. Assim como Heidegger expõe uma
história do ser como desdobramento metafísico das possibilidades conceituais de
uma identificação prévia do ser com a presença constante, Deleuze desenvolve as
implicações de uma Imagem dogmática, ortodoxa ou moral, do pensamento, que
desde Platão, não cessa de se impor como significação do pensar, ainda que
Deleuze observe com cuidado o que tem se furtado a essas implicações, às linhas
de fuga que nunca deixaram de se lançar como indagações e protestos, mas também
como atividade conceitual criadora.
A convergência do
pensar com o verdadeiro (afinidade ou conformidade) se expressa concedendo ao
significado de pensar a recognição, a identificação do objeto. Essa imagem é
moral porque pensar, definido como identificar o objeto, pode ser visto como o
exercício natural de uma faculdade que possui uma boa natureza, uma boa
vontade. Platão localizava o Bem como idéia das idéias, mostrando assim que o
verdadeiro está garantido moralmente nas próprias “coisas” desde que
objetivadas no pensar, não selvagemente deixadas à sua própria heterogeneidade,
à sua própria irredutibilidade consigo mesmas no mundo da mudança e do vir a
ser. Lugar da fixidez, da identidade, o bom senso é a coisa do mundo que melhor
se reparte, todo mundo sabe o que significa pensar.
A recognição se
define como o exercício concordante de todas as faculdades sobre um objeto
suposto como sendo o mesmo, tocado, visto, lembrado, imaginado, concebido...
como no exemplo do pedaço de cera de Descartes: o pensamento sabe que é o
mesmo, ainda que a cera se derreta, mude de aspecto, etc. Deleuze mostra que
esse modelo de pensamento é comum a Platão, Descartes e Kant. O problema aqui é
que o modelo da recognição supõe-se numa ruptura com a doxa, a opinião, mas na
realidade conserva a sua forma, apenas abstraindo o conteúdo, ou seja, ele
pressupõe como “natural”, conforme Deleuze, “deixa impensado”, como seria a
expressão de Heidegger, aquilo mesmo que fundamenta toda a teorização como “filosófica”,
a saber que é que significa pensar, como se poderia, partindo dessa questão,
colocar o problema do acesso ao Real.
Deleuze traça os
postulados dessa imagem dogmática do pensamento: princípio da Cogitatio natura
universalis, o ideal do senso comum, o modelo da recognição, o elemento da
representação, o “negativo” do erro, o privilégio da designação, a modalidade
das soluções, o resultado do saber. No percurso da exposição de cada postulado
e daquilo que se imbrica em cada caso Deleuze repõe a história da filosofia,
sendo que aqui nos importa ressaltar as referências a Kant. Quanto a isso, Deleuze
comparte sua crítica em três frentes: a doutrina das faculdades (senso comum),
o Eu Penso (Representação), e, mais à frente, o estatuto do problemático
(teoria das idéias).
Assim, conforme
Deleuze, a “ambiguidade da crítica” de Kant está na sua pretensa reversão do
dogmatismo, pois ele teria mostrado a insuficiência do erro, concebido como
extrínseco e devido ao comprometimento sensível, o alcance crítico devendo
portar mais propriamente sobre a ilusão como algo interno à própria razão – a
tarefa da filosofia consistindo precisamente na imposição de limites. No
entanto, como Kant jamais questionou os limites do senso comum, sua aptidão ao
verdadeiro enquanto conforme à objetividade, o que a crítica empreendeu foi a
multiplicação dos sensos comuns relacionados aos interesses “naturais” do
pensamento racional. Permanece havendo um senso comum em geral, resultando da
colaboração das faculdades, mas de modo que, como a colaboração se faz sob a
forma do Mesmo ou o modelo da recognição, a cada vez uma das faculdades é a
ativa que se encarrega de fornecer essa forma ou modelo com o que as outras
colaboram: imaginação, razão e entendimento colaboram no conhecimento, formando
o senso comum lógico, o entendimento sendo nesse caso a faculdade legisladora;
no senso comum moral é a razão que legifera, no senso comum estético são todas
as faculdades que entram em um livre acordo.
O que se torna
ilusório é somente a confusão de interesses, os domínios se imbricando uns nos
outros, sendo o que a crítica tem a limitar. Mas a moral, a reflexão e a fé não
são postos em questão, julgando-se que corresponde aos interesses naturais da
razão. Ora, o postulado da recognição se torna introdutório em relação ao da
representação, mais geral, se observamos o papel do “Eu penso” como princípio
generalizante da representação. Deleuze situa os elementos da representação :
identidade no conceito, a forma do Mesmo na recognição; oposição na
determinação do conceito, supondo a comparação dos predicados com os opostos;
analogia no juízo, relação do conceito com o objeto; semelhança no objeto, em
si ou relativamente a outros conceitos, supondo uma continuidade na percepção,
igualdade consigo mesmo. Esses elementos solicitam, cada um particularmente,
uma faculdade, mas estabelecem relações entre elas conforme o senso comum
(semelhança, por exemplo, entre uma rememoração e uma percepção). O Eu penso
atua então como fonte dos elementos e unidade das faculdades (eu concebo, eu
julgo, eu imagino e me recordo, eu percebo), estabelecendo o mundo da representação
em geral.
Mais oportunamente
desenvolveremos o exame do estatuto do problemático, pois sobre essa crítica
Deleuze irá implementar a sua própria teoria das idéias, de modo que seria
demasiado extenso examinar no todo por agora esse tema. No entanto, é nesse
âmbito que se sobrepõem as críticas de Deleuze e Heidegger, de modo que
deveremos focalizar aqui o que se pode destacar proveitosamente a respeito.
Ora, historicamente, conforme Deleuze, a filosofia vinha prolongando a ilusão
natural que consiste em decalcar os problemas sobre as proposições, de modo que
a verdade de um problema pareça estar na possibilidade dele receber uma
solução, por exemplo, como se fosse bastante dispor adequadamente os termos do
problema (dialética) para que se evidenciasse naturalmente o domíniod e sua
solução. No entanto, Kant teria inovado justamente aqui, aopropor o estatuto
problemático das Idéias da Razão na sua irredutibilidade aos conceitos do
entendimento, esses sim, adequados à síntese dos dados da experiência.
Mas Kant teria apenas
levado a forma da possibilidade de solução, como domínio da verdade do
problema, ao transcendental, refletindo sobre o uso legítimo das faculdades.
Círculo vicioso, conforme Deleuze, pois o fundamento se torna um simples
condicionamento exterior, ocultando assim o que se exige expressar, a
característica interna do problema, o elemento imperativo intrínseco que decide
de sua verdade e falsidade, isto é, aquilo que o problema produz como
verdadeiro no pensamento : gênese da verdade, pois as soluções são fundadas nas
condições do problema, não são indiferentes à sua gênese, e o que se trata de
avaliar é o que se deriva da posição do problemático – um pouco como Heidegger
pensa o ente já numa situação do Ser, de modo que “existência” é como uma
variável do devir pela qual o ente pode vir a ser.
E de fato, para
mostrar que o pensamento não se supõe como adequação ao dado, senso comum
(ratio ou cogitatio natura universalis), Deleuze pede que se lembre dos “textos
profundos” de Heidegger, que mostram que esse pressuposto limita o pensamento à
opinião, como sua possibilidade abstrata. O pensar precisa ser engendrado no
pensamento devido a algo que força a pensar, logos-hieróglifo, aquilo
que permaneceu impensado ou impensável, bem inversamente a decalcar o
transcendental sobre o empírico. Mas Deleuze supõe que Heidegger conserva o
tema de uma afinidade ou homologia entre o pensar e o que está para ser
pensado, parecendo-me aqui podendo-se repor a temática do “historial”, mas
também a situação existencial do ser humano, o modo como veremos Heidegger
conceituar o transcendental, pois Deleuze considera que se ele desloca a imagem
do pensamento portando a crítica sobre a estrutura da objetividade, Heidegger
conserva no entanto seus pressupostos subjetivos, a compreensão pré-ontológica
implícita do ser.
Independente do que
realmente afasta a conceituação do devir deleuziano em relação à inserção
ontológica da diferença de ser e entes própria a Heidegger, há uma convergência
notável no que tange à crítica do dogmatismo como restando impensado no projeto
kantiano da Crítica.
Aparentemente,
conforme o texto da Introdução à Metafísica, o kantismo teria
estabelecido de um lado o ser como posição do ente, e o ente, como o que é
experimentável para as ciências (naturais e humanas), mas de outro, para
resgatar a função normativa do Dever– Ser, ele a teria fundado no si – mesmo,
como imposição de valor. No entanto, o Nietzsche II põe entre parênteses “o
conceito de ser em Kant” após “Realidade e vontade” como título do trecho que
examina a relação de ser, consciência e reflexão, relação determinante do
abandono do Ser desvinculado da verdade do ente.. Ora, na rubrica Realidade e
vontade, o ser em Kant se enuncia conforme três sentidos: o da objetividade-certitude
enquanto representatividade da experiência, realidade da liberdade enquanto
coisa em si, isto é, vontade, e impressionabilidade da sensibilidade enquanto
ação exercida, eficaz.
Se bem que Heidegger
enuncia como algo a considerar se essas determinações do ser estão ou não
podendo ser pensadas unitariamente, parece claro que ele propõe a convergência
de racionalismo e empirismo, algo que poderia ser relacionado ao kantismo, como
manifestação convergência (reencontro) respectivamente, da objetividade (ens
certum) e da realidade (impressio), na determinação da realidade como real
eficaz. Já a vontade só pode se representar eficazmente o valor desde que
esteja sendo pensada numa estrutura unificada, o ser humano racional.
Realidade, como termo kantiano, se reveste assim de dois aspectos, seja
relativo à sensibilidade, seja à coisidade, ambos realidade do ser humano
enquanto eficiência e vontade, vis, actus. Portanto, “o ser é desprovido de
problemática”, logo, parece-me ser lícito ver aqui o ponto de junção da
crítica, a motivação da unidade do projeto kantiano.
Ora, seria preciso
agora ver em que essa unidade me parece ser efetivamente reversiva no interior
da história da filosofia. O que pode ser demonstrado, a meu ver, com relação a
dois pontos essenciais. Inicialmente a reversão da metafísica que se torna
ciência do ser humano, mas “ciência” no sentido de uma redefinição da própria
tarefa da filosofia na ambiência de um afastamento histórico irreversível entre
a filosofia tradicional e os novos saberes especializados. O projeto kantiano
porta assim sobre esse momento de transformação epistêmica e é determinante ao
que se deriva daí, inserindo-se assim o aporte foucaultiano , pelo que essa “ciência”
introduz o postulado antropológico que dominará o Saber contemporâneo. Mas por
esse mesmo viés, também reversão da metafísica no que se relaciona ao estatuto
dos seus objetos: Deus, o mundo, a alma. Quanto a isso, Deleuze soube mostrar
com precisão o alcance da crítica, a “transformação profunda”, introduzida por
Kant(La philosophie critique de Kant, p. 90). Mas é aqui mesmo que
reencontraremos o tema da história. Pois ao examinar a dependência dessa
transformação com o papel da Reflexão se evidenciará a transição da faculdade
de conhecer à faculdade de desejar, do interesse especulativo ao interesse
prático, e a questão da História como questão da realização da liberdade na
natureza. Será necessário então retornar a uma visão de conjunto do projeto
kantiano
orientada pela
Subjetividade como nexo de sua unidade.
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A exposição do
pensamento kantiano é extensa, abrangendo desde a década de 50 do século XVIII
até o início do século XIX. Geralmente podemos visar duas fases nítidas, já que
o “kantismo” se popularizou como doutrina Crítica. Assim, resta a indagação
sobre o Kant anterior à década de 80, quando surgiram as obras que consagraram
essa versão mais comumente conhecida de sua filosofia.
Quanto a essa fase
anterior, considera-se o percurso de Kant através de seus abundantes escritos,
de modo que se podem destacar indubitavelmente os temas, e nestes as ênfases de
seu pensamento, assim como as influências. A tese do ser como posição
desempenha aqui um papel central, envolvendo a problemática da necessidade e da
causalidade, assim como vinha se oferecendo à controvérsia nessa época, do que
se desdobra a questão da moralidade, do ato humano relacionado ao conceito de
liberdade. Consequentemente se apresenta o problema da relação da moral,
compreendendo-se na região do sentir, com o Intelecto, nas regiões do conhecer
e do pensar, como das relações entre liberdade e natureza. As obras de Leibniz
e Wolff fornecem o referencial dessa problemática. Rousseau e Hume exercem,
porém, influência considerável, desde que o racionalismo de Leibniz e Wolff se
apresenta, precisamente, como o alvo crítico-avaliativo tematizado
expressamente por Kant.
Mas utilizando os
registros da História da filosofia de Bréhier e da tese de Marco
Zingano, Razão e história em Kant (1989), vemos que desse percurso há interpretações
que se contrapõem conforme as ênfases que se prefere destacar.
Pode-se compreender
as soluções do Kant desse período mais como provisórias, como Zingano, ou mais
como introdutoras do pensamento crítico posterior, como Bréhier. Mais profundamente,
em comum temos que Kant, nesse período, se aproxima dos temas filosóficos que
convergem na polêmica do tempo entre racionalismo e empirismo, de um lado e de
outro chocando-se com as limitações teóricas dessas correntes, os problemas que
deixam irresolvidos: ou que ignoram ou que escondem. Mas assim Bréhier vê o
Kant dessa fase como pré – crítico, no sentido de um empirista que
deverá desenvolver posteriormente a perspectiva transcendental para
salvaguardar o conhecimento no âmbito da experiência, enquanto Zingano o mostra
mais como
pré – crítico
, no sentido de um racionalista que deverá se encarregar das questões
relacionadas com os limites do entendimento.
Bréhier mesmo
testemunha que a interpretação do Kant anterior à obra crítica como racionalista
é a mais comum. No entanto, pensa que não se adequa inteiramente ao percurso
verificado pelos escritos dessa época. Em todo caso, Bréhier admite algo como
uma aproximação de Kant ao racionalismo na década de 70, mas acentua a pertença
de Kant, mesmo aí, à tendência geral do iluminismo contra a discussão lógica,
pela urgência do problema da experiência, seja no domínio do conhecimento, seja
naquele do sentimento e da moral.
Para compreender os
problemas que Kant enfrenta nesse momento inicial de seu exercício filosófico,
é fundamental situar o tema da necessidade assim como determinado nessa época.
Abbagnano desenvolve a referência desse tema mostrando que o conceito se
reveste de duas inserções históricas precisas, a antiga e a moderna.
Na inserção antiga
temos dois modos de propor o nexo de necessidade, conforme desenvolvido por
Aristóteles: a) o sentido lógico, do constrangimento que obriga à conclusão a
partir das premissas, que é o sentido fundamental do conceito. O importante é
que nesse tipo de necessidade os termos não podem ser diferentes do que são
como quando se afirma que em um triângulo os três ângulos são iguais a dois
retos. Aqui a necessidade é “formal”, “natural e absoluta”, conforme a
terminologia de São Tomás. b) os sentidos de condição, concausa de um
efeito, por exemplo, da saúde pelo remédio, ou de força que impede certa
ação. Agora a necessidade é hipotética, aquela que se encontra nas
coisas, em sua matéria. Aristóteles também observou a oposição entre o que é
necessário em virtude de uma causa externa e aquilo que é a causa de sua
própria necessidade como as coisas que se consideram como simples, aspecto
especialmente ressaltado nas filosofias de Avicena e Spinoza.
Na inserção antiga
todos os sentidos da necessidade podem ser reduzidos ao fundamental. Se essa
conceituação e suas distinções permaneceram inalteradas na filosofia até a
modernidade, a transição ocorre com Leibniz que opôs de modo irredutível o que
designou como necessidade hipotética e necessidade absoluta. A necessidade
hipotética compreende: a) a física, ordem da natureza: e b) a moral, escolha do
melhor conforme o critério da sabedoria. A necessidade absoluta é simplesmente
a que compreende as verdades eternas, isto é, aquilo cujo oposto implica
contradição, o que ela afirma contendo a impossibilidade do contrário.
Ora, assim Leibniz
limitou a necessidade absoluta apenas às verdades matemáticas e algumas
verdades metafísicas, irredutivelmente contrapostas ao tipo de verdades de
fato, que se supõem como estando no âmbito da contingência mas que podem ser
garantidas no âmbito da necessidade hipotética, desde que Deus as previu.
Leibniz baseia finalmente a necessidade física na moral, já que a escolha das
leis da natureza se faz por Deus conforme o critério do melhor.
O século XVIII recebe
o conceito de necessário pelo texto de Leibniz. Wolff, cuja influência nessa
época é notável na Alemanha, utiliza os termos de Leibniz, mas torna a
necessidade física independente da moral, e de modo geral propõe constituir uma
Ontologia como ciência de que se derivam todos os outros conhecimentos.
O que Wolff realiza,
com esse intuito, é a evolução do princípio de razão leibniziano ao princípio
de contradição como sendo o de possibilidade de todo o existente, expressamente
repondo a doutrina do tomismo quanto ao tema da necessidade, pois assim
volta-se à identificação do necessário com o sentido formal, fundamental, do
termo, ainda que mantendo a noção de necessidade moral. Wolff, com efeito,
conforme Bréhier, define a filosofia como ciência de todas as coisas possíveis,
uma vez que o possível é agora o não-contraditório. Por esse meio a ontologia,
conjunto de proposições válidas para todos os objetos, pode não apenas
decompor, mas também demonstrar os predicados do ser: os princípios de inteira
determinação das coisas e da matéria como extensão e agregado de substâncias
simples, de que se derivam: a) a cosmologia, pois se o mundo é totalidade de
seres finitos, em relação uns com os outros, ele se compõe de corpos extensos e
móveis, átomos sem grandeza ou mobilidade, mas contendo o princípio de mudança;
b) a psicologia racional, pois de que a alma é força capaz de se representar o
mundo, se deduz que possui o conhecimento, representações confusas ou
distintas, e desejo ou tendência à renovação das representações. O desejo é
comandado pelo prazer (conhecimento da perfeição) ou pela dor (conhecimento de
uma imperfeição); c) a teologia natural, que afirma a existência de Deus como
necessária já que é fundamento da possibilidade dos outros seres que não
possuem em si sua razão de ser (prova pela contingência). A finalidade da
criação, supondo-se a natureza de Deus como ela é, só pode ser a existência de
criaturas racionais, os seres humanos, aptos a honrar e adorar o criador.
Essas premissas permitem
sustentar as perspectivas religiosa e moral inteiramente inseridas na exigência
racional, isto é, desvinculadas da revelação ou da fé. Wolff é particularmente
influenciado pela cultura chinesa, introduzida na Europa pelos escritos dos
missionários jesuítas. Ele compreende Confúcio como exemplo de uma moral de
acordo com a razão natural, pela qual se podem postular regras de ação
claramente estabelecidas apenas pelo intelecto. Assim ele lança o imperativo
moral como sendo agir de modo a tornar a nós e a outrem o mais perfeitos,
abstendo-nos do oposto, regra que não admite outra autoridade que a consciência
racional do que somos.
Bréhier assinala,
dentre as obras listadas no período pré-crítico, inicialmente três títulos que
resumem a teoria física de Kant (Von der wahren Schatzung von der
lebendingen Kräften, 1749; a Monadologia physica, 1756;
e o Primeiro fundamento da diferença das regiões do espaço, 1768)).
Aqui vemos uma filosofia da natureza que atribui a cada corpo uma força ativa
independente da extensão, essa monadologia situando-se entre Leibniz e Newton,
próxima de Boscovitch, pela qual a mônada representativa do leibnizianismo se
torna um centro de forças atrativa e repulsiva, preenchendo um espaço finito
absoluto, não pela pluralidade de suas partes mas por sua relação com as outras
mônadas.
O texto importante
desse período, porém, é a tese latina Principiorum primorum cognitionis
metaphysicae nova dilucidatio, de 1755, que Kant apresentou na faculdade de
filosofia de sua cidade, Könisberg. Bréhier , de modo bastante conveniente à
sua proposição do Kant dessa época como inclinado ao empirismo, não se detém
particularmente aqui, mostrando apenas que a tese se endereça contra Leibniz e
sublinhando os dois aspectos principais da argumentação, a saber, a crítica da
distinção entre necessidade absoluta e necessidade hipotética e, como consequência,
o fato de que tal pressuposição conduziria a subsumir a liberdade ao
determinismo, o que se mostra como contra-senso.
Em Zingano as
implicações desse texto são bem mais desenvolvidas e articuladas ao conjunto da
obra pré-crítica. A referência é Wolff, sob crítica de Crusius, que Kant
pretende em alguns aspectos resgatar mesmo aceitando certos traços dessa
objeção. Assim, inicialmente, Zingano mostra que Kant fundamenta todo o
conhecimento pelo princípio de identidade. Quanto ao princípio de contradição,
enquanto princípio da impossibilidade, Kant estabelece sua circunscrição ao que
não pode ser predicado, enquanto a vigência do princípio de identidade se estende
a tudo sobre o que se pode predicar algo. Em conexão com o conhecimento, o
princípio de contradição deve subordinar-se ao de identidade.
Quanto à predicação,
Kant a estabelece como determinação, a razão sendo o que determina um sujeito
por relação a um predicado e havendo dois modos dessa determinação: a) a razão
anteriormente determinante responde à questão “por que” (cur),
designando o ser ou devir, a razão de ser. Conforme o exemplo proposto
por Kant, atribuindo-o como tese a Descartes, a razão de ser da transmissão de
luz é a elasticidade dos glóbulos do ar; b) a razão posteriormente determinante
responde à questão “o que” (quod) e designa o conhecimento do
determinado, sua razão de conhecer. Nesse exemplo, são os eclipses dos
satélites de Júpiter que fornecem a razão de conhecer da propagação da luz.
Kant, aceitando a
crítica de Crusius acerca da ambiguidade do termo “suficiente” , observa como
consequência da oposição efetivada que o princípio de razão deve ser, mais
precisamente, dado como “determinante”. Afirmar que uma sentença é verdadeira é
determiná-la, ou seja, excluir o predicado oposto conforme uma razão, seja
anteriormente ou posteriormente determinada. Mas se a razão determinante se
torna a fonte da verdade, isso implica a necessidade de se ter uma razão
anteriormente determinante, pois “afirmar o que de algo implica
investigar o seu porquê” (Razão e História em Kant,
RHK, p. 22).
A intenção da tese de
Kant, porém, é defender a validade do princípio de razão, antes suficiente,
agora determinante. O problema se desdobra então, abrangendo a oscilação entre
determinismo e liberdade. Aceitar o princípio significa afirmar que tudo o que
ocorre está anteriormente determinado, a causa última da série em que consiste
esse mundo sendo Deus. Ora, assim os nossos atos dependem do destino que por
sua vez se deriva de Deus. Vimos que Wolff havia desvinculado necessidade moral
e necessidade física, mantendo, no entanto, a oposição de Leibniz entre o
hipotético e o absoluto. Kant recusa essa solução, pois para ele não pode haver
distinção entre duas espécies de determinação, pelo que algo poderia seria mais
ou menos determinado. Assim, a necessidade moral deve ter completa
determinação, sendo porém de natureza complexa, pois supõe que à determinação que
o entendimento representa se acrescenta uma inclinação da vontade como o nexo
necessário que decide à ação.
Zingano mostra por
esse meio que a argumentação de Kant consiste na manutenção no mesmo plano de
todos os eventos, seja o agir humano, seja os fatos da natureza, de modo que o “a
mais” da ação moral, a inclinação da vontade, a torna apenas algo mais
complexo, mas não diferenciado dos acontecimentos naturais, o que evidencia a
irredutibilidade dessa posição àquela que será a doutrina crítica do kantismo (RHK,
p. 28). Mas Kant já pretende também salvaguardar, pela determinação
completa, a liberdade do agir humano, afugentando a indiferença que incide
sobre a moral desde que se afirme o determinismo. Assim, se Zingano pôde
assimilar essa posição como racionalista, isso se deve a que Kant “assimila” a
razão à causa, o porquê dos seres contingentes a Deus, que determina o seu vir
a ser (RHK, p. 23).
A liberdade do agir
humano se propõe aqui como espontaneidade que se acrescenta à ordem das
coisas, definida nos termos de uma ação que procede de um princípio
interno, uma decisão de agir ou abster-se que se impõe desde que existe
uma relação entre o objeto de inclinação e as representações feitas pelo
entendimento. A razão interna inclinante que se acrescenta à determinação das
coisas é sempre o que conduz à decisão, mesmo que não de modo inteiramente
consciente.
Zingano acentua a
irredutibilidade desse racionalismo kantiano ao âmbito da crítica destacando da
tese apresentada conceitos que deverão ser nominalmente mantidos, mas mostrando
em quê seu valor depende do contexto. Assim, a oposição entre razão de ser e
razão de conhecer, tanto quanto a noção-chave de espontaneidade, que
desempenham funções importantes no cenário da Crítica da razão prática, estão
nesse momento sendo utilizados de um modo não apenas distanciado, mas
efetivamente avesso ao sistema crítico posterior.
Comprovando o
racionalismo dessa fase, Zingano observa que na tese ainda ocorre uma afirmação
de Kant cuja importância deverá ser evidenciada na referência que lhe segue, a
saber, o texto “Der einzig möglich Beweisgrund zu einer Demonstration des
Daseins Gottes (sobre o único argumento possível para a demonstração da
existência de Deus, 1763)”. Essa afirmação incide sobre a impossibilidade de
sustentação da causa sui como de algo que possui a razão de sua própria
existência, pois desde que a noção de causa é anterior à de efeito, a
mesma coisa seria anterior e posterior, o que é absurdo. Na tese, a negação da causa
sui só visa, como corolário, que a existência necessária de alguma coisa
não se deve a uma razão anteriormente determinada, mas sim à impossibilidade do
seu oposto.
Ora, ao examinar o
problema da prova da existência de Deus, Kant começa por negar que se possa,
como o havia proposto Descartes, deduzir analiticamente a existência a partir
de um conceito pensado como possível, isto é, que se possa demonstrar
racionalmente uma existência, o que conduz Bréhier à interpretação de um Kant
anti-racionalista.
Zingano mostra que a
consequência da negação da causa sui se relaciona apenas, é verdade,
enquanto impossibilidade do oposto de um ser, à nossa razão de conhecer tal
ser, mas nesse caso preciso, essa razão é suficiente, não apenas provisória.
Pois o interesse de Kant nesse momento, justamente por não pertencer ao âmbito
crítico, consiste em assegurar a existência necessária obtida através do
conceito de possibilidade, mas sem ter anteriormente nenhuma razão que o
determine, esse ser necessário sendo, inversamente, o que determina todas as
coisas. Assim a oposição entre razão de existir e razão de pensar assegura,
precisamente, a assimilação da razão de existência dos entes contingentes a
essa causa determinante, pois se desdobra na oposição, respectivamente, entre
pôr algo como relativo ao pensado ou pôr absolutamente uma coisa como
existente, aquilo que Heidegger observou como a tese inicial de Kant sobre o
ser. Essas oposições enunciam que pensar é predicar ou atribuir alo
relativamente a um objeto, mas ser é somente a posição absoluta do que existe.
O argumento ontológico que está sendo criticado procede como se o que se
atribui ao meramente pensável devesse se estender ao efetivamente existente.
Kant inverte a prova, mostrando que é preciso antes afirmar a existência para
então poder ser afirmada a possibilidade, ou em outros termos: “para que algo
seja possível, algo necessariamente existe” (RHK, p. 25), a tese sobre o
ser afirmando essa existência absolutamente necessária em geral, atribuída a
Deus como “aquilo cujo contrário é impossível”, conforme o texto kantiano do “argumento”.
A prova remonta,
pois, do possível como consequência à existência de Deus como princípio, o
possível só podendo ser pensado relativamente a um “ser existente, necessário,
simples, imutável, eterno”, conforme a expressão de Bréhier.
O “argumento” se
desenvolve, como mostra Zingano, conceituando a lógica da possibilidade
enquanto relação, segundo o princípio de contradição, de dados a sujeitos de
atribuição. Se não há nada dado, nada há que possa ser relacionado como
possível. O princípio de contradição que preside a possibilidade lógica,
enquanto possibilidade interna de um objeto, pressupõe que algo exista como
dado para se pensar o possível, pois se nada é possível, “ele abole a si”, e
portanto, “é impossível que nada existe, pois não haveria o pensar” (RHK, p.
25). Ora, o que Kant está estabelecendo é que a partir da afirmação de que se
existe algo então deve existir um ser que é sua razão ou essência, não se tem
uma consequência válida, pois não se tendo demonstrado a necessidade da
existência desse algo, sua razão também carece de necessidade. Assim o
argumento kantiano propõe, inversamente, que postular o conceito de existência
absolutamente necessária em geral implica, pela evidência de que seu contrário
é impossível, que burlar essa evidência seria negar toda possibilidade, não
apenas a de uma dada coisa, como o pensar, cuja negação não implica
contradição.
O que se assegura por
esse novo meio é a existência desse ente, causa de todos os entes, e suas atribuições,
listadas por Bréhier, de que Zingano mostra a derivação: Deus é único pois se
não haveria diversas séries sem conexão necessária, é simples, pois se fosse
composto ou teria que ser fundamentado ou iria fundamentar sem ser anterior ao
todo que fundamenta, é imutável e eterno, pois sua não existência é impossível.
Zingano desenvolve a
articulação de uma dessas derivações com um outro texto de Kant, não citado por
Bréhier, Allgemeine Naturgeschichte und Theorie des Himmels. A série
única como efeito, isto é, a natureza, se afirma desde que se tenha garantido a
existência necessária de Deus. Resta assim, ainda, a prova teleológica,
considerada por Kant, se bem que insuficiente, ao menos respeitável, pois
percebendo pela experiência a “ordem entre o ser fundante e a série como efeito”
(RHK,p. 26), pode-se propor o conceito fundamental de um ser absolutamente
necessária por meio da existência de efeitos dessa série. Zingano acentua a
vantagem da prova de Kant, pois ela se afirma como evidenciando a existência
necessária de Deus mas também a conexão necessária desse ser como causa da
ordem de efeitos na série contingente. A natureza é um plano de Deus sem que
seja preciso sua intervenção direta no mundo, a harmonia desdobrando
imperturbavelmente as virtualidades desse plano que inclui a liberdade do ser
humano.
Mecanicismo e a
teologia são assim reconciliados, o que vimos ser uma pretensão corrente na
época. Kant propõe o mundo criado por Deus, por um ato de vontade, mas uma vez
isso feito, o mundo “desdobra as virtualidades nele impressas” (RHK,p. 27).
Vimos já que Kant faz intervir a noção de inclinação da vontade para assegurar
a liberdade no âmbito mesmo desse plano traçado, de modo que o período
pré-crítico se mostra com uma determinação teórica completa, estabelecida em
torno de questões historicamente urgentes como a controvérsia sobre necessidade
ou contingência das leis naturais.
Mas a distinção entre
posição por identidade e posição real, conforme Zingano, traduz o problema que
surge no âmbito de um projeto como esse, o de fundar a existência necessária de
um ente por um novo meio já que partir da atribuição meramente conceitual se
revelou impróprio. A oposição enuncia a problemática implícita na tese sobre o
ser como posição absoluta, pois como se pode compreender “que para que algo
exista, existe outra coisa”(RHK, p. 24) ? Aqui já se está no domínio de “Versuch,
den Begriff der negativen Grössen in die Weltweisheit einzufuhren,
Ensaio para introduzir em filosofia o conceito de quantidade negativa”, 1763),
texto que desenvolve os aportes relacionados ao projeto que Zingano localiza
como pré-crítico, enquanto o momento crítico deverá, inversamente, envolver a
tarefa de mostrar de que modo não mais se precisa dessa hipótese sem perder a
inteligibilidade na investigação sobre o ser das coisas. Assim, o percurso
entre esses dois momentos se assinala como mudança no modo mesmo de pensar o
ser, desde a posição absoluta à postulação de uma relação inevitável com o
entendimento de que procede a forma geral da objetividade.
Já Bréhier localiza
no “Neg. Groessen” a crítica de Kant a Wolff como estando em
continuidade com o projeto anti-racionalista do “argumento”. Agora
trata-se de mostrar que o esforço de Wolff para reduzir o princípio de razão
suficiente ao princípio de contradição, verdades de fato a verdades de razão,
se baseia numa confusão entre dois tipos de oposição: a lógica, que se
estabelece entre um termo e sua negação, e a oposição real, que porta sobre
dois termos igualmente positivos, isto é, dois termos que reciprocamente se
anulam. São os racionalistas, conforme Bréhier, que confundem essas duas
espécies de oposição, como se a asserção de um fato pudesse implicar ou excluir
logicamente a asserção de um outro fato. Assim, a questão enunciada, “como,
porque algo existe, posso compreender que outra coisa venha à existência...?”,
se justifica, sendo só logicamente que podemos, uma vez tendo sido posta a
afirmação, concluir a negação da negação. A questão compreende então a relação
entre dois termos positivos. Noções como causa e efeito, força e ação,
pressupõe de modo equivocado uma relação lógica entre fatos, como se uma noção
pudesse estar implicada pela outra.
Bréhier acentua a
orientação empírica de Kant. Assim, no “Ensaio sobre a evidência dos princípios
da teologia natural e da moral” (1764), afirma-se a irredutibilidade entre
matemática e filosofia, pois aqui só se deve lidar com conceitos dados pela
experiência, frequentemente confusos, vagos, como “liberdade”, enquanto a
matemática lida com definições simples e completas, como o conceito de “um
trilhão”. E como enuncia o “Träume eines Geitessehers, erläutert
durch Träume der Metaphysic, Sonhos de um visionário explicados pelos sonhos da
metafísica “(1766), a alternativa que Kant maneja contra o misticismo supõe
que todo conhecimento deve ser fundado sobre a experiência, o que envolve
noções como causa , força, ação.
A alternativa porta
sobre a metafísica naquilo em que ela ou se limita a afirmações fantásticas ou
torna-se uma ciência dos limites do espírito humano. O metafísico, que fala de
realidades espirituais, está também submetido à alternativa: ou ele tem uma
experiência real do que enuncia ou deve se contentar com a afirmação de que
nada sabe. Ora, essa metafísica é o racionalismo mesmo que só pode ser
fantástico ou crítico, mas ninguém pode afirmar ter experiência de uma ação
espiritual, como a que relaciona a vontade à ação de um músculo, ou mesmo a de
um pensamento independente do corpo.
O “Träume”
critica especialmente Swendenborg por afirmar ter desenvolvido o sentido
íntimo, comum a todos os seres humanos mas ignorados por eles, que assegura o
contato com o mundo dos espíritos. Mas essa crítica de Kant está se estendendo
a toda metafísica espiritualista que relaciona a destinação moral com a teoria
racional da espiritualidade da alma, como se o postulado da eternidade devesse
assegurar a virtude, quando é a alma virtuosa que poderia conceber a hipótese
de um outro mundo, isto é, concebê-la somente pela fé moral, adequada ao ser humano
no seu estado atual.
Bréhier assinala aqui
as influências de Hume e Rousseau sobre Kant, pensadores que o afastam do
racionalismo de Wolff, mas ao mesmo tempo em que localiza esse texto como
estando numa perfeita continuidade com a Crítica da Razão Prática, e deixa
supor o epíteto de racionalista crítico extensível ao projeto kantiano,
prossegue afirmando expressamente o período pré-crítico de Kant como não sendo “de
todo, como se afirma frequentemente, racionalista, mas empirista”, o que se
afigura bastante ambíguo. Em todo caso, Bréhier observa como geral nessa época
o afastamento de Leibniz e de Wolff. Empirismo (Lossius), misticismo (Creuz),
ocasionalismo (Ploucquet), espinozismo (Edelman), são posições que exemplificam
tal afastamento, e onde se verificou, um pouco mais tarde, a recusa do
associacionismo, não foi para voltar a Leibniz, mas para já se expressar em
termos de “síntese de impressões passivas” e “espontaneidade do entendimento”,
como Tetens, já influenciado pelo texto pré-crítico decisivo de Kant, a
dissertação latina “Sobre a forma e os princípios do mundo sensível e
inteligível”, de 1770, em que Bréhier localiza uma mudança de perspectivas
como pivô do criticismo.
Zingano desenvolve o
tema do percurso kantiano entre o pré e a crítica, focalizando o problema do
ato livre, que havia recebido inicialmente a solução pela oposição entre
necessidade externa, que vigora de modo extrínseco sobre as coisas conforme o
plano concebido por Deus, e a necessidade interna “cujo consentimento a agir
depende de uma inclinação”, (RHK, 30) consciente ou não. A fragilidade
da solução inicial conduziu a severo descarte pelo Kant crítico, que a recusou
como “insignificante palavreado” . Mas até a teorização definitiva na Crítica
da Razão Prática, as tentativas de Kant, manifestando influências da escola
inglesa do sentimento moral (Shaftesbury, Hutcheson, Hume) e de Rousseau,
perseguem o mesmo intuito já manifesto naquela oposição, a saber,
impossibilitar o dissolver dos atos humanos “no espaço de um mecanismo natural
independente da consciência que os agentes teriam dele” (RHK, p. 34).
A influência da
teoria inglesa do moral sense se expressa no texto que vimos citado por
Bréhier, “Untersuchung uber die Deutlichkeit der Grundsätze der naturlichen
Theologie und der Moral, Sobre a evidência dos princípios da teologia natural e
da moral” (1764). Zingano assinala que Kant opõe agora o princípio da
moralidade, conceituado em termos do sentimento irredutível do bem, e o
princípio de conhecimento do verdadeiro, que discrimina razões. O sentimento do
bem nem é um predicado das próprias coisas, nem um saber sobre elas, mas
revela-se como relativo apenas a um ser dotado de sensibilidade, como o efeito “da
consciência do sentimento de prazer que acompanha a representação do objeto”,
conforme o texto kantiano.
Reafirma-se, conforme
vimos a propósito do “Träume” observado por Bréhier, a independência do
domínio moral, reservado ao sentimento e à ação, em relação ao âmbito
especulativo, na região do conhecer, o que Kant observa como uma descoberta do
seu tempo, algo que teria sido completamente “ignorado pelos antigos” conforme
ainda o “Nachricht von der Einrichtung seiner Vorlesungen in dem
Winterhalbenjahre”, um “anúncio ao curso de inverno” de 1765/66,
isto é, o projeto de investigar a ação do ser humano de modo irredutível ao
mundo das coisas naturais acessível ao conhecimento, à representação.
O sentimento do bem
no “princípios” é o conteúdo de uma forma geral da moralidade postulada
em termos de perfeição absoluta, a ser repensada no “Beobachtungen uber das
Gefuhl des Shönen und Erhabenen, Observações sobre o sentimento do belo e do
sublime” (1764), no âmbito do que deve ser pressuposto como relacionando os
seres humanos uns com os outros, princípios gerais, não ao modo de regras do
conhecimento, mas sim da consciência do sentimento que todo ser humano possui
como aptidão a ultrapassar as causas particulares de piedade e complacência:
sentimentos de beleza e de dignidade, respectivamente causas de benevolência e
estima.
Zingano situa o
pensamento kantiano desse período como estando a meio entre, por um lado, a
noção de plano secreto da natureza, e por outro a determinação da
irredutibilidade do espaço do agir humano. Ali onde Bréhier só vê continuidade,
Zingano é mais prudente. Inicialmente, como já observamos, ele delimita a
impropriedade de se confundir os conceitos do período pré-crítico, cuja função
se reduz ao contexto, àqueles que serão posteriormente utilizados, seja por uma
aparente analogia, seja por uma reposição terminológica que no entanto não
deixa de revestir a irredutibilidade na sua significação relativa. Apenas o
princípio de razão determinante parece uma exceção, pois Zingano mostra que se
tornará o “fundamento da experiência possível” , isto é, fundamento do
conhecimento objetivo dos fenômenos “naquilo que concerne às suas relações na
série sucessiva do tempo”, conforme o texto da Crítica da Razão Pura. No
entanto, também aqui verificamos que há uma evidente adaptação do conceito a um
âmbito não previsto no seu uso contextual pré-crítico.
Ora, quanto à Razão
Prática, o que mais poderia se aproximar daquilo que será apresentado na fase
crítica é o texto de 1770, onde se revela a influência de Rousseau. Aqui
trata-se de articular a intenção de postular princípios gerais da moralidade
com a noção de Vontade moral, geral, oposta às vontades particulares. A
oposição se propõe entre o particular como o que se volta, enquanto vontade,
somente a si, e o geral como o que se estende a outrem e permite pensar “a
constituição de uma comunidade de agentes” agora “sob o domínio da razão” (RHK,
p. 32). No entanto, Zingano acentua que, se Kant está localizando a
filosofia moral no entendimento puro, discriminando nessa região um uso real
que conhece as coisas e um uso prático como acesso à perfeição moral, a década
que separa esse texto da obra crítica inaugural ocultou inteiramente para Kant
as consequências que deveriam sobrevir na forma de sua filosofia definitiva. E
do mesmo modo, somente à luz do exame da obra crítica se poderá avaliar sobre
sua compatibilidade com a noção de plano secreto da natureza.
Bréhier porém observa
o texto de 1770 como uma espécie de transição à obra crítica, pois aqui é
lançada a oposição capital do kantismo, entre a afecção passiva dos sentidos e
o conceito do entendimento, sendo que se a sensibilidade atinge as coisas como
fenômenos, logo, como afecção, ela se organiza em torno de elementos
universais, necessários, uma estrutura determinada como uma forma ou lei
interna, enquanto o entendimento atinge as coisas como elas são. Esse texto
descobre, portanto, os princípios da Estética transcendental, as formas a
priori da sensibilidade, como tempo e espaço, que deixam de ser, ao modo de
Leibniz, ordem das coisas como sucessivas ou coexistentes, para se tornarem
maneiras pelas quais o ser humano é afetado pelos fenômenos. Mas o sentido
dessa descoberta, como o próprio Bréhier assinala, não se prende à arquitetura
de uma teoria completamente estabelecida, e sim ao quadro antinômico ou
aporético do entrelaçamento problemático da impossibilidade de aplicar
conceitos intelectuais às coisas sensíveis e da contradição implicada na
hipótese dessas coisas serem essencialmente diferentes dos objetos da
inteligência, logo, “do enigma de um mundo que deveria ser um todo e que não
pode sê-lo”.
Assim esses
princípios originam problemas que inspiram os cuidados de Kant durante o
interregno que precede a obra crítica, período de que a correspondência com
Marcos Hertz permanece como testemunha. Que à representação sensível exista o
objeto que lhe corresponda tornou-se compreensível pelo a priori da
Estética, mas como um objeto pode corresponder a um conceito do entendimento,
ou seja, como podemos postular a existência real de substâncias, causas, e
demais noções puramente especulativas que, no entanto, fornecem leis aos
objetos da experiência? Não se pode resolver a questão por meio da intervenção
de um ser superior que sabiamente tenha implantado em nós tais conceitos ou
princípios, pois isso seria, conforme o texto de uma das cartas, “subverter a
filosofia” (1772).
Zingano salienta que
Kant sempre insistiu na impossibilidade de reduzir o ser à razão, isto é, no
estatuto de manifestação experimental, mas se no período pré-crítico o conceito
de experiência exclui o que não se conforma a suas regras experimentais
estreitas, o texto de 1770 repensa esse conceito no sentido de encontrar algo
que lhe seja prévio. O que, para Béhier, se propõe como a questão que origina a
revolução crítica.
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A unidade das
Críticas poderia ser proposta como projeto epistêmico, se não mais geralmente o
de uma antropologia, se considerarmos que através da fragmentação dos títulos,
das obras, dos interesses, elas são sempre relativas a uma noção central no
kantismo, a Razão, definida como uma faculdade de agenciar, por meios oblíquos,
rodeios e astúcias, os fins que são apenas seus, irredutíveis aos da natureza.
Assim, um meio para compreender a sistematização que cada um dos textos
críticos elabora, é procurar o modo pelo qual os vários elementos específicos
se reúnem em cada caso para realizar os fins da razão conforme um ponto de
vista unitário que é ele mesmo proposto como transcendental. É a partir desse
conceito de unidade que se pode também localizar o empreendimento demonstrativo
de Kant.
Na Kritik der
reinen Vernunft (Crítica da Razão Pura) a estrutura da objetividade depende
da conexão da sensibilidade e do entendimento. O que se torna importante aqui é
a convergência entre conhecer e pensar, o que insere o conhecimento numa ação
mais geral de julgar. Assim temos, por um lado, a unidade da razão como
atividade transcendental que a cada vez harmoniza e utiliza todas as
faculdades, mas por outro, a unidade da subjetividade que se constitui
simetricamente à estrutura da objetividade constituída pela síntese do
conhecer, pela natureza sintética do pensamento em geral.
As séries sensível e
inteligível se produzem como atividades de formalização, de que a análise
permite reconstruir os meios: Tempo e Espaço, como formas a priori do sensível,
as Categorias como conceitos a priori do entendimento: unidade,
pluralidade, realidade, limitação, substância, causa, comunidade,
possibilidade, existência e necessidade. A exposição concernente às formas da
sensibilidade perfazem o âmbito da Estética transcendental, a que se relaciona
aos conceitos do entendimento implementam a Analítica.
Entre sensibilidade e
entendimento, a imaginação intervém como capacidade de esquematizar essas
relações espácio-temporais que realizam as relações conceituais, conforme
Deleuze, fornecendo o meio pelo qual o entendimento pode julgar com seus
conceitos sobre toda a diversidade do dado. O esquema é definido por Bréhier
como a regra pela qual são construídas as imagens correspondentes a um conceito.
Utilizando o texto
deleuziano (la philosophie critique de Kant), do ponto de vista do
conhecimento temos uma faculdade receptiva e três ativas, conforme o sentido do
termo “faculdade” pelo que se designa uma fonte específica de representações,
havendo tantas faculdades quanto há tipos de representação. A sensibilidade
intuitiva é uma faculdade de recepção, as faculdades ativas sendo a imaginação,
o entendimento e a razão.
Até aqui garantiu-se
a cientificidade da matemática e da física. No entanto, resta o problema da
pretensão metafísica, já que no seu âmbito lida-se com certas noções nem
inteiramente determináveis pela experiência, nem, historicamente, destinando-se
apenas a desenhar os seus contornos. O âmbito temático envolve agora a
dialética transcendental, onde se trata da intervenção da razão como uma
aptidão a formar Idéias “transcendentes”, como que desbordando os limites do
fenomênico: o Eu, o Mundo e Deus, mais as noções que se engendram na
proximidade desses núcleos, como Liberdade. Kant vai mostrar que essas idéias
podem portar um uso teórico ilegítimo, ou podem encontrar uma aplicação
ulterior no domínio prático
Limitando-nos por ora
ao âmbito teórico, Deleuze sublinha aqui a originalidade do kantismo em relação
ao racionalismo e ao empirismo. Enquanto ambos afirmam uma simples diferença de
grau, de clareza conforme o dogmatismo racionalista, de vivacidade por relação
à sensibilidade conforme o empirismo, Kant está opondo por natureza
sensibilidade e entendimento, um como faculdade de intuição, outro como
faculdade de conceitos.
Ora, entre o passivo
e o ativo não basta o esquematismo da imaginação aplicando-se a priori
às formas da sensibilidade conforme o conceito do entendimento. Para resolver o
problema desse hiato, já que Kant substituiu a idéia de uma harmonia
pré-estabelecida entre o sujeito e o objeto por uma submissão necessária do
objeto ao sujeito, intervém a noção de senso comum que não designa um “senso”
como uma “faculdade” particular, mas um acordo a priori entre as
faculdades, seja entre as ativas, seja entre elas e a receptiva. Senso comum
lógico sob a forma especulativa, isto é, quando expressando a harmonia das
faculdades no interesse especulativo da razão, aí onde a que preside é o
entendimento que legisla sobre os fenômenos do ponto de vista da forma,
subsumindo-os formalmente à unidade da síntese. Senso comum moral sob a forma
prática, quando é a razão mesma que legisla.
Assim podemos
compreender que no domínio teórico as Idéias da razão não encontram uma
aplicação por si, pertencendo o papel determinante ao entendimento que regula a
aplicação do conhecer à experiência, mas no âmbito prático, sendo a razão mesma
que legisla, suas idéias devem recuperar uma aplicação legítima. No entanto,
mesmo no âmbito teórico, a dialética como domínio do uso ilegitimo ou ilusório
das idéias da razão, se deixa ultrapassar pelo uso regulador dessas idéias,
fornecendo aos conceitos do entendimento um horizonte como máximo de unidade
sistemática, o que porém só se poderá compreender mais amplamente no
desenvolvimento da Critik der Urteilskraft (Crítica do Juízo), por se
reportar ao problema da finalidade.
No terreno da Crítica
da Razão Pura, se o senso comum se afirma apenas como um acordo, ainda que a
priori, ele semelha mais uma convergência do múltiplo do que a
especificidade de algo uno. A unidade da consciência aí se compreende melhor
como garantida pelo Eu Penso, que se constitui através de todas as
representações. Assim, a unidade mesma se propõe como transcendental. Como
enfatiza Bréhier, encena-se desse modo a demonstração da necessidade das
sínteses, o que constitui a epistemologia do kantismo enquanto destinando-se a
preencher o hiato entre o a priori analítico e o a posteriori empírico,
com o intuito de fundar o conhecimento como enunciação sintética a priori,
isto é, universal e necessária, fornecendo-se à razão não apenas um uso lógico,
mas um uso real.
A demonstração se
efetiva, pois desde que se põe ao espírito o diverso da intuição, a unidade do Eu
Penso exerce, por necessidade lógica, a construção da realidade objetiva. O
Eu Penso só se recupera na ligação universal e necessária que se
verifica na sucessão de representações, não por si mesmo em cada uma das
representações isoladas. Mas a cada representação tomada isoladamente há também
uma ligação que é função do julgamento transcendental, consistindo na subsunção
do objeto da intuição como caso particular do conceito, isto é, atuando na
relação de sensível e inteligível.
A unidade do Eu
penso realiza a síntese do múltiplo através das categorias, mas se ela
permanece transcendental, não deve ser subsumida à experiência, portanto não se
o deve confundir com o Eu empírico, de que temos a experiência como
sentido íntimo e que se deve à forma do tempo, definida como forma do sentido
interno enquanto a do espaço designa a do sentido externo.
Retornando ao texto
deleuziano, o significado mais costumeiramente associado ao termo “faculdade”
na filosofia de Kant, e que não se confunde com o que Deleuze havia assinalado
anteriormente, é aquele pelo que se designam as múltiplas relações de uma
representação em geral, um vez que toda representação sempre está em relação a
alguma coisa, objeto ou sujeito. Assim, nesse sentido, temos três faculdades
que se distinguem conforme os tipos de relação: faculdade de conhecer, em que a
representação se relaciona ao objeto do ponto de vista do acordo ou da
conformidade; faculdade de desejar, que é a de ser, por suas representações,
causa da realidade dos objetos dessas representações; e faculdade de sentir ou
de ser afetado pelo prazer ou pelo desprazer, na qual a relação da
representação com o sujeito é o efeito que ela exerce sobre ele. Cada faculdade
se eleva a um tipo de forma superior, quando encontra em si mesma as leis de
seu próprio exercício.
Visando a faculdade
de conhecer no seu aspecto superior, a localizamos não apenas sendo determinada
pelas leis da experiência, mas determinando o objeto como a que se atribui,
sinteticamente e a priori, propriedades não previamente constantes na
representação. Aquilo que corresponde à forma superior de cada faculdade e que
a torna autônoma, seu exercício conforme sua própria lei, é o que define
também o interesse da razão por poder assim se tomar a si mesma como
finalidade. A razão possui “naturalmente” um interesse especulativo que
experimenta por objetos que se subsumem à faculdade superior de conhecer, isto
é, por fenômenos, não por coisas em si, mas como o conhecimento a priori
é o mesmo que conhecimento racional, os julgamentos sintéticos a priori são
também princípios das chamadas “ciências teoréticas” da razão, matemática,
física pura e metafísica.
O fundamental aqui é
observar que essa teorização do conhecimento não se compreende apenas pela
intervenção “espetacular” da invenção conceitual de Kant, os juízos sintéticos a
priori. A faculdade de conhecer envolve também um outro tipo de juízo, o
determinante, pelo qual o universal, a categoria, é determinado no particular
ao qual se aplica. E do mesmo modo, no âmbito prático, é pelo juízo
determinante que se pode resolver se um ato é ou não conforme
à lei moral. Esse
outro tipo de ajuizamento não pertence porém nem ao âmbito teórico nem ao
prático. Ele resulta de um exercício da razão, é verdade, mas a cada vez supõe
já o conceito dado, seja do entendimento no âmbito teórico, seja da razão no
âmbito prático. Supõe, portanto, um acordo determinado entre as faculdades, sob
a dominância de alguma delas, conforme o caso, podendo assim determinar um
objeto conforme à faculdade que se põe como legisladora. Então a questão que se
deriva daqui é a que reporta esse acordo determinado à suposição de um acordo
livre e indeterminado, isto é, com uma função do acordo em geral, que não se
confunde nem com o âmbito propriamente teórico, nem com o prático.
Reencontramos portanto
o problema da unidade entre as críticas. A noção de senso comum tal como
apresentada até agora não parece suficiente para resolver o problema da relação
entre as faculdades, de modo que só se manifesta sua adequada colocação como a
questão de enunciar a conceituação desse acordo livre e indeterminado, função
que pertence ao senso comum estético, suposto para qualquer acordo determinado
que esteja já na ambiência de um interesse definido, de uma faculdade
específica como legisladora. Somente assim se pode colocar o problema da gênese
do senso comum ou do fundamento do acordo em geral: não só acordo entre as
faculdades mas também entre o exercício destas e a natureza mesma.
Estamos no âmbito do
julgamento, que não se deixa reduzir nem ao domínio prático, nem ao teórico.
Deleuze indaga sobre a pertinência do termo “faculdade”, nesse caso. Podemos
utilizar no sentido preciso de um “dom” ou “arte” específicos, não conforme os
significados que lhe vêm sendo associados, pois o julgamento não consiste numa
só faculdade, e sim no acordo entre elas, seja aquele já determinado por alguma
como dominante ou legisladora, seja aquele livre e indeterminado que constitui
o objeto de uma “crítica” do juízo em geral.
Assim, repondo o que
vimos, temos três tipos de julgamento: o juízo determinante que porta sobre o
acordo determinado, relacionando o objeto conforme essa determinação seja em
proveito do interesse prático ou teórico da razão. Os juízos reflexos portam
sobre o acordo livre e indeterminado entre as faculdades e podem ser estéticos
ou teleológicos. Em geral o julgamento é o que legisla sobre a faculdade de
sentir, quando se a toma sob sua forma superior.
Na Crítica do Juízo
trata-se de conceituar o que pode ser essa forma superior do sentimento. Nem a
sensação nem o contentamento poderiam preencher a determinação a priori de
um estado do sujeito como prazer ou desprazer, pois nesse caso teríamos,
respectivamente, ou o conhecimento apenas empírico ou a dependência ao desejar,
daquilo que produz o sentimento. Para ser designada como superior, ou seja,
tendo que encontrar apenas em si mesma suas leis, a faculdade de sentir não
pode se prender a um interesse, que teria então que ser teórico ou prático. A
forma superior da faculdade de sentir, a forma superior do prazer, só podendo
se afirmar como desinteressada, se produz como o efeito de uma
representação sobre o Eu, como expressão de um julgamento puro, de uma pura
operação de julgar. Ou seja, o objeto da Crítica do Juízo não será o
tipo de julgamento determinante, mas os juízos reflexos
Assim, quando se
afirma que “isso é belo”, é precisamente o caso desse tipo de operação, que
incide não sobre a existência material do objeto representado, e sim da
representação de uma pura forma de objeto. Ressalta aqui o papel da imaginação.
Forma significa reflexão de um objeto singular na imaginação. O esquematismo,
como ato da imaginação, permanece determinado conforme o conceito do
entendimento. No entanto, ao refletir a forma do objeto, ela se torna de algum
modo livre, imaginação produtiva, espontaneidade como causa de formas
arbitrárias de intuições possíveis.
Se a faculdade de
sentir só se torna superior quando não depende nem do interesse especulativo
nem do prático, isto é, quando a objetividade do julgamento estético é somente
o prazer e o que nele há de universal e necessário não depende de um conceito
determinado mas é sem conceito ou puramente subjetivo, esse prazer derivado da
operação de julgar porta sobre algo que supomos comunicável e válido. Isso que
sentimos como prazer incide sobre a relação da liberdade da imaginação que se
exerce, contudo, em perfeito acordo com o entendimento, uma vez que por esse
meio são fornecidas as formas da intuição sensível sem prejuízo da
espontaneidade de sua formação nem das leis que regem a possibilidade da
experiência. Essa relação de imaginação e entendimento se faz como acordo livre
e indeterminado entre faculdades, agora como senso comum estético, o gosto.
É o fato desse senso
ser comum que transmite a impressão de uma comunicabilidade do sentimento,
fundada assim sobre a idéia de um acordo subjetivo de faculdades, nem mesmo uma
faculdade ela mesma, mas tão somente uma pura harmonia subjetiva onde
imaginação e entendimento se exercem em sua espontaneidade. Ele não se põe como
uma forma a mais de senso comum, como que por sobre aqueles operados pela
determinação de um interesse, mas ele os funda ou torna possíveis, na medida em
que uma faculdade só pode absorver um papel legislador ou determinante se todas
as faculdades, conjuntamente, podem ser capazes dessa livre harmonia subjetiva.
Harmonia
experimentada entre imaginação e entendimento, no caso do julgamento do belo,
mas também entre imaginação e razão, no caso do julgamento do sublime. O prazer
do belo é sentido como a atividade de uma reflexão formal. O sentimento do
sublime se experimenta perante o informe ou o disforme, a imensidade ou a
potência, aquilo que ultrapassa o limite da imaginação que normalmente apreende
sucessivamente as partes e compreende de modo máximo e simultâneo as
totalizações, mas encontra a insuficiência de toda tentativa de totalização na
imensidade que a razão força a reunir como caráter do mundo, da Natureza. É de
modo negativo que o acordo impera agora, pois a imaginação, perante seus
próprios limites, é forçada a fornecer uma abstração, a presentação do
infinito, e então, por esse meio forçado, o que ela experimenta é o
esvanecimento dos limites, algo que amplia a alma, sentida como unidade
supra-sensível indeterminada de todas as faculdades, seu núcleo ou ponto de
concentração.
Esse acordo não é
apenas presumido, mas engendrado pelo desacordo inicial de imaginação -razão,
assimetria ou desnível, acordo que se faz, portanto, posterior, e que se
tornará garantia final de uma destinação do humano. Ora, também é assim em
relação ao belo, pois se aqui o julgamento deve ser desinteressado, nada impede
que lhe seja unido um interesse concernindo à sua produção na natureza, isto é,
àquilo que nela se compreende como matéria utilizada na produção dos objetos
capazes de se refletir formalmente e de modo espontâneo pela imaginação. Esse
interesse se define como racional, sendo experimentado relativamente ao acordo
das produções da natureza com nosso prazer desinteressado, definindo-se
portanto como acordo contingente da natureza com as nossas faculdades.
As livres matérias da
natureza, as cores e os sons, são indiretamente representadas pela razão como
Idéias produzidas, o que se designa simbolismo. O branco e a forma do
lírio se tornam símbolo de pureza ou inocência, mas assim o acordo da
imaginação e do entendimento se faz por um outro nível, liberando ambas as
faculdades de seu mútuo constrangimento esquemático, a forma agora sendo
refletida livremente, o entendimento podendo também ser alargado de modo ilimitado,
o acordo se tornando animado, vivificado, engendrado no interesse do belo. O
belo na natureza se torna símbolo do bem.
A natureza sensível
simboliza idéias da razão, permitindo ao entendimento também se alargar, à
imaginação se liberar, o interesse do belo testemunhando uma unidade
supra-sensível de todas as faculdades como ponto de concentração de que
decorrem seu livre acordo formal, sua harmonia subjetiva, o mais profundo da
alma.
O gênio pode ser
definido como aptidão a formar idéias estéticas, processo que se assemelha ao
simbolismo, mas que em vez de presumir indiretamente a idéia na natureza,
expressa na criação imaginativa do artista os símbolos de uma “segunda”
natureza, cujos fenômenos são verdadeiros acontecimentos espirituais, o gênio
podendo fornecer por esse meio a “matéria” que anima o gosto, por esse outro
meio também ampliando-se o entendimento e liberando-se a imaginação.
Deleuze localiza o
romantismo kantiano nas páginas da Crítica do Juízo que se desenvolvem
em torno do interesse do belo e do gênio, isto é, em certos parágrafos
constitutivos da “dedução dos juízos estéticos puros”, o que ele
conceitua como uma meta-estética material do gosto (cores e sons) ,
sobrepondo-se à estética formal (linha e composição). Mas assim a
sobreposição também se supõe como um “equilíbrio complexo” entre classicismo,
na proximidade do formal, e romantismo, já envolvendo o material.
É preciso aprofundar
essa apresentação do julgamento como implicando sempre as várias faculdades e
expressando seu acordo. O papel importante agora deve caber à Reflexão,
como atividade que pertence à imaginação, mas que só incide sobre o objeto de
modo determinado, para que os conceitos assim acessíveis ao entendimento sejam
conformes às Idéias da Razão. Ora, vimos que no interesse especulativo essas
idéias não possuem verdadeiramente um objeto. No entanto, elas conferem aos
conceitos um máximo de unidade sistemática, o que se põe como a concepção de
uma unidade final das coisas, ou seja, o que subsume um conceito de fim natural
apto a fornecer uma unidade aos fenômenos do ponto de vista de sua matéria ou
de sua particularidade, uma unidade do múltiplo sempre suposta como conciliável
com a diversidade das leis empíricas particulares.
Mas se esse conceito
de fim natural está se construindo na região do especulativo, sabemos que a
razão não pode ser aqui legisladora. No entanto, quanto a isso especialmente, o
entendimento também não o pode ser, já que ele legisla sobre fenômenos apenas
enquanto considerados na forma de sua intuição, seus atos legislativos, as
categorias, constituindo as leis gerais e se exercendo sobre a natureza como
objeto de experiência possível, por exemplo, conforme o que toda mudança tem
uma causa, etc. Mas o entendimento não pode determinar a priori a matéria
dos fenômenos, o detalhe da experiência real ou as leis particulares desse ou
daquele objeto, o que só podemos conhecer pela experiência, permanecendo
contingente. Resta o problema da unidade dessas leis empíricas, isto é, do
ponto de vista de sua particularidade.
O conceito de fim
natural não se confunde, portanto, com as Idéias racionais cujo uso
especulativo é puramente regulador. Com efeito, ele é um conceito de reflexão
derivado dessas idéias reguladores, e permite a reflexão sobre a Natureza do
ponto de vista de suas leis empíricas. Trata-se, nesse conceito, do segundo
tipo de juízo reflexo, o teleológico.
A relação que se põe
quase que naturalmente aqui é com a teologia. Por um lado, Deleuze mostra como
Kant impõe à noção dogmática do entendimento infinito uma transformação
profunda, pois essa noção implica algo como um entendimento arquétipo,
intuitivo, que seria, com relação à finalidade natural, o princípio ou o
substrato, pois nele a representação do todo seria ao mesmo tempo causa do todo,
o que permite defini-lo como causa suprema inteligente e intencional.
Essa noção de
arquétipo já havia se desenvolvido no kantismo na ambiência da Razão Prática. A
noção envolve sempre um tipo de causalidade. Assim o mundo supra-sensível, que
é o dos seres racionais, é aí conceituado como arquétipo, o mundo sensível, o
da natureza fenomênica, sendo o éctipo que contém o efeito possível da idéia do
primeiro. A relação entre as duas naturezas conceituava assim o problema da
realização ética, pois tratava-se de negar o indiferentismo moral de modo a
afirmar a exigência da realização da natureza supra-sensível no mundo sensível
mesmo, evidenciando-se que é no mundo dos fenômenos que se manifestam os
efeitos das decisões e atitudes dos seres humanos enquanto agentes racionais de
uma moralidade suposta, contudo, no terreno irredutível da racionalidade, como
sendo aquele da lei moral.
Agora na região do
Julgamento, o arquétipo, enquanto caráter de um entendimento conceituável,
também manifesta uma dependência como efeito, e aqui o sentido transformador
apontado por Deleuze, pois tudo o que ele expressa é a impotência do nosso
próprio entendimento, o limite ou impossibilidade que porta sobre a capacidade
de determinar, nós mesmos, o particular. Mas impotência dupla, pois também não
podemos não julgar conforme a imaginação de uma causa agindo por intenção, isto
é, não supor uma causalidade intencional. Somos como que forçados a determinar
Deus como causa intencional agindo à maneira de um entendimento, de modo que é
da teleologia natural que se deve conduzir a uma teologia física, não o
inverso.
Não deduzimos da
natureza fins que seriam os intencionais, relativos a Deus, mas já visamos
sistematicamente a natureza como comportando fins, e por isso, a ela ajuntamos
a idéia de uma causa intencional, Deus, como meio de sua compreensão,
refletindo sobre a unidade final que a experiência comunica no âmbito mesmo da
multiplicidade, por analogia com a causalidade natural que liga sinteticamente
os fenômenos tomados isoladamente.
Creio ser lícito
localizar aqui um tema epistemológico importante, relacionado à tese de
Foucault. Pois eis, no kantismo, o melhor dos meios para enunciar o novo
ambiente do determinismo laplaceano. Não mais se está no domínio ingênuo do
classicismo de um Descartes, onde a produção de saber se poderia compreender
numa unidade, como totalidade de enunciados que, no conjunto, deveriam dispor o
ordenamento da natureza “sabiamente” estabelecida, de modo que nada mais
razoável que supor uma dedução teológica desse propósito desde que se houvessem
recuperado seus elementos. No entanto, na transição ao século XIX, o que se
verifica é o panorama de um saber engajado na via de uma fragmentação nem
projetada nem evitável, na corrente vertiginosa da proliferação de meios e
acessos.
Mas esse terreno
fragmentado não deixou de oferecer a invariante de uma universalidade que,
longe de se restringir, só fez ampliar seu espaço de influência. Assim, como
Kant soube expor, havia por um lado a multiplicação de domínios, por outro o de
legitimidades. O que o kantismo “resolve” é a convergência desses fatores,
mantendo as premissas da irredutibilidade dessa fragmentação, trazendo à frente
da cena o que ela paradoxalmente evidenciou como o assegurar do universal no
âmbito mesmo do fenomênico, resultando assim algo de extremamente importante, a
autonomia da razão como domínio assegurado do humano, o que prefigura o desenho
de um território epistemológico em que se legitimizam as ciências “do homem”,
território que se tornou assim o de uma “analítica da finitude”, conforme a
expressão de Foucault, já que, se são agora os seres humanos os legisladores,
jamais o exercício das faculdades se abstrai do fato de uma razão finita,
propriedade de seres finitos, como mostra Deleuze ressaltando a originalidade
da doutrina das faculdades em Kant.
Assim, conforme
Deleuze, o dogmatismo afirmava uma harmonia entre o sujeito e o objeto,
invocando Deus, sujeito de faculdades infinitas, para garantir essa harmonia.
As duas críticas, a pura e a prática, asseguram a “revolução” do kantismo, pois
substituem o dogmatismo pela finitude da razão humana que, no entanto, garante
plenamente a submissão do objeto ao sujeito. Ora, poder-se-ia indagar se a Crítica
do Juízo não se mostra como uma “volta” da idéia de harmonia ou finalidade.
Isso não ocorre, conforme Deleuze, já que o essencial não se põe na duplicidade
da finalidade, subjetiva ou final, entre as faculdades, objetiva ou
contingente, entre estas e a natureza, mas sim no fato de que a Crítica do
Juízo fornece uma teoria igualmente revolucionária da finalidade,
correspondendo ao ponto de vista transcendental e conciliando-se com a idéia de
legislação, já que a finalidade agora não deriva de um princípio teológico,
inversamente, sendo a teologia um fundamento “final” ele mesmo humano, seja
como acordo de uma gênese particular, no interesse especulativo, seja, como
deveremos observar mais detidamente, como relação da Natureza e do ser humano
enquanto resultado de uma atividade prática deste último.
Conforme Deleuze,
podemos ver então que os dois tipos de juízos reflexos, o estético e o
teleológico, se relacionam ao acordo da natureza com as nossas faculdades. Mas
no caso dos juízos estéticos, é a finalidade interna da relação entre nossas
faculdades subjetivas, sua livre harmonia, que se manifesta como interesse pela
aptidão material da natureza em produzir o belo. O acordo aqui permanece
externo, como que predisposto por nós mesmos, não pelo mundo, a finalidade
sendo suposta como o objeto de uma representação estética, subjetiva. Mas essa
manifestação do acordo livre entre as faculdades, como vimos, reportando-se a
um interesse especial pelo belo, envolve a predestinação do ser racional como
ser moral, introduzindo o acontecimento da lei moral ou a supremacia do
interesse prático.
Quando se trata de
juízos teleológicos, contudo, a finalidade é objetiva, material, implicando
fins. O conceito de fim natural expressa empiricamente a unidade final das
coisas em função de sua multiplicidade mesma. É a reflexão que muda de sentido,
pois não se conceitua agora como reflexão formal do objeto sem conceito, mas
conceito de reflexão pelo qual refletimos sobre a matéria do objeto. É nesse
conceito de reflexão que nossas faculdades se exercem livre e harmoniosamente,
restando porém esse acordo entre faculdades inserido no acordo da natureza com
essas faculdades. Se os juízos reflexos estéticos só se compreendem na pureza
do julgamento, os juízos reflexos teleológicos permanecem plenamente no domínio
da faculdade de conhecer, se bem que mantendo-se a independência do
julgar-sentir em relação ao conceituar-entender, de modo algum supondo-se o
julgamento teleológico como um princípio a priori particular, já que, se
o conceito de fim natural é objeto de “representação lógica”, vimos que o
entendimento abandona nesse ponto suas pretenções legisladoras, não porém sem
que isso deixe de estar conforme o interesse especulativo. O prazer derivado do
julgamento teleológico se experimenta como impressão de uma natureza submetida
à faculdade de conhecer, em completo acordo com nossas faculdades subjetivas,
expressando menos um estado superior da faculdade de sentir do que o efeito da
faculdade de conhecer sobre a faculdade de sentir.
Mas até aqui o
conceito de uma causa criadora inteligente só se justifica do ponto de vista da
possibilidade das coisas existentes. A aplicação do conceito de finalidade
natural, não mais a fenômenos quaisquer ou à liberação de formas belas, mas a
seres organizados, a organismos, conduz à idéia da natureza inteira como um
sistema conforme à regra de fins, à idéia das relações entre esses seres como
devendo cobrir o conjunto do universo. Se a natureza só pode formar um sistema
assim em função de um fim último, é evidente que nenhum ser organizado pode
constituir um tal fim, nem mesmo o ser humano enquanto espécie animal. O
conceito de de finalidade natural será ultrapassado pelo de fim terminal, pois
agora o que ele enuncia é a necessidade não apenas de um fundamento de
possibilidade, mas aquele de uma razão de existir, como o que pertence a um ser
que possui em si sua razão de existência.
Ora, somente o ser
humano, enquanto ser racional, pode se conceder o conceito de fins, nessa
acepção de encontrar em sua existência mesma os seus objetivos. No entanto, conceituar
essa auto-atribuição não parece de modo algum algo fácil, pois se a situarmos
na capacidade de conhecer, resta a subsunção à experiência, ao fenomênico, e se
a localizarmos na procura da felicidade, o resultado seria o mesmo, já que a
felicidade depende de circunstâncias exteriores. A resposta é que o ser humano
poderia ser concebido como fim terminal apenas como ser moral. Compreender em
que a moralidade se está conceituando de modo perfeitamente livre, sem nenhuma
dependência circunstancial, já é algo que pertence ao âmbito prático, aí onde
reencontraremos o tema da História.
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Para introduzir o
tema da razão prática em Kant, penso que se poderia repor o exemplo que Deleuze
apresentou a propósito da liberdade em Leibniz, ligeiramente adaptado: alguém
que deseja superar a compulsão ao álcool se encontra à frente de todos os
objetos de uso da bebida. Lá estão as garrafas, os copos, a taberna. Sua
capacidade de entendimento, isto é, sua faculdade de conhecer, poderia abranger
quase uma infinidade de itens na designação dessas coisas associadas à ação de
beber. No entanto, ele precisa optar se adentra a taberna, ou não. Precisa
escolher se usa o copo, a garrafa, ou se abstém. Por mais que sua capacidade de
compreensão objetiva acerca do mundo pudesse se estender, ela jamais alcançaria
esse “objeto”. Onde se encontra “a” decisão?
Podemos sentir que
mesmo o conhecimento acerca das consequências físicas da ingestão da bebida
alcoólica não encerra o elemento de decisão. Assim, encontramo-nos aqui perante
o “abismo imenso”, conforme a expressão de Kant, entre o conhecimento e a
decisão da vontade. Essa irredutibilidade pode ser enfatizada também pelo modo
mesmo pelo qual, do ponto de vista puramente especulativo, a questão assim
apresentada não oferece uma determinação qualquer, restando aporética.
Lembrando o uso do exemplo em Leibniz, poder-se-ia ver aqui uma inclinação da
vontade, como liberdade, sem que isso se interpusesse no caminho de uma
validação da destinação do mundo como possível já escolhido por Deus, de modo
que essa “liberdade” é relativa ao agente, mas não acarreta uma real
divergência de resultados no plano dos fenômenos.
Vimos que Hume havia
já estabelecido o fato dessa irredutibilidade dos princípios da ação em relação
àqueles do conhecimento. Trata-se então, uma vez assim localizado o problema,
de encontrar o elemento de determinação dessa esfera autônoma que compreende os
atos humanos e a inclinação da vontade. O conceito procurado deve enunciar
portanto o fato básico dessa inclinação. Hume conceituou esse elemento em
termos de paixão, regida por princípios cujo fato básico se designa como a
oscilação entre o prazer e a dor, a preferência do prazer, a fuga da dor.
Compreende-se a tarefa do conceito. Ele deve não apenas nomear um tipo novo de
causalidade, por relação àquela que rege os fenômenos, mas também dar conta de
sua irredutibilidade mesma. Assim o conceito de impressões subjetivas, do
prazer e do seu inverso, mostra que o seu correlato humano– procuramos o
prazer e fugimos da dor– não está contido nem jamais se encontrará no prazer ou
na dor, mas apenas naquele que sente e elege o que é o seu bem ou mal.
Consequentemente a essência da ação está no vínculo meio-fim, mas agora essa
causalidade já não se comporta como simples vínculo causal, já se transformou
em utilidade.
Vimos tudo isso ao
examinar a filosofia de Hume, especialmente conforme o estudo de Deleuze (Empirismo
e Subjetividade). Assim podemos sublinhar o que permanece, no kantismo,
dessa colocação da questão por Hume: a irredutibilidade do interesse prático,
uma causalidade autônoma governando a esfera da vontade, a necessidade de
conceituar o elemento básico que rege essa causalidade autônoma, por fim a
subsunção de todos os processos humanos ao interesse prático, o que implica a necessidade
de uma reordenação epistemológica profunda, na vizinhança da qual podemos
localizar a emergência de uma cientificidade “do homem”.
Também Zingano
observou que o confronto Hume-Kant aqui é inevitável. Ele o situa, porém, em
nível da mais clara das oposições de que sobrevém as consequências: a) da
tentativa de reduzir a problemática tratada por um autor ao confronto com outro
autor; e b) da determinação da proposta metodológica de Kant naquilo que ela
mostra sua irredutibilidade a esse confronto específico com Hume.
Com relação a “a” o
problema envolve a limitação que se manifesta quando se tenta esclarecer noções
fundamentais num contexto filosófico a partir de seu uso em outro contexto, mas
também aquela que cerca o empreendimento de, no final, tentar mostrar que a
oposição não era tão decisiva assim. Quanto a “b”, Zingano mostra que a
proposta metodológica de Kant envolve a “suposição básica de uma crítica da
razão consigo mesma”. (RHK, 36).
Ora, se o fato de que
por esse meio já se ilumina de todo a oposição Hume-Kant como aquela entre a
condução do problema da irredutibilidade da esfera moral em termos respectivos
de paixão ou de razão, parece bem nitidamente designado, repõe-se o cuidado
sugerido já que mesmo considerando a relatividade histórica na qual se
desenvolve qualquer doutrina filosófica, o que inclui a razão prática do
kantismo, a proposta de Kant não se deixa reduzir a essa pura antinomia
paixão-razão mesmo nisso pelo que deverá ser julgada no horizonte da
atualidade, essa ambiência do hoje em que tudo parece estar sob o domínio do
relativo, do passional, Zingano utilizando “o refrão segundo o qual ninguém
salta além de sua sombra”,(RHK, 37). O que me parece bastante adequado à
nossa época, o ser humano -demasiado humano – tendo-se tornado justamente um
viandante inseparável de sua sombra – época cuja compreensão não se faz,
portanto, sem a inevitabilidade do pensamento de Nietzche.
No entanto, não seria
essa atualidade também, como propõe Zingano, o campo de uma terapêutica do
kantismo, naquilo em que ela poderia curar nossa “recusa a pensar com consequência”?
Em todo caso temos
assim a recolocação do problema por Kant. A irredutibilidade da esfera prática
é um fato mas ele não implica que essa esfera não possa ser racional. Antes de
decidir que ela não o pode ser, não seria preciso perguntar se ela pode? Não se
deveria indagar se a razão pura pode ser prática?
Mas devemos nos deter
um pouco mais sobre a contextualização histórica do kantismo. Pois há também um
outro motivo que concorre aqui. Vimos na fase pré-crítica, conforme Zingano,
que Kant havia retido da filosofia moral inglesa, isto é, também de Hume, a
irredutibilidade do sentimento do bem. Nessa época Kant compreendeu o
sentimento de prazer que acompanha a representação do objeto como o conteúdo de
uma forma geral vazia designada como a máxima perfeição ou fim absoluto da
ação, encontrando assim o princípio da moralidade. No entanto, a provisoriedade
dessa solução havia sido localizada desde a leitura de Rousseau, pois agora
evidenciava-se a necessidade do geral na vontade moral, isto é, para Kant
tornava-se claro que o problema não poderia ser conduzido sem que se pensasse “a
constituição de uma comunidade de agentes, só que, desta vez, sob o domínio da
razão” (RHK, 32).
Essa convergência com
Rousseau esclarece convenientemente a mudança no modo de visar a questão, de
Hume a Kant. O elemento novo que interveio aqui se designa “universalidade” e
ele está implicado no pensamento de uma “comunidade”, o qual não pode ser
minimizado ao se tratar o fato da moralidade pois a decisão deixou de ser
irredutivelmente moral por seu vínculo exclusivo com o sentimento individual de
prazer ou de recusa para se constituir assim no interior de uma trama social ela
mesma conceituada como “vontade”, isto é, como a mesma conformidade a
princípios manifesta em todos os agentes.
Fica bem nítido
também o intervalo de Rousseau ao Kant da fase crítica, se observarmos o salto
da “generalidade” (vontade geral) à “universalidade” (razão
prática). Pois como mostra Bréhier, o que se retém nos dois registros é que o
elemento básico foi transposto, desde o “sentimento” do bem ou do mal à
consciência do dever. O dever se tornou o fato básico como àquilo a que
a vontade já desde sempre aderiu, na verdade, mais do que um “aderir”, pode-se
propor que a constituiu como vontade do ser humano, que assim já se pode
compreender como sinônimo de agente moral.
O problema se
transformou, portanto, de modo a poder se enunciar por meio da questão de como
conceituar o dever. Ora, Bréhier mostra que Rousseau, que assim já havia
localizado os termos do tema da moralidade, o explicou como “instinto divino”.
Esse modo de estabelecer a resposta não deve ser historicamente subestimado.
Ele fornece o vínculo, o missing link como costuma se expressar Carpeaux
num outro registro, à observação de Zingano sobre o modo como o tema se tornou
costumeiro na atualidade, pois o que assim se enuncia é o absurdo da vontade
(Shopenhauer) que irá encontrar sua plena positividade em Nietzsche, o conceito
de Vontade de potência, não mais como absurdidade mas como criatividade, não,
tampouco, sem transmutar os valores de um mundo “moral” a um mundo “estético”.
Retornando ao
exemplo, a ordem que, afinal, consubstancia o elemento irredutível ao conhecer,
envolvida no sim ou não de beber, poderia parecer esse “puro irracional, ordem
sem apelo que fecha toda discussão”, conforme a expressão de Bréhier. Isso, um
tanto paradoxalmente, sobrevindo do contexto de Rousseau, onde se tratava de
generalizar a vontade, de instituir a questão da comunidade de agentes no âmago
do desenvolvimento do problema moral. Mas “instinto divino” não se exime de
expressar tão somente a absurdidade ou o irracional da ordem, subjetiva ou
geral, esse geral, podemos lembrar, sendo ainda a expressão do particular.
Hume, inserindo seu pensamento nesse mesmo contexto de predominância do
particular, havia também se confrontado com a necessidade de conceituar o
vínculo com o geral, o que se garantia por meio da instituição. A
característica desse viés parece ser que a subsunção ao subjetivo não pode
deixar de se expressar no limite do “irracional”, instinto ou paixão.
Assim, se Kant
reverte os termos do geral ao universal, é agora o geral que se torna, como
universal, decisivo. Ele não se compreende como a expressão do particular, mas
expressa um elemento que subsume o particular no sentido de que é ele que
permite que se compreenda o particular, não mais o inverso. Conforme Bréhier,
para Kant “universalidade” significa “racionalidade”. O percurso do século
XVIII ao kantismo é aquele que conduz do sentimento e do instinto à Razão.
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A forma superior da
faculdade de desejar se endereça à universalidade. Trata-se de determinar o
desejo por algo que não se confunde nem com o sentimento de prazer ou desprazer
que liga as representações dos objetos à inclinação da vontade, nem com a
representação por si desses objetos, sensíveis ou intelectuais. A forma
superior da faculdade de desejar se determina pela representação de uma pura
forma, a de uma legislação universal. A lei moral não se apresenta, conforme
Deleuze, no kantismo, como um universal comparativo e psicológico, como se
pudéssemos encontrar na reciprocidade empírica de nossos atos um princípio regulador
da ação ( não fazer aos outros o que não queremos que nos façam). O universal,
sendo agora proposto na exterioridade da experiência, portanto da psicologia, é
um absoluto lógico. A lei moral nos força a pensar a máxima de nossa vontade
como princípio de uma legislação universal, válida em todos os casos, para
todos os agentes. Assim, a ação válida é aquela que resiste a essa prova
lógica, ação cuja máxima pode, sem contradição, ser pensada como lei universal.
Temos duas consequências
, nesse modo de estabelecer a questão moral, ora concernindo à vontade, ora à
razão. O princípio da atribuição da moralidade às ações é racional, pois ser
racional é agir segundo representações de leis universais, conforme mostra
também Zingano (RHK, 112). Ora, a vontade determinada pela forma da lei,
não por conteúdos extrínsecos oriundos da representação, é livre. O ser
racional, portanto, tem vontade livre, autônoma, o princípio do querer
tornando-se assim objetivo e correspondendo à consciência da lei moral. Mas a lei
moral não é um fato no mundo, na natureza, e sim um fato da razão.
O kantismo pretende
assegurar quanto a isso uma demonstração cuja constringência lógica obriga ao
assentimento, de modo afastado de uma simples proposição subjetiva da vontade
que poderia, simplesmente, querer que todos fossem livres no melhor mundo
possível, ou querer “livremente” apenas nesse mundo. Trata-se então da
exigência de mostrar a realidade objetiva desse conceito prático racional de
liberdade, a síntese prática a priori, já que agora não ocorre, como na
região do conhecimento puro, poder-se delimitar essa mostragem pela
circunscrição ao fenomênico. Ou seja, trata-se de estabelecer o fato prático
que não pode ser simplesmente “conhecido”, nem mesmo do ponto de vista
transcendental, nos limites de uma dedução que porta sobre a representação do
mundo.
A história dessa
exigência, partindo da postulação de atos de origem inteligível poder
estabelecer o fato da razão prática e por aí a fundamentação de uma ética,
comporta inversões. Assim, Zingano registra, Kant muda sua posição que fôra, na
edição inicial da Crítica da Razão Pura, tratando do conceito de
liberdade, a de deduzi-lo como propriedade do ser racional. Na segunda edição,
Kant mostra ser preciso aceitar o fato da moralidade para então poder haver o
pressuposto da liberdade.
Ainda que seja um
tema polêmico o motivo dessa alteração do texto da crítica, creio que algo se
mantém, desenvolvendo-se como tema da Razão Prática, isso que Deleuze
enuncia em temos de uma definição da vontade livre como aquela que é
inteiramente determinada pela forma da lei. Assim, Deleuze afirma que as
fórmulas de Kant variam a esse respeito mas que o que permanece como constante
em seu pensamento é que a lei que determina uma vontade livre não é como uma
lei “natural” deduzida do curso dos fenômenos, e sim uma lei moral,
correspondendo, porém, à pura forma de legislação universal. Razão prática e
liberdade são de tal modo implicadas que se enunciam como o mesmo. No entanto,
conforme nossas representações, é o conceito de razão prática que conduz ao de
liberdade. É a lei moral que nos transmite a autocompreensão como seres livres.
A autonomia da vontade forma a síntese a priori do conceito de liberdade
como realidade objetiva da razão prática.
A representação é
racional, quando independe de toda condição sensível, como de todo sentimento
ou matéria. Mas a consciência da lei moral, não corresponde a um “raciocínio”,
isto é, a atuação da razão nesse âmbito não é simplesmenter “raciocinar” e sim
legislar. A razão é essa faculdade que legisla na faculdade de desejar, sem
mediação da representação ou do fenômeno, e é sob esse aspecto que se designa “razão
pura prática”. O fato da razão pura ser prática se torna assim seu ser
originariamente legislante, encontrando sua determinação apenas nela mesma
(autonomia da vontade).
Tratando desse mesmo
tópico, Zingano enfatiza a natureza oblíqua da visibilidade do fato da razão,
consciência da lei ou da liberdade. A lei só se mostra nos interstícios das
paixões. Em nosso agir podemos ou não acatar a voz do dever (senso moral), mas
não se pode descartá-la. A necessidade da prescrição moral se redobra pela
inevitabilidade do nosso prescrever. Assim, o fato da razão é que há razão e
que ela é prática, ou seja, em nós a lei moral é a atividade revelada como
auto-consciência da atividade da razão determinando a vontade. Ou seja, esse
fato é o meio lógico para o sentido de juízos práticos, desde que para que se
possa imputar moralmente uma ação a um agente, é preciso que os fins da ação
possam ser autodeterminados por um princípio a priori.
A importância dessa
factualidade prática é enorme, pois ela funda um domínio irredutível do humano
na ambiência mais geral dos fenômenos, isto é, funda uma esfera de objetividade
no entanto incompreensível pela via especulativa. Como mostra Zingano, o fato
da razão condiciona o estabelecimento desse domínio prático no território dos
fenômenos, em que certos efeitos são atribuídos a agentes conforme um caráter
inteligível. O que é ao mesmo tempo a possibilidade do agir, do ponto de vista
do agente, e da imputabilidade a ele da ação.
É bem notória a
posição limítrofe do conceito de liberdade na Crítica da Razão Pura. Ele se
inscreve entre as idéias que resultam do uso ilegítimo da razão se forem
afirmado como se portassem exclusivamente sobre uma série de fenômenos,
permanecendo antinômicas se forem legitimamente reportadas como idéias puras,
sempre entre sim ou não, as teses de sua existência ou do seu ser quimérico se
anulando ou contrabalançando por não haver como ancorar sua referência
empírica. Mas com relação ao conceito de liberdade o fato da moralidade se
insinua desde já, forçando o desenvolvimento da questão prática.
Kant observa, ao
tratar as teses e antíteses relativas às antinomias da razão, que as antíteses
exibem uma uniformidade, configurando um sistema coerente, um empirismo. Já as
teses se comportam de outro modo, desde que sobrepõem ao modo empírico de
explicação no interior da série fenomênica, também, como fundamento, “inícios
intelectuais”. No entanto, se estas não podem ser reduzidas a um único modo de
expor, não deixam de exibir um caráter essencial a que Kant designa “dogmatismo
da razão pura” .
Zingano introduz a
apreciação subsequente de Kant a propósito do dogmatismo numa aproximação com o
platonismo, propiciada pelo exemplo comum do levantar-se da cadeira. Como vimos
anteriormente, esse exemplo de ato livre já havia sido utilizado na crítica
socrática a Anaxágoras e à explicação mecânica dos atos. Esse platonismo, ou dogmatismo
implícito na tese de uma causalidade livre e independente da série fenomênica,
pelo que se pode iniciar absolutamente uma ação, é atrativo, pois conserva a
imputação de responsabilidade ao agente. Mas permanece na região da decisão
objetiva, sem situar o problema envolvido no desnível das premissas. Ora, se
causa e efeito restam fenomenais – o ato e o agente, ambos podendo ser pensados
no mesmo plano como fenômenos – a causalidade mesma escapa à série fenomênica
concernindo ao arbítrio, ao sujeito noumênico. Assim, algo se manifesta aqui de
suma relevância no curso do pensar. Pois o que permanece indubitável é que essa
causalidade não pode deixar de exibir um caráter empírico, seus efeitos
derivando de uma regra, a saber, aquela pela qual todo agir humano se subsume a
princípios que remetem a fundamentos e atos da razão.
A regra de que todo
agir é conforme regras subentende a ação que as prescreve, logo também a
vontade regrada (transcendentalmente) pela origem. A razão especulativa só
conhece o desenvolvimento do conceito – a liberdade como independência frete a
condições empíricas ou faculdade de iniciar uma série de eventos sem nada que a
determine previamente. Mas a exposição do que se manteve implicado, como
determinante, em nível de razão, já estabelece o âmbito prático na evolução do
pensar. Aqui trata-se de estabelecer a natureza do querer moral. Sendo a
essência da lei a sua universalidade, a referência da ação, enquanto regrada,
se endereça ao horizonte de uma comunidade racional de agentes, comunidade que
se torna conceituável apenas por essa referência.
O conceito de
liberdade, como idéia da razão, manifesta um caráter eminente sobre todas as
outras idéias, pois somente ele pode, sendo determinado praticamente, conforme
Deleuze, fornecer sentido às coisas em si e acesso ao mundo inteligível. A
razão prática fornece ao conceito de liberdade uma realidade objetiva por
legislar “sobre o ser livre enquanto coisa em si, sobre a causalidade noumênica
e inteligível desse ser, sobre o mundo supra-sensível formado por esses seres”.
Assim desdobram-se os
mundos, como as naturezas. A legislação por conceitos naturais é a do
entendimento, que legisla na faculdade de conhecer ou no interesse especulativo
da razão, tendo por domínio os fenômenos que formam uma natureza sensível como
objetos de experiência possível. A legislação pelo conceito de liberdade é
aquela onde a razão, determinando esse conceito, legisla na faculdade de
desejar, conforme seu interesse prático, formando o domínio das coisas em si,
pensados como noumenos, que integram uma natureza supra-sensível.
É certo que se
ressaltou a conexão entre a comunidade racional de agentes e aquilo que permite
que se a conceitue, a lei moral enquanto regra a priori da ação. No
entanto, e mesmo assim, seria de se indagar como é que isso escapa de ser, como
a República platônica, conforme a expressão do próprio Kant, algo como “o
exemplo” de “perfeição quimérica que só pode ter sua sede no cérebro do
pensador ocioso”. Conjurando essa consequência, todo o contexto da razão
prática se transfere para uma espécie de referência negativa em que a
impotência do agir efetivo se torna confrontado ao seu princípio enquanto ação
racional. Nessa espessura ou intervalo do querer ao fazer, muita coisa se
interpõe. Não somente o egoísmo que se poderia localizar na aderência do “eu”
somente a si, o problema das paixões, mas também a impossibilidade de contar
com a mesma observância estrita da lei na comunidade real, e mesmo as
circunstâncias do mundo que carregam, nesse intervalo, a necessidade de se
separar os conceitos de virtude e felicidade. A fundação de uma esfera prática
não poderia contornar a tarefa dessa referência, tampouco reduzir tudo a um
confronto na base da decisão moral ou resignar-se ao incoercível da espessura (
o inesgotável ). Pensar o mal radical precisa ser algo apenas no caminho de se
conceituar a possibilidade da afirmação do bem moral. Utilizando o texto
deleuziano, no que concerne aos aportes seguintes da razão prática, seria
oportuno iniciar esse caminho pela conceituação do termo “submissão”.
A causalidade livre
dos seres em si põe a necessidade de se pensar a identidade do legislador e do
sujeito sobre o qual incide a legislação. Ser submisso à lei moral compreende
esse paradoxo que encerra algo de sublime, pois seu sentido depende de que se é
ao mesmo tempo o legislador, não podendo haver, no plano ético, submissão sem
ação de legislar, com relação às mesmas pessoas. E é assim que se constitui uma
natureza supra-sensível, a pertença manifestando-se desde que para ser membro
dessa natureza, se é ao mesmo tempo legislador, o que se confere como o
princípio determinante dos seres enquanto racionais como princípio de sua união
sistemática.
Mas é assim, também,
que o mal se torna algo inteligível, algo cuja fundação se reporta ao caráter
inteligível dos sujeitos racionais. O mal se traduz como a opção contra a lei,
mas o pensamento de Kant quanto a isso não se joga exclusivamente no plano dos
fenômenos, como se a compreensão do mal, enquanto uma opção inversa ao agir
submisso à lei moral, se devesse encontrar na região dos efeitos (esse ou
aquele mal, ou infração determinada). Sem dúvida o mal se plasma no fenomênico
como tal ou tal infração, mas sua definição não está lá, e sim no domínio
inteligível, pois é aqui que se desenrola o mecanismo que deve conduzir à
vontade seja ao livre-arbítrio, seja à liberdade.
Se bem que o
livre-arbítrio seja uma zona interior à liberdade, ele parece mais como uma
antecâmera, um limiar entre o puro individual e a Natureza moral do
subjetividade, enquanto supra-sensível. O mal é conceder à sensibilidade a lei
que determina a vontade, renunciar ao poder de legislar, de ser legislador. Não
se perde por isso o caráter inteligível, mas sob a opção do mal esse caráter
não integra a natureza supra-sensível, a comunidade de legislação moral, ou
seja, o indivíduo não se põe como o sujeito. Como nada garante a um ser
racional que seus semelhantes irão compor, todos, a existência com a sua,
formando a natureza moral, essa natureza supra-sensível jamais se realiza
completamente.
O que permanece como
princípio inteligível, mesmo no que se refere ao mal, só pode se conceituar
tendo em vista a cesura entre o empírico e o transcendental. Ora, o âmbito
transcendental se tornou enunciável apenas como determinação dos usos imanentes
da razão: desde que se descobriu quais são os seus reais interesses, temos
também o critério do seu uso legítimo, em conformidade com esses interesses
racionais, e por aí tanto um critério de validez na esfera especulativa quanto
um critério de autonomia na esfera moral. Vimos, no âmbito especulativo, que a
garantia desse exercício imanente depende de um acordo entre as faculdades, um
senso comum. Agora trata-se então de compreender o senso comum moral, de modo a
estabelecer o caráter inteligível do mal como impureza prática, aquilo que
escapa à imanência e se dirige ao que transcende o interesse legítimo da razão,
ou seja, o que confunde o empírico e o transcendental.
A irredutibilidade
entre as duas naturezas, sensível e supra-sensível não se deixa minimizar de
todo, mas entre ambas tampouco deixa de subsistir uma analogia, a existência
segundo leis. Ora, devido ao instável do arranjo supra-sensível, ele não pode
ser pensado a não ser por analogia com a natureza sensível, o que se vê bem na
prova lógica da razão prática, onde a questão é estabelecer se a máxima de uma
vontade pode ter a forma prática de uma lei universal.
Inicialmente trata-se
de indagar se a máxima pode ser erigida em lei teórica universal de uma
natureza sensível, isto é, se uma regra de conduta moral pode encontrar o
critério de sua validez na conveniência natural sensível de seus efeitos. Por
exemplo, se todos mentissem, as promessas se destruiriam por si e seria
contraditório que alguém nelas viesse a crer. Logo, a mentira não pode ter o
valor de uma lei da natureza sensível, de modo que se a máxima de nossa vontade
fosse uma lei teórica da natureza sensível, cada um seria constrangido a falar
somente a verdade. Mas por esse meio mostra-se que a máxima de uma vontade
mentirosa não poderia sem contradição servir de lei prática pura a seres
racionais no intuito de compor uma natureza supra-sensível. A analogia com a
forma de leis teóricas da natureza sensível se utiliza portanto como meio pelo que
podemos estabelecer se uma máxima pode ou não ser pensada como lei prática de
uma natureza supra-sensível. A natureza sensível surge, no âmbito prático, como
“tipo” da natureza inteligível.
A forma prática da
harmonia entre as faculdades se revela por esse papel coadjuvante que o
entendimento – ele mesmo legislador quando se trata do interesse especulativo –
encontra agora, limitando-se a um raciocínio comparativo e a um simbolismo como
extração do tipo, sendo a razão somente que legisla aqui. Observe-se que não
retemos da natureza sensível, no âmbito prático, o que se reporta à intuição ou
à imaginação, mas somente ao entendimento enquanto a forma de conformidade à
lei, forma que se torna análoga à conformidade moral que está podendo fundar,
contudo, um domínio completamente irredutível, como aquele da liberdade.
Em todo caso a
harmonia entre as faculdades sempre concede àquela que não está no seu papel
legislador, no entanto, uma função insubstituível, que só ela pode ter mas que
lhe é imposto por aquela que legisla. Ora, no caso específico do âmbito
prático, o que impõe ao entendimento essa função coadjuvante é o conceito de
causalidade, isso mesmo que permite o salto da conformidade natural à liberdade
absoluta da vontade enquanto autônoma.
A causalidade, como
categoria do entendimento, não tem uma forma produtora originária, os fenômenos
não sendo de modo algum produzidos por nós. Mas quando a razão se apossa desse
conceito do entendimento – que só havia estado lá devido a um outro interesse
da razão mesma – ela une o conceito de causalidade ao de liberdade, pois agora
o conceito está implicado na definição da faculdade de desejar como relação da
representação a um objeto que o desejo efetivamente produz. É o fato de que a
causalidade se aplica, mesmo no âmbito especulativo que é o da coerção da
experiência, conforme um sentido puramente lógico, que faz com que essa
aplicação independa da condição, sensível ou não, do objeto.
Assim a causalidade
pode se estender a objetos não determinados pelo ponto de vista do
conhecimento, como supra-sensíveis, determinando-se como causalidade livre e
podendo formar uma “natureza”, ainda que por analogia. Ora, isso não impede que
esse senso comum moral, acordo do entendimento com a razão, sob a legislação da
razão, esteja sujeito a desbordar-se, em vez de uma harmonia natural (senso
comum) surgindo exercícios discordantes (não-senso). Não menos que na Crítica
da Razão Pura, é preciso agora, no âmbito da Razão Prática,
denunciar os exercícios ou usos ilegítimos, já que as faculdades podem
arranjar-se ilusoriamente, por exemplo, em vez de “simbolizar”, o entendimento
se põe a esquematizar, reportando à lei moral não o tipo de uma lei natural,
mas uma intuição. Ou em vez de comandar, sem nada deixar às inclinações sensíveis
ou aos interesses da experiência, a razão se põe a acomodar o dever com os
desejos da sensibilidade. Nas duas Críticas, trata-se da dialética quando a
tarefa é examinar os descaminhos ilusórios das faculdades, os exercícios
discordantes da própria razão.
Ora, o contrasenso
seria pretender que o que permanece em comum nas duas críticas se pudesse
enunciar como empreendimento crítico da razão pura. Pois somente no
âmbito do interesse especulativo a razão pura pode ser objeto de ilusões
internas. A razão pura prática, por sua vez, não tem a menor necessidade de
crítica desde que se demonstre que ela existe. No entanto, ela pode se deixar
condicionar empiricamente, como numa auto-renúncia, mas nesse caso ela deixa de
ser pura, a crítica só tendo como objeto propriamente uma razão tornada impura,
e, precisamente, pela ambição de um uso transcendente. Na Crítica da Razão
Pura, a ambição é a de uma razão especulativa que pretendia legislar por si
mesma. Na Crítica da Razão Prática, a ambição é a de uma razão que se deixa
condicionar empiricamente. Mas por que seria isso uma “ambição”? Porque em vez
de um objeto supra-sensível, em vez de uma lei que não pode ter absolutamente
nada que lhe fundamente do exterior, a razão se forja assim a monstruosidade do
que seria um seu objeto de intuição.
Contudo, poderia a
razão prática evitar por completo essa ilusão? E se fosse o caso de justificar
o seu desbordamento, o que se encontraria, se não uma ligação necessária entre
a felicidade e a virtude, ligação que a razão prática não pode deixar de se pôr
, mas que só a conduz a uma antinomia?
O antinômico entre
esses dois conceitos, felicidade e virtude, consiste em que nenhum deles pode
ser causa do outro. A lei moral tem que ser o determinante de uma vontade boa,
excluindo todo móvel extrínseco, mas as leis do mundo sensível não se regram de
modo algum sobre as intenções de uma boa vontade. E sem dúvida, conforme a
expressão de Deleuze, a idéia de felicidade implica a satisfação completa de
nossos desejos e inclinações. Observe-se que a ligação entre os conceitos em
causa não deriva de uma simples projeção de interesses empíricos, sendo a razão
pura prática que a reclama. Agora sim se pode novamente falar em termos de “ilusão
interna” da razão pura, mesmo no âmbito prático.
Ocorre ainda que a
fonte da ilusão é algo que mesmo os mais experientes não podem evitar, a saber,
algo como um prazer, o contentamento puramente intelectual que deriva da
evidenciação à faculdade de desejar de nossa independência com relação às
inclinações sensíveis. A ilusão é a confusão desse contentamento intelectual
ativo com algo como um sentimento positivo. Quanto a isso é preciso enfatizar
que Kant não define o contentamento com um sentimento, ainda que seja algo
análogo. Deleuze utiliza aqui o termo Jouissance, gozo ou desfrute, que
tem uma conotação teórica bastante conhecida, como por exemplo, em Barthes, que
explora a oposição que o termo mantém como algo de censurável (interdito)
frente a seu oposto legítimo, o “prazer” (plaisir) desinteressado da apreciação
da obra de arte. Assim, aqui, se a jouissance se libera como
contentamento moral, é porque ela pôde purgar sua oposição ao prazer, restando
puramente intelectual (“jouissance negativa”). O termo kantiano para
designar esse contentamento, constando tanto na tradução em português da Crítica
da Razão Prática, de Afonso Bertagnoli, quanto no texto deleuziano, é “satisfação”
(satisfaction), que Kant assimila ao sentido de “sensação”.
Kant mostra que ora
cremos que esse contentamento, que pensamos ser a felicidade, é a causa ou
móvel da virtude, ora que a virtude é ela mesma causa da felicidade. Agora a
impureza, que consiste na projeção de algo exterior, interesse ou desejo
empírico, na razão, não deixa de ser um princípio profundo dentro da razão pura
mesma, sendo esse um outro sentido da palavra dialética, aquele pelo qual a
ilusão se pôs não apenas como resultado de uma alienação, renúncia da
autodeterminação da razão, mas sim pelo próprio modo da razão prática se
exercer. Mas essa antinomia deve ser bem acolhida, pois se ela mesma não pode
fornecer uma totalização, sua posição nos propõe a busca de algo assim. Esse é,
com efeito conforme Kant, o erro mais benéfico em que a humanidade pôde
incorrer.
A superação da
antinomia só poderia se apresentar ao modo de um conceito que reunisse ambos os
termos que se contrapõem. Esse conceito é o do bem supremo. No entanto,
o que o conceito apresenta é um novo problema, pois não basta apresentá-lo, é
preciso que a ele se possam reunir os meios de sua realização. Ora, temos aqui
reintroduzida a questão do acordo entre as naturezas, sensível e inteligível,
mais geralmente, o da unidade das críticas como algo que se pudesse interpor ao
abismo do conhecer ao desejar. Conforme Deleuze, esse abismo só existe para ser
preenchido. O problema da realização da razão prática se endereça, pois, à sua
existência nesse mundo, o que torna a sua consideração algo pelo menos
sustentável como uma tarefa legítima.
Assim, se está
excluída a hipótese de que o desejo da felicidade seja o móvel da virtude, não
deveria parecer de todo impensável a máxima da virtude como causa da
felicidade. O que se interpõe nesse caminho é que de modo algum se pode cruzar
os domínios de legislação. A lei moral não legisla sobre o mundo sensível, que
tem suas próprias leis, indiferentes às intenções morais da vontade. No
entanto, o que se oferece como restando a pensar nessa via é que a conexão
almejada, que se pôs legitimamente, poderia não ser imediata, e sim proposta de
algum modo oblíquo, por exemplo, aceitando-se a perspectiva de um progresso ao
infinito (alma imortal), ou de um autor inteligível da natureza sensível, que
seria também “causa moral do mundo” ( Deus).
Essas Idéias da
razão, que na região do especulativo se haviam mantido como horizonte
regulador, agora recebem o status de postulados. A idéia psicológica da
alma e a idéia teológica do ser supremo recebem da lei moral uma realidade
objetiva. A antinomia nos conduziu, portanto, a uma crença pura prática, cujo
objeto se possibilitou por esses postulados, tornando assim o percurso, que
veio de uma ilusão, em algo não ilusório, mas necessário. A idéia cosmológica
de liberdade, porém, se não deixa de receber realidade objetiva da lei moral, é
mesmo aqui algo mais do que apenas um postulado, é o objeto de uma proposição
categórica, uma “matéria de fato”.
Essa solução, porém,
vai ocasionar uma bifurcação na exposição, de um lado apontando para a
exigência de se rever os meios do acordo entre as faculdades, mas por outro,
sugerindo a necessidade de se compreender a relação da razão e do mundo, logo
da existência do ser humano e da natureza, no âmbito de uma teleologia
sustentada pela Idéia de Deus devendo responder pelos meios conjuntos,
sensível e supra-sensível, de efetivação do real.
Quanto ao senso comum
moral, até aqui só foi possível constatar a relação da razão com o
entendimento, uma vez que, se nem os seres nem a causalidade livres podem ser
objetos de intuição, a sensibilidade só pode entrar como sentimento,
negativo aliás, pois trata-se do respeito pela lei, o que não se costuma
associar a um prazer. Esse sentimento é a priori determinado como “móvel”
moral, mas por si não confere nenhum papel à sensibilidade na relação entre as
faculdades no senso comum prático. Quanto ao contentamento intelectual derivado
da conformidade do ato à lei, como vimos, Kant não o pensa como um sentimento,
apenas como um “análogo” de sentimento, não podendo portanto ser identificado
ao respeito da lei. No entanto, se o respeito é o único móvel da moralidade,
isto é, se ele é o sentimento único que apresenta a moralidade como móvel da
ação, deve permanecer como preliminar, restando no exterior da positividade da
realização efetiva dessa ação.
Não ocorre o mesmo
quando se trata da imaginação. Vimos que os postulados, como Idéias da razão
que se tornam o objeto da crença pura prática, são meios, algo oblíquos, é
verdade, da conexão da virtude com a felicidade, logo, eles entram de algum
modo na problemática relacionada à realização da moralidade no mundo. Ora, esses
meios não são os únicos. É preciso também que as condições imanentes à natureza
sensível possam fundar nela a capacidade de exprimir ou simbolizar algo do
supra-sensível. Trata-se então de três aspectos dessa fundação: a finalidade
natural na matéria dos fenômenos, a forma da finalidade da natureza nos objetos
belos e o sublime no informe da natureza que permite que ela mesma testemunhe
da existência de uma finalidade superior. Mas nesses dois casos, do belo e do
sublime, sabemos, o papel importante e o da imaginação.
A consciência da
moralidade, isto é, o senso comum moral, não comporta, portanto, apenas
crenças, mas inclui os atos de uma imaginação pelos quais a natureza sensível
aparece como apta a receber o efeito do supra-sensível, de modo que a imaginação
faz parte do senso comum moral.
Reta ainda, nesse
mesmo tema do acordo entre as faculdades, algo que concerne ao outro sentido
desse termo, isto é, faculdades se compreendendo como tipos de relação entre a
representação e o objeto. Aqui o importante a considerar é que é o mesmo ser
que é fenômeno e coisa em si, submetendo-se à necessidade natural como
fenômeno, fonte da causalidade livre como coisa em si. E é a mesma ação, o
mesmo efeito sensível, que se relaciona tanto com o encadeamento de causas
sensíveis em meio a que ele é necessário, quanto, por meio mesmo do caráter
dessa necessidade, a uma causa livre de que o efeito é signo, expressão.
Torna-se bem
evidenciado que a causa livre não pode jamais ter seu efeito em si mesma. Nada
acorre ou começa nos seres livres, mas a causalidade livre só pode ter
algum efeito sensível. É válido portanto repetir, devido à importância
desse tópico: como a razão prática, enquanto lei da causalidade livre, deve ter
uma causalidade em relação aos fenômenos, a natureza supra-sensível, que os
seres livre formam segundo a lei da razão, deve ser realizada no mundo
sensível. O bastante para compreender o sentido de unidade que Kant garante
assim, é lembrar que se há dois domínios, duas naturezas, elas se encontram no
mesmo terreno que é o da experiência.
O bem moral torna-se
o termo dessa realização, como determinação de objetos conformes à vontade
livre, mesmo mantendo-se a interdição de que a determinação da vontade livre
seja feita pela representação do objeto. Lembrando a relação de cada uma das
faculdades, no caso do conhecer a representação deve ser reportada ao objeto do
ponto de vista da conformidade, enquanto que no caso do desejar, a
representação é causa da realidade mesma dos objetos. Trata-se então nesse
ponto de mostrar que quando a razão legisla na faculdade de desejar, é o desejo
que legisla sobre os objetos que formam o bem moral, de modo que o que a razão
se “representa” nesse caso é o objeto como algo de supra-sensível a realizar no
mundo sensível, como um efeito possível para a liberdade.
O sentido que pode
haver na consideração da oposição ou do auxílio entre a natureza e a liberdade
só se mantém se compreendemos a natureza como fenômeno, e os efeitos da
liberdade também como fenômenos nesse mundo sensível, esses efeitos sejam ou
não conformes à lei moral, e é isso que forma o tecido da experiência. Ora, do
ponto de vista da razão, a unidade da experiência só pode ser assegurada se
houver algum meio de fazer convergir os seus interesses, até aqui apresentados
como múltiplos e irredutíveis.
Com efeito, vimos que
os interesses da razão diferem por natureza, o que se mostra de modo suficiente
quando se constata que a razão não faz nenhum progresso especulativo quando
entra no domínio prático. Assim, por exemplo, a liberdade como Idéia
especulativa permanece problemática e indeterminada, mas a razão especulativa
não ganha coisa alguma em extensão quando essa Idéia recebe da lei moral uma
determinação prática. Contudo, o mundo sensível não apresentaria interesse
especulativo se, do ponto de vista do mais alto interesse, não testemunhasse da
possibilidade de realizar o supra-sensível. Os dois interesses não podem, pois,
ser simplesmente coordenados, devendo haver uma preminência do prático sobre o
especulativo, do desejo sobre o conhecimento, do valor sobre o fato. A crença é
uma síntese desses interesses, especulativo e prático, ao mesmo tempo marcando
a preminência do prático. Ela não se define como uma faculdade particular, não
obstante seu caráter sintético. Mas devido a essa constituição da crença, Kant
pôde assegurar a superioridade da prova moral da existência de Deus, isto é, a
afirmação de Deus como autor moral do mundo, sobre todas as outras provas.
Enquanto objeto de crença, Deus recebe uma determinação e uma realidade
exclusivamente asseguradas pelo âmbito moral.
Vemos então que o
problema do acordo entre as faculdades no senso comum moral, seja no sentido
das fontes de representação que nele atuam (razão, entendimento, imaginação),
seja no sentido da convergência das relações da representação (conhecer e
desejar), se desdobra no tema teológico do autor do mundo.
Ora, esse
desdobramento se observa também porque um interesse em geral implica um
conceito de fim. Já estabelecemos anteriormente que a observação da natureza
sensível, e mais geralmente a faculdade de conhecer, não fornece fins materiais
nem pode se representar um fim: o fato de ser conhecido não confere ao mundo
qualquer valor. Mas na medida em que fim terminal, como conceito, se aplica a
seres que devem ser considerados sempre como fins em si, o fundamento moral
sendo que jamais devemos tomar os seres humanos como meios para quem ou o que
quer que seja, somente esses seres se tornam aptos a fornecer à natureza um fim
terminal a realizar. O texto de Deleuze trabalha nesse ponto com uma oposição
entre fin dernière e but final, respectivamente, numa tradução
literal, fim último e fim terminal. No entanto, no Brasil as traduções de Kant
geralmente apresentam apenas a expressão “fim terminal”, o que mantenho aqui,
simplificando um pouco a leitura de Deleuze, mas sem falsear o sentido do
pensamento kantiano.
Somente a lei moral
determina o ser racional como fim, uma vez que ele constitui um fim no uso da
liberdade, mas por esse meio, ao mesmo tempo o determina como fim terminal da
natureza sensível ao nos prescrever a realização do supra– sensível pela união
da felicidade universal com a moralidade. Se a criação tem um fim terminal, só
o podemos conceber em harmonia com a finalidade moral que possibilita o
conceito mesmo de fim. Mas isso resulta na afirmação de que todo interesse,
mais profundamente, é prático, pois é da moralidade que se deriva o meio e o
horizonte do que permanece no âmbito especulativo.
Já vimos algo assim,
ao tratar o juízo teleológico, ora aplicando-se como fim natural (objetos dos
quais um é causa do outro), ou finalidade externa, ora como totalidade (a coisa
é causa e efeito de si mesma, as partes se produzem reciprocamente em sua forma
e sua ligação como em seres organizados, organismos), ou finalidade interna.
Ora, a finalidade externa permanece puramente relativa, hipotética, jamais
cessa de ser. Para que o pudesse fazer, seria preciso que se determinasse um
fim terminal, o que é impossível pela observação da natureza, como já
assinalamos tantas vezes. Nesse domínio, os fins são sempre meios com relação a
alguma outra coisa. No entanto, mesmo que devamos ser conduzidos a subordinar a
finalidade externa à interna, nunca se pode assegurar que a finalidade interna
não irá reenviar à finalidade externa, a questão do fim terminal permanecendo
insolúvel por esse meio de pura reflexão.
Sabemos que a solução
de Kant se encontra na esfera da moral, consistindo em conceituar o ser humano,
enquanto ser racional e moral, como aquele que, podendo encontrar a finalidade
do seu ser em si mesmo, pode também prescrever a lei moral como um fim sem
condição. Enquanto noumeno e supra-sensível, o ser humano prescinde da
indagação do porquê de sua existência, encontrando na liberdade algo que se dá
necessariamente um conteúdo como finalidade suprema determinada pela lei. Temos
assim a organização dos seres racionais sob a lei moral e a liberdade como
razão da existência contida em si pelo ser racional.
O autor inteligente
do mundo faz apelo à sua autoria moral, pois somente assim permite-se pensar um
fim terminal da criação como realizável. No percurso da teleologia natural à
teologia física, da reflexão dos nexos causais localizados na parcialidade dos
fenômenos sensíveis à idéia reguladora de um autor inteligente do mundo, a
insuficiência do se deixa ver pelo fato de que ele não permite que se esclareça
sobre a finalidade da criação. Ora, no âmbito prático o percurso se faz de uma
teleologia prática a priori, o conceito moral determinante do fim
terminal, a uma teologia moral, determinação suficiente da idéia de Deus, autor
moral, como objeto de crença. Resta a questão de como o ser humano, fim
terminal supra-sensível, pode ser um fim, também, da natureza sensível, ou
seja, a questão da realização prática, dos efeitos, no mundo, das atitudes e
decisões do ser moral.
O conceito de
liberdade deve realizar no sensível os fins impostos por sua lei, o que ou se
possibilita sob meios divinos que tornam possível o bem supremo como acordo do
sensível e do supra-sensível, da felicidade e da virtude, ou sob meios mundanos
que se relacionam à estética e à teleologia e viabilizam a conformidade do
sensível a uma finalidade superior. Em todo caso a realização da liberdade é
efetuação do bem supremo. O paradoxo envolvido aqui é que não se afirma que a
natureza realiza a liberdade, mas sim que o conceito de liberdade se realiza ou
se efetua na natureza. A história é a atividade sintética original do ser
humano como efetuação da liberdade e do bem supremo no mundo sensível,
portanto, não pode ser dada como um simples desenvolvimento da natureza. A
finalidade natural torna possível uma relação finalística da natureza e do
homem, mas ela não se mostra como razão suficiente nem condiciona essa relação
que só pode ser estabelecida e instaurada pelo ser humano como constituição
civil perfeita, o mais alto objeto da Cultura, o fim da história ou o supremo
bem mundano.
O paradoxo mascara
uma astúcia da razão. Finalmente a natureza sensível enquanto fenômeno aparece
como tendo por substrato o supra-sensível, isso em que se conciliam o que no
sensível se lança em termos de mecanismo, o necessário como objeto dos
sentidos, e de finalidade, o contingente como objeto de razão. A astúcia
pertence ao supra-sensível, e consiste em que o sensível não se baste para
realizar o “seu” fim último, que é ele mesmo supra-sensível como o que deve ser
efetuado. O contingente no acordo da natureza com as faculdades do ser humano
se revela como uma aparência transcendental, escondendo a astúcia da razão.
A história, no sensível, só mostra a aparência de uma marcha de insensatez. O que se mostra assim é a irredutibilidade da natureza como fenômeno, restando com suas leis independentes da vontade e da liberdade. Mas essa incapacidade inerente ao sensível de realizar qualquer fim terminal, não implica que essas mesmas leis impossibilitem a realização. A “insociável sociabilidade”, pão cotidiano no trato com a natureza sensível dos próprios seres humanos, esses mecanismos de forças e conflitos de tendências, presidem o estabelecimento da sociedade mas é somente essa sociedade o meio no qual o fim terminal pode ser historicamente realizado. O que o indivíduo percebe como algo supremamente insensato pode restar apenas como o detalhe de um desenho perfeitamente coerente do ponto de vista maior da espécie. A história não deve ser julgada de uma perspectiva pessoal, mas sim daquele que pertence à espécie. Mas essa dualidade também é uma astúcia da razão, que agora consiste em que a natureza supra-sensível quis que, mesmo no ser humano, o sensível proceda por suas leis próprias a fim de receber por fim o efeito do supra-sensível. Essas duas astúcias formam a história.
O Iluminismo é, sob
muitos aspectos, como vimos, o turning point no que se relaciona à
historia. Ele se torna assim fundamental para compreender a eclosão das
Ciências do Humano. Hume desempenha aqui um papel determinante.
Os estudos sobre Hume
geralmente focalizam o seu pensamento filosófico. A negligência do Hume
historiador é notória, mas quando não ocorre, a tendência é concentrar-se mais
no seu fazer historiador do que na sua teoria da história. Não obstante, há
pesquisadores que se preocupam com esse aspecto teórico. Mesmo ocupando-se
precipuamente com a exposição da História da Inglaterra, não deixam de
ter que confrontar esse tema e nesse caso a História Natural da Religião
aparece como que sobreposta, a fim de esclarecer a posição do teórico pelo
cotejo dos resultados práticos.
O que se observa
nesse panorama é algo surpreendentemente homogêneo. O Hume teórico da história
se situa, conforme as apresentações do tema, na corrente iluminista que procura
transformar o fazer historiador, desde uma espécie de narrativa “mítica”, isto
é, que encerra uma explicação transcendente dos fatos de modo que a história é
ao mesmo tempo justificação do mundo, a uma narrativa sóbria e coerente cujo
escopo é evidenciar a causalidade imanente dos fatos.
A sucessão das idades
não faz agora apelo a qualquer Razão como totalidade, menos ainda localizada
nas origens do que no fim. O que significa afirmar: a história mítica é aquela
que costumava observar na origem a razão transcendente, Deus e/ou seu desígnio,
que os fatos no conjunto do tempo iriam se destinar a desenvolver, como se
ainda se tratasse do par implicação – explicação. O modelo é a “história” que a
Bíblia delineia: acontecimento fundador, a marcha dos efeitos, o sentido a
realizar.
Poder-se-ia observar
a imensa novidade de Vico. Ele imiscui um sentido cíclico. Não se vê assim
frustrado o fundar das origens? Mas se as voltas incluem todos os estados, a
origem – oposta à civilização – como que assegura o fechamento do círculo. Ao
mesmo tempo ela fornece o sentido, esse novo mito sendo o Progresso. É isso que
retorna, mas só o faz porque o seu oposto anterior, o estado bárbaro da
natureza, está sempre de novo a reclamar, por sua reimposição, a sua própria
superação, isso que só o Progresso deve realizar.
Se quiséssemos manter
o gênero, deveríamos situar Vico na fundação da história moderna, aquela que
vem a se desenvolver como ciência somente partindo do Iluminismo. Ora, essa “fundação”
que Vico opera não se confunde com o que ela veio a fundar. A história
Iluminista não se preocupa com nada na origem, nenhuma gênese deverá ser
designada a fim de compor uma história como monumento – que funciona como Visão
de Mundo. O mito não subsiste, o processo é inteiramente outro.
A causalidade
imanente se torna o motor adequado para esse desenvolvimento novo da narrativa
dos fatos puros. Essa causalidade histórica reproduz a da natureza? Sim, no
sentido pelo qual os fatos se interligam, e aqui o essencial a observar é que,
se no âmbito da teoria das causas em geral, está havendo uma substituição do
nexo de determinação das coisas pela implicação como “narrativa” do espírito ou
mente ou natureza do humano, a imbricação com a história deverá estar no âmago
dessa epistemologia revolucionária. A modernidade resulta desse nó entre
pensamento humano e produção de Saber.
Podemos aqui utilizar
a expressão de Rorty, quanto a essa espécie de causalidade narrativa: tanto a
física quanto a história “encontram condições para a existência de atualidades,
descobrindo atualidades temporalmente antecedentes” (Ensaios sobre Heidegger
e outros, p. 78).
Quando se afirma
geralmente que a Episteme antiga é a do Ser e que a Episteme moderna é a do
Pensamento, o que está implicado, mas nem sempre suficientemente observado, é o
papel epistemológico fundador da história como modelo do trabalho do espírito.
Isso parece bem estabelecido no âmbito do Iluminismo e Hume torna-se
fundamental precisamente como historiador.
A “história da
Inglaterra” é uma exposição de fatos que se explicam uns aos outros, uma “coleção
de experiências”, conforme alhures ele define a história. Mas desde que a
imbricação fenomênica é histórica, ela tem que lidar com um fator causal
independente, a decisão ou o ato dos seres humanos. Estes não deixam de
funcionar discursivamente, isto é, não deixam de se encadear ou implicar
efeitos inevitáveis, objetivos, no sentido de recuperáveis como nexos
narrativos. Mas eles são o essencial desse novo termo, a Experiência. Pois se
no plano da natureza a experiência fornece a aparência de leis – leis que só
existem no espírito, aparência que se torna fundamento – no plano da história a
aparência e a lei manifestam-se na unidade desvelante do seu sentido, a
invenção que é ao mesmo tempo resultado, progresso, devido à acumulação da
experiência, isso que torna essa narrativa história. Pois, como
vimos, é o âmbito prático que fornece a finalidade qualquer postulável. O que
não compromete a cientificidade, bem inversamente, a libera como esse domínio
mesmo do experimental. É a reversão de toda metafísica, ao menos como esses
autores empiristas a compreendem, uma busca da origem, uma explicação
totalizante do ser – o que se tornou uma contradição em termos.
Quanto a isso Hume é
bem claro. A história nos apresenta o conhecimento dos eventos de épocas
anteriores. Mas se o termo se aplica assim a algo como a tradição ou o relato
vulgar, o mister historiador consiste em, dessa preliminar, estabelecer uma
ordem de inferências, de um testemunho a outro, até atingir a presencialidade,
o testemunho ocular ou a observação mesma do evento. No entanto, se isso parece
ao leitor algo ingênuo ou limitante – pois a história, como exercício
especializado ou acúmulo empírico da memória coletiva, deve sua utilidade
precisamente à impossibilidade da conservação desse testemunho – logo se
esclarece que o que se almeja atingir assim é a verdade do fato como se pudesse
estar sendo garantida pela presença, o que se torna exequível ao mesmo tempo
pelo jogo da inferência, de fato em fato, e pelo relato básico que desencadeia
esse processo de recuperação do nexo causal.
Essa concepção do
fazer historiador está se baseando, portanto, numa concepção de causalidade que
deve ser rigorosamente identificada àquela da natureza. É porque se pode
fornecer uma razão à crença em determinado fato relatado que a história se
torna uma ciência, e isso se possibilita porque a razão assim fornecida será um
outro fato em conexão com o anterior, conforme a “solução” às “dúvidas céticas
acerca das operações do intelecto” (Tratado acerca do entendimento humano,
seções IV e V). Mas é nos exames consecutivos (seções VII e VIII),
acerca “da idéia de conexão necessária” e do tema “da liberdade e da
necessidade”, que se define bem o modo pelo qual Hume está compreendendo as
noções de causa e inferência a fim de tornar a verdade algo cientificamente
enunciável também no âmbito do pensamento humano, em história, política e
moral.
Inicialmente trata-se
de mostrar que é o espírito humano que percebe a conexão entre certos eventos
como necessidade, devido à regularidade de sua observação, logo da experiência.
Nem mesmo se pode atribuir essa noção à nossa capacidade volitiva, no sentido
de que causamos movimentos e efeitos no mundo ou no corpo físico, como se
derivássemos dessa capacidade a noção da relação de causa e efeito entre os
fenômenos. É somente o acúmulo da observação de conjunções repetidas entre
fatos que se seguem que origina o conceito de conexão e de necessidade.
Portanto não se atribui a conexão necessária entre dois fatos dados sem a
experiência prévia de sua conjunção atual, sendo impossível que resulte de um
raciocínio abstrato, a partir de fatos que não se tenham já estabelecido como sempre
conexos. Em compensação, uma vez estabelecida a conexão devida à regularidade
observada, a crença resultante no processo causal se torna inabalável e
totalmente garantida do ponto de vista do conhecimento.
Ora, o que fornece a
garantia do conhecimento é a regularidade observada e quanto a isso o espírito
é tão bem servido quando se trata dos fenômenos naturais quanto pela história.
Ela nada nos informa que seja estranho ou incongruente com o que se observa da
humanidade em qualquer tempo ou lugar. A natureza do humano fornece sempre os
mesmos motivos que produzem sempre as mesmas ações, os mesmos eventos que
resultam das mesmas causas: as paixões que explicam os atos, como a ambição ou
a auto-estima, a vaidade ou a amizade, a generosidade ou o espírito público,
paixões que se misturam em vários graus e em qualquer que seja a sociedade
considerada atuam como princípios universais e constantes dessa natureza do ser
humano.
Os elementos
naturais, a água e a terra, continuam semelhantes ao examinado pelos doutos da
antiguidade, do mesmo modo que “os homens descritos por Políbio e Tácito são
semelhantes aos homens que governam atualmente o mundo”, já que “a evidência natural
e a evidência moral” formam “uma única corrente de argumentos” , o que
permite afirmar “que ambas são da mesma natureza e que derivam dos mesmos
princípios”. Hume fornece vários exemplos de ações que se baseiam na
experiência da uniformidade do comportamento humano comparando-a com a
uniformidade dos eventos da natureza, resultando sempre que o grau de certeza
com que contamos com a reação de nossos semelhantes suporta esse tipo de ação
do mesmo modo que a certeza que temos acerca dos efeitos dos elementos naturais
suporta os meios pelos quais os utilizamos com proveito na agricultura ou na
indústria.
Geralmente os
pesquisadores acentuam também o modo pelo qual Hume deslocou a centralidade
narrativa da história, focalizando mais as maneiras do que os grandes fatos.
Com efeito, ele valoriza, do mesmo modo que Nietzsche mais tarde vai
estabelecer como método ou fórmula dos estudos culturais, o pequeno
acontecimento, vendo aqui o sentido daquilo que informa os eventos transpostos
na macrotessitura das datas. Por exemplo, em um encontro de homens de Estado,
importa menos o que resulta como decreto “histórico”, que Hume nem menciona, do
que a conversa informal que se desenrolou na ocasião , que ele transcreve com
minúcia do relato de Políbio (“da origem e progresso das artes e ciências”).
As maneiras permitem localizar o estado ou o grau de civilidade, o que ilumina
a compreensão das decisões e dos atos humanos. Isso me parece sobremodo
importante ressaltar aqui, pois não se prende ao objetivo específico de tratar
o tema do trabalho historiador de Hume, mas se estende àquilo que observei
quanto à forma de sucessividade que essa visão moderna do nexo narrativo parece
implicar.
Se a negligência se
destina mais à origem do que aos fins, é porque a fundação, se não se confunde
com o que funda, não deixa de nela trabalhar de algum modo – e de algum modo
mantendo o mito fundacional. Para utilizar uma expressão mais adequada ao
contexto, a finalidade prática não pode deixar de se enunciar como Progresso,
não apenas progressão, o que ocorreria se o discursivo ou narrativo se
mantivesse no especulativo – o que sem dúvida ocorrerá na transição ao século
XX, quando o retorno a Kant se fará pelo completo abandono da Razão Prática,
pela exclusiva circunscrição ao problema do conhecimento.
Assim, quanto a Hume,
o que as maneiras permitem evidenciar é o progresso, agora linear, do bárbaro
brutal, ao civilizado polido. O ser humano tenderá, nessa perspectiva, a uma
crescente polidez e compreensão até abolir o mais possível tudo o que for
desumano no humano. Certamente o tema do fim da história não parece muito
apropriado ao contexto de Hume, assim como se tornará no marxismo, o que não
ocorre com o tema do resultado fortuito, não premeditado ou previsível, de
certos atos humanos, já presente aqui e que mais tarde será desenvolvido na
Sociologia.
Mas o progresso
linear, como sentido Iluminista da História, assim como manifesto em Hume,
orienta o ser humano à polidez, à interação regrada por instituições sempre
mais aperfeiçoadas, ou seja, a idéia de progresso, na base da narrativa
histórica como acúmulo de experiências, mantém uma relação com as noções de telos,
de finalidade, de horizonte das ações do humano, sem, contudo, compactar um
compromisso com a totalidade, mantendo o espaço do imprevisto, do casual, da
invenção, do criativo, como da decisão e da responsabilidade dos nossos atos.
Algo importante a
registrar quanto a isso é que Hume insere a noção de necessidade no cerne de
nossas deliberações e ações como estando “em conjunção regular com os motivos,
as circunstâncias e os caracteres” de modo que sempre “tiramos inferências de
uns aos outros”. Nesse trecho da seção VIII do tratado, Hume está
realizando uma argumentação em duas frentes, seja para mostrar que todo o
conhecimento da natureza depende da observação de regularidades e do poder de
fazer inferências devido ao acúmulo dessas observações, seja para constatar que
esse princípio epistemológico, mesmo naquilo que revela de decepcionante a uma
intenção totalizante de fundar o saber sobre algo menos relativo, não obstante
se revela inteiramente satisfatório no domínio do pensamento humano, isto é, no
âmbito prático.
Ora, a argumentação
pretende assim mostrar – e esse é o aspecto duplo que ela apresenta – que nesse
âmbito, como no especulativo ou teórico, não existe o acaso, se compreendermos
por esse termo o não-causado, algo inteiramente fortuito, destituído das
conexão de consequências que o ligam, enquanto fato, a outros fatos numa trama
necessária de causas e efeitos. Mas Hume está salvaguardando assim,
precisamente, o casual no sentido da liberdade, compreendendo esses
termos como uma noção oposta à de restrição. É no âmbito prático,
portanto, que melhor se deve lançar o questionamento do determinismo,
mostrando que não há nenhum fato que esteja na exterioridade da necessidade,
mas que no domínio das ações e deliberações do ser humano, existe a liberdade
como o espaço da ação exclusivamente conforme a inclinação (“as
determinações”) da vontade. A liberdade é assim o poder da escolha, agir ou
se abster, sem coação externa.
Hume insiste sobre o
seguinte ponto: se considerarmos necessidade a “qualidade dos atos
humanos” pela qual existe “união de atos semelhantes com motivos, inclinações e
situações semelhantes” , algo que permite fazer inferências sobre essas ações,
baseando-se na experiência dessas regularidades observadas, então a atribuição
da necessidade ao âmbito prático permanece irrecusável. No entanto, isso não
impede que as ações só sejam moralmente imputáveis por comportarem aquele
espaço de liberdade. As ações são “objetos de nosso sentimento moral” apenas
porque procedem de princípios como signos do caráter interno, ou seja, de
paixões e afeições a que nos inclinamos, a que preferimos acolher, e tanto mais
a ação é moralmente imputável quanto ela é objeto de uma deliberação
consciente.
Compreende-se assim
que a conexão necessária que funda a cientificidade na região do humano não
exclui a variedade, a contingência. Os princípios universais que permitem que o
relato histórico se constitua como algo compreensível no presente não impede
que as instituições não tenham sempre apresentado as mesmas formas, que um ato
não possa ter consequências imprevistas ou não possa derivar de uma inclinação
irrefletida. O que permanece constante são os princípios e as tendências, o que
permanece variável são as atualizações. A trama histórica, a narrativa, se
compõe do entrelaçamento desses dois fatores, o contingente e o necessário, mas
o sentido resulta da compreensão do necessário em meio à variação do
contingente.
O acaso, o segredo ou
as causas desconhecidas constituem o fundo obscuro da história, aquilo que
perfaz o domínio do singular, o pessoal ou o parcial. Mas o nexo causal é
recuperável, tornando exequível e pleno de sentido o fazer historiador, quando
se trata do geral, de uma maioria, de uma sociedade visada como um todo, em que
se manifestam claramente a regularidade dos princípios. Assim a história se
encaminha menos para o exame de acontecimentos devidos aos caprichos de uma
minoria do que a mudanças que manifestam sucessões de estágios, transformações
graduais, devidas a fatores estáveis e universais como princípios observáveis
no devir das sociedades. (...) . Pode-se por exemplo afirmar algo como o
progresso do espírito, como se vê nas artes e nas ciências, que surgem somente
em governos livres. Hume é, no entanto, bastante cauteloso quanto à
possibilidade de se fazer prognósticos acerca do porvir. Mesmo assim creio que
podemos depreender uma perspectiva otimista em seu pensamento acerca da
história.
O exame acerca “da
origem e progresso das artes e ciências” é oportuno, quanto a isso, por
apresentar o conceito de lei como constante do devir das sociedades rumo ao
progresso e provindo da barbárie. A formação do espaço da legalidade é uma
dessas regularidades históricas que convém a qualquer sociedade considerada,
manifestando-se ao mesmo tempo como progresso gradual dos costumes e como
afirmação da liberdade no Estado enquanto horizonte político e cultural. A
estabilização da legalidade, a “força das leis” e as “formas específicas de
governo” , fornece um critério científico à política por constituir uma região
de princípios, independente da diversidade de interesses que se confrontam na
sociedade ou do caráter pessoal dos personagens da história (“Que a política
pode ser transformada em uma ciência”).
O otimismo de Hume, a
meu ver, está relacionado à perspectiva da legalidade, correlata à afirmação da
invariância como caução da cientificidade na região do prático. Ora, esse tema
sociológico da lei se relaciona ao tema antropológico da bondade inerente do
ser humano, que se obscurece pela parcialidade, pela ignorância, pelas
vicissitudes, mas que se recupera pela comunidade, pelo esclarecimento, pelas
instituições, pela Constituição civil. Assim, se no cotidiano se deve contar
com a experiência de que todo homem deve ser considerado um velhaco, parece
estranho que essa máxima “que de fato é falsa seja verdadeira em
política” (“da independência do parlamento”).
Penso que ao atribuir
falsidade à máxima que estabelece o ser humano como naturalmente mau se pode
depreender que Hume está afirmando que originariamente o ser humano é honesto,
e ele chega mesmo a observar essa tendência à honestidade na vida privada. No
entanto o homem pode ser conduzido pelo espírito de facção, por grupos ou
partidos que abraçam interesses próprios, opostos à visão do bem geral. O corpo
das leis, e a forma de governo que traduz o equilíbrio entre as instituições
representativas dos setores que compõem a sociedade e compartem o poder
público, realizam no geral isso que manifesta a identidade do particular. Assim
o progresso do bárbaro ou despótico ao civilizado ou livre, em termos de
Estado, é algo sobejamente observado nos escritos de Hume estando sempre em
conexão com o tema das leis e do Estado livre, isto é, não despótico ou
absoluto.
Não me parece que se
deva minimizar o fato de que essa perspectiva do progresso histórico, rumo à
civilização dos costumes e ao aperfeiçoamento da convivência via instituições,
um tema universal no Século das Luzes, terá que se situar na base do tema bem
atual da degenerescência do Progresso, não no sentido da barbárie, mas no
sentido dos regimes tecno-burocráticos, quase-totalitários. Esse paradoxo do
Iluminismo já se deixa ver, e nessa localização um bom exemplo dos seus efeitos
é a tese de Rouanet, que pensa um Foucault iluminista precisamente por tentar
reverter da degenerescência àquilo que tendo-lhe de algum modo fundado, não se
confunde de todo com ela, a saber, a Razão Iluminista que creio poder melhor se
enunciar como o Sentido da Experiência, algo que sendo humano, demasiado
humano, não pode deixar de ser progresso, devir da cultura que agora,
substituindo os mitos de fundação, concede ao humano a tarefa de se inventar,
destinar-se ao horror, à brutalidade, ao massacre, à intolerância, à dominação
da alteridade, ou à civilidade, à compreensão, à liberação, à convivência, à
polidez, à aceitação da complexidade e heterogeneidade existencial, como da
singularidade.
O que Kant faz
intervir nesse momento de transposição da compreensão da história é , a meu
ver, uma espécie de sobreposição daquilo que se superou negligenciando e aquilo
a que se devotou desde então. Não que Kant estivesse repondo o mítico, o dado
transcendente como conjunção inatual dos fatos que a narrativa atualiza, mas
sim que ele reintroduz a exigência da fundação, paralela à implicação metódica
do fazer historiador como narrativa imanente daquilo que é observável no
sentido de recomponível. Ora, não obstante, a fundação deixou de pertencer seja
aos fatos, esse novo estatuto da coisa, seja a algo dado como transcendência,
para reconduzir a uma Ontologia, mas que poderíamos designar existencial, não “psicologia”
– aquela que restou praticável após a destruição da metafísica.
Ou seja, reconduzir à
auto-compreensão do humano, ao sentido ou horizonte prático, racional, que
informa todos os atos, logo, também a marcha da história. Vimos que em Kant se
enuncia exemplarmente a imbricação da história com esse “novo” a priori
espistêmico, que é a modernidade, o pós-clássico ou o contemporâneo. Pois a
história permite pensar o plano mesmo da natureza, já que ela só se realiza no
que é mais interior ao fenomênico. A enunciação da história como astúcia da
razão não pode, porém, negligenciar a tarefa do confronto com as versões que
procuram descartar esse aspecto, essa exigência fundacional necessária agora,
ao mesmo tempo, à justificação da Ciência e à circunscrição da moralidade como
auto-compreensão do ser humano.
É preciso desenvolver
o tema da História nessa relação com o tema da Razão. Essa convergência me
parece plasmar a intenção mais essencial do Iluminismo. Assim, de Vico a Kant,
a progressão vai de uma fundação mítica da história, via Progresso, à Racionalidade
pura como sua efetivação. O que se deve observar é o modo como Kant se
desincumbiu dessa tarefa na urgência das polêmicas que se desenvolviam acerca
de tais questões no panorama do seu tempo.
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A ambiência histórica
do período subsequente à produção filosófica de Kant, entre 1800 e 1850,
abrange tendências bem marcadas sob o traço mais geral de ser, conforme a
expressão de Bréhier, um “período de sistemas”. Mas ao abrigo dessa expressão
não deixa de haver exceções, dentre as quais Shopenhauer, insurgindo-se contra
as arquiteturas como construções de conceitos que se sucedem num conjunto
teórico concertado.
Examinando essas
tendências, evidencia-se o papel transformador da visão de Kant acerca da
história, sobre o fundo iluminista de que emerge. São elas a filosofia social,
mais o idealismo religioso “espiritualista” e tradicionalista, na França; o
utilitarismo inglês; e o pós-kantismo alemão que de certo modo informa os
idealismos franceses.
Utilitarismo e
socialismo compõem nessa época o reduto do pensamento progressista que de certo
modo prolonga os anseios do século das luzes. Mas essas duas tendências só
encontram ressonância plena após Marx, quando se compromete todo pendor aos
sistemas, numa ambiência de “ruptura do determinismo”, conforme a expressão de
Bréhier. Nesse período que estamos considerando, porém, o preponderante é a
subsunção do particular ao geral, mas este não como um conjunto de leis
autônomas, e sim como uma força de tipo mágico, sobrenatural, cujo denominador
comum de todas as suas conceituações espalhadas pelos numerosos sistemas parece
ser apenas a irredutibilidade a qualquer traço de vontade ou decisão racional
humana.
Isso expressa
plenamente aquele “ardor sombrio e concentrado” do Romantismo, que vimos
Bréhier considerar errado tomar como uma teoria literária, por afetar todos os
aspectos do pensamento e do sentimento, como também o movimento filosófico da
época. Mas não se pode deixar de ver aqui a convergência dessa preponderância
com a singular correlação de forças da época, na qual se observa uma outra
preponderância de mesmo teor, a da ideologia da nobreza, calcando-se no mesmo
princípio de uma necessidade imperiosa que nada tem a ver com o esforço ou a
razão – a distinção, sendo de nascimento, ou seja, um fato que poderia ser
visto como casual ou contingente, não suporta a idéia de que o estado de coisas
social se deve à decisão e ao fazer humanos, procurando, inversamente, “demonstrar”
que os estratos sociais se devem a algo superior, mais importante, a que o ser
humano só pode se subsumir se não quer se expor ao ridículo de lutar contra
moinhos de vento.
Ora, num momento em
que os meios para reverter a dominação social pareceram inviáveis, na desilusão
pós-convenção, pode ter parecido mais reconfortante a muitos pensar que sua
situação de inferioridade social, perseguição política, penúria generalizada,
no panorama do crescimento do capitalismo cujas benesses se estenderam sem
dúvida aos protegidos por essa ideologia da conformação a um deus autor de
castas e distribuidor de vantagens, se deve a esse poder superior, do que ter
que confrontar o fato de que tudo isso se devia apenas à ação de alguns outros
seres humanos, seus iguais. Nessa época a adoração ao sagrado suplanta qualquer
apelo ao bom-senso – com exceção de ser o bom-senso também algo sagrado. Pois
dobrar-se ao poder de uma classe, que nessa época estende ditaduras ou regimes
extremamente conservadores, parece acomodação vergonhosa, mas compreender o
poder superior que assinala os destinos dos seres humanos parece muito
sábio. A contingência ou casualidade, se transmuta, por esse meio, na mais
rigorosa necessidade. Enquanto a decisão do ser humano, especialmente se
racionalmente motivada, se relega a algo totalmente secundário.
Aqueles que não podem
deixar de observar que a tarefa de fornecer a tão almejada panacéia social, que
seria o Conceito ou Sistema definitivo dessa Superioridade tão propalada, não
poderia ser tão facilmente efetivada, formam a contracorrente pessimista dos Musset,
Vigny e Senancourt, no ambiente de euforia romântica tão segura de suas
verdades reveladas– no entanto, também eles não deixam de expressar sua visão
na forma de uma recusa estóica. Senancourt, por exemplo, expressa, com
sua rejeição a adotar qualquer sistema, uma espécie de ecletismo negativo, pois
se os sistemas são apenas “hipóteses”, pretender admitir qualquer deles seria
como querer afirmar “conhecer isso que o homem não conhece de modo algum”.
O que certamente
assoma como bastante característico do período é, portanto, a vertente
fortemente conexa à renovação da filosofia religiosa e ao status metafísico que
agora, de modo bastante inverso ao que vimos ser o caso de Hume, se atribui à
história. Nessa vertente encontra-se o espiritualismo, cujo mais célebre
representante é Cousin, e que por isso Bréhier designa “eclético”, em que
Vergez-Huisman incluem Maine de Biran, a quem Bréhier estuda separadamente no
caudal da decomposição da doutrina dos “ideólogos”. O prolongamento do
espiritualismo, na segunda metade do século XIX e início do século XX, conforme
Vergez-Huisman, se relaciona a Ravaisson, Renouvier, Lequier e Bergson. Bréhier
localiza Renouvier no movimento criticista, que inclui o neokantismo alemão e o
idealismo inglês. Ravaisson, em um capítulo consagrado à “Metafísica”,
pertenceria ao “positivismo espiritualista, e Lequier é estudado na “filosofia
religiosa”, juntamente com Secrétan e Newman. Bréhier também designa a
filosofia de Bergson como um “espiritualismo”.
Nessa vertente, ainda
no período subsequente a Kant, também se localiza o “movimento tradicionalista”,
de Constant, Bonald e de Maistre, representantes desse “dirigismo oficial” que
tornou estéril a universidade no tempo de Napoleão, conforme Vergez-Huisman.
Com efeito, não se deve
considerar todos esses autores como formando uma única “escola”, não obstante a
proximidade temática de tradicionalismo e espiritualismo: seria impossível
conformar Bergson a um Bonald, que considera a Revolução uma “heresia”, a
soberania popular uma “idéia” nascida do “século da especulação” , devendo-se
portanto ao “espírito da cupidez”, assim como a sociedade democrática é uma “sociedade
de comércio”, oposta à “sociedade política”, que seria uma “teocracia” onde
jamais aos seres humanos poderia se atribuir qualquer autoridade ou
auto-determinação, mas somente às leis religiosas. Ocorre que , como expõem
Vergez-Huisman, as Escolas Centrais organizadas pela Convenção, que veiculavam
o ensino progressista, concedendo espaço às ciências tanto quanto às humanidades,
como também às doutrinas dos filósofos iluministas, haviam sido fechadas por
Napoleão que instituiu a Universidade Imperial ao lado de liceus, expressamente
destinados, conforme o decreto de 1808, a “formar para o Estado cidadãos
ligados à sua religião, a seu príncipe, à sua pátria e à sua família”.
Na Restauração essas
instituições são mantidas, e nelas, desde Napoleão, banidos os ideólogos, “perniciosos
e subversivos da ordem social”, como a filosofia das luzes, só se ensina a
demonstração da existência de Deus, a espiritualidade e a imortalidade da alma,
o livre-arbítrio que torna cada um ao mesmo tempo responsável e culpável por si
mesmo, logo, que apenas se põe como consumação da necessidade, e desse modo a
metafísica parece ser agora apenas “a continuação da política por outros meios”.
O espiritualismo nessa época se acomoda bem com a orientação estatal.
Nesse período, o
panorama das idéias não se pode compreender sem referência à situação política
extremamente singular, mas também essa situação política, que a nós não parece
de modo algum fácil de apreender, será mais acessível se observarmos a
trajetória da teorização histórica e política, em curso desde o século XVIII.
Isso fica especialmente claro se considerarmos o seguinte extrato (Chatelet–
Duhamel, Pisier-Kouchener, História das idéias políticas, p. 65).
“É preciso ter em
mente o que é independência e o que é liberdade. A liberdade é o direito de
fazer tudo o que as leis permitem; e, se um cidadão pudesse fazer o que elas
proíbem, não teria mais liberdade, porque os outros teriam também esse poder”.
Poderíamos crer ser
essa uma expressão inserida nos quadros do kantismo. No entanto, ela provém de
Montesquieu. Seria oportuno estabelecer um paralelo entre Montesquieu e Kant
para observar, por um lado, a oposição entre o pensamento conservador da época,
naquilo pelo que ele pôde se expressar na prática pós-revolucionária das
instituições francesas, e o kantismo, como relacionado às idéias oriundas da
Revolução, ou seja, como projeto de uma sociedade de sujeitos autônomos, em que
o fator da sujeição se anula pelo compromisso de equidade e responsabilidade
dos seus membros. Mas também o paralelo será útil para compreender como o
pensamento kantiano se insere enquanto influência preponderante do idealismo
alemão, de Fichte a Hegel, que formará esse conceito metafísico da história,
tão convergente com as práticas e acontecimentos da Europa conservadora,
contra-revolucionária.
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O contraste entre o
pensamento do século XVIII e do período inicial do século XIX se lança,
conforme acentua Bréhier, exemplarmente no âmbito da história.
Assim Bréhier mostra
que no século das luzes, o deísmo se apóia na idéia de uma religião natural,
que se pensa deduzida de modo necessário por um ser humano suposto na
exterioridade de qualquer laço ou informação social, como na “religião
essencial” de Marie Huber . Também a hipótese da estátua, da psicologia das
idéias de Condillac, e o estado natural oposto ao social, de Rousseau, fazem
apelo a uma realidade originária que é preciso encontrar no meio dos dados
revelados pela história, mas que só podem ser conhecidos se desses dados
soubermos separar o sentido, o fundamental. Quanto à diversidade “evenemencial”,
eis o que se mistura como a obscuridade que, ou está sendo utilizada por um
interesse parcial que se aproveita do natural a ele acrescentando o acessório
para subjugar os ingênuos, ou apenas perfaz a região do acaso, do acúmulo de
fatos puramente circunstanciais, que não podem deixar de ser acumulados pelo
tempo, uma vez que a natureza se concretiza no devir e na variação dos
elementos.
Sem dúvida esse traço
característico da época se deixa conceituar na perspectiva da história,
conforme Voltaire. Quanto a isso, é importante a observação de Desné (Chatelet,
História da filosofia, V, IV, a filosofia francesa do século XVIII).
Muito inversamente à concepção desse período como avesso à história,
compreendê-lo como “oposição vitoriosa” do pensamento experimental ao idealismo
de Descartes implica a constatação de que é aí que “a reflexão sobre a história
entra amplamente no campo da filosofia” (p. 92).
Já o empirismo de
Locke se enuncia, precisamente, como uma “história da alma”, conforme Voltaire,
tipo de tarefa que os ideólogos só fazem continuar, como nota Desné. Mas no que
se relaciona ao fazer historiador, Bayle e Voltaire introduzem a exigência do
relato minucioso, exato, imparcial, fiel aos fatos. No entanto, entre ambos se
insinua uma transformação decisiva. Bayle, que Desné considera o pioneiro
historiador moderno, se preocupa apenas com a distinção entre o erro ou ilusão
e o certo ou verdadeiro, de modo que os acontecimentos podem mesmo se justapor
numa ordem alfabética, uma vez que todos os materiais legados pelo estudo do
passado, desde que provindo de um testemunho verdadeiro, se equivalem. Voltaire
retém de Bayle a observância da exatidão: nenhuma alteração pode se introduzir,
por menor que seja, no relato. No entanto, o que ele procura ao escrever uma
história dos costumes, isto é, da civilização, é o espírito do tempo, o
espírito das nações, o que se pode constatar como o permanente por cima do
singualr, do aparente, do transitório.
Com Voltaire se
desfaz a história genealógica de um ramo dinástico, ou a história militar que
só se ocupa de guerras travadas. Já se compreende a narrativa histórica
modernamente, como abarcando o conjunto das atividades dos seres humanos,
produzindo-se portanto, como história da civilização em suas fundações
econômicas e sociais. Ocorre então uma tensão entre fatores que precisam se
juntar pela força do projeto, mas que pareceriam, por si, excluir-se: uma
acumulação minuciosa de fatos (movimento dos preços e salários, condições
materiais da vida, invenções civilizadores mesmo que anônimas ou comezinhas como
o moinho de vento, as lareiras, os garfos, os óculos, etc.); a investigação de
uma evolução progressiva, rumo à civilidade das maneiras, ou ao “progresso do
espírito” como em Condorcet, que Desné apresenta em conformidade com a
perspectiva de Voltaire; e a convicção da eternidade da razão, do imutável
humano, isso que concede ao fazer historiador o seu sentido enquanto tarefa de
enunciação.
A contradição entre
esses fatores, conforme Desné, é apenas aparente. O espírito das luzes se vê
bem nessa concepção pela qual o essencial não se desvela na origem, mas precisa
se desenvolver, sendo aptidão, como o andar e o falar. Através das eras o ser
humano devém o que ele é. Podemos construir um modelo originário, dado
aquilo que ele veio a ser, mas sabemos que nenhuma origem o situa. A
obtenção desse modelo resulta, pois, história, duplamente: no factual vivido
pelos seres humanos na progressão do tempo, na narrativa que recupera o sentido
ou razão oculta nos desvios inevitáveis suscitados por essa progressão, obstáculos,
como o preconceito, o costume bárbaro, que a razão não pode deixar de enfrentar
para se tornar o que ela é.
Observou-se alhures
que Hume se contrapõe a Voltaire por uma concepção mais contemporânea do fazer
historiador, superando o anacronismo voltairiano, o vezo de julgar os
acontecimentos do passado de uma perspectiva do presente, militante,
racionalista, iluminista. Aqui Desné aponta Herder como o crítico dessa atitude
de polemista nato, mas minimiza suas consequências para a caracterização da
importância de Voltaire como introdutor de uma máxima envergadura da história
através da subsunção da massa heteróclita dos fatos seja ao momento que os
reúne, seja ao quadro maior de transformações que a humanidade sofre para ter
acesso ao verdadeiro auto-conhecimento. No entanto, Desné estabelece um
paralelo entre Voltaire e Montesquieu, nitidamente vantajosa ao segundo.
Assim, Montesquieu se
notabiliza por uma atenção mais apurada do que se pode localizar na obra de
Voltaire acerca das “relações de coexistência e de dependência entre os fatos”,
de modo a estabelecer “em particular uma ligação orgânica entre o fenômeno
político e o fenômeno social”, o que inaugura uma concepção sociológica da
história política (p. 95). O importante aqui, já que os aspectos mais
essenciais do Espírito das Leis já foram examinados acima, é a implicação,
sublinhada por Desné, entre a lógica histórica das leis políticas e uma
concepção moral cuja originalidade consiste no fato de não mais se ligar a um
estatuto metafísico do ser e sim à existência de seres socialmente
relacionados. Ilumina-se por esse meio, a meu ver, a intuição profunda que o
século XVIII soube enunciar na procura do modelo originário do humano, conforme
notado por Bréhier. Trata-se de considerá-lo, como assinala Desné, em suas
determinações concretas superando o mais possível a oposição de natureza e
cultura.
A sociabilidade
realiza o particular, a individualidade. Não ocorre oposição fundamental entre
virtude e felicidade, uma vez que o prazer experimentado pelo particular
consiste na prática mesma da sociabilidade. O autor que tipifica essa posição é
Shaftesbury. Sua influência no período é praticamente universal, efetivando a
tese de que a paixão é no ser humano o equivalente da energia da natureza e portanto
o prazer proporcionado pela satisfação da paixão é não só legítimo como
fundamenta a autocompreensão do particular, uma vez que se determina como o
sentido de sua relação com outrem. Nada mais avesso a essa perspectiva do que
pensar, como se interpretava que Hobbes o havia feito no século anterior, que o
homem é naturalmente egoísta, que seus atos virtuosos resultam de um
constrangimento imposto pela utilidade social.
Vimos anteriormente
com Bréhier que já na transição entre os séculos XVII e XVIII, Shaftesbury
anunciava a crença em inclinações sociais naturais que são, para cada animal,
orientadas para o bem da espécie. O ser humano ostenta, pois, um senso moral
que lhe faz conhecer o bem e o mal, algo natural e independendo tanto da
religião quanto da educação, e que garante a benevolência aos semelhantes.
Podemos lembrar aqui a consternação suscitada por Helvétius ao colocar a
educação como moldagem do ser humano. O traço comum é pensar a sociabilidade
como inerente, a educação expressando, através do grau de civilidade dos
costumes e maneiras, o nível em que o objeto de investigação histórica, um
povo, uma época, atingiram no sentido de realizar aquilo que lhe é mais
próprio. Mas, de modo correlativo, uma sociedade altamente civilizada poupa os
seus integrantes dos obstáculos supostos para estágios anteriores da marcha do
ser humano rumo ao ser que é o seu.
Não pode , portanto,
ser introduzido o fator “mal” na construção do modelo humano originário.
Trata-se de, inversamente, mostrar como isso foi acrescentado pelas
vicissitudes da ignorância ou dos interesses mesquinhos, e, principalmente,
como, tendo-se o conhecimento da essência, pode-se curar ou restaurar a
natureza do ser humano.
Chatelet-Duhamel-Kouchner
acentuam precisamente esse viés típico do iluminismo no que se relaciona a
Montesquieu. Em vários aspectos o esboço dos traços mais fundamentais do
pensamento de Montesquieu que se encontra na História das idéias políticas faz
lembrar Hume.
Assim como a noção de
conexão necessária enunciada por Hume, conforme Montesquieu as leis, de que é
preciso compreender o espírito, são “relações necessárias” que perfazem a
natureza do ser humano. Mas elas não devem apontar para um modo de ser,
enquanto leis, diverso da regulação da natureza física. O que ocorre é que o
âmbito de aplicação em cada caso especifica o conteúdo, ainda que a forma da
lei seja sempre uma relação imanente aos fenômenos. Sendo assim, não se poderia
considerá-las de um ponto de vista transcendente, como se as leis que regem os
fenômenos fossem derivadas de leis sagradas ou divinas. Elas devem ser, bem
inversamente, induzidas da observação da realidade, e no caso em questão, da
realidade social.
A natureza do humano,
sendo regrada por leis, se compõe como Razão. É da razão do ser humano, em
geral, que procedem as leis particulares e civis, como casos particulares. Ora,
Montesquieu não supõe que esses casos como particulares apenas por
especificarem regiões qualificadas de aplicação de leis, mas também por sua
concretização, sempre localizada relativamente a nações e povos historicamente
determinados. Chatelet-Duhamel-Kouchner, ainda que conservando a definição de
R. Aron, pela qual é Montesquieu o sociólogo pioneiro, observam, em conexão com
essa noção de natureza como razão, que ele não deixa de permanecer um filósofo
racionalista. Ora, o importante aqui, a meu ver, é especificar o sentido desse
termo “razão”, aplicado no contexto de O Espírito das Leis. Assim, os
próprios autores destacam a distinção operada por Montesquieu entre a natureza
e o princípio do governo.
A natureza do governo
é sua estrutura, aquilo que o faz ser, enquanto que o princípio é o que o põe
em movimento, o que o faz agir. Mas o que faz agir, o que movimenta, conforme
Montesquieu, são as paixões como o medo, a honra, a virtude. Creio que as
paixões tornam-se o fundamental nessa teoria social, pois nela o que se está
compreendendo como “razão” é algo como um cálculo que incide sobre o melhor
meio de combinar a paixão, como princípio de governo, e as forças que caracterizam
sua estrutura (...). Essa combinação não deve ser deixada ao acaso, e o papel
da teoria política consiste em mostrar como ela deve ser conduzida.
Observe-se o
contraste entre esse modo de compreender a interconexão entre lei e razão, que
me parece tipicamente iluminista, e a que propõe Kant. Para compreender a
particularidade das leis, conforme Montesquieu, é preciso ter em conta não só a
natureza e o princípio do governo local, mas também o elemento físico do país
(o clima, a extensão e o tipo do seu território), o gênero de vida do povo
(lavradores, caçadores ou pescadores), sua religião, inclinações e maneiras, e
o grau de liberdade suportado por sua Constituição. Já em Kant, como observam
os autores da história das idéias políticas (hip) trata-se de empreender
a montagem de uma região de autonomia do sujeito, região que se opõe assim
àquela da natureza que o submete, como ser natural, ao seu determinismo. Ora, “para
escapar do determinismo” o sujeito obedece apenas a “leis formais, leis que
excluam qualquer referência a um conteúdo qualquer, quer se trate do prazer
sensual, da utilidade social do amor de Deus ou da consciência do ‘dever
cumprido’“. O único critério dessa adesão formal sendo a “instituição da
comunidade dos sujeitos livres”, ao mesmo tempo legisladores e sujeitos, “uma
espécie de sobrenatureza” que afirma apenas “a constante e preciosa exigência
de liberdade” (HIP, 78).
Esse contraste
poderia exemplificar também a oposição da compreensão da esfera moral entre
Kant e Hume, pela mesma interferência do elemento da paixão. Ora, esse
elemento, conforme observado por Desné no artigo já citado da história da
filosofia, é, como vimos, fundamental na caracterização moral e política do
século XVIII.
Creio que se poderia
bem interrogar essa determinação da paixão no coração do humano, quanto ao modo
pelo qual se está compreendendo a essência. Pois temos visto que se trata de
enunciar a verdade sobre a natureza do homem, aquilo que lhe é essencial,
sempre que se deve, não obstante, tratar de tudo o que é variável e
historicamente localizado, isto é, apenas observável na sua singularidade ou
particularidade.
O que se lança aqui é
então um modo de compreender a essência que já nada tem a ver com a forma, no
sentido de algo separável da matéria ou das atribuições contingentes.
Trata-se de algo que nos é bem mais familiar, uma representação do existente
naquilo que se revela como invariavelmente conexo ao seu modo de ser, suas
aptidões, suas faculdades, o que se apresenta, portanto, nos planos mesmos de
sua contingência e e de sua via orgânica, biológica. O otimismo antropológico
do século XVIII se deriva dessa perspectiva de um ser humano natural e ao mesmo
tempo racional, a razão nada tendo de não integrável à paixão, formando as
paixões o domínio da natureza.
Algumas questões que
não podem deixar de ser confrontadas aqui se imbricam desse tema iluminista da
essência. Inicialmente devemos observar algo que é bem localizado no século, a
saber, aquilo que Desné enunciou em termos de “diversas concepções políticas”
que se defrontam, partindo da mesma procura dos “meios de tornar o homem feliz
no respeito de seus direitos” (história da filosofia, p. 99). O exame
desse tópico permitirá iluminar a cena paradoxal da política francesa no início
do século XIX. Mas há também o problema que já se teve de sinalizar a propósito
do mito do progresso, retornando pela consideração mesma da essência. Trata-se
do que se pôde propor como degenerescência do ideal racionalista das luzes, mas
que agora, visado pelo tema da natureza do humano, se torna algo menos
contornável, mostrando-se pelo caráter francamente discriminatório pelo qual o
pensamento humano se lança nos albores de sua ambição de se tornar ciência,
caráter que contamina, por exemplo, a história da antropologia social. Esse
problema não deixa de implicar, ou estar implicado, no tema da significação do Enlightment.
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A razão que Aron
apresenta para sua apresentação de Montesquieu como sociólogo pioneiro – nem
mesmo um “precursor” – é que, se o objetivo confesso de sua obra consiste em “tornar
a história inteligível”, “compreender o dado histórico”, ele procede de uma
diversidade aparente de fatos e dados sócio-históricos como “costumes, idéias,
leis e instituições”. O processo envolve a transição “do dado incoerente a uma
ordem inteligível”, o que Aron considera como a definição mesma da atividade do
sociólogo (As Etapas do Pensamento Sociológico, p. 22). No entanto, pelo
que temos visto nessa retrospectiva do iluminismo, esse parece ser um traço
fundamental de sua perspectiva histórica de maneiras, instituições e costumes,
como em Voltaire e Hume.
Esses dois traços são
destacados por Aron como característicos da obra de Montesquieu e explicam a
sua vocação sociológica, já que o exame dessa obra permite compreender a
definição do fazer sociológico: “tornar inteligível o devenir” pela apreensão
das “causas profundas que determinaram o andamento geral dos acontecimentos”,
mas também tornar a multiplicidade inteligível por sua organização “dentro de
um pequeno número de tipos ou de conceitos” (EPS, 23).
A classificação de
Montesquieu sobre os tipos de governos não se isenta de certas consequências
importantes. Como a história das idéias políticas sublinha, o autor
exerceu influência paradoxal nas Asembléias Constituintes revolucionárias da
França. O paradoxo consiste na interpretação que Montesquieu faz portar sobre
sua própria tipologia, no sentido de destacar o que considera mais adequado ao
seu país. Se o método comanda um projeto e se a classificação dos regimes
políticos induz à separação dos poderes como a solução institucional da
liberdade política, parece não haver um nexo assegurado entre os dois consequentes
dessas proposições, restando o projeto enigmático. Qual o proveito dessa separação?
Ora, sabemos que Montesquieu pensava o regime republicano como uma forma
superada, preconizando a monarquia moderada, isto é, a limitação do poder do
soberano pela nobreza, que parece deter a função de submeter o soberano à
observação de leis, garantir o vínculo entre a legalidade e o exercício do
poder real. É o “elmo senhorial” que se esconde por trás da “crítica do
Estado-déspota” (hip. 65).
No entanto, por esse
viés da legalidade Montesquieu pôde ser interpretado como tendo resolutamente
abraçado o liberalismo, e em todo caso tornou-se objeto de recuperação
revolucionária – o que alguns interpretam como tendo se devido a um
mal-entendido que desviou a significação da teoria, da defesa dos privilégios
da nobreza à causa do “povo”, leia-se “Terceiro Estado burguês”.
A história desse tipo
de desvio se torna um problema na consideração dos acontecimentos da Revolução.
Assim os manuais escolares não esclarecem a aparente contradição entre a
afirmação de que “o iluminismo” e “os filósofos da razão” foram alçados a “bandeira
ideológica da Revolução” (Vicentino C. , história geral, p. 265) e a
definição do despotismo esclarecido como devendo-se a que “os soberanos ou seus
ministros”, desde a segunda metade do século XVIII, “empreenderam uma política
de reformas, visando à modernização nacional” baseando-se em “princípios
iluministas, particularmente os de Voltaire” (p. 239). Essa contradição
não se deve apenas a um descuido do autor citado, mas se encontra em
praticamente qualquer exame de manuais escolares quanto a esse tema.
A concepção da
influência dos pensadores iluministas sobre as massas e as lideranças
revolucionárias torna-se um tópico interessante porque assinala os contornos de
uma problemática, a do imaginário iluminista, uma vez que se pode constatar que
existe. Em nível escolar os indícios de que se está lidando com essa
idealização se revelam de modo inequívoco mas não tãouniforme. A forma mais
branda da estereotipia é um enfoque dessa influência como assimilação das
críticas efetivadas por esses filósofos acerca do estado de fato da nação. No
entanto, não se procede ao esclarecimento da oposição entre as posições em jogo
na Revolução, resultando um hiato entre a cumplicidade dos iluministas com o
despotismo e sua ascendência sobre os republicanos.
A forma mais severa
desse tipo de abordagem simplista consiste em apresentar o absolutismo como
elemento combatido pelo iluminismo ( Cotrim G., História Geral para uma
geração consciente, 2º grau). Contudo, o leque de concepções políticas dos “filósofos
da razão” nem mesmo prescreve apenas a tarefa de explicar o desvio de uma
concepção conservadora e pró-nobreza, como a do “moderado” Montesquieu, ao
republicanismo da Revolução, que já se havia tornado uma força de massas, mas
envolve igualmente a influência revolucionária de pensadores como Diderot e d’Holbach,
que, do mesmo modo que os fisiocratas Quesnay e Turgot e todos os que aderiram
aos “clubes” políticos fiéis ao poder real na França do século XVIII, se
inclinaram fortemente à convicção do “poder forte” ou “autoritarismo político”,
no qual se delineia a face do “despotismo esclarecido”, conforme Desné (HF, p.
100). A monarquia absoluta é vista nesses meios como depositária do poder
popular, por contrato. Poder-se-ia objetar que os filósofos estavam propondo
algum tipo de legitimidade constitucional combinada a esse poder. Mas isso não
se esclarece convenientemente, de modo que a impressão que parece ser
intencionalmente veiculada é uma associação simples entre iluministas e
republicanismo democrático.
Nesse texto de Desné
sobre a filosofia francesa no século XVIII conserva-se ao menos uma
versão acerca desse paradoxo histórico. O leque político, que inclui uma
alternativa ao compromisso de moderados e realistas com o interesse dos
proprietários burgueses, configurada pelos pensadores comunistas pioneiros
(Morelly, Dom Deschamps e o abade Mably), sinaliza o fato de que a reflexão
política se revestiu nessa época de uma extensão jamais atingida anteriormente,
algo que se tornou presente à tomada de consciência, solicitando a atenção de
todos, que se transformavam, precisamente por esse meio, de súditos em
cidadãos. A evolução das controvérsias no calor da polêmica, com as opções
adotadas devendo impor questões impensadas até então, traçou o pensamento
político do século XVIII como antecedente não só da Revolução, mas também dos
séculos seguintes, esboçando temas e terminologia que Desné considera, sob
muitos aspectos, ainda atuais.
Creio que entre esses
temas que se delineam no século XVIII está o princípio da legalidade, sempre
conceituado na proximidade temática da Representação. Como vemos em
Montesquieu,o liberalismo permanece uma concepção corrente nessa época, através
de que o legislativo se torna central, como a instituição que representa o poder
legítimo, isto é, o povo da nação, pensado sem distinção de classe. Os outros
poderes alicerçam o legislativo que se constitui como o espaço da legalidade,
sendo esse espaço que define a nação naquilo em que ela permanece algo útil e
vivo. Assim, o que se torna polêmico é a distribuição desses outros poderes,
isto é, qual seria o melhor meio de forjá-los como alicerces do âmago
institucional do país, sem que pudessem subverter a hierarquia natural que
torna a autonomia do povo o princípio da legalidade institucional. Montesquieu
pensa a nobreza como garantindo a limitação do poder do rei às prerrogativas
constitucionais do corpo de leis. O parlamentarismo de Locke já se institui
numa abrangência mais independente, já que não se formula como uma defesa da
nobreza, mas sim da instituição de representação. O que Desné observa, porém, é
que o liberalismo não foi especialmente preponderante no século XVIII francês,
onde os filósofos iluministas tenderam a pensar , inversamente a Montesquieu,
que sendo a nobreza o fator conspícuo da desigualdade no país, o poder absoluto
do Rei deveria ser o elemento apto a aplainar o terreno social a fim de que se
instituísse a mais plena igualdade política no interior do espaço da
legalidade.
Penso que de certo
modo encontramos aqui a formulação dos três caminhos que se defrontam no século
XIX pós-revolucionário. Há uma nobreza que se apropria das instituições
forjadas pelo legalismo revolucionário, como queria Montesquieu. Há também o
poder real, seja no Império, seja na Restauração. O império se mostra um
fenômeno importante do ponto de vista da história política por ter contado
efetivamente com um apoio de massas, o que os teóricos se vêem constrangidos a
explicar. Mas também existe a vertente autenticamente revolucionária que
persiste na via do republicanismo, parlamentar ou constitucional.
Em comum, moderados e
“realistas”, mantinham uma acepção burguesa da “legalidade” ou do pacto social,
isto é, do poder como Representação. Forte ou moderado, a natureza do poder é
representar aqueles a quem, de certo modo, serve, sua função sendo apenas
regular e garantir uma concordância suposta natural entre o interesse
dos proprietários e o interesse geral, o que parece escusado esclarecer que
sempre estava sendo pensado conforme a perspectiva da burguesia. Como já
registramos, somente a formulação do problema político na acepção do comunismo
se mostrou crítica ao projeto burguês. Nessa fase inicial, o comunismo se
revela como um ataque à desigualdade social, insurgindo-se contra a noção de
concordância natural entre os interesses de classe.
Penso que a formação
do terceiro estado, incluindo não apenas os que teriam motivos para se inclinar
a essa solução menos harmoniosa, como os sans-culottes mais pobres,
autoriza uma interpretação pela qual é a constante iluminista formada por
legalidade & representação que fornece o nexo de influência de moderados e
realistas aos Revolucionários de 1789. Com efeito, nesse momento o proletariado
ainda está em processo de formação, subsiste uma via de compromisso entre a
pequena e a grande burguesia, sendo que aquela não precisa ainda se determinar
como irredutível ao proletariado. Nessa ambientação, aquilo que se enuncia como
harmonia pré-estabelecida, natural, entre os interesses sociais, se reveste de
um alcance mais amplo, filosófico, que informa epistemologicamente inclusive,
as consequências de uma certa intuição da essência. Esse é, a meu ver, o cerne
da crítica ao iluminismo, tanto do ponto de vista sócio-político quanto
científico.
Pois essa essência, a
encarnar-se sempre conforme a sua situação relativa, situa o pensamento
iluminista numa orientação que se desenvolve conforme o ritmo cadenciado de
tema e variação. O que permanece impensável nesse espaço, que no entanto está
se fendendo progressivamente para caracterizar-se como transição do “clássico”
à “modernidade”, é a heterogeneidade. O comunismo é assim, no interior dessa
episteme em vias de mutação, um sintoma.
O tema sendo o ser
humano no que deve ser o seu bom estado natural, a variação comporta uma
duplicidade de papéis, ora tendo que ser vista como algo também natural,
inerente ao devir daquilo que no entanto permanece fundamentalmente
inalterável, ora podendo servir de bode expiatório dos azares históricos,
duplicidade nada fácil de conciliar, mas de modo muito claro apontando para uma
impossibilidade de compreender o outro da cultura, o “primitivo” ou o
não-burguês. O que sem dúvida não exime o pensador da xenofobia, do racismo
mais estreito, ou no caso mais brando, de certo paternalismo para com esses
selvagens que continuam sendo o que já foram os pais bíblicos da humanidade,
livres e autênticos, mas ingênuos e despreparados de modo que serviram de presa
aos desvios da concupiscência, do abuso do poder, etc.
Assim, e como essa
compreensão da essência conservou por muito tempo sua cidadania epistêmica, a
Europa conviveu por dois séculos com um personagem tão inexistente quanto os
canais de Marte de Percival Lowell: “o” selvagem universal, bom
fundamentalmente mas concretamente mau, esse ser de que o europeu, para vir a
ser o homem bom que essencialmente sempre foi, teve que, ao mesmo tempo,
conhecer e superar para, agora autenticamente, se civilizar. O contraste
poderia assim ser inicialmente crítico ao próprio europeu, pois o abuso do
poder seria uma dessas variações a evitar, mas é somente porque ele pode se
prover desse esclarecimento que se prova o seu conhecimento do tema como razão
daquilo a que o selvagem, desconhecendo, não pode asceder, a saber, uma
sociedade tornada racional. Esse raciocínio tortuoso se deixa observar de modo
especialmente favorável no estudo de Aron acerca de Montesquieu.
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É verdade que desde
as referências aos autóctones da América na obra de Locke, onde eles figuram,
ao lado dos patriarcas bíblicos, como exemplos do humano em estado de natureza,
até o exame exaustivo dos povos da terra, na obra de Montesquieu, seria exagero
apontar uma mesma imagem de “selvagem”. No entanto, creio que a articulação de
tema e variação no que se relaciona à compreensão que a Europa forneceu para
administrar ao mesmo tempo seu novo conhecimento do outro, seu papel de
colonizador, e a reorganização de sua visão de mundo em face das transformações
da modernidade, essa articulação permaneceu embutida na razão iluminista-empirista
em termos de compreensão da essência, lançando-se agora no sentido epistêmico
da representação, como simples apreensão de uma realidade autônoma e
experimenciável.
A duplicidade da
variação permitiu que se pensasse ao mesmo tempo em termos de multiplicidade e
de normatividade. A tensão entre essas duas vias nunca foi suficientemente
explorada, inversamente cada obra procedeu de modo a atenuá-la, mascarando a
contradição, que se suficientemente enunciada iria bastar para tornar explícito
o papel negativo do colonizador, a verdadeira face do colonialismo econômico,
político e cultural.
No entanto, na obra
de Montesquieu, justamente por manejar um sistema de classificação, o problema
da heterogeneidade não pôde ser tão facilmente contornado. Ora, aqui o problema
se lança duplamente. Há, por um lado, a questão da multiplicidade interna, isto
é, a que responde pelo conflito dentro da sociedade européia. Há, também a
heterogeneidade externa, cultural, a que enuncia o fato, certamente muito novo
para um velho continente que por tanto tempo se sentiu único no mundo, da
irredutibilidade de visões de mundo e de organização de povos. Esses dois
aspectos aglutinam pontos controversos na recepção de Montesquieu.
Seria de se indagar
acerca da utilidade de se retornar a Montesquieu, já tendo examinado
anteriormente seu pensamento e sendo bem complicado nesses casos lograr evitar
repetições. Ora, o que ocorre é que, ao procurar estabelecer uma visão geral
acerca do iluminismo após ter examinado detidamente o pensamento de cada um de
seus principais integrantes, constatamos que a posição de Montesquieu é
emblemática, pois ele tipifica o paradoxo oculto nessas obras individualmente
consideradas.
Ocorre um severo
contraste entre a tarefa que o escritor não pode deixar de se prescrever e
aquilo que ele mesmo é, sua postura histórica, existencial, contraste esse que
não se revela a um nível consciente mas se percebe ao longo do século XVIII um
pouco por todos os lugares. Ao pretender– se “escritor político”, Montesquieu
já não pode simplesmente desenvolver as idéias do senso comum ou fundamentadas
teologicamente sobre seu assunto, pois defronta-se com um material novo,
temáticas inusuais, nada menos do que o conhecimento de um mundo em formação
quando até aqui o que havia era um mundo eternamente criado por Deus e definido
pelos limites do continente Europeu.
E do mesmo modo, ao
voltar-se a essa interioridade européia, o escritor percebe que problemas novos
transtornaram a imagem habitual da sociedade, forças até então insuspeitas
forçam a ser consideradas, relações que até então não poderiam se estabelecer,
como entre povo, burguesia e nobreza, agora precisam ser reguladas, prescritas.
No entanto, o ser humano por trás do escritor permanece o mesmo e nem sempre o
que ele deseja é compreender totalmente aquilo a que essas transformações estão
conduzindo, preferindo frente a elas adotar a atitude de ver como seria
possível acomodar as coisas de modo que sua imagem habitual do mundo pudesse se
conservar sem alterações substanciais.
Com relação à
ambientação interna, européia, os comentadores não apresentam concordância, por
exemplo, no que se relaciona à concepção de Montesquieu sobre o consenso
social, o equilíbrio entre os poderes. Aceita-se que não preconiza um modelo
universal de governo ou organização social, já que o essencial para ele é a
correlação tipológica entre certos dados que determinam essa organização mesma.
No entanto, sua obra não pode deixar de apresentar um caráter programático
relacionado à situação da Europa e particularmente do seu país. Assim, a teoria
da constituição inglesa como a que melhor estabelece o almejado consenso não
pode aparecer como um modelo para todos os lugares, mas permite delinear os
fundamentos do Estado livre dentro do mecanismo constitucional do tipo de nação
ocidental moderna. Ora, o pensamento de Montesquieu se move no sentido de
identificar Estado moderno e monarquia no contexto histórico do absolutismo já
confrontado pelas forças de expansão do capitalismo, aproximando-se da
requisição de racionalização e liberação que o republicanismo pode oferecer
enquanto a nobreza perde seu papel político, sua função social.
A Constituição
inglesa assim como visada por Montesquieu, observou Aron, é fundamentalmente
relacionada à intenção de manter a nobreza como classe politicamente operante.
Aron localiza aqui o motivo da diversidade de interpretações quanto ao exato
aporte dessa Constituição no pensamento de Montesquieu. Ele aponta duas vias
nesse sentido, a interpretação jurídica e a que inicialmente apresenta como a
sua própria, que eu considero mais “histórica” por ressaltar a posição do
teórico Montesquieu na sociedade do seu tempo.
Quanto à
interpretação jurídica, um aspecto interessante é que Aron a trata como algo
não tão inesperado ou extravagante como pôde ser visada na leitura da História
das idéias políticas, onde se a classifica como “aberração”. Trata-se de
propor que a Constituição inglesa, na visão de Montesquieu, enuncia uma teoria
da separação jurídica dos poderes, executivo, legislativo e judiciário, dentro
do regime republicano. Chatelet-Duhamel-Kouchner esclarecem o mal-entendido
dessa doutrina que faz de Montesquieu o inventor desse princípio jurídico.
Montesquieu prega o sistema do acordo mútuo dos poderes, sim, mas seu
equilíbrio aqui é pensado no sentido estritamente político, não jurídico– não
se trata de conter o abuso de algum desses poderes sobre os outros num estrito
limite legal. O exercício legítimo do poder, na visão de Montesquieu, é um
compromisso político, não o fundamento jurídico de uma legislação proposta.
Assim, pode-se
compreender a interpretação “histórica”, que configura também a opinião de
Althusser sobre essa questão, como registra Aron, na base de um equilíbrio dos
poderes sociais, sem implicação jurídica, como se defende na História
das idéias políticas. Por esse meio se acentua o caráter “moderador” da
concepção de Montesquieu, isto é, o fato de que seu interesse era preservar o
papel da nobreza no jogo político, sem ter ele observado o fato de que tal
classe não havia conservado qualquer papel econômico. Aron observa que
Montesquieu é de fato um representante da nobreza lutando contra o poder
monárquico, mas que, como sua classe não tinha mais como vencer, sua polêmica
contra o absolutismo só favoreceu a causa do povo, o que contribui ainda ao
exame daquele tópico problemático que envolve a influência de doutrinas
políticas dos filósofos iluministas sobre a Revolução.
No entanto, Aron
expande essa via. Pois aquilo que Montesquieu pensou como podendo conservar sua
classe ameaçada foi um equilíbrio social de poderes que protegesse o cidadão,
tornando impossível que a segurança das pessoas fosse algo com que não
se pudesse contar de fato no interior do espaço social. A sociedade histórica
de sua época compreende pessoas classificáveis conforme pertencendo à nobreza,
ou como pertencendo ao povo em geral, ou ainda fazendo parte do funcionalismo
que corporificava o poder do rei. Mas, como Aron propõe, se o equilíbrio
desejado pelo teórico naquele momento significava a proteção pessoal de todas
as pessoas ou cidadãos, o que incluía a nobreza, pode-se perfeitamente estender
essa boa consequência quando se trata de uma sociedade como a atual, na qual o
simples fato de que há uma democracia nominal não garante a liberdade e a
segurança dos cidadãos.
O tema essencial da sociologia
política de Montesquieu continua válido e atual, segundo Aron, já que ele
institui, como meio do respeito às leis e da segurança dos cidadãos, que nenhum
poder seja ilimitado. Na perspectiva de Montesquieu, o poder só se limita pelo
poder, o quadro social ideal sendo o do equilíbrio entre eles. Assim, a
apreciação de Aron acerca desse problema da separação dos poderes em
Montesquieu, ainda que conservando os elementos daquela interpretação “histórica”
que ele associa a Althusser, se completa na verdade como uma perspectiva
irredutível a ela. Não se trata apenas de observar um equilíbrio social, mas
uma concepção de heterogeneidade social somada ao equilíbrio dos poderes que se
confrontam como “garantia da moderação e da liberdade” (EPS, 55).
Contudo, a posição de
Aron parece algo menos simples e claro do que seu texto parece tentar fazer
crer. Inicialmente se pode observar que Aron aceita a heterogeneidade social de
Montesquieu sem colocar a questão de que ela não se estabelece como
irredutibilidade de interesses. A desigualdade é constitutiva da sociedade, mas
a sociedade é um meio de harmonia natural entre os poderes que a constituem,
assim como entre os grupos que a integram, como que por definição. Mas há
também o problema que se pode enunciar pela duplicidade da garantia quando bem
se deveria indagar se moderação e liberdade não são excludentes. Após haver
concluído que a essência da filosofia política de Montesquieu é o liberalismo,
tendo como concepção fundamental uma sociedade heterogênea e hierárquica, Aron
afirma, explicitamente, que se de fato é assim, não se pode demonstrar que ele
tenha sido um reacionário, apesar de ter sido um reacionário nas querelas do
século XVIII. O que não se menciona é que essa concepção, subentendendo a
convergência natural, se está endereçando no sentido que preserva a perspectiva
dos proprietários, de bens ou de títulos, como sendo típica e modelar do geral.
Conforme Aron, o que
deveria permitir ao teórico ultrapassar as limitações históricas do ser humano
situado, e aquilo mesmo que garante a atualidade de sua perspectiva
sociológica, seria uma dobradura fundamental ao pensamento de Montesquieu, algo
que Aron tenta de vários modos enunciar confrontando-se com interpretações
dessa obra que se pronunciam ora por um, ora por outro, desses aspectos que
Aron quer ver aí unidos. Esses aspectos são parcialidade e universalidade,
determinismo positivo-empirista e enunciação filosófica de critérios universais
para fundamentar juízos de valor ou de moralidade acerca de quaisquer
instituições consideráveis.
Conforme o que Aron
compreende em termos de parcialidade ou positivismo, a sociologia nessa
orientação seria um negócio de observação de realidades irredutíveis geográfica
e historicamente. Mas enquanto totalidades sociais que expressam a vivência
conjunta de seres racionais, as sociedades precisam se basear em certas
constantes e certos critérios de valor locais, suas leis positivas, isto é,
instituídas por e para seres humanos, com valor normativo, prescritivo,
cultural e existencial do ponto de vista dos integrantes.
O observador
positivista poderia então subir um degrau e procurar fazer algo mais do que
apenas descrever os sistemas de leis positivas observadas em cada sociedade.
Ele poderia ser tentado a procurar leis causais, algo que explicasse o porque
dessas leis serem o que são em cada caso, sem se deixar absorver por uma
pseudo-explicação que deixa as coisas ao acaso, ou ao arbítrio. Mas se ele
assim procede configura-se um determinismo, o observável dependendo agora de
fatores constantes que sempre devem exercer seu constrangimento da mesma forma.
Isso é o que ocorre em Montesquieu, que se inova ao relacionar o mecanismo
político à vida social, conforme sublinhou Desné, faz aquele mecanismo depender
de fatores determinantes: a extensão (pequeno território: república, grandes
impérios, despotismo), a organização social (desigualdade : monarquia,
igualdade: república, igualdade imposta : despotismo) ou um princípio moral
(virtude: república, honra : monarquia, temor : despotismo).
Aron observa que um
Montesquieu que teria feito apenas exatamente isso, isto é, procurado as
leis causais que explicam as leis-preceito ou leis positivas de sociedades
observáveis, corresponde à versão de Comte sobre sua obra. Nessa perspectiva,
Montesquieu teria o mérito de já lidar com uma oposição conceitual que se
tornou corrente em sociologia, aquela entre leis e costumes, entre o que é
decretado pelo Estado e o que é imposto pela sociedade. No domínio do
socialmente imposto Montesquieu enuncia também uma oposição entre o costume
como conduta interior e o hábito como maneiras de agir puramente
exteriores. No domínio estritamente legal, o Espírito das leis reconhece
três tipos principais: as leis civis que organizam a vida familiar, as penais e
as que constituem o regime político.
O problema com essa
versão positivista, conforme Aron, é que há vários trechos da obra de
Montesquieu que não se limitam a essas tarefas e formulam não só admoestações
moralistas como também, o que é mais sério, que existem relações de justiça ou
de injustiça que são prévias às leis positivas, isto é, que são universalmente
válidos. Assim, o Espírito das leis não lida apenas com a distinção de
leis-preceitos positivas e leis causais “naturais”, mas inclui a idéia de que
existem leis-preceitos universalmente válidas e não prescritas por nenhum ser
humano. Configura-se assim a dobradura, entre parcialidade e universalidade,
que Aron constata ser característica da obra de Montesquieu e que ele pensa
como aquilo que a transforma em boa sociologia.
Uma questão inicial
que se impõe à tarefa de fundamentar esse ponto de vista seria ver se tudo isso
não poderia ser minimizado propondo que quando fala o moralista trata-se do
homem, não do sociólogo, e que o capítulo 1 do Espírito das leis, onde
se “confessa” a existência de “relações de equidade” anteriores às leis que os
seres humanos formulam, isso seria apenas um resíduo do modo de pensar comum no
âmbito de uma obra cujo escopo se limita à explicação sociológica das leis
positivas. Esse modo de tratar a questão preserva a visão de Comte acerca de
Montesquieu como um sociólogo positivista, mas não é aceita por alguns
teóricos, que preferem conservar o universal como item constitutivo, e não
apenas fortuito, da obra. Ora, entre esses que não minimizam o universal estão
os que pensam haver aqui uma contradição. É o caso, conforme Aron, de Meinecke
e de Althusser, respectivamente considerando a doutrina de Montesquieu como
oscilando entre o universalismo racional característico do pensamento clássico
e o sentido histórico das particularidades que se torna preponderante após o
século XVIII, ou alternando uma tendência inovadora à positividade científica e
opiniões fracamente reacionárias.
Na perspectiva de
Meinecke e Althusser mantem-se em comum que, inversamente ao Montesquieu
positivista, o pensador se inclina para a formulação de algo como um direito
natural, de abrangência universal, que o definiria como um filósofo clássico ou
típico de sua época. Aron, como vimos, pretende localizar Montesquieu como
autêntico sociólogo, precisando agora contornar essas perspectivas de
contradição interna ao mesmo tempo sem minimizar o aspecto universal.
Se Aron tende a
valorizar em Montesquieu o que seria não uma contradição, mas uma combinação de
duas idéias que não são facilmente conciliáveis, o que ele preconiza, é que
ambas não devem ser abandonadas: a pluralidde indefinida das explicações
parciais, mas também o meio de apreender algo que constitui uma unidade dos
conjuntos históricos. Temos assim a posição pessoal do Aron sociólogo, que
intenta conservar essa visão da unidade contra, por exemplo, o marxismo, que
condena a referência às leis universais da razão. Ele tem, aliás, o cuidado de
criticar isso que seria uma denegação apenas formal no marxismo, já que Marx
pensa o horizonte futuro do comunismo como algo equivalente a essa mesma
unidade explicitamente denegada. Aqui, porém, parece-me algo simplista essa crítica,
já que o movimento histórico rumo ao comunismo, em Marx, de modo algum se
oferece como lei universal da razão, e sim como algo que somente os seres
humanos podem empreender como resultado do seu aprender progressivo e histórico
do domínio das leis positivas, isto é, daquelas leis de que eles mesmos, como
agentes históricos, são os construtores e os responsáveis.
Algo louvável no
estudo de Aron, porém, é que ele separa de modo bem definido dois planos de
apreciação da obra de Montesquieu. O plano que permanece problemático é o que
abrange a referência a leis universais da razão que devem permitir determinar o
que vai se concretizar em termos de instituição ou deve, ao menos, poder
condenar certas instituições perniciosas ao ser humano. O outro plano, que
insere Montesquieu na legitimidade da sociologia, é aquele pelo que se pode
perceber no Espírito das leis explicações e relações que Aron considera
como aquelas que os sociólogos atuais pretendem elaborar. Aqui o importante é,
inicialmente, estabelecer os tipos em categorias completamente determinadas,
por exemplo, tipos de governo ou de atividades humanas. Então o sociólogo pode,
logicamente, oferecer orientação quanto ao que se deve proceder no interior de
cada categoria, por exemplo, sendo estipulado o tipo de governo, mostrar como
devem ser as várias formas de leis, (de educação, comerciais, tributárias,
etc,) para que o tipo seja plenamente realizado e conservado.
Nesse plano
estritamente sociológico, associa-se o prescrever a finalidades que permanecem
imanentes àquilo que se considera como objeto de prescrição. Já no plano dos
julgamentos de valor, Aron manifestamente apóia a cidadania de algo como o
direito natural, só que não abstratamente formulado num sentido filosófico
puro, e sim sociologicamente estruturado. Esse direito seria, pois, de
significação negativa, isto é, não servindo para dizer o que devem ser as
instituições particulares, e sim apenas para autorizar a condenação de certas
práticas pelo confronto com premissas éticas universalmente válidas como a
reciprocidade das ações e a igualdade entre os seres humanos.
Não obstante, se
mesmo assim não se pode excluir a consequência de que com esse universal se
permanece no âmbito do filosófico – a referência à filosofia política de Eric
Weil o confirma – Aron faz pensar que é o estritamente sociológico em
Montesquieu aquilo que informa esse direito natural. Ele inclui esse ponto no
seu recenseamento dos tópicos que caracterizam o pensamento sociológico
de Montesquieu: aquilo que se pode situar nesses dois planos de apreciação da
obra, mais o aspecto que combina diacronia e sincronia (a explicação da
sociedade pelo seu passado ou pelas porções contemporâneas que a integram). Mas
esse é, a meu ver, um dos itens problemáticos na leitura desse capítulo de As
etapas do pensamento sociológico.
É com relação ao
tópico da condenação pelo universal que se pode tratar aquele foco externo de
heterogeneidade, pelo que a questão deixa de ser apenas de saber se Montesquieu
é conservador no aspecto estrito de sua posição pessoal, mas libertário numa
abrangência maior, para compreender a articulação inevitável entre preocupação
com o universal e intuição da essência que não pode deixar de interligar o modo
de conceber a irredutibilidade cultural e o modo de compreender a própria
sociedade. Mas nesse rumo, descobrimos que há inúmeros pontos obscuros no texto
de Aron sobre Montesquieu.
Aron conserva o
liberalismo de Montesquieu como uma salvaguarda contra a implicação entre esses
dois aspectos, a interpretação do outro e a compreensão do mesmo. O que não se
observa é uma justificativa para essa atitude. Com efeito, por exemplo, pode
parecer ingênuo criticar a apreensão de um aporte universalista no pensamento
de Marx. Se ele tende para o comunismo como um ideal de justiça, é porque
subentende a igualdade e a razão como universais. No entanto, espero que os
aspectos não inteiramente presumíveis dessa consequência sejam também algo
claro a uma impressão inicial. Porque um Marx idealista seria risível, e
“igualdade” é um termo muito amplo do qual não se segue por necessidade “razão”,
ainda mais estando do mesmo modo não especificado o que isso seja. Mas não
ignoro que alguns marxistas estejam propensos a aceitar essa implicação. A
polêmica de Eagleton contra o que designa como o relativismo cultural da
pós-modernidade me parece não estar isenta de intenções marxistas como um
universal que reproduz, pelo menos na argumentação de As ilusões do
pós-modernismo, o direito natural de significação negativa, assim como
explicitado em Aron. O posfácio de sua teoria literária esclarece mais
sobre isso.
Eagleton, defendendo
ao que parece a preponderância do econômico sobre o cultural como um dogma do
marxismo, argumenta no posfácio como se pudesse haver um continuun entre
o comunismo marxista , as idéias iluministas, e a tradição da filosofia
pós-kant, de Hegel a Habermas. Em comum haveria aquilo mesmo que as teorias
pós-modernas rejeitam, o Sujeito centrado, a Razão totalizante e os valores do
humanismo clásico fundados no universal. O que permanece problemático é que
esse continuun não se mostra de modo algum evidente ao se estudar a
história da filosofia. A decalagem, por exemplo, entre liberalismo e comunismo
é algo notório, mas Eagleton procede como se os valores fossem os mesmos de
modo que insurgir-se contra os valores da razão clássica e do liberalismo
resulta como posição anti-marxista, hedonista e conservadora.
A questão está longe
de ser simples, e pretendo evitar posições unilaterais ou demasiado redutoras.
No entanto, alguns aspectos do pensamento contemporâneo parecem-me já contar
com elementos bastante bem formulados para lidar com alguns dos pontos
problemáticos que no tempo de Aron, por exemplo, ainda restavam sujeitos,
legitimamente, à polêmica.
Historicamente o que
se apreende na progressão do século XVIII ao XIX é que, se fosse possível
tratar a dominação apenas como uma variação do tema essencial do humano, como
um desvio da razão, deveria restar explicar por que esse desvio, essa variação,
é tão constante a ponto de poder explicar a organização sócio-econômica.
A viragem de Marx do pólo conceitual ao pólo da ação não se limita a ser um
argumento pró determinismo econômico, como se o que se devesse ver aqui fosse
apenas uma superioridade das relações de produção sobre a efetividade
sócio-cultural, mas sim a descoberta de que ao invés de se tratar o inteiro
problema do ponto de vista conceitual universal de uma definição do humano,
dever-se-ia operar uma inversão para compreender as etapas históricas do ponto
de vista do fazer social.
Esse aspecto não me
parece ter sido abandonado no pós-moderno, mas sim devidamente inserido num
contexto em que esperar que a classe trabalhadora pudesse “honestamente”
continuar sustentando visões totalizantes, em contraste com o que seria apenas
uma atitude blasé de rejeição do universal pela denúncia do que há de
descontínuo e efêmero na história, atitude devida ao humor de intelectuais
supersaturados de proteínas e informação, seria algo incerto. Pois aquela
classe efetivamente não parou de se defrontar com a transformação de seus
antigos heróis em líderes neoliberais bastante acomodados em seus novos papéis,
nem deixou de ser cooptada pela massiva conversão religiosa que alijou inúmeros
contingentes nem mesmo já da prática política, mas de limites mínimos da
consciência de tolerância social.
A atitude de Eagleton
só poderia fazer sentido se pudésemos retornar a uma época na qual ainda não
houvesse sido preciso confrontar realidades como a da aliança das massas com o
fascismo ou o conservadorismo do proletariado, a descoberta de que
trabalhadores economicamente bem assegurados não são só por isso uma classe não
comprometida com valores conservadores, com a intolerância, ou com o que
Foucault designa “o poder”. Como pretender permanecer na via de um determinismo
econômico, como se tudo devesse compreender uma luta por participação nas
vantagens da produção, quando se descobriu o que a produção mesma tem de
desviante em relação às potencialidades do ser humano e do planeta? Reich contou
muito bem, no seu livro A revolução sexual, a história dessa
ilusão perigosa ao iluminar o desvio dos investimentos desejantes da Revolução
socialista na Rússia para o compromisso soviético com os valores culturais mais
conservadores da burguesia.
As teorias
pós-modernas não se limitam a derivar do desencanto dos oitenta frente aos
poderes de resistência do sistema. Elas não são epifenômenos de uma
negatividade pura, mas derivam sim, de descobertas extremamente
importantes que Eagleton parece ignorar . Assim, as micropoliticas não se
devem, como ele propõe, apenas a esse confronto frustrado com o poder, mas sim
à descoberta de que o discurso do Sujeito universal sustenta esse poder. A
historiografia, assim como a trata Foucault, não está condicionada apenas pelos
“preconceitos do narrador”, mas a arqueologia se deve à descoberta da Episteme
como a priori histórico de algo como as condições de enunciação. O que
Eagleton designa como o bastar-se a si mesmo, o relativo e não-fundado da “subjetividade”
pós-moderna, não tem por correlato “ser feito de mera convenção e tradição
cultural”, mas sim uma ética dos devires que se relaciona à descoberta do
inconsciente desejante que não ignora nem se conceitua à parte do econômico, do
político e do social.
O que nesse posfácio
Eagleton procura não ver é a mensagem alegre dessa “ciência” – utilizando
aqui, provocativamente, a expressão de Nietzsche, que ele pensa lançar contra o
pós-moderno ao afirmar que os pressupostos dessa tendência se limitam a ser uma
nota de rodapé daquele filósofo. O que se adequa bem ao modo como ele tratou o
tema, desvirtuando o que há de mais relevante nessa problemática atual.
No entanto, aqui o
importante a enfatizar é a impossibilidade daquele continuun
iluminismo-idealismo pós-kantiano-Marxismo, que parece sustentar a argumentação
de Eagleton pró universais da razão, pois esse ponto se inseriu no exame da
leitura de Aron sobre Montesquieu. Retornando ao tema, penso que algumas
tensões no texto de Aron se estruturam em torno de noções opostas como
filosófico/sociológico e igualdade/desigualdade.
A dualidade do
filosófico e do sociológico é explicitamente destacada no início do texto,
quando Aron observa o plano do Espírito das leis, iluminando assim um
ponto controverso a propósito desse tópico. Como a parte inicial trata dos
tipos de governo e as outras duas tratam de causas físicas ou morais que agem
sobre a organização da sociedade, resta compreender esse estado polimorfo da
obra e o status de seu autor. Aron se insurge contra a interpretação que
pretende apresenta-la como híbrido, Montesquieu sendo, nessa perspectiva, um
dos filósofos clássicos devido à sua teoria dos tipos, mas também um sociólogo
ou precursor, naquilo em que lida com a teoria das causas. A teoria dos tipos
poderia se inserir como tema da filosofia política clássica, enquanto a teoria
das causas já introduz uma tentativa inusitada de explicação do fenômeno
social.
Aron se propõe
localizar a compatibilidade entre essas duas vertentes teóricas, ao menos
conforme a apreensão que o próprio autor teria do plano de sua obra. Quanto a
isso, Aron vai observar que a teoria dos tipos é propriamente uma sociologia
política, pois desloca a simples distribuição numérica como critério de
classificação das formas de soberania, de modo que o que se torna decisivo é a
legitimidade – conformidade a leis – ou o despotismo, o moderado e o
não-moderado. E que é dessa sociologia política que se extraem as formulações
dos principais problemas da sociologia geral – inserção do político no social,
relação entre fato e valor, conexão entre particular -histórico e
universal-racional. Assim tudo leva a crer que Aron localiza Montesquieu apenas
como um sociólogo, e mais, que é nessa esfera que se deve esperar um tratamento
adequado de questões precisas que, não obstante, incluem o problema da
legitimidade de algo como um direito natural.
No entanto, ao
procurar conceituar a transição em Montesquieu dos fatos aos valores, Aron
trata o determinismo como uma filosofia, não apenas como um método, de modo que,
uma vez tendo aceito que as leis da razão universalmente válidas são
constitutiva do pensamento de Montesquieu, ele se indaga sobre qual seria a
filosofia de Montesquieu, aquela que estaria contraposta ao determinismo. Aron
formula essa filosofia como sendo a de hierarquia dos seres. Todos os seres são
submetidos a leis, mas enquanto o mundo físico não pode se apartar do seu
cumprimento, os seres inteligentes podem se desviar. O mundo humano seria
inferior, de algum modo, ao mundo físico, já que as leis racionais podem não
ser observadas. Aron pensa que é essa filosofia que permite a Montesquieu
encontrar uma forma para combinar a explicação científica das leis positivas
com a manutenção de imperativos universalmente válidas.
Assim, também,
Montesquieu teria encontrado um meio de explicar a diversidade de instituições,
aí mesmo onde se encontra o que o sociólogo tem mais dificuldades para
explicar, a escravidão, o despotismo. Isso que permanece condenável só o pode
ser enquanto oposto às características do ser humano universalmente definido.
Mas anteriormente, ao expor as conexões deterministas que Montesquieu
estabelece entre clima e temperamento humano, Aron havia notado que Montesquieu
explicava a escravidão como derivada de um certo tipo de clima. O clima quente
induz à indolência, nele o ser humano só trabalha coagido. Isso choca menos à
razão, é verdade, mas o próprio Montesquieu se indaga se há mesmo no planeta
esse tipo de clima que não permite o trabalho livremente efetuado.
A condenação moral
se torna possível, se pensarmos que, não havendo um clima assim tão
inclemente, é por haver leis malfeitas que surgem homens preguiçosos, e, sendo
preguiçosos, transformaram-se em escravos. Mas note-se que o que está sendo
condenado são os escravos, esses preguiçosos, e as leis que facultaram o seu
surgimento. E, mais geralmente, o tema é tratado como algo inerente ao exterior
da civilização ocidental quando é notório o fato de que a escravidão na
modernidade se deve à ação do europeu. Então Montesquieu se propõe justificar a
iniciativa européia de escravização, o que empreende com ironia e de modo
jocoso, pois apresenta inicialmente como plausíveis razões muito diversificadas
(características físicas dos africanos e indícios de sua irracionalidade,
vantagens econômicas do aproveitamento do trabalho alheio), para só depois
conduzir ao leitor à constatação de que essas não são verdadeiramente as razões
que o autor está caucionando.
O que Montesquieu
procura então é a “natureza das coisas” , o que pode fundamentar a existência
da escravidão como um fato, aproveitando para colocar no mesmo plano servidão,
escravidão civil e despotismo político. Se há despotismo, a escravidão ou a
servidão são coisas corriqueiras já que ninguém formula a concepção adequada de
sua autonomia.Mas o clima quente que debilita a iniciativa ao trabalho é também
um fator natural. A perspectiva de Montesquieu se torna bastante ambígua,
porém. Seu texto ao mesmo tempo apresenta um aspecto de condenação moral (a
escravidão não é boa), mas também um aspecto de aceitação prática, pois
trata-se de examinar a relação da instituição do escravo com o tipo de governo,
a situação histórica da nação, e outros elementos localizados, a fim de
prescrever o melhor modo de estipular a sua regulação legal, portanto de modo
algum ocorre a negação prática da instituição. E mais, o sentido latente
daquelas razões que aparentemente não são as do autor, nunca deixam de estar de
algum modo subjacentes ao movimento textual (os escravos são os preguiçosos, ou
os que se conformam com o despotismo).
Pode-se localizar uma
crítica à escravidão por sua convergência à crítica do despotismo – os
príncipes da Europa são ironizados, junto com os que não consideram injusto
escravizar, por não prescrever “algo em favor da misericórdia e da piedade”
quando costumam estabelecer entre eles “tantas convenções inúteis”. Mas esse “algo”,
pelo que o desenvolvimento do texto permite deduzir, seria menos se abster
totalmente de escravos, pois o açúcar não deixa de ficar muito caro sem eles, do
que regular a sua utilização para que não resulte tão desumana.
A sequência textual
de Montesquieu, destacada por Aron, vai de “por haver leis malfeitas”, que
fazem surgir homens preguiçosos, a um período subsequente em que “como esses
homens eram preguiçosos” (grifo meu), então se fizeram escravos. Aron
pensa que as contradições aqui significam apenas que Montesquieu é menos
determinista do que foi levado a afirmar eventualmente. No entanto, parece-me
haver um contraste nítido entre afirmar que a escravidão se deve tratar como um
desvio condenável das leis da razão, ou que os escravos são pessoas preguiçosas
que se deixaram escravizar. Talvez as leis malfeitas pudessem servir de meio
termo. Mas o que Montesquieu deixou como que no ar foi justamente o porque
delas existirem, e já que a preguiça pode se dever ao clima.
Algo não focalizado
especialmente por Aron, que se observa na História das idéias políticas,
correlato ao que estamos examinando, é o fato de que Montesquieu, se erradicou
do seu país , ao menos teoricamente, o despotismo, ele só o fez expatriando-o
para “a Pérsia, a Turquia ou a China”, devido a suas grandes extensões. O que
tem como consequência votar o poder absoluto “ao exotismo e à xenofobia” (HIP,
65). Em todo caso, a tensão de filosofia-sociologia não parece muito
resolvida no texto de Aron, se nos recusarmos a propor que, uma vez que ele
também utilizou a expressão “concepção da hierarquia dos seres”, ele estivesse
usando o termo “filosofia” nesse contexto explícito, apenas no sentido mais
geral de teoria ou modo de ver, ao passo que estava conscientemente rejeitando
a idéia de que Montesquieu pudesse ser arrolado como um filósofo clássico,
pretendendo justificar por todos os meios a sua versão de sociólogo pioneiro.
Pode-se propor também que Aron pensou um certo suporte filosófico contido na
rubrica pensamento sociológico, naquilo em que certas concepções mais
fundamentais estão sempre implícitas em ciências humanas. Assim ele teria
tratado a tensão entre determinismo localizado e positivo versus
universalismo imutável e racional desdobrando-a no núcleo de tema e variação,
lei racional e desvio indeterminado.
O outro pólo
problemático, igualdade-desigualdade parece-me ainda mais complexo no texto de
Aron. Pois por um lado temos a enunciação da igualdade como uma dessas leis
universais da razão subjacentes ao pensamento de Montesquieu, mas por outro,
temos a desigualdade como sua celebrada descoberta sociológica da imanência
social, o equilíbrio dos poderes servindo como contraponto a seus efeitos
negativos. Como Montesquieu lida com a igualdade universal, ao mesmo tempo
sustentando a legitimidade de uma distinção de nascimento como critério de
legitimidade de classe? Ora, é certo que Montesquieu designa as relações de
justiça prévias a leis positivas como “relações de equidade”. Mas seria mesmo
esse termo, no contexto, sinônimo de “igualdade”? Equidade pode bem se inserir
entre dados heterogêneos, por exemplo, equidade entre poderes equilibrados.
Isso sem que essa heterogeneidade se revele apta a suportar uma crítica da
sociedade como homogeneização “liberal” de interesses.
O fato é que o trecho
destacado por Aron designa como essas leis universais de Montesquieu: respeitar
as leis dentro da sociedade, gratidão a benefícios recebidos, dependência da
criatura ao criador, exigência de reparação no caso de ter sofrido um dano.
Nessa enumeração, que a meu ver não exibe qualquer necessidade universal
uniformemente distribuída entre os itens, Aron pensa poder vislumbrar uma
redução a duas noções: igualdade e reciprocidade. Confesso que não localizo a
igualdade nesse rol. É certo que deveria ser pensado “todos” como sujeitos a
essas atribuições, mas isso não implica a outra acepção de igualdade que parece
ser justamente a que Aron maneja. Num caso todos estão igualmente sob a
observância desses preceitos, no outro todos são algum mesmo a
mais de pertencer biologicamente à espécie.
Assim também na
controvérsia marxista, não se poderia apenas deduzir que o horizonte de algo
como a igualdade política está se prescrevendo como derivando-se de leis
racionais universais ou dependendo de uma universal definição dos seres humanos
no interior de um absoluto moral. Como já se observou, essa autodeterminação
não está presente como uma invariante histórico, ela se constrói
historicamente. Quanto a Montesquieu, vimos anteriormente que a inovação de sua
teorização política consistia justamente em ter tornado o tratamento da
sociedade imanente, independente dos procedimentos de definição universal do
humano, ou conforme a expressão de Bréhier, já citada, “sem referência a uma
concepção explícita do espírito e da natureza”.
Aron parece evitar os
efeitos mais agudos dessa problemática através de uma limitação da
desigualdade, no pensamento de Montesquieu, à imanência social, enquanto que a
igualdade seria natural, conceituável como estado de natureza a qual
Montesquieu não preconiza “voltar”, mas que serve apenas para mostrar que a
desigualdade é manejável, atenuável, devido à natureza mesma, igual, do ser
humano. No entanto, a polissemia implícita no termo não me parece ter sido
contornada, ainda assim. E quanto à natureza do ser humano, podemos lembrar que
Montesquieu a considera apenas como um estado de carência e necessidade.
Conforme o início do Espírito das leis, logo que existe sociedade,
superando a comum fraqueza frente à natureza, instaura-se a desigualdade.
Ora, o problema é
complexo, até mesmo porque ele não parece se conformar a uma oposição elementar
entre determinismo positivista e racionalidade universal, como tampouco, no
interior da vertente que seria racionalista, entre apelo ao futuro (marxismo)
ou a critérios de caráter formal (Montesquieu). Mas de modo geral me parece que
Aron exagera a preponderância do tema da universalidade em Montesquieu.
No âmbito histórico
de Montesquieu essa oposição elementar parece-me pouco desenvolvida, assim como
tipificada no texto de Aron. Pois é somente de uma perspectiva contemporânea,
de pleno desenvolvimento das ciências do humano, que se pode apreciar uma
renúncia efetiva a julgamentos fundamentados no tipo de concepção que suporta o
direito natural.
Observando a
progressão resumida das ciências sociais no livro de John Beattie (Introdução
à antropologia social ), obra que não se pretende original e cujo escopo
inclui o uso de linguagem simples, não técnica, na comunicação da perspectiva
do autor sobre o assunto, percebe-se que a ciência social só se estabelece
quando, por meio de materiais sistematicamente produzidos por pesquisadores de
campo, a heterogeneidade e a irredutibilidade cultural se tornou algo como um
lugar comum científico. Isso só foi alcançado no século XX. Até então a
assimilação errônea de instituições observadas em culturas estrangeiras a
instituições ocidentais supostamente análogas foi o menor dos erros, já
estabelecido num âmbito de superação em relação àqueles, mais grosseiros, que
estavam nos primórdios da preocupação social e antropológica.
Beattie localiza
esses primórdios no século XVIII, como antecedendo os trabalhos antropológicos
pioneiros escritos na segunda metade do século XIX. Na época do Iluminismo, “Hume,
Adam Smith e Ferguson na Inglaterra e Montesquieu, Condorcet e outros no
continente, escreveram sobre instituições primitivas” (IAS, p. 10), mas
não sendo “cientistas empíricos” as evidências com que lidavam não se baseavam
em testes, nesse caso, no confronto com o observável das sociedades autóctones,
mas apenas argumentavam dedutivamente a partir de princípios implícitos às suas
próprias culturas. “Eram realmente filósofos e historiadores da Europa, não
antropólogos”, o que me parece extensível, mais geralmente, às ciências do
humano de que esses pensadores costumam ser considerados como precursores ou
pioneiros.
No caso específico de
Montesquieu, podemos ver que se tornou inevitável, na articulação dos tipos de
governo com o programático em relação ao Estado moderno europeu, uma apreciação
de valor pela qual esse Estado, tipificado pela Inglaterra, surgia como o
progresso, o telos ideal humano, restando o problema de como administrar
a irredutibilidade do outro da cultura a esse domínio ideal de vida social. O
que não significa porém, aceitar que ele tenha sido efetivamente um sociólogo
no sentido pleno desse termo, mas que sua obra lida com temas que manifestam a
inserção do pensamento humano numa contextualização já social, não redutível ao
tipo de racionalismo totalizante do século XVII, como se pode ver também na
apresentação de Brehier acerca de Montesquieu.
Conforme vimos em
Bréhier, Montesquieu se define como “escritor político”, e a novidade do modo
com que trata o assunto é que ele torna a teoria política autônoma. Assim, ele
não é um filósofo clássico, e quando o estudamos no contexto da teoria política
observamos o que há de irredutível na vertente moderna em relação à antiga. Mas
tampouco se pode designar, a meu ver, como um sociólogo no sentido estrito, já
que nunca separou o objeto de conhecimento de um complexo cultural específico,
historicamente determinado, que ele tomou como “natureza”. O fator
universalidade seria menos algo que atualiza os insights de Montesquieu, do que
aquilo que os delimita como irredutíveis à Epistemê moderna, pois esse
universal era tão somente o que a cultura européia havia permitido ao teórico
formar como uma visão de mundo.
Mas essa consequência
etnocêntrica, tão explícita em Montesquieu, permanece não apenas atrelada ao
iluminismo de um modo geral, estendendo-se como um fardo sobre as relações
interculturais desde então, numa ambientação prejudicada pela dominação
imperialista. Assim, dessa transposição do outro ao mesmo, característica do
iluminismo, o “erro” seguinte consistiu na introdução do evolucionismo
cultural, como noticia Beattie, algo que perdurou no século XIX e esteve na
base de classificações de sociedades cujo escopo era presentificar o que seria
uma gradação “natural” , desde os estágios mais inferiores (os primitivos das
colônias) aos mais superiores (ocidentais civilizados).
Algo que permanece
meritório nas teorizações iluministas, sem dúvida, é a descoberta de que o
espaço da legalidade é social, de que a lei não tem aplicação à pessoa privada,
mas sim à pessoa social. Creio ter enfatizado esse tópico pela temática da
autonomia da teoria política, liberada da necessidade de conceituações
metafisicas e epistemologicamente totalizantes. Creio mesmo ser esse o
fundamento da modernidade, aquilo que Foucault procurou no escrito de Kant
acerca da significação do Iluminismo, e que ele pensou conceituar em termos do
inventar-se ao invés de se pensar como desde sempre definido por uma natureza.
Foucault localizou na
leitura do iluminismo por Kant a raiz dessa auto-compreensão moderna do ser
humano, que no entanto, teria uma longa história para explicitar-se
satisfatoriamente a si mesma. Creio que no âmbito iluminista, a modernidade pronunciou
o seu grito de independência ou a sua carta de autonomia ao descobrir essa
irredutibilidade da pessoa, algo impensável por qualquer contexto “antigo” no
qual a pessoa mesma é o que se define na sua pertinência social. Agora essa
pertinência se formaliza como regrada no espaço de interação com o outro. É a
interação que cabe à lei regulamentar, não a pessoa.
Mas isso, sem dúvida,
deixa à pessoa o espaço de sua auto-invenção de modo que um critério ético
contemporâneo é a caracterização da dominação como qualquer invasão da lei ou
do julgar sobre essa margem de subjetivação. O que só pôde ser vislumbrado numa
ambientação mais atual, capaz de criticar aquilo que até aqui vinha se
desenvolvendo no sentido oposto, como a tendência liberal-burguesa a pensar a
pessoa liberada da modernidade como o correlato do agente social atuante no
espaço da legalidade.
Ora, conceitual tal
correlação seria o caso-solução do problema novo de veicular a pessoa
inalienável e a sua vinculação social, o que se traduziu como a implicação de
público e privado, a imagem & a semelhança. O iluminismo procurou
resolvê-lo de um ponto de vista naturalista, mostrando que o vínculo legal
interessava à pessoa no seu próprio ser, enquanto “ser” se tornava o conjunto
de “paixões” , desde o fisiológico aos sentimentos, o vivenciável administrado
pelo intelecto. Nesse sentido, não me parece que Montesquieu seja menos
iluminista, ou possa ser visado como “racionalista”. Leis de equidade prévia
são requeridas para conceituar o vínculo social, universalmente observável como
efetivo. Mas justamente não se pode pensar que o vínculo esteja se definindo
como o racional irredutível ao quadro de “paixões” que hoje compreenderíamos
como necessidades ou aptidões num continuum físico-espiritual. Portanto essas
leis pretendem enunciar o modo pelo qual se pode determinar o domínio de
interações quaisquer, o espaço da legalidade ou a autonomia do social.
O problema, nessa
ambiência histórica, como no caso de Montesquieu, é a oscilação, que em cada
pensador se pode apreender como mais ou menos pronunciada, entre o antigo e o
novo, entre a tentativa de conservar de algum modo instituições do antigo
direito sobre a pessoa, como a instituição mesma da nobreza, e a
impossibilidade desse empreendimento, o que se pronunciava por consequências
estabelecidas na própria matriz teórica do pensador “conservador” que não tinha
assim como inserir de modo coerente tais instituições em qualquer contexto
sistemático adequado a seus propósitos temáticos, já definidos em termos
modernos como a sociedade ou o poder político: espaços de relação, não de
origem, de legalidade, não de performance privada.
Mas uma racionalidade
irredutível será exatamente o objetivo do século XIX, ao menos no seu início,
conceituar. O papel de Kant nessa viragem, a meu ver, consiste em ter procurado
de outro modo estabelecer esse vínculo da pessoa ao social. Sem comprometer o
inalienável na pessoa, tratava-se porém de superar o hiato entre o
empiricamente apreensível e a invariância requerida pelo espaço da legalidade
onde se travam as batalhas da história. Tratava-se, portanto, de restabelecer a
espessura metafísica que havia se evaporado na superfície pura do estado
autônomo de sociedade.
-------------------– A
temática do mal radical se insinua, em Kant, numa conexão com a efetividade,
com o empírico. O domínio do transcendental com que as críticas trabalham devem
descrever uma esfera de condições, mas resta o problema prático de como se pode
lidar com o condicionado, na medida em que a liberdade requer uma decisão
inalienável, que ninguém pode tomar por outrem.
Zingano observa que,
se estamos lidando assim com dois domínios como que contrapostos, o empírico e
o transcendental, na Metafísica dos costumes Kant estabelece uma região
irredutível, a dos princípios. Região do metafísico, pois aqui se deve
desdobrar aquilo que é predicável dos objetos da razão, tendo em consideração “o
elemento empírico em geral”, para construir um “sistema doutrinário” (RHK,
187).
A oposição entre
transcendental e metafísico, ambos irredutíveis ao empírico, é designada por
Zingano do seguinte modo: o princípio transcendental representa a priori
e universalmente as condições pelas quais os objetos se tornam possivelmente
experimenciáveis. O princípio metafísico representa a priori as
condições sob as quais objetos tornam-se determinados, amoldando-se às
exigências da experiência, aí onde o conceito do objeto tem que ser dado
empiricamente ao sujeito.
A articulação entre
transcendental e metafísico se torna a recuperação do ser humano enquanto
objeto da questão prática. Para que a “densidade crítica” pudesse mostrar “todo
o seu peso”, seria preciso, portanto, confrontar a possibilidade do humano ao
que esse ser humano realmente é. A via a uma determinação metafísica do humano
se torna assim pavimentada por esses princípios, sendo a determinação mesma
aquilo que “ele se fez a partir do que pode fazer de si”, o estatuto próprio
desse não-somente-físico, meta-físico que, contudo, “impregna segundo seus
efeitos o mundo físico” (RHK, 189).
A metafísica dos
costumes descreve os princípios distribuindo-os separadamente em três
regiões ou doutrinas: do direito, da virtude e da ciência natural. Esses
princípios lidam com aquilo que é o mais geral em cada uma dessas regiões,
assim como se determina na experiência. Na ciência da natureza, o conceito mais
geral é a matéria em movimento. Quanto ao direito e a virtude, ambas as regiões
compartem a abrangência da vontade, mas agora pensada não de modo formal, e sim
como já afetada sensivelmente. Pensar “o caráter metafísico geral” do humano
implica pensar sob que modo essa vontade sensivelmente envolvida com o mundo “acede
às determinações da racionalidade”. Trata-se então de uma espécie de campo de
prova para a reflexão crítica o seu enfrentamento, tendo construído um “aparato
conceitual”, do “estranho fato de ser homem no mundo” (RHK, 188,9).
As doutrinas do
direito e da virtude tratam a vontade situada conforme dois aspectos ou
princípios das ações morais, o externo, em que objetivamente devem concordar
universalmente, e o interno, em que subjetivamente são feitas por dever. Kant
conceitua o direito como região dos princípios externos, a esfera da legalidade
podendo assim ser tratada independente do motivo interno que move à ação. Nesse
âmbito, ele utiliza a distinção que parece corrente nessa época entre leis
naturais, reconhecidas como justas independente de sua promulgação, as famosas
leis não escritas que parecem fundamentar um direito natural, e leis positivas,
cuja observância depende de sua promulgação. Em geral o direito está sendo
conceituado na proximidade da coação, como um limite de alteridade pelo que não
se trata de que a lei possa obrigar alguém a agir conforme a razão, mas sim
coibir reciprocamente aquilo que não parece de acordo com ela. Explicitamente
ligado à “autorização a coagir”, conforme a expressão de Kant, trata-se da
possibilidade de uma “coerção recíproca universal com a liberdade de cada um”,
o que impede que se misture o direito com qualquer “prescrição relativa à
virtude”, como observa Zingano (RJK, 190).
O problema reside no
valor ético do direito, porém, pois ainda que, enquanto esfera exterior, ela
seja “maximamente distanciada da virtude”, nos termos de Zingano, suas
prescrições não podendo não vir da razão, trata-se de ver em que devem
engendrar a virtude, tornando consistente o bem soberano. Ora, a possibilidade
desse bem é o critério para resolver sobre “a realidade ou o caráter quimérico
da prescrição moral” . Ou seja, devemos avaliar as vantagens da recusa do
estado de natureza, compreendendo o estado civil como movimento de legalização
do agir que deve articular o direito público como garantia do direito privado,
e o direito cosmopolita como “instãncia que realiza a universalidade imposta no
bem soberano”. Somente o estado civil garante a propriedade e torna o nível
cosmopolita “irrecusável”. Kant se inclina pelo republicanismo, prescreve a
separação de poderes e conceitua o legislativo como o poder soberano
constituído pela “vontade unificada do povo”. Essa transição de estados, do
natural ao civil, não deveria então poder fundar o reino dos fins de modo a
demonstrar que ele deve ser realizado?
No entanto, o cerne
problemático nesse empreendimento se encontra precisamente aqui, pois
inversamente a um alicerce firme, nos encontramos perante um círculo. A
exterioridade do direito não poderia, conforme Kant, engendrar mais do que uma
condição puramente convencional, uma “brilhante miséria”, sendo então a
doutrina da virtude que permite vislumbrar a região em que algo como a
avaliação do direito como sagrado é possível. O direito, na sua face puramente
externa, não pode gerar valor, ele se apresenta como um fato. Resta o inteiro
problema de explicar como é que essa avaliação, essa geração de valor, se
tornou possível. O peso da argumentação se lança sobre a doutrina da virtude,
quando esperávamos que o direito pudesse já ter resolvido acerca de como um
reino virtuoso, um estado de legalidade, é postulável pela própria atribuição
racional do ser humano.
O movimento
conceitual que Zingano ilumina muito bem parece-me poder ser descrito através
de uma relação circular interposta entre “a”) subjetivo, virtude, decisão
moral, e
“b”) objetivo,
direito, legalidade civil. A articulação entre ambos sustenta ao mesmo tempo a
temática do bem soberano, em que convergem a felicidade e a virtude, e o
problema da transição entre o ser e o dever-ser. Assim, para tratar essas duas
questões teríamos o caminho de supor que “b” engendra “a”, mas no intercurso
descobrimos que “b” depende de algum modo de “a”. Se a codificação de relações
humanas não fornece nenhuma garantia, podendo ser “a cristalização de relações
reais injustas”, a dedução positiva de leis da razão já supõe a razão enquanto
prática o que devia, contudo, poder engendrar. Mas se, com base na constatação
desse obstáculo, se procurasse na doutrina da virtude a matéria (objeto do
livre-arbítrio), ou um fim da razão, apresentada aí como o dever, vemos que,
manifestamente, se estaria retornando ao ponto inicial da problemática, sendo
que precisamos exatamente conceituar quais são “os princípios de toda
moralidade”, onde se rejeitam as doutrinas do sentimento moral iluministas,
pois Kant mostra que ele é consequência, não causa, da aceitação subjetiva da
lei, que é o que se está querendo explicar.
Algo importante aqui,
a meu ver, é que Kant está deslocando no âmbito prático aquela intuição
iluminista da essência, de tema e variação, para lidar agora com o binômio
objetividade-subjetividade, assim como no âmbito especulativo Deleuze havia
mostrado que ele deslocou a contraposição de essência e aparência para
instaurar a consistência teórica em termos de condição (possibilidade) e
aparecer (fenômeno). Esse deslocamente instaura o contexto filosófico do início
do século XIX, dominando o pós-kantismo de Fichte a Hegel. Deleuze pensa
localizar no deslocamento especulativo a emergência da fenomenologia, o que
estende essas consequências do kantismo à atualidade.
Não sendo esse o
lugar apropriado para desenvolver essa questão, o que se deve destacar é que o
deslocamento prático atribuiu à espessura metafísica a circunscrição teórica na
condução do problema da recuperação subjetiva do que é objetivamente
conceituado seja a prioristicamente enquanto transcendental, a lei moral, seja
empiricamente enquanto realidade fenomênica, o direito e a história. Um
paradoxo do sentido íntimo se interpõe entre o transcendental e o empírico,
quando se trata de recuperar a efetividade do ser para si do humano, que só se
autoapreende como eu empírico na série temporal, já instaurada
trancendentalmente pelo tempo puro ou eu transcendental – rachadura do “eu”
pela forma vazia do tempo, conforme Deleuze. Agora, porém, Zingano mostra que
está se tratando da irredutibilidade entre o eu transcendental, que não
é “um outro mundo”, mas “em sua verdade prática” de uma liberdade
transcendentalmente determinada, o “espaço autodeterminante que delimita as
condições de agir”, o eu histórico, o agente que empiricamente institui
por sua decisão uma “sua causalidade, uma série sua de eventos”
que se efetivam no mundo natural, e um eu metafísico, que repõe, através
de sua ação, o espaço autodeterminante transcendental em nível de vontade
sensivelmente afetada, que no entanto, só “opera no mundo por trás do horizonde
inapagável de seu poder-ser” .
O que se precisa,
portanto, é localizar o elemento responsável pela conversão, ou adesão
da vontade à determinação da razão. Esse tema se enuncia como sendo o da
impotência da razão, pois se torna patente que o ser humano livre adere a
determinações que não se restringem à lei moral, mas que a confrontam como algo
apenas pretensamente estabelecido, como algo meramente idealizado. A espessura
desse confronto é o lugar da história, onde a “opacidade do mundo” se furta ao
que a razão descrevia como pertencendo objetivamente ao dever. Nesse ponto a
prova a que a crítica se submete pode se resolver ou como reconhecimento da
legitimidade das determinações que forçam a confrontação, nesse caso toda a
crítica se vota à vacuidade, ou como demonstração do mecanismo pelo qual a
posse subjetiva do que se reconhece objetivamente na lei se torna efetiva.
A indagação imposta
aqui deve se estender assim à natureza dessas determinações confrontadoras da
lei moral no ser humano, e ao lançar-se nessa empreitada, Kant se torna o alvo
de uma controvérsia histórica, pois ele as reúne sob a conhecida doutrina do “mal
radical”, o que, como já se tem elementos suficientes para antever, está
frontalmente oposto ao traço mais conspícuo da filosofia das luzes, o otimismo
acerca da natureza do humano.
Zingano expõe os
meandros dessa controvérsia compondo uma história da recepção da doutrina do “radikales
Böse”. Teoria que não surge desde o início no pensamento kantiano, mas que ,
inversamente, se inscreve numa denegação do que anteriormente havia sido
proposto, por exemplo, no seu texto “Considerações sobre o otimismo” que
Kant irá repudiar do modo mais severo, a ponto de solicitar que se retirasse de
circulação. No entanto, essa transição se tornou o motivo de censura oficial de
seu escrito sobre religião, onde se expõe a doutrina, e ainda que Kant tenha
logrado contornar o problema e publicar a obra, foi obrigado, por decreto real,
a se abster de tratar publicamente o assunto. Fato paradoxal, pois a política subjacente
ao decreto tem a ver com a perseguição aos filósofos da Ilustração, ativa na
Europa após os acontecimentos revolucionários na França, enquanto que esses
mesmos filósofos se voltavam contra a doutrina “pessimista” do kantismo.
O otimismo da luzes se
votava como crítica das versões religiosas do pecado original, da culpa
congênita da humanidade, de modo que a doutrina do mal radical pareceu aos
pensadores da época uma extensão dessa perspectiva religiosa, ou ao menos algo
que poderia reforçá-la. Schiller, Herder e Goethe são citados por Zingano como
exemplos das reações agressivas suscitadas pela doutrina, e especialmente a
posição de Herder é interessante pois seus sarcasmos prolongam a polêmica, que
deveremos examinar, travada com Kant acerca da idéia de história. Zingano
registra que esse ponto do pensamento kantiano é tão controverso que ainda na
atualidade ocorre a certos críticos, como Bruch, Herrero e Philonenko, atribuir
a teoria a alguma consciência religiosa profunda, algo não fundamentalmente
exigido pelo sistema crítico, e mesmo já se apontou todo esse ônus da prova da
filosofia prática como uma carência do pensar, talvez devida à idade avançada
que Kant exibia ao desenvolver o sistema metafísico dos costumes. Hegel e
Shellling, contudo, na ambiência do idealismo alemão, conforme Zingano, são
mais atentos ao problema que se impõe na espessura metafísica do problema
moral. Trata-se de constatar que a dimensão do mal não pode ser pensada apenas
do lado da sensibilidade, ou de uma “patologia do querer”, mas que está
determinada como uma possibilidade, ainda que negativa, do modo de ser do
humano.
Assim, conceituar
adequadamente esse modo de ser, por exemplo contrapondo-o ao ser da natureza
física, requer que se compreenda a dimensão do mal. E se uma relação com a
religião pode mesmo ser rastreada nesse tópico, deve-se indagar se o pensamento
de Kant, inversamente a ser motivado por um prurido dogmático, uma
reminiscência pietista, não estaria se lançando numa tarefa que abarca a
compreensão do fenômeno religioso do ponto de vista de sua consistência humana,
conforme a tese de Zingano.
As leis da natureza
se relacionam a um âmbito em que os objetos precisam ser causas das
representações que determinam a vontade, pois elas são condições da experiência
possível. Mas no âmbito moral, é a vontade que deve ser causa dos objetos. Isso
implica em que o fundamento de determinação da causalidade no âmbito moral é
apenas a faculdade racional pura, o que se designa razão pura prática. Ora, o
que se torna por esse meio evidente é que a vontade do humano contém um
fundamento de espontaneidade pura pelo qual adere a máximas. Esse fundamento é “insondável”,
ou seja, pertence à liberdade, não está determinada por nenhum fenômeno ou
objeto. No entanto, essas máximas podem ser ou não contrárias à lei moral, e
sendo assim não se pode evitar pensar o mal, a possibilidade da adesão do
arbítrio se verificar oposta à lei moral. Esse pensar tem por objeto um actus
da liberdade, o dar-se uma regra que ao mesmo tempo é criação daquele que a
emprega. O que Kant está supondo é a existência de um “ato inteligível
subjetivo” pelo qual agimos conforme uma “categoria prática do bem” ou uma
categoria prática do mal. (RHK, 205). esse fundamento subjetivo seria
válido para todas as ações do ser humano. Toda ação está assim sob leis da
moralidade, seja para recusá-las, seja para aceitá-las.
Kant estabelece uma
correlação entre as três formulações do Imperativo Categórico e as três regiões
de princípios a ser cobertos pela metafísica. A forma da lei universal da
natureza, como vimos, serve como tipo para a lei da liberdade, quando
prescreve a universalidade como princípio o qual, uma vez dele furtando-se a
ação, seguir-se-ia, como numa lei natural, a impossibilidade da coordenação no
mundo de todas as ações, já que não se poderia nunca contar com a boa fé do
outro. A doutrina do direito, cujo objeto deve facultar a ação livre,
corresponde à segunda fórmula do Imperativo, pela qual não se utiliza jamais o
ser humano como simples meio mas sempre como uma finalidade. A doutrina da
virtude, que tem por objeto os fins enquanto deveres subjetivamente aceitos,
corresponde à fórmula pela qual a causa livre, o ser humano como membro de uma
natureza supra-sensível, não se considera apenas como sujeito a leis, mas
também como legislador.
Essa correlação já
está visando a razão pura prática “num ser natural, cuja vontade é afetada pela
sensibilidade” (RHK, 195). No entanto, o mecanismo que permitirá compreender a
conversão, a adesão à lei moral, ainda não se esclareceu. O estatuto do livre
agir se tornou uma “faculdade do bem e do mal”, como na expressão de Shelling,
citada por Zingano. Se o recurso à revelação e à graça não podem ser utilizados
quando se trata de romper o círculo, tampouco se poderia reservar todo o bem à
razão, todo mal à concupiscência da carne.
Para compreender uma
ação no âmbito humano não basta analisar os meios adequados para a sua
realização conforme o seu objetivo contingente. É preciso observar a razão
pragmática na sua completude, o que envolve o fundamento subjetivo de adesão a
máximas. Entre essas máximas estão as que se prescrevem conforme a lei moral.
Mas também aquelas que contêm a subordinação do outro à vontade do agente,
sendo esse o caso da oposição à lei moral, ou seja, a adesão a máximas do
amor-próprio. A novidade aqui é que Kant está mostrando que esse caso, que é a
possibilidade do mal, não pode ser reduzido à influência de um objeto na
sensibilidade, conforme a faculdade de prazer ou desprazer. Inversamente, se ocorre
a legitimidade da imputabilidade de toda ação, de responsabilizar o agente, é
porque a lei moral existe em nós, assim como o céu estrelado existe na
natureza. Através da lei moral temos consciência da liberdade, mas também
tornamo-nos responsáveis pelas escolhas que se plasmam em ações que nos são
imputáveis. O mal não é apenas uma ausência do bem, mas tem que ser considerado
na positividade do seu existir, assim como uma grandeza negativa não é apenas a
ausência do seu oposto, mas um princípio positivo inverso. A excelência moral
não consiste apenas em fazer o bem, mas também em recusar o mal.
O que se está
afirmando é que o ser humano, “natureza por fazer”, dependendo para sua
determinação prática sempre de um ato ou escolha ou decisão, renovados todas as
vezes em que se lança a uma ação, escolheu, historicamente, o mal. Não se o
deduz da razão prática, mas da “região da vida”, pela observação da experiência
a que mesmo o mito do bom selvagem não resiste. O que a razão prática permite
descobrir é esse ato atemporal e inteligível que subjaz a toda ação, ou seja,
que o ser humano não se pode de antemão caracterizar como bom ou mal. Mas o que
a história revelou foi o homem já situado no mundo, como se o conhece pela
experiência e nesse âmbito o que mais se vê está longe de ser uma vontade
santa, inversamente sendo o mais comum constatar o acolhimento do princípio
geral da perversão da lei moral, o princípio de determinar os fins somente à
vontade particular do agente.
A compreensão da
doutrina do mal radical abrange mais do que simplesmente a constatação de um
relativismo moral pelo qual uns e outros escolhem. Eis o que
torna o pensamento prático de Kant tão complexo, permitindo assim
interpretações irredutíveis, ora como uma hábil formalização do pietismo
(Bannour), ora como uma aporética filosófica (Verdenal).
Zingano enuncia essa
complexidade ao afirmar que nesse ponto o pesquisador pode preferir uma
operação de limpeza das “afirmações mais ousadas de Kant” (RHK,222),
procurando temperar com descobertas de razões subjetivas a constatação
inevitável do caráter forçado de alguns dos argumentos apresentados. Mas ele
mesmo prefere insistir nas dificuldades, já que mostram não somente a
abrangência específica desse domínio metafísico que epistemicamente supera a
oposição de a priori e a posteriori, mas também podem mesmo
revelar “aporias”.
Quando se trata de
tentar caracterizar o que é o ser humano conforme princípios metafísicos, pode
bem ser o caso de que não se trata mais de “dificuldades”, mas de limites,
aporias que talvez estivessem constando “já nos princípios transcendentais ora
aplicados” . Haveria assim bastante interesse em refletir sobre “os limites
mesmos do conceito para se pensar a ação, uma razão prática e lei moral”. Não
haveria por descobrir afinal “uma aporia da reflexão mesma sobre a
racionalidade do agir (RHK,223)?
Em todo caso me
parece que é lícito constatar uma inversão de tarefas, do transcendental ao
metafísico, pois antes o esforço da reflexão se relacionava à demonstração da
existência de uma moralidade no sentido forte, uma universalidade da lei no
domínio mesmo da vontade. Agora o que parece requerer também um esforço de
demonstração porta justamente sobre o oposto, pois o mal radical deve se impor
como um julgamento sobre a humanidade enquanto espécie, não apenas sobre esse
ou aquele ente humano, consistindo na afirmação de que a vontade só adere à lei
moral por meio de um ato que ela, podendo perverter, sempre o faz. A doutrina
transcendental mostrava que a humanidade no ser humano é sua natureza
supra-sensível, sua aptidão à universalidade de princípio em suas ações, o que
o torna partípice de uma comunidade, agente ao mesmo tempo legislado e
legislante. O princípio metafísico que subjaz na doutrina do mal mostra agora
que o fato volitivo geral do agir humano é o fechamento da vontade sobre si, a
recusa, precisamente, desse fator de universalidade-comunidade para eleger
apenas o seu interesse particular como fundamento de suas ações. Resumindo, o
esforço de reflexão transcendental tinha por objeto o fato da razão. Já o
objeto da reflexão metafísica deverá ser a conversão, supondo uma radical
impotência da razão.
O importante aqui é
observar que é bem possível que se possa constatar uma revolução do kantismo
também no âmbito prático, não apenas a “copernicana”, no âmbito especulativo.
No entanto, não me parece muito fácil demonstrá-lo. Creio que se pode ancorar a
argumentação a partir do modo como, também aqui, o termo “natureza” está sendo
utilizado, pois o iluminismo havia ensinado uma continuidade conceitual,
teórica, estendendo-se da observação do mundo à cultura, ao humano. O modo como
Kant está utilizando a particção entre o sensível e o supra-sensível determina
articulações surpreendentes entre o indivíduo e a espécie, metafísica e
antropologia, mas para circunscrever um pensamento propriamente social,
histórico e político.
Assim a doutrina do
mal deve abranger um julgamento sobre a espécie, pois é sobre a natureza
supra-sensível, sobre a comunidade racional de agentes, que se erige qualquer
demonstração a propósito do bem, da realização moral que é sinônimo da
realização de uma comunidade ética. A aparente inversão de tarefas do
transcendental ao metafísico porta assim, a princípio, sobre o mesmo núcleo
temático, a prova da razão prática girando em torno da demonstração da
efetividade, ou não, da natureza supra-sensível enquanto definição do humano,
existência de liberdade.
A articulação
conceitual institui aqui uma dobradura entre Metafísica e Antropologia que
enuncia os novos meios de relação indivíduo-espécie. A metafísica encontra o
mais geral da experiência, mais assim ela deve começar por observar o
individual, abstraindo, de certo modo, o que permanece constante na observação
desse múltiplo. A metafísica enuncia o que é invariável e por isso está numa
relação com o empírico, sem se confundir de todo com ele. A antropologia deve
lidar, enquanto filosófica, com o fato humano já situado a partir dessa
generalidade, portanto, não mais observando o individual ou privado e sim o
social e o público. Kant enuncia assim a oposição entre essas regiões: se
indagamos sobre a legitimidade do ente humano subscrever a existência de um
mundo exterior, estamos no âmbito da metafísica, mas se queremos compreender as
relações que se instauram nesse mundo em que o ser humano já está socialmente
imerso, ligado, então o âmbito é antropológico.
A reflexão de Kant se
inscreve agora tematicamente entre esses dois pólos. Por um lado a demonstração
do mal como princípio metafísico deve abranger a generalização, a partir dos
atos empíricos, individuais, dos princípios da ação. Parece-me que seria
errôneo ver nisso uma psicologia, pois Kant não se endereça ao indivíduo sem
estar visando, obliquamente, o que toca à natureza humana que escapa inteiramente
ao domínio psíquico, privado, sendo inteiramente social, ético. Nesse eixo
temático da ação se inscreve uma dialética que articula certos pólos
conceituais: de causa e efeito; do imputável e do circunstancial; do que é
conforme o dever e do que é por dever; do “eu” simples e do “eu” denso como
determinação do limite conceitual da introspecção.
Mas também a
compreensão da ação só pode ter lugar instituindo-se o exame sobre o fato
concreto de ser efeito no mundo. Assim, a antropologia deve fornecer não mais
aquilo a que vinha se limitando, a saber, a diversidade bizarra de instituições
conforme a proveniência das inúmeras culturas. Zingano sublinha a novidade do
kantismo nesse âmbito, pois ele prescreve uma antropologia “cosmicamente”
desenvolvida, ordenando a relação do ente humano com o todo, fornecendo o
conhecimento do que é em si, não empiricamente acessível para si. A
antropologia circunscreve assim um outro eixo temático. A ação só se oferece ao
exame no situamento desse espaço antropológico de legalidade, mesmo para ser
julgada conforme suas determinações metafísicas, o que parece insinuar um
círculo, mas na verdade repõe a articulação revolucionária que Kant está
assegurando entre subjetividade e objetividade, uma vez que a realização moral
deixou de ser algo individual e se tornou a efetividade de uma comunidade
ética. Mas a antropologia também abrange o institucional, as esferas concretas
em que se vai se lançar a prova moral, a possibilidade da conversão: a
religião, o Estado, a história.
Ora, esse vínculo metafísico-antropológico mesmo instaura um terceiro eixo temático, pois se trata de liquidar com os aportes tradicionais que fundamentam as instituições como que para além de si mesmas, natureza ou graça, estes dois termos não se contrapondo tanto assim na abordagem do pré-kantismo. O mito que assegura o vínculo da instituição com o espaço social e o sujeito, cristão ou não, funciona como um veículo da natureza compreendendo-se este termo como um só continuun, a criação do deus ou a máquina bem ajustada que ou pode ou não precisa ter um criador. O mito poderia ser substituído pelas teorias que descrevem os funcionamentos localizados da máquina, aqui a física, ali o social, acolá o sujeito-intelecto com suas sensações. Nesse ponto Kant vai instituir os temas do nada, do abismo e do fundo que crescem infinitamente. A instituição se põe agora inteiramente, em sua autoconstituição, sobre o vazio mais absoluto, deve estar de pé sem carecer de nenhum apoio. É preciso pensar a total ausência do ser. Nesse eixo se imiscui o paradoxo. Mas temos que tratar de cada um desses três núcleos temáticos separadamente.
Iniciando pelo tema
metafísico do princípio inteligível das ações, parece haver já uma tensão entre
a exigência do ato que subjaz como disposição à moralidade ou ao fechamento da
vontade sobre si, e o modo oblíquo de sua visibilidade, a impossibilidade do
acesso direto a essa causalidade inteligível. Tensão tanto mais problemática
quando se verifica que o caráter da ação comporta uma dupla face, seu princípio
causal inteligível mas também, necessariamente, seu ser como efeito empírico.
São dados assim alguns termos contrapostos: a causa inteligível e o efeito
sensível, o transcendental e o empírico, mas de modo que, por sua imbricação
metafísica, não se está diante de uma partição tradicional entre o ideal e o
material, forma e matéria agora se implicando reciprocamente, lados de um mesmo
lançar que une inextricavelmente sujeito e comunidade social, ação e
racionalidade, o em-si e o para-si.
A moralidade própria
das ações, aquilo que é efetivamente imputável, isso permanece oculto, sendo o
em-si. Para si o sujeito encontra o limite da auto-reflexão, pois o sentido
íntimo, por simples introspecção, não pode mostrar ao sujeito mesmo o que ele
é, nem mesmo o seu mal radical. Mas a reflexão crítica não está isenta de sua
tarefa de julgar, que, inversamente, se vê ainda mais necessária, pois por esse
meio só se mostra que a prova da experiência não delimita o fundamento da ação.
Zingano mostra que a
liberação de categorias práticas que subsumem os atos de uma experiência
possível se constitui numa região de apercepção pura, um “eu” absolutamente
simples como o entendimento, faculdade de subsumir todas as representações a
regras. Nesse caso, forma prática da experiência que compõe a natureza das
ações sob o aparelhamento categórico (Quantidade: máximas de opinião,
princípios de prescrição e de leis; Qualidade: regras de perpetuação, abstenção
e exceção; Relação: à personalidade, ao estado da pessoa e à reciprocidade
entre pessoas). O correlato desse “eu” simples seria o “eu” denso, já
construído na região da experiência como caráter. A compreensão do processo de
constituição dessa densidade é a reposição do seu movimento de tomar posse da
matéria exterior, das circunstâncias do mundo, supondo que a possibilidade de o
fazer repousa nesse aparelhamento conceitual, na sua simplicidade previamente
dada como espontaneidade.
A interdição da
auto-reflexão, sua impossibilidade de alcançar inteiramente os meandros desse
processo, o fato do sujeito não poder atingir por mera introspecção a
moralidade própria de suas ações, seu móvel inteligível, se relaciona à
exigência da dedução crítica que deve fornecer o instrumental conceitual
necessário para que se possa compreender e esclarecer a intenção por trás da
ação. No entanto, essa tarefa é tanto mais dificultada pelo fato de que se a
ação má mostra sempre à reflexão crítica o seu móvel como adesão à perversão da
lei moral numa preferência de si, a ação boa sempre deixa a dúvida sobre se foi
feita apenas conforme o dever ou efetivamente por dever, por uma
auto-compensação íntima na fruição legal do objeto ou pela adesão pura à
universalidade racional da lei.
Mas mesmo no julgar
da ação como má ou boa se insinua a espessura do mundo, o sabor das
circunstâncias, a “conspiração de fatos” que poderia isentar o agente da
atribuição de culpa, já que o libera no plano das intenções referentes ao seu
ato. Kant aceita que a tolerância e o perdão entram como constituintes da
consciência moral quando se trata de, julgando o ato alheio, reunir o sensível
e o inteligível, mas isso não anula,, na verdade aguça, o poder de julgamento
que pertence à reflexão, à consciência moral, pois aqui, uma vez que ela só
subsiste pelo fato de que há liberdade, a necessidade é de atingir o ato
inteligível que precede à ação, para então compreender a ação no seu
enredamento circunstancial, não apenas descrever os elementos constitutivos do
que enreda. A tarefa crítico-filosófica se torna, portanto, infinita, tão
extensa quanto a infinidade de ações que se efetuam no mundo.
A natureza do humano
se constitui pela simplicidade, que vem da espontaneidade, do seu constituir
prático categorial desse fato de estar no mundo e nele interagir. Esse fato é
ao mesmo tempo liberdade, pois absolutamente nada subjaz entre o simples e o
denso, entre o que o sujeito pode fazer e o que ele se fez de si. A
universalidade da lei subiste como forma pura, forma vazia, ela não prescreve
nenhuma moralidade, ela é fórmula da imputabilidade das ações, do seu
caráter ético.
O auto-conhecimento
não se põe como auto-apreensão, pois nesse caso nada haveria a apreender,
nenhuma revelação a acontecer. Somente a reflexão nos aproxima do que realmente
somos, mas então o que se encontra é o abismo do supra-sensível, pois o fato da
razão pura ser prática é nossa liberdade transcendentalmente demonstrada, mas
incrustando-se na infinita variedade do desejo, materialmente plasmando-se nas
decisões que solicitam o real de uma comunidade de razão. A reflexão deve
garantir o acesso às condições da experiência, mas estas devem então ser as
mesmas em quaisquer experiências possíveis. O dever-ser não aparece com a
concretude das coisas que são materialmente objetivadas, mas não é menos objetivo,
visível. O princípio das ações, seu caráter inteligível bom ou mau, é ubíquo, o
que deve permitir refletir criticamente o caráter das máximas que conduzem à
ação no meio dessa infinita variedade. Ora, esse princípio a ser refletido
deixa assim de se referir às intenções particulares dos agentes individualmente
considerados, para se tornar caráter inteligível do ser enquanto humano, sua
natureza, o particular estando sob o universal do dever-ser que, na esfera
prática, permite a avaliação moral do que o homem fez do seu nada de ser, isto
é, do seu poder-ser.
A liberdade não se
opõe à previsibilidade no agir. É pela liberdade que o ser humano constitui o pattern,
aquela estrutura de comportamento que costumamos sentir como a
familiaridade com outrem, desde que o convívio força a prever que, “sendo” ele
como sabemos, agirá desse ou daquele modo. Mas também é assim que encontramos
as redes de costumes socialmente consagrados, pretensamente apoiados num
ser-assim revelado como prescrições miticamente destinadas, mas que na verdade
sabemos provir dessa região da liberdade, não poder deixar de dela provir, mas
tampouco deixar de se constituir, ainda que o auto-conhecimento humano,
crítico-filosófico, possa progressivamente aplainar o que resta nesse campo de
arbítrio, de auto-ilusório, desfazendo as armadilhas nas quais a razão costuma
se enredar. Isso que é o mais costumeiro não se conceitua, portanto, conforme
Kant, no sentido de uma origem, de um dado ser – assim, mas apenas por meio da
causalidade livre, inteligível, pelo que, pela sua liberdade ou deliberada
renúncia a ela, o sujeito escolheu ou constituiu esse ser, que no entanto, veio
a ser o que, exclusivamente, é.
Compreender o fato
geral da maldade inclui mostrar como no indivíduo se processa a adesão ao
fechar-se da vontade sobre si, quando, muito provavelmente, a maioria estaria
inclinada a não imputar suas próprias decisões como desviantes. Vemos assim que
da generalidade dos princípios ao exame das ações instaura-se a metafísica do
kantismo que só se desenvolve na dobradura, na articulação, entre o
individual e o geral.
Zingano sublinha a
obscuridade da argumentação de Kant, quanto a isso. Pois o que se estabeleceu é
uma natureza do humano que não pode ser de início dada como mau ou boa, a vontade
podendo querer tanto o mal como o bem, e ao mesmo tempo, como se poderia
deduzir que o gênero humano escolheu o mal, não apenas que costuma
escolhê-lo? Aparentemente forçando conclusões que não poderia obter, a doutrina
enuncia que o ser humano sempre adere ao fechamento da vontade sobre si, o que
se choca também, aporeticamente, com a impossibilidade lógica de uma razão que
quereria o mal pelo mal.
Nesse ponto ocorre a
sobreposição antropológica, pois não apenas já se averiguou que a reflexão deve
conduzir do para-si ao em-si, e portanto deve escapar ao empírico e ao
individual. Esclarecendo metafisicamente os meios pelos quais o eu puro é
lógico-prático, encontra-se a necessidade de ver o que o ser humano se fez como
sua natureza. Entre o poder fazer e o já feito, entre o nada e o que se
construiu como ser, o abismo cresce, pois o nada que precede o ser e ao mesmo
tempo possibilita o seu modo de ser que é construído, não se põe, tampouco,
como limite fixo além do qual nada é, mas enuncia apenas que o fundo do ser não
tem fundo, é o movimento de sua construção, o que ele deveio desde o nada de
sua liberdade absoluta. Zingano mostra como Kant deve então conduzir a
argumentação no interesse de um exame das instituições concretas para escapar
das aporias que tensionam o dever e o ser.
Com efeito, a opção
pela consideração do kantismo como uma aporética parece coerente nesse ponto da
doutrina, pois o que Kant sugere ter encontrado é um empírico e um
transcendental que se condicionam e se contrapõem, sem que se possa negar o
caráter de nenhum deles e devendo ser impossível que um negue a efetividade do
outro.
O mal como segredo
dos negócios humanos semelha um ponto obscuro, uma afirmação demasiado ousada
para poder ser caucionada de todo. O curioso é que o exame antropológico começa
por inquirir dos mecanismos da conversão. Buscando um ponto fraco no círculo
completamente fechado do dever e da virtude, círculo que impede o
esclarecimento de ambos, não se põe ainda a necessidade de mostrar o mecanismo
efetivo da conversão, mas apenas a sua possibilidade. É como se Kant estivesse
lidando com uma superfície de dupla-face que a todo momento se mostra na sua
bifurcação, furtando-se a uma perspectiva linear sobre qualquer dos lados que a
constituem. Assim o que ele pode fazer é reconstituir um lado pelo outro, a
necessidade da conversão pelo mal, o mal pela sua conversibilidade.
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O exame das
instituições contorna a impossibilidade de comparar o humano com algum outro
ser racional, no interesse de assegurar a validez da atribuição de sua maldade.
Mostrando como o humano se forma, se instrui, se conserva e se governa, pode-se
considerar o que ele se fez através da intenção recuperável que toda
instituição carrega como um selo. A educação e o progresso na pedagogia parecem
um signo promissor quanto à bondade, mas os governos, as relações dentro do
Estado e entre Estados não oferecem suporte ao otimismo.
Assim, trata-se de
definir a radicalidade do mal como uma disposição na origem, uma decisão
orientadora dos atos posteriores, a qual força a adesão ao princípio de
perversão da lei, isto é, de desvio do que não pode deixar de se mostrar como a
retidão no agir ou consideração aos outros, para então referir tudo,
objetividade e finalidade da ação, apenas a si mesmo. Denega-se ao mesmo tempo
que o mal, ainda que radical porque instalado na origem, seja instintivo, ou
corrupção da razão. A razão não está corrompida, continua a estar onde sempre
esteve, pressuposta para que se possa sequer utilizar o termo “ação”. O que
impede, obviamente, que o mal seja instintivo.
O mal é radical, mas
não absoluto. Se a disposição ao mal se situa na origem, ela concerne ao agente
como uma possibilidade, ao mesmo tempo forçando a pensar na
possibilidade oposta, a conversão da vontade situada no mundo onde impera o
mal, ou seja, a revolução do homem novo, apto a “desentortar a criação” (RHK,
228). Quanto a isso, o importante é a oposição entre malignidade e maldade.
A malignidade é a disposição “diabólica” que quer o mal como mal, sendo
incompatível com uma vontade boa. A maldade, porém, tem o mal como um correlato
incontornável, mas não como seu objetivo, que é apenas querer exclusivamente a
si mesmo, de modo que nesse caso pode se pensar em conversão, não há incompatibilidade,
apenas desvio, em relação à vontade boa. Kant se recusa a pensar o mal como
malignidade e por isso estabelece o conceito numa região de acesso à conversão.
Zingano sublinha o
que, mesmo assim, há de quase insuportável nessa argumentação de Kant, pois
pensar que somente uma conversão pode terminar com o desvio da razão
significa pensar uma determinação geral do querer, uma vontade má, uma
representação prática que quer de certo modo o mal, isso que se mostra como “o
abissal na natureza humana”. Estabelecer a conversão então parece estar na orla
do miraculoso, do twice born, da excessão, como se Kant se inscrevesse
na tradição das receitas de beatitude que só se podem observar individualmente,
fugindo do mundo. Porém a realização proposta não é a de um santo, mas é a de
uma comunidade ética.
Kant procede à
demonstração do conceito de conversão como mecanismo natural, algo que “inverte
a impotência moral em habilitação da razão”, obrigando a máxima da preferência
de si, independente de sua escolha, a reverter-se de modo que a vontade possa
inclinar-se ao outro, a “entretecer um espaço comum de ação” em que a razão
pode medrar. Ele se põe na trilha do exame das instituições para descobrir onde
se pode encontrar esse mecanismo. Como todo o vocabulário religioso supõe uma
conversão, seria sensato começar pela inquirição da instituição religiosa nos
limites da simples razão. Ora, visto dessa perspectiva, a religião seria uma
sacralização do que a lei moral prescreve, uma interpretação dessa prescrição
em termos de vontade ou mandamento de Deus ao ser humano. Assim, Kant pensa que
isso que se crê ser deveres do homem com Deus, são na verdade deveres do
sujeito em relação à humanidade. A religião é sagração da razão, mas
historicamente ela se plasma num cerimonial irracional adscrito à sua
vinculação racional, seus deveres legítimos.
Creio ser
interessante estabelecer um paralelo entre as concepções de Kant e Bergson no
que concerne à religião, pois como vimos, Bergson estabelece uma duplicidade na
fonte da instituição religiosa, uma tendência à conservação do status quo
e ao mesmo tempo um impulso criativo à ruptura com o que se caracteriza
impeditivo das realizações potenciais do ser humano rumo à liberdade. Kant
desdobra a sua oposição entre o núcleo racional e o aparato fetichista do
fenômeno religioso em uma duplicidade conceitual que porta sobre a fé dogmática
e a reflectinte (reflexiva).
O dogmatismo se nutre
dos elementos de fanatismo (efeitos da graça) , superstição (milagre),
iluminatismo (mistérios) e taumaturgia (meios da graça), mas toda proveniência
da fé consiste da reflexão da incapacidade moral, o que, por sua vez, provém da
reflexão sobre sua faculdade prática. A fé reflectinte é a esperança do
supra-sensível, da realização ética, esperança que em algum ponto se precipitou
no dogmatismo, precisamente ao transpor-se do elemento racional ao
sobrenatural. A comunidade religiosa, a igreja, tipifica o objeto da esperança
reflectinte, mas na sua concretude ela se tornou a “porta larga” de que fala a bíblia,
na perspectiva de Kant, pois a sua mera frequência tende a se mostrar
subjetivamente como substitutivo da “porta estreita”, isto é, a boa conduta.
Bergson tende a ver
na duplicidade constitutiva do fenômeno religioso uma função originária de
fabulação que ao longo da evolução criadora deverá se recuperar na sua
essencialidade estética, de modo que se poderia pensar uma humanidade cuja
depuração do estático não a impede se conservar, ao mesmo tempo em que garante
o seu engajamento na via da criatividade liberadora. Kant, que relaciona o
fenômeno religioso à faculdade prática da Razão, não poderia propor uma
liberação do estético puro, e sim, quase que inversamente, um ater-se à
esperança da reflexão, depurando o elemento estético do culto, seu desvio
cerimonial, para reduzir-se o religioso ao ético de uma reunião comunitária que
celebra exclusivamente o seu vínculo humano racional. No entanto, ambos os
resultados tendem à superação do que na religião ata à obrigação do arbítrio,
do caprichoso ou bizarro, apenas mantendo horizontes não convergentes quanto ao
que seria relativo, nesse domínio, à “liberdade”. Para Bergson, liberdade aqui
é o exercício depurado da fabulação, para Kant é a circunscrição do encontro à
celebração do vínculo da razão.
A religião se propõe,
para Kant, como uma espécie de artifício pelo qual a subsunção externa à lei se
interioriza, e que tem sua explicação na consciência do mal radical. Artifício político:
a espera do bom pastor, a imagem do rebanho de ovelhas, a noção de providência,
são signos de que a razão precisa para se recordar de sua impotência e de sua
possibilidade de realização, ao mesmo tempo em que a recordação se faz em
comum, pela participação coletiva no relato e pela comemoração pública sempre
renovada da decisão moral que os seres humanos fazem. Logo, todo o sentido do
fenômeno religioso acena a algo que supera o vínculo da fé, a saber, a
constituição civil perfeita, a comunidade racional de agentes num mundo humano
moralmente convertido. Mas artifício sempre politicamente desviado, não
apenas circunstancialmente pelo dogma, mas do exterior, pelo Estado que se vale
da religião para impor sua parcialidade, seu caráter hsitoricamente impeditivo
daquilo mesmo de que a religião é signo, a realização ética, sendo o Estado
aqui visado na sua face absolutista, ameaçadora. Por todos esses meandros a
religião oscila “entre um máximo e um mínimo de humanidade”, de modo que não
carrega a estrutura de constrangimento à civilidade.
Ora, o Estado não
pode, em caso algum, deixar de ser um meio da efetivação do Reino dos
fins, ou seja, de uma comunidade em que “as leis exteriores da liberdade são
seguidas por acatamento interior dos seus membros”. Sublinho o termo
pois o que se mostra assim é a impossibilidade de que a realização ética
possa ser imposta do exterior, como uma Ordem ou arbítrio, algo que impõe
sacrifício ou sofrimento, o que no pensamento de Kant, a meu ver, pode ser
rastreado já pelo fato de que sua esperança é objeto de uma comemoração, na
transfiguração do religioso, sendo o bem, não um mal. Assim, se há uma
insuficiência dos Estados historicamente localizados em realizar a prometida
constituição perfeita, eles se enunciam como mecanismos primitivos de
constrangimento à decisão moral de que essa realização depende. Mais, eles
inscrevem a dedução de uma ordenação natural dessa realização,
secundando a efetividade de algo como uma decisão moral, uma conversão.
O Estado é naturalmente
dado, como meio necessário à efetivação da constituição perfeita, já que se
institui por necessidade. Independentemente de sua vontade, que
preferiria não depender de nada nem de ninguém, os seres humanos precisam se
associar e nessa associação precisam de arbitragem e das lideranças que a
articulam. A existência do Estado, por mais imperfeito que se mostre, não pode
deixar de ser requerida. Ora, Zingano enfatiza aqui o problemático nessa
argumentação, pois ou a faculdade prática, ainda que não refutada pela razão
teórica, deve admitir sua incapacidade no mundo empírico, ou ela lança mão,
para “ganhar peso no mundo”, “quebrar seu círculo”, de uma força natural onde
querer e não-querer são apenas “figuras do delírio humano”.
Kant parece ter sido
assombrado pela possibilidade da vontade ser maligna, não apenas malvada, isso
que ele vê como alegorizado pelo Inferno, pela Súcia do Diabo, que seriam
imagens religiosas do Reverso da vontade, aquilo que a natureza do humano, para
existir, não pode ser, pois uma vontade que quer o mal pelo mal impede que algo
como uma humanidade se efetive. Possibilidade que lhe parece extensiva ao
retorno da barbárie, à anulação de todos os progressos culturais, se não houver
nenhum mecanismo que garanta o progresso da humanidade no campo da ação.
O problema é tanto
mais sério, pois o fundamento da razão prática é a imputabilidade da ação
moral, o que parece impossível de se sustentar se sua única garantia repousa na
natureza, no constrangimento, não na adesão voluntária. Creio ser oportuno
observar que o verbo “imputar” não apresenta substitutivo apropriado. “Atribuir”
pode ser simplesmente mostrar que houve uma causa suficiente para a ação, mas
não uma causa volitiva (alguém quebrou a louça, mas o fez sem querer). “Responsabilizar”
pode ligar o ato e a volição, mas não a intenção (alguém propositadamente
quebrou a louça, mas o fez sob ordens expressas). “Imputar” reúne o ato, a
volição e a intenção (alguém quebrou a louça por sua decisão pessoal, alguém ordenou
que assim fosse feito). O cerne da doutrina moral no kantismo está na
possibilidade da imputação da ação a agentes. Assim, o recurso a um mecanismo
natural precisa ser refletido para não se oferecer como auto-incapacitação
teórica.
Kant introduz na
reflexão sobre a instituição um aporte social, o dado estatístico que revela
uma tendência, induz à dedução de algo como um plano oculto, por
exemplo, a regra geral de casar-se. Independente das idiossincrasias, ou das
soluções que o sujeito propõe para extrair suas vantagens particulares, contra
todos os sinais que se poderiam afirmar como dispersão subjetiva das ações, a
tendência se mantém, o dado estatístico esclarece como que uma teleologia do
geral que a observação do particular não deixa prever. Como tratar essa
tendência? Zignano mostra que inicialmente Kant, conceituando-a em termos de
plano benéfico conducente à observação de regras gerais de conduta independente
das oposições individuais, apela para a intervenção de Deus, mais à frente
mudando essa determinação para o mecanismo natural.
No meio do caminho a
mudança assinala a necessidade de conservar a decisão livre como subjacente à
ação, o que uma intervenção sobrenatural impede. O fato estatístico estaria
expondo um fim obtido por um encontro de vontades, mas cada uma dessas
vontades, se vista na sua parcialidade, não aponta a tal objetivo. Essa inversão
feliz do efeito da vontade, transmutando-se naquilo que ela não previu nem
quis, é que resta explicar. Não obstante, permanece o problema de como
conciliar mecanismo natural, expressões como “a natureza quis”, e decisão
livre. Esses dois pontos parecem permear uma obscuridade inegável no cerne do
pensamento kantiano.
No entanto, se
observarmos que a estrutura do mecanismo natural não tem por função preencher o
ato de dar sentido prático à ordenação dos fins, constatamos que o mecanismo só
é “natural” num sentido ulterior, ou seja, atuante numa teia de relações
instituídas, já concretizada e incontornável, sociedade ou história. Ora, essa “natureza”
não é nem a providência, nem o mundo físico que existiria, assim como um todo
auto-ordenado e autônomo, independentemente da razão, nem a natureza
supra-sensível, essa resultando como finalidade última, o objetivo da
comunidade racional. É apenas a concretude de algo como um sistema de relações
que se atualiza como resultante de uma trama de vontades que interagem, às
voltas umas com as outras mas também, historicamente, com todos os fatores que
se impõem a elas, a administração dos recursos, o sentido da propriedade, a
limitação do globo terrestre que força ao encontro, etc.
A espessura entre
essa natureza ou história e a natureza supra-sensível parece-me estar no cerne
da argumentação de Zingano a propósito da doutrina de Kant, pois se trata de
ver que a decisão moral que acolhe o mal significa a permanência da vontade no
imediato de sua referência, o prazer obtido num determinado momento pela
fruição de determinado objeto. O mal se plasma como a inversão da liberdade, a
subsunção do agente ao objeto, a renúncia de si pela paixão de si. Ora, imerso
na teia de relações em que se emaranha por força dessa paixão, o sujeito
descobre a determinação do sistema, a pluralidade que a compõe. Ele descobre o
outro, pois a teia é um equilíbrio, uma tensão de vontades que estão se
entrelimitando. Assim, quanto mais desejado, mais o mal se vê invertido. Esse
mecanismo “natural” inverte a vontade que acolhe o mal, desobstaculizando a
faculdade moral, civilizando os costumes, aparando arestas e forçosamente
conciliando os interesses.
Pelo anseio de
projeção e dominação, pela cobiça, os homens cultivam-se, vivem uma época de
Ilustração devida à insociável sociabilidade. O natural desse mecanismo do
cultivo é não derivar de uma decisão, mas ser consequência de certo modo da
ação, o antagonismo. Mas o cultivo favorece as prerrogativas da razão, e
podemos esperar, sem parecer isso uma utopia, que o acordo patologicamente
extorquido se transforme em uma sociedade racional e moral, uma comunidade
autêntica de agentes, uma natureza supra-sensível. A humanidade em sua história
é esse hiato entre o simplesmente civilizado ou cultivado e o efetivamente moralizado.Nesse
ponto já se pode desenvolver a aproximação ao que nos motivou até aqui, a
compreensão da doutrina da história em Kant.
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A história
conceituada por Kant não se põe como um simples relato de fatos sucessivos, mas
uma formação do humano. Assim, Kant impede que se trate o fazer historiador de
um ponto de vista simplesmente empírico, exigindo por trás da narrativa dos
fatos uma filosofia da história atenta à lógica da evolução moral. Essa lógica
se traça como um percurso ulterior àquele dos fatos puros no seu
constrangimento pela experiência. O olhar do historiador se volta aos momentos
em que uma revolução do modo de pensar se entrevê, isto é, ali onde algo como
uma conversão, a decisão moral da adesão à lei, desde uma simples obrigação ou
meio para o desfrute de si a algo internamente consistente como a compreensão
do outro, a referência de todas as ações à sua legitimação racional como
universalizável, portanto só podendo se compreender na abrangência do outro.
É interessante
registrar quanto a isso a oposição que doravante se torna importante quanto á
história, entre fato e acontecimento. Algo que já vimos ressoar em Hume, pois
ali tratava-se de enfatizar as maneiras, mais do que os fatos, naquilo em que
designavam o estado de civilização, de evolução social no trato humano.
Nietzsche especialmene utilizará essa escanção, pois aquilo pelo que o
historiador que não apenas quer lisongear o vulgo contando a historieta de seus
feitos independente do sentido que veiculam se interessa é a temperatura dos
valores, reconhecimento dos momentos ou acontecimentos decisivos quanto ao
registro de uma transmutação no modo mesmo de avaliar. Mas Kant conceituou essa
oposição entre fato e valor, entre evento e acontecimento, de um ponto de vista
já determinado por um horizonte que é Razão, inteligibilidade plena do porvir.
As instituições
atualmente consideradas, por exemplo, o Estado, são postas assim pelo kantismo
nos seus limites, elas são resultados “naturais” de uma humanidade forçada a
ser humanidade, ou seja, sociedade. Mas elas são pontes para a humanidade
autenticamente realizada que se quer no seu ser como é, seu ser racional, na
consistência plena de uma comunidade civil. Ora, nesse ponto o kantismo se vê
imbricado nesse vasto movimento desencadeado pelo Iluminismo, resultante da
tarefa imposta pelos tempos novos de pensar a história na exterioridade
completa da Revelação, aquela verdade não humana que devia esclarecer sobre o
sentido de ser humano nesse mundo terreno.
Exaurindo-se a
possibilidade de uma Cidade santa sobre a cidade efetiva, transformando-se o
ambiente urbano em um espaço nacional e no entanto cosmopolita, ao qual ninguém
se obriga a pertencer por origem mas está igualmente circunscrito pela legalidade
civil, o Iluminismo surge como essa descoberta de que não existe “verdade”
ontológica que se possa viabilizar no mesmo nível de uma verdade lógica. Eis o
fato da finitude.
No entanto, desse
núcleo poderem decorrer várias interpretações. Aquela que se põe como “iluminista”
no sentido histórico do termo, assim como por exemplo o compreenderam os seus
antagonistas do princípio do século XIX, não admite transcendência, nem a
postula, exigindo para cada região considerada a preminência da compreensão
esclarecedora de seus meandros constitutivos.
Kant também nega essa
necessidade de transcendência, mas existindo o natural e o humano (liberdade),
a imanência torna-se construção necessária do real, ontologicamente dedutível
portanto. Nesse sentido Kant parece operar uma regressão se consideramos na sua
radicalidade aquela via de total ecart entre o lógico e o ontológico. No
entanto, creio que seu pensamento é demasiado complexo para ser considerado
regressivo. Inicialmente há o fato de que o olhar perscrutador do iluminismo
não se debruçava sobre seu fato bruto sem certos pressupostos quanto a essa
independência do lógico e do universal de sua manifestação. Sendo assim, Kant
parece-me sistematizar essa tendência, procurando inserir todos os fatos
humanos numa coerência de razão, previamente considerada como necessaraimente
subjacente.
Mas o que restou como
uma interpretação possível, e que se acentua na curva do pré-romântico ao
século XIX, foi a impressão de que se não ocorre o ontológico como uma
transvalorização lógica possível, deve haver a realidade transcendente,
portanto cada ontologia ou Revelação é uma interpretação localizada e
necessária ao humano dessa realidade. Interpretação circular, pois se poderia
invertê-la. Como existe a Revelação e a ontologia, deve haver a realidade
transcendente de que a cada vez ela fornece a imagem que se forma de modo
necessário pela sua localização. Muitas intervenções poderiam ser feitas aqui
com o propósito de se rastrear a conclusão sobre se essa interpretação decorre
por si do corte moderno do conceito, ou se ela depende do momento kantiano,
deriva dele de certo modo.
Que há uma
necessidade evolutiva por trás dos fatos humanos, por exemplo, pode estar
recuperado nas doutrinas do idealismo alemão que projetam gigantescos quadros
classificatórios de todos os fenômenos do espírito nas etapas de sua revelação,
vezo cujo ápice se encontra em Hegel. Não me parece que seja destituído de
significação o epíteto dessa tendência como pós-kantismo. No entanto, isso
poderia ser uma leitura posterior do kantismo, já que ele também admite uma
interpretação de contiguidade ao projeto iluminista.
Em todo caso creio
que a irredutibilidade de Kant ao que se desenvolveu posteriormente ao seu
ímpeto crítico se verifica pelas polêmicas que ele mesmo sustentou frente
àqueles que já nos decênios finais do século XVIII ostentavam o que para ele
certamente seria uma veleidade, a saber, algo como um sistema de mundo em que
as instituições e tudo o que existe, se existe, revela sua inserção cósmica,
sua rubrica de sacralidade. A famosa expressão de Pope “whatever is, is
right” revela, a meu ver, mais do que simplesmente o otimismo das luzes, já
que o mesmo Pope também resvala seus versos, conforme observado por Carpeaux,
para a descrição dos aspectos sombrios do real. O certo de tudo o que
é, nesse contexto, a meu ver corresponde mais à garantia de ter vindo do
alto, não tanto à constatação de ser empiricamente vantajoso.
Também Bréhier
observa que Goethe, figura central nesse panorama cultural que se descortina já
que se pode constatar seu profundo parentesco de espírito com os pós-kantianos
e particularmente com Hegel, se circunscreve mais do que a Kant, ao pensamento
de Herder. Aqui não se procura nos fenômenos a confirmação de uma lei, mas os signos
de sua inserção na continuidade da natureza que manifesta o mundo como objeto
de uma sabedoria mais do que uma filosofia. Os signos da experiência revelam
a continuidade sobrenaturalmente assegurada, não simplesmente expressam as
leis imanentes aos fenômenos. Ora, Herder se torna assim importante nessa
transição do kantismo ao seu pós, e sobretudo o tema da história mostra emq ue
se está processando a transformação. Torna-se muito proveitoso nessa
perspectiva observar a polêmica de Kant com Herder a propósito do conceito de
história.
Zingano observa que o
princípio prático a orientar a filosofia da historia do kantismo é a composição
de recursos aptos a conjurar o múltiplo do desejo, transformar em sistema o
agregado de vontades que se encontram na sociedade. Assim, quanto mais amplo
puder ser o projeto, tanto mais ele revela de sua eficiência, Kant visando, por
exemplo, uma federação de nações mais do que um princípio nacionalista, o
republicanismo no mundo inteiro, não apenas na França.
Opõe-se nesse ponto Weltgeschichte
e Historie, aquela história do ponto de vista filosófico e essa
narrativa de acontecimentos, o fazer historiador que Kant já enfeixa como
disciplina do entendimento. Fica claro que a narrativa pressupõe o que a
orienta, pois apresenta o agregado que só por esse meio se sistematiza. Kant
deve mostrar a insuficiência do simples relato de fatos, a exigência do
princípio prático subjacente à descrição histórica, mantendo-o também como
limite crítico pelo que se evita que a construção do relato seja predisposta
por um interesse determinado.
Os textos de
referência sobre o pensamento de Kant acerca da história são os artigos “À paz
perpétua” e “Idéia de uma história universal de um ponto de vista cosmopolita”.
Aqui se desenvolvem as idéias de mecanismo natural capaz de inverter o mal
radical e de vinculação entre história e política. No entanto, as recensões
publicadas no jornal de Jena (Allgemeine Literatur-Zeitung, 1785) em que
polemiza com a obra de Herder “Idéias para a filosofia da história da
humanidade”, são esclarecedoras quanto ao modo de ordenamento prescrito por
Kant, para que seja mantido o princípio de racionalidade orientador da
narrativa historiográfica a fim de que não se transforme num simples palco para
a cena do furor das ideologias.
No segundo artigo
Kant inclui ainda uma resposta a Karl Reinhold que havia escrito contra o
artigo anteriormente publicado. Zingano esclarece que o estilo sóbrio,
resumido, desses textos não se devem apenas ao gênero resenha no qual se
constróem, mas a que as posições aqui afirmadas com relação às idéias de Herder
se tornam mais desenvolvidas num outro artigo publicado em 1786 no Berlinische
Monatsschrift, o “Início conjetural da história dos homens”.
Bréhier já havia
sublinhado o fato de que, no panorama de recepção não de todo simpática ao
kantismo, Herder se destaca por ter tido Kant como mestre para depois
afastar-se dele na fundamentação de suas próprias idéias. É interessante
observar que também Fichte manifesta uma inegável vinculação a Kant, mesmo
quando registra a crítica que ele endereçou a certos princípios da sua doutrina
da ciência. Kant havia se tornado uma referência de peso no cenário das
idéias da época, pelo visto, e sua influência não era já negligenciável. A
exposição de Bréhier sobre os críticos de sua filosofia mostram bem que as
teorias que ora lhe são antagônicas carregam muito de sua inscrição, dependendo
de certo modo da compreensão de seus conceitos para se tornarem elas mesmas
compreensíveis.
Assim também a teoria
de Herder sobre a história parece preocupar Kant não apenas porque utiliza
noções que são frontalmente opostas ao seu próprio modo de pensar, como a idéia
de Providência, mas porque utiliza aportes próximos aos que no kantismos são
manejados de um ponto de vista crítico, como uma finalidade geral ao humano e
uma inscrição cósmica da história. Kant deve então mostrar de que modo a
perspectiva de Herder, contrastando com a sua apesar das homonímias, permanece
numa ambiência não crítica.
Inicialmente a
polêmica se desenvolve acerca do conceito de história natural, em que Kant se
opõe à hipótese herderiana de uma generatio aequivoca, algo que já vinha se
afirmando desde o pré-romantismo como a teoria de uma cadeia de seres na qual
cada espécie é um elo, sua inscrição cósmica devendo fornecer o sentido de sua
inserção como criatura no plano maior da Providência. O ser humano, postura
ereta (pela qual ele “levantou sua cabeça tão orgulhoso sobre seus antigos
camaradas”, como ironiza Kant), tem assim uma situação ambígua na criação, pois
pode bem continuar evoluindo, podendo-se pensar que algum outro planeta abrigue
esse ser já evoluído desde sua pregressa humanidade.
Considerar a crítica
de Kant, quanto a isso, é importante por esclarecer o ponto exato do que está
em jogo na transição ao século XIX. O artigo de Verdenal sobre o espiritualismo
francês mostra bem do que se trata. O processo da filosofia que os regimes
fechados pós-revolucionários desfecharam foi plenamente esposado pelos
intelectuais dessa época, que contra ela lançaram todo tipo de suspeição
resumida numa só acusação: abrigar os devaneios e planos dos reformadores
sociais e políticos.
Ora, Verdenal
esclarece o contraste. Os “espíritos do século XVIII” não se deixaram “dormitar
na harmonia pré-estabelecida entre as idéias e a realidade”, utilizando as
idéias de modo independente da realidade, de modo crítico em relação a
ela, mas entendendo esse termo como factualidade social. O que equivale
a uma imagem de filosofia como o inverso de uma idealização, mas como
desenvolvimento crítico de idéias conforme “a lógica interna de uma teoria” aplicada.
A realidade não se torna idealizada, o que se concede por meio da teoria
são os meios de desmascarar as idealizações que a deformam naquilo que
interessa ao ser humano, mas também às pressuposições que comprometem a
compreensão dos fenômenos assim como eles se oferecem à investigação.
Mas por que a
designação “reformador” seria tão acusável? O problema que os pensadores do
início do século XIX enfrentaram foi o que enunciaram em termos de cisão entre
filosofia e religião. Nesse momento o saber científico está se articulando de
modo cada vez mais complexo, tornando-se autônomo em relação ao senso comum.
O que provoca a
reação de um mundo conservador aterrorizado pela Revolução, que ele identifica
como um resultado do progresso dessa cisão, como se o saber houvesse enveredado
por uma via de independência em relação ao “espírito”, sendo esse termo
considerado como o universo de valores que o comum dos homens sente como seu
conhecido, íntimo: a pátria, a propriedade, os títulos da tradição...
Sobretudo, filosofiar seria inútil, pois se a filosofia ousou comportar-se como
a ciência e franquear o senso comum, por sua especificidade isso significou a
ruptura dos pontos fixos (a religião, a tradição, a classe e a propriedade).
Ora, para que
desenvolver intricados sistemas de rebelião, se a verdade é o que todo mundo
sabe ou devia saber, e então ensina-se Reid e a doutrina do senso comum
combinada com a fé religiosa. Que o factual possa ser objeto de crítica, eis a
heresia.
A idéia de
providência torna-se nuclear, e Kant acusa precisamente esse détour do
pensamento crítico, mostrando que o problema com a hipótese de Herder não está
na sua não adequação ao que se verifica pela experiência, mas nisso pelo que
formalmente invalida a experiência. A hipótese de uma força que totaliza a
criação e lhe fornece o sentido, diferenciando-se conforme as circunstâncias e
produzindo uma aparente diversidade de gêneros “jaz inteiramente fora do campo
da doutrina natural que é investigada”.
O que configura essa
espécie de “contra-epistemologia” cujo ápice se encontrará no “poder espiritual”
a que Comte garante a submissão de cada ciência a fim de que não possa fomentar
a “insurreição moderna” da inteligência contra o “coração”, é precisamente esse
hiato entre o objeto e a teoria. Aqui sim, pode-se apontar um retrocesso, mas
não nego que resta a questão histórica de saber se, como pensa Verdenal, não
foi Kant mesmo quem “havia já introduzido esses tabus metafísicos por sua
teoria do a priori da conciência transcendental” (Chatelet, Histoire
de la philosophie, vol. V, p. 238).
Não creio que ao
kantismo possa ser imputado esse retrocesso, contudo, pois há uma confluência
política inegável com o conservadorismo, de modo que a recepção de Kant não
pode ser separada do seu próprio momento histórico. Também o epíteto “metafísico”
só se torna adequado a algo como “tabu” se estiver sendo aplicado numa acepção
platônica, o que verificamos já nãos er o caso no interior do kantismo.
Sobretudo, localizo nessa crítica de Kant ao pensamento histórico-natural de
Herder uma evidência de sua não aderência à contra-epistemologia espiritualista
dogmática que se impõe no período romântico, justamente por que ela enuncia com
precisão a sua deficiência teórica. O observar deixa de ser constitutivo do
saber, e, conforme Zingano, é isso que configura o dogmatismo contra o qual o
criticismo kantiano se erigiu.
Mas a polêmica
adentra agora a história do humano e nesse aporte o kantismo exige algo mais do
que um conhecimento científico que encontra na experiência a sua salvaguarda
crítica, devendo estar implicado na narrativa uma perspectriva prática
orientadora da descrição de fatos. Verdenal localiza aqui a ligação do kantismo
com o espiritualismo do período subsequente, pois ele resulta como produto
dessa geração formada no criticismo kantiano, geração que atribui a glória de
Kant ao fato de ter “arrancado essa questão da existência de Deus à especulação
pura e ter mostrado que só a prática pode respondê-la”, conforme a citação de
Verdenal da expressão de Lagneau (Chatelet, história da filosofia, IV, p. 58).
Que o mundo seja “para nós, a cada instante aquilo que o espírito, soprando
onde quer, quer em nós nesse momento que ele seja”,porém, como o próprio
Verdenal observa, não se infere do pensamento kantiano enquanto “instrumento de
uma aporética filosófica”, mas só através de uma “dialética da completude” que
arruma os opostos numa “síntese tranquila” (HF, IV,p. 56).
A argumentação de
Kant, no que concerne à história, deve precisamente corrigir qualquer devaneio
que torne a pespectiva prática uma distorção do relato, um discurso da
ideologia. Qualquer crédito que se quisesse atribuir ao retrocesso romântico,
no sentido de que ele ao menos manteve a autonomia da consciência contra a
vinculação do homem-máquina, do determinismo fisiológico sobre a compreensão do
espírito, porém, já está prescrito ao próprio kantismo no bojo dessa imunização
do histórico contra o ideológico, pois o argumento de Kant, como mostra
Zingano, está ancorado na premissa de liberação da história tanto da metafísica
quanto do naturalismo.
A razão prática
fornece o requisito de que depende a recuperação da experiência, a ordenação do
relato. Portanto, o conteúdo da história é o agir livre. A narrativa da
liberdade sempre começa mal, inversamente à história da natureza. Mas o que os
relatos que possam existir acerca desse início devem conter é alguma referência
racional prática que os sistematiza. “Início” e “princípio” não são o mesmo,
nesse caso, pois se início é um dado cronológico relativo ao nível dos fatos, o
princípio é de ordem racional, manifestando-se como o fundamento por todo o
desenvolvimento daquilo que suporta. O início, com relação à história do
humano, sempre se mantém conjectural, pois o projeto que carrega como o veículo
do seu princípio não pode ganhar visibilidade se não com o desenrolar dos
fatos, afastando-se do início. A conjectura acerca da origem não se deve a uma
deficiência do relato, ou da experiência, mas é por princípio.
Ao que Herder
responde com a tradição. Os patriarcas na origem seriam assim o que há de menos
conjectural, mais solidamente enraizado, apenas tendo estado sujeito às
peripécias de sua transmissão como relato. Verdenal já havia assinalado a
tendência geral da época de influência de Herder como uma reversão nas relações
filosofia-religião. O iluminismo havia procurado produzir uma teologia sem
religião, uma compreensão pura do que está subjacente aos desvios que as religiões
históricas impõem, seus fetiches, sua utilização política, suas ilusões. Agora
o romantismo procede exatamente de modo inverso, procurando uma religião sem
teologia, mantendo-se nos limites do puro símbolo, tendência cujo ápice é a
monumental reconstituição de Hegel, que espera recuperar todos os símbolos
religiosos historicamente sucessivos para mostrá-los como momentos necessários
do curso do espírito. No entanto, esse momento já poderia ser assinalado como
uma tentativa de escapar ao círculo dos misticismos que procedem esse mesmo
tipo de reconstituição, mas não para compreendê-la num projeto de
sucessividade, e sim como aspectos de um grande todo espiritual que plasma o
que deveria ser a hiper-religião da humanidade, que integra aspectos de todas
as que por alguma vez se manifestaram no mundo, como Scheling ou Comte.
O argumento de Kant,
quanto a isso, é que a tradição dos patriarcas está fora dos limites do humano.
Na origem, considerada com bom senso e aproximando-se do conhecimento científico,
há o despreparo, a fraqueza perante as forças naturais, um quadro semelhante ao
fornecido por Montesquieu ao menos nesse ponto, pois é a soma negativa de suas
deficiências e de suas arrogâncias que força o homem à moderação e à cultura,
ou seja, ao espaço de convivência.
Zingano assinala,
porém, a abrangência do que está em jogo nesse ponto polêmico, pois o
historismo de Herder conduz a um tratamento da história que, visando cada
momento como elo numa cadeia universal, postula uma lei dos fenômenos históricos
pela qual em cada lugar o que surge é o que pode surgir devido ao complexo de
sua localização e circunstâncias. Isso permite a Herder um tratamento fino do
acontecimento, pois ele pode assim enraizar os fatos conforme sua circunscrição
de sentido, compreendendo-os como a “verdade” de uma época. “Inserção cósmica”
pode ser assim lido em dois registros, o herderiano e o kantiano, conforme,
reciprocamente, não esteja ou esteja limitado ao humano. Ora, nessa hipótese de
limitação que é a do kantismo, resta a aporia de como tratar o horizonte dessa
narrativa já que o fim deve ser sempre postergado à posteridade.
Creio que o embaraço
de Kant é ele mesmo uma ironia histórica, já que naquele momento realmente pode
ter parecido uma deficiência e um algo a explicar, o que hoje é o lugar comum
de que a história não tem de modo algum que apresentar um horizonte de
totalização, ou no máximo, como em Marx, ele é uma projeção, não um fundamento,
nesse exemplo o “fundamento” sendo o modo de produção. Nesse sentido, cabe
lembrar o aporte deleuziano que situa o kantismo como um marco filosófico que
transformou o sentido do pensamento fazendo dele uma tarefa de fundar. A
projeção pode estar no bojo do fundado, mas não é dela que parte o projeto, e
sim do seu fundamento. A razão prática é esse fundamento da história, que pode
não apresentar a concretude de algo como o modo de produção, mas penso que já
delineia a forma pela qual o pensamento se engaja epistemicamente no
curso de sua compreensão dos fatos, até porque desloca, enquanto prática, o
foco narrativo, desde o dado, conceito ou símbolo, à ação, o agir cujo
horizonte é a liberdade.
O plano oculto, o
mecanismo natural inversivo da vontade má, parece se desenrolar muito
lentamente, é verdade, de modo que a aptidão à plenitude da decisão moral
semelha estar sempre sendo postergada, conforme o kantismo. Herder também
descobre um plano oculto, mas para ele, exterior à vontade dos seres humanos
sem decorrer da efetividade da coexistência. Tratar-se-ia da série total que submete
tudo o que é parcial como um de seus momentos ou elos. O que resulta desse
plano que exclui a participação consciente mas obriga de qualquer modo à
subsunção, é que a parte não pode compreender o todo, o humano só pode
encontrar o sentido da trama do pequeno veio no qual ele age e se move, não
poderia compreender todo o plano do destino que contém todos os caminhos.
É inegável que,
apesar de sua distorção do fazer historiador pela subsunção ao sobre-humano,
Herder tem uma via de acesso bem mais aguçada para perceber os meandros da
história, a irredutibilidade cultural, a descontinuidade das eras, a força das
pequenas causas. No entanto, longe de ver no historismo de Herder um precursor
da descontinuidade, seria importante sublinhar o que Zingano observou, pois as “mil
e uma pequenas causas” , após ter produzido seus efeitos, são consideradas “como
um único rio que correria qualquer que fosse o obstáculo posto à sua frente” (RHK,
266).
O peso da
contingência está, portanto, do lado do kantismo, de modo que a minúcia é
reabsorvida apenas no horizonte da inteligibilidade prática, sendo então
inscrita na marcha do progresso moral que, por ser exclusivamente humano, não a
transpõe como algo derivado de um mais além, mas a compreende na efetividade,
banalidade ou periculosidade, de suas circunstâncias. É preciso esclarecer que
Kant não se propõe o fazer historiador como tarefa, mas apenas fundar a
liberdade como inteligibilidade desse fazer, e portanto seu tema se limita à
conjectura das origens, para localizar a inclinação originária da natureza do
humano. Quanto a isso, a descoberta importante é a ruptura do humano em relação
ao instintivo, sua experiência da escolha contra o instinto. A
folha de parreira assinala esse ponto de bifurcação, pelo qual o abandono do
instinto se traduziu na instituição da vestimenta, o cobrir-se, o pudor perante
o outro, experiência agora da recusa do sensível, pela qual a razão se
mostra não como um instinto mais aperfeiçoado, mas como algo inteiramente
outro, irredutível ao sensível. O ser humano pode já se investir da espera do
futuro e da autocompreensão como fim da natureza, a que se complementa a
experiência do outro, pelo que o “eu” só se vê pela reflexão de outrem,
que é outro “eu”.
O progresso descrito
é o da espécie, enquanto que o indivíduo sofre os percalços desse itinerário,
pratica o mal, é atingido pelas consequências, etc. O desenvolvimento das
habilidades decorre num meio que é o da desigualdade, mas isso não impede que
as ações sejam imputáveis ao sujeito, o mal-estar como reflexo localizado da
inscrição postergada da realização moral não torna o sujeito isento de
autonomia no que tange à sua inserção histórica. O que se fortalece nesse
ínterim é a racionalidade, pois o ser humano aprende com seus erros,
afirma e desenvolve sua capacidade de julgar, sua consciência moral.
Conjectura quanto à
origem, prospecção quanto ao futuro, pois se ele continua imprevisível, algo se
mantém no domínio da previsibilidade, aquilo mesmo que impelimos a ocorrer, a
decisão do agir orientadora dos acontecimentos conta com aquilo que ela
favorece. Assim, uma experiência histórica que viesse atestar a aptidão do
humano a ser autor do progresso serviria como signo rememorativo do fato
desse progresso, possibilitando uma leitura “profética” do histórico, pois nela
o que se prevê tem como signo a ação daquele mesmo que prevê, a profecia se
naturaliza, derivando o efeito daquilo que o provoca, mas no terreno da
experiência do humano, a eficiência pertencendo ao agir do agente. A Revolução
francesa serve como esse signo, na leitura de Kant, não no seu desenrolar
intrínseco, factual, mas na acolhida que teve, pois desinteressada.
Aqueles que, na
exterioridade do território francês, saudaram a revolução como um passo para a
liberdade atestam por sua adesão que não haverá retrocesso nessa marcha, e que
o futuro favorecerá a obra da Revolução, inviabilizando o antigo sistema de
privilégios contra o qual ela se insurgiu. Kant sabe que, devido ao mal radical
da opção humana, esse progresso pode contar com percalços, desvios localizados,
mas que não deixa de ser certo. Quanto a isso, pelo que podemos constatar
atualmente, Kant estava correto, ainda que no seu tempo parecesse uma excessão.
O que ele utilizou como apoio de sua prospecção foi a percepção de que o
fenômeno da solidariedade à revolução nunca seria esquecido, já que se
incorporou à memória comum.
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O espaço de
humanidade, aquele em que se desenvolve a prova da razão prática, é histórico,
mas pelo modo mesmo da conceituação de história, ele se torna político. O
elemento de publicidade, delimitando o espaço estabelecido da história,
compacta o entrecruzamento de várias teorizações que têm em comum o fato de
estarem fundadas pela moralidade racional. Temos assim, da ambiência filosófica
que repôs o metafísico como uma região intermediária do transcendental e do
empírico, a meu ver, um feixe de problematizações que se movem nessa região de
empiricidade, e que abarcam exclusivamente os fenômenos humanos.
A história é o agir
empírico que só se torna humano por ser um agir livre. A liberdade prática
encontra metafisicamente sua necessidade em razão de ser da coerção
intersubjetiva no espaço público de relações que se torna, portanto, espaço
político. Mas enquanto liberdade ela estava já definida transcendentalmente
como ser do humano, natureza da humanidade, e nesse sentido, ela se
especificava pela universalidade do querer enquanto forma pura da lei. O
metafísico pôde, portanto, na sua iluminação pelo transcendental, definir a universalidade
pela forma da lei natural, uma doutrina da virtude na região subjetiva do
querer e uma doutrina do direito nas prescrições da legislação exterior.
Aplicando-se esses princípios de moral, metafisicamente informados, à
Antropologia, resulta a idéia de uma constituição civil perfeita como tarefa
essencial da humanidade, algo que pode, portanto, agora na finalização da
dedução, ser retrojetado à idéia de história e permitir-se assim uma visão
completa acerca do que é o humano em seu ser, seu dever– ser e seu vir– a– ser.
História, política,
direito, Antropologia, se definem como regiões de teorização específica ao
mesmo tempo em que se realcionam organicamente pela constituição transcendental
da razão prática. A própria doutrina da virtude já se põe num aporte
sociológico, pois trata-se de compreender o sentido social das escolhas, sempre
confrontadas com o princípio do Outro, isto é, com a fundação da natureza do
humano pela forma transcendental da universalidade da lei, ao mesmo tempo
sempre limitada pelo fechamento metafísico (geral) do Mesmo, o mal radical de
uma vontade que se quer exclusivamente como referência do querer. As Ciências
do Humano são uma realidade no kantismo, no entanto, de um ponto de vista ainda
muito próximo do clássico, elas não podem se revestir de uma completa
autonomia. Isso porque elas não lidam com funcionamentos, processos sistêmicos
cuja compreensão tem que se processar na imanência de seu próprio jogo.
Essa cientificidade
do humano – pois se trata, sim, de fenômenos tratados na região do empírico e
ao mesmo tempo vazados na forma da racionalidade, invertendo completamente as
interdições cartesianas – do kantismo, não pode deixar de ser associada ao
cenário do início do século XIX, onde já vimos evoluindo, já no registro de
assimilação das idéias de Kant, essa mesma tendência epistêmica, por exemplo,
nos esquemas de Biran e Ampére. Em Biran, se a psicologia detém um papel
importante, e a a reflexão prática foi mesmo lida como psicologia por Cousin, o
importante é que seu papel só se define por uma dependência ou
complementaridade em relação à Antropologia. Sociedade e subjetividade são
entretecidas na compreensão do humano, isso como um traço fundamental de todo o
momento romântico, porque esse entrelaçamento define o que é ser humano dentro
de uma natureza transcendentalmente objetivável.
O traço importante do
kantismo é ter movido a reflexão inteiramente nessa relação com o Objeto.
Quanto a isso, é interessante observar que a crítica contemporânea de Deleuze
ao transcendental kantiano se dirige a esse mesmo ponto. Acusa-se o kantismo de
ser um psicologismo, mas injustamente, se com isso supomos que na reflexão
crítica as categorias são princípios psíquicos, subjetivos, enquanto na
realidade eles aí são princípios formais, inteiramente irredutíveis ao
empírico. No entanto, Deleuze pensa que um psicologismo kantiano de fato
existe, mas reside no decalque do transcendental por sobre o empírico. Tendo
aceito as aparências da experiência, que se mostra como uma relação de atribuição
de identidade a objetos constituídos por si e de localização de relações entre
esses objetos, ou como uma imputação de ações objetivas a agentes objetiváveis
em sua intenções, o kantismo jamais colocou sob o crivo crítico essa mesma
aparência de realidade. Sua tarefa é a descrição de suas condições de
possibilidade, não mostrar a sua gênese, a necessidade intrínseca de ser assim,
o modo pelo qual veio a ser, ou parecer, assim.
No entanto, essa é
uma vertente duradoura no pensamento ocidental até à atualidade. Uma descrição
antropológica como a de Levi-Strauss se baseia na descrição dos processos
simbólicos inconscientes com o mesmo pressuposto de que a tarefa da ciência é
explicar o modo como esse inconsciente simbólico funciona, não o modo como veio
a ser, ou sua gênese, pois isso é admitido de antemão como “a” realidade do que
é, isto é, como o objeto da ciência mesma, algo indemonstrável: não se deve,
nem se precisa demonstrar. Está aí, existe na “imanência do independente”, como
captou uma expressão corrente nos círculos realistas entre os anos trinta e
quarenta do século XX. Sendo assim o problema da gênese deriva para as ciências
naturais, e se endereça como a vertente limítrofe da antropologia com o estudo
da evolução, com a fisiologia, etc. Heidegger iniciou o questionamento humano
dessa vertente, não tanto Husserl. O pós-estruturalismo, a meu ver, se inicia
pela assimilação desse questionamento.
No entanto, como
vimos, não se trata de um progresso contínuo de Kant às ciências humanas assim
como praticadas no século XX e ao estruturalismo. Quanto a isso, é interessante
confrontar a significação histórico– epistêmica do kantismo. Essa apreciação,
porém, será mais favorecida após o exame do panorama do pós-kantiano.
Kant e Fichte
Em Kant a existência
do Outro é a regulação metafísica do transcendental, da vontade à razão, pois é
experimentada como Resistência no espaço da convivência, de modo que a história
deve ser a ocasião desse convir localizado de vontades, que é a política. A
razão está em cada consciência moral, mas só atualiza seu exercício pela
necessidade de con-vir ao encontro, algo a instalar o futuro da constituição
perfeita.
O salto de Kant a
Fichte se opera pela transformação da função do Outro. Ela deixa de se limitar
ao espaço da metafísica, para ser investida no domínio mesmo do transcendental.
Aqui, não se põe como uma regulação do Mesmo, mas funda a existência do mundo,
tanto quanto o Mesmo, na sua forma de ser com o Mesmo e inseparável dele.
Seria, a meu ver, oportuno ver aqui a possibilidade da fenomenologia, para o
que só o kantismo não provê o acesso.
Interessante notar
que da noção do Outro como Resistência ao Mesmo à noção do mesmo como
constituível só pelo Outro, também é o percurso de Biran, algo a ser solvido
nas águas ralas do ecletismo espiritualista francês. Mas o que torna
irredutível o devir do pós-kantismo alemão à ambiência do espiritualismo na
França dessa época inicial do século XIX é a sua vocação
transcendental-metafísica, eminentemente filosófica, enquanto a França
apresenta como que um núcleo, um cerne atrativo no pensamento de Comte que
esclarece o sentido das outras pesquisas, como que uma vertente para a qual os
outros trabalhos se põem a caminho. Assim, trata-se no caso francês de uma via
para a psicologia, para a cientificidade mesclada ao misticismo conforme a
índole romântica que, uma vez descartada na transição ao ambiente pós 1848,
permitirá que a cientificidade se afirme na sua feição contemporânea.
No pós-kantismo
alemão as coisas não são assim. A dialética do Mesmo e do Outro se desenvolve
na corrente do pensamento transcendental, orientando-se para a moral, o direito
e a história, até a síntese pretensamente total de Hegel, quando então as
coisas mudam também aqui.
Mas nessa curva do
romantismo, cujo limite parece ser Hegel, o artíficie é Fichte. Ele converteu o
pensamento kantiano à vocação de uma reflexão necessária sobre o Outro,
estabelecendo a esfera do movimento romântico assim como conceituado por
Benjamin. Isso se mantém, mesmo que o percurso do próprio Fichte tenha sido
revertido ao final por um retrocesso neo-platônico, no qual os traços de sua
novidade parecem ter se despistado.
Não proponho para
isso uma explicação biográfica, a necessidade de um consolo pelo amargor das
experiências de rejeição do meio. Na verdade, esse percurso é comum no
romantismo, e sintomático das contradições que enredam o pensamento romântico,
nesse momento histórico de confronto. Os valores que já pertencem a uma época
ultrapassada, os valores de uma época ainda por vir e que apenas se insinuam
nas consciências, não podem se expressar, se não misturados. A tonalidade aqui
se torna essencial, pois se trata de textura, a proporção em que os elementos
se apresentam em cada solução localizada dessa mistura, sempre homogênea quando
se trata de um grande pensador.
O intervalo de Fichte
a Kant se enuncia por um desacordo bem claro que envolve a descoberta de Fichte
de uma intuição intelectual. O kantismo havia estabelecido expressamente a
intuição na região da sensibilidade, e Kant, conforme o testemunho de Fichte,
censurou suficientemente a inovação que este havia introduzido a partir de sua “doutrina
da ciência”.
Uma intuição
intelectual, para Kant, seria um monstro filosófico. O irônico, é que Fichte
lança esse conceito no meio de uma controvérsia com Jean Paul e Herder na qual
ele se apresenta como um defensor de Kant. Eles haviam transferido a
suficiência da crítica da Razão à necessidade de uma prévia meta-crítica da
linguagem, enquanto Fichte considera tal projeto um contra-senso, pois pretende
repor a crítica de Kant no domínio da intuição, que deve fornecer os elementos
constitutivos da Razão, formando-se assim a doturina, a epistemologia, das
ciências, isto é, o “como” do saber correlato à autocompreensão da razão, algo
bem genuinamente kantiano.
Mas a intuição
intelectual como a intuição existencial originária do “Eu” ou do “absoluto”,
inseparável do “Não-eu” – esse Outro que valeu ao autor do conceito uma pedra
jogada pela janela de sua casa em meio a gritos: “eis aí o não-eu”– eis também
a razão da desaprovação manifesta por Kant.
Como vimos, Kant
havia estabelecido a auto-intuição como o sentido íntimo, sempre refratado pela
forma do tempo como auto-apreensão puramente fenomênica, criando o paradoxo de
um “eu” que nunca poderemos efetivamente ser para nós mesmos, sendo este o “eu”
transcendental, tanto mais real do que o fenomênico, tanto menos: mais real,
pois é a condição de possibilidade do fenomênico, menos, porém, por que não
corresponde nem pode corresponder a nenhuma experiência possível, não tem uma
personalidade ou uma subjetividade para-si, sendo apenas uma pura forma vazia
que garante a correlação da experiência como uma natureza observável, um mundo
coerentemente estabelecido como que “por si”. O pensar aqui pode ser apenas o
deduzir, e é isto a tarefa crítica.
Podemos ver que o
próprio Kant já enuncia o problema da dependência do Mesmo ao Outro, pois a
forma só é vazia por estar no meio desses dois inteiros, o sujeito cognoscente,
sujeito da experiência, de um lado, e a experiência, o mundo efetivo, de outro.
Mas o importante, a meu ver, é que Kant conjurou as consequências que seriam
nefastas para sua crítica, pelas quais o Outro teria uma proeminência
transcendental, como o Mesmo, e ele o fez do seguinte modo: O Mesmo, nesse
caso, é uma palavra ambígua. Pois o “Eu” transcendental, com efeito, nem é o
mesmo, nem é o outro, é vazio, forma pura. O que se reflete como o Mesmo frente
ao Outro é como uma maneira de falar, depende de uma torção prévia do pensar,
aponta para uma região do inefável. No entanto, como não ver aqui o
perigo do kantismo?
Antes do Mesmo,
fenomenicamente bem definido frente ao Outro, há uma correlação entre duas
possibilidades que fende a experiência, põe o tempo “out of joint”. É muito
sintomático que a réplica, em Shakespeare, tenha sido algo como “May I ever
born to set it right”. O “I” se joga sobre o “It”, o “Out of joint”, o tempo. É
o “eu” que conserta a disjunção do tempo consigo mesmo, o fato de estar “fora
dos gonzos”, é o eu que cura o dilaceramento paradoxal do Vazio entre as duas
metades do Ser. Mas esse “eu”, que restou ele mesmo como paradoxo, só replica
uma hierarquia prévia, pela qual não é do mesmo modo que as duas metades se
acostam na margem, há um desnível que assegura a proeminência do sujeito à
experiência. Esse desnível, porém, no kantismo, parece que fica um pouco
presumido, como uma motivação do pensador mais do que como uma conjuração de
fato do seu perigo.
Pois assim como não
há como, para o “eu”, transpor a sua própria facticidade, como não há o aceno
de uma experiência mística do transcendental pois ele jamais pode ser para si
uma experiência, assim também a crítica não pode transpor a sua própria
pressuposição de objetividade, não pode alcançar-se, se não apenas instalar-se
na finitude da Razão que se auto-compreende como forma do fazer do fato. Fichte
se instala nesse limite, nessa fenda, lá onde a crítica se vota ao inefável
como uma catedral gótica escapa ao limite do olhar apontando sempre mais alto
até que se perde na alteridade do Céu.
A catedral gótica
obriga o olhar a percorrer, o sentido a se constituir, não há mais nada
imediato ou imanente, o transcendente se instala por dentro do fenômeno via
estética – assim como na crítica trata-se, precisamente, de uma estética
transcendental. Vimos ser longa a viagem do transcendente ao transcendental, de
São Tomás a Kant. Ora, o que Fichte explora é esse interior que se tornou de
vários modos investível. Nesse aporte fichteano teríamos, à semelhança da
intuição dos fenômenos exteriores, aquela de nossa própria existência interna,
isso que o interlocutor da doutrina da ciência procura fazer o iniciante
perceber – isto é, perceber-se com um único olhar– conforme o “comunicado
claro como o sol” acerca da doutrina da ciência.
A intuição do “Eu”
absoluto é a “captação imediata da maneira de agir da razão”, e é por isso que
pode ser percebida com esse olhar igualmente imediato. Fichte reverte a via do
transcendental kantiano que se poderia estabelecer numa progressão histórica
desde a transcendência gótica, tornando a estética da interioridade um novo
modo de enunciar a imanência – transcendental agora no modo fenomenológico, mas
a que o próprio Fichte, parece, posteriormente renunciou.
As vivências do Eu
transcendental podem ser recuperáveis como mathêsis na doutrina de
Fichte e essa se torna a tarefa do pensar que se instalou nesse desvio do
transcendental kantiano ao fenomenológico fichte-husserliano. Estabelecendo o
pensar como olhar subjetivo,voltado a essas suas vivências, podem
ser descritas as postulações absolutamente evidentes através das quais a Razão
se exerce. Ao mesmo tempo não sendo da ordem do signo, nem da lógica, a
intuição intelectual não porta sobre algo consistente – Kant havia objetado a Fichte
ter feito apenas lógica pura e proposto a intuição de algo consistente mas em
repouso, o que seria absurdo.
Que a Mathesis assim
descrita não porta sobre algo consistente, parece bem compreensível, pois não
se trata de examinar as vivências empíritas pelo que a razão se exercita,
pronunciando-se em juízos certos, científicos no sentido das empiricidades. A
espessura moderna se manifesta em Fichte ao transpor o nível fundamental da
existência consciente – a relação com o que designamos habitualmente mundo – em
termos de vivência puramente subjetiva.
A “realidade”, o “fato
da consciência”, a “experiência”, tudo o que se encontra no âmbito não-mediado
dos dados da consciência, se encontra reduzido à sua experimenciabilidade pelo
sujeito – nada se pode acrescentar sobre seu ser em si. Mas assim a exequibilidade
da doutrina-da-ciência relaciona-se com a demonstração da conexão sistemática
da experiência – como está sendo pressuposta – a partir de suas determinações
fundamentais, isto é, a possibilidade de ser descritível como um sistema. A
Egoidade, identidade ou auto-apreensão da subjetividade, se torna uma
postulação, dentre todas as determinações da consciência, daquilo que seria o
originário do sistema.
Ora, nessa região dos
princípios trata-se, em Fichte, de nada menos do que uma síntese quíntupla,
como descrita por Philonenko: o (I) “eu” absoluto (Identidade), nexo das
lógicas formal e transcendental; o (II) Não-eu, princípio da diferença; o (III)
“eu” divisível, já na região do fenomênico em que o “eu” está sempre misturado
com o mundo ou o “não-eu”, a filosofia prática do I ao II, a filosofia teórica
do II ao III.
O problema suscitado
pela relação que Fichte estabeleceu entre I e II, é: como se tem II a partir de
I? Esse problema é célebre e recebeu várias respostas. Philonenko pensa que ele
depende de uma leitura lógica, pois na lógica formal sempre a identidade põe
seu inverso, a diferença. O objetivo de Fichte seria compor realismo (não-eu) e
idealismo (eu). A síntese temporal que se encarrega do “eu” efetivo, que na
forma do tempo pode pôr-se e ao objeto, isto é, pode pôr-se naquilo em que põe
o objeto, transpõe a temporalidade como verdade desse “eu”, intensionalidade
absoluta, horizonte do tempo: movimento entre a consciência de si e do objeto, isto
é, consciência comum.
Trata-se, com a
introdução da temporalidade intensional, de algo que desloca a espontaneidade
ou, mais precisamente, a instanteneidade do tempo puro kantiano. Se ainda aqui
a síntese é categorial, a temporalidade é agora transitividade, enquanto
intensional ela introduz o movimento no tempo, a história na constituição do
sujeito: choque, momento de eclosão do “não-eu” ao “eu”, depois posição da
alteridade efetivada pela identidade, e então pode-se desenvolver a história
pragmática do espírito com seus cinco momentos: sensação, imaginação,
entendimento – que são momentos objetivos visando a construção do mundo– depois
o julgamento e a razão, momentos da construção de si mesmo.
Philonenko observa
que a estrutura do desenvolvimento dessa história pragmática é a mesma que mais
tarde Hegel utilizará na fenomenologia do espírito, consistindo na oposição
entre o “Eu” engajado na experiência e o sujeito filosofante que observa. A
história da consciência se termina quando, aportando à razão, a consciência se
encontra em mesmo nível que a filosofia. Completude da filosofia teórica, o eu
tendo se tornado razão. Nesse momento terminal se está, porém, apenas no
pórtico de tudo o que ainda de fato se deve desenvolver, pois então o que se
põe necessariamente para esse Eu tornado Razão é a questão de sua destinação,
da significação de sua existência, portanto, a filosofia teórica deságua na
filosofia prática.
É já desse
desdobramento que Bréhier parte na sua exposição de Fichte, pois ele começa por
localizar, como central no pensamento fichteano, o conceito de Liberdade. A
doutrina da ciência fornece o caminho pelo qual a humanidade pode engendrar o
seu conceito, pelo que se torna livre. O problema agora se torna a conceituação
de Fichte acerca dessa esfera prática, pois assim como ele deslocou o eixo da
reflexão transcendental ao olhar fenomenológico sobre as vivências da
consciência, agora parece que há uma reversão na arquitetônica crítica, já que
ao invés de uma separação cuidadosa entre interesses da razão conforme as
esferas da vontade e do entendimento, está se propondo uma dedução do prático
partindo do teórico, o que acarreta a este uma espessura que no kantismo não
parecia ser desejável.
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Contrastando com as
perspectivas habituais que costumam acentuar a conexão entre a filosofia das
luzes e a causa revolucionária da liberdade, Bréhier sublinha a
incomensurabilidade entre a extensão da liberdade e a tarefa que Fichte havia
nomeado como o meio de realizá-la, a saber, o caminho da demonstração
filosófica: a filosofia, aptidão de poucos, a finalidade pela liberdade,
reservada à humanidade inteira.
Se o iluminismo
procura liberar o humano através de uma popularização do saber, Fichte, adepto
do kantismo, propõe o saber propedêutico à liberdade como uma “ciência abstrusa”,
que utiliza conceitos incomuns e uma “muito rara intuição”, conforme a
expressão de Bréhier.
O problema, portanto,
da filosofia prática do kantismo está inteiro nesse trecho, conforme Bréhier,
pois se o vínculo ético se estabelece pela compreensão da doutrina-da-ciência
de Fichte, que se deriva é, necesariamente, que é que se está entendendo por
liberdade.
Bréhier conceitua a
oposição do século, a quel Fichte se furta, entre a liberdade como adesão ao dado,
religioso ou instituicional, e a liberdade anárquica do Sturm umd Drang, que se
contrapõe ao dado social. O que Fichte enuncia em termos de liberdade nada tem
a ver com o anarquismo dos instintos, mas tampouco seria por isso mais fácil de
precisar, como um simples aderir à ordem estabelecida. Poder-se-ia pensar que
se trata, como via alternativa, de um ideal de auto-elevação por meio do
cultivo da sabedoria, algo nada novo, pois. Contudo, Bréhier mostra que, bem
inversamente, o aporte social é inerente a esse ideal.
O elo com o kantismo
se recupera nesse conceito fichteano, sendo que, em geral, a exposição de
Bréhier, inversamente à de Philonenko, se endereça mais no sentido de assegurar
o vínculo de Fichte com Kant do que de acentuar sua irredutibilidade. No que se
relaciona à liberdade, assim como em Kant, Fichte a conceitua como uma espécie
de horizonte histórico, algo por vir, mas dependendo do engajamento humano.
Ora, a novidade é que
Fichte não descreve esse horizonte de justiça social à maneira liberal das
luzes, mas sim socialista, conforme Bréhier. A realização da liberdade só
existe na conexão com essa comunidade do futuro, ela mesmo tendo realizado a
justiça social que Fichte não descreve se não pela supressão da desigualdade,
ao invés de se limitar a propor a supressão de privilégios, ou como Bréhier
esclarece, ele estaria menos para Montesquieu do que para Rousseau.
Mas a impossibilidade
de unir Fichte a um Marx avant la lettre é ainda o kantismo, ou a sua
interpretação do que seria uma fidelidade a Kant, pois o ideal concreto a
realizar nada tem a ver com uma ação popular materializada por forças sociais
imanentes, cuja inteligibilidade se recupera pelo próprio mapeamento da
produção concreta. Inversamente, trta-se d euma exigência racional. Ora, assim
postas as coisas, a consequência que Fichte localiza é o oposto de uma política
socialista no sentido marxista. É o pequeno número dos eleitos, aptos a
compreender as leis da razão, que pode conceituar o que é liberdade e assim
torná-la manifesta, precipitando o progresso do conceito até seu esclarecimento
não-aufklärung.
Fichte se opõe à
banalização do saber, aprova a censura inquisitorial instaurada na Prússia
desde 1788 – ele, na verdade, fez a apologia desse decreto, ainda que tenha
protestado contra a censura do escrito de Kant sobre a religião.
A posição de Fichte
não me parece lá muito insólita nesse período. A expresão “sacerdote da verdade”,
que ele utiliza para designar a função prático-social do sábio, ressoa bem
nitidamente com o que será a mística positivista de Comte. Socratismo de
método, ascetismo de apostolado, a teoria da ciência, para Fichte, se torna uma
experiência missionária, totalizante. Mas seria essa uma devoção ao futuro.
Algo inverso do tradicionalismo romântico que lhe parece coextensivo e que é
tão comum na época, exemplificável pelo pangermanismo dos Shlegel, eivado de
medievalismo e catolicismo. Ao invés de se devotar às instituições presentes, a
missão desse monge filosófico seria produzir a possibilidade do futuro.
O móvel do pensamento
fichteano, conforme Bréhier, seria a penetrabilidade do real pela ação do ser
humano, o que a doutrina ou teoria da ciência precisa demonstrar. Ora, isso se
torna exequível através do “idealismo kantiano”, o nexo estabelecido transcendentalmente
por Kant entre a experiência e o sujeito cognoscente, no qual se põe a
possibilidade mesma da experiência.
As leis do pensamento
formam essa natureza permeàvel à ação daquele que é o sujeito pensante –
permeabilidade assim tornada tautológica se concedermos o dogma transcendental.
Nesse aporte o mundo é o efeito da relação do sujeito consigo mesmo: o que ele
pode ter estando predeterminado pelo que ele pode ser. O autoconhecimento é o
conhecimento da natureza, mas não da natureza pura, e sim da natureza já
derivada como o mundo histórico, prático, isto é, o autoconehcimento é ao mesmo
tempo demonstração do fato da liberdade.
Entre Fichte e Kant o
desacordo se instala nesse evanescimento do puro pelo pra´tico. Mas entre
Fichte e os romãnticos do tempo o desacordo está entre seu kantismo e a crítica
que aqueles portam sobre o que consideram a insuficiência de Kant, a saber, que
o acordo entre o determinismo da razão e a liberdade está assim apenas
pretensamente demonstrado.
Os românticos, quanto
a isso, prolongam a ambiência do sentimentalismo das luzes, contra o que seria
o espinozismo da substância, o racionalismo que para eles seria de todo estéril
no terreno da moral. O que os romãnticos negam é o vínculo ético social possa
ser derivado apenas da razão, algo essencial a Kant. Para eles esse vínculo é
algo irredutível à razão, tendo a ver com algum sentimento inerente ao humano.
Ora, o kantismo
procede cautelosamente, por separação de níveis de interesse da razão. O
especulativo não se põe como suporte do prático. Kant parece considerar
legítima ea exigência da irredutibilidade da vontade ao entendimento e isso
está caucionando a autonomia relativa entre as críticas. Fichte não procede
desse modo, pois o que ele pretende é “demonstrar por razões puramente
especulativas que o problema da produção da natureza é idêntico àquele das
condições da moralidade”, conforme a expressão de Bréhier.
Aqui Bréhier demarca
algo importante. Ele não propõe imediatamente que Fichte esteja atrelando a
descoberta da identidade, o Eu e sua ação, a algo como uma experiência íntima.
Tanto quanto Kant, tratar-se-ia em Fichte de uma dedução, o princípio de
subjetividade permanecendo na região da espontaneidade, portanto como condição
da consciência, não podendo se oferecer como dado à consciência.
Incicialmente Fichte
instala, conforme Bréhier, a dedução na região do princípio de identidade, ao
estabelecer o nexo entre a posiçãoe o que assim se pôs, no e pelo idêntico.
Ora, desse procedimento Fichte aporta, posteriormente, e a algo mais simples, a
intuição intelectual. Agora Bréhier se expressa, efetivamente, em termos de “consciência
da atividade do Eu”, o que antes não parecia acessível, o que afasta o percurso
fichteano definitivamente do modelo analítico-transcendental de Kant.
O “eu” pode atingir a
consciência de sua própria atividade, se assim desejar, afastando-se da
contemplação da exterioridade. A intuição do “eu” é o caso singular pelo qual o
“ser” posto pelo “Eu” não guarda nenmhuma diferença da ação pela qual o “eu” o
põe.
Resta então a decisão
sobre se o fichteísmo enuncia o “eu” como não-condicionado e absoluto, ou
apenas como condição além de que nada se atinge por ser o limite do fenomênico.
É interessante
sublinhar que Bréhier aqui, enfatiza o condicionado dessa condição, pois aquilo
que ela condiciona, sendo o fenomênico ou a experiência, por seu peso como que
a verga, inclinando-a nesse destinar de si mesma. O fato de que tal condição
não pre-existe por si na exterioridade da reflexão do filósofo, sendo que esse
caráter construído do objeto da reflexão é sem cessar sublinhado por Fichte,
assegura o viés matemático-geométrico algo cartesiano dessa epistemologia de
princípios. Bréhier pensa que isso parece reafirmar a hipótese da condição.
Mas a problema´tica
relacionada ao segundo princípio, do nãoÉu, poderia ter também essa função
reafirmadora dessa hipótese, sugere Bréhier, pois como propor a necessidade de
algum outro princípio se o Eu estivesse sendo enunciado como não-condicionado e
absoluto?
Nesse ponto bréhier
alonga a exposição, como num suspense estratégico, mostrando o percurso do
pensamento fichteano que não pode deixar de lembrar as démarches de Hegel, se
bem que quanto a isso, o costume parece ter sido introduzido por Hume ou mais
ainda, por Kant: as hipóteses que se sucedem na história da filosofia são
localizadas como estágios problemáticos da dedução do não-eu (mundo,
experiência, pluralidade) ao Eu (sujeito, intuição, identidade).
O mundo está aí, é
irrefutável, mas sua idemosntrabilidade não o é menos, se estabelecido o Eu
como princípio absoluto, o que tampouco parece que se poderia deixar de fazer.
O não-eu é tanto objeto de uma intuição intelectual como o eu, não como uma
identidade oposta ao eu, mas como o que está envolvido no ato de opor. Os atos
de por e de opor são dados imediatos, primitivos, que não odem estar na
exterioridade da consciência.
No entanto, o
problema resta inteiro, pois a reflexão filosófica inicialmente lida com
aintuição do absoluto como identidade, pelo qeu nada assim poderia se
opor. Mas o ato de opor é, como observa Bréhier, necessário à tarefa reflexiva
de construção, pois tudo teria ficado parado no absolutamente idêntico, não
fosse essa oposição.
Ora, o eu fenomênico,
aqui onde o eu e o não-eu poderiam se opor sem contradição já que não portando
ao mesmo tempo sobre o mesmo ou o aboluto, é no entanto igualmente estabelecido
pelo eu absoluto. O eu está ao mesmo tempo como o todo e como a parte. Esta
seria, conforme Fichte, na observaçãod e Bréhier, a situação filosófica por
excelência, da qual cada filosofia seria um ramo hipotético de solução pela
negação de um dos elementos: o espinozismo negando o princípio da
subjetividade, o berkeleísmo negando o princípio da objetividade.
O pensamento de
Fichte intervém pela constatação de que,substituindo-se os pólos de princípios
abstratamente fixados na sua intransigência como contrapostos, por uma
correlação contínua entre eles, a situaçãos e performatiza como luta e triunfo
do Eu sobre o não-eu, portanto, uma negação do princípio como condição,
afirmando-se o “Eu” absoluto.
A filosofia teórica
de Kant, assim como o realismo, esclarece o processo tendencial de prevalência
do não-eu sobre o eu, enquanto a filosofia prática do kantismo, assim como o
idealismo, descreve o tendencial oposto, a vitória do Eu sobre o não-eu. Ora, a
filosofia prática seria por isso a finalidade mesma do filosofar: onde a
filosofia teórica se termina, então é que a filosofia prática se
inicia,ilustrandos-e por esse meio o sentido existencial profundo,
performatizado na luta do bem contra o mal, no triunfo do bem, ou traduzindo-se
em termos filosóficos, a luta do Eu contra o naõ-eu, do espírito contra a
matéria, e triunfo do espírito, vitória do Eu, realização do futuro como
horizonte ético da equidade social, o que é a felicidade terrestre.
A filosofia teórica
se resume na decisão sobre se a afecção passiva do eu, como experiência do
mundo, supõe uma atividade independente no não-eu, como no espinozismo, ou se o
eu produz suas próprias afecções, por sua própria espontaneidade, como na
harmonia pré-estabelecida do leibnizianismo.
Ambas as soluções
parecem parciais, pois o “eu” continua a insistir na sua irredutibilidade num
caso, ao mesmo tempo que a harmonia pré-estabelecida tampouco pode ter sido
posta pelo “eu”, no outro. O problema é que nenhuma dessas hipóteses super a
contradição entre o absoluto que pertence ao Eu e a irredutibilidade que é
inegavelmente o atributo do objeto. O idealismo crítico de Kant, sim, soluciona
a aporia. Ora, nessa via, a irredutibilidade do objeto é aquilo com o que o “eu”
se choca, mas sendo ela mesma determinada pelo “eu” (terceiro princípio,
determinação do não-eu pelo “eu”) como limite sem cessar franqueado, processo
que se traduz pelo esforço.
Aqui o terreno é o da
filosofia prática, tendencial de prevalência do Eu sobre o não-eu. O esforço é
sempre a experiência do eu pelo limite do não-eu, mas o eu que se esforça
jamais encontra uma resistência igual a ele mesmo, pelo que pode se reproduzir
sem cessar. Afirma-se assim o prolongamento do esforço na tendência
(trieb),pelo que o sentimento do limite externo se torna o sentimento da força
interna, ou potência.
A esse processo
descrito no terreno prático, corresponde inteiramente o que se descreve no
terreno especulativo, teórico, onde a prevalência é do não-eu sobre o “eu”.
Aqui a imaginação,substituindo sem cessar as representações, traduz nesse pólo
objetivista-realista aquilo que o esforço atua no pólo
subjetivista-idealista-prático. Assim, as demais funções especulativas,
sensação, intuição, entendimento, são estágios de objetificação, perante o “eu”,
do limite do não-eu, o que o esforço reverte, até a potência, como limitação
inteira, final, do não-eu pelo “eu”. Vemos que nesse momento se opera como que
a junção do especulativo ao prático, na verdade, o salto de um ao outro.
Ora, o que assegura a
vitória do Eu é que somente aqui se encontra o ilimitado – lembrando o sem
cessar do esforço, que se conceitua como aspiração, isso mesmo que, nele, é
ilimitado ao se tornar absoluto como tendência moral, portanto, não fixável por
nenhum objeto particular, mas, conforme a esfera prática do kantismo, orientada
à sua lei, puramente formal, ação sem fim particular, portanto, não
limitando-se a tendência por nenhum constrangimento alheio.
É o não-eu que se põe
como condição ou meio, precisamente, do esforço moral, isto é, do absoluto “Eu”.
Finalmente, é o Eu que determina o não-eu. Já temos elementos suficientes para
ver que a ação sobre o objeto, por exemplo na indústria, não traduz esse
determinar, mas sim a transfiguração ética do mundo, constituição do sentido
existencial pelo humano, isso que, fornece á ação um campo infinito de
aplicação.
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A teoria da ciência,
determinando os meios da liberdade, conduz às teorias do direito e da moral. A
a multiplicidade necessária de sujeitos que têm sua liberdade reciprocamente
limitada em uma sociedade (Gesellscahft)governada por um Estado é
o objeto da teoria do direito. Inversamente, a união das conciências em uma comunidade
(Gemeinschaft pelo que as vontades múltiplas são conjugadas na Unidade da
razão, é o objeto da teoria da moral.
Será posteriormente
muito importante essa oposição entre sociedade e comunidade, na sociologia. Por
ora, é preciso observar que Fichte está assim afirmando que a atividade do ser
humano deve se encaminhar da sociedade jurídica à comunidade moral. A
destinação do sujeito é sua humanidade, nisso pelo que “o homem só é homem
entre os homens”. Aqui, porém, Bréhier assinala o afastamento da doutrina de
Fichte com relação à de Kant, pois ele não se define pelo individualismo, nem
jurídico, nem moral.
Bréhier enumera as
teorias jurídicas da época, a que Fichte não corresponde. Há, inicialmente, o
pensamento clássico do direito natural, que pertenceria a cada um e que a
sociedade deveria apenas fazer respeitar. A isso se opõe a concepção de que o
direito se funda sobre o dever do respeito pelo outro, a liberdade de cada um
tendo que ser restringida naquilo que for incompatível com a liberdade do
outro. Ainda uma solução alternativa seria o estatismo de Hegel, que concede ao
Estado organizado o poder absoluto.
Fichte penderia para
algo que se poderia designar transpersonalismo ou teoria do direito social. A
sociedade é superior ao Estado, inversamente a Hegel, pois o Estado expressa
transitoriamente aquilo que a sociedade é essencialmente. A função do estado é
realizar a exigência social da regulação dos direitos, e Fichte propõe que isso
se torna exequívelpor uma espécie de corporativismo socialista, a propriedade
devendo ser comum às associações corporativas que mutuamente compartem a
produção, não individualmente atribuível.
O que permanece como
inalienável no indivíduo é a liberdade sobre seu próprio corpo, enquanto que o
Estado tem por função também fazer respeitar o direito. Aqui intervém a noção
de pacto social, pelo que se regula as atribuições da propriedade e os meios de
protegê-la, o sujeito se torna cidadão, e a sociedade se compõe como um
organismo em que as partes se conjugam na conservação do todo.
A teoria da moral
reafirma a causalidade da Razão manifesta pelo Imperativo categórico e pelo
dever, ao mesmo tempo em que prescreve o alcance social,não individual, do
domínio ético. É a humanidade que se realiza moralmente, avançando no rumo da
perfeição moral, não o sujeito individualmente considerado. Seria contraditório
propor um ideal de perfeição individual destacado da comunidade de seres
racionais, já que a formalidade da lei, aquilo pelo que ela é racional e legal,
depende de seu aporte universal. O que repõe a função especial do sábio, que
deve zelar pelo esclarecimento do universal.
Ora, nessa função o
sábio é mais exemplo do que transmissor de um conhecimento determinado. Assim,
todo o ideal de ascese e elevação subjetivos se torna atribuível ao sábio como
sujeito, no interesse, contudo, da humanidade mesma: domínio de si mesmo,
educação interior, eis o que se mostra mais do que se propõe.
Bréhier enumera agora
as aporias do fichteísmo: infinitude do combate do Eu sobre o não-eu, já que a
vitória final está sempre mais ao futuro. O sistema, porém, exige algo mais do
que uma militância constante, exige o triunfo real. O que parece estar se
contrapondo assim é o Absoluto do filósofo sistemático e o progressivo do
moralista, ambos reunidos cofusamente na doutrina de Fichte. Essas ambiguidades
do fichteismo não deixaram de ser exploradas pelos contemporâneos.
Fichte e Schelling
Philonenko aproveita
esse tema das ambiguidades para aprofundar a cisão entre Fichte e Kant. A
motivação fundamental do fichteísmo estaria relacionada à sua recusa do
individualismo político e moral do kantismo, onde se localiza a sua idéia de
dialética : luta constante entre opostos como movimento da história entre o
despotismo e a liberdade. Mas também a sua conexão entre a filosofia e o
problema da intersubjetividade, o que já vimos como nexo não-kantiano
estabelecido entre o teórico e o prático. E, consequência desses dois tópicos,
a impossibilidade de separar política e reflexão filosófica, pois a questão da
existência do mundo é ao mesmo tempo questão da existência do Outro,
engajamento prático na construção do direito e da moral.
O que se ilumina
assim é a raiz daquilo que se torna explícito em Hegel, o horizonte filosófico
como sendo o da consciência comum. Esse tema é bastante característico do
iluminismo e da época romântica, ao mesmo tempo em que se enumera a sua
irredutibilidade nesses dois focos, pois do senso comum como vocação empírica
ou sentimento inato do iluminista, se propõe agora uma reflexão inteiramente
estabelecida na região do transcendental. Philonenko situa esse tema na questão
da continuidade do pós-kantismo: seria algo simplesmente como uma linha reta
conduzindo de Kant a Hegel?
Apesar das
aparências, manifestamente a resposta deve ser negativa. Ora, se Philonenko
parece enunciar algo como um endereçamento comum do pós-kantismo, um certo
estabelecimento de princípio do questionar, esse fundamento não parece provir
do próprio Kant e sim de Fichte, sendo enunciado em termos da redução da
totalidade do problema da filosofia a uma só questão, a saber, a
intersubjetividade, o engajamento prático pela irrefutabilidade do Mundo. Isso
contradiz as versões mais comuns do fichteísmo como um idealismo nefelibata,
que pretenderia “transformar as coisas em idéias”, conforme a expressão de
Philonenko.
Ora, um dos que
mantém essa versão idealista de Fichte é Shelling. Philonenko mostra que o
problema com tal interpretação é que ela mascara o papel daquilo que é o mais
importante em Fichte, a intersubjetividade, como resultando de sua tentativa de
contornar o problema da falta de unidade entre as três críticas de Kant. Assim,
nesse projeto expresso por Fichte em Sobre o conceito da doutrina da
ciência, o que não se desenvolveu foi aquilo que, nessa ocasião, ele havia
pensado como derivando imediatamente dele, a saber, uma espécie de enciclopédia
de todos os aspectos abordados nas Críticas. Inversamente, o que se desenvolveu
foi a demonstração da realidade do mundo para nós e da existência de outro,
sobre esse fundamento estabelecendo-se o direito e a moral.
No entanto, vimos que
desse escopo o que se constitui é a viragem fenomenológica da filosofia
transcendental. Ora, nisso o que vem à frente da cena é a problemática
concernente à intuição intelectual. Conforme observou Benjamin, desde que Kant
afirmou, de modo pioneiro, a possibilidade da intuição intelectual, ao mesmo
tempo conceituando-a como impossível no campo da experiência, pois
reservando-se, como possibilidade, ao intelecto arquétipo, veio à tona na cena
filosófica o desejo “quase febril” de reconquistar este conceito. Esse teria
sido o traço comum entre os românticos e Fichte, mas também aquilo que os
afastou.
Benjamin, em seu
estudo sobre o romantismo alemão, preocupado em demarcar o que no movimento se
deve a Fichte e o que se põe na ruptura com ele, assinala também, como Bréhier,
que Fichte não propôs a intuição intelectual desde o início, e que esse
percurso se tornou importante na conexão com o pensamento dos outros românticos,
pois se demarca precisamente como o que levou à ruptura. Em todo caso, o
propósito de Fichte sempre permaneceu como aquele de estabelecer a exata
limitação do Eu. Ele o fez, inicialmente, por via do inconsciente, como vimos
com Bréhier, ali onde parecia que toda a démarche filosófica devia se instalar
como dedução devido à impossibilidade da consciência atingir àquilo que seria
sua condição de possibilidade.
Os românticos,
notadamente Shlegel, jamais puderam lidar com a intuição intelectual de Fichte
e nessa rejeição se localiza a gênese do conceito central do romantismo, a
reflexão. Acerca de uma intuição intelectual do “eu” sobre si, os românticos
como Shlegel e mesmo Novalis pensam que ela reintroduz a finitude que eles
desejam evitar e o fazem pela noção de que a ação do “eu” não se limita como um
pôr que engendra necessariamente um opor, mas, inversamente, a reflexão é uma
ação infinitamente desdobrável a partir de seu pôr, devido a que ela é o
pensar, mas em seguida, o segundo ato é o pensar sobre esse pensar, o terceiro
o pensar do pensar do pensar, e aqui encontra-se o salto da reflexão ao
absoluto, pois o Eu descobre que não há nada na exterioridade da “egoidade”,
nenhum não-eu, pois seria inconsequente que o Eu pudesse se auto-limitar a partir
do inconsciente, isto é, de sua própria condição de se pôr.
Mas o que se desvia
também do kantismo, entre os românticos, é que ali onde Fichte propôs
finalmente a intuição intelectual, já que se o intelecto arquétipo é o que
engendra aquilo que intui, o Eu só pode, enquanto identidade, ser engendrado
pela auto-intuição, os românticos pensaram a egoidade pura como possibilidade
mística da reflexão que cria o mundo. Ao invés do não-eu, aquilo com o
que o eu se relaciona é o tu, o todo a que reflete, de
modo que ao invés de uma fenomeno-lógica da limitação pelo que se engendra a
aparição do Outro, o que eles visavam era o milagre, o mundo como místico
aparecer provindo desse Eu mais absoluto ou o todo. Nesse sentido, como observa
Benjamin, a reflexão não é o intuir, é o conceber, sendo aqui a ruptura com
Kant mais decisiva, já que não se trata mais de limitar o conhecimento imediato
à intuição, e sim estender o imediato ao sentimento e ao pensar como reflexão.
Assim, enquanto
Fichte orienta sua fenomenologia no sentido de uma compreensão da possibilidade
da ciência, e o mundo, como o outro, são resultados apreensíveis na lógica da
vivência intensional, os românticos se encaminham para compreender a
possibilidade da arte, e o mundo deve surgir como algo não fundado por nenhuma
lógica apreensível, e sim como magia, algo que o Eu realiza pelo intuir
sobre o determinado objeto qualquer como vontade, aptidão a deter a
reflexão e manejar a intuição do mundo conforme o desejo do “Eu originário” ou
o todo, conforme a conceituação de Schlegel.
Benjamin aproxima o
ponto de ruptura. Fichte lida com a reflexão como aquilo que só se presentifica
no pôr do sujeito como idêntico, como Eu. A partir daqui ela seria vazia, e por
isso deve ceder a preminência à intuição intelectual, pois esse, como também
viu Bréhier, é o caso em que a reflexão frutifica, já que o que ela põe é a
ação de seu pôr e com isso o que põe, o Eu absoluto. A intuição intelectual é
pensamento engendrando o seu objeto, sendo que nem mesmo ela seria o método
fichteano que se enuncia dialeticamente, pelo movimento do pôr ao opôr, aí onde
nasce o Mundo. Quanto aos românticos, seu visar da reflexão não conduz à
intuição intelectual mas à forma do conhecer.
A base comum dos
românticos e de Fichte havia sido a reflexão, como o pensar de algo que se
desdobra no pensar desse pensar. Fichte enunciou essa teoria no seu Conceito
da doutrina-da-ciência, e Shlegel designará o pensar de algo como o “sentido”,
o pensar desse pensar como “a razão” ou “o espírito” que é “o sentido que se vê
a si mesmo”. Sempre o “que” do pensar é matéria ou conteúdo para o pensar como
forma. Mas enquanto Fichte limitou a sua tarefa ao pensar que seria ele mesmo
material ao segundo pensar, para dele estabelecer dialeticamente o eu e o mundo,
os românticos se interessaram pelo puramente formal, o pensar do pensar , que
seria o básico de todo conhecimento intuitivo, como conhecer do pensar
qualquer outro conhecimento inferior, sempre o pensamento sobre algum
pensamento já que nada está na exterioridade do Eu.
Pode-se afirmar que o
pensamento romântico desloca a função ontológica da posição, superando-a pela
reflexão, pois parte do simples pensar-se a si mesmo (pensar do pensar)
como fenômeno que seria adequado a tudo, pois tudo só poderia ser a
esse espírito que se pensa, o pensamento do Eu sendo então algo como “a
luz interna” de qualquer pensamento.
“Romantizar” seria
assim, conforme Novalis, a potenciação máxima desse processo espiritual,
pois nele o que ocorre é que o Eu se volta ao Eu, enquanto que dirigir-se à
exterioridade, o sair de si, equivale à operação inversa, radiciação (extração
da raiz quadrada). Romantizando, faz-se o pensamento mais exterior voltar
àquele que o suporta, o conteúdo à forma que é mais superior, e isso é o mesmo
que conceituar o romantizar como processo de “potenciação qualitativa”.
Benjamin localizou a
ruptura dos românticos com Fichte exatamente entre o segundo e o terceiro graus
da reflexão. Ora, o pensar do pensar do pensar introduz a ambiguidade por sobre
aquilo que se havia estabelecido, no pensar do pensar, como a forma mesma da
reflexão. A ambiguidade se pôe pelo que no terceiro grau o pensar do pensar
pode ser o objeto pensado do novo pensar ou o sujeito pensante desse novo
pensar.
Fichte optou por essa
via, enquanto que Schlegel propôs que, se cada novo pensar tivesse o pensar do
pensar anterior como seu objeto, a fragmentação da forma mesma da reflexão
deveria significar que a reflexão se tornou pensamento sem forma, ou seja, que
ela se conduz agora ao absoluto. Assim, conforme mostrou Benjamin, para Fichte
a possibilidade da intuição do Eu se estabeleceu como possibilidade de se
incorporar e fixar a reflexão na tese absoluta, enquanto que isso foi o que fez
Shlegel rejeitar a intuição para estender à reflexão à infinitude de um
processo que,ele sim, devia conduzir ao absoluto.
Ora, o caráter
sistemático dessa proposição de Shlegel está em que se poderia postular uma
essência da reflexão infinitamente realizada, o que seria algo com o que o Eu
do pensar se relaciona assim como a parte com o todo. O todo seria o “Eu
originário”, o tu com relação ao Eu que pensa. A auto-intuição e a
intuição do Universo se tornam intercambiáveis. Qualquer limitação do Eu só
pode ser relativa, já que o todo é originariamente Eu. O milagre é então essa
relação do todo com a parte, do Mundo com algum Eu que pensa ou reflete.
Nesse sentido é que se compreende a real preminência da reflexão no romantismo.
Mas também o que singulariza o fichteísmo como pensamento da finitude, irredutível
à inflexão da infinidade romântica.
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A relação entre
Schelling e o movimento romântico é muito acentuada em Bréhier, que o descreve
na juventude como o filósofo oficial da “escola romântica”, tendo “com decisão
tomado partido contra Fichte”.
Conforme Bréhier,
nesse período inicial a arte era o objeto principal de seu pensamento,
juntamente com a natureza conceituada como hierarquia de potências, desde as
mais inferiores até o reino orgânico. Essa época romântica em que Schelling
publica muito, inclusive sua Filosofia da Arte em 1802, envolve sua estada na
universidade de Iena, em que ele exerceu o mister de preceptor entre 1798 e
1803.
Após a estada em
Iena, sobrevém o longo período místico que Bréhier localiza após 1803, relacionado
às leituras de Jacob Boehme e às relações com Baader. Nessa fase, Schelling
percorre várias instituições e viaja por Wurzburg, Erlangen, Munique, Berlim,
publicando raramente e escrevendo manuscritos de cursos relacionados ao seu
trabalho nesses lugares.
Philonenko ilumina o
percurso de Schelling tendo como referência as Lições de Munique (1827), em
que Schelling, nesse escrito sobre história da filosofia, descreve as fases de
sua obra. Inicialmente tendo se colocado como comentador de Fichte e “como
convém à idade”, ele de modo algum postulava a ambição de construir um sistema
pessoal, mas apenas encontrar algum que pudesse considerar pessoalmente
satisfatório. O documento dessa fase é o Sistema de Idealismo Transcendental,
publicado em 1800.
Contudo, Philonenko
mostra que a adesão confessa ao fichteísmo foi contestada pelo exame de Metzger
sobre essa obra, que revelou o fato da originalidade de Schelling mesmo no
período inicial de sua juventude, o que torna o salto ao segundo período menos
uma questão de explicar alguma profunda transformação conceitual do que um
problema periodológico. Pois aquilo que se torna porterior ao impulso de
juventude, o sistema da filosofia da natureza (naturphilosophie), parece
já estar presente na época do fichteísmo confesso, apenas não apresentado de
modo autônomo.
Em todo caso, em 1805
Schelling registra na carta a Eschenmayer uma plena consciência da
originalidade de seu pensamento que já apresenta os três aspectos que puderam
ser escalonados como “fases”. Pois a filosofia da natureza, uma “física
especulativa” conforme a expressão de Philonenko, misturada inicialmente ao
projeto fichteano, desenvolveu-se no sentido de uma filosofia da identidade, a
que Philonenko faz subsumir os escritos sobre arte. A essa filosofia da
identidade se sobrepõe aquilo que Philonenko descreve como um pensamento moral
e religioso metafisicamente afastado do mundo cotidiano ou da experiência,
expresso no artigo Filosofia e Religião.
Essa inflexão moral
se mantém no período após 1809. Mas nessa época o seu pensamento se orienta
mais no sentido que , conforme Philonenko, “se convencionou nomear a teosofia
de Schelling”. Somente agora trata-se do período efetivamente místico, tendo
sua “apoteose” na filosofia da mitologia e na filosofia da revelação.
Após o esquema
inicialmente proposto do percurso de Schelling conceituado em dois períodos, um
dos quais decisivamente romântico e anti-fichteano, Bréhier tematiza as
relações de Schelling com Fichte como algo necessariamente conexo à evolução
mística do pensamento de Schelling. Philonenko faz o oposto, pois ele mostra
que a originalidade de Shelling, conduzindo finalmente à teosofia, só se afirma
por um aporte conceitual que é de início fichteano.
O ponto de incidência
aqui é a filosofia da natureza, como conceituada inicialmente por Schelling. Na
exposição de Philonenko, o que ocorre é que Schelling estaria expondo, ou
pensando assim estar fazendo, a idéia de Fichte acerca da história da filosofia
pós-kant pela qual só teria restado a oposição entre o dogmatismo espinozista
da Substância ou o criticismo de Kant que permanece nos limites do Eu penso.
Ora, desse modo a oposição se põe entre o objeto absoluto ou o Sujeito
absoluto, filosofia do mundo e filosofia do Eu.
O que atrai o
pensamento de Schelling nesse período inicial é então constituir a contraparte
do dogmatismo, reconstruindo a Ética de Spinoza sobre a base dessa conceituação
de Fichte. Assim, tratar-se-ia de substituir a Substância pelo Eu absoluto e
atribuir ao Eu o que a Ética havia atribuído à Substância. Nesse caminho
Philonenko mostra que Schelling, conscientemente ou não, já estava se afastando
do fichteísmo, pois sua apresentação do Eu absoluto na verdade não conserva as
determinações do conceito homônimo de Fichte.
Em todo caso,
Schelling via no Eu absoluto algo comparável ao intelecto arquétipo kantiano, e
o estabelecia como princípio em que deveriam ser coincidentes o ser e o pensar.
Como princípio de saber, a realidade total do Eu absoluto precisava ter como
postular algum outro princípio, o Não-Eu, o nada, apenas do ponto de vista
condicionado conservando alguma realidade, ainda que apenas relativa ao Eu, uma
realidade dentro desse Eu. Assim se estaria consolidando também a filosofia
prática, pois o terceiro aporte desse movimento conceitual seria o Eu finito,
conciliando o Eu absoluto e o Não-Eu. A liberdade, traço fundamental do Eu
absoluto, seria algo recuperável na atividade do Eu finito, atividade que seria
sempre uma tentativa de reestabelecer o Absoluto em sua identidade.
A originalidade de
Schelling se lança nesse hiato entre o Eu absoluto e o Não-eu, pois se
continuam a ser conceituados por uma irredutibilidade de princípio, como no
fichteísmo, agora essa irredutibilidade é movimento no tempo, e a propósito
desse aporte Shellingniano,Schiller lançou a expressão “Aufhebung”, que será
tão importante em Hegel. A “supressão” agora seria a do próprio tempo no tempo,
pois o Eu finito opera a síntese do Eu absoluto e do Não-Eu no tempo, mas de
modo que a temporalidade assim se constitui, não deixando nada subsistir de
intervalo ou hiato, a subjetividade no mundo conservando-se como imediatez por
meio da finitude ou síntese dos dois princípios de Identidade e Alteridade.
Ora, para recuperar aquilo que ultrapassa a temporalidade, a Identidade no
sentido do Eu absoluto, resta a intuição intelectual e aqui Philonenko nota que
esse conceito foi proposto por Schelling anteriormente ao próprio Fichte.
Esse percurso é
desenvolvido por Bréhier de modo que inicialmente Schelling teria se preocupado
em construir uma filosofia da natureza, intenção a que se sobrepôs a influência
dos místicos Boehme e Baader, e mais geralmente a ambiência da época, desde o
pré-romantismo tipificada por Saint-Martin, então famoso na Alemanha. Assim,
logo após 1803 a filosofia da natureza de Schelling estaria estreitamente
relacionada à teosofia, e o traço comum com o misticismo do período seria o
legado antigo-feudal de uma idéia da natureza como todo autônomo, os corpos
materiais sendo transições dentro dessa realidade maior e imutável. Nesse
aporte não se conceitua nenhuma realidade material separadamente, conforme sua
lógica própria ou como se fosse nela mesma uma força, mas se procura, para
compreendê-la, a sua ligação com o todo. A novidade de Schelling aqui é a
introdução de termos relacionados à ciência da época, que se desenvolvia não
inteiramente dependente dos arroubos místicos e mantinha setores de pesquisa
mais rigorosos.
Assim, Novallis usou
a expressão “oxigeísmo” universal para caracterizar o sistema que Schelling
idealizou de uma natureza independente e autônoma que se rejuvenesce sem cessar
pelo princípio do Oxigênio. Mas depois Schelling substitui o oxigênio pela
polaridade tipificada na eletricidade e no magnetismo. A natureza seria organizada
pela alternância rítmica entre princípios opostos como o oxigênio e o
flogístico, o positivo e o negativo, que devem se compensar sempre que se
institui um desequilíbrio entre eles. No ser inorgânico somente o princípio de
compensação basta para assegurar a existência, mas nos seres orgânicos ao par
de forças opostas se reúne uma potência superior que as utiliza como
instrumentos na ação de manter a vida.
Ora, essa filosofia
da natureza começa a parecer ao próprio Schelling, conforme Bréhier, muito próxima
da Doutrina da Ciência de Fichte, bastando para equalizá-las substituir
ao princípio de Subjetividade fichteano a Natureza, em todo caso trantando-se
da atividade infinita que se afirma ao pôr o seu oposto. Bréhier conceitua
então a intenção de Schelling relativamente à filosofia de Fichte como o desejo
de reduzi-la a um traço de método no interior da sua própria filosofia da
natureza, intento que teria que conduzir, porém, ao afastamento do misticismo a
que o havia trazido a Naturphilosophie, de modo que o resultado dessas
reviravoltas teria sido a sua filosofia da identidade e a ruptura total com o
fichteísmo. Aqui Bréhier fala das relações “tempestuosas e complicadas” entre
esses dois pensadores, “amigos inimigos que não podem nem se separar nem concordar”,
e menciona o “artifício de Schelling” que teria sido um certo uso da doutrina
de Fichte, a saber, a substituição da oposição do Eu e do Não-Eu pelas relações
polares constitutivas da natureza.
Agora essa polaridade
se conceitua em torno de uma atividade da Natureza que tende a se aglutinar
como fluído homogêneo, infinitamente extenso, ao que se contrapõe uma força
atrativa como um limite que produz nesse fluído uma coesão em variados graus.
Atividade e coesão sintetizadas nos organismos que são ao mesmo tempo atividade
e coisa, “coisa penetrada pela atividade”. O movimento que produz as forças da
Natureza se torna um jogo de oposições e sínteses idênticas à gênese da
consciência de Fichte. Em ambos trata-se de um ritmo lógico de desenvolvimento
de princípios. Mas Bréhier acentua a irredutibilidade de intenções, pois em
Fichte o método permanece inseparável da doutrina. O Eu pode oferecer a base da
dedução porque ele se põe como ação viva, sem precisar de nenhum outro
princípio, enquanto que a Natureza é um produto objetivo, não uma ação nesse
sentido, portanto, não poderia oferecer nenhum princípio de movimento que fosse
inteiramente auto-consistente.
A isso Schelling se
opõe conceituando a Natureza como ação viva, e aqui Bréhier localiza o que há
de paradoxal nessas relações entre o fichteísmo e o shelingnismo. Schelling
supõe que Fichte conceitua a heteronomia da natureza, como se ela fosse apenas
o objeto da representação servindo à finalidade de suporter a aplicação da ação
moral. Mas a naturphilosophie estaria lidando com uma conceituação da
natureza como atividade autônoma e autoconstitutiva. O problema seria então
como estabelecer a necessária intuição que nós temos dessa atividade. Ora,
Fichte se instalou em terreno firme ao estabelecer qualquer intuição numa
relação originária com a auto-reflexão. Schelling, conforme Bréhier, teria se
limitado a voltar ao dogmatismo pré-kantiano introduzindo uma intuição da
Natureza ou do Outro, irredutível ao Eu, sendo ao mesmo tempo “o mais fiel e o
mais infiel ao espírito de Fichte”.
Creio que uma questão
interessante quanto a isso seria ver se a definição de Hegel a propósito de sua
filosofia como completude de toda atividade filosófica possível não se
relaciona com a impressão de ter fornecido uma síntese entre esses dois
caminhos, o subjetivo e o objetivo, problema que o criticismo kantiano
determinou como central ao se antepor ao dogmatismo.
Hegel estava
intimamente relacionado ao ambiente de Fichte e Schelling e certamente ter
formulado a síntese entre esses dois pensadores devia ter parecido algo como
alcançar o objetivo máximo naquela época. Isso não somente no plano mundano,
mas também na imanência da filosofia mesma já que a oposição entre os pólos do
sujeito e do objeto, de fato só repõe o confronto entre criticismo e
dogmatismo, como a exposição de Bréhier tem o mérito de esclarecer. No entanto,
essa questão só poderá ser desenvolvida na aproximação da filosofia de Hegel,
aqui sendo interessante observar que Bréhier tentou estabelecer o percurso do pensamento
de Schelling na sua confrontação aparentemente paradoxal com Fichte,isto é,
tentou reconstituir o modo pelo qual Schelling se compreendeu relativamente a
Fichte.
Tudo gira em torno da
doutrina da ciência do fichteísmo. Schelling a pensou como uma “álgebra
metafísica” , na expressão de Bréhier, que seria “feita de signos universais” a
que se poderia conceder “valores concretos” que conviriam “à solução de cada
problema particular”. No entanto, na intenção de Fichte a doutrina da ciência
deve se limitar a ser uma “gênese da consciencia de si”. A idéia de fazer da
gênese da consciência um problema distinto da teoria da ciência, inaugurando a
região da filosofia da natureza, seria incompreensível a Fichte. O Sistema
do idealismo transcendental, que vimos Schelling nomear como seu escrito
fielmente fichteano, seria, para Bréhier, exatamente o desenvolvimento dessa
idéia. Para compreender esse paradoxo, Bréhier propõe que inicialmente trata-se
mesmo de Fichte, pois se empreende mostrar o Eu tornando-se autoconsciente
devido ao seu encontro problemático com o mundo, a resistência do objeto
enunciando-se como limitação de uma atividade que parece então não, por si
mesma, limitável.
No entanto, vimos que
Fichte procura, na gênese da relação do Eu com o Mundo, uma correspondência
entre os pólos de preminência do “eu” e do “não-eu”, entre os conceitos
teóricos e práticos, mais geralmente entre a representação e a ação. O que
Schelling transforma decisivamente, ao reunir à parte teórica que é, no
fichteísmo, dedução de faculdades representativas como a sensação, a intuição,
a reflexão e o julgamento, não mais à parte prática, mas à filosofia da
natureza, às forças constitutivas da matéria, como magnetismo, eletricidade,
quimismo, organismo. Aos atos da inteligência o correlato não mais se põe como
atos éticos sobre o mundo, mantendo-se na restrição do humano, mas sim os
momentos de construção da matéria. As forças que dormitam na matéria teriam a
mesma natureza das forças representativas, conforme Hemsterhuys e Leibniz.
Unindo a filosofia
teórica à filosofia da natureza, quanto à filosofia prática, Schelling a reúne
a uma filosofia da história. Manifestação da liberdade e revelação progressiva
de Deus, a história se desenvolve porque se Deus pudesse ser no mundo
objetivo, o ser humano não teria razão de ser. Assim, a história é o lugar do
humano naquilo em que manifesta o desenrolar da manifestação de Deus, o que
impõe a idéia de totalidade como horizonte de sentido da história. Schelling
antepõe Herder, como também Saint-Martin, a Fichte.
Bréhier localiza
nessa filosofia da natureza não somente a teleologia, mas também a filosofia da
arte, que vimos Philonenko associar à filosofia da Identidade. Enquanto para
Fichte o problema era estabelecer a penetrabilidade da natureza pelo Eu, e
assim se devia aportar ao conceito da liberdade prática, para Schelling,
conforme Bréhier, essa questão se transpõe como uma exigência da vontade, sendo
que a penetração do Não-Eu pelo Eu se fornece como uma regra à vontade, não como
o objeto de uma intuição. O que sugere a procura de um objeto que realize
efetivamente a exigência da vontade pela intuição. Nese objeto o ideal penetra
o real, e seria o caso, conforme Schelling, do organismo vivo com relação à
natureza e da obra de arte com relação ao espírito. O artista genial une a
inspiração, forças inconscientes e impessoais, às forças conscientes na
produção da obra, e vemos assim a arte como testemunha da identidade do
espírito e da natureza, do consciente e do inconsciente, do ideal e do real.
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Philonenko desenvolve
as implicações da intuição intelectual assim como proposta por Schelling: não
conceitual, pois absoluta, sendo que todo conceito só é possível na esfera dos
objetos finitos, cada conceito exigindo um conceito superior que lhe fornece a
identidade, essa intuição tampouco é sensível, mas intelectual, pois não é
pasiva, nem condicionada, e sim como um ato não-mediado. Assim, se é na
intuição intelectual que Schelling porta a via que conduz ao absoluto, pelo que
Schelling também objeta ao kantismo a interdição do uso dessa noção, é preciso
ver que nem por isso seu pensamento deixa de se relacionar ao dos românticos,
mantendo-se as observações de Benjamin acerca da oposição destes a Fichte,
precisamente, devido à noção de Intuição Intelectual. Pois veremos que
Schelling não a define do mesmo modo que Fichte. Ora, Philonenko esclarece que
a mensuração exata acerca das relações das concepções do Schelling inicial com
a filosofia de Fichte é a questão que domina a interpretação desse período
inicial do pensamento de Schelling.
Philonenko se
contrapõe à posição de Cassirer que identificava as perspectivas dos dois
pensadores. Aproveitando o aporte de Gueroult, quanto à exata delimitação das
noções de intuição intelectual em Fichte e Schelling, Philonenko afirma que o
que poderia ter havido de fichteano na filosofia inicial de Schelling tinha a
ver com um problema que ele desenvolve de modo inteiramente irredutível àquele
de Fichte. Trata-se da espessura entre o Eu absoluto e o mundo, que em Fichte
conduz ao desenvolvimento teórico de uma lógica dos princípios, enquanto
Schelling compreende essa espessura como a questão nada fácil de conceituar a
relação do infinito ao finito, a transição daquele a esse. Nessa via, a posição
de Philonenko parece algo aproximada de Bréhier, pois ele também propõe que
schelling, de modo inverso a Fichte, se inclina menos para um pensamento da
subjetividade do que para o Ser, menos para Kant, ao que parece, e mais para
Spinoza.
O absoluto é que se
torna sujeito nas proposições em que a atribuição pode ser o Eu, a Eternidade,
a Identidade, etc. A intuição intelectual de Fichte se estende a todos os atos
da consciência, portanto abarca a intuição sensível e o tempo. Schelling conceitua
a intuição intelectual como um ato completo, perfeito, irredutível ao tempo ou
ao sensível, de modo que estes são os aspectos que restam a explicar, já que
tendo se afirmado o Absoluto, sua vocação ao infinito não oferece problema
algum, tampouco o situamento nesse absoluto do fato do espírito, no sentido da
consciência. Mas como explicar que essa consciência tenha se tornado finitude,
consciência de algo como o mundo?
Assim também a
posição de ambos frente à questão filosófica central como escolha entre
dogmatismo ou criticismo, conforme Philonenko, não se apresenta do mesmo modo,
pois Fichte considera o pender ao criticismo como um ato de liberdade, o que
relança a ascendência da filosofia prática, enquanto Schelling, sem negar
frontalmente essa asserção, pensa que seja qual for a orientação, ela deve
ultrapassar a consciência humana, enquanto Fichte, ao menos no início, pareceu
querer limitar-se a ela. Schelling, preferindo encaminhar-se ao Ser, não deixa
de se propor como ideal uma unidade entre essas possibilidades, que ele avalia
de uma perspectiva estética. Philonenko parece localizar nesse ponto a
motivação de Schelling à constituição de uma filosofia da identidade.
Em todo caso, se
Schelling “escolhe” efetivamente, o que parece significar que nominalmente
elege o criticismo, ele não deixa jamais de ser seduzido pela unidade. Mas como
poderia não escolher assim, se as interrogações básicas estão traduzindo a
questão essencial do kantismo, sobre como são possíveis os juízos sintéticos a
priori, modo pelo qual Schelling posiciona a oposição entre “realidade
finita “ e “liberdade absoluta”?
Fichte havia
desenvolvido esse problema a partir da relação da consciência com o objeto,
pois ambos “se condicionam reciprocamente”, conforme a expressão de Philonenko,
a consciência de si surgindo pela consciência do objeto. O que Schelling objeta
aqui é que não se pode considerar a consciência de si como o objetivo ao qual
tenderia o espírito através da produção do objeto e de certas estruturas de
condicionamento, mas que seria preciso localizar a série dos atos do espírito
que precedem a consciência de si, série inconsciente, que tende ao saber de si
e que Schelling identifica como sendo a Natureza.
A noção de que a
autoconsciência do real envolve uma progressão na qual se constitui a “história
do espírito humano”, que será tão importante em Hegel, já está plenamente
enunciada por Schelling, conforme Philonenko, ainda que a Forma (Gestalt),
espírito, supondo algo mais do que a matéria como realização superior dessa
Natureza que, no entanto, vem operando desde as organizações mais simples e
materiais, não seja conceituada do mesmo modo em ambos.
Creio que essa
conceituação é mais romântica do que propriamente reportada ao fichteísmo, pois
tratava-se, na Reflexão, justamente de assegurar esse espelhamento de sujeito e
natureza pelo que o espírito se realiza ou se autocompreende no devir do
sujeito. Essa natureza não é a de Descartes, dualidade irredutível de matéria e
espírito, nem a dos vitalistas, pelo que a via dos organismos é independente da
simples organização material pela presença da força vital. Natureza nesse
sentido schellingniano-romântico se relaciona à idéia de organização como
finalidade imanente, ao mesmo tempo como algo que se desenvolve (história do
espírito), podendo ser conhecido.
Philonenko sublinha o
paradoxo do percurso de Schelling: vindo de uma interrogação bem ao modo do
kantismo, esse hilozoísmo a que conduz a Naturphilosophie é bem o oposto
do que Kant havia delimitado como filosofia da natureza sob o ponto de vista do
criticismo. Ele mostra, contudo, que esse paradoxo já havia sido interpretado
por Fischer como unificação da idéia de vida provinda do kantismo e da noção de
inteligência inconsciente, do fichteísmo, mas também uma síntese dessas idéias
filosóficas essenciais da época com idéias científicas também importantes
naquele período de transição entre os séculos XVIII e XIX. Quanto a isso, o
mérito de Schelling se acresce por ter sido também um crítico da ciência,
recusando, por exemplo, as expressões que nesse período procuravam traduzir na
linguagem do senso comum certos fenômenos físicos ou químicos, o que Bachelard
mostrou como obstáculo epistemológico de cuja remoção dependeu a ciência
contemporânea. Nisso Schelling seria finalmente menos criticável do que os
românticos, como Goethe e Hegel, que se aventuraram na física.
O essencial nesse
panorama pós-kantiano é a noção de conflito, de dualidade não-cartesiana, por
não antepor suas partes como irredutivelmente estanques mas sempre supor entre
elas um movimento. Assim a relação entre o Eu e o Não-eu fichteano, assim a
polaridade na filosofia da natureza de Schelling, que utiliza sugestões de
Galvani e Volta acerca da eletricidade animal, do mesmo modo como o anterior
oxigeísmo havia se servido das pesquisas de Priestley e Lavoisier. No entanto,
essas noções de Schelling são menos visados como funcionamentos localizados ou
leis da natureza do que ao modo de princípios universais, lei cósmica.
O que repõe a questão
sobre a relação do pensamento de Schelling e Fichte, pois intérpretes, como
Ficher ou Kroner, conforme Philonenko, localizam na polaridade um desdobramento
da dialética do Eu e do não-eu, inerente ao fichteísmo: seria legítimo o
empreendimento de Schelling, a saber, a utilização, em nível de natureza, de
uma estrutura especificamente própria ao Eu?
O que Schelling teria
possibilitado seria algo como a redução de todo dualismo, mesmo dialético ao
modo de Fichte, a um “monismo genético que conduz da natureza ao espírito”, na expressão
de Philonenko. Aqui também a oscilação entre o objetivo e o subjetivo é uma
questão de escolha do ponto de vista da reflexão filosófica. Mas se essa opção
no fichteísmo devia recolher o mesmo fenômeno de conexão de consciência e
mundo, de modo a estabelecer-se a esfera prática como ápice dessa
interpenetrabilidade com precedência do Eu, em Schelling trata-se de uma
progresão genética, do objetivo ao subjetivo, da filosofia da natureza ao
idealismo transcendental.
A natureza opera por
níveis de fenômenos que engrendram uma verdadeira gênese da consciência: o
magnetismo, a eletricidade, o quimismo, no nível mais inferior a que se sucede
o nível orgânico que apresenta sensibilidade, irritabilidade, organização. A
liberdade mesma se afirma como potência autônoma de desenvolvimento da
natureza, pois há inseparabilidade dos dois pólos do conhecimento, e tendo se
desenvolvido a compreensão da filosofia da natureza, o outro pólo do idealismo
transcendental se apresenta como irresistivelmente atrativo. Assim, nesse pólo,
trata-se da constituição do Eu em dois planos, teórico e prático, que abarcam a
história do sujeito e respectivamente abrangem as épocas características da
consciência (sensação, intuição, reflexão) e depois o que se relaciona à
vontade (moralidade, política, filosofia da história), Schelling não deixando
de reservar também um terceiro plano, o estético, como síntese entre o teórico
e o prático.
Philonenko sublinha a
unidade de método presente no teórico e no prático, enunciada já pela possibilidade
dessa síntese que repõe a importância da atividade estética, o que no kantismo
se mantinha pela autonomia da faculdade de julgar. O mundo ideal da arte e o
mundo real dos objetos são produzidos pela mesma atividade, apenas opondo o
modo consciente da arte ao modo inconsciente de produção da natureza. O que a
arte revela é a identidade do real e do ideal, o que impõe a proximidade da
filosofia da identidade, período posterior ao da filosofia da natureza em que
havia uma alternância incontornável com o idealismo transcendental e o
fichteísmo. Schelling nomeia essa identidade Razão, verdade em si ou Saber
absoluto, impossibilidade de diferenciar subjetivo e objetivo, Aqui o
fichteísmo é conscientemente objetado por Schelling, pois para desenvolver a filosofia
da identidade é preciso “fazer abstração do sujeito pensante”, sendo que a
doutrina de Fichte é por ele conceituada agora como um idealismo subjetivo que
desconhece a natureza. Já vimos a fórmula dessa Razão, ao estudar o
espinozismo, pois Deleuze a utiliza para ilustrar a conceituação da Substância
em sua relação com os atributos: A = A ³ que Philonenko define como
totalidade-una, cuja lei é identidade, não como causa do universo, mas o
universo ele mesmo.
A finitude, aquilo
que a filosofia da identidade deve explicar, se compreende também na base de
uma estrutura de polaridade, conforme a observação de Fischer, citada por
Philonenko. Há seres finitos desde que se introduz uma diferença de quantidade
entre o subjetivo e o objetivo, restando a sua não-diferenciação como
infinidade. O ser finito é uma forma determinada do ser que é identidade
absoluta. Nessa identidade parcial ou forma determinada ora predomina o
objetivo, ora o subjetivo.
A matéria corresponde
a um máximo de objetividade, a obra de arte corresponde a um máximo de
subjetividade. A matéria é primeira potência, o espírito é suprema potência.
Entre esses dois pólos “se desenrola o desenvolvimento do mundo”, conforme a
expressão de Philonenko, ao modo de “exposição” – aqui ele faz intervir
esse importante conceito de “Darstellung”, que será central na fenomenologia
do espírito de Hegel – como momento singular no desenvolvimento. Cada
momento é exposição do princípio, uma totalidade relativa, um A=B, enquanto o
absoluto é a identidade (A=A).
Philonenko define as
potências como momentos pelos quais a relação sujeito-objeto concretiza por um
lado o máximo de objetividade e por outro a consciência de si. Na identidade a
consciência de si está já completa, mas no mundo ela deve se desenvolver, apresentando-se
como progresso de potência em potência. As potências são as idéias, que
Schelling compreende em sentido platônico: idéias no absoluto, potências na
natureza, são o mesmo, coisas em si, que se reúnem no limite como unidade, “a”
Idéia no Absoluto, “a” Essência que todas as coisas da natureza interiormente
formam. O em-si se torna objeto de uma intuição intelectual estética, o
filósofo, aqui, podendo atingir o que na realidade é permanente. A
filosofia se torna Estética, arte que permite atingir as idéias.
A filosofia do Eu
conduz à filosofia da natureza que, por sua vez, resulta em uma filosofia da
identidade que tem como órgão a arte, a estética que ensina a construir o
mundo, isto é, compreendê-lo como racionalidade organizada, mas isso sem que
seja possível evitar a consequência da desvalorização do fenômeno, na
espácio-temporalidade, que tomba assim no nada, mundo de sombras – as quais
resta explicar como surgem.
Philonenko reporta o “intolerável”
da situação de Schelling. O Absoluto é o nada de diferença, apesar da doutrina
das idéias, pois não se identifica com nenhuma idéia particular, sendo mais
como a Identidade que reúne a todas como aquilo que lher permitiria ser. Mas o
fenômeno é completamente o Nada, e portanto, para o saber, resta a escolha
entre o nada transcendente e o nada imanente. Incide aqui, Philonenko registra,
a crítica de Hegel a Schelling, pois uma identidade que se repõe por todos os
lugares parece mais um formalismo do que uma real compreensão do Ser.
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A leitura de
Heidegger acerca da filosofia de Schelling, conforme o Nietzche II,
parece se contrapor tanto à visão de Cassirrer, pelo que haveria uma
continuidade de Schelling ao fichteísmo, quanto aos diagnósticos de Philonenko
e Bréhier acerca da guinada dogmática de Schelling. Ao invés disso, Schelling
estaria inaugurando uma possibilidade que iguala, por seu pioneirismo, o
criticismo kantiano. Seria como uma contraproposta histórica ao criticismo, o
que impõe uma reavaliação do cenário do pós-kantismo. Kant não teria inserido o
criticismo como alternativa radical ao modo de pensar tradicional, dogmático,
mas seu pensamento teria operado em profundidade, de modo a determinar também
sua contraparte, numa transformação total do campo epistêmico.
A novidade de
Schelling, conforme Heidegger, teria sido a introdução de, nada menos, que a
filosofia existencial. Com efeito, ele localiza o conceito de existencial como
tendo surgido de modo pioneiro com Schelling.
A oscilação que vimos
o schellingnismo manter entre filosofia da natureza e idealismo transcendental,
a reciprocidade que ele fazia intervir entre esses dois polos que se estariam
designando como, respectivamente, do objeto e do sujeito, pôde, no entanto,
conduzir a interpretação desse pensamento como dogmático, isto é, como se o
aporte transcendental aqui não estivesse devidamente estabelecido.
Na verdade, Heidegger
mantém essa denegação do papel transcendental na filosofia de Schelling, pois
na história da cultura em que se assiste à emergência das ciências humanas, a
oposição entre transcendental e existencial será axial. Ela está inteiramente
presente na controvérsia acerca do método das ciências do humano, do “compreender”
de Dilthey ou do “Verstehen” de Weber, contrapondo-se ao mesmo tempo ao positivismo
e ao transcendental de Husserl, de modo que poderíamos, talvez, demarcar essas
três vertentes como axiais na formação das ciências do humano. Se isso for
mesmo assim, a filosofia de Schelling inaugura essa possibilidade alternativa
entre as perspectiva puramente empírica e transcendental, em ciências humanas,
conforme as sugestões de Heidegger.
O texto sobre
Schelling no Nietzsche II é muito pouco claro, bastante enigmático, portanto a
dose de cuidado aqui deve ser redobrada ao se propor uma interpretação. Sem
dúvida há posições bem nitidamente consolidadas, como a atribuição da
emergência do existencial a Schelling e a demarcação de Heidegger acerca de seu
próprio afastamenteo desse conceito de existencial que, para ele, é
simplesmente o acabamento da metafísica no sentido do seu cumprimento mais
indubitável.
No entanto, Heidegger
escolhe uma via textual fragmentada, lançando expressões substantivas,
desligadas, como num poema, de modo que o resultado se torna instigante, algo
misterioso. Não obstante, creio que o texto não interdita algumas vias
satisfatórias de interpretação, se bem que, se Heidegger ambicionou
performatizar a qualidade silenciosa da voz do ser no pensar autêntico,
isso com que só podemos lidar num nível que é inefável e que no entanto não é
menos formador, algo que é mais como uma tonalidade do que uma
informação, esse trecho final do livro sobre Nietzsche é uma realização desse
intuito – tanto mais que escolhendo Schelling como o pensador que cumpre o
destinação da história do Ser, ao invés do habitual endereçamento desse papel a
Hegel, ele se pôs de um modo ou outro nessa paragem romântica, em que o
pensamento se inclina à criação e à arte, ou, escutando Schelling, “isso que
nós chamamos natureza é um poema cuja maravilhosa e misteriosa escritura
permanece para nós indecifrável”.
O afastamento de
Heidegger desse conceito do existencial poderia, a meu ver, confirmar a
impressão de que Schelling está desenvolvendo a vertente que será expressiva
nas ciências do humano. Com efeito, Heidegger assinala, como algo negativo, não
convindo com o seu próprio intuito, a convergência a partir precisamente de
Schelling entre a metafísica e a antropologia, talvez aquilo que Foucault,
manifestamente influenciado por Heidegger, designava o “postulado antropológico”,
elemento decisivo na consolidação da Episteme contemporânea em ruptura com o
pensamento clássico.
Heidegger pensa, a
meu ver, que Schelling estabelece essa Episteme assim conceituada por Foucault,
mas que esse cumprimento da metafísica, que é ao mesmo tempo produção do campo
de emergência das ciências humanas, encontra uma via filosófica de – historicamente
problemática – continuidade em Kierkegaard e Nietzche, como duas possibilidades
conceituais de fechamento, o texto usa “restrição” no caso de Kierkegaard, a
partir dessa matriz existencial. Aqui devemos examinar como Heidegger
estabeleceu o pensamento existencial de Schelling para depois compreender como
ele o relacionou a esses dois pensadores.
Lembrando que o fio
condutor da história estava se estendendo como variação em torno do tema da
oposição essência-existência, origem da via metafísica de todo pensar,
Heidegger agora estabelece uma atribuição dessa oposição em termos do
acoplamento schellingniano entre dois conceitos, “existência” e “fundamento”.
Utilizando o fundamento nesse aporte, a oposição essência-existência poderia
ser lida do seguinte modo: essência está para Existência assim como existência
está para o existente e o fundamento está para o fundado. Isto é, dentro do par
o termo “essência” é a Existência pura enquanto fundamento ou possibilidade de
ser, sendo “existência” apenas o existente enquanto o fundado, o fato de ser. A
Existência no sentido metafísico forte envolve a constância da presença que
nenhum ser de fato possui, mas que se torna fundamento enquanto possibilidade
de ser, ou essência.
A articulação do
pensamento de Schelling com Kierkegaard me parece repor a operação cristã pela
qual essência se desvincula aparentemente de Existência, por ser esta atribuível
e atribuída apenas a/por Deus. No entanto, o ser que se torna existente é
sempre essência, isto é, continua a haver a vinculação propriamente metafísica
do ser como Existência no sentido de presença constante, mesmo no tomismo.
A novidade de
Schelling, conforme Heidegger, é que ele, de modo pioneiro, quebra o nexo
histórico entre Existência e fundamento. Heidegger descreve essa transformação
no uso desses termos chave da história da metafísica com base na oposição entre
as expressões “fundamento da existência” e “existência do fundamento”, com que
lida Schelling.
Essas expressões
relançam o problema que vimos ser tão importante no desenvolvimento do
pensamento de Schelling. O fundamento da existência é vontade, e poderia ser
pensado em termos de Natureza ou Identidade ou Razão, em todo caso, teríamos
uma realidade autoconsistente, que de nada precisa para se fundar, sendo em si
mesma o que é. Mas a “existência do fundamento” presentifica o fato de que o “ser”
deve ser-para. Não somente temos agora o problema da transitividade daquilo que
é Idêntico à alteridade do mundo de aparências e multiplicidade, mas também o
problema do conhecimento, já que o que o ser só pode ser conceituado como
posição, como propriedade do ente pelo que ele é modalidade, uma possibilidade
ou uma necessidade. A existência do fundamento é entendimento, e o pensamento
existencial é aquele que estabelece um certo tipo de relação entre esses dois
pólos, pela qual existe uma interdependência entre eles.
Essa interdependência
se põe de modo que o entendimento, a existência do fundamento, a consciência, é
não apenas derivada do modo de ser da vontade, do fundamento da
existência, da Natureza ou Razão, mas é um modo de presentar do ser
desse todo abrangente. Uma auto-presentação, creio que se poderia colocar, que
funda a Re-presentação no determinar daquilo que é originalmente Ação.
É por isso que, nesse
aporte existencial, a metafísica como que acarreta a Antropologia, a filosofia
produz a ciência do humano. O ser humano se investe, enquanto (animal) racional
que existe sobre o fundo da Existência que é Razão ou Identidade pura, como
aquele em que o assegurar ou o produzir da apropriação do Ser pelos entes se
refaz. Heidegger mostra que aqui, as múltiplas estruturas do existencial estão sendo
propostas em termos de criação poética, pensamento, ação, crença, pelo que se
pode compreender a extensão de Kierkegaard, o cavaleiro da fé cristão, e de
Nietzche, que Heidegger pensa em termos de super-homem como soberania
incontestável do homem por sobre a natureza e o ser, desde o pensamento
estético de Schelling.
Se a forma da
subjetividade é a Identidade, e a Identidade é a forma do Absoluto, a
humanidade cumpre nela mesma, enquanto subjetividade, a realidade do
ser-para-si. Heidegger coloca isso em termos de que o Ser está agora se
descrevendo como propriedade do humano, enquanto animal racional. O ser humano
se torna o existente em que a Existência se funda. Parece-me que esse é o traço
que Heidegger destacou como demarcando a via do pensamento existencial,
possibilitada no pensamento de Schelling.
O desdobramento desse
pensamento na filosofia de Kierkegaard é proposto por Heidegger como uma “restrição”
ao conceito de existência, assim como vindo de Schelling, a que se atrela então
o a problemática da fé e do ser cristão. Esse tema deverá ser desenvolvido
posteriormente, ao nos aproximar da obra de Kierkegaard, por ora sendo mais
oportuno observar como Heidegger antepõe o seu próprio pensamento da
Existência, irredutível a uma via que deverá pavimentar o acesso às ciências do
humano.
Heidegger pensa “existência”
como caráter do Dasein, história do Ser. Conserva-se desse modo o co– pertencer
da verdade e do ser de modo que essa interpenetração é ao mesmo tempo
essencializante. Mas o “caráter” é justamente algo não “essencial” no sentido
de dado previamente ao ser, e sim algo constituído como verdade no ser. A
relação com a humanidade aqui é tangencial, pois “humanitas” vem sendo, na
história da metafísica, enunciada em termos de animalidade e racionalidade,
isto é, um dado prévio ao homem em meio ao Ser, que o desvia de sua destinação
ao ser, que o entrega ao ente e que entrega a ele tão somente o ente.
Penso que a exiguidade
da expressão de Heidegger nesse momento do texto se propõe também como interatividade,
como se forçasse a pensar, o leitor devendo extrair consequências mais do que
deparar com elas, até porque essa operação é temporalizante, nos restituindo
algo do Ser pela nossa inserção dentro do pensamento do Ser. Interessante então
observar que no início do texto – e Heidegger aqui insiste na “rememoração”
como algo que relaciona o início – Heidegger estava situando a metafísica como
um rodeio que se havia tornado necessário à intenção de meramente afirmar a
identidade entre Ser e Existência. A esência como o isso que é, possibilidade
do existir ou Existência em si, e a existência no sentido de que “isso”,
enquanto já um ente, “existe”, sendo o existente, enuncia a subtração do
problema da presença como desocultamento pela decisão de se livrar do problema
afirmando sem mais que a presença é a permanência – logo, restando a
duplicidade do permanecer, seja como possibilidade, seja como o isso que existe
aqui, que permanece.
O existencial como
cumprimento da metafísica não seria a possibilidade contemporânea de ter
transformado a questão, pela via da subjetividade, de modo que a antiga ambição
dessa afirmação se torna então exequível? Lembrando que a filosofia de
Schelling transpõe o hiato entre criticismo fichteano e dogmatismo espinozista
precisamente pela forma da Identidade, seria forçoso detectar uma mutação no
modo de utilizar o termo existência, de modo que a operação do pensamento se
põe no caminho enunciado por Kant, sendo agora o fundar, mas ao mesmo tempo,
sem precisar limitar-se a uma reserva transcendental que impede a via da
naturphilosophie pela subsunção às esferas do especulativo, em que a natureza é
apenas o correlato do entendimento, e do prático.
O existencial, agora,
conforme Heidegger, no sentido de Schelling, é simplesmente o que existe
considerado na sua existência, enquanto existência. Sua oposição não mais se
situa com relação à essência, mas ao modo pelo qual se pode fundar, e isso se
garante pelo em si da subjetividade enquanto “vontade de entendimento”, ego
cogito, na expressão de Heidegger. A Humanitas, racionalidade do humano,
garante toda destinação do Ser enquanto existência, tornar-se manifesto,
produzir, vir a ser ou possibilitar que seja. A metafísica, com efeito, se
cumpre.
O acabamento da
metafísica possibilitou, pelo existencial, que se reduzisse a espessura entre a
representação e a ação, idéia e ato, pois ao Ser, conforme a leitura de
Heidegger sobre a conceituação de Schelling, “pertence a Existência e o
fundamento da existência”.
Assim temos a
importância daquela reciprocidade tornada desejável entre filosofia da natureza
e idealismo transcendental, entre os pólos do objeto e do sujeito, que exige
finalmente algo como uma Filosofia da Identidade. Há oposição da existência do
fundamento e do fundamento da existência, enquanto se distinguem na realidade
do ser assim como a Identidade se distingue da alteridade, mas ao mesmo tempo
há reciprocidade entre ambos, pois trata-se de uma oposição que pertence à
essência do querer, o entendimento enunciando-se como o que quer no querer, já
que a Identidade é Razão.
O existencial se
define, nesse aporte, do seguinte modo, por Heidegger: o homem, enquanto
ser-homem, não apenas se reporta ao real pelos seus modos de comportamento, sua
ação e sua criação, mas enquanto existente ele é em-si sem que possa deixar de
se pôr o sentido do seu ser, isto é, forçosamente ele se preocupa consigo
mesmo, com o sentido do seu existir, com sua inserção no Real.
Mas o que permanece
metafísico nisso é que a realidade se pensa como eficaz, aquilo que põe,
objetivamente, o que está à frente, e em todos os domínios a preocupação com o
sentido se interpreta como o se propor agente co-operante e efetuante do ser
humano. O existencial se compreende pela relação de engajamento do humano como
agente efetuante da realidade eficaz, co-produtor do real, fornecendo-se a
garantia de seu ser enquanto “efetuar” e “Vontade”.
Quando o existencial, no sentido heideggeriano, seria precisamente indagar dessa reciprocidade aparentemente dada de modo prévio entre o objetivo e o sujetivo, rememorar o como dessa destinação, recuperar a autonomia de sua historicidade, isto é, o modo como a essência do humano se engajou na verdade do Ser: de onde vem a sua humanitas? Ora, libera-se assim o Ser desse humano demasiado humano, e o homem de seu próprio aprisionamento histórico– metafísico, ainda que Heidegger tenha interpretado Nietzche como a possibilidade máxima da dominação do Ser pelo (super) homem e ainda que esse “liberar” seja sempre relativo, sempre na iminência do pensar “entre o passado e o futuro” – estar lançado.
Modernismo do
conceito. Heidegger, no aparente hermetismo de seu poema sobre Schelling,
finalizando os volumes sobre Nietzsche, me parece realizar a destinação do
estilo moderno, que é a de construir uma abertura pela qual respira o Cosmos,
anteriormente sempre repugnado pelo fechamento conceitual, mas também em que
nos encontramos, nós, observadores, necessariamente inseridos no ato daquilo
que se manifesta a nós – como cultura ou fenômeno estético-noético.
Deleuze, no livro
sobre Foucault, observa que sua epistemologia lida com limiares, o que já vimos
ao examinar a Arqueologia do Saber. O oportuno é que Deleuze observa a
possibilidade, entre os limiares de epistemologização de um saber, de uma
limitação propriamente estética, saberes que desenvolvem aportes tão mais
próximos da arte que impedem tornarem-se ciências, de modo que somente uma
transformação epistêmica pode conduzir a algo novo, reformulando o campo no
sentido da cientificidade. Creio que isso é o que ocorre no romantismo, com
relação às ciências do humano.
As vias estão já
traçadas, mas o pensamento se inclina à totalização estética de modo tão
absoluto que seria impossível ver nesse meio a constituição das ciências
humanas assim como surgem alguns decênios mais tarde, quando o quadro romântico
se vê superado.
Aqui seria também
necessário demarcar a relação dessa pesquisa do devir das humanidades ao
projeto foucaultiano de As palavras e as coisas. Pois Foucault não
interrogou de modo algum os filósofos, ele expressa com bastante clareza
considerar a inutilidade desse caminho para recuperar a verdadeira ruptura do
clássico à modernidade. Certo, ele aceita que muitos mapas alternativos
poderiam ser traçados, a retórica, a crítica bíblica, a história, assim como
linguística, biologia, economia política, por exemplo. O essencial, porém, é
ter se instalado no domínio de empiricidades, de saberes localizados, não do
conceito filosófico.
Minha intenção é mais
compreender o devir da cultura, algo como uma história do pensamento, do que
apenas reconstituir uma história da filosofia. No entanto, creio que a
reinserção do problema da ruptura que conduz à emergência das ciências do
humano, no âmbito maior do pensar que abrange o conceito, não seria totalmente
estranho à intenção da obra de Foucault. Mesmo que ele não tenha pretendido
depreender uma continuidade do conceito ao operador objetivo na formação das
empiricidades, e que isso nem mesmo seja o que se deve buscar, o que sua
arqueologia estabelece é a trama sempre estruturalmente reconstrutível como
entrelaçamento entre o Saber, o Poder e a Subjetivação, algo que não
simplesmente exclui o conceito, mas lança sobre ele uma luz mais penetrante.
Encontro por esse
meio também o problema da relação Heidegger – Foucault. Sem dúvida parece haver
uma continuidade de intenções, como recuperação da historicidade, a suposição
de que a essência não se conceitua previamente ao seu vir a ser constituído na
cultura, o que impõe a multiplicidade no interior da questão sobre o humano. No
entanto, se Heidegger performatiza o modernismo do conceito, se ele abre o
cosmos rasgando um pedaço da tessitura para deixar escapar o silêncio que é o
Tempo, Foucault já está na linha estilística pós-moderna. Aqui não lidamos com
a abertura que se lança contra o idealismo do todo-tecido, o fechamento do
texto realista ou mesmo, de outro modo, romântico. Aqui, aquilo que enfrentamos
é a linha do fora, pois a estrutura, ou o sistema, ou a trama, ou o a priori
histórico, não são o Cosmos, a Voz do Ser como que vindo da altura, mas são o
mais interior ao interior, e no entanto, inapreensível. O fora é o que está
construindo qualquer interioridade.
A construção
modernista da abertura envolve uma estratégia de esvaziamentos localizados
combinada com a sábia acumulação de conteúdos – a cor refratada, o espaço do
quadro “quebrado” por entre excessos e transbordamentos. Dois volumes inteiros
sobre uma mesma idéia que é a história da metafísica desenrolada sobre o par
essência-existência, quid-quod, para tudo se jogar sobre algumas páginas de
fragmentos, de texto poemático, de silêncios em torno do espaço branco feito em
excesso pela exiguidade das expressões e relançando o excesso do conteúdo que
pesa, no entanto, sobre ele como a essência sobre a aparência, o tempo sobre o
presente da experiência.
A construção
pós-modernista da Exterioridade mais absoluta não se faz por nenhum meio, como
se fosse preciso o intolerável de algo que não se pode de modo algum
representar para que o texto estourasse à pressão do seu próprio cheio. No
entanto, o texto estende uma linha, um contorno em contraste com o qual ele se
fecha. Essa linha do fora, é a marca registrada de Foucault. Ela se constrói
por empilhamento, de modo que a ruptura não parece uma continuidade narrativa
como rasgo na horizontalidade, mas se faz como outro modo de empilhar, outro
modo de tramar, de se contrapor à linha.
Deleuze conceituou
com precisão a irredutibilidade de Foucault à Heidegger e mesmo a Merleau-Ponty.
O pensamento hermenêutico se instala numa dobra que é juntura, o visão-voz,
luz-linguagem, juntura que é Ser. Foucault pensa por sobre uma des-junção
fundamental, sua dobra é uma des-dobradura, dispersão, assim como os níveis da
Estrutura jamais apontam para uma Unidade – a estrutura é um efeito do
múltiplo, não a Forma do uno. A visibilidade e o enunciado, na sua
irredutibilidade, impedem que o saber possa ser intencional. São duas as formas
que constituem o saber, sendo impossível restituir a intencionalidade de um
sujeito em direção a um objeto – cada forma tem seus objetos e seus sujeitos, a
subjetividade se torna também efeito de estrutura, decorre de lugares: lugares
do ver, posições da linguagem, para sujeitos transitivos. Qualquer correlação entre
as duas formas depende do combate, da batalha que restitui a trama inteira.
Creio que a exposição
de Deleuze sobre Foucault é inteiramente feliz quanto à compreensão daquilo que
nessa obra realmente importa. Mas Deleuze está se expressando num momento em
que ainda não havia plena circulação da irredutibilidade pós-moderna, e por
isso, ali onde ele traça o mapa das proximidades de Foucault, por exemplo com
Magritte e Roussel, o que poderia ser evidenciado seria a transição estilística
da Abertura à Exterioridade, mais do que a continuidade de um mesmo
procedimento “moderno”.
Isso se torna bem
visível quando Deleuze fala da superdobra, numa genial intuição da
irredutibilidade precisamente em jogo. “Rumo a uma formação do futuro”,
pergunta Deleuze a propósito do que a obra de Foucault força a pensar, que
encontraríamos? Aqui o que parece ter se superado foi a oposição
infinito-finitude, que vinha informando o campo desde o romantismo. O que
Deleuze propõe é algo como o finito-ilimitado, a força em que um número finito
de componentes produz uma variedade ilimitada de combinações, isso que seria
atribuível à episteme contemporânea da biologia molecular, da cibernética, da
informática. Ao estender a superdobra -das cadeias do código genético, do
silício nas máquinas mais atuais – à literatura, porém, Deleuze assinala sua
pertença ao tempo, pois coloca numa mesma linha estilística aquilo que hoje já
teríamos meios para opor como Mallarmé a Burroughs.
E como é instigante
observar que o próprio Deleuze, principalmente nos livros de parceria com
Guattari, já havia desenvolvido as possibilidades da linha, ele que a havia
nomeado, já estava se furtando, notadamente em Mille Plateaux, à abertura do
Cosmos e investindo o empilhamento epistêmico por sobreposição conceitual,
rompendo a crosta que mantinha a separação disciplinar natureza-cultura para
nomear a composição das forças no humano com as forças do fora – o silício, o
componente genético, a agramaticalidade ou variação contínua da linguagem como
potência...
Mas não seria esse
processo também já algum modo de se furtar ao dualismo campo-linha? A linha
clássica onde as coisas progridem, o campo moderno onde tudo está ao mesmo
tempo... Revelar pouco pouco que corresponde a esconder o todo e conjurar a
desordem como o caos, ou mostrar sempre o todo na totalidade que
deveria ser o Irrevelável o que corresponde a reenunciar sem cessar a
Transgressão. Foucault teria feito o que parecia impossível, investir de modo
não clássico a linha. Mas Deleuze, por exemplo, ao tratar a episteme em
Diferença e Repetição de modo que os três níveis de Saber ou Poder ou
Subjetivação se tornam menos localizáveis ou totalizáveis para fazer a potência
do múltiplo intervir sem a coerção de o sentido previamente estabelecido de uma
estratificação, ousou algo ainda mais inesperado, o pathos do “entre” pelo que,
nem linha nem campo, entre formações, il est dedans.
A coerção do sentido
teria sido levada inicialmente ao limite por Foucault, epistemicamaente
revolucionário. Se o atrelamento metafísico do Ocidente implicava o compreender
como estabelecimento dessa coerção inteligível, Foucault reverteu a metafísica
por ter lançado a exterioridade entre o Ver e o Falar lançando-os assim,
paradoxalmente, numa relação constitutiva com o não-visível ou o não-dizível, o
que Deleuze mostrou suficientemente no seu estudo sobre Foucault.
Mas Deleuze iluminou
o tema dessa exterioridade ao lidar em Diferença e Repetição com uma
multiplicidade de fenômenos reversivos do mesmo tipo que Foucault havia
identificado apenas no interior do arquivo ou do diagrama. Pois Deleuze
conceituou todo processo de sentido recuperável em termos de “faculdades” como
remetendo a um limite “regulador” que aponta para o seu exercício paradoxal, o
seu não-senso como fonte de sentido. Kant visado aqui como tendo compactado o
pensamento ao modo da “razão” numa completa ilusão objetivista justamente por
ter aprisionado o paradoxo do não-senso no especulativo, e feito dessa “regulagem”
das idéias puras da razão o modelo para uma ética de fato impossível.
Assim, Deleuze pensa
que a produção “ilegítima” das idéias puras da razão como o Eu, o Mundo e Deus,
seria, ao invés da regulação praticamente proveitosa de uma atribuição
suspeitosa, inútil ou ilusória, a atividade estrutural plena, entendendo a
estrutura como essas idéias que não estão senão no pensamento, que não devém da
objetividade mas que produz o fenômeno – empirismo transcendental.
Empirismo porque a
produção do fenômeno não se mantém na independência das forças “materiais que
são efetivamente existentes e elas sim, independentes de todo pensar, forças do
caos na exterioridade do pensar. Mas transcendental por que a articulação das
forças encontra eixos de sobre-articulação que as in-forma num meio ideal
provindo como não-senso: justamente uma “idéia” o pensar, o falar, o ver,
quando a produção ideal que estrutura essas instâncias se institui como o
Impensável, o Loquendo (onde a voz é silêncio), o não-visto. Empirismo,
sobretudo, porque não há totalidade que seria preciso investir conceitualmente,
exatamente como Hume havia denunciado esse “ser preciso” como o falso problema
da filosofia racionalista, a ilusão objetivista que reifica a própria
subjetivação.
É interessante como o
“positivismo” de Foucault poderia ser investido de modo polêmico: por que
positivismo? A controvérsia que vinha desde a transição ao século XX se
enunciava assim: o positivismo recolheu as consequências do pós-kantismo,
compreendendo a universalidade como já garantida na abrangência do Real. A
espessura transcendental poderia mesmo ter se obscurecido pela simples
preocupação com o modo de ser dos fatos.
Esses são sempre
fatos, pertencendo aos estudos oriundos da esfera prática ou restritos ao
estudo da natureza. A sociologia nasce como estudo da esfera social desde que
se tenha devidamente estabelecido como legítimo domínio da universalidade. Aqui
o termo chave é “Regularidade”. Na visão positivista, como em todo caso
trata-se na relação cognitiva com “fatos”, unidades de significação absolutamente
inteligíveis, o que se manifesta ao perscrutar campos determinados do real são
regularidades, componentes factuais que se repetem à evidência como objetos
formalizáveis de investigação.
A pertença do
positivismo à vocação empirista não deixa de manifestar essa assimilação da
operação transcendental pelo que a universalidade retorna como tema no interior
mesmo da cientificidade experimental.
A transição ao século
XX se demarca pela interrogação sobre essa unidade do Universal. A
cientificidade no registro do humano precisa lidar com o Valor, e este não se
comporta ao modo de “regularidade”, e sim, inversamente, como variação sem
tema.
A insistência em
encontrar a dependência entre as variações institucionais, históricas e
antropologicamente localizáveis, e necessidades do humano que seriam
universais, era a fórmula epistêmica do positivismo pelo que as ciências que se
debruçavam sobre os labirintos da alma ou sobre a complexidade do social
contavam sempre com o eixo de regularidades verificáveis em qualquer nível do real.
Mas a fórmula se depara agora com a impossibilidade de uma ciência da cultura
que teria como premissa a vida dos instintos.
Como conceituar a
cientificidade do estudo humano, se ele não pode deixar de se encarregar do
valor e se ciência agora, no domínio do experimental, significa saber do
universal? O aporte “institucionalista” metodológico em ciências sociais se
ocupa dessa questão, mas estudar sua formulação desde Dilthey a Weber, Manheinn
e Myrdal, é já ter se dado a pensar no interior do “postulado antropológico”
conforme a expressão de Foucault – a que se poderia crescentar que é, também,
inserir o problema histórico-filosófico da relação desse postulado com o
kantismo, o que se vê, por exemplo, pelo fato de que o percurso do problema do
Compreender incluiu aportes conceituais propriamente relacionados ao
neokantismo, como no caso da escola badense com Windelband e Rickhert.
O valor não pode ser
dado como um fato porque ele não se impõe de fora ao observador, assim como o
faz um fenômeno da natureza ao cientista. Para que haja algo como “o” fato
social a estudar, uma precedência valorativa se pôs a caminho e ela precisou
ser conduzida pelo observador. Um jesto não tem significado para o forasteiro,
manifestando-se ao observador científico como simples “comportamento”, e no
entanto, ao iniciado nessa cultura, poderia ser algo de extrema relevância ao
estudo.
A compreensão desse
envolvimento existencial do observador invalida a abordagem anterior,
transcendental ou positivista, que pensava a esfera prática a partir de
premissas universais do espírito. Mas ao mesmo tempo, suscita a questão da
cientificidade: como seria ela extensível ao humano?
Se para o positivismo
essa não era bem uma questão, uma vez que o conceito de regularidade emergiu
não tanto como uma resposta a ela, mas como a garantia da impossibilidade de
suscitá-la, para a abordagem “intuicionista” o esforço devia ser feito no
sentido de marcar a irredutibilidade entre a realidade natural, o reino da
natureza, objetivo, independente do humano, e a realidade social, o reino da
mente, subjetivo, intelectual e emotivo. O estudo da natureza busca leis que
governam seus movimentos, mas o estudo cultural ou histórico não pode esperar
tais constantes, e deve, portanto, com metodologia própria, eleger outro tipo
de finalidade, aquela que lida com a variação e o valor.
O interessante aqui
é, a princípio, o enfoque heideggeriano que reúne os dois aportes no mesmo
aparelhamento crítico. Nesse sentido, ambos estariam metafisicamente
condicionados. Heidegger se põe assim na extremidade de uma longa linha que,
após Dilthey, havia se esforçado por solver a rigidez de sua dualidade
epistemológica entre o explicar e o compreender.
Mas enquanto os
pensadores sociais inclinaram-se a essa tarefa procurando esclarecer ou
consolidar uma cientificidade do humano, mantendo o pressuposto de que Dilthey
fôra insuficiente nesse particular, Heidegger inaugura a crítica dessas
intenções como indagação lançada contra a totalidade do saber ocidental que
lidando, seja com o fato, seja com o valor, procura estabelecer uma
consistência de cientificidade sempre numa base objetivista pelo que, mesmo que
o pesquisador social precise realizar uma “transmutação” de seus pressupostos
culturais para “compreender” o mundo irredutível do Outro da cultura, no espaço
ou no tempo, esse mundo permanece como um objeto de saber destinável, portanto,
a uma descrição acurada.
Creio que é na
continuidade dessa crítica de Heidegger, votada à recuperação da historicidade,
que se pode localizar a ironia e a novidade da pesquisa de Foucault. Pois ele
relança, precisamente, a noção de Regularidade, mas para demonstrar como ela se
constitui num meio de historicidade.
Foucault lida com a
noção de Objeto, o correlato da atitude do querer-Saber, num contexto que já
havia assimilado a crítica de Bachelard à fenomenologia, mostrando como o
Objeto – mesmo no âmago do mais científico, a física, e sobretudo ali como o
critério desse plus de cientificidade – se cosntrói pela atividade da ciência,
numa fenomenotécnica cuja capacidade de liberação frente aos pressupostos do
senso comum ou do objeto “natural” mede o limiar de pureza da Ciência por
oposição à simples erudição.
Ora, Foucault pensou
a regularidade numa abrangência rigorosamente histórica, supondo o Enunciado
como a constante de uma Episteme “variável”, pois restrita a uma formação do
Saber incompatível com outras formações historicamente localizáveis. O
positivismo de Foucault parece irônico, portanto, mas ao mesmo tempo coerente,
se fosse o caso do positivismo ser definido como um rótulo aplicável a qualquer
epistemologia da Regularidade. Mas como conceituar um positivismo que não se
põe na busca de um Universal? Renúncia ao Uno da história como da cultura, do “positivismo”
de Foucault ao “empirismo transcedental” de Deleuze.
Isso repõe o momento
pós-kantiano, decisivo na formulação desse pressuposto epistêmico que orientou,
como o alter-ego reprimido, o positivismo desde Comte. O que se torna
importante compreender é como o pós-kantismo articulou de modos variados a
relação do sujeito cognoscente com o Ser de algum modo implicado na operação do
Saber, destinando-se ainda como possibilitante da apreensão prática, moral e
espiritual, do ser humano em seu mundo. A polêmica nesse campo parece ter sido
cerrada. Um momento crucial se mostra justamente no intervalo entre a guinada
mística de Schelling e o desenvolvimento do neoplatonismo de Fichte.
Pareceria que esses
percursos são convergentes, semelhantes. Trata-se de uma ilusão, pois o que
ocorre é que o neoplatonismo de Fichte se afirma concomitantemente ao
amadurecimento de sua compreensão quanto aos pontos que o separam de Schelling,
de modo que os escritos dessa época incluem uma crítica acerba ao
shellingnismo.
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Fichte não conserva o
“emanatismo” plotiniano, mas o sentido de sua crítica a Schelling relança
aspectos essenciais da argumentação de Plotino. O absoluto de Schelling,
pilheriou Hegel, é a noite em que todos os gatos são pardos. O indiferentismo
em que Schelling fez ancorar sua filosofia da identidade, pelo que o absoluto
se põe, pela neutralidade, prévio à dualidade da natureza e do espírito, é
formalmente negado agora, também, por Fichte. A recusa se prende ao modo da
argumentação filosófica.
Schelling pensava que
essa indiferença bastava para deduzir do Absoluto, como o Real, o que
lhe seria posterior como o efetivo, aspectos da dualidade que só podem ser por
estar na ambiência do saber. Sem o saber que põe o sujeito e o objeto, o
absoluto repousaria naquilo que é anteriormente a tudo o que “devém”. Mas o
saber não pode ser separado do absoluto, sendo o saber “espírito”, expressão do
absoluto. Logo, conforme a consequente argumentação de Schelling, o objeto do
saber, a matéria, também poderia ser sistematicamente localizada naquilo que se
põe pelo saber como derivando do absoluto, já que o saber mesmo já havia sido
derivado assim.
A dualidade expressa
a unidade que é menos que “uno”, se já pensado numericamente, que é identidade
ou neutralidade, algo que Schelling cada vez mais se inclinava a nomear Deus. O
importante aqui é compreender a atitude espiritual que prescreve a elevação da
alma, não de modo gradual mas como que de um salto, à idéia do Absoluto.
Esse salto não
comporta mediações. Trata-se de um pensar que se descobre ao pôr aquilo pelo
que é um pensar. Ao mesmo tempo o salto mede a consistência da Liberdade, da
irredutibilidade do pensar, sempre relativo a algum pensado e a algum sujeito
pensante, àquilo pelo que é puro pensar.
O neoplatonismo é uma
influência forte na Alemanha dessa época, bem na fronteira entre os séculos XIX
e XX. As maiores oposições entre os autores, tanto quanto as transições
verificadas no interior de seus percursos, se enunciam geralmente entre 1899 e
1802. Nesse momento a leitura de Kant é algo a que se procede por meio de
Fichte, assim como em Coleridge. A “razão” é concebida mais ao modo do Platão
plotinizado, como uma “luz”, ou “calor”, penetrada de valores espirituais, uma
faculdade de revelação do em si das coisas, do que como o entendimento, a
faculdade de penetração lógico-experimental sobre os fatos do mundo.
O que se valoriza não
é tanto o “conhecimento” desses fatos, cujo objeto afinal são “coisas”, mas sim
a aptidão a “religar-se”, isto é, a inclinação “religiosa”, não subsumida pelas
ordenações das igrejas oficiais, e aquilo a que se deve voltar ou atingir é
esse Real que subsiste como mais do que apenas um mecanismo perfeito, um
universo físico, um todo dos fenômenos. A liberdade, como em Kant, se conceitua
na proximidade do em si, não do fenomênico. Assim, essas doutrinas da religação
ou da revelação que formam o pós-kantismo lidam sempre com esses conceitos, a
liberdade, o “Absoluto”, o sujeito ou alma, o saber e as idéias, o mundo como “processão”,
processo da revelação ou teogonia do Absoluto.
Ao nomear
definitivamente o absoluto como Deus, Schelling aporta a uma reposição da sua
doutrina das potências. A influência neoplatônica geral nesse período comporta
a particularidde pelo que não depende do emanatismo, como vimos também ser o
caso em Fichte. Isso me parece consequente com o fato de ser esse um neo-platonismo
que se encontra por meio de Kant, pelo que a relação que instaura o meio da
inteligibilidade é o transcendental, não uma qualquer forma de conexão imanente
aos próprios dados, uma relação “linear” que se procura estabelecer entre eles.
Ora, para reencontrar
Platão por meio de Kant basta repor o problema da coisa em si por meio do
pensar através dessa noção de processão que é a fórmula do plotinismo. Ao hiato
“projetado irracionalmente”, conforme a expressão de Fichte, entre o ideal e o
real, como exterioridade do conhecer e do ser, do fenômeno ao noumeno, opõe-se
a gênese como exigência do pensar, mas o próprio pensamento como devendo
espelhar essa gênese. O trabalho teórico deve ser então enunciar ou mostrar o
processo genético de Deus ao mundo.
Mas Schelling, ao
transpor sua doutrina nesse aporte místico do período mais tardio, não chega a
apostatar sua fórmula registrada pelo que o Absoluto é o que deve ser posto
como “dado” inicial da teoria, pelo que se furta à exigência da gênese. A
transição da filosofia da Identidade ao período místico parece se relacionar a
que ele instala agora nesse pensamento do Absoluto o “écart” do próprio pensar,
como se devesse comportar seu próprio salto. Esse salto é a liberdade que
separa o pensar, como já um pensado, do absoluto que é prévio a tudo. A
filosofia da religião corresponde ao esforço para mostrar a relação entre
Schein e Wirklichkeit, o Absoluto e a realidade aparente.
Como em Plotino, a
realidade das idéias é posterior à do inefável ou uno ou absoluto. O pensar,
como faculdade das idéias, está entre esse absoluto e o sensível. Ora, aqui nem
se precisa da emanação nem da criação conforme a religião popular. A liberdade
que pertence ao pensar tornou-se a “queda”, pelo que o pensar sabe-se numa
relação com o absoluto, portanto não o absoluto mesmo.
Assim Schelling
nomeou três instâncias, o Absoluto, a idealidade que é o mundo das idéias como
da alma enquanto o em-si, e a liberdade que é o ser humano, razão ou egoidade
capaz de pensar a idealidade e portanto, também de se projetar como o outro do
mundo sensível. Agora Schelling se expressa em termos de dois absolutos: o
Absoluto que conceitua o inefável plotiniano e o Real que designa a
independência do reino do pensar, do ideal. A natureza do real é produtiva, o
correlato de sua atividade produtora é o sensível – aparência, mas como tudo
isso pertence à eternidade, a aparência está sempre se re-produzindo.
A história se torna
esse processo de recirculação pelo que do maior afastamento se faz a maior
reconciliação. O pensar que projetou o mundo da aparência também é o pensar da
essência, portanto o centro pelo que as potências supra-terrestres se expressam
temporalmente, nas ciências, nas artes e na moralidade do humano. A teleologia
que anima a história é -nada menos– que o objetivo maior do Universo, esse “retorno”.
O ponto de mutação da
filosofia de Schelling, pelo que ele se afasta definitivamente do panteísmo, é
aquele em que, nas “pesquisas sobre a natureza da liberdade humana”, o conceito
de liberdade se torna conexo ao problema do mal – se o pensar, como posição da
liberdade, ao mesmo tempo não pode dispensar a problemática do mal, pois a
finitude não deixa de ser o momento em que se produz a dualidade dos poderes do
mal e do bem, e se a liberdade só existe por sua conexão ao pensável, o mundo
das essências que é derivado de Deus, como explicar ou aceitar que o mal
pertence a Deus?
O mundo das idéias
não deriva de Deus por mediação, Schelling se expressando mais em termos de
desenvolvimento, auto-objetivação ou auto-revelação de Deus. Esse mundo das
essências, a idealidade, é o objeto da contemplação do pensar tornando-se, ao
mesmo tempo, o espelho da natureza, o modelo do mundo sensível projetado pelo
pensar. Ora, como nada pode estar fora de Deus, a Natureza se torna o outro de
Deus. O mais interessante, a meu ver, na filosofia de Schelling reside nesse
modo de considerar a alteridade, e também esse é o ponto em que incidem os
interesses dos comentadores, até mesmo de Heidegger. Pois esse outrar-se de
Deus é desejo de ser, que pertence a Deus, mas o desejo de Deus e Deus não são
o mesmo.
O desejo ou vontade
pelo que se produz a existência é a razão da existência de Deus, a Natureza,
que não está fora de Deus mas tampouco deve ser o mesmo que Deus. A razão da
existência de Deus, que deve pertencer a Deus já que tudo está em Deus, deixa
de ser um simples conceito, torna-se uma realidade.
Enquanto Deus existe
em si, ele é o Absoluto, aqui não havendo ainda a questão da razão de sua
existência, há somente Deus existindo. Mas quando se põe a razão da existência
de Deus ou a natureza em Deus, põe-se ao mesmo tempo algo que se produz por
Deus mas não se restringe ao seu puro existir. A vontade se conceitua assim
como o desejo pelo que de Deus mesmo se produz sua razão de existir,
essencialização ou idealidade que não se faz sem ao mesmo tempo se contrafazer
no sensível. A Natureza, como o Outro de Deus ou objeto do pensar, se torna
assim um conceito que faz participar o inteligível e o sensível na mesma
realidade enquanto fundamento, razão de ser. Ao mesmo tempo não se fala de
desejo ou vontade sem evocar uma obscuridade, algo que se opõe à razão, o que
relança o fato da natureza ser outro de Deus, não Deus nele mesmo existindo
absolutamente.
Philonenko observa
aqui como essa vontade já prefigura a filosofia de Schopenhauer. Em todo caso,
a vontade ou desejo, que está na “raiz do ser”, é também a possibilidade do
mal, sem deixar de se apresentar como movimento da manifestação de Deus,
representação ou imagem dele, o devir podendo se conceituar em termos desse
duplo movimento pelo que, se Deus projeta o outro, como razão de sua
existência, ele deve o introjetar finalmente, através da totalidade dos
existentes. A ambiguidade do possessivo feminino é intencional, pois ao mesmo
tempo a razão é da existência de Deus e da existência das coisas. Essa ambiguidade
me parece ser o fundamental no processo do pensamento de Schelling.
As Idades do Mundo e
o estudo sobre a mitologia completam essa teoria de Deus por uma teogonia,
explicando esse duplo movimento em sua relação com a realidade da história do
mundo. Aqui o eixo da narrativa, como do pensar, está todo no fim, no alvo,
quando Deus se auto-revela finalmente na sua unidade real com o mundo – o que
Schelling não conceitua de modo algum como Hegel, pois em vez do Estado ele
compreende esse objetivo final do Absoluto como sendo a Religião.
Agora as potências,
princípios do ser, jogam sua inter-relação como períodos correspondentes do
devir. Natureza ou potência negativa, espírito ou potência positiva e alma
universal ou unidade desses opostos, as três potências não deixam de
subentender a sua totalidade como quarta potência. A exposição de Schelling se
demora em desenvolver as implicações e relações possíveis desse núcleo
conceitual, como assimilar as potências às causas de Aristóteles,
respectivamente a material, a eficiente, a final e a formal ou Logos,
demonstrando assim que elas são princípios do ser porque são princípios do
pensar, aquilo que não pode deixar de ser pensado e portanto compondo o objeto
da filosofia racional.
Essa filosofia é
negativa, pois a positividade reside não no pensamento mas sim na vontade como
raiz do ser ou razão da existência, aquilo que está em Deus ou deriva dele sem
mediação. Ora, é o desenvolvimento da vontade de Deus que se torna o objeto da
filosofia da revelação, compreendendo as religiões históricas, se bem que nesse
devir as religiões efetivas não deixam de refletir a potências de Deus.
Filosofias negativa e positiva compartem, respectivamente o quid e o quod,
assim como a razão e a fé. As religiões históricas manifestam sempre o jogo das
potências como encenação do devir de Deus, pelo que ele se afasta de si mesmo e
a ele mesmo retrocede assim como Ulisses parte para a guerra e retorna ao lar,
expressando popularmente a transformação da consciência, desde o seu estado
não-iniciado até se tornar consciência de Deus através da revelação religiosa.
Philonenko afirma sem
dúvida a tese da continuidade da filosofia de Schelling pelo que essa teoria da
religião repõe os resultados das filosofias precedentes, da identidade e da
natureza. Trata-se sempre do problema da relação entre consciência e mundo,
cujo resultado permite localizar o mundo no coração do Absoluto, sendo que essa
teoria, por ter proposto o horizonte da mitologia como o da consciência
efetiva, não como simples fábula, poderia ser relacionada aos aportes da Escola
de Marbourgo, isto é, ao tipo de teorização da Filosofia das Formas Simbólicas
de Cassirer.
A crítica de Fichte
porta sobre o modo como Schelling procura deduzir o mundo da realidade, suposta
prévia ao pensar, do Absoluto. Sendo inacessível, o Absoluto deve ser o objeto
da operação genética que conduz a ele, supondo a necessidade do conceito posto
pelo que é humanamente dado, o saber.
Ora, o saber mostra
uma exteriorização, lida com a exterioridade do ser e do pensar como do real e
do ideal, mas trata-se, como tarefa conceitual, de situar a ilegitimidade desse
exteriorizar. Bem esclarecido, o trabalho do conceito, posto pelo saber,
precisa ser sobre o saber, de modo a desfazer a confusão que se instala quando
ele é tratado ao modo de um hiato entre ideal e real. Enquanto devidamente
conceituado, o saber é, inversamente, luz, fonte ao mesmo tempo do ser e do
pensável, real e ideal.
Mas o que ocorre como
efetividade da teoria reflete o movimento ontológico pelo que o saber,
inicialmente proposto como separação, se vê pelo conceito determinado como
Unidade. Assim, pelo próprio modo de ser do real, em vez de um salto no
absoluto, o processo do pensar deve ser encaminhado ao modo de um movimento
progresivo, mediato, pelo que é da oposição que se conduz gradativamente à
negação de toda oposição.
Mas o que se logra
negar, finalmente, é o próprio conceito pelo que se assegurou o caminho para o
Absoluto, luz da evidência interior que não depende mais do conceito, estado
alcançado do Inconceituável. Movimento que é aquele da quantidade à qualidade,
do múltiplo ao Uno, do entendimento ao Amor. Ora, a beatitude que corresponde a
esse estado inconceituável, em que tudo é exclusivamente Amor, não se alcança
por nenhuma revelação religiosa, e sim pelo trabalho do conceito, doutrina da
ciência, compreensão da superação do conceitual pelo trabalho que é ele mesmo
conceitual, conforme Fichte.
O que repõe os temas
da educação e da moralidade, a realização prática relacionada à humanidade
pensada como avanço do todo, progresso universal. A educação favorece a
penetração do ideal desse progresso ético e comunitário em cada cidadão, o que
equivale a conduzir ao ultrapassamento do interesse individual, pois o objeto
do ideal da perfeição é a comunidade dos seres racionais.
A beatitude, algo não
conceitual, está, no entanto, votada como objetivo do caminho do sábio. Ora, é
o sábio que tem a missão da educação. Em todos os momentos da doutrina da
ciência ocorre a interpenetração do ideal e do progresso, movimento de
iluminação que é ao mesmo tempo do sujeito, da coletividade e do Universo, e
que se desenvolve como movimento do retorno do múltiplo ao Uno.
Não deixa de ser
localizável no pensamento de Fichte, inversamente a Schelling, conforme
Philonenko, uma evolução, da proposta de uma filosofia transcendental ao ideal
do Amor de Deus. Quão questionável seja essa evolução, pois poderia se antepor
a essa impressão a opinião de uma continuidade mais profunda, Philonenko
observa que no plano político ela parece algo menos controverso. Fichte havia
começado por uma defesa fervorosa da revolução, na metade inicial dos anos
noventa, para depois condenar com veemência o império napoleônico, atitude a
que acrescentou uma pregação nacionalista adepta da política da força, fazendo
o elogio do príncipe. Fichte pôde assim ser mais popularmente lembrado como
propagandista do Reich do que como filósofo.
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Aqui a inserção
natural seria a relação Scheling-Hegel. Contudo, é preciso ainda observar algo
nesse percurso que repõe a problemática de As palavras e as Coisas,
reposicionando o kantismo e o seu “pós” na relação com a formação do postulado
antropológico.
Foucault conceitua a
cesura introduzida pelo kantismo no contexto já bem instituído de algo, que,
por um lado, estamos habituados a pensar como tendo surgido com Kant, mas
também, no contexto de As Palavras e as Coisas, se apresenta como uma
relação epistemológica essencial à constituição do saber clássico. Trata-se da
crítica.
O que Kant opera é um
deslocamento da crítica, um novo uso tanto no sentido do seu meio quanto de sua
aplicação. Mas no clássico, ao longo do século XVIII, ela já vinha se
estabelecendo plenamente como tarefa filosófica, na base de uma relação com a
faixa de continuidade do Saber, seu entrelaçamento problemático, pelo que se mostra
na conjunção de trabalhos tão aparentemente imiscíveis como os de Locke e
Lineu, Buffon e Hume.
Ela é, nessa época
anterior a Kant, a interrogação sobre certos valores epistêmicos, fundada na
sua possibilidade pelo axioma da continuidade de Saber e Linguagem. Ora,
Foucault estabelece essa crítica intrinsicamente relacionada a uma forma de
Saber determinado que é a história natural, pois aqui o que está em jogo em
termos dessa continuidade restitui a fisionomia mais característica do
clássico.
Justificando por esse
meio a impossibilidade de supor que a biologia é o prolongamento da história
natural, Foucault mostra que esta se imbrica a uma teoria das palavras,
enquanto podemos pressentir que só a biologia está relacionada a uma filosofia
da vida.
Essa teoria das
palavras mantém com a história natural justamente a relação que é a crítica,
fagulha que salta como que da fricção dessas duas vertentes do saber clássico,
alimentando a chama da filosofia. A “crítica” efetivamente é, no século XVIII,
a interrogação sobre o fundamento da semelhança e da existência do gênero,
esses a prioris da história ntural, enquanto aquilo que deveria ser, ao mesmo
tempo, a condição de possibilidade da linguagem.
Interrogar sobre o
estatudo das idéias gerais e abstratas, conforme a oposição entre racionalistas
e empiristas que faz a história da filosofia dessa época, é algo que se mostra
inerente ao problema “crítico” das relações entre a percepção da similitude e a
validade do conceito.
Esse não seria o
problema de Kant. O que ele interoga não é acerca da causalidade como caso de
algo mais geral, as semelhanças. Tampouco seu objeto é o conceito ou o gênero
que se supõe como resíduo indubitável das representações.
Kant, portanto, não
se debruça sobre o problema crítico do século XVIII que consistia na pergunta
sobre como o conceito constrói a rede cerrada de classificação que permite
localizar os gêneros e as semelhanças tendo como base apenas o que se mostra à
percepção como o “fundo contínuo das similitudes”, dados de sensação misturados
no fluxo da experiência que, dela, não se pode isolar um pedaço.
Assim, enquanto o
gênero se articula com a semelhança, no quadro da história natural, essa
semelhança já seria produto da atividade intelectiva conceitual extraída do
fluxo homogêneo, similitude de todo sensível. O problema é, portanto, como o
conceituo recorta as identidades partindo desse fundo homogêneo do sensível.
Indaga-se sobre como se estabelece a atividade intelectiva mas já supondo essa
atividade no âmbito da “imaginação”, faculdade de figurar a semelhança
estabilizada sobre o jorro contínuo de similitudes, esse fluxo de semelhanças
nômades, prévias às semelhanças figuradas como traços de identidade,
sedentarizadas no quadro de uma natureza.
O que Kant interroga
é, inversamente, sobre a causalidade que se estabelece sobre a multiplicidade
sensível conceituada como heterogeneidade, tratando-se então não de compreender
o conceito sobre a similitude, mas o juízo sobre a síntese do diverso.
O objeto do
criticismo kantiano, substituindo o conceito pelo juízo, volta-se a este como
ligação de representações formalizadas. Ora, o problema mudou, pois se antes
ele constistia na relação entre a natureza física e a natureza humana, leis
genéricas e leis da imaginação, agora trata-se da posibilidade mesma do
conhecimento em geral.
Foucault localiza
aqui a viragem do a priori epistêmico da história natural ao da biologia, pois
agora é a vida que se torna autônoma, como objeto de interrogação, não mais a
rede classificatória que se constituía como saber da natureza. Ele mostra como
ao longo do século XIX, de Kant a Bergson, a questão que se instala é entre os
pensamentos críticos e as filosofias da vida.
Ora, essa questão é
percorrida por um intervalo que se estende como possibilidade de ramificação do
saber. Numa extremidade temos a emergência do transcendental a priorístico de
Kant. Mas sendo o intervalo a constituição desses novos objetos que fundam a
episteme moderna, já não clássica, e estando esses objetos eles mesmos formados
numa consistência transcendental, ainda que não apriorística e sim do lado do a
posteriori e dos princípios de síntese desse tipo de verdade, o que ocorre como
correlato não seria uma extremidade mas várias vertentes metafísicas que se
desenvolvem em correspondência com esses transcendentais objetivos –
metafísicas da vontade, da vida, da Palavra de Deus. Foucault explica assim,
também, a ocorrência do positivismo, como algo derivado dessa oposição
fundamental que se assinala como resultando do acontecimento nuclear de quebra
da mathesis.
Foucault instala a
visibilidade plena desse acontecimento no hiato que separa a ideologia de
Condillac e o criticismo de Kant. A ideologia figura assim o limite do
clássico, como a sua enunciação mais plena, enquanto Kant inaugura a
modernidade na sua espessura mais conveniente que é o transcendental.
O que está em jogo é
o que fazer da representação. No clássico sempre a questão é duplicá-la. Assim,
a ideologia deve estabelecer a gradual reflexão do representar no representado
para dar conta de todos os momentos da representação completa, desde a sensação
rarefeita como o representar mais simples até o trabalho do intelecto como a
disposição da idéia, imagem da coisa representada. Quanto à crítica, se
conserva o ponto de flexão na relação das representações, é o meio mesmo que se
deslocou, pois não é a representação que se interroga, e sim sobre suas
condições de possibilidade, em sua generalidade, o que esgota o campo da
metafísica do século XVIII.
Essas metafísicas que
nascem no século XIX parecem “pré-críticas”, por se alojarem do lado do objeto,
uma das características que opõe as empiricidades que estão emergindo
concomitantemente ao transcendental filosófico. Mas a característica que se
acrescenta aqui, o fato desses transcendentais conscernirem ao que é a
posteriori, explica, conforme Foucault, a cena do “positivismo”. Pois o que se
torna fundamental a essa episteme é que o que se pode conhecer são os
fenômenos, não as substâncias, as regularidades, não os seres, as leis, não as
essências.
Os objetos das
empiricidades modernas, vida, linguagem, trabalho, são”transcendentais”, não
representáveis no espaço de um quadro do saber. Eles apenas tornam possível o
conhecimento objetivo das regularidades que animam os seres, das leis da
produção ou das formas da lingaugem. O positivismo assinala o momento em que o
conhecimento se torna fundado nessa pertença ao fenomênico, já que o fenômeno
se objetiva transcendentalmente. Ainda que não precise do a priori, o
positivismo e a crítica a priorística do kantismo enunciam o mesmo campo
epistêmico. Mais, a sua oposição aparentemente frontal testemunha a solidez
desse novo terreno, a episteme moderna, o que se complementa pelas metafísicas
do objeto numa triangulação que Foucault afirma constitutiva do pensamento
europeu ao longo do século XIX.
No entanto, a
superfície em que se encontram essas três vertentes,
crítica-positivismo-metafísica do objeto, logo se verá contrafactada por uma
verticalidade que impõe a preminência daquilo a que o positivismo se consagrou
como porta-voz ou empresa de legitimação. Na transição do século XIX ao XX, a
linguagem salta definitivamente dos gonzos, desaparece o discurso. O que
implica no arrastar de todo pensamento à essa linguagem não-discursiva, esse ser
fragmentado da linguagem, guinada que Foucault demarca desde a filosofia de
Nietzche. Ora, aqui Foucault não mais observa a igualdade de condições, para
uma arqueologia, dessas vertentes do saber. Ele declara tê-lo atingido mais
efetivamente com Cuvier, Bopp ou Ricardo do que com Kant ou Hegel, o que
demonstra a ênfase com que as empiricidades, mais do que as correntes
filosóficas críticas ou metafísicas, fenderam o campo do saber moderno.
Por ora, no momento
de instauração do transcendental, Foucault mostra que a questão controversa se
enunciou em termos de se poder ou não formalizar o empírico, matematizar o
fenomênico, indagação que lançou a polêmica entre a pretensão de uma ciência
unitária – o sonho do círculo de Viena em fornecer nada menos do que uma
concepção científica do mundo – e o protesto das ciências humanas com sua
resistência à redução metodológica.
Contudo, é preciso
ver que esse ideal de ciência unitária já nada conserva do projeto de uma
ordenação universal do saber ao modo clássico, cuja incorporação se produziu
notadamente na Enciclopédia de Diderot e D’Alembert. Foucault mostra como a
filosofia de Kant desempenha um papel importante nesse limiar de transposição
de um a outro desses intuitos de unidade do saber.
Com a crítica o saber
deixa de se desenvolver sobre o fundo unificado da Mathêsis, pois instala-se a
espessura entre o pensamento do que é empírico e do que é transcendental, por
um lado, enquanto que também assim o que se impõe ao pensar são as relações
entre o campo formal e o campo transcendental.
Entre o formal e o
transcendental o empírico se põe como que entre parênteses quanto à questão de
sua validade, mas entre o empírico e o transcendental é a ordem formal que se
neutraliza, já que não pode fundar o empírico. Em ambos os casos pensar a
universalidade é apartar-se do locus do saber real, lá onde se encontram as
coisas ou as puras relações. Aqui Foucault repõe algo que vimos também em
Deleuze, pois ele mostra que esse nível em que o pensamento da universalidade
só pode ser filosófico, o que se põe é ou uma reflexão pura suscetível de
fundar, ou uma retomada apta a desvelar, ambas as possibilidades, conforme
Foucault, compartimentando-se nas demarches respectivas de Fichte e Hegel.
Quanto ao fundar
fichteano, a motivação se produz pelo nexo do transcendental e do formal. A
totalidade do transcendental se torna deduzida das leis do pensamento, o que
implica ora em reduzir a reflexão transcendental à análise dos formalismos, ora
na tentativa de enraizar na subjetividade transcendental a possibilidade de
qualquer formalismo.
Hegel teria procurado
retomar, no interior da consciência que se revela a si como espírito, a
totalidade do domínio empírico, o que implica que o espírito é o lugar ao mesmo
tempo do empírico e do transcendental.
Em todo caso vemos
como se pode estabelecer a gênese do postulado antropológico nesse ponto de
viragem ao transcendental. É que, como podemos constatar dos estudos de Fichte
e Schelling, a implicação do sujeito cognoscente na operação do Saber lança o
seu destinar prático, moral e espiritual. Ou como afirma Foucault, quando se
investe transcendentalmente os conteúdos empíricos através de uma subjetividade
cosntituinte não se pode deixar de instalar o pensar na região da antropologia,
que Foucault define como um modo de pensamento onde os limites do conhecimento
são ao mesmo tempo as formas concretas da existência assim como se oferecem
nesse mesmo saber empírico, o que, creio, se poderia nomear mais como círculo
antropológico.
Nasce assim o “homem”
: duplo empírico-transcendental. Objeto legítimo ao mesmo tempo de uma
escatologia como a marxista, de um positivismo que faz valer o empírico pelo
transcendental e de uma fenomenologia como análise do vivido que tenta resgatar
a pureza do transcendental mas só procura fazê-lo debruçando-se sobre o espaço
em que são exclusivamente experimenciáveis os conteúdos empíricos.
Ora, o que Foucault
mostra aqui é que esse resultado, poderíamos expressar, esse novo triângulo,
está como que espremido entre uma linha de evolução que se demarca como
afastamento do kantismo, o momento original moderno, e a irrupção de uma
objeção fundamental que desfaz a rede de cumplicidade que se pode constatar
como as linhas entre esses vértices que se projetam, no entanto, como se fossem
autônomos, sem convergência, numa oposição.
Pois não bastam os
protestos da fenomenologia contra o positivismo ou do marxismo contra ambos, ou
do positivismo, etc., para desfazer o elo que Foucault justifica entre eles por
essa figura do humano reduplicado – de modo que só uma interrogação como a de
Nietzche acerca da existência a-histórica desse ser, para descobri-la como
impossibilidade, para anunciar o super-homem, já que a existência desse humano
só pode ter sido histórica e já que a história só está para ser transmutada em
devir, instaura o limite dessa cumplicidade.
O que determina a
evolução na linha de afastamento do kantismo é o mesmo que, na economia de As
Palavras e as Coisas, irá determinar a preminência das empiricidades na
apreensão do que ocorre com a guinada do pensar ao tema da linguagem. Ao longo
do século XIX elas só fizeram apequenar a margem de manobra das metafísicas, ao
mesmo tempo em que faziam recuar todo romantismo do conceito que ainda se
poderia ligar a Kant. Pois o que determinaram foi a antonomia cada vez mais
assegurada da linguagem em relação ao falante, do trabalho em relação à
necessidade, da vida em relação ao vivido.
O que afasta a
reflexão desse humano figurado nessa teia de relações que ele nunca pode
testemunhar por si e que no entanto o constitui, do momento kantiano, é que
agora já não se a ancora na existência de uma ciência da natureza. Kant
interrogava como pode ocorrer que a experiência da natureza conduza a juízos
necessários. Mas agora o que é dado à reflexão se ocupar é algo inteiramente
irredutível a essa indagação, consistindo sim em saber como ocorre que o ser
humano pense o que não pensa, trabalhe o que não produz, viva relações e leis
corporais de que não pode ter idéia ou sensação, atualize por sua fala um
sistema de cuja criação jamais participou.
Não se tratando mais
da verdade, e sim do ser; nem da natureza, e sim do homem; tampouco da
possibilidade do conhecer, e sim do desconhecimento originário; finalmente, não
do caráter não-fundado da filosofia frente à ciência, mas da consciência
filosófica manifesta de todos esses domínios de experiência não-fundadas onde o
ser humano habita sem se reconhecer, Foucault estabelece o quádruplo
afastamento que o século XIX fez crescer com relação ao momento transcendental,
e que irá conduzir à onipresença do tema do impensado no pensamento
contemporâneo em que se trata de interrogar sobre o Inconsciente.
Assim também
desloca-se a historicidade romântica, na qual bem se pode localizar Herder, que
fazia da origem, ainda que inacessível, coextensiva ao ser do humano presente
pela lei que assegurava os desdobramentos das coisas. Pois, mesmo que já numa
relação problemática com o quadro clássico que pensava a gênese pelo viés do
ideal, essa historicidade ainda manifesta o momento do Mesmo na origem como o
vértice real ou virtual da identidade. Hegel já está no momento de superação
desse modelo, pois a fenomenologia do espírito descreve o tipo da gênese
contemporânea, em que o originário está fundamentalmente relacionado ao Outro,
aquilo que pré-existe ao humano e que, contudo, se introduz na sua experiência
sem deixar de ser Outro com o que o humano se articula.
Foucault estende uma
linha quebrada, portanto, na evolução do pensamento pós-clássico à
contemporaneidade. O momento kantiano é fundamental como superação do clássico,
mas ele apenas assinala o ponto de uma evolução que conduz ao contemporâneo,
onde trata-se de resgatar a irredutibilidade das questões por relação àquelas
do momento anterior. Finalmente, Kant ainda é o pensador que enuncia a viragem,
ajuntando às três questões críticas, que posso eu saber? Que devo fazer? Que me
é permitido esperar? a interrogação: que é o homem?
No entanto, a ambiguidade
inerente a esse termo “contemporaneidade” desempenha função importante na
articulação do texto foucaultiano. Pois o que poderíamos esperar de uma
história do saber, como a exaltação do progresso ou, ao menos, da complexidade
do jogo epistêmico, se torna um relato desencantado pelo que o que a viragem de
um espaço de quadro que devia apenas lidar com representações, figurações
idealizadas numa rede de fixações superficiais, só conduziu ao círculo e ao
sono antropológicos. Ora, a contemporaneidade, que seria o despertar
dessa ilusão, da falsa impressão de que essa imagem do humano não é apenas uma
imagem, mas sua verdade, ao mesmo tempo já parece ter se instalado e ainda
estar por vir.
Nietzsche sem dúvida
pertence a ela, mas aquilo que ele enunciou só se endereça a ser repensado, ao
futuro do seu repensar – a superação daquela imagem do homem pela descoberta de
seu caráter ilusório é o sentido da mensagem do super-homem. Nesse ínterim,
Foucault constatou estar o saber ainda preso na ilusão do homem. Hoje,
porém, não deixa de ser constatável que o interessante é repensar Foucault,
pois As Palavras e as Coisas ficou como um marco dessa tarefa votada ao
futuro e já no século XXI seria indagável se e como as coisas mudaram. Pergunta
que, também, votamos ao futuro do nosso pensar... Seria o círculo
Incontornável?
Penso que essa
pergunta repõe um poema que Culler transformou numa jocosa tarefa de
interpretação: “todos dançamos num círculo e supomos / mas o segredo senta no
meio e sabe”. Ele considera extremamente enigmático “o segredo” e confesso já
ter formulado algumas hipóteses sobre as quais não me deterei aqui. O que penso
ser mais importante esclarecer quanto a isso é que do ponto de vista formal o
círculo é incontornável, já que mesmo o super-homem só se enuncia na dobradura
com o que procura excluir. Ora, o que o tempo nos ensina, desde Foucault e
através do pós-estrutural, é a quebra do formalismo pelo salto factual numa
região que é a das práticas não-circulares dessa imagem do humano.
Assim, ainda que
muitos pontos do livro de Rorty sobre Heidegger e outros, me pareçam bastante
controversos, notadamente a sua incompreensão de Foucault, considero bastante
estratégica sua releitura crítica da história da filosofia contada por
Heidegger. Rorty mostra que Heidegger, com sua tenaz redução de toda história
da metafísica a Platão ou “à linguagem de Platão”, pensava que tudo o que se
havia feito nessa via se enunciava como tentativa de responder à dupla questão
de o que sabemos e como sabemos. Ora, em algum ponto é preciso constatar que
tudo o que podemos ter é o que queremos – formulado em termos de que é isso o
que sabemos. Então a história da filosofia gira em torno da vontade de saber e
do desejo – algo que interessaria muito a Foucault. Isto é, o enredo é uma
longa intriga sobre ataques e contra-ataques entre céticos e filósofos.
No entanto, logo que
ficou claro para os filósofos que o ceticismo tinha algo de incontornável,
traduziu-se a dupla questão metafísico-platônica em termos mais razoáveis sobre
a verdade como coerência entre nossas crenças. Kant representa um papel
importante nessa jornada rumo à “razão” -ironicamente justaposta como a
razoabilidade de levar a sério o ceticismo. O que ele teria feito seria algo
como complementar Descartes e fazer as representações acuradas, que antes
deviam ser os objetos de saber validado, migrarem para dentro de nós, tais como
as categorias. Mas, conforme Rorty, depois de Kant seria inevitável Nietzsche
para mostrar que as categorias são apenas reajustes utilitários do mundo a
nossos objetivos – portanto a história da filosofia deve ser lida como a
história da pragmática.
Rorty afirma que por
essa perspectiva, Platão apenas teria tentado instalar o pragmatismo acima da
praça pública, assim como Heidegger mostrou de modo meio sub-reptício, já que
limitou-se a afirmar que a metafísica por ele instaurada só conduziu ao “louco
por poder” que era Nietzsche, mas como Derrida mostrou de modo bem claro, já
que denominou o platonismo como “falogocentrismo”. Ora, a obcessão pela
participação no jogo do poder pode bem se traduzir pela mais completa sujeição
a ele, algo não imposto a alguém, mas tendo capturado o desejo desse alguém –
isso corresponderia à ilusão filosófica da verdade, pois insistir naquilo que é
produto da nossa acomodação do mundo como imagem de uma verdade mais forte do que
tudo à qual só ao humano resta render-se para purificar-se, seria justamente o
caso dessa captura, desse desejo invertido do poder, particularmente do poder
sobre o tempo, já que a Verdade é intemporal.
Tudo isso conduz
finalmente ao mesmo tipo de impasse com que estamos nos ocupando agora. A
compreensão é histórica e linguística, conforme Heidegger lido por Rorty, e
isso deve conduzir à simpatia para com o pragmatismo. No entanto, como nota
Rorty, nunca se esclarece como é que se poderia fazer mais do que criar um novo
vocabulário historicamente situado no curso da reação contra aquele que
encontramos estabelecido.
A boa coisa é que nem
Heidegger nem Rorty escrevem apenas para deixar as coisas na região do
Incontornável – que Rorty nomeia como algo coextenso a “óbvio”. Mas não do
mesmo modo. Assim, a palavra-chave se torna “originário” explicitando-se, como
Rorty, que isso de modo algum significa “anterior”. A proposta é a aceitação da
contingência, algo que faz com que a irredutibilidade do humano ao animal se
conceitue surpreendentemente como a renúncia a justapor a indagação
verificacionista sobre a resposta “certa” quando perguntamos “o que é..?”
Pois no caso inverso
o homem é apenas um autômato, como o animal é apenas instintivo, a imagem da
verdade correspondente juntando numa mesma rubrica de ilusão o sofista na
conceituação de Heidegger, o senso comum e o metafísico cientista ou filósofo.
Isso seria para Rorty
a celebração pragmática da liberdade da linguagem, pois jogaríamos livremente
sobre o ser a linguagem que sabemos ser a prática da nossa contingência –
deixaríamos de lado a investigação e seríamos poetas. Contudo, Rorty não
considera que caiba nisso qualquer nostalgia, como a de Heidegger pelos gregos
pré-platônicos. Ele pensa que o tipo de lugar insulado propício para o
automatismo seria parecido com a Grécia antiga enquanto que nós hoje estamos
numa civilização maravilhosamente dotada para a contingência. Mas não seria
preciso perguntar por que Heidegger se mostrou tão nostálgico, por que ele
precisou instalar a compreensão do dasein num horizonte tão longínquo?
Creio que uma via
para esse problema se encontra no próprio Foucault, quando, ao enunciar o
fenômeno da framentação do ser da linguagem, o que fez desaparecer o discurso e
tornou exequível a “literatura” assim como a entendemos desde Mallarmé, ele
tematiza a objetividade filológica na qual a “linguagem” se fez pensável no
presente. A contingência, através de que poderíamos lidar com coisas tão atuais
como a irredutibilidade cultural, as inovações artísticas, científicas e
políticas, desde que relançada na corrente da linguagem, não deixa de enfrentar
a questão que Foucault afirma como tendo se tornado premente: reencontrar num
espaço único o grande jogo da linguagem... seria isso o salto para uma forma
originariamente nossa de pensar ou apenas um recuo para algo que o saber
superou, uma nostalgia clássica?
Assim como Heidegger,
Rorty ancorou a pragmática numa dependência da linguagem que, não obstante a
guinada linguística do século XX, parece um caso de desejo falhado, um paradoxo
hsitórico pelo qual ela se torna o capital do pensar mas justo quando se
fragmentou para o ser. A angústia parece se expressar nos brancos que não
cessaram de crescer pelo meio dos versos no espaço da página modernista.
Pode-se lidar com isso como nostalgia ou como euforia, como Heidegger ou como
Rorty, denunciando a técnica que se instalou também como saber da linguagem ou
instalando uma parole universalizada que seria tão somente o jogo do
liberalismo. Não me parece que se tenha de fato contornado a questão. Contudo,
por que o pensar deveria ser sempre apenas o momento misto de euforia e
angústia, de hesitar frente ao termo, frente ao jogo escolhido, frente à
palavra?
O pensamento não é
tanto mudo, mas é sim gago, afásico. Não, tampouco, por ser o momento da
escolha do caminho da linguagem, mas por não ser proposicional sem deixar de
estar numa relação com a linguagem. Acima estabeleci que uma das necessidades
aqui seria mostrar em que convergem Heidegger e Deleuze quando o problema é a
referência ou mais geralmente, a ampliação da imagem do pensamento, não mais
limitada ao referir. Mas seria preciso também mostrar que se ambos se
instalaram numa região de problematização do sentido, o que ficou claro
na convergência de suas críticas a Kant, pelo que se a transcendência e o devir
parecem apontar para o mesmo intuito, entre esses dois aportes o intervalo
inere ao modo como o pensar e o ser estão para a linguagem.
Quanto a isso, o
devir instala precisamente a questão da superação da imagem do humano que vimos
Foucault descrever tão bem na limitação da ilusão do Saber da modernidade.
Poderíamos afirmar o mesmo quanto à transcendência. Mas o devir se liberou do
ser – portanto, também do ser da linguagem. Mais à frente poderemos desenvolver
esses temas, agora sendo conveniente reconduzir a exposição ao momento de
transição da era moderna à era contemporânea, de Hegel a Comte.
Mas seria oportuno
registrar que as práticas do futuro, relativamente ao postulado do Humano,
parecem-me bastante presentes por exemplo quando se pensa a Estidade
(Haecceidade), de modo que não pode ser demarcado como uma volta ao momento
feudal onde esse termo emerge, mas sim a algo como autocompreensão liberada do
círculo sem que com isso se pretenda por correlato, precisamente, um Saber.
Schelling e Hegel
A tese nada fácil de
As Palavras e as Coisas, se bem compreendo Foucault, é que a modernidade lança
o “homem” do seu postulado epistêmico como o transcendental de sua ação
enquanto homem, reduplicado no empírico dos resultados.
Esse transcendental,
conquanto não nomeado, pode ser inferido no horizonte dos quase-transcedentais
de vida, trabalho e linguagem, pois o tema da reduplicação
empírico-transcendental, do homem duplo, vai afirmar que o empírico se tornou o
“outro” desse homem “autêntico” que vive, fala e trabalha, estruturas
autônomas.
Ora, duas consequências
aqui. Inicialmente temos o fato problemático do estatuto desse transcendental,
pois se ele é o a priori espistêmico da modernidade, a Arqueologia do
Saber se encarregou de mostrar que não se trata aqui do a priori como
transcendental no sentido kantiano de uma forma de consciência. Mas, também,
esse a priori, no interior de As Palavras e as Coisas, não deixa
de resultar como a ilação do elemento transcendental, já que essas estruturas
autônomas como objetos quase-transcendentais das empiricidades modernas só
devolvem, na espessura mesma de sua autonomia, a existência fundada do “homem” –
a forma-homem que sucedeu historicamente a forma-deus.
É por isso que
Nietzsche pôde lançar seu pensamento na crítica dessa existência, assim como
compreendemos com clareza que alguém duvide da existência do transcendental.
Não se tratava apenas de criticar uma “imagem” do homem, pois se assim fosse a
crítica não precisaria atingir o nível do existir.
Mas o que resta de
problemático é que a empresa dessa crítica só se lança, como oposição aos que “não
querem pensar sem imeditamente pensar que é o homem quem pensa” , um “riso
filosófico – isto é, de certo modo, silencioso” (PC, 358-9).
Se bem que Foucault
não pareça nesse trecho estar estabelecendo o estatuto problemático desse
caminho, e inversamente mostrando que tudo conduz a ele, penso que o “silencioso”
aqui, como o “segredo” do poema, aponta para o fato sub-reptício pelo que seria
preciso constituir o pensar numa fronteira de superação desses funcionamentos
autônomos reportados a uma unidade existencial e à sua fundamentação, e ao
problema da liberação assim contextualizado. Seria preciso reconquistar
a vida, o trabalho e a linguagem, sendo que essas não são objetividades que
preexistiram à sua independência declarada frente àquele que elas, por esse
grito de guerra, fizeram via a ser.
É verdade que, desde
que se enuncia algo como transcendental, ao mesmo tempo se estabeleceu a
contraparte de sua negação pelos que pensam de outro modo – mas justamente essa
controvérsia parece ser sem fim. No entanto, o problema se agrava quando se
trata de um transcendental que não está como um princípio declarado, mas como
horizonte epistêmico-existencial do humano, isto é, implícito no emaranhado do
seu Saber e do seu Poder.
O que resta de
paradoxal, portanto, bem notado por Foucault, é que a existência do homem é
agora fundada , já que ancorada nessas autonomias, não nele, nem para ele, nem
por ele, mas com ele. Aqui intervindo oportunamente, a meu ver, o tema
heideggeriano pelo que o ser-com é o fundamento do ser-em, quando pareceria o
inverso.
O momento filosófico
que estamos considerando, o do pós-kantismo, parece fundamental no contexto de as
Palavras e as Coisas, isso de um modo oblíquo, já que a frente da cena é
ocupada pela emergência das empiricidades que deslocam a história natural, a
análise das riquezas e a gramática geral como formas do saber clássico. Mas
para descrever os aspectos dessa transição há uma série de remissões à
filosofia que estabelecem kantismo e pós-kantismo como enunciações precisas das
transformações em jogo.
Poderíamos, pelo que
vimos desde Kant, propor que Fichte, Shelling e Hegel articularam no âmbito do
transcendental aquilo que Kant havia tratado somente no terreno da metafísica.
Isso, mesmo que no desenvolvimento de sua filosofia Schelling tenha inovado o
aporte existencial. Ora, ele só o pôde constituir numa relação fundamental com
o transcendental.
Respectivamente a
Fichte, Schelling e Hegel, teríamos a virtude, o domínio do natural relançado
pela mística e o direito como horizontes de transcendentalidade pelo que o
humano se reveste da posição do Ser, operando o reabsorver-se ou totalizar-se
do Espírito ou Razão. Mas o que possibilita essa transposição, creio, é a
operação que de Fichte a Hegel só se tornou mais aperfeiçoada, e pelo que o
núcleo do pensar se deslocou desde o espaço kantiano da possibilidade da
representação para o espaço moderno da problematização da ação.
É por isso que se
pode também observar a evasão da moral no cenário do pós-kantismo, enquanto que
ela estava numa posição de centralidade com Kant. Conforme Foucault observou, o
contraste entre o pensamento clássico e o moderno pode ser definido na base de
uma contraposição mais ampla de duas éticas, uma antiga que subsume ainda o
século XVIII e por conseguinte o clássico, e a moderna, que se desenvolve desde
esse contexto do início do século XIX. A forma antiga articula a moral com a
ordem do mundo, cuja lei permitiria obter uma sabedoria e um princípio de
ordenação da cidade. Mas na modernidade não se formula qualquer moral, pois
todo imperativo está alojado no interior do pensamento e de seu movimento para
captar o impensado, uma vez que o fundamento da existência se apartou do ser
mesmo do existir, ou, em termos foucaultianos, já que agora o “Eu penso” não
conduz à evidência do “Eu sou”.
A pergunta pelo que é
o homem resulta assim desse écart. Se ele não se reconhece no seu falar, viver
e produzir, mas se ele pensa, como articular o seu pensar àquele impensável
pelo que, tão somente, ele é? Ora, o campo arqueológico da modernidade, assim
enunciado, só pode conduzir para uma relação completamente inesperada do pensar
consigo mesmo: ele não mais se põe como uma teoria, ele já se constitui como
uma ação, não podendo evitar aproximar o impensado e afetá-lo profundamente tão
logo sobre ele se instaure como pensar, um submeter ou um libertar.
Foucault estabelece
aqui a posição singular do kantismo entre essas duas formas de ética, a antiga
e a moderna. Ele seria como um ponto de juntura, pois anuncia que é o sujeito,
enquanto racional, que se dá a sua própria lei enquanto universal. Em
compensação Hegel já está inteiramente no âmbito da modernidade, quando o ser
do pensamento avança sobre o seu Outro, não mais devendo exprimir apenas a
generalidade de uma forma do mesmo.
Foucault observa,
quanto a isso, que o problema do valor, que vimos ter sido levantado no contexto
das ciências humanas enquanto apartadas da ciência natural, na verdade é mais
do que isso. Somente de um ponto de vista superficial o problema está enraizado
no fato da ciência humana ligar-se a éticas ou políticas, de modo mais ou menos
indeciso. Trata-se mais profundamente da relação do transcendental com o
empírico, isto é, não do transcendental kantiano pensado como a forma de uma
lei universal que in-forma a vontade e a consciência e o mundo, mas sim desse
humano transcendental que está como que no horizonte de objetos em que ele se
constitui mas que são autônomos, desenvolvendo-se independentemente da
historicidade humana empírica.
Ora, esse humano
empírico tornou-se o Outro alienado no resultado de sua ação, ignorante da
autonomia daquilo que a ele deve ser dado a pensar, sendo o fato do seu
pensamento o lugar transcendental da libertação. O Outro, sombra do Impensado,
foi, conforme Foucault, por exemplo, o em-si em face do para-si na fenomenogia
de Hegel, ou o ser alienado pelas relações de produção, no marxismo.
Creio que se poderia
observar o desenvolvimento dessa problemática da ação que demarca o pensamento
moderno, contrapondo o pós-kantismo inicial ao estágio maduro das ciências
humanas a que tudo isso conduziu. Assim, seria talvez afirmável que as três
vertentes que operam a superação do kantismo como um pensamento ainda preso aos
limites da representação, lidam com três modos de conceituar a ação que
favorecem a imbricação transcendental daquilo que Kant só podia tratar como
objetos da metafísica ainda no terreno da moralidade. Enquanto que mais tarde a
sociologia vai deslocar a ação, desse horizonte transcendental desenvolvendo-se
como tarefa totalizante da filosofia, como a relação do pensar com os
pressupostos da ideologia de uma classe, seja ao modo de Marx ou de Mannheim.
As três concepções de
ação que vemos no pós-kantismo seriam, a meu ver, recuperáveis pela
conceituação que Weber introduziu a propósito do problema da ação na
sociologia: Fichte e a ação orientada para um fim, lá onde a instalação do
âmbito prático se articula com a virtude, uma ética social. Schelling e a ação
orientada pelo sentimento ou expressão emocional, o affektuel de Weber,
onde são as formas religiosas estético-expressivas que operam a atuação do
espírito através do que o humano recupera-se de seu desdobramento na matéria.
Finalmente, Hegel e a ação orientada pelo valor, onde o Estado não surge como a
finalidade do espírito sem que seja conceituado como a forma suprema do valor,
figura ou forma ideal da realização temporalizada do espírito que nunca seria
impessoal ou universal, mas sempre desse povo, dessa cultura, o
valor como objetivação máxima do espírito.
No entanto, o que
penso ser necessário aqui é mostrar que Hegel não está tanto numa linha de
continuidade com Fichte e Schelling, mas que ele opera uma ruptura nessa
sucessão. O que pode ser bem enfatizado por esse modo foucaultiano de
estabelecer o que é propriamente moderno pela determinação do pensar no
intervalo problemático do mesmo e do outro, ali onde se instalou a alienação do
humano.
Assim, enquanto de
Fichte a Schelling a irredutibilidade parecia pertencer aos começos – um
partindo da relação do “eu” com o mundo ou o “não-eu”, enquanto que o outro
inicia por uma absorção de todas as oposições em algo mais fundamental que
define a identidade pura – Hegel lida explicitamente com os estados da
consciência assim como ela pode ser, inicialmente, uma experiência, não uma
natureza. Enquanto Fichte e Schelling começavam por tentar deduzir da natureza
da consciência tanto a experiência como o seu fundamento, indo assim, ora do
saber ao absoluto e à ação, ora do absoluto ao saber e à relig-ação, evitando
portanto que o écart se traduzisse em termos de alienação, o que já se
torna explícito em Hegel.
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Em As Palavras e as
Coisas as ciências do humano parecem constituir menos o fenômeno correlato de
um desenvolvimento epsitêmico-a priorístico do que a emergência paradoxal de um
saber ambíguo.
A tese mostra que
algo como ciência natural não surgiu, como habitualmente se pensa, na
Renascença, com a física de Galileu, de modo que tampouco o momento que se
reflete em torno do acontecimento da Revolução assinala o aparecimento das
ciências do homem. Mas a denegação do senso comum nesses dois lances não se faz
com a mesma densidade polêmica.
A tese implica, em
todo caso, uma definição de ciência que limita o conceito ao seu qualificativo “natural”.
Essa definição implica dois suportes concceituais: a constituição do objeto e a
relação com o postulado antropológico. Ora, essa relação não permite às
ciências tematizar do interior, precisamente, o “homem”.
A força da linha do
fora é aqui essencial ao movimento textual, pois o próprio dentro se informa
como uma exterioridade. Como se o postulado fosse a linha que, dobrando-se
sobre si mesma, articulasse as três faces da figura triédrica formando as suas
arestas – uma da “filosofia” como analítica da finitude, uma domínio do
físico-matemático e aquela das “empiricidades” de vida, trabalho e linguagem
como, respectivamente, da biologia, da economia e da filologia conexa à linguística.
No entanto, as faces
só podem ostentar sua imperturbável figura de superfície enquanto evitam a
tridimensionalidade que precipita a profundidade transformando o ser do espaço,
papel das arestas. Ou enquanto evitam o seu fundo, o seu “dentro”, aí onde,
inversamente, o espaço mesmo se encontra delimitado, onde as faces não se
fecham sobre ele sem que as arestas as tenham constrangido a projetar-se numa
função inversa à de sua natureza superficial.
No seu estado
natural, voltdas ao esterior, as faces são superfícies luminosas, Vistas pelo
seu reverso, o que elas fazem, se não projetar no espaço o volume de uma
obscuridade? Mas esse interior negativo é o dos estudos do humano, das “ciências”
que reverteram a relação do objeto com o postulado, poisnão podem guardar o
interdito, precisam justamente subvertê-lo.
Por isso Foucault
julga que não são formalmente ciências. Como explicá-las, então? Foucualt
propõe que elas guardam a reminiscência do clássico, que se definia por
tematizar o seu próprio suporte epistêmico, a representação. Ora, os estudos
humanos sãos aberes da representação. O fato de se instalarem no espaço reverso
do mundo claro e inteligível do saber científico, nesse lugar obscuro de um
saber ambíguo, se deve a que tematizam o que as ciências constituíram
objetivamente concedendo-se então, ao mesmo tempo que ao fenômeno, a plenitude
do inteligível que pertence a algo perfeitamente autônomo. Mas o tematizam sob
a espécie da representação, como o trabalho, a linguagem e a vida são
representados pelo humano: esses são os temas respectivos da sociologia, das
teorias do texto e da psicologia.
Essa tese de Foucualt
não parece facilmente sustentável. Ela implica a impossibilidade das ciências
humanas, sua recondução a umesttuto problemático. O que se agrava pelo fato de
que nesse momento o texto de Foucault parece se tornar muito marcado pelo seu
presente, quando havia um destaque no campo da antropologia. Mas em todo caso o
exame das implicações dessa perspectiva requer o desenvolvimento de nossa
apresentação, pelo que veremos os estudos humanos se concederem o
estatuto científico. O que desde agora podemos observar é que a tese de As
Palavras e as Coisas parece não tematizar essa autocompreensão, como se ela
fosse residual, conexa, na obscuridade do irrefletico da emulação, ao modelo
fornecido pela forma superficial da cientificidade legitimamente constituída.
O que interconecta o
momento do hegelismo é justamente que nele não se pode deixar de tematizar a
formação dessa autocompreensão. Aqui tudo converge para o tema da ruptura do
paradigma das ciências naturais, pelo que o pensamento se transforma numa
relação constitutiva com a história. Hegel supõe instalar-se nesse ponto a sua
originalidade, pois até Schelling tratava-se de uma relação mais fundamental
com o saber teórico.
Ou seja, tratava-se,
nessa espessura do pós-kantismo a Kant, de uma impossibilidade de romper com os
postulados da “crítica”, o que Hegel pensava ser uma tarefa incontornável mesmo
que como tarefa ela só possa ter se interposto pelo que a própria “crítica”
instaurou em termos de esgotamento da metafísica, superação do hiato entre o
fato e o conceito. Essa impossibilidade se revelava, paradoxalmente, como uma
tentativa “romântica” , por exemplo no schellingnismo, para reintroduzir o
absoluto na esfera do teórico, ou seja, de voltar à metafísica num terreno que
Kant havia tornado inacessível a ela. Assim, Fichte teria feito o mesmo que
Schelling, se bem que por vias alternativas.
No entanto, se a
novidade do kantismo havia sido essa transpposição do absoluto do saber, do
teórico ao prático, onde somente a metafísica poderia ter ainda um lugar, Hegel
afirmava que havia sido o fato da moralidade da “crítica” ter permanecido
abstrata, o que devia se conceder ao pensar.
A transposição dos
modelos Galileu, Newon ou Lavoisier a acontecimentos – ligados à Revolução
francesa, ou ao império napoleônico – não ocorre como uma simples observação de
Hegel, mas, co nforme registra chatelet, a imposição do “vento da história” à
especulação parece tema geral nessa época e isso com o devido espanto, pelo que
se interroga como algo assim pôde ocorrer. Mas quando é Hegel quem o interroga,
o que ele nota é que não se trata de uma transposição de gêneros culturais, e
sim de uma ruptura no próprio movimento do pensar, que agora interconecta as
práticas reais da humanidade, não os objetos de uma especulação, de um saber
teórico ainda que positivo.
Os textos iniciais de
Hegel visam essa efetividade histórica, que ele pensa dever resultar como uma
ação inteligível da humanidade, ação gigantesca, desde a cidade grega ao
cristianismo, de modo que seria preciso recompor sua inteligibilidade, os
momentos que enunciam a sua articulação progressiva: judaísmo, Cristo e a
romanidade cristã, a Reforma. O essencial, quanto à idéia de história, é que se
deve compreender o presente como resultado do longo processo dramático do
passado que in-forma a situação do agora.
Mas Chatelet enfatiza
que a concepção mais profunda, na base dessa idéia de história, pelo que a
inteligibilidade é intrínseca à factualidade, permanece como o material de
constituição da Fenomenologia do Espírito. Ora,a isso implica na Reordenação do
Saber. O Absoluto é a racionalidade do real, portanto ele não se separa da
factualidade. Não se faz mais pensamentos “sobre”, mas tão somente a Exposição
do que é. No entanto, poderia parecer que restou o problema inteiro do hiato
entre o dado e o conceito. A Fenomenologia do Espírito se encarrega de mostrar
que isso seria uma ilusão. Pois seria preciso ignorar o que é racionalidde para
supô-lo.
Hegel equaciona
racionalidade e verdade assim como saber absoluto e saber verdadeiro. Ambas as
igualdades são correlatas. Ora, que é o verdadeiro, o absoluto e o racional enquanto
saber, se não o abandono de tudo que foi irrefletido, proposto, suposto,
dado sem demonstração de seu fundamento, de seu movimento conceitual? Se não o
saber filosófico-científico? Mas sendo assim, o caminho da consciência é o
mesmo caminho da factualidade naquilo em que se configura como transição do que
é suposto, imediato, dado, ao que é certeza, saber, prova. A história é esse
mesmo caminho, e Hegel se esforçará por mostrar que a natureza mesma exibe uma
progressão de sistemas, do mais ao menos abstrato, do mineral ao orgânico.
A consciência é o
caminho do em-si como o dado imediato ao para-si do que se assegurou como o
demonstrado, o verdadeiro. Hegel introuduz, a meu ver, o que será o tema
dominante do “homem comum”, como ainda se constata no Ulisses de Joyce, pois o
saber verdadeiro, o Absoluto, não seria mais do que a posse do tipo de certeza
científica, que compreende todos os momentos do seu processo de constituição
inteligível, mas esse tipo de certeza não tem mais nada de misterioso, o
caminho não se põe como uma ascese, ele se orienta para o meio do humano, para
os fatos do presente histórico, para os enunciados das descobertas da ciência,
para isso com que lidamos na efetividade do cotidiano.
O esquema dos saberes
do hegelismo – religião, política, história, especulação, ciências
experimentais, atividades artísticas – desloca as antigas metafísicas, as
arquiteturas grandiosas de um Fichte ou um Schelling. Ao mesmo tempo, inserindo
todo fato em sistema, não pode haver no real fato que não esteja devidamente
contextualizado nume estrato específico de inteligibilidade plena. Assim, ao
mesmo tempo em que se pode afirmar que Hegel não lida com as ciências do
humano, pode-se constatar que ele instalou o pensar no elemento de sua
autocompreensão enquanto ciências, que aqui já se verificam a sua
possibilidade, o seu devir.
Ora, essa
possibilidade não se faz sem que, de modo necessário, elas venham a se
instituir como ciências. Enquanto a filosofia pôde fornecer o tronco de
que se projetavam como ramos as regiões de saber prático, isso não foi
possível. É nessa contingência que essas regiões se mantinham na ambiguidade
epistêmica de uma não-ciência que se enunciava, precisamente, como relação ao
mesmo tempo de emulação e de dependência frente à plenitude do científico.
Assim, isso se verificou ainda tanto no âmbito do kantismo, onde a moralidade
instituía o sistema de referência desses saberes, quanto no pós-kantismo,
quando se tratava de garantir pela reabsorção do absoluto na esfera do teórico
o sentido prático da ação.
Com Hegel não ocorre
essa dependência. A filosofia expõe, não “fundamenta” a facutualidade
inteligível, logo o que ela faz é deixar ver o fato da independência formal
dessas regiões, o que será preenchido pelo devir da cultura, no momento de
constituição das ciências do humano.
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Mas do kantismo ao
seu pós não há dúvida de que uma ruptura fundamental se instala, aquela que
desloca a centralidade da moralidade, como vimos. Ora, uma “ciência” humana de
status ambíguo teria sido possível na ambiência de um Kant, mas não de um
Hegel, onde essa ruptura só avança no sentido de sua completude. O paradoxal é
que se essa afirmação se choca com a solução de As Palavras e as Coisas
especificamente quanto a esse tópico, o seu desenvolvimento conceitual se deve
ao próprio Foucault, por ter mostrado o deslocamento no rumo da ação, desde o
pós-kantismo, irredutivelmente a Kant. Creio que esse é o ponto problemático da
argumentação do texto foucaultiano, pois ter situado a consistência epistêmica
do humano no elemento da ação, nesse início do século XIX, equivale, parece-me,
precisamente, a tornar impossível identificá-lo na base da representação.
No entanto, o mérito
de Foucault permanece sendo o de ter mostrado a real concernência dos momentos
clássico e moderno, a impossibilidade de estabelecer o continuum do
espaço do quadro àquele dos objetos constituídos pelas empiricidades e sua
consistência quase-transcendental. Quanto ao núcleo relacionado ao postulado
antropológico, o problema não está na sua enunciação, que me parece bem
fundada, mas no modo como o conceito se desenvolveu, inicialmente estabelecendo
um viés demasiado nítido de ruptura com os pensamentos que desde a transição ao
século XX o teriam recusado, e posteriormente compondo-se como referência
transgressiva de um saber que assim se impossibilitava como ciência, no caso
dos estudos humanos.
O problema me parece
ser que desde a constituição da ciência no espaço da modernidade a complexidade
de suas operações não pode se limitar à tarefa, no entanto necessária, de
compreender a operação de constituição de seus objetos. Isso só se põe na base
de algo que não cessou de ser apontado por alguns teóricos como a necessidade
de se instituir o corte, a cesura entre a ciência constituída e a ciência em
processo de se constituir, já que nos dois casos não se trata da mesma
consistência epistêmica, nem mesmo do mesmo conceito de ciência – isso
nem do ponto de vista do epistemólogo, nem do ponto de vista do próprio
cientista engajado na pesquisa em um ou outro desses pólos em devir.
Pois no caso da
ciência feita, trata-se da imagem de uma totalidade lógico-racional, enquanto
que no caso da ciência em processo trata-se de uma atividade sem delimitação metódica,
algo não totalizável no sentido de um saber constituído.
Ora, quando o corte
se institui no interior da ciência da natureza, o que se problematiza e permite
a cesura conceitual está inteiramente do lado do objeto, como demonstra, por
exemplo, a leitura de A Criação Científica, de Molles, que, quanto ao
exame dos recursos heurísticos envolvidos na ciência em processo, naõ deixa de
oferecer uma perspectiva bem ajustada.
A impossibilidade de
reduzir a criação ao já feito se impõe pela natureza dos recursos criativos que
permitem à ciência se desenvolver e que contrastam tão fortemente com a lógica
estabilizada associada somente à ciência constituída. Mas esses recursos estão,
a meu ver, sempre na iminência da manipulação do objeto ou do caminho para acessá-lo.
A constituição do objeto, paradoxalmente, não seria da alçada exclusiva da
ciência em processo, a criação se desenvolvendo no interior de cada região
científica já devidamente estabilizada por relação ao objeto que define cada
ciência como sua atribuição específica.
Assim, podemos
constatar que há dois desdobramentos conceituais na iminência da mesma
definição de certo campo cognitivo por relação ao seu objeto.
Ora, a formação desse
universo científico estabilizado dependeria de um exame histórico-epistemológico
não circunscrito à delimitação de cada ciência, sem deixar de ter que lidar de
algum modo, refletido ou não, com a cesura. O que equivale a mostrar que a
fenomenotécnica de Bachelard é algo que se poderia localizar como um estudo de
âmbito menor ou mais restrito, no interior de uma empresa mais vasta como a de
constituição do Saber em Foucault.
Isso não ocorre do
mesmo modo nas ciências do humano. Aqui o corte se institui do lado do próprio
conceito de cientificidade. É por isso que se torna impossível uma “história”
da ciência humana que não observa esse corte, enquanto que uma história da
ciência natural que “conta” apenas o “progresso” dos saberes, isto é, uma
história da ciência sempre, a cada momento do relato, apresentada como já constituída,
é mais exequível. Nesse caso aponta-se a originalidade do cientista ou suas
excentricidades. É sempre uma lógica impecável que resulta como “moral” da
história.
Quanto às ciências do
humano, é claro que sempre se pode apenas arrolar as “conquistas” da psicologia
ou os conceitos da sociologia, mas a constituição desses saberes não evolui
apenas no sentido de uma sobreposição de teorias acerca do seu “objeto”, até
por que é desvantajoso instituir essas ciências por uma relação com o objeto,
em vez de pensá-las como problematizações de um feixe temático sempre
entrelaçado.
Algo que é importante
observar quanto a isso é que o corte permite tornar um pouco menos obscuro o
problema da relação entre ciência humana e dominação social. Assim, um dos
temas que inevitavelmente devem ser abordados quando se trata de compreender a
emergência dos saberes do homem é sua inserção na sociedade industrial, seu
caráter, em alguns casos cruciais, de saberes que emergem como intuito de
manipulação de uma amostra populacional: como nos exemplos da relação entre
psicologia e adestramento do trabalho desde que se institui a efetividade da
fábrica, linguística e normatividade comportamental da parole que intercepta
quadros de dominação de uma língua maior sobre povos dominados, etc.
Ora, esse é o rumo da
ciência já feita, sua história não simplesmente se põe numa continuidade com o
constituir-se de uma reflexão sem cessar renovada do que é ciência do humano,
sobre que é que a psicologia estuda, sobre como se deve sequer definir o
fenômeno linguístico, etc. O que é extremamente instigante aqui é que nem
sempre se poderia constatar a relação direta entre uma teoria destinada a
responder alguma dessas indagações e a produção de um saber – como uma
tecnologia de controle do trabalho, por exemplo, ambos no interior do próprio
campo da psicologia, no mesmo momento histórico.
Assim, a implicação
da ciência do humano com a dominação do saber humano não parece justificada
inteiramente, pois muitas vezes se observa a decalagem entre uma prática
instituída, um saber “disciplinar”, conforme o conceito foucaultiano, e o
desenvolvimento de uma teorização da mesma ciência que se vota como combativa
dos pressupostos não-científicos no seu próprio campo na suposição de que eles
são ilusórios, ferramentas de dominação, de modo que o não-científico e o
científico se torna a partição entre o comprometimento “ideológico” ou com a
dominação, e a liberação, a ruptura com a dominação. E nesse sentido a ciência
do humano tem revelado um potencial crítico que a ciência da natureza não
poderia mostrar, ou mesmo que a filosofia raramente exibiu.
Não que isso facilite
as coisas, quando se trata de compor o devir dessas ciências, mas naquilo em
que se puder recuperar a cesura, não se pode deixar de fazê-lo sem que se
comprometa a inteligibilidade do processo. Ora, é inevitável que a via da
ciência do humano se constituindo intercepte o campo do conhecimento em suas
inúmeras vertentes – não só o interesse ou a inaplicabilidade da matematização,
mas também o conceito filosófico, a história da cultura.
E mesmo, o que tem se
tornado cada vez mais ostensivo aos observadores, intercepta as práticas e “saberes”
do senso comum. Tendo instituído o seu papel crítico, a sua tarefa de
problematizar a dominação, ao mesmo tempo as ciências do humano estão numa
relação incontornável com o senso comum naquilo em que ele se revela como a
efetividade presente do campo social. Temas como a comunicabilidade da ciência
ao mundo não-iniciado, por exemplo desenvolvido com Gadamer, a importância
hermenêutica da relação entre ciência e tradição, se tornam tão relevantes
quanto o impacto da teoria “revolucionária” – não apenas marxista – sobre a
prática consistência teórica, ela mesma, como práxis.
Esses temas são
ácidos nos dois sentidos, tanto devem localizar os processos de dominação
vigentes como tradição ou como saber científico, e sua imbricação, mas o
fundamental é perceber que só podem ser desenvolvidos no interior do campo que
já é o da ciência do humano ou do pensamento plenamente informado por ela.
A filosofia de Hegel
está, como podemos observar, numa posição decisiva no rumo da constituição
epistêmica desse campo de conhecimento em que emergem as ciências do homem. O
que se torna importante enfatizar é que Hegel compreendeu o que estava em jogo
na ambivalência do kantismo ao seu pós, de modo que reconstituir aquilo que faz
sua filosofia inovadora por relação a Fichte e Schelling depende de enunciar a
sua crítica a esses empreendimentos teóricos, tanto quanto à ambiência do romantismo.
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A crítica de Hegel a
Schelling se deve à sua noção de conhecimento como processo, exigência de
conteúdo. Schelling havia, inversamente, postulado como conhecimento autêntico
o único saber pelo que tudo é igual no absoluto. Essa ruptura com Schelling
ocorre mais posteriormente, enquanto que seu desacordo com Fichte é visível de
início, enunciando-se pela recusa do procedimento que isola o Eu Absoluto no
vazio e no abstrato, como oposto ao Eu empírico e ao não-eu.
Mas o que resta em
Fichte e Schelling de conexo à iniciativa de Hegel é o que ambos haviam
objetado ao formalismo de Kant: a resolução do problema filosófico da
determinação do real se torna insolúvel se não houver, inicialmente, a posse do
que Hegel enunciou em termos de conceito, mas que corresponderia às noções de
intuição transcendental e intelectual.
No entanto, a crítica
de Hegel visou, conforme Bréhier, a insuficiência da conceituação do que deve
ser garantido por essa intuição, a união do sujeito e do objeto, nos sistemas
de seus predecessores. Mas ele recusa ainda mais intensamente os intuitos
românticos como os de Jacobi que fazem do sentimento e da crença, não da razão,
os referenciais do humano no mundo.
A ruptura com
Schelling ocorre quando Hegel assimila intuição e sentimento, reservando ao
conceito a função do pensar. Até então, havia suposto o sistema de Schelling
conveniente, pois o tipo de relação que nele se instaura entre a Natureza e o
Eu não é de oposição, como de um sujeito separado de um objeto. Schelling
pensava Natureza como sujeito-objeto, e do mesmo modo o Eu, ambos contendo,
cada um, o essencial do outro, sendo ainda ambos absolutos enquanto suas
determinações são imanentes.
Mas o prolongamento
do sistema no schellingnismo acarreta a abstração da identidade pura, que tende
à confusão de tudo com tudo, o animal, a eletricidade, o azoto, sendo o mesmo,
quando a intenção do pensamento hegeliano repõe a exigência da experiência do
conhecimento que se ancora no movimento conceitual de apreensão das relações e
sobretudo da progressão que se verifica no real entre um e outro fenômeno.
A unidade do real se
compreende em Hegel, não como se fosse de início algo postulado, mas sim como
aquilo que não poderia deixar de se apreender ao exame dos modos de ser do
pensar e da efetividade, onde não existiriam fatos soltos, mas sempre e tão
somente interligações em consequências, complexos de fatos entredeterminando-se
uns aos outros, mas tampouco de forma a constituir um todo fechado, e sim uma
história sempre em desenvolvimento. O universo hegeliano é profundamente
narrativo, de modo que a questão que se instaura desde a sua influência é:
existem fatos atômicos, dados exteriores às relações, ou tudo está interligado
numa unidade impossível de se desfazer?
Vemos então como essa
“unidade” é irredutível àquela identidade pura de Schelling, já que ela
comporta agora não uma oscilação do mesmo ao outro, mas a tessitura
profundamente coerente de uma história das coisas, como interligação consequente
dos fatos. Contudo, poderíamos também endereçar a questão ao próprio sistema do
hegelismo, pois se trataria de saber se essa unidade deve ser visada mais como
unidade de composição – já que se define como o modo pelo qual o real se
articula racionalmente – ou como totalidade.
Bréhier acentua esse
aspecto da totalidade e tende a ler o hegelismo como uma démarche não tão
irredutível ao pós-kantismo como seria ao gosto de Hegel fazer supor, de modo
que ele sublinha o fato de Schelling ter pronunciado sobre Hegel a mesma
crítica que este lhe havia lançado. Acentua assim o aspecto idealista do
hegelismo, pelo que o desenvolvimento que se produz da filosofia da natureza à
filosofia do espírito se mostra como figuração do Mesmo.
Chatelet,
inversamente, lê o hegelismo como um realismo que subverte o tom idealista do
seu próprio discurso, realismo tão nítido que enuncia, mais do que o kantismo,
a impossibilidade da ilusão metafísica. Não obstante o “atraso” do seu meio,
como observou Marx, Hegel soube oferecer respostas e questões que ainda são
matéria do pensamento atual como tarefa da compreensão da sua novidade.
O viés idealista
seria, portanto, uma espécie de tributo ao tempo ou ao meio, enquanto que o
movimento real dessa filosofia consiste em ter conduzido o pensamento ao limiar
da contemporaneidade. Nessa leitura, Hegel não se teria equivocado ao enunciar
o seu papel como o último pensador do Ocidente, aquele que reuniu tudo o que
veio antes, aquele que completou o percurso da filosofia.
Creio que o problema
da localização histórica de Hegel é realmente importante,
relacionando-se tanto com a compreensão de sua filosofia quanto com o momento
de transição social, nada menos do que do passado ao presente, que está em
curso no início do século XIX. Ora, quanto a isso, parece-me que mesmo se
adotarmos a linha da interpretação de Chatelet, o que se verifica é que o
sistema de Hegel permanece, sim, como um fechamento (clôture), mas não
da filosofia e sim da filosofia moderna.
O que impede a via da
contemporaneidade a esse sistema não seria tanto o seu comprometimento
idealista com a totalidade. Penso que efetivamente é preciso insistir na
ruptura que Hegel apresenta no panorama do pós-kantismo, não no aspecto de sua
coextensividade a Fichte e Schelling. Mas se fosse dado pensar de modo livre,
poderíamos propor a questão: que seria do kantismo se Kant não houvesse recuado
da filosofia pura à ilusão metafísica da filosofia prática, ou o que seria do
hegelismo se Hegel houvesse enunciado a inteligibilidade do real em termos de processo,
como ele fez, mas sem ter finalmente comprometido o processo na ilusão
metafísica dialética?
A resposta, creio, é
que eles não teriam sido aprisionados na modernidade, é que eles teriam sido
pensadores contemporâneos. Como isso não se verifica no real, resta apreender
como esses pensamentos, de Kant e Hegel, anunciam de modo tão premente o
futuro, mas nunca conseguem se instalar nesse nosso presente. Lição sumamente
instrutiva, pois permite mostrar com precisão o que nos separa do passado.
O comprometimento
dialético se designa como a pretensão de instituir universalmente a progressão
conceitual no movimento de posição, negação, resolução ou síntese dessa
alteridade. Mas como a progressão conceitual só existe como processo de
efetivação do real, a totalidade se reinstitui como esse Mesmo que performatiza
o movimento, o movimento sendo a figuração de seu presentar como Mesmo.
É interessante
observar como, do ponto de vista moderno, Hegel introduz a ruptura. A
identidade não mais se pensa como igualdade do termo consigo mesmo, ela é a
atribuição de uma ação. Identificar é agora atribuir ao sujeito o que ele faz,
logo, ser é agir, mas a ação não é algo abstrato, e sim, sempre, esta ou aquela
ação, com esta ou aquela amplitude em seus efeitos. A totalidade é a identidade
que cabe ao agente, mas sendo o agente o todo, a amplitude da sua ação abarca
todas as outras ações, subsumindo-as na inteligibilidade do seu agir. Assim,
todas as ações tem uma inteligibilidade recuperável como aporte do processo que
integram, e se compreendermos o sentido da ação da totalidade, ao mesmo tempo
recuperamos a unidade como estrutura profunda da narrativa do real.
Mas ocorre também que
a anteposição da síntese rompe com os esquemas caros ao pós-kantismo, que
vinham, todos, se estabelecendo na base de uma lógica da alteridade. Isso havia
alcançado o pensamento espiritualista francês, como vimos, e favorecido uma
psicologia mesclada de filosofia e fisiologia, como em Biran. Tratava-se de
apreender o mesmo pelo obstáculo do outro, o eu pela resistência do mundo,
contrapondo desse modo, com ares de uma contraposição definitiva, a crítica
iluminista-empirista das totalidades projetadas. A subjetividade parecia assim
garantida como fato elementar, enquanto Hume havia mostrado, numa aproximação
bem mais efetiva à contemporaneidade, que o fato a observar era o desvio da “razão”,
seu papel ilusório se não votado à tarefa (auto)crítica.
Hegel estabelece o
pensar num movimento ulterior aos esquemas tradicionais do pós-kantismo por ter
introduzido a síntese como termo da alteridade. Certo, a síntese é conceituada
como “retorno” após uma saída ou exteriorização de si, mas precisamente esse
retorno não seria do mesmo na imanência do processo conceitual. Somente o
espírito retorna em todos os processos parciais ou movimentos conceituais, como
o Mesmo que precisou se exteriorizar na Natureza e que volta ao que é na
racionalidade prática do humano. Mas mesmo esse retorno apreende algo de seu
movimento, o Espírito é o mesmo sem ser de todo o mesmo quando ele se
transformou em arte, em direito, em moral, em religião e filosofia.
A introdução da
síntese instala o pensar, portanto, no mundo outro daquele em que só havia o
um-dois, a identidade e a alteridade, garantindo o movimento, a realidade da
ação. Esse mundo tão mais próximo da indústria, da livre iniciativa, de uma
recusa da moral da harmonia para valorizar o ousar, o empreender, mundo que
será, não mais o do Romantismo, aquele do Realismo. Mas tampouco aquele das
vanguardas, que é o mundo impermeável à dialética, em que, mesmo Marx precisou
ser reconduzido pelo leninismo revolucionário – as massas podem, sim, fazer a
revolução, independente do movimento pesadamente taxado pelo antes, o meio e o
depois, que deveria balizar a história.
O que é irredutível
ao contemporâneo, no hegelismo, é esse sistema do saber como curso do mundo e
do espírito. A nós isso pareceria excessivo. Por que deveríamos supor que todos
os processos conceituais formam tríades? Hegel parece não ter nunca se
oferecido essa indagação, a ele isso era algo bastante evidente. Ora, a razão
dessa lacuna me parece bem instalável no vezo moderno que impossibilita pensar
o real sem uma metafísica, assim como o conhecimento na exterioridade de um “quadro”
capaz de captar, no seu quadriculado, todos os dados da natureza, pensados como
representáveis.
Uma vez que não se
duvida de que isso, esse princípio metafísico, existe, a questão se torna como
conceituá-lo, quando seria preciso indagar dessa necessidade. O empirismo teria
sido assim, menos um dos modos possíveis de se lidar com a representação
clássica do que a enunciação do que estava em marcha na acumulação capitalista,
a saber, a impossibilitação progressiva do conceito no seu feitio moderno.
Porque o capitalismo
não tem regras, sendo isso o impensável da modernidade. Não existem regras de
competição do capitalismo, existem regras como meios de frear a tendencial
esquizofrênica do capital, regras de limitação do capitalismo. Os códigos aqui,
como mostra a esquizo-análise, são a exterioridade do sistema, não a sua “natureza”.
Uma filosofia como a
de Hegel se votou à tarefa impossível de assegurar regras na interioridade
daquilo que seu autor deve bem ter pressentido como a realidade do que estava
por vir, do que estava em marcha, mesmo que isso só prove a sua genialidade,
dado o atraso do seu meio.
Pode-se, também,
objetar que isso ainda é o nosso problema, pois a nostalgia de um sistema “natural”
– ou seja, intrinsecamente regrado – se conecta ainda a questões éticas e mais
geralmente filosóficas, se bem que já integrando inevitavelmente o jargão das
ciências humanas: como é possível postular qualquer ação sem regras imanentes?
Ou como é possível que um sistema não seja regrado? Esse tipo de questão
formalista parece ultrapassado, pois já se tornou relativamente comum o enfoque
do capitalismo como algo que funciona na base do “princípio sem princípios”,
conforme a expressão de Marshal Berman.
O formalismo se torna
a garantia dos pensamentos que recusam o presente, que se votam a restaurar os
relatos de justificação dos códigos, que se concedem a tarefa de conceituadores
mas somente à serviço da comunicação, pelo que sua única preocupação é como
fazer parecer que os códigos são interiores ao sistema, quando a própria
comunicação só funciona porque o capitalismo impõe a contínua
desterritorialização dos códigos, sua mudança cíclica, mas nunca fazendo voltar
o mesmo.
A axiomática
capitalista prescreve o processo não-lógico dessa tendencial esquizofrênica, a
impossibilidade de ser um sistema de códigos imanentes, a ação consistindo
sempre na desterritorialização de todos os códigos. A tarefa da
reterritorialização não caberia melhor a nenhuma outra instância, já que nada
mais artificial do que a comunicação – o essencial aqui é justamente não
ser nem parecer “natural”, sobretudo quando a “moda” é a natureza, etc., ou
como no exemplo de Culler, em que a canção “você me faz sentir uma mulher
natural” suscita a questão de como é que se pode vir a ser despertado por um
sentimento, como se ele viesse do exterior e se devesse a mais alguém, se isso
deveria ser justamente o nosso, desde sempre, natural?
O que me parece
observável aqui é a impossibilidade de fazer a confusão de algo como um relato
de justificação, ao modo dessa tarefa de legitimar códigos artificiais
descontínuos, que pertence à comunicação, com o processo da ciência do humano
em progresso que se tem realizado como uma problematização da cientificidade,
naquilo em que algo assim só pode se erigir na confrontação com os relatos de
justificação, ao mesmo tempo em que inevitavelmente a ciência do humano está na
imanência do processo histórico, não se separa das teias de relações sociais.
É interessante notar
que em ambos os casos não há “totalidade”. O processo de inventar reterritorializações
é tão interminável quanto o processo de se pensar vias críticas de compreensão
da nossa própria inserção nesse meio chamado cultura. No entanto, é como esses
rumos de infinitização fossem opostos, conduzissem a caminhos que, não obstante
seu entrelaçamento, jamais poderiam ser o mesmo.
Assim, a questão de
Hegel, como enunciada por Bréhier, parece de uma singularidade exemplar no seu
tempo: como posso me conceber tal como sou? Poderíamos hoje
indagar: o que se tornou contrastável e forçou a questão? Como nota
Bréhier, o que se contrasta assim é a multiplicidade de fato, circunstancial,
da existência, e a unidade da identidade que se postula como referência do que
não cessa de mudar e lhe ocorrer.
O que permanece
moderno na indagação é que o múltiplo e circunstancial aparecem como o espelho
de uma identidade fundamental, de modo que finalmente se reduz o múltiplo a
essa função de espelho do uno, nada mais. No entanto, se Hegel, como a
modernidade, se detém nesse ponto, a contemporaneidade utilizará o que se
reduziu, e a subjetividade se revestirá não mais da contrafação do múltiplo, e
sim de sua efetivação – será a unidade que se tornará residual.
A obra de Hegel é
vasta. Mas algo que chama a atenção no seu desenvolvimento repõe a natureza
ambígua de sua relação com o tempo. Pois, por um lado, penso que a partição que
se poderia estabelecer dos seus núcleos fundamentais já anuncia a articulação
das regiões que a contemporaneidade problematiza: fenomenologia, epistemologia,
sociedade, espiritualidade e Subjetividade. Mas o que limita esses núcleos do
hegelismo à modernidade é o nexo quadricular que se estabelece entre eles, sua
dependência metafísica fundamental, quando na contemporaneidade o que os
carateriza é a autonomia, a imanência favorecida pela extrema complexidade
temática em cada região.
Proponho a observação
de cada núcleo para reconstituir a consistência do pensamento de Hegel, o que
permitirá completar o panorama da filosofia Moderna.
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Fenomenologia
Esse núcleo se
relaciona ao estudo da consciência, ao fenômeno de estar em uma efetividade
dotada de sentido que se constitui ao mesmo tempo como a realidade daquele para
quem a efetividade se comporta como o mundo.
Esse poderia ser o
arqui-fenômeno, pois todo fenômeno se produz numa relação com ele, enquanto
acontecimento de sentido, não apenas coisidade.
Seja como for que se
aborde esse núcleo, ao modo do pesquisador interessado no funcionamento do
cérebro ou ao modo do filósofo transcendental, não há como contornar o fato
duplo pelo que não se fornece algo como a estrutura da objetividade sem que se
tenha previamente constituído sob algum aspecto a estrutura da subjetividade.
Nem sempre essa estrutura prévia é conceituada como unidade, mas essa é a via
utilizada pela filosofia transcendental.
Os pontos de vista
filosófico e científico não destoam, porém, quanto ao objetivo que é apreender
a pressuposição recíproca dessas duas estruturas, sempre a ambição consistindo
na revelação pela qual ambas se tornam aspectos da mesma realidade. Isso cria
ainda um outro foco que é aquele do “sujeito” como personalidade ou agente
social. Esse foco, não importando como se conduz a ele ou como o caminho até
ele obriga a encará-lo de certa forma, torna-se apenas esboçado na fenomenologia,
não pertencendo ao seu núcleo conceitual, que se limita à interação das
estruturas subjacentes a uma experiência consciente.
Por outros termos o
que se afirma é que esse objetivo se delimita como uma tarefa que deve ser
realizada de modo que o próprio desdobramento, o fato de que, para o sujeito
nunca deixa de parecer que há o Eu e o Mundo, se torne compreensível pela
maneira mesma de ser do real fundamental que reúne a ambos.
Hegel designa a
duplicidade que o sujeito vivencia como Outro do mundo em termos de Extrusão (Entäusserung),
a substancialização do Selbst. O Selbst, que se traduz por “si”, consiste
no ser em si e para si da subjetividade.
A extrusão é a
subjetividade como algo no mundo, a pessoa objetivada como unidade
corpo-autoconsciência. A essa unidade vivencial, espírito que pertence ao
mundo, que é no mundo ao mesmo tempo que sabe-se frente a ele, Hegel contrapõe
a consciência pura, o Selbst. Nesse ponto intervém a Alienação (Entfremdung).
Pois o espírito é liberdade para si mesmo, efetividade objetiva, e no entanto,
uma unidade perante a alteridade da multiplicidade dos fenômenos mundanos. Ora,
o Selbst, sendo a consciência pura, é autor do mundo, Subjetividade Absoluta,
logo, realidade una, onde não pode haver alteridade.
Entre a consciência
pura e a consciência de si se instala a alienação como necessidade de
exteriorização da essência não somente como o fenômeno das coisas, objetos
formalizados pela consciência, mas como o mundo das leis, o elemento do direito
onde os agentes não podem deixar de se inter-relacionar pela extrusão.
O volume inicial da
Fenomenologia do Espírito cobre o longo processo pelo que o sujeito se descobre
como “subjectum” do mundo, este sendo perante a subjetividade que lhe fornece o
sentido, mas a espessura do hegelismo frente ao kantismo está em que ao invés
de duas críticas como dois eixos separados de interesses da razão, pelo que o
regime de sua legislação deveria encenar acordos irredutíveis entre as
faculdades e uma troca de papéis entre elas, Hegel mostra que a consciência não
conduz ao saber verdadeiro, ao conceito, sem que ao mesmo tempo se descubra
como agente do Valor no mundo, sem que o mundo se transforme no mesmo lance em
algo que é cultural e moralmente ordenado.
Em Kant a unidade dos
interesses da razão é tão somente algo que pertence à experiência, ou ao modo
de ser discursivo da razão, que não põe a sua verdade de modo imediato, mas
somente por meio do conceito, do trabalho do entendimento ou da legislação
racional que integram a experiência uma do sujeito pela regulagem dos atos de
juízo.
O sujeito está sempre
ajuizando a adequação, seja dos dados às sínteses do entendimento, seja dos
atos às determinações da vontade, seja quanto aos elementos do gosto, mas a
razão mesma é profundamente compartimentada sem que o sujeito precise perceber
isso, ou sequer possa fazê-lo , na inteireza da sua experiência de mundo, na
exterioridade da elaboração Crítica.
Hegel não postula uma
razão imediata, nisso não rompendo com os quadros do kantismo, mas torna a
unidade vivida na sua concretude, pois para ele não há distância entre o
ato da razão e o valor, o sentido atuado como realidade no mundo, se não como
efetivada nessa mesma realidade.
Assim, o Selbst que é
a consciência pura transforma-se no sentido valorativo pelo que tudo o mais é,
enquanto que a separação entre a presença efetivada como sendo a do sujeito e
os valores objetivados nos sistemas da ética, do direito e da cultura torna-se
uma pressuposição entre esse dois pólos existenciais. Por exemplo, os
antepassados continuam presentes no vínculo dos parentes que é o Selbst da
família, a legitimidade do governo, sua potência ou vontade, é o Selbst do
povo.
Mas essa
pressuposição não se põe como um vínculo nominal, e sim como temporalização. É
em cada momento, em cada presente transitório, que a operação do sentido se
realiza por meio da alteridade. Nenhum desses dois pólos recebe de uma vez a
sua efetividade, nem a tem em si mesmo, mas a recebe e a conserva pontualmente
do outro, isto é, em cada momento, em cada presente transitório. A alienação se
torna a chave do processo como temporalização do sentido, pois nada possui “um
espírito nele mesmo fundado” ou permanente, a unidade não sendo o equilíbrio,
mas a essência sendo sem cessar atribuída pelo Outro: “tudo está fora de si”,
no “estranho”.
O Selbst sem presença
é fé, enquanto que a realidade da presença é a alienação da consciência efetiva
e do seu objeto que é o mundo ético. No entanto, a temporalização engendra o
retorno da alienação à realidade subjacente ou fundamental do Selbst.
O mundo ético se
volta à fé como a realidade negativa do seu desenvolvimento no tempo, que Hegel
descreve em termos de separações – entre a lei de Deus e a lei do humano, entre
o saber e a ignorância – logo, se volta ao Selbst quando essas separações são
superadas. Quanto à presença que se tornou singular pela extrusão, seu retorno
da extrusão se faz pelo processo de captar o conceito, o universal. A
consciência capaz de atingir o conceito se torna o Selbst universal, mas sem
que isso esgote o processo, que se estende até que a cosnciência possa reunir
todos os momentos como tantos mundos espirituais – tanto as realizações do
valor, quanto as suas realizações conscientes de si no conceito. O processo
culmina na inteligência pura que conduz à auto-apreensão do Selbst. Ora, como o
mundo ético é em relação essencial com a presença singular, vemos que os dois
retornos coincidem como faces do mesmo processo.
O momento de
culminância não quer se precisar como pura posição da identidade para si mesma,
e sim como a compreensão do Selbst enquanto atividade realizadora da cultura,
isto é, como o desbloqueio da atuação conceituadora do mundo. Tudo agora se
torna conceituado, o que significa que nada mais é apreendido ao modo de
uma coisa indiferente, como se o objeto fosse independente ou neutro, mas tudo
se torna valor para o Selbst. Este tampouco se põe agora como a fé, assim como
o mundo deixou de ser o mundo “real”. O retorno da alienação resolveu a
oposição das presenças efetivas, a do sujeito e a do objeto, pelo que agora só
restou o Selbst e seu atuar, revolução que Hegel enuncia em termos de
realização da liberdade absoluta.
Essa expressão só
quer mostrar que a temporalização produziu o caminho do objetivo ou funcional
ao cultural, mas também do cultural ao mundo da consciência moral. A
temporalização não exclui os momentos como termos singulares, mas mantém a
progressão pressuposta pela natureza daquilo que só engendra o caminho no tempo
pela cisão do que sempre é e volta a ser. O elo do hegelismo ao kantismo me
parece bastante forte, ainda que o que Hegel produz é a superação da
perspectiva a-histórica ou “abstrata” do transcendental.
Ora, o que volta a
ser não deixa de ter se transformado historicamente ao ser concretizado na
realidade do processo histórico. O momento se torna algo não apenas relacionado
de um certo referencial acidental ao que nele se efetiva, mas é o ser mesmo do
que transcorre. Assim, o que torna a leitura da Fenomenologia do Espírito algo
surpreendente e complexo é que aqui não se separa o que habitualmente é
designado como os estágios desde a percepção ao conceito e a narrativa
histórica que põe em cena as idades da história.
Chatelet conceitua
essa articulação identificando três registros: o da consciência em si, o da
consciência para si e o da consciência em si e para si. O nível da consciência
em si é aquele em que Hegel trata os estágios da atividade espiritual, desde a
percepção até a moralidade. No nível da consciência para si o que se concede à
observação é o desejo, as modalidades transitórias da existência, desde o
sujeito do despotismo oriental ao cidadão dos estados modernos. Quanto ao
terceiro nível, o exame abrange a consciência em si e para si como
conhecimento, isto é, cobre as realizações históricas que perfazem o devir da
cultura universal.
A idéia norteadora
dessa articulação textual é que a formação do espírito não se delimita como
algo independente do que o espírito realiza em cada estágio de sua formação.
Mas também o inverso, isto é, de que a história da cultura não apresenta fatos
autônomos, assim como nada ocorre como tendo uma identidade concreta na
exterioridade do seu momento.
A inversão do
conceito de tempo que caracteriza o senso comum ou a perspectiva iluminista é
patente. O senso comum lida com coisas, estaria no estágio da mera consciência
que apreende o aqui e agora, no máximo chegando ao estágio de percepção,
atividade que agrupa o fluxo sensível em objetos estáveis, com suas
propriedades associadas. Ora, o pensador do tipo iluminista chega ao
entendimento, como ao momento seguinte dessa atividade, constituindo o sistema
de coisas, uma ordem reguladora da percepção. Em todo caso essas coisas são
dadas como preexistindo de direito em si mesmas. A ordem temporal em que podem se
apresentar se torna exterior, acidental, mudando conforme o referencial.
Hegel designa esses
estágios, do senso comum ou do pensador iluminista, como termos da ilusão do
não-iniciado, pois o que eles fornecem é a certeza sensível que parece o
conteúdo mais rico do conhecimento, ilusão da infinita riqueza do dado, pois se
o pensa como a efetividade do real na perfeita exterioridade do sujeito.
Chatelet enfatiza a
relação desses estágios com as duas meditações iniciais de Descartes, e Hegel
sublinha que os iluminismos, seja na vertente puramente materialista, seja na
vertente empirista que localiza a essência na atividade do espírito sobre os
dados da sensação, nunca atingiram o “conceito da metafísica cartesiana”, isto
é, a terceira meditação, conforme Chatelet, em que Descartes nomeia o momento
da percepção da implicação do sujeito pensante no objeto pensado. O pensado é
sujeito, atividade subjetiva do pensar, não simples passividade conexa à
realidade independente dos dados.
No entanto, o
paralelo com Descartes se interrompe. Hegel não nomeia esse momento em que o
sujeito se alçou do puro em si de sua consciência alienada no outro em si que
seria o das coisas na sua exterioridade essencial, como uma simples posse do
sujeito por si mesmo como sujeito de conhecimento que deve poder por ora se
assegurar da realidade do mundo pelo seu próprio status cognoscente.
O para si só se torna
um “segundo movimento”, na expressão de Bréhier, porque o sujeito não se
descobre sem descobrir ao mesmo tempo os outros sujeitos. Ao invés de ter
encontrado o meio de assegurar a estabilidade do mundo, o que o sujeito
encontra é o mundo misterioso, impenetrável, hostil, de consciências
estrangeiras umas às outras.
Ou, conforme
Chatelet, ser para si é descobrir a força que anima o seu ser, descobrir o
desejo que agora não pode se conceituar como uma relação com o objeto, e sim
com os outros sujeitos: o desejo não é o que porta sobre objetos, é sempre
desejar o desejo do outro, querer que ele atribua a nós o nosso status de Sujeito
que é, porém, o dele.
O conflito nascente
só pode se resolver progressivamente, sua solução consistindo na união das
consciências na universalidade do espírito. A progressão inclui as figuras ou
idades históricas do homem: guerreiro, estóico, cético, místico, romântico,
humanitário, cavaleiro errante, intelectual, cidadão e religioso.
A luta pelo
reconhecimento que caracteriza a dialética do senhor e do escravo, fase do
guerreiro que conduz, pela importância crescente do trabalho que emancipa
finalmente o escravo vencido pelo senhor, ao momento estóico, se tornou o
emblema da filosofia de Hegel na França, conforme Chatelet, e influenciou
particularmente o pensamento de Marx.
Aqui o interessante
não seria tanto se deter nos pormenores dessas fases, mas observar os cortes
fundamentais. Assim, entre o guerreiro e o estóico se instala a transição do
estado de guerra ao estado da civilidade instaurado pela organização do
trabalho. Mas entre os momentos cético e místico ocorre outro tipo de salto,
não apenas imanente à história na progressão interior a um mesmo movimento de
consciência, e sim ao novo movimento, aquele da Razão, quando a consciência se
faz em si e para si.
Se os momentos
anteriores podem ser designados em termos relativos ao do objeto e ao do sujeito,
o momento da Razão relança a objetividade, mas não a das coisas e sim a dos
valores. Os objetos são agora os da cultura, enfeixando, desde o momento
místico, as idades éticas como esses estágios prescritos que envolvem a
totalidade das religiões e das possibilidades postuladas pelos seres humanos em
sua tentativa de reconciliar as consciências e resolver o problema do desejo.
Ora, Hegel não pensa
que qualquer solução seja menos provisória não sendo a revelação do Cristo. A
história do Verbo encarnado seria uma réplica alegorizando a narrativa do
espírito: por um lado, auto-conhecimento de Deus, mundo como revelação do
Espírito, mas também justificação da existência. A relação entre remissão dos
pecados e encarnação do Verbo encena a superação da história sangrenta do
conflito dos sujeitos pelo desenvolvimento do espírito, pois a revelação é ao
mesmo tempo a posse do saber absoluto, pelo que o mundo se transmuta na
responsabilidade espiritual dos sujeitos.
Contudo, como vimos,
essa transmutação envolve a transfiguração conceitual do mundo como atividade
de constituição de sentido e valor que pertence ao sujeito. Hegel enuncia isso
do seguinte modo: a religião cristã é o em si da realização do espírito,
enquanto que a autocompreensão como atividade espiritual constitutiva do mundo
é o seu para si. A união desses dois momentos, o espírito em si e para si, será
o Saber absoluto, o saber-se conceituante e conceituador que apreende o sentido
da própria religião. Antes desse momento, a religião é apenas fé que realiza a
união na prática, mas que ainda não possui o sentido do seu próprio ato. Mas
apenas a autocompreensão seria vazia, na verdade impossível, sem a fé que une
os sujeitos na efetividade histórica que a religião realizou. Mais
profundamente, o que o Saber absoluto apreende é o aí do seu ser, o fato do seu
agir temporalizante que transfigura o mundo em valor.
Novamente acentua-se
o nexo da dependência do fato ao seu momento, pois nenhuma dessas realizações
históricas, que se sucedem como figuras da formação do espírito, teria seu
sentido na exterioridade da progressão que integram como estágios desse
percurso.
Mas se a culminância
do itinerário fenomenológico é o Saber absoluto, poder-se-ia indagar, como
Chatelet, do lugar dessa “filosofia completa” na Fenomenologia do Espírito:
onde está a Ciência prometida? Qual é o conteúdo desse Saber? A obra que
deveria se recolher, no momento de sua completude, na unidade do seu
significado apenas anuncia a fragmentação pelo que a consciência não se fez
espírito sem que o espírito, a cultura, tenha deixado de ser um conteúdo de
saber, tenha se feito à imagem e semelhança do Real onde responde pelas mil
vozes da sociedade, do sujeito e da história.
Esse ausente/presente
da Fenomenologia do Espírito, o Saber absoluto, é o caminho ontológico que o
pensamento percorreu, desde que se pôs como pensar pela filosofia. Mas o
caminho da filosofia só fez recolher o Outro do seu devir, que vinha sendo a
história enquanto o desenvolvimento da cultura – a arte, a religião, o Estado.
Ora, duas questões de suma importância ressaltam aqui.
Inicialmente, a
presença dessa barra que articula o que deveria ser mas só se põe pelo que
deixou de ser, e aquilo que se enuncia na solenidade do fechamento da obra como
aquilo que efetivamente é: ausência / presença, restituem a barra
significante/significado? Sim, mas de modo especular, pois parece ser o
significado o ausente, enquanto a consistência do que a obra enuncia como
fechamento, culminância, presença ou plenitude se mostra apenas no
resplandescer do significante puro, o Saber absoluto que só tem sua
consistência alhures, na cultura mesma, no devir, na história.
Lança-se assim a
Fenomenologia do Espírito numa relação essencial com a consciência comum, como
bem observou Jean Hyppolite, mas isso de modo que o nexo do Saber consumado com
a consciência simples se realiza pelo liame da linguagem.
Mas também a
linguagem se duplica naquilo em que ela se realiza como pensamento em qualquer
campo – o comum ou o da “ciência” que é nesse caso um outro nome para “filosofia
transcendental” no sentido do saber da subjetividade absoluta– e naquilo em que
o que ela realiza, se pôde assim instituir o liame, guarda a relação com a
significância, a barra que permite a um tempo Saber e Ser. Logo, são três os
termos: a consciência comum, o Saber fenomenológico ou filosófico e o saber do
mundo que repõe todos os aspectos do devir ou do espírito ou da cultura.
O que se articula por
esse meio é o desdobramento da Fenomenologia do Espírito e de A Ciência
da Lógica, onde se trata do recolhimento, isto é, da linguagem, daquilo que
a Fenomenologia, na culminância do simples-só Significante, deixou framentado.
Não nos deve lograr a unidade falsamente profunda do Significante do Saber. O
texto da Fenomenologia conduz a um despedaçamento, precisamente o da linguagem,
isto é, à barra que articula, não ao conteúdo do saber, aliás impossível de se
designar já que perfaz a totalidade – apenas pensável – do ente ou do real, mas
ao funcionamento da linguagem na sua dobra com o Ser.
Esse escândalo deve,
ademais, ser silenciado. Ali onde se tratava de estender a tranquilizadora
imagem de um Saber que é o mesmo, ainda que não o igual, da consciência comum,
apenas desenvolvido na devolução do seu ser ao seu mesmo, o que se descobriu
foi uma brecha na finitude por onde escoa o devir da cultura, a pluralidade das
línguas irredutíveis, não as línguas dos povos, mas as que falam através dos
códigos da cultura e da história, a significância como desnível, diferença que
subjaz.
Portanto, a
recuperação do Saber, se não pode caminhar pelas bandas do Significado nem
permanecer na secura do Significante puro, tem que se apresentar como Salto,
desde a razão de ser ao Ser – sempre da linguagem – portanto, da Fenomenologia
do Espírito à Lógica, da linguagem ao que ela fala, mas, novamente
de modo especular, se respectivamente, da Parole à Langue.
Epistemologia
Na Fenomenologia
do Espírito cada um dos momentos está ligado aos outros, e têm seus
elementos internos ligados entre eles. Afilosofia de Hegel irá se desenvolver
no caminho dessa sistematização do real pelo que todos os processos podem ser,
no seu detalhe, descritos como integrando tríades, com os termos se pondo ou no
início, formando a tese, o em si; ou no meio, como exteriorização,
manifestação, antítese, o para si; ou no final, retornando a si como ser
desenvolvido e manifestado, formando a síntese em si e para si.
No Prefácio à
Fenomenologia do Espírito Hegel enuncia esse caráter orgânico, sistemático, que
deve ser o da filosofia devido à natureza mesma do ser que se apresenta ao
saber ou ao trabalho da razão. Julio Bernardes, no texto A Crítica de Hegel
à Teoria do Contrato desenvolve uma interessante exposição dos traços
gerais da epistemologia de Hegel, propedêutica à interpretação de sua oposição
à teoria hobbesiana do pacto social. Aqui o importante é reter os momentos
constitutivos da dialética, isto é, desse processo de integração de todo
elemento do real numa tríade.
Os momentos pelos
quais todo o conhecimento deve abarcar abrangem: a) aquele do conhecimento
imediato ou abstrato; b) momento da reflexão e da mediação, negação do momento
anterior; c) aquele do universal concreto como a positividade que preserva e
compreende os momentos anteriores.
O movimento do real
compreende fundamentalmente o trabalho do negativo, a progressão dos termos no
devir da contradição, e a a Suprassunção (Aufhebung) do que precede, da
síntese ao novo processo que instaura sua tese. O que fundamenta é agora
a impossibilidade de que aquilo que transita o presente não acarrete a oposição
do que presenta como seu ser.
Logo, impossibilidade
de que aquilo que se oferece ao presente não esteja também de algum modo numa
relação de contraposição ao que lhe antecedeu, isso não apenas de modo
circunstancial, mas permitindo compreender o seu modo de ser por essa
contraposição ou relação ao que sucedeu. A contradição, até então algo
antitético à lógica formal, conforme o princípio da identidade pelo que nada
põe por si o seu oposto, se torna o motor da lógica do real.
A tríade que
compreende a totalidade do real é a do Ser, Natureza e Espírito, conforme A
Ciência da Lógica. O conjunto da filosofia de Hegel envolve a exposição dos
momentos ou ligações dos três termos que compõem não só cada um dos componentes
dessa tríade maior, como também de cada sub-tríade derivada deles. Completam-se
vinte e sete termos em nove tríades, sem que, como observa Bréhier, se
esclareça bem o nexo do fechamento do sistema.
Aqui impõe-se a
aproximação entre Hegel e Leibniz conforme observado por Hyppolite, pois o
objetivo do sistema das tríades parece ser o mesmo que o projeto da linguagem
universal: cobrir formalmente todos os aspectos do real, mas isso de modo que
seja o conteúdo o que assim se abrange, o corpo do real que se tornou signo, o
conceito que atravessou a barra da articulação e pôde se instalar no individual
mesmo, já que o formalismo se encarna no discurso como o conjunto efetivo das
possibilidades discursivas. Já Bréhier assinala a aproximação com Leibniz no
contexto da Ciência compondo-se pela teoria da essência.
Ora, o conteúdo da
ciência efetiva, daquilo que no mundo se enuncia como conhecimento, é da ordem
necessária da linguagem, expressando-se na forma de juízos que articulam
sujeito e predicado pela cópula. Enunciar o saber é ao mesmo tempo declinar o
Ser, afirmar o que “é”. A filosofia como Ciência do Saber, ciência da ciência,
deve começar pela teoria do ser, mostrando, porém, que como ocorreu na história
da filosofia, sendo o mais abstrato ou mais universal, o ser pode simplesmente
ser negado como não-ser. O ser, negado como não-ser ou Nada, deve encontrar a
síntese no Devir como movimento de recirculação entre os dois termos, ora do
ser ao não-ser, ora do não-ser ao ser.
Mas o devir se põe
como evanescência, transição impermanente, portanto se limita ou se nega pela
qualidade que é também contraposta pela quantidade. A oposição entre qualidade
e quantidade tem sua síntese na medida, que quantifica a qualidade. Ora, a
medida relaciona o Ser a si mesmo através das negações que conduzem ao quantum
qualificado. É essa relação a si, identidade consigo mesmo, que constitui a
Essência, a reflexão, portanto, sendo o que permite distinguir Essência e Ser
A essência é
expressão do real, mas de modo que aquilo que espelha é o movimento dos opostos
que conduzem a ela enquanto manifestação no real daquilo que no ser vem a ser.
A importância da teoria da essência no hegelismo é ressaltada tanto por
Heidegger quanto por Bréhier. Trata-se do nexo da dialética como pensamento
especulativo, revertendo de certo modo a colocação “crítica” do transcendental
kantiano, que havia apontado para a preminência da esfera prática.
Heidegger assinala
que speculari, significa “procurar ver, receber dentro do campo visual,
compreender, con-ceber”. Ora, especular é compreender o oposto na sua unidade.
A dialética especulativa do hegelismo é o processo de produção da subjetividade
do sujeito absoluto e sua necessária ação. A especulação está assim imbricada à
lógica da esência que é o mesmo que lógica da reflexão, império da antítese que
impele o movimento, a marcha da tese à síntese. O especular recebe sua
eficiência do aparecer reflexivo, do espelhar da essência enquanto dialética da
manifestação que compreende a oposição como movimento do Real.
Assim se verifica
novamente a aproximação com Leibniz, conforme Bréhier. O modelo da essência não
é tanto a identidade, e sim a compossibilidade. A identidade já contém o
princípio da distinção como aquilo que a relaciona às outras essências, como existências
possíveis, isto é, na relação entre as essências já está assegurado que seu
conteúdo seja manifestação no real, a substância, em seguida, se conceituando
como o conjunto de seus acidentes.
A teoria da essência
percorre a história da filosofia, intentando mostrar como as noções que pontuam
a teoria do conhecimento, de Platão a Kant, operam a progressão desde a
exterioridade do espírito no Ser, à mediação, relação e reflexão, categorias
que assinalam o percurso do desenvolvimento do autoconhecimento do espírito,
isto é, o percurso especulativo, metafísico. Fundamento, existência, fenômeno,
absoluto, realidade e outros conceitos que da história da filosofia são
examinados por sua relação com esse caminho progressivo do espírito, conforme
chatelet.
Resumindo, a teoria
da essência mostra como o Absoluto ou existência pura se manifesta, e ao
fazê-lo, se expressa naquilo que vem a Ser, substância, essências. Esse fazer
do absoluto seria mediação consigo mesmo, de que as essências refletem os
momentos como tudo o que pode ter sido, ser ou devir.
A teoria do conceito
reúne um tratado de lógica formal, os quadros conceituais da filosofia da
natureza e a metafísica da Idéia. Bréhier assinala que a unidade dessas partes
não parece fácil de se compreender, mas que o Conceito, Begriff, em
Hegel, se põe como uma atitude mental que é vitória sobre a negação, liberação
da oposição na síntese que implica sempre, de algum modo, como também esclarece
Chatelet, o movimento do pensamento se conhecendo. Pois o conceito é a
reconciliação do ser puro com suas articulações e da mediação reflexiva da
essência manifesta como realidade unívoca do exterior e do interior. Ora, essa
realidade essencial, ainda que unívoca, guarda algo de exterior puro em
comparação com o conceito, pois a essência é necessidade, o conceito sendo
liberdade.
No conceito pensado
se reunem os momentos do universal, do particular e do individual. A lógica
formal é visada metafisicamente, conforme Bréhier, pois seus momentos, os
juízos ou premissas, o termo que faz a mediação e a conclusão, são
dialeticamente compostos como exteriorização que formaliza a multiplicidade
desses elementos que entram no raciocínio e reunião na Idéia que enuncia a
totalidade do raciocínio, o saber. Aqui Bréhier novamente impõe a proximidade
de Hegel a Leibniz, pois a monadologia também seria dialeticamente articulada
pela exteriorização das mônadas enquanto individualidades independentes e sua
ligação pela harmonia pré-estabelecida.
Ora, objetivamente,
na natureza, as forças são agregadas em sistemas cada vez mais integrados, do
mecanismo ao quimismo e ao organismo onde o pensamento se manifesta na
efetividade corporal. O conceito se torna Idéia quando se reúne na
Subjetividade, o percurso da essência ao conceito, se tornando assim imanente a
todos os modos de ser.
Portanto, pode-se
estender a Idéia como método que é ao mesmo tempo conteúdo, não havendo
verdadeiramente objetividade fora da idéia, como acentua Bréhier, mas também
não havendo idéia fora da objetividade, como sublinha Chatelet, isto é, não
havendo conteúdo real diferente daquele que se impõe historicamente já que a
ordem sistemática da idéia é o futuro, o que vem a ser: a natureza se revela
exteriorização da idéia, o Espírito a sua interiorização, seja como espírito
subjetivo, alma, subjetividade em si, seja espírito objetivo, onde se realizam
as categorias da cultura como o direito, a moralidade, o Estado.
Essa enunciação da
teoria do conceito contém uma crítica acerba do método dedutivo, em favor do
método especulativo assim como o introduziu Hegel. É esse tópico que, a meu
ver, torna tão polêmico hoje o hegelismo.
Vimos como a
Fenomenologia expôs o percurso da consciência ao saber, operando com os
momentos de sensação, percepção, entendimento, razão. Seria possível então
pensar que há três grandes módulos desse percurso, do sensível, do entendimento
e da razão. A novidade do hegelismo é esse écart da razão, sua singularidade
não apenas em relação ao sensível, mas também, e de modo particualrmente
importante, por relação ao entendimento.
O método dedutivo
opera na base da abstração pelo que aquilo que está no sensível se torna objeto
de uma separação formal, pelo que se antepõe o objeto da abstração ao seu
conteúdo efetivo no devir, assim como o conceito à matéria. Se o conhecimento
pudesse se limitar a uma operação do entendimento, o pensamento não poderia
alcançar o absoluto, que é união entre conceito e matéria, como momento
ulterior, no devir, dentro do processo pelo que os fenômenos vêm a ser. Na
coisa mesma a separação que o entendimento faz para torná-la num momento
inicial inteligível não ocorre, pois lá existe coexistência entre os aspectos
assim opostos.
Assim, conforme
Bernardes, o prefácio à Fenomenologia antepõe o alerta contra os procedimentos
analíticos que não permitem a apropriação da coisa mesma como uma totalidde
pela razão. Mas se a verdade que a filosofia especulativa almeja não pode ser
nem o dado sensível nem o conceito puro do entendimento, a tarefa do pensamento
como sendo a revelação de todos os momentos imanentes ao processo de
constituição do ser da coisa que nela mesma porta o absoluto, o conhecimento se
torna reconciliação com seu objeto, do saber com a verdade.
Isso determina a
leitura da história da filosofia como processo contínuo e interligado de
momentos que têm sua culminância nessa supressão da metafísica do entendimento
pela Metafísica Especulativa que corresponde ao hegelismo. Ao mesmo tempo, o
pensamento de Hegel se endereça como o novo modo de fazer filosofia, pois o
correlato do saber não se põe como “objeto” formalmente instituído numa relação
de exterioridade com o discurso da ciência, mas se tece por meio dessa operação
do compreender ou apreender da idéia enquanto recorrência da coisa no Logos,
nessa linguagem expositiva do saber.
Podemos observar que
se Bréhier aceita a Idéia como método, implicitamente ele está conceituando a
dialética desse ponto de vista metódico, pois a reunião do conceito na idéia é
essencialmente processo, identificação como síntese de sujeito e objeto.
Bréhier afirma expressamente que a idéia existe nessa dialética imanente que
compreende todos os modos do ser e os relaciona à subjetividade.
Também é essa a
formulação da dialética em Heidegger, que sublinha o fato de Hegel designar a
dialética especulativa como “o método”. Mas isso no sentido de algo que não
seria um instrumento da representação, ou um determinado modo da filosofia
proceder, e sim o “mais íntimo movimento da subjetividade”, o “processo de
produção através do qual a tessitura da totalidade da realidade do absoluto é
efetivada”.
Essa identificação de
dialética como método torna-se contestada com Chatelet e Hyppolite, o que penso
poder-se compreender como possibilidade já instalada nessa ressalva de
Heidegger e naquele conúbio de método e conteúdo na Idéia, proposto por
Bréhier.
Chatelet nega com
veemência que esse “modelo lógico”, mais decisivamente a dialética que
manifesta o mecanismo intrínseco ao desenvolvimento da linguagem da ciência
pelo exame da tríade que abre a Ciência da Lógica, entre ser, não-ser e devir,
seja um método. Pois como na Fenomenologia do Espírito, o que o texto da
Lógica faz, conforme Chatelet, é examinar o movimento do pensamento que pensa,
isto é, enquanto efetivamente pensante.
A noção de método
sugere uma grade que do exterior se impõe ou se aplica sobre um material
indiferenciado. A dialética, inversamente, seria o critério da “pensabilidade”
que no lance mesmo do pensar permite investigar as categorias de
desenvolvimento do pensamento que pensa o Ser, o que repõe a história da
Filosofia Ocidental, o clarão que se demarca como a eclosão do pensar sendo
precisamente a interrogação grega sobre o Ser.
No entanto, o que se
desenvolve na Lógica são as categorias que suprem a carência do Ser, já
que ele pode, na sua pureza pré-socrática e todas as vezes que se põe como
início de um pensar-se, ser votado como o Nada, o não-ser. O ser só poderia se
conduzir como aquilo que remete ao seu Outro, o que no devir se põe como
Exterioridade, como o dado, o objeto, o obstáculo...
Assim o texto se
articula expondo a essência ou o Aparecer do ser, o conceito ou a ordenação do
real na enunciação do pensamento que reúne as essências no juízo, e finalmente
a Idéia ou autocompreensão do Espírito, captação do critério, do movimento que
é, ao mesmo tempo, a plena reposição do Real.
A contraposição de
Hyppolite é de enunciação bem mais complexa. Será preciso se deter naquilo que
ele ilumina acerca desse tema no texto da conferência que pronunciou num
simpósio sobre o Estruturalismo: “A estrutura da linguagem filosófica segundo o
prefácio à fenomenologia do espírito, de Hegel”. Com alguma surpresa poderemos
constatar que, se bem que vindo de uma perspectiva oposta à de Heidegger, por
negar à dialética o status de um método, aquilo com o que o seu texto se
articula repõe o paralelo que Heidegger estende entre o seu próprio pensamento
e o de Hegel.
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Quando algo chega ao
fim, se confunde com a sua história. A coisa que acabou se transforma na
história que se conta sobre o que isso foi. Mas a própria história se torna,
por seu turno, algo como o Signo da coisa, a sua estória ou reunião de fatos
como nós de conteúdo que agora se tornaram partículas num récit. Hegel
se pensou como o filósofo do fim da filosofia por ter completado a sua tarefa.
Portanto, ele seria aquele que dela teria feito a história, não havendo
mais nada para acrescentar. Ele teria estado então nessa posição do enunciador
de um relato totalizante sobre a filosofia.
Ora, Hyppolite
localiza na redação do Prefácio à Fenomenologia do Espírito o momento de
transição, entre as redações desse texto e o da Lógica, pois Hegel teria
escrito o prefácio após concluir a Fenomenologia. Nesse momento Hegel se
debruça sobre o tema latente do que foi a filosofia que ele está
completando. Logo, ele tem que tratar o tema manifesto do que é a
filosofia não mais nos termos da coisa, mas da história, isto é, ele, como
tendo se colocado no lugar do seu cumprimento, deve formular a transformação da
questão da história da filosofia ou do que seria a coisa, em uma estória sobre
o que uma obra filosófica deve ser.
A questão começa, com
Hyppolite, pela consideração do que é que uma obra de filosofia se torna
quando a filosofia foi cumprida. O interessante é que Heidegger inicia sua preleção
sobre Hegel e os Gregos exatemente no mesmo ponto, isto é, comentando sobre as
vantagens de se unir num título Hegel e os gregos porque assim estamos acenando
à totalidade da filosofia na sua história, como se houvéssemos reunido o
princípio, os gregos, com o fim, Hegel. Mas no que isso vai levar, se não a se
interrogar sobre o que é que sobrou para o pensamento? A filosofia se decompôs,
migrando para as Ciências do Humano, a logística, a psicologia e a sociologia.
Mas o pensamento “foge à verificabilidade pública” e, todavia, continua. Que é
que ele pensa agora? Qual seria a sua questão?
A resposta de
Hyppolite sobre o que é que a filosofia se torna após ter se totalizado a sua
história, torna central o tema da linguagem. Pois a filosofia mesma, enquanto
obra, poderia bem se tornar algo como um entre outros gêneros textuais, e se
trata então de resgatar esse estilo que não se confunde nem com a
ontologia clássica, que Hegel teria terminado, nem com a Ciência que após esse
acontecimento começa a crescer e vigorar. Mas, indaga Hyppolite, será que mesmo
conceituando a obra como estilo, ele seria aquele da filosofia, ou apenas o da
filosofia de Hegel? Se lermos “estilo” como “dialética”, o alcance da
questão se torna patente.
Quanto a Heidegger,
sua resposta sobre a tarefa do pensamento após Hegel intercepta também o tema
da linguagem, pois se o pensamento continua a pensar, o que ele pensa é o que
vinha sendo efetivamente pensado e até por Hegel, a saber, o Ser, mas agora o
modo pelo qual a questão se encaminha não se separa do modo pelo qual a
linguagem se interpôs.
E se interpôs desde
Hegel, poderíamos suspeitar pela leitura de Heidegger, pois mais de uma vez,
nesse texto e alhures, ele sublinha a ligação do pensamento de Hegel com o
discurso da história da filosofia, tratando-se de mostrar que a relação que
Hegel desenvolve com esse discurso intervém como acabamento, superação,
totalização, na perspectiva do próprio Hegel que a teria re-escrito à
luz dessa pressuposta realização.
Ora, Heidegger intenta
contrapor o seu modo de se relacionar com a história da filosofia ao de Hegel,
assim como podemos contrapor os modos de se relacionar com algo de duas
pessoas, uma que pensa o seu acabamento, outra que pensa a sua continuação.
Hegel dialoga com a história da filosofia para cumpri-la, ultrapassá-la na
revelação do Saber Absoluto que se atingiu de uma vez por todas. Heidegger
conversa com os pensadores de ontem para compreender como é que eles deixaram
por pensar a questão que é a do pensamento hoje.
Poderíamos também
agora suspeitar de que se trata, em ambos os casos, em Heidegger e Hegel, na
necessidade sutil de transpor em algum ponto a história na estória, de se deter
ante a tarefa de apresentar uma história da filosofia para transformar a cena
num relato sobre como cada filósofo enunciou alguma coisa que conduziu à
presença desses relatos que os recupera agora para enunciar algo mais sobre o
que antes não disseram. Heidegger então conta uma estória sobre como Hegel
interpretou a história da filosofia em termos de uma relação incondicionada com
o pensado em cada pensador. E como ele mesmo, Heidegger, está às voltas com a
tarefa do pensamento que é mostrar como cada pensador esteve às voltas com algo
inteiramente outro, isto é, com o Impensado.
O impensado tendo
sido o esquecimento, a verdade estando na relação com o des-ocultar ou lembrar
que há nisso tudo algo sempre ocultando e desocultando, é a linguagem que
revela através da história o que é que se pensou nessa relação com o que foi
que se esqueceu. Em todo caso, para Hegel ou Heidegger, são palavras que
enunciam o pensar a cada momento do seu ser pensado.
Hyppolite esclarece
isso transpondo todo o conteúdo que se poderia ligar a “pensamento” em termos
de “linguagem”. Nesse sentido, trata-se para Hegel na Fenomenologia, de
lançar a relação consubstancial entre o pensamento e a linguagem, portanto,
surge aqui o problema de enunciar o que seja a linguagem filosófica como
concreção do saber absoluto e como o resultado daquilo que ela foi antes de
antecipar esse saber – ou como tendo-o antecipado de modo abstrato, sem saber.
Ora, a linguagem é sempre o que ela é, portanto, não há discurso filosófico que
escape a uma relação com o discurso comum.
A linguagem é aqui
sujeito-objeto ou objeto-sujeito porque, conforme Hegel, nela o “eu” é
subjetivo e ao mesmo tempo universal, os outros me compreendem como eu
compreendo os outros naquilo que eles permanecem sendo o que são.
Na linguagem o objeto se reflete no seu Selbst, o pensamento sendo ao mesmo
tempo sujeito e objeto. A linguagem se torna consciência universal do eu e do
Ser, portanto, ela é Logos. Mas o que o logos articula desde o balbucio até a
expressão mais plena dos aber é sempre instaurado pelos shifters: os
pronomes pessoais, o eu e o tu, estão em jogo tanto quanto as
determinações originais do este, do aqui, do agora: o que
o Logos articula é o individual com o Universal em cada enunciação.
Mas a relação da
linguagem deveria se tornar, entre os falantes, não simplesmente o acordo sobre
o mundo. Para Hegel a aproximação da consciência comum e da Ciência se faz,
como Fenomenologia, pois o que a ciência descobre ou enuncia é o modo de ser da
consciência comum enquanto consciência de mundo, isto é, enquanto uma relação
pela qual a subjetividade se põe naquilo que ela sempre é. A consciência comum
tem que se reconhecer no que a ciência descobre, se a ciência se volta a ela e
enuncia o que descobriu.
O processo dialético
não seria um método, mas um estilo do pensamento filosófico, pelo que nele não
há uma relação do exterior com o objeto, mas o deixar falar do objeto no
discurso da filosofia. Ora, conforme Hyppolite esse estilo seria o que Hegel
atribuiu às obras filosóficas, desde que renuciassem ao formalismo que reduz o
objeto ao núclo incognoscível para só compreender esquemas de relações, ou ao
materialismo que permanece inconsciente de sua ligação com o conteúdo que ele
concebe numa independência perfeita.
A oscilação entre a Fenomenologia
e a Lógica deveria localizar o ritmo desse estilo pela contraposição dos
dois projetos que o animam: o que penso que se poderia designar como a prosa do
mundo, pois nele trata-se do filósofo que fala à consciência comum para revelar
o que ela é na sua verdade, uma articulação da linguagem que expõe o devir
efetivo em que ela mesma só pode ser; mas também o que seria a poética desse
mundo, quando se trata de traçar as determinações ou a arquitetura da linguagem
universal pelo que tudo só pode ser exposto, falado, uma vez que é pensado.
Ora, o que Hyppolite
não questiona explicitamente é essa ambição de algo ao mesmo tempo singular e
universal, esse conceito de Subjetividade que depende de uma apropriação do ser
da linguagem para investir-se como Metafísica. Pois ele parece aceitar como cumprimento
a transposição da linguagem como realidade totalizante em termos de
consciência universal que ao mesmo tempo declina o “Ser” e o “Eu”.
Mas deveríamos nos
perguntar se não reside nisso a ilusão de Hegel. Pois a magia – a metafísica – da
linguagem consiste justamente na mistificação da estória que mistura a
coerência com a enunciação transfigurando o acontecimento numa narrativa –
eis a ilusão da dialética que deveria competir ao filósofo, justamente,
denunciar.
Que a possibilidade
do conhecimento esteja na linguagem devido à sua articulação gramatical, o seu
sistema de relações que circulam a interlocução e o juízo, é o que precisa
estar em jogo quando se trata de interrogar o ser da linguagem e do
conhecimento, não o que deve estar pressuposto em ambos pelo enraizamento do
falar na enunciação do Sujeito.
Ao reservar o
problema da relação entre referente e significação como válido, ao mesmo tempo
que resolvendo-o em termos de universal concreto – o mundo é afetado pelas
significações, há comunidade entre eles – é o “eu” que se torna o suporte da
universalidade, enquanto constitutivo da linguagem, em ato, e nela constituído
essencialmente. Ora, Hyppolite, que assim coloca a questão, registra que só a
linguagem constitui a função sujeito, mas não explicitamente mostra o fato de
que se assim for, a linguagem não poderia sustentar, como estrutura metafísica,
o Absoluto da subjetividade enquanto dialética ou lógica do Real.
Inversamente, isso
comprometeria o sistema de Hegel, e teria que conduzi-lo a um repensar da
história da filosofia, pois não haveria como estabelecer a necessidade dos
significados da linguagem, aquilo que emerge na história, na exterioridade do
acordo transitório que se expressa nos seus momentos Significantes.
Ou então Hyppolite
desejou mostrar que era isso mesmo que Hegel estava afirmando, a saber, que se
a linguagem é estilo como expressão fundamental de certa cultura, ela é a retórica
dessa cultura, o acordo como estória que se pode contar sobre o que tal
cultura, historicamente, foi. Consiste isso na ultrapassagem do elemento
universal da linguagem, da sua capacidade de ajuizar o real em sínteses tranquilizadoras
do tipo com o que a crítica da razão pura costuma lidar, os shifters que
encetam relações entre os termos da experiência.
Se a linguagem já não
se delimita pelo elemento universal, tornando-se uma pragmática, uma retórica
do devir, todos os gêneros que se envolvem numa relação com esse devir se
transformam, forçosamente, em romance. Mas esse romance pode ser uma
representação do que é expressado no mundo ou a estória sobre como o mundo é
expressado em qualquer romance possível. A representação é o elemento dos
romances do mundo encenados pelos discursos religiosos e estéticos. A filosofia
é o estilo, gênero ou romance que mantém uma norma de verdade, isto é, aí onde
o enredo é a essência da linguagem, a operação da significação.
Contudo, se
compreendemos Hyppolite, esse resultado seria profundamente irônico. Pois ali
onde só há representação subsiste a crença inabalável no efeito da expressão,
enquanto que lá onde se deveria radiografar a representação, o que restou se
limita a uma contrafação da verdade, no entanto, assegurada como norma do
contrafazer. O que reverte esse resultado desalentador é a espessura da
linguagem como locus da subjetividade universalizada, pelo que tudo é
para o Sujeito, pelo Sujeito e subjetivo. Não subsiste coisa alguma na
exterioridade.
Portanto, a norma da
verdade se assegura a si mesma e nada está perdido, a não ser as significações
plenas naquilo pelo que desconhecem ou recusam o conhecimento da falta de
sentido que reveste essencialmente a significação, mas essas sombras são as que
repousam na linguagem e insuflam todo romancear.
Ora, Heidegger vai
interrogar esse estatuto do sujeito que permitiu a Hegel tornar a dialética o
estilo da imanência, via linguagem conforme Hyppolite. O problema aqui é o que
persegue toda fenomenologia naquilo em que ela desdobra uma teoria do
conhecimento a partir de uma articulação de consciência, experiência e Real. A
verdade a atingir, isto que na epistemologia tem que se expressar de modo
frangmentado por corresponder aos setores do conhecimento especializado, mas
também reunir-se no fundamento, assegurando os papéis da essência, do conceito
e da idéia como no texto de Hegel, se tornou aqui a Evidência absoluta do
sujeito que se sabe a si mesmo – ou, poderíamos também afirmar, o saber
verdadeiro é o saber que se sabe, no hegelismo.
Heidegger questiona
esse resultado, pois para ele o verdadeiro do saber, ou evidência, é
precisamente que não se pode saber absolutamente, que não ocorre o pensar fora
de uma relação essencial com o não-pensado. A redundância se instalou como
sistema metafísico de linguagem, desde que se fixou o funcionamento do
todo na articulação do Sujeito nela centrado e nela centrando-se. Assim, as
avaliações de Hegel e Heidegger sobre os gregos são opostas.
Hegel pensa os gregos
como o “ainda não” do saber, que por dizer apenas o Ser não alcançou o absoluto
que é Sujeito. Heidegger pensa que por ter deixado enigmático o estatuto de quem
fala na verdade como Aléthea, os gregos enunciaram a questão do pensamento
que resta ainda como a do presente – pois não seria justo argumentar que o
desvelamento, sendo para alguém, já põe a subjetividade naquilo em que só se
desvela enquanto o falado, o pensado na linguagem, e que é sempre o sujeito
quem fala na linguagem. Heidegger argumenta que é a desocultação que fala
naquilo que é falado pelo enunciador, esse, sim, o sujeito para quem a
linguagem fala, sendo também em quem a linguagem permanece, mas assim a questão
se desloca inteiramente do âmbito do absoluto como subjetividade.
Creio que nisso se
pode propor que a redundância opera mesmo na interpretação pela qual é a
retórica que articula a realidade como significação dialética do Real, já que
assim haveria convergência entre a Fenomenologia e a Lógica, como
o Significado está para o Significante. No entanto, penso que aqui há abismo. A
Lógica se mantém como a possibilidade do discurso, a Fenomenologia como
a sua efetivação significante, mas nenhum desses casos cumpre o que enuncia,
pois há sempre o perseguir do conteúdo na forma, inversamente à propalada
unidade que Hegel teria assegurado entre ambos.
A dialética deixa
escapar o Real, naquilo pelo que ela se designa portadora do vir a ser mas não
pode efetivá-lo enquanto significado, não pode antecipar o acordo futuro do
mundo, finalmente não pode antecipar-se no que não se limita a ser um
discurso sobre si mesma. Torna-se um pressuposto do saber, mais do que sua
realidade. O que Hegel não deixou de pressentir, como observa Chatelet,
arquitetando o sistema de modo que tentar definir a ciência seria trair seu
ideal, independente do fato de que a Lógica deveria ser o texto que
realiza precisamente essa tarefa de definição.
Mas, de fato, no hegelismo
o saber é apenas o sabido. É a banalidade de tudo o que se pode dizer, afirmar
ou negar. Mais o seu código pelo que todo o infinito das afirmações e negações
se enquadra num sistema classificado e identificado, uma Enciclopédia
que organiza, conforme o que já vimos na Ciência, todos os processos do
devir.
Pergunta-se pela
crítica, especialmente a crítica social, nesse sistema. Parece não haver
possibilidade alguma desse intuito. Mas Hegel poderia contrapor: a
crítica do devir é seu próprio vir a ser... Hegel não é um filósofo facilmente
apreensível. Entre Hyppolite e Heidegger, muitas obras importantes foram
marcadas, de um modo ou outro, por esses escritos estranhamente mesclados de um
tão profundo conformismo, mesmo exaltação do fato, e uma implacável
desconfiança perante tudo o que se põe.
Penso que a esse
Hegel situado, a síntese do pós-kantismo, se contrapõe um Hegel subterrâneo,
pensador artificial que devolve a Heidegger a sua indagação. Pois um ser que
fosse inteiramente o que ele é, esse ser fenomenotécnico de que falou
Bachelard, constituiria o escândalo hermenêutico, mas não teria Hegel já lidado
com ele?
Hyppolite assinala
que Hegel tinha um sentimento de natureza artificial da cultura, uma
fascinação pelo escrever. Pois nesse hiato entre o que se recolhe na escritura,
na linguagem, como verdade do referente, e a realidade desse referente, está a
dobradura que instala a questão que era a da filosofia, mas que se tornou a da
linguagem. Loewenberg, participando da Controvérsia Estruturalista e
interpelando Hyppolite após o seu pronunciamento, observou precisamente o ponto
em questão. Por um lado trata-se de indagar se há um grande jogo da linguagem,
ou nos termos em que ele coloca a questão, uma linguagem genérica, que agrupa
todas as outras como espécies, ou se cada jogo, cada linguagem, é sui
generis.
A questão desdobra a
duplicidade que acena à linguagem da filosofia de Hegel, pois o que observei
quanto a isso, Loewenberg enuncia do seguinte modo: haveria uma fenomenologia
humanista, que trata da consciência, da auto-consciência e da razão. Mas também
uma fenomenologia anti-humanista, que apresenta o Espírito absoluto, ser
auto-revelador e auto-suficiente como presença da Idéia em qualquer
manifestação da cultura que se torna assim auto-justificada.
A tensão parece
instalar-se no interior da própria fala de Hyppolite, pois como vimos, há razão
para indagar se ele leu Hegel em termos do anunciador de uma retórica da
cultura como se isso fosse o próprio Hegel ou seu resultado irrefletido.
O problema aqui é que
a tradição considera Hegel no extremo oposto desse operador retórico,
identificando-o com o filósofo da auto-justificação da ideologia. Afinal, a
dialética – isto é, a linguagem da ciência como Hegel a conceituava – é um
instrumento de negociação entre os seres humanos ou algo que engloba todo o
pensável de modo que o humano só pode estar na subsunção a isso? Mais
profundamente, porém, creio que o problema é que mesmo que se considere Hegel
de um ponto de vista mais atual, rejeitando seu anti-humanismo para vê-lo como
alguém que enunciou o elemento da linguagem como aquele da libertação do ser
humano, a dialética perverte essa possibilidade tal como na atualidade as
propostas de éticas universais, que desconhecem a natureza intrínseca do elo
social e o delimita no elemento absolutista da lógica racionalista.
No entanto, a
compreensão desse elo também pertence, pardoxalmente, à filosofia de Hegel,
quando por exemplo, ele acusa o iluminismo de não assimilar o significado do
fenômeno religioso quando antepõe à adoração dos objetos sagrados – por
exemplo, a transubstanciação do corpo de Cristo na hóstia ou no pão – uma
simples fantasia dos fiéis, quando o objeto continua lá, na sua
irredutibilidade de coisa, na sua pura utilidade e exterioridade. Mas esse
objeto adorado não tem a natureza do objeto coisa que é o do iluminista ou do
mesmo fiel quando na sua consciência comum. O que a religião resgata é o elo de
significado do real, que o religioso experimenta como criação do espírito, da
consciência do real, logo, como convicção de sua própria consciência.
Também o fato de que
a dialética é processo deveria pôr a impossibilidade do absoluto, já que nunca
o termo repousa, por assim expressar, já que nunca há devolução ao sujeito
tético mas sempre ultrapassamento no real. Finalmente, Hyppolite nega que a
filosofia seja romance, ou mesmo gênero textual, para Hegel. Trata-se sempre de
um jogo no interior da linguagem comum, mas sem que se possa evitar torcê-la
numa espécie de jargão, já que a realidade do que se expressa na filosofia se
expressa de um ponto de vista a-subjetivo enquanto a linguagem comum só pode
evoluir no elementos dos shifters, eu e tu.
O resultado ficou
ainda mais paradoxal, parece-me, pois anteriormente Hyppolite havia ancorado na
subjetividade – como aliás o faz o próprio Hegel – o processo do real, mas isso
de modo que o sujeito seria sempre da linguagem e nela, o que conduz esse
processo do real ao Saber.
Mas o que Hyppolite
afirma, se o compreendo, é que todo o nó da questão se resolve pela
conceituação do Absoluto hegeliano, que não está contraposto à
flutuação, à retórica, à pluralidade dos textos e dos estilos, como à história
– isso sem deixar de ser filosofia.
Creio que se
adotarmos Schelling como um termo de comparação com Hegel, poderíamos supor que
o Absoluto do schellingnismo foi transposto por Hegel, desde uma imagem imóvel
do eterno, que tem em potência a matéria e o espírito como aspectos da
identidade possível, sendo o absoluto toda a identidade necessária, a uma
realidade que por necessidade de ser manifesta o que é. Ora, a manifestação já
impõe o movimento no manifestado, criando novo modo para lidar com a
alteridade. Já não se trata do Outro como identidade oposta ao mesmo, porque
não se trata de um mesmo que seria sempre igual. Trata-se sim de uma realidade
que se desenvolve, manifestando-se, tornando-se paradoxalmente o seu vir a ser.
O sujeito do processo é o tornar-se, como bem observou Hyppolite.
Até aqui poderíamos
então ler Hegel como Heidegger, não de modo como o próprio Heidegger se
contrapôs a ele. Mas o que me parece coibir essa via é também o que, como já
assinalado, mantém o nexo de Hegel com a filosofia moderna. Pois a dialética
não se pôs como processo sem ter se sobrecodificado como processo de negação.
Creio ser isso o que acarretou a polêmica quanto à posição da Lógica,
sua pretensão de enunciar a totalidade do saber sem poder, obviamente, se
estender nessa totalidade ou se confundir com ela. Mas também quanto à
proposição desse absoluto como Subjetividade, o que parece estar na raiz do
processo ter sido pensado como negação.
O que se criou parece
ter sido o Mito da cultura. Por que a cultura sobreveio como processo
inapelável dessa Subjetividade e/ou por que, enquanto sujeitos da cultura, os seres
humanos não podem deixar de negociar para si mesmos exatamente o que a cultura
deveio. A circularidade aqui torna-se manifesta, como Loewenberg também notou.
Mas o que faz a malícia do pensamento de Hegel é que ele evidenciou o problema
que se instala por essa barra: seja por que o fez de modo refletido, como o que
sentiu ser a angústia da condição humana, ou por que o performatizou como
fissura da totalidade sempre presente, sempre inalcançável.
-------------------
Em todo caso, a lição
epistemológica de Hegel, qual seria? Após Kant ele teria inovado,
induzido a um tipo de relativismo do saber, ou, inversamente, teria
re-estabelecido metafisicamente a garantia do conhecimento? Parece que
ao invés de uma resposta menos controversa, a essa indagação só resta a
consideração pela qual é preciso já se ter uma leitura do hegelismo para
responder, ora como Chatelet – não, a dialética não é método, não há Saber
decisivo, Hegel pôs fim à ilusão metafísica – ora como Bréhier, mostrando que a
identidade de método e conteúdo na Idéia dialética se destina a garantir a
perfeita identidade entre cada degrau do ser e a interioridde espiritual de que
ela é desejo.
Há certo modo de se
opor história e estória particularmente esclarecedor quanto a essa controvérsia
acerca da epistemologia de Hegel. Aqui o esencial é a indagação sobre quem
fala. É consensual a posição, em relação à história, de que nela não ocorre
a função do narrador. O historiador apresenta a história, sabemos, mas a
economia do gênero se caracteriza pelo fato de que é como se a história se contasse
por ela mesma. Quanto à estória, há polêmica sobre a função do narrador.
Alguns autores
sustentam que só se pode aceitar que há narrador quando suas marcas de
enunciação são explicitamente recuperáveis no texto, isto é, dependendo dessas
marcas estarem no texto por correspondência ao pronome pessoal “eu” como
atribuído pelo narrador à sua atividade de fala de que decorre a estória.
Outros autores pensam que desde que há narração, ou seja, desde que não se trata
da simples fábula, onde não ocorre a construção textual como estória narrada,
mas apenas a abstração da estória, então a função do narrador está implícita.
O que se poderia
indagar então, se a filosofia houvesse mesmo sido transformada em gênero
textual ou estilo, é quem fala nessa linguagem. É essa mesma indagação que
Hyppolite desenvolve como base de sua argumentação, mas me parece que o que
impede que ele sustente sem ambiguidade essa tese da transformação genérica –
alhures ele sustenta mais seriamente que a transformação efetuada por Hegel foi
a da metafísica em lógica – é que se Hegel fez da filosofia uma apresentação da
consciência comum, ao mesmo tempo o que se tornou patente foi a sua transcrição
numa história do saber.
Hegel teria visado a
consciência numa relação constitutiva com aquilo que para ela é ao mesmo tempo
o objeto e o ser, sendo a consciência sempre e a cada vez o que ela é enquanto
determinação necessária, mas mediada pelo momento, do seu objeto, daquilo que
se afirma na linguagem ligada pela cópula. O momento aqui resume o todo da
articulação especulativa, sendo não apenas um momento casual no tempo, mas um
instante num encadeamento lógico do real.
No entanto, o que
permanece ambíguo no texto de Hyppolite é que se assim for, à indagação de quem
é que fala no discurso filosófico a resposta só poderia ser: Deus mesmo é quem
fala na filosofia, pois nela a consciência fala sempre e somente a coisa mesma.
Ora, pelo que vimos
da oposição entre história e estória, e como o especulativo tornou o elemento
do tempo tão fundamental que transformou a filosofia num récit,
narrativa ou Darstellung, exposição, não podendo ser mais do que isso numa
fenomenologia, e limitando toda lógica a ser apenas o arcabouço desse fazer
narrativo, mais o agravante de que não sobra mais nada no real para explicar na
exterioridade dessa Lógica, razão pela qual ela se apropriou do que pertencia
até aqui à metafísica, pelo que vimos, desde que alguém fala na história ela já
não pode ser história e se tornou estória.
A resposta de
Hyppolite parecia destinar-se a conjurar a hipótese que ele mesmo havia
apresentado, com a qual havia flertado, de uma impossibilidade da filosofia ser
mais do que romance, mas ironicamente só fez reafirmá-la. E tanto mais que a
cada “história” com que se ocupa Hegel – a da arte, a da filosofia, a geral – é
sempre um récit de momentos constitutivos que por si não tem autonomia e
só recebem seu sentido de uma circulação do universal que se manifesta no
final, mas que era o que estava se manifestando desde o começo. Há sempre uma
Voz oculta, portanto, a da subjetividade que se desvela no seu accomplissement,
acontecimento de sentido que é a Idéia finalmente recolhida no seu sentido
fundador pelo desenvolvimento dos seus momentos, do mais exterior a ela até o
seu mais íntimo desvelar-se.
Aqui o fundamental
para nós reside na inversão epistemológica operada por Hegel através da
dialética como processo especulativo de tessitura do real. Para compreender
essa epistemologia do hegelismo – se bem que já a vislumbramos no exposto, de
certo modo – é preciso enfatizar o meio novo, seria melhor “inusitado”, pelo
que Hegel está lidando com a noção de “experiência”.
Sendo a experiência o
experimentado, a Fenomenologia opera de modo que aquilo que à consciência do
narrador da estória da consciência se apresenta é a experiência da consciência
nela mesma, isto é, a experiência da consciência comum. Mas como o
experimentado pela consciência comum é a variação das suas figuras sucessivas,
o que faz dessa sucessão uma estória, não uma história, é a suposição de que o
experimentado é o que se vai enunciar duas vezes, como conteúdo e forma do
Saber da consciência sobre sua experiência.
Como conteúdo
do saber do narrador, porque ele poderá sempre mostrar que essa experiência da
consciência comum, por exemplo, a religiosidade, está apresentando
abstratamente, numa experiência material do seu sofrer, sentir, adorar, etc.,
aquilo que posteriormente será recolhido como forma de si, pela mesma
consciência, pelo que ela realiza a verdade contida abstratamente lá, mas isso
de modo que essa consciência que recolhe é ao mesmo tempo duplicada na
consciência da consciência dessa experiência, narração “off” , fenomenológica,
ou Voz do saber.
Então a duplicação do
que já estava se apresentando como duplo é ascese. A consciência ascede ao
saber filosófico reconhecendo o que havia estado em jogo, no exemplo da
religiosidade, a emancipação da consciência sobre a exterioridade material. O “sobre”
assinalado reabsorve a duplicidade dos duplos, porque a verdade da síntese se
enuncia “por sobre” a experiência, não somente sobre ela no
sentido de “com relação a”, como um estrato geológico ou uma cidade antiga
encimam o que lhes precede. Ainda que essa expressão possa parecer tosca, ela
repõe a materialidade a que Hegel parece submeter esse tempo conceitualizado.
Assim, também Althusser sublinhou que Hegel define o tempo como “der daseiende
Begriff”, o “conceito na sua existência imediata, empírica”.
O genialmente irônico
em Hegel é que isso conduz ao exato oposto do empirismo, isto é, a uma completa
destituição da pretensão do saber ser Mesmo da experiência, sendo o saber
sempre realização da Idéia. Mas recirculando o paradoxo epistemológico assim
criado pela estória, pelo fato mesmo de isso ter se tornado estória, isto é,
pela projeção do duplo, tema romântico por excelência, no saber, a Idéia
realizada é o Real reabsorvido na sua mais seca reificação, de modo que não há
real fora do Real, coibindo-se qualquer via crítica, de alternativa a esse Real
que se presenta assim.
Quase seria isso um
empirismo às avessas, como se o Duplo assegurasse o Mito da Experiência, o que
também viu o jovem Marx como a inversão epistemológica do universal, assegurada
pelo hegelismo.
Marx começa por
estabelecer firmemente o que habitualmente é a empiria. Isto significa resgatar
aquilo que nós sempre sabemos sobre as relações do sujeito com o predicado, do
particular com o universal, enquanto que Hegel nos apresentou essas relações
tão estranhamente invertidas, mas como ele apontou como prova do seu
procedimento o Real – no entanto, subrepticiamente conceituado pelos critérios
do próprio procedimento – o receptor é conduzido à impotência em desmentir que
assim as coisas são.
Essa crítica de Marx,
nesse momento inicial, a meu ver, permite comparar o processo de Hegel aos atos
do mágico no palco, porque o subreptício do seu proceder é na verdade o mais
manifesto, só que envolto numa sequência de gestos, duplicações e aparências,
de modo que o que aparece é apenas o que ele intentou fazer parecer.
Marx mostra então em
que habitualmente a experiência consiste: o predicado é dependente do sujeito,
se reduz a uma atribuição do sujeito. Mas se a subjetividade é também uma
determinação do sujeito, isto é somente no sentido pelo que a personalidade é
uma determinação da pessoa. Ora, Hegel faz com que o predicado pareça
independente do sujeito. Ele é o momento do absoluto, elemento a se reunir na
Idéia, o sujeito a que é atribuído se tornando apenas um suporte da sua atualização.
Como suporte da
atualização do predicado, o sujeito desse tipo de proposição
lógico-especulativa-acontecimentual é apenas, fenomenologicamente, a existência
mesma do predicado, por isso o sujeito se torna a existência da Subjetividade
como sua parcialidade empírica, um momento dessa Subjetividade absoluta. Marx
então desfaz a inversão de Hegel, mostrando que o que o que se deve proceder é
ter o sujeito real considerado na sua objetivação, sua efetividade, como núcleo
estabilizador da atribuição, por relação ao qual qualquer predicado pode ser
atribuído. Isto sem que no limite o sujeito seja parcialmente distribuído na
totalidade de uma Subjetividade abstrata.
Hegel parte dessa
inversão porque considera inicialmente o universal. O raciocínio
permanece inteiramente circular: por que se deve iniciar pelo universal, e o
predicado é o universalmente atribuído, então o predicado é o universal pelo
que se deve iniciar. Mas por que se deveria iniciar assim Hegel não poderia
jamais esclarecer, já que se trata de uma simples petição de princípio. O que
subjaz nisso seria a suposição pelo que o Universal desfruta de uma superior
consistência ontológica, tudo o mais devendo-se ao desdobramento dialético do
universal substancial que se pressupõe como totalidade capaz de “resolver” a
diferença que ele mesmo gerou.
Compreende-se por que
Hegel afirma que o absoluto da diferença é ser ela diferença nenhuma.
A inversão toca,
portanto, na contraposição do conteúdo com a forma, pois o que se anuncia como
conteúdo do saber, o processo do real, jamais será outro que aquilo que se
enunciou como a sua forma mesma, isto é, como vimos, o fato de que não se acede
a nenhum conhecimento que não ponha o mesmo que já está na experiência comum do
real, se garante ironicamente pela ascese fenomeno – Lógica do saber
dialético.
Jorge Dotti, que
apresenta essa crítica de Marx no texto “A Crítica do Universal Hegeliano em
Marx e Stiner” , observa, porém, que ele não recusou a dialética de Hegel,
apenas mostrou que seria preciso revertê-la. Hegel teria visto o que era
preciso quanto à instauração do processo dialético, mas não pôde conduzi-lo
convenientemente porque previamente se instalou numa suposição
substancialista-idealista. Inversamente, Marx propôs que a dialética deveria
partir dos sujeitos efetivos, empíricos, para mostrar as contradições geradas,
sim, mas materialmente pelo seu enfrentar-se e estabelecer-se, não pelo simples
modo de ser da idéia desde o início instalada como o sentido do processo e de
seus momentos opostos constitutivos. Assim, não haveria uma Idéia no final como
realização atual, o que vemos ser como o sujeito, o Estado, a história
já feitas, mas processo atuante no devir em que os agentes precisariam
engajar-se, só que agora, conscientemente.
Creio que se pode mostrar
como a dialética prejudicou o marxismo, ao notar que os caminhos da renovação
pós-stalinista foram marcados de um modo ou outro por tentativas de atenuar os
pressupostos dessa “lógica” do devir, recuperando a autonomia, seja do sujeito,
na vertente humanista, seja da estrutura, na leitura de Althusser. Esse tópico
deveria repor a controvérsia sobre a epistemologia do marxismo, pelo qual
confrontam-se as versões do Marx empirista e do marxismo estrutural. Em todo
caso, é da perspectiva epistemológica que Marx desenvolve sua crítica a Hegel.
Aqui, porém, creio
que o mais oportuno, já que deveremos posteriormente nos aproximar do
pensamento de Marx, é notar como Hegel estava convencido de ter realizado
exatamente aquilo que Marx o acusa de jamais ter feito, a saber, superar o
idealismo na sua “absolutização indevida do universal”, conforme a expressão de
Dotti. Pois a crítica de Hegel a Kant consistiu nessa mesma acusação, pelo que
qualquer objeto ou comportamento podem ser justificados como meio para a realização
do Universal, fosse o universal abstrato kantiano, o imperativo categórico, ou
a noção autoconstruída do Absoluto de Schelling.
Hegel pensava que
seria preciso mostrar como o devir se torna o que ele é, crendo que a
dialética poderia suportar a lógica “manqué”, não expressa, desses idealismos.
O crucial aqui é sua noção de experiência como aquilo que já está
fundamentando o processo lógico-especulativo da concretude do universal.
Resultado, mais uma vez, profundamente irônico. Em todo caso, é de se acentuar
que esse viés impede confinar Hegel no romantismo, como observou Bréhier,
inversamente mostrando que nele se demarca a transição ao positivismo, a meu
ver algo estritamente relacionado à ambientação estilística do realismo.
Mas Hegel não tem o
estilo realista. Essa contraposição de estilo e visão de mundo é mais um dado
da estranheza de Hegel, sua genialidade bizarra, tanto mais que ele foi o
arauto da unidade forma-conteúdo. No entanto, o que ele preconizava como essa
unidade era a presentação fenomenológica do pensamento no pensado, isto é, da
coisa ou processo no relato ou estória.
O problema nisso foi
que a Unidade estava sendo pressuposta como a Voz da estória, o narrador
onisciente como Subjetividade absoluta, enquanto que estilisticamente ela é
construída pela pressuposição estética inversa, a saber, de que a
estória está sempre na iminência da fábula, de que a Voz que narra só pode ser
autônoma se constrói suas próprias marcas, ou, na posição teórica oposta a
essa, como uma função da narrativa na sua dependência desdobrada como autonomia
em relação à fábula.
Visto por esse
ângulo, Hegel permaneceu idealista asism como seu estilo tem a “altura” do
romantismo. Contudo, sua epistemologia invertida, precisamente pela relação
fundadora à experiência, oferece um interessante paralelo com o positivismo, e
isso como acentuou Bréhier, inclusive no tocante ao projeto Enciclopédico dos
conhecimentos. Pois aqui, prolongando sua crítica acerba do século XVIII
iluminista, trata-se de mais uma estória, agora dos conhecimentos efetivamente
evoluindo no campo do saber enquanto disciplinas ou áreas a se estabelecer como
ciências.
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O projeto
enciclopédico de Hegel almeja abranger numa mesma composição o fato e o sistema
do saber. Assim como a Enciclopédia dos iluministas, trata-se de reunir o
conjunto palpável das produções efetivas, mas o sistemático aqui se deve ao
caráter pelo que se reúnem essas produções, de modo algum numa disposição
fortuita, por exemplo numa ordem alfabética, mas fazendo a realidade se pôr
pelo sistema nesse seu ser real.
A crítica implícita à
epistemologia iluminista está nisso pelo que o fortuito de sua apresentação não
oferece o nexo do conceito ao ser. Ambicionando o ultrapassamento da metafísica
por um suposto acesso imediato ao real, via recepção de seu ser assim na
ipseidade da experiência, o que se fez foi ignorar o problema que restou
inteiro como aquele que pertence à filosofia, a determinação racional do ser e
da realidade.
Mas também a crítica
vai portar sobre as concepções racionalistas-naturalistas que unem os
românticos aos magos do Renascimento e aos filósofos da natureza helênicos, que
vêem a extensão do racional no real como uma continuidade estática do espírito.
É preciso localizar
no real, se a experiência se tornou, nesse novo modo de filosofar, o texto a
traduzir na linguagem especulativa, a progressão que conduz do mais exterior,
do mais oposto a si do espírito, ao que lhe é mais interior e mais reunido,
realização do Selbst. A Enciclopédia se torna o pretexto desse exercício de
escalonamento espiritual do real, não de modo contingente, mas pelo fato das
ciências, de modo fragmentado, já que cada saber só evolui na imanência de suas
próprias questões, métodos e instrumentação, estarem realizando a propedêutica
a esse intuito por ter setorizado um estamento, um momento concretizado no todo
do real.
Assim, inicialmente
há a oposição geral entre as ciências da natureza e as ciências do espírito, Naturphilosophie
e Geistewissenschaften. Ora, entre esses dois grandes ramos do saber há
progressão, não continuidade, no sentido do absoluto. Sendo assim, Hegel
interpõe críticas assinaláveis também às concepções correntes de filosofia da
natureza. Trata-se, fundamentalmente, de coibir a noção de que as formas
derivam umas das outras analiticamente, isto é, devido à sua compartimentação
na extensão material. Muito inversamente a Schelling, e bastante próximo de
Comte, Hegel não pensa que o mundo seja um todo. A natureza material seria
apenas um modo ou momento da vida da Idéia, o segundo estágio do ritmo que
conduz do ser inicial ao espírito final.
Portanto, no interior
da natureza seria sensato esperar recuperar o mesmo ritmo ternário dessa
atitude mental especulativa que desenvolve a manifestação e a realização da
Idéia, o que equivale também a coibir o estudo da natureza sob a forma do
entendimento que define na exterioridade do objeto. Essa atitude
intelectual conduz a Naturphilosophie a algo bastante oposto aos métodos
das ciências empíricas, efetivamente se desenvolvendo nessa época. No entanto,
Hegel se utiliza de seus resultados experimentais, recenseando pesquisas
importantes em setores de observação natural como por exemplo os trabalhos de
Heim sobre os cristais, de Biot sobre a refração e de Berthelot sobre a
eletricidade.
Mas ele critica
acerbamente as teorias estritamente científicas, como a de Newton, por
oferecerem explicações gerais com base na autonomia do objeto. Os resultados de
Galileu e Newton, assim como os da ciência em geral, são utilizados no intuito
de se os transmutar conforme o método dialético-especulativo, considerando cada
forma dada não naquilo que ela pode ser para o entendimento e sim naquilo que
sua natureza exige interiormente, enquanto momento da Idéia.
Assim, se escalonam: inicialmente
uma mecânica que estudaria as relações de massas inertes para
compreender a progressão das formas, desde a simples exterioridade das partes
que constituem o espaço abstrato, até as massas planetárias dotadas de
movimento imanente e regulado pelas leis de Kepler.
Após viria a física
dos corpos materiais como estudo dos corpos qualificados, mostrando o
crescimento das formas paralelas até o todo que as compreende numa
universalidade. Essa física abrange o momento inicial do Selbst abstrato da matéria,
que é a luz. O que se lhe opõem são os corpos singulares, que se hierarquizam e
encontram o Selbst comum no planeta que, por sua vez, escalona a luz pelos
processos metereológicos.
A luta dos corpos
singulares por sua autonomia envolve a tentativa de independência do peso
universal pelo seu peso específico e sua coesão, a que se opõe o calor como
força tendendo à fluidez, até que os corpos realizam pela forma (Gestalt) a
concreção da própria atividade, como nos cristais, e onde ocorre as relações de
atração e repulsão magnéticas. Finalmente as forças químicas restauram a
inserção do singular no universal, os corpos formados permanecendo como puros
conceitos nesse universo totalizante das relações químicas
A progressão conduz
ao estudo da física orgânica, que compreende a geologia como morfologia
do organismo terrestre, tema bastante comum da Naturphilosophie – terra,
organismo universal, mãe dos seres que abriga. Mas esse estudo abarca também os
reinos vegetal e animal. O modo como Hegel compreende a planta é sintomático
das limitações de seu método dialético, pois ele pensa cada parte como a
suprassunção de alguma parte “anterior”: a árvore seria refutação da semente,
assim como os frutos refutam tudo o que precedeu. Não se compreenderia nada dos
vegetais, como o biólogo atual poderia atestar, desse modo, já que só pela
comunicação atual entre as partes temos a consistência do ser.
No entanto, no
hegelismo, a dispersão da planta serve como justificativa de sua conceituação
como algo oposto ou antecedente à singularidade do animal com suas partes
unidas, forma que subsume seus elementos em sistemas: nervoso, sanguíneo,
digestivo, correspondendo às funções de sensibilidade, irritabilidade e
nutrição.
Essa hierarquia de
formas é algo não tão bizarro no hegelismo, pois como acentua Bréhier, trata-se
de um traço característico do pensamento científico dessa época, tanto quanto a
importância atribuída às descobertas experimentais.
Com o animal surge a
individualidade, mas também o ser humano, com o que essa “mitologia da ciência”,
conforme a expressão de Bréhier, completa a sua vertente natural e se assegura
a transição da Naturphilosophie à Filosofia do Espírito.
Aqui o ritmo ternário
permite classificar os ramos de produção da cultura, abrangendo os estudos
sobre o humano. Creio ser importante essa inversão, pois atualmente é o estudo
do humano que abrange a produção da cultura. Assim, no sistema de Hegel, todos
os desenvolvimentos epistêmicos são alocáveis na tríade que compõe o espírito
no seu percurso do mais exterior ao mais interior: filosofia do Espírito
subjetivo, onde o estudo dos fatos psicológicos abrange su forma universal
inicial, mais abstata. A filosofia do Espírito objetivo já trata das obras que
lhe são consideradas seus produtos efetivos, a história, o direito e os
costumes. Mas no seu mais alto grau, ele se recolhe e se reencontra como
Espírito absoluto, em que se mostram as produções da arte, da religião e da
filosofia.
Nessa classificação
intrinsecamente conceituada, o mais oportuno do ponto de vista epistemológico é
apreender a inteligibilidade nas transições, pois isso tem a ver com a ambiguidade
histórica do hegelismo. Ao mesmo tempo que impede o livre curso da ciência como
ela virá a ser na autonomia e interligação imanente de seus problemas, Hegel
permite setorizar esses saberes, o que sem dúvida é algo novo, ainda que se
colocando em comunidade com os projetos da época.
Ora, desde a
perspectiva iluminista, como ainda extensa ao projeto epistêmico de um Ampére,
a articulação que integra e ao mesmo tempo autonomiza os saberes se desenvolve
numa base naturalista. Há preminência do modelo das ciências da natureza e é
por seu êxito organizacional e formal que se pode “arrumar” a área antes
confusa do “espírito”.
Hegel inverte essa
aproximação, pois o estudo da natureza só se compreende por ter se iluminado em
seu fato de ser pela compenetração especulativa que veio do Espírito. É nessa
área das Geistewissenchaften que o saber se torna conhecimento, ou, na
terminologia do Hegelismo, que o conhecimento se torna Saber. Conforme o
projeto que estabelecemos em termos de partições do estudo de Hegel, podemos
reservar a exposição desses setores separadamente, pelo que a importância dessa
inversão se tornará mais evidente.
Sociedade
Mas ele considerou a
nossa vida como um jogo
e a existência uma
feira de negócios
Sb 15 – 12
Seria interessante a
experiência de considerar aquilo que vemos integralmente destinado ao nosso
uso, mas não ao uso individual, caprichoso, e sim exatamente como parece dentro
da efetividade social em que somos sujeitos de uma comunidade. Acostumados a um
olhar crítico, sem cessar confrontamos o erro, os antagonismos, a injustiça
social. Mesmo se consideramos o todo sob uma perspectiva sistemática, o que
resulta seria mais, como no marxismo, um sistema consertado de exploração, ou
para usar um termo bíblico, de iniquidades.
Na educação primária
recebemos um panorama completamente inverso. Todos os poderes e instituições
sociais são funcionalmente adequados a seus princípios, concordam num conjunto
consequente cujo escopo é o bem estar dos cidadãos. Hegel nos aplica uma lição
assim. O indivíduo existe para a família, a família para a sociedade, a
sociedade para o Estado, e o Estado existe pelo bem dos indivíduos.
Não nos deve lograr a
aparente simplicidade dessa colocação. O anseio filosófico pode muito bem ser
explicitado em termos do desejo da existência integral, em que se articulam a
convivência com os semelhantes, mas também a igualdade e o respeito mútuo. E o
estudo mais minucioso do que está implícito na teoria social do hegelismo
revela tópicos obrigatórios de apreciação no contexto da história da filosofia,
pelo que aqui há pontos de inovação real. No entanto, penso que seria
interessante endereçar previamente a leitura.
Pois
há variadas leituras
de Hegel, que não só permanecem contraditórias, como as de Chatelet e Bréhier,
como ainda apontam para uma constante: ou se ama Hegel e se procura aplainar o
que seu pensamento tem de desconcertante frente à atualidade crítica, ou,
inversamente, se conserva a tônica no aspecto conservador mostrando que ele
suscita apenas a irritação ou a perplexidade.
Na verdade, essa
polêmica tem pertencido historicamente a Hegel. Carpeaux acentuou esse fato,
mostrando que a influência do seu pensamento no século XIX se verifica em três
vias: aquela do hegelismo histórico que deságua na formação das ciências
humanas compreensivas, a do absolutista que se adequa ao nazi-fascismo, e o
hegelismo de esquerda que influencia e se perpetua no marxismo, pois não se
deve esquecer que Lenin mesmo incitava a todos a leitura da Ciência da
Lógica, como sublinhou Chatelet.
Atualmente uma
controvérsia atinge as relações Hegel-Nietzsche. Por um lado, Deleuze sustentou
amplamente a irredutibilidade entre esses pensadores, utilizando Hegel como
contraponto à grande identidade Nietzsche-Spinoza, tema central ao pensamento
deleuziano. No cenário do pós-modernismo, nomes que se destacaram como
representativos de uma geração posterior ao “pensamento-68” – para assim, de
modo bastante genérico, situar Deleuze – põem em cheque justamente essa
utilização, afirmando, inversamente, um parentesco ou proximidade entre Hegel e
Nietzsche.
A tematização da
controvérsia se registra no texto de Robert Williams, “Hegel e Nietzsche:
reconhecimento e relação senhor/escravo”. Como o tema sublinha o problema
dessa relação, ele se torna particularmente interessante para introduzir o
pensamento social de Hegel, naquilo em que, nele, essa rubrica se desdobra na
transposição ou superação de um tipo de filosofia da identidade.
Compreendemos esse
aporte ao reter o indivíduo nas extremidades da tríade que abrange a família, a
sociedade e o Estado. Como o que está no meio se mostra assim topicamente entretecido
ao sujeito, deve haver algum meio pelo qual este não mais deve ser reduzido
numa pura igualdade consigo mesmo, meio de ultrapassamento do solipsismo que
parece inerente à própria definição do sujeito por sua identificação a si. Essa
tríade demarca a síntese profunda tanto do devir do espírito quanto da
filosofia do hegelismo, e se enuncia como o ritmo ternário concernente à sua
teoria social.
A apresentação de
Robert Williams, envolvendo a polêmica pós-moderna com Deleuze, parece
francamente favorável aos críticos da oposição como Walter Kaufmann, Daniel
Breazeale, Judith Butler, Robert Solomon, Stephen Houlgate, Eliot Jurist,
Philip Klain, Richard Rorty, Stanley Rosen e White. Mas o panorama resulta algo
confuso, pois Williams não especifica o contexto de pronunciamento desses
pensadores, esclarecendo apenas que Kauffman considera uma incompreensão tanto
de Hegel quanto de Nietzsche supor uma “justaposição precisa” entre eles,
sublinhando ainda que nem todos os autores citados concordam quanto a essa
afirmação.
Ele inclui alusões
aos estudos de Houlgate e Jurist, respectivamente sobre a crítica da metafísica
e as teorias da ação e da cultura, como paralelos entre Hegel e Nietzche, mas
não desenvolve esses temas. Em seguida propõe o seu próprio assunto como exame
do problema do reconhecimento nesses dois pensadores, o que ao longo do texto
se mostra como uma crítica ácida tanto de Nietzsche quanto de Deleuze, para
salvaguardar a superioridade de Hegel quanto a todo esse tópico que o leitor
descobre como algo mais abrangente, pois se estende como fundamento da teoria
social que implica tanto o sentido existencial do sujeito na sua destinação
para o Outro quanto o problema da dominação.
Assim fica um pouco
no ar o encaminhamento do assunto como uma aparente caução à tese pela qual,
como parece ter sido Karl Joel a introduzir, as relações Nietzche -Hegel estão
longe de ter sido adequadamente compreendidas. Pois Williams se inclina
definitivamente por uma impossibilidade de reduzir essas relações a um paralelo
aproximativo, já que conduz a uma decisiva irredutibilidade de Hegel ao que
seria o solipsismo egoístico de Nietzsche, sua cegueira para o fato social, seu
elogio da abstração de um self separado de tudo o mais, na medida que se mostra
incapaz de resolver o hiato entre destinação intersubjetiva e dominação social,
pelo que chapa “sociedade” como sinônimo de “rebanho”.
A crítica de Williams
é tanto mais corrosiva por que não aponta para uma clareza nessa posição de
Nietzsche, que seria ambíguo e contraditório na sua expressão, mas finalmente
recuperável na sua intenção, o que estaria sendo ignorado por Deleuze que em
seu estudo de Nietzsche simplesmente agiu como se este não possuísse uma teoria
social, quando Williams se consagra à tarefa de mostrar que ela existe, ainda
que sob uma luz tão negativa.
Não me parece que a
posição de Williams seja especialmente inusitada. Sua leitura do que considera
a teoria social de Nietzsche faz lembrar a de Heidegger acerca da noção de
vontade de potência. Esses são modos de ver que sempre poderão ser apoiados por
citações. O problema com uma confrontação desse tipo de destaque do texto
nietzcheano com o estudo abrangente que Deleuze apresenta é que não basta visar
a “obra”, é preciso contextualizá-la. Isto é, não basta contextualizar a
citação, o que já seria um bom início, mas também compreender a inserção
histórica ou a intenção situada do nietzscheísmo, assim como a do hegelismo.
É célebre a rejeição
de Deleuze da “história” frente ao devir, mas o que isso significa, se não que
a história tem sido contada ao modo de Hegel, como se houvesse uma cadeia de
implicações entre pensadores, como se sempre fosse possível encontrar no final
a idéia que estava no começo, só que não tão “refletida”... Mas o devir não
precisa ser apresentado como se tratasse de uma “irrupção” sem ligações, uma
fala sem interlocutores. Ser intempestivo não significa “não estar relacionado
com”, mas justamente “não depender da implicação de”.
Ora, nesse sentido
penso que Deleuze estaria certo se houvesse ignorado a teoria social de Nietzche,
se por essa rubrica compreendêssemos apenas o implicado pela história da
filosofia vinda de Hegel. O que Williams apresenta quanto a isso é o
nietszcheísmo como uma imagem invertida, negativa, do hegelismo, como se
qualquer teoria social esperável fosse determinada de um modo ou outro por essa
cadeia conceitual. O que Deleuze pretendeu mostrar, inversamente, foi que a
originalidade de Nietzsche pode ser vista por exemplo nisso pelo que tal
expectativa seria inteiramente vã. Nietzche não prolonga o esquema social
oriundo de Hegel, e se por esse núcleo esperássemos algo assim não haveria
teoria social no nietzcheísmo.
Seria preciso pensar
a sociedade de modo inteiramente outro para compreender o aporte nietzcheano
que subsume o traçado conceitual recoberto por termos como “rebanho”, “educação”,
“super-homem”, etc. Mas se aqui nosso tema continua sendo o pensamento social
do hegelismo, ocorre algo interessante. Pois não só Hegel imbricou o
nietzscheísmo numa polêmica atual, mas também para delimitar com precisão a
leitura que proponho da situação do hegelismo, Nietzsche é extremamente
oportuno.
Tudo conduz nesse
ponto a uma espécie de rodeio, pois o tema social intercepta algo ainda ligado
ao que vínhamos examinando interiormente, a rubrica do Saber, na região da
epistemologia. Em que sentido se poderia hoje propor que a existência, o
saber, a sociedade, não são jogo? Assim, sendo também um dos autores
citados na polêmica por Williams, Rorty contribui com um texto interessante
acerca desse problema.
Creio que Huizinga é
o autor que mais se acercou dessa temática do jogo, criando a expressão “homo
ludens”, o ser humano sendo alguém capaz de jogar e plasmar suas ações à imagem
desse ato. Os animais também jogam, mas não estendem o jogo como um modelo institucional,
já que ficam na imediatez do instinto. Huizinga ilustra, e é isso que me
interessa aqui, o Saber na Antiguidade como uma tradição de jogar.
Fundamentalmente o
status do sábio se conquistava através do êxito em torneios de perguntas
lançadas sem muita preocupação de coerência ou referência a um texto prévio.
Como nas brincadeiras de criança que ainda se conservam na atualidade, do tipo “o
que é, o que é?”, as perguntas performatizavam semelhanças jocosas com a
aparência das coisas, aproximavam signos oriundos de horizontes irrredutíveis,
trocavam a ordem das classificações habituais. Restam vestígios desse tipo de
modelo do saber na atualidade. Burguess, no romance “Macho e Fêmea”, encena o
protagonista tendo que enfrentar um torneio desse tipo frente a certo
personagem poderoso, filmes costumam mostrar o “gênio” como aquele que consegue
responder no mesmo instante coisas como a vigésima potência de certo número com
três algarismos, por exemplo, 875.
Ora, a filosofia
introduziu outro modelo no saber. Creio que o texto bíblico inova também,
quanto a isso. Ambos os contextos o fazem por ter neutralizado o clichê do jogo
pela idéia de Eternidade. Não creio que seria muito complicado mostrar que a
filosofia grega está delimitada por uma relação fundamental com essa idéia. O
período feudal marcou o encontro dessas vertentes também em torno do
compromisso com o eterno. Enquanto a existência puder ser pensada como algo não
apenas conceituável por relação ao mundo circundante, terrestre, finito, a
hipótese do jogo está descartada, pois há sentido.O Saber se torna “o”
saber desse vínculo, tanto na revelação mosaica quanto na filosofia, não sendo
mais apenas “saber” coisas quaisquer.
O que ocorreu na
transição do século XVIII ao XIX foi uma mudança profunda na história do saber
ocidental, pois as ciências inviabilizaram o sentido corrente até então, essa
aliança de sentido e eternidade. Isso por que essa junção supõe um encadeamento
inescapável de todo o fenomênico. A hipótese do sentido, como antagônica a do jogo,
poderia ser designada como a hipótese do Ruller – utilizo o termo inglês
por que envolve a idéia daquele que prescreve as leis, mas ao mesmo tempo o
termo leis conota “regras”.
A existência é mais
do que meramente jogo por que todas as regras localizadas estão na iminência de
uma legislação que as encadeia num complexo destinado à unidade. Assim ela
seria o jogo dos jogos, uma contradição palpável. A hipótese de haver o
legislador universal solve as localizações implícitas – a sociedade, a vida do
sujeito, a história – numa implicação recíproca que impede vê-las como
processos autônomos, jogos ou funcionamentos puros.
A autonomia dos
sistemas orientados como científicos trouxe o problema filosófico novo de
reconduzir a antiga oposição entre jogo e sentido. Kant e Hegel fornecem o
aporte pelo qual o encadeamento dos processos se garante mesmo assim, isto é,
eles lograram transformar a hipótese do Ruller em algo viável na
imanência inapelável da finitude.
Creio que foi isso
que Foucault esclareceu ao lançar o conceito de forma-homem. Pois podemos
convir que a hipótese do sentido é bem mais humana do que a do jogo. Ela traz
em seu bojo aquela intuição de nosso próprio envolvimento com esses processos,
no sentido de que para nós eles não podem Ser na exterioridade do Compreender e
isso envolve aquilo que, ao mesmo tempo, somos em ambos os sentidos, tanto no
que atualizamos os processos quanto no que nos dotamos de uma autocompreensão
intersubjetivamente viável.
É interessante
confrontar o que creio ter sido Sciaca a propor, com a descrição de Rorty do
problema contemporâneo do sentido. Acima registrei o modo como o século XIX por
influência de Hegel precisou lidar com a alternativa de um mundo empirista de
fatos atômicos e o mundo inteiramente relacionado do hegelismo. Ora,
nessa alternativa, a relação que impede a independência do que quer que seja em
si implica uma descrição do mundo em termos de uma forma intrinsecamente
regulada para si. Isso é o oposto do que crê o empirismo de Hume, onde os dados
estão independentes das leis do espírito, mas os fatos são pontualmente
formados na experiência do sujeito, que tem como recuperar assim a
independência do dado, sua de fato inacessibilidade para si.
Rorty descreve o que
ocorre depois daquilo que Habbermas designou a “guinada” linguística.
Isso se determinou principalmente devido ao neoempirismo, a filosofia analítica
ligada ao jovem Wittgenstein. Nessa descrição a alternativa é nominalmente a
mesma, mas seu sentido está invertido. Haveria uma longa linha unindo desde
Platão até os cientistas do Círculo de Viena, confrontada com a linha oposta
que teria se iniciado com o segundo Wittgenstein e com Heidegger. Na linha dos
fatos atômicos o que se aceita é que a inteligibilidade está sempre
estabelecida pela dualidade do esquema e do conteúdo. O esquema é a forma
lógica que varia conforme a teoria filosófica, mas está sempre sendo
pressuposta como existente, nessa linha, das idéias platônicas aos objetos
lógicos de Russel e à forma lógica da linguagem do jovem Wittgenstein. O
conteúdo pode ser qualquer experiência no mundo, e isso permite compreender a
proposta do Círculo de uma ciência unificada.
Na linha oposta não
ocorrem fatos soltos, isto é, unidades independentes de sentido que se mantém
independente da natureza do conteúdo. As significações são nós em uma trama,
portanto dependem de intenções extremamente variáveis que compõem tramas
irredutíveis ao longo da “história”, que agora tem que subsumir a
descontinuidade.
Assim, se utilizarmos
a oposição de jogo e sentido, vemos que a expressão da alternativa entre fato
atômico e trama de relações implica o oposto conforme esteja se lançando na
contraposição de empirismo e hegelismo do século XIX ou de neoempirismo e
hermenêutica-pragmática do século XX. Em um caso o fato atômico é a hipótese do
jogo, no outro, é a hipótese do sentido, e vice-versa para a trama. O percurso
de Wittgenstein ilustra isso, pois quando jovem ele postulou que a forma da
linguagem era o esquema de sentido universal, mas quando renunciou a essa
postulação, sua filosofia se encaminhou no sentido de conceituar os jogos
autônomos de linguagem, no interior das quais somente as entidades poderiam
encontrar o seu valor de significação.
Ora, a mutação
ocorre, a meu ver, devido à eclosão das ciências do humano, na transição do
século XIX ao XX. Pois elas inviabilizaram o atrelamento do esquema único,
capaz de subsumir todos os funcionamentos localizados, à postulação do
legislador universal, oferecendo a alternativa pela qual a subsunção é ela
mesma um funcionamento. A hipótese do jogo dos jogos deixa de ser
contraditória, ela se torna a imanência das culturas, o que permite vislumbrar
a irredutibilidade cultural como objeto de uma mesma ciência, o que antes não
era possível.
Rorty localiza o
empreendimento de Hegel como tendo sido manter a premissa necessária à linha de
demarcação esquema-conteúdo assim como estava vindo do kantismo, isto é, a
premissa pela qual deveria se manter a filosofia como um conhecimento outro por
relação à ciência empírica, mas ainda assim uma “ciência” no sentido de um
conhecimento inteiramente validado. Ora, para Hegel isso não deveria ser algo
fácil, pois o que o processo de historização de seu pensamento implicava era
aquilo que o darwinismo iria recolher como consequência, tornar o Espírito
contínuo com a Natureza.
Rorty observa nesse
ponto um problema que o hegelismo teria instituído como o que o século XIX e a
transição ao XX tentaram resolver no âmbito das ciências humanas nascentes,
isto é, como relativizar o a priori sem deixar esmaecer a fronteira da
filosofia como uma ciência não-empírica. Assim, Rorty pensa que somente no
século XX o problema recebeu um tratamento apropriado, pois a exigência pôde
ser contornada tanto com Husserl quanto com a guinada linguística patrocinada
por Wittgenstein.
Creio que essa
leitura de Rorty permite iluminar a originalidade do hegelismo e compreender a
complexidade da sua influência, pois na nota oito de “Wittgenstein, Heidegger e
a reificação da lingaugem”, ele propõe o “historicismo” como “um caso especial
do naturalismo”, sendo que já na nota cinco ele rotula Hegel como tendo
começado “o processo de historicização”, pelo que pôde assegurar a conexão com
Darwin. Ou seja, a implementação do fenomênico pelo hegelismo, de modo que a
experiência mesma é o aporte que permite encadear os processos, seria algo
conexo à intenção naturalista de situar o inteligível na concretude do real.
E de fato, não se
pode negar que a espessura de Hegel a Comte, do idealismo ao positivismo,
parece transponível por essa canonização do fato. No entanto, minha leitura de
Hegel não propõe que se trate do mesmo projeto, nem de Hegel ao positivismo,
nem de Platão ao neoempirismo. Bem inversamente, ocorre de início uma
impossibilidade de estender a Antiguidade à modernidade. Num caso estamos
epistemologicamente dependentes da Eternidade, no outro caso trata-se de fazer
prevalecer a hipótese do sentido no âmbito da Finitude.
E é por isso que se
precisa, nesse momento moderno, salvaguardar a filosofia do positivismo (Hegel)
ou pensar a ciência positiva como algo posterior à filosofia (Comte). Pois a
ciência está caucionando a hipótese dos jogos autônomos, ainda que isso,
precisamente, por que a inteligibilidade impera na concretude da experiência.
Mas seria então mais interessante usar o plural, “as inteligibilidades”. A
ciência se desenvolve na sua consistência contemporânea desde que o lote do
explicável seja estritamente delimitado a cada lance, desde que se soltou o
orgânico do anímico, o físico do biológico, a experiência mesma do sentido da
existência.
Hegel conservou o
projeto do sentido, a meu ver, mantendo o atrelamento de todos os processos, o
que se pode constatar de modo mais nítido na sua teoria social que culmina no
Estado como realização do espírito já atuando desde a destinação do indivíduo à
família. Mas sendo assim, seria preciso indagar o que ocorre quando as ciências
humanas nomeiam de outro modo esse reduto do sentido, isto é, quando, ao invés
de pensar a racionalidade capitalista do Estado ocidental como estando
prescrito pelo modo mesmo de ser do espírito, desde o início abrindo caminho
por todas as formas parciais, incompletas, de formações culturais
historicamente assinaláveis, se dão como tarefa compreender a trama de
significação que trabalha cada cultura na sua completude e auto-suficiência “espiritual”,
ou seja, sua endo-consistência identitária e social.
O pensamento de
Nietzsche emerge nesse contexto bastante irredutível ao de Hegel. Ora, aqui o
que se solveu foi a idéia de “uma” sociedade universal que é “o” objeto da
teoria social. Creio que é no confronto com esse objeto que Williams situou o
pensamento de Nietzsche, mas não como se ele estivesse propondo algo outro, e
sim como se ele apenas estivesse narcisicamente se insurgindo contra essa
necessidade humana universal. Ora, Nietzche não lida com essa hipótese de modo
sério, isto é, ele pensa que o “rebanho” foi a configuração desse objeto
universal inexistente, postulado de modo idealista por uma cultura centrada na
tarefa de sua própria legitimação como um projeto de dominação do Outro
colonizado.
Nesse sentido não
teria sido Heidegger o pioneiro da hipótese da trama, mas Nietzsche. Ora, essa
hipótese é desvirtuada quando se transforma numa hipótese de jogo. Certamente
Nietzsche ressoa com o jogo de dados que jamais abolirá o acaso, algo bastante
desenvolvido no estudo de Deleuze sobre Nietzsche e a Filosofia, e o
próprio Deleuze conceitua a estrutura como “jogo ideal” em Diferença e
Repetição. No entanto, de modo algo inverso a Heidegger e ao segundo
Wittgenstein, a intenção aqui não seria a de imergir no sentido para escapar da
vacuidade do jogo, uma vez que se mostrou que isso continua sendo um ou
vários jogos. Portanto, não seria equivalente à proposta de recuperar a prática
imanente e localizada da sociedade que está por trás da trama, nem de
confrontar todas as flutuações à constante do Ser, como se sempre na
exterioridade do sentido constituído houvesse o nada ou a transposição
ao outro jogo.
A questão para
Nietzsche e Deleuze, como havia sido para Spinoza, é resgatar a
existencialidade do lançar que, se não pode deixar de estar num relação
com os funcionamentos, com os jogos autônomos, nem por isso deixa de ser
independente de qualquer jogo, finalmente podendo criar o seu lance no intervalo
não previsto entre os jogos estabelecidos pelo “sistema” do presente “histórico”.
Pretender não ficar preso nas redes do sentido não significa apostrofar do “social”
para só prender-se irrefletidamente num solipsismo, quando se sonhava com isso
como se fosse a liberdade, ou seja, não significa deslizar para o “sem sentido”.
O interessante aqui é
que o confronto entre esses pensamentos do social pode se esclarecer pelo fato
de que no caso do conceito universal, formulado na modernidade sem dúvida por
Hegel, é possível pensar no seu negativo como o solipsismo egoístico. É possível
compreender o termo “solidão” no contexto de Nietzche como isolamento ou
ausência (deserção) do social. Mas no conceito de Nietzsche e Deleuze isso
seria impossível. Não se pode pensar um ser independente do seu contexto, por
que o “ser” se solveu no devir como “multiplicidade”.
Hegel havia
inviabilizado a filosofia da identidade por ter pensado o sujeito na imanência
de sua experiência intersubjetiva, na sua dependência identitária do Outro. Mas
assim o Um se tornou apenas mais garantido pelo Dois. O que o Outro devolve ao
Mesmo é a sua mesmidade, a sua unicidade como superfície de recolhimento de
seus papéis sociais ideologicamente investidos. A lógica da representação política
do Estado contemporâneo é extremamente injusta. Pois ela insere o Sujeito ao
mesmo tempo como Sujeito para ela e por ela, não sobrando espaço para que ele
se conceda o seu tornar-se, mas ao mesmo tempo, é ele quem tem que responder
por todas as responsabilidades e encargos atribuídos por essa inserção
jamais justificada, sempre pré-concebida ideologicamente como a mais pura
realidade, concretude, experiência, moralidade, etc.
Creio que foi esse o
êxito da filosofia de Hegel, a fórmula da representação desse Estado, e isso de
modo que a esquerda ortodoxa não escapou de seu determinismo. Hoje já estamos
habituados com a questão de por que se deveria conceituar o revolucionário como
uma derivação, ainda que antitética, do burguês. Isto é, como um burguês estendido,
tendo solvido a sua necessidade de subjugar uma considerável parcela da
população, devido ao progresso da produção tê-la tornado apropriável pela
figura do todo social. Mas não seria esse questionar já algo devidamente
relacionado à recepção de Nietzche? Ao longo do caminho se chegou a
mal-entendidos típicos de uma incerta interpretação marxista considerando, por
exemplo, como “confissão”, presumidamente de covarde apolitismo, a proposição
de Foucault sobre o seu engajamento existencial na via de manter sua autonomia
frente à moralidade do estado civil, frente ao “ter um rosto”.
A questão é para quem
se endereça, para qual povo, o engajamento inevitável do devir. Assim, é
impossível ser apolítico, mesmo para o mais “escapista” dos ascéticos eremitas.
Mas uma teoria social que só vê o Estado, deconhece a noção de “povos”,
confunde sociedade e representação civil, autonomia existencial e subjetividade
civil, assim como se confunde o falante com a função pronominal da fala, como
se esta devesse de direito instituir a fixidez daquele, quando qualquer
autoexame compreende a fluidez intencional na consecução até mesmo dos termos
no interior da mesma frase.
É interessante como
Hegel precisou lidar com a irredutibilidade de sociedade e Estado, o que se costuma
assinalar como uma originalidade sua. Mas em vez de proceder como Williams no
seu artigo, destacando “coincidências” assim para mostrar que se existe uma
superioridade de Hegel a Nietzsche no que tange ao pensamento social, também
deve-se relativizar as afirmações de que nada há de sobreponível entre eles,
seria preciso mostrar que frases muito gerais, como por exemplo, “é imperioso
confessar a verdade” podem significar coisas precisamente opostas dependendo do
contexto: o religioso subentende assim que é preciso confessar que Deus existe,
o cientista subentende que é preciso aceitar que isso permanece indemonstrável,
que é uma questão de fé. Seria algo aproveitável insinuar que, em todo caso,
ambos começam com esse algo em comum?
A sociedade que não se
confunde com o Estado, em Hegel, está destinada a ele como um momento no
caminho que conduz a ele. Creio que mesmo Hegel projetou apenas formalmente a
irredutibilidade, quando na concretude do real o que ele enunciou foi a
impossibilidade de uma independência de fato. Nietzsche e Deleuze,
porém, nem mesmo se localizam num dos pólos dessa alternativa, pois na
consistência do seu pensamento não se põe a totalidade da sociedade, mas
lida-se sempre com minoridades, com “povos” extremamente situados,
enquanto que o que opõem a isso é a operação estatal como captura desse
situamento que é desejo, as forças que articulam localmente os grupos na
imanência do econômico, do semiótico, do histórico.
Assim, não seria
qualquer sociedade que se põe como dominação, mas a representação da sociedade
como sobreposição dos processos do devir, isso que deve ser o objeto de uma
crítica social, não de uma “teoria” que tenta legitimizar tal operação. Mas
mesmo a minoridade não se justifica de per si, como uma destinação natural do
sujeito, ou uma sua constituição.
O pensamento opera
criticamente, isto é, ele assegura transformações, transmuta os valores. Não se
pensa somente para forjar belas imagens do primitivo idealizado, mas para
liberar a potência, conectar o vivo à sua aptidão livre, o criar da sua
singularidade, inventar a sua existência. Como vimos, seria impossível que isso
não envolvesse a convivência, o engajamento, mas como e com quem e quando?
Nietzsche não cansou de esperar o povo que deveria vir, ouvi-lo e entendê-lo.
Ele se conectou poderosamente com a imanência social, mais do que um observador
daquele momento, preso a uma idéia de sociedade estatizada, poderia pensar como
o modelo de inserção, o homem comum, popular, empregado público.
Isso, para utilizar
um viés de argumentação de Williams, parece implícito no seu próprio texto,
ainda que continue a acusar Nietzche de antagonismo social, pois ele mesmo está
envolvido numa relação social com o pensamento nietzcheano. O devir não decalca
o “empírico”, não parece uma questão de comparecer a reuniões, mas sim de
investir forças , intensidades. Mesmo que para alguns isso seja o mesmo que
comparecer a reuniões, lá onde “batalham” pela causa da liberdade. Esse é o
sentido do Eterno Retorno nietzscheano como critério ético que implica o “social”,
a multiplicidade, não somente nesse contexto do material, do presente, mas
sempre nele inserindo o elemento do Futuro, lá onde se abole o sujeito, mas em
que ele retorna – ou não – conforme o devir intenso das forças que atualiza.
Assim, a leitura de Hegel com que estou lidando tem a ver com esse projeto e esse êxito, pelo que tratava-se de inserir a hipótese do sentido, pelo encadeamento de todos os sistemas localizados, no próprio âmbito da finitude. Mas ao mesmo tempo, tratava-se de formular o espaço político-estatal contemporâneo da Representação. Quanto a isso, será oportuno verificar o artigo de Bernardes, pois ele se ocupa com a “crítica de Hegel à teoria do contrato”, isto é, com a questão da irredutibilidade de Hegel a Hobbes, ainda que ambos estejam aparentemente legitimando o Absolutismo. O que permitirá também desenvolver, a propósito do texto de Williams, o tema do reconhecimento.
A transposição do
eixo de sustentação da teoria social, do individual ao geral, algo que enunciei
como aquilo que me parece ser o sentido da mudança que se verifica do
iluminismo a Kant, se torna patente com Hegel. O interessante então seria
mostrar como ele se desencumbe dessa tarefa de modo não idêntico a Kant.
O problema, como
Bréhier notou, se torna o foco da modernidade, naquilo em que se pode constatar
a irredutibilidade do momento pós-medieval a tudo o que vinha se apresentando
anteriormente. Brehier o enuncia como sendo o problema do individualismo,
derivado desse sentimento desconfortável da espessura entre a sociedade e o
mundo frente à realidade subjetiva.
O exterior pôde se
mostrar não mais como a realidade natural do sujeito, mas como constrangimento
da expansão das suas faculdades e iniciativas. Surge assim a tarefa da
filosofia política moderna, conceder ao sujeito o nexo de sua inserção social
por uma adequada definição do nexo que forma a sociedade.
A palavra importante
torna-se racionalidade. A proposta de definir o nexo em termos de razão vai se
afirmando cada vez mais sobre as teorias da força, à Maquiavel. Locke define a
demarcação pós-renascentista ao estabelecer o fundamento liberal do Contrato na
imagem do sujeito individual, suas necessidades originárias, como base sobre
que racionalmente se deriva a construção das instituições.
Ora, no Iluminismo
essa base individual se torna problematizada no que pretendeu oferecer uma base
neutra de generalização possível, como se o indivíduo pudesse ser pensado como
átomo social. O sujeito volta a ser dado como desejo, egoísmo, ambição, paixão.
Mas a sociedade em vias de se tornar capitalista é exatamente a moldura
satisfatória desse sujeito ávido. Racionalização aqui supõe um cálculo apto a
capitalizar as vertentes do desejo, leis e instituições que derivam como meio
termo de forças opostas, forças não racionais em si mesmas, mas tendo o objeto
do seu querer claramente recuperável pela observação. A moral, o Estado, o
comércio, as leis, são modos de combinar os interesses egoístas. Isso ainda
permite que se o faça com lucro, isto é, com progresso ao longo do tempo,
traduzindo-se nas invenções que acomodam ainda mais a existência e as
instituições. O que faculta o trânsito do desejo à combinação institucional é a
necessidade, o que permite ao próprio sujeito compreender a limitação do seu
desejo no interesse da sobrevivência.
É interessante
observar que Kant, revertendo essa base individual para ancorar a teoria social
e política numa base geral, de certo modo prolonga o pensamento iluminista. A
base geral é a universalidade da lei. Mas a “lei” nessa formulação é um termo
vazio, uma pura forma. Vimos que o preenchimento dessa forma suporta a teoria
da história no kantismo, e aqui se aloja a vicissitude, a imprevisibilidade e o
capricho que derivam da insaciável cobiça humana, o mal radical. A lei ou
instituição, de fato, se torna esse cálculo “iluminista” na sua efetividade
histórica.
Hegel comparte com
Kant a base universal da lei. Mas não como uma forma vazia, e é nisso que
reverte fundamentalmente o iluminismo. A racionalidade nem é a pura
universalidade nem o cálculo derivado das premissas desejo ilimitado mais
necessidade de sobrevivência. Racionalidade significa ser uma produção ou uma
manifestação do espírito na objetividade histórica, isto é, na factualidade da
vigência. Não há racionalidade pura, mas somente a que se expressa nas formas
da legalidade historicamente constituídas. Ora, essas formas não se põe na
continuidade da natureza insaciável do homem, mas como liberdade frente à essa
natureza.
As formas
institucionais têm um caráter intrínseco e necessário e é nessa perspectiva que
devem ser estudadas, não na base de sua relação com algo que lhes é
precisamente oposto, a natureza, necessidades ou desejos. Portanto, uma vez na
região do espírito objetivo, atravessou-se o limiar da necessidade, já se está
na esfera da liberdade.
A liberdade é negação
da individualidade naquilo pelo que esta se prende à natureza da necessidade e
do desejo. Ao mesmo tempo, liberdade é a priorística, como uma determinação do
espírito, sua objetividade no mundo da cultura. Hegel preserva a idéia de
progresso, contudo, comum ao iluminismo e a Kant. A liberdade se realiza
progressivamente na instituição, e é por isso que o estudo resulta
transformado. Examina-se as formas entre elas mesmas, na sua autonomia, para
descobrir o nexo de sua progressividade, não mais se as examina para detectar a
imanência do desejo ou da contraposição egoística localizada de que seriam
derivadas.
Algo nesse exame
repõe a estética, o estudo das formas artísticas na sua autonomia, algo que
está surgindo precisamente nesse momento e se relaciona polemicamente com a
démarche filosófica de Hegel. Bréhier destaca o caráter artificial de se propor
o estudo da natureza sobre o fundo da atitude espiritual ou realização do
conceito, como vimos ser o caso no núcleo reservado à epistemologia. Agora,
poderíamos estabelecer uma analogia com o estudo político-social de Hegel, pois
as formas são visadas na sua concretude de texto, por assim expressar. As
instituições de várias procedências históricas são “lidas” como textos
destacados do seu contexto social, para se tornar fragmentos de um outro
contexto, aquele formado pelo devir do espírito “racionalmente” recuperado pela
filosofia especulativa.
Enquanto a abordagem
estética tende a se tornar tanto mais aproveitável quanto mais se libera a
autonomia do produto artístico, o estudo das instituições parece bastante
comprometido nessa via. Quando a sociologia contemporânea se propõe o problema
da escolha pessoal confrontada à coerção social, ele se destina a compreender o
ato dos agentes na sua inserção social para responder a questões como se existe
uma liberdade subjetiva nas escolhas ou se tudo o que os agentes podem fazer
deriva de padrões e regras estabelecidos pela sociedade. O estudo de
instituições é algo reportável intrinsecamente aos agentes e aos grupos que
eles integram. Hegel está propondo algo bem oposto, uma estória do encadeamento
de instituições no tempo e no espaço de modo a conduzir à sua atualidade ocidental,
ao tipo de sociedade absolutista e protestante que ele se encarregou de
justificar como o objetivo final do espírito ético.
As instituições que
liberam o ser humano de sua natureza imediata são o direito e a moral,
inicialmente, conforme a doutrina de Hegel. Essas instituições são definidas a
priori como irredutíveis à natureza e ao indivíduo no seu vínculo natural a si.
A entrada na cultura se faz, portanto, pela negação da individualidade.
A teoria do “espírito
objetivo” compreende os três momentos de direito, costumes e moralidade,
conforme Bréhier, que o enuncia em meio à enumeração das 27 tríades do
hegelismo. No entanto, bem mais à frente, ao tratar exclusivamente esse tema,
bréhier só considera a transição do direito à moralidade. Quanto a Chatelet, o
trecho relativo ao exame dessa tríada estabelece a moralidade como momento
seguinte àquele do direito, sendo que identifica o Absoluto “alhures”, na
coletividade que age, na família, na sociedade e no Estado. Ora, essa tríade do
Absoluto pertence à moralidade, de modo que é o costume que se deve inserir no
momento de intermediação. Parece, no entanto, que a verdadeira oposição está
entre exterioridade abstrata e exterioridade concreta, sendo essa concretude
assegurada pela via da interioridade. Assim, o exame tende a polarizar o
direito e a moralidade.
Ora, o direito para
Hegel é tão somente a garantia da propriedade. A individualidade natural que
foi negada se torna a subjetividade civil desde que implementa e é
implementada, garante e é garantida, pelo direito como reconhecimento do
vínculo inalienável entre o proprietário e o seu objeto. Ser proprietário é
sinônimo de ser sujeito civil. Não pela objetividade material da coisa, como a
sua posse, seu desfrute, mas por que a propriedade é uma operação de sentido
pela qual o ser humano dota a coisa da consistência de ser sua propriedade.
O pronome possessivo garante formalmente a relação ao pronome pessoal. “Seu”, “dele”,
são apenas relativos a “ele”, como “Meu”, é relativo ao “Eu”. A coisa se torna
minha se nela insiro a minha vontade.
A troca social se
torna possível como uma combinação de vontades pelo qual um retira a sua
vontade da coisa que lhe pertencia, e que se torna do outro, desde que esse
outro retire a sua vontade de alguma outra coisa que lhe pertencia e que se
torna daquele com quem negocia a troca. O contrato de troca se torna a base das
relações jurídicas, pois ele supõe o valor, suportando conceitualmente o
direito civil e o penal.
O terceiro é aquele
que julga quando várias pessoas se arrogam o direito sobre algum bem. O direito
não depende do Estado, concernindo apenas ao âmbito privado. Mas também o
Estado, a cidade, é independente do direito, o que se torna uma originalidade
do pensamento hegeliano. Até aqui se pensava o Estado como um caso particular
do direito, uma aplicação geral da regulação das leis. Entre o direito e a
sociedade existe a moralidade.
Hegel pensa o direito
como um início, portanto uma abstração, na vida do espírito. É pelo
estabelecimento do direito que se define a má ação, o desconhecimento da
propriedade. O ciclo de má ação e vingança seria interminável se não se
introduzisse o juiz desinteressado, aquele que restabelece a propriedade. Mas o
que se restabelece assim é a liberdade, que no âmbito exclusivo do direito se
garante pela independência do sujeito frente à necessidade da natureza, sua
afirmação como sujeito espiritual, sujeito de cultura. Ora, no direito, na
propriedade, o que a posse da coisa estabelece é a interioridade do sujeito que
se tornou livre da materialidade que continua a ser da coisa. O despertar dessa
consciência da interioridade independente da coisa, ainda que tenha sido
estabelecida pela relação de posse da coisa, se torna a moralidade,
independente do direito.
O direito é abstrato porque
exterior, a moralidade é a adesão da vontade, interior, independente da
autoridade. O direito se situa na região da obediência, a moralidade se situa
na região da intenção. Mas esse lugar da interioridade pura é também onde se
processa a dialética de indivíduo e sociedade. Pois ao sujeito parece que a
instituição moral deveria ser como a realização da sua adesão, portanto criação
sua, a ele devida. É o problema do mal, conforme se desenvolve na doutrina de
Kant. Hegel recusa resolvê-lo pelo viés do progresso gradual. O mal significa
apenas que o sujeito retroagiu ao indivíduo natural, julgando erroneamente o
Universal da vontade moral como se este fosse expressão da vontade particular.
Ora, é no grupo
social efetivo que o Universal concretamente se verifica na sua existência
histórica, não na idealização particular do indivíduo. O sujeito que adere à
lei moral, mas se choca com o obstáculo de seu próprio mal, no sentido de sua
tendência particular a desviar para si a moralidade da lei, encontra na sociedade,
prontamente, o corretivo de sua perspectiva incorreta. Assim, a moralidade se
conduz como Eticidade (Sittlichkeit) que Hegel conceitua como o conjunto das
instituições sociais efetivas, historicamente vigentes.
A Eticidade é,
portanto, sinônimo de mundo da cultura ou socialidade dos seres humanos. Ela
compreende a família, a sociedade e o Estado como momentos da sua realização
enquanto Idéia absoluta. Note-se que desde a transição da moralidade como
Eticidade, o retroagir ao indivíduo natural se tornou impossível. O sujeito se
afirma na família como a base mais íntima da subjetividade socialmente
destinada e socialmente constituída.
A família realiza a
destinação mútua entre os sexos, cujo escopo e maior bem é a educação dos
filhos. Hegel desconhece, no sentido de considerar extrínseco à verdadeira
realização da moralidade, qualquer ordenação familiar que não seja o casamento
monogâmico. Mas a família é um meio atomizado, grupos fechados de parentesco,
portanto, formando apenas a base do grupamento maior que é a sociedade.
Assim como a
propriedade regulada pelo direito não se confunde com o Estado, a sociedade
permanece também algo irredutível a ele. Em ambos os casos a irredutibilidade
se mede pela utilidade, algo que se poderia considerar imediatez, daquilo que
no Estado se realiza como estando nos antípodas do natural, da necessidade, do
imediato. A propriedade é sobre a coisa, o direito um laço econômico. A
sociedade, uma das grandes originalidades de Hegel, é também um laço econômico,
pois se destina a coordenação do trabalho coletivo, organização dos trabalhos
setorizados que servem à satisfação das necessidades das famílias.
Mas esse trabalho
ordenador do espírito não parece fácil de se concretizar. Como Platão, Hegel vê
as classes surgirem da destinação das atividades no âmbito da comunidade. Mas
ele não supõe que por si isso garantiria a justiça imanente, a realização da
natureza de cada um conforme aquilo que produz. A justiça negativa que surge
dessa necessidade de coordenar as atividades que devem prover o sustento e a
segurança de todos, não se totaliza como uma justiça positiva por fim.
Permanece sendo um expediente sujeito a todo tipo de desvio, pois a satisfação
que deveria prover está relacionada ao material, à natureza, inclusive a “natureza”
do ser humano, isto é, o seu mal, a sua tendência ao individual.
É interessante
observar que recentemente uma revista especializada publicou um matéria sobre
Hegel, e na capa registrou a manchete: o filósofo que considera natural o homem
ser mal. Ora, “homem” natural para Hegel é algo menos humano, algo próximo do
animal. Esse é o lote da individualidade. O “homem” real, autêntico, é o
sujeito da cultura, não o da natureza. Assim, o que se verifica ser a doutrina
do hegelismo resulta como o oposto do que a manchete sugere. O mal “humano”,
conforme Hegel, significa o nada, o não-ser, algo destinado a Suprassunção na
cultura, aí onde o ser humano vem a ser o que ele é. Individualidade portanto
está oposto à Subjetividade.
Enquanto o indivíduo
é o corpo, o animal natural, o o sujeito é a personalidade da cultura, o
espírito como realidade da pessoa social. Não parece haver meio termo no
pensamento de Hegel, entre esses dois extremos. A dialética se aplica apenas
como transição entre um estado e outro estado, não como um estado irredutível a
estes. Aqui parece-me escusado acrescentar que não se trata de uma formalidade
terminológica, mas conceitual. Hegel pode usar um ou outro termo, sujeito ou
indivíduo, mas sempre, creio, se pode recuperar a oposição entre os dois
conceitos que ilustrei utilizando a dualidade desses étimos.
Vimos anteriormente
que no século XVIII se buscou a transição, justamente, a essa identificação de
humanidade e cultura. Em Hegel o processo já se consumou. A independência ou
autonomia da Lei e do Governo que caracterizam o Estado significa uma completa
ruptura com o que restava de natural na atividade social do trabalho ou no
atomismo das famílias. Assim, não se pode conceituar o Estado no hegelismo do
mesmo modo que ele vinha sendo visado pelos iluministas. Aqui o Estado é o laço
contratual que garante a segurança do indivíduo. No Hegelismo, o Estado é uma
realidade em si mesma, a lei e o governo na sua formalidade intrínseca, seu
poder ilimitado.
Aqui se torna
interessante confrontar essa conceituação de Hegel com Rousseau e Hobbes.
Inicialmente, retornando ao estudo de Bernardes acerca da crítica hegeliana à
teoria do pacto ou contrato social de Hobbes, o importante é notar a
transposição que o pensamento burguês está sofrendo. Isso é tanto mais notável,
pois em ambos os pensadores trata-se de formular o que será mais tarde
amplamente utilizado como os pródomos do liberalismo, mas dentro de uma
concepção que pretende justificar o absolutismo.
Portanto, será
preciso um exame que possa abranjer todos esses termos: o papel do liberalismo
na modernidade, suas transições, como se comporta sua oposição em relação a
vertentes que lhe confrontam. O que se torna bem fecundo no interior do estudo
sobre Hegel, pois podemos verificar que praticamente todos os pontos que entram
nesse exame sobre o liberalismo, penetram fundo nas questões relacionadas à sua
filosofia.
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O étimo “liberal” faz
apelo ao termo central do pensamento social moderno: liberdade. Aquilo que poderia
reunir sujeito e sociedade conforme a existência integral, suplantados os
obstáculos causados pela dominação.
Mas qualquer pessoa
razoavelmente informada sabe que o termo liberalismo, ou liberal aplicado a uma
doutrina ou partido político não significa libertário, mas justamente o oposto,
por que a ênfase na prerrogativa individual que lhe costuma ser característica
conduz justamente a que se despreze o fator coesivo que é responsável pela
situação do sujeito de classe desfavorecida.
Assim, o indivíduo
aparece prontamente como objeto da iniciativa política naquilo pelo que se pode
considerar responsável, unicamente, por aquilo que é. Quanto mais poder o
sujeito tem , quanto a manipular a ambientação circundante, quanto mais “responsável”
ele pode ser, tanto mais tem ele a prerrogativa da atenção da autoridade, e é
para quem se deve voltar o cuidado e as leis.
Supõe-se que, como
ele é um foco social, beneficiá-lo atua indiretamente sobre aqueles que dele
dependem. O liberalismo significa, na política, geralmente, a doutrina pela
qual o governo existe para limpar o terreno do capital que investe socialmente –
supostamente – empregos e salários.
Nesse contexto
preciso ser liberal confronta-se com ser democrata, quando se supõe que o
governo deve, inversamente, prover a racionalização das instituições para que
todos os sujeitos sociais se beneficiem igualmente do mesmo acesso aos bens e à
produção.
Mas confronta-se
também com ser socialista, porque nesse caso, supõe-se que a via de
beneficiamento do democrata está equivocada por estabelecer as mesmas bases
individuais do liberalismo, só que na base da pessoa comum. O socialismo pensa
que a via do acesso e da igualdade só pode ser traçada com base numa reversão
profunda dessa concepção que faz do indivíduo o objeto neutro sobre que deve se
erigir a sociedade.
O socialismo
estabelece a transição à contemporaneidade, pois aqui há ruptura com a noção de
indivíduo unicamente responsável pela inserção social, e isso já está presente
no pensamento de Hegel, como se poderá ver.
Essas vertentes
definem geralmente termos que, ainda assim, apresentam uma considerável
variação semântica ligada a concepções mais extremistas. Conforme o foco,
pode-se subsumir cada pólo ao outro, como faz Stirner, ao supor que todos são “liberais”
por que se baseiam na preminência do coletivo em relação ao subjetivo, Stirner
propondo que somente a supremacia incontestável do sujeito, inteiramente
conceituado na iredutibilidade solipsista do seu ser, pode sugerir algo não
arrolável sob esse termo. Ou, como numa radicalização do pólo liberal, taxar de
socialista qualquer proposta que não prescreve de antemão a prerrogativa do
livre trânsito do capital.
Sabe-se também que a
palavra “liberdade” é tão polissêmica que sua ocorrência numa argumentação
implica o defeito que consiste no uso de “noções confusas”. Ora, o problema
parece ser que alguns termos, insuficientemente definidos quanto possam ser, às
vezes são inevitáveis, ou exibem importância num certo contexto.
No momento moderno o
problema político nasceu numa confluência inextrincável com o problema da
liberdade. O modo como Bréhier enunciou o despertar da moderna teoria política,
envolvendo-o na antítese recém-experimentada do subjetivo e do social, permite
compreender o aporte que impõe a sua formulação nesse momento renascentista.
Pois o constrangimento se mostrou como o abuso do poder, quando o poder da
instituições deixou de ser ideologicamente justificado nos padrões que vinham
até então sendo suficientes para tansformá-lo no mais aceitável e comum a
todos.
O que se verifica
porém é que ao longo do momento moderno, da Renascença a Hegel, o
encaminhamento desse problema se transformou. Inicialmente tratava-se de saber
como proteger os homens do abuso do poder por aqueles que haviam se apropriado
de funções sociais pelas quais exerciam o despotismo sobre os outros, isto é,
protegê-los do poder governamental, institucional, que se beneficiava de leis
injustas ou costumes obsoletos. Mas até o século XIX, na ambiência de Hegel e
do utilitarismo inglês, o problema se tornou saber como proteger as pessoas do
abuso do poder por parte dos outros, não do Governo. Inversamente, era o
governo que aparecia agora como o lugar da neutralidade e da legalidade
necessárias à impossibilitação do abuso particular.
A palavra importante
se torna Representação. Assim, por exemplo, no interior da tradição liberal,
não é tão paradoxal que o pensador político esteja ao mesmo tempo propondo o
absolutismo, mas na base da representação popular, como se o soberano fosse o “representante”
do povo. Locke foi o crítico dessa idéia, no entanto mantendo as mesmas
premissas pelas quais tratava-se de limitar o poder da autoridade civil. A
Representação, até aqui, é o meio pelo qual se pensa a minimização dos
atributos, funções ou instituições legais, para fazer do “soberano” – o monarca
ou o parlamento – apenas uma tipificação dos sujeitos sociais.
Mas progressivamente
a representação se tornou o meio pelo qual se investia o poder de mais e mais
funções a fim de atingir o controle da massa, de modo que o sujeito se tornasse
protegido contra o “outro” da sociedade. As teorias do contrato social, de
Hobbes a Locke, chegam ao rousseauísmo onde se enuncia a cisão que, no entanto,
perfaz a coerência da doutrina. Por um lado, o “Rousseau revolucionário”,
conforme a expressão de Bréhier, que fabrica a vontade geral como concerto dos
indivíduos, expressando assim a essência do contratualismo. Mas também o “Rouseau
estatista”, declarando a soberania inalienável, infalível e incoercível.
Ora, o que permite
manter Rousseau na linha do contrato é que a soberania ideal está enraizada num
mecanismo de representação constitucional que não conduz por necessidade
intrínseca ao absolutismo. Em todo caso, o que permitiria supor uma coincidência
com o pensamento hegeliano seria a universalidade atribuída à função da
soberania. Mas, como nota logo depois Bréhier, isto é, depois de aproximar
ambos os pensadores por essa via do universal como definição do fenômeno do
Estado, a solução de Hegel é bem oposta à de Rousseau. O que se deve ter bem
salientado nisso é que Bréhier atribui essa oposição ao fato de que “aqui
começa a apologia desse absolutismo governamental que, conforme Hegel, pode
encarnar a universalidade do Estado”.
No entanto, o que se
tornou polêmico foi justamente o papel do absolutismo em Hegel. Assim, Thadeu
Weber, no artigo “O Estado Ético” é mais prudente, ao iluminar o problema das
relações Hegel-Rousseau pela via da crítica estabelecida pelo próprio Hegel. O
problema está na consideração da vontade geral como o que há de comum nas
vontades individuais, ou, conforme a expressão destacada do “Contrato Social”,
o “substrato coletivo das consciências”.
Esse é o cerne da
oposição de Hegel à teoria do contrato. Hegel pensa que a “subsunção do
político” à “expressão subjetiva da vontade particular dos indivíduos
pressuposta e manifesta no momento próprio deste ato”, conforme Bernardes
referindo-se ao ato do Contrato que supostamente estabelece o elo social, é
apenas a elevação da figura do direito privado à instância de algo que é bem
maior, a existência do Estado. O contrato não parece ser nem mesmo, em Hegel,
pensado como um ato fundador, que pode ou não precisa depender de um momento
anterior não regulado, “natural”. Mas parece ser conceituado como o tipo de
todos os contratos particulares e efetivamente celebrados entre as pessoas na
sociedade civil.
O contrato é um
expediente, um modo pelo qual os sujeitos privados se garantem a não violação
de sua relação de posse relativa à coisa, ao objeto do contrato. Ora, Hegel
pensa que seria um contra-senso estabelecer a soberania como uma renúncia da
vontade individual para investir coletivamente a vontade do soberano, ato
fundador do Contrato social conforme seus teoristas, por que o fundamento de
qualquer contrato é justamente a vontade subjetiva.
O que se expressa
através dessa crítica é uma profunda mudança na teoria da representação
política, como bem expressou Agemir Bavaresco no texto “A crise do Estado-nação
e a teoria da soberania em Hegel”. Agora a questão não está no saber das
condições pelas quais um indivíduo é politicamente habilitado, mas como são
constituídas e como se entrearticulam as individualidades política e social,
já que se tornou claro que a sociedade e o Estado não podem ser sobrepostos
como o mesmo. Ou seja, trata-se agora de pensar o lugar de onde deriva o
sujeito, não o indivíduo como noção básica da doutrina social.
Os contratos
celebrados entre os sujeitos sociais os estabelece como membros de uma
sociedade civil, mas nada esclarece, também, quanto à natureza da soberania.
Ora, pelo que vimos com Bréhier, poderia parecer que o problema da consecução
da teoria em Hegel é de simples tratamento, bastando enunciar que para ele a
Soberania se realiza pelo absolutismo já que o príncipe encarna a monarquia
constitucional como realização do percurso da Idéia Universal que veio da
família e transitou pela sociedade civil até incorporar o Governo como a
Liberdade Objetiva.
Pelo Estado todo o
conflito que se mantinha insuperável na sociedade civil, é apaziguado. Isso por
que o Estado realiza a Idéia de legitimidade, formalmente, por um lado, mas por
outro, na sua materialidade, no conteúdo histórico, local, com que se reveste,
ele encarna o “espírito do povo”, o Volksgeist – não o conjunto
calculado das vontades individuais, mas a sua existência enquanto ideal.
No entanto isso
parece longe de ser tão simples. Há dois problemas, no mínimo, aqui.
Inicialmente a questão da relação de Hegel com o liberalismo: até que ponto
pode ser positivamente proposta? Mas também a questão da legitimidade: qual é o
angulo em que se apóia definitivamente a argumentação de Hegel, pela qual o
Estado se reveste do absoluto da Eticidade, o príncipe ou a constituição?
Finalmente isso conduz a um terceiro núcleo prolemático pelo que trata-se de
resolver quanto à destinação dessa doutrina: ela aporta com efeito no Estado
germânico-absoluto e lutherano, ou Hegel pensou o seu momento histórico apenas
como a efetividade da descoberta ou enunciação da doutrina real do espírito – a
sua fenomenologia, ponto do qual deveria começar o verdadeiro progresso humano?
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Parece que se pode
ordenar o conjunto de indagações formuladas conforme certa ambiguidade
fundamental do pensamento de Hegel, algo que já examinamos anteriormente.
Agora, para definir de modo mais preciso essa oscilação, a sobreposição das
observações de Robert Hartman e Lowenberg se mostra adequada.
Conforme Hartman, na
introdução à sua tradução do texto hegeliano “A Razão na História”, há no
interior da doutrina uma oposição entre a forma e o conteúdo. Sendo este o
material erudito com que Hegel estava lidando na construção textual, o conteúdo
apenas limitava o alcance da forma que se enunciava como efetivamente
revolucionária.
Penso que se poderia
mostrar que o conteúdo seria o Estado absolutista, ou a moralidade cristã, a
forma seria a progressividade dialética e a concretude da experiência como real
dado a pensar. Assim, Hartman relaciona a opção do intérprete pelo conteúdo com
uma leitura de direita do hegelismo e, inversamente, a opção pela forma como a
leitura da esquerda.
Lowenberg enuncia
isso, como já vimos, do seguinte modo: aceitar a validade do método dialético
impede que se o extinga pela consecução de um momento absoluto. Aqui a
observação nomeia menos uma oscilação do que uma contradição autêntica: o
método de Hegel é incoerente com a conclusão do hegelismo.
Transpondo isso aos
problemas mencionados, podemos propor que uma preferência pelo método induz a
responder que o pensamento de Hegel é liberal e que o eixo de sua teoria da
legitimidade é a constituição. Assim, mesmo o dogmatismo metódico tende a se
atenuar, como em Chatelet: a dialética seria algo não tão restrito a um modelo
do pensar, mas um programa de comprometimento com a progressividade incoercível
do real.
Já instituir a
leitura na base do conteúdo induz a pensar que Hegel esteve nos antípodas do
liberalismo e que sua teoria política depende inteiramente do absolutismo.
O problema inclui a
relação que se estabelece entre liberalismo e individualismo, pois se Hegel
inovou justamente ao reverter o papel do indivíduo, como se poderia compreender
sua teoria política em termos liberais? Assim, a escolha entre forma e
conteúdo, método ou totalização, parece envolver a situação do sujeito no
pensamento hegeliano, isto é, parece implicar a questão de definir de que modo
o elo social se institui na sua destinação ao humano.
Podemos confrontar os
textos de Bavaresco e Dotti como exemplos do antagonismo dessas leituras do
hegelismo. O estudo sobre a teoria da soberania em Hegel, de Bavaresco,
compreende que há duas interpretações quanto a esse fenômeno, ilustradas, por
um lado, com Eric Weil e, por outro, com Labarrière e Jarczyk.
Weil pensa que em
Hegel a soberania depende do rei como instância decisora, mas que o
funcionamento do Estado se apóia sobre os funcionários e sobre a constituição,
que seriam os verdadeiros responsáveis por sua efetividade ou vigência. Quanto
a Labarrière e Jarczyk, a relativização do absolutismo hegeliano limita o papel
principal da teoria à constituição.
Nessa interpretação
constitucionalista a Carta legal sintetiza o equilíbrio, a articulação dos
momentos constituídos pela particularidade do governo, a universalidade do
Estado enquanto totalização da sociedade, e a singularidade da pessoa do
príncipe.
Em todo caso, o ponto
importante da teoria de Hegel é que o Estado moderno é expressão da legalidade,
portanto, deve ser o oposto do despotismo, conforme o texto de Bavaresco. Mas
assim a enunciação permanece prévia à decisão sobre como se efetiva essa
legalidade. Ela é a idealidade das esferas e atividades particulares, mas
enquanto isso permanece na dependência de um momento singular como voz da
decisão, a pessoa do rei, fica a questão pela qual o singular não pode ser
confundido com os particulares, mas ele tampouco deixa de se manter numa
relação especulativo-representativa com o subjetivo. Penso que o liberalismo
aqui está implícito na via mesma pela qual esse momento singular impede as
efetivações democrática ou socialista.
Chatelet apoiou sua
exposição da teoria do Estado de Hegel inteiramente sobre a concepção de seu
vínculo com o liberalismo. Assim ele é bem explícito quanto ao enraizamento
desse pensamento da idealidade do Estado numa certa concepção prática da razão,
isto é, numa dependência ao estatuto moral do sujeito, o que poderia parecer
paradoxal.
Mas o paradoxo seria
apenas aparente, se for mantida a cisão conceitual já esclarecida entre o
sujeito e o indivíduo. Pois é a atividade social mesmo que funda a
subjetividade que pode, somente então, ser localizada na base da legitimidade
da Soberania. Creio que se poderia ilustrar o sentido da interpretação de
Chatelet utilizando a imgem pela qual o liberalismo se deslocou de uma reta a
um círculo. A linha reta iluminista que conduz do particular ao geral se torna
o círculo hegeliano que prevê a generalidade do particular e este, então, apto
a conduzir novamente ao geral. Mas em um caso o geral é a soma do particular,
no outro ele é a idealidade do universal. Chatelet parece supor que o que
permitiu a Hegel operar a transformação foi a razão prática de Kant, bastando “estabelecê-la”
na prática social.
A interpretação de
Dotti parece irredutível a essa vertente. Ele pensa o Estado de Hegel como uma
configuração teológico-política. O universal aqui não seria apenas a abstração
do entendimento, mas uma “forma” ou “vontade efetivamente estruturante da
realidade”. Nessa perspectiva há uma expressa antítese de Hegel ao “racionalismo
liberal”. Nesse lance Dotti está ao mesmo tempo se situando frente à opção
entre método e totalização, pois ele mostra que propor a leitura da teoria do
Estado de Hegel como uma teologia política significa aceitar que a teoria está
apoiada sobre algo mais profundo que a reflexão contraditória, a dialética.
Se isso for assim, no
entender de Dotti, então se pode considerar legítimos os índices da
irredutibilidade de Marx e Stirner a Hegel, mesmo sabendo que os três lidam com
a dialética que foi Hegel a enunciar como via filosófica. A questão é como
demonstrar que no hegelismo há mesmo esse algo a mais que o torna impossível de
se manter no mesmo nível imanente desses seus críticos.
O argumento principal
de Dotti é a comparação que Hegel introduziu entre a prova ontológica da
existência de Deus e a justificação do poder soberano. Assim como a idéia de
Deus se auto-comprova pelo simples fato de existir em nós, a idéia da soberania
não possui outra origem que não ela mesma. Assim ela se auto-justifica na
absolutez da vontade decisória suprema no topo do Estado.
Creio que se poderia
interpretar o encaminhamento teórico de Dotti supondo a idealidade da soberania
absolutista como o transcendental da legitimidade estatal. A representação
corporifica aquilo que já está dado, pela existência social, como legitimidade
desse elo. Ao mesmo tempo o elo só funciona como fator coesivo porque encarna a
representação na forma da soberania ou legitimidade. O Estado é o aparato da
razão prática, mas isso por que o soberano, o rei ou príncipe, encarna a idéia
da decisão suprema. O que ele representa é assim inteiramente oposto a
um conjunto de vontades particulares, sendo, sim, a Ordem da vontade racional
socialmente (universalmente) constituída. É curioso observar como essa origem
decisionista do Estado, que situa a teoria como antitética da “neutralização
liberal-normativista do político”, conforme a expressão de Dotti, permite
utilizar a aproximação Hegel-Kant de modo inverso ao de Chatelet.
Creio que o ponto
decisivo está na compreensão do Sollen hegeliano, o que sem dúvida situa
seu pensamento numa relação com Kant, mas não de subsunção. Ora, é o modo como
se conceitua o dever, estabelecendo a transição do indivíduo ao sujeito,
que deverá esclarecer quanto à perspectiva que Hegel está implementando na
abrangência do elo social. Quanto a isso, o texto importante é a Razão na
História.
Aqui se pode
constatar do modo mais patente a recusa do pensamento moral pelo viés antigo,
pois, por um lado, como notou Bréhier, assim como em Kant há o écart entre
a ação particular e a universalidade do bem, a harmonia sendo apenas acidental,
o que instaura o problema novo das relações felicidade-virtude. Ora, aqui se
mostra o irredutível do momento da filosofia de Hegel.
Bréhier sublinha isso
mostrando que a moralidade está agora se colocando como uma abstração frente à
realidade do grupo social que concretiza a cultura. O dever ser permanece vazio
na exterioridade das formas da família, do direito e do Estado. Já no texto A
Razão na História, onde se trata para Hegel de precisar a inserção de sujeito e
cultura, nos textos consecutivos sobre o indivíduo como sujeito e como objeto
da história há uma interessante progressão que repõe a ação no centro da
história, da cultura e do vir a ser, logo, do Real. Assim, descreve-se o salto
do indivíduo ao sujeito no âmbito da sua participação na cultura, mas isso do
seu próprio ponto de vista, para depois considerar o feito do sujeito como
narrado na história.
Aqui não deixa de se
apresentar uma teroria da moralidade, ou melhor, uma referência ao que
habitualmente se estuda no interior desse tópico, mas de modo que os itens
correlatos se tornam deslocados. Trata-se inicialmente de considerar a oposição
paixão-lei, individual-universal, para em seguida colocar a questão da oposição
felicidade-virtude. No primeiro caso, o meio termo está na idéia, precisamente
a idéia de liberdade cuja exteriorização ou efetivação é a história. No
segundo, há uma caracterização do dever que, curiosamente, parece estar aquém
da objetividade da idéia encarnada no feito dos personagens históricos, os “heróis”.
A história do mundo é
a progressão da realização da liberdade, e isso permite classificar os graus
que hsitoricamente se apresentaram nesse percurso: o oriente, a Grécia e o Estado
moderno mostram, o caminho da liberdade se estendendo, respectivamente, de um,
a alguns e, finalmente, a todos.
Isso mostra que Hegel
pensou a perfeição política, seu elogio do príncipe, como uma realização da
liberdade, não como a tipificação do dever na forma da autoridade suprema. É
assim que Hegel marca o contraste mais acentuado entre o Oriente e o Estado
moderno: só no Oriente se localiza a figura do déspota, o único livre. Mas em
todos os estágios da história o que progride é a consciência da idéia de
liberdade.
Aqui o pensamento de
Hegel é algo complexo. A idéia de liberdade surge como a essência do espírito,
enquanto a essência da matéria é a gravidade. A liberdade é a atribuição do
espírito pela qual quaisquer atribuições ulteriores lhe podem convir. Ora, o
que se indaga é acerca do objetivo final do mundo. Logo depois, a indagação já
comporta a consideração sobre o objetivo final da história do mundo. Em todo
caso, esse objetivo é algo determinado no mundo. Hegel traça a progressão entre
o pensamento, a natureza e o espírito, como sobejamente se comentou.
Mas se o espírito se
torna o termo a atingir como objetivo do mundo, e o espírito é tudo o que tem a
ver, exclusivamente, com o ser humano, a história é a apresentação do
espírito. Assim desenvolve-se mais uma vez o ritmo ternário, por que a
apresentação envolve o que se desenrola na trama dos acontecimentos e
essencialmente isso é a expressão dos aspectos separados do espírito: suas
características abstratas, os meios que usa para compreender sua idéia, e a
forma da plena compreensão da idéia.
A idéia da liberdade
se torna, portanto, o fio condutor dessa história que se duplicou, pois por um
lado é a narrativa dos fatos intramundanos que envolve a ação dos seres humanos
numa relação constitutiva com a invariância do estágio em que o alcance da
idéia se encontra, mas por outro, é a progressão das invariantes, até chegar à
compreensão plena do que é a liberdade, expressando-se nas instituições
perfeitas, ou seja, na forma dessa compreensão que é o Estado: o objetivo final
do mundo como realização do espírito por meio de sua idéia, a liberdade.
Sendo assim, desde
que uma invariante histórica, estando mais ou menos longe de sua própria
plenitude, a liberdade nunca pode ser pensada como capricho, satisfação de
desejos pessoais. No entanto, desde que não tenha atingido essa plenitude ela
tampouco pode se liberar completamente de sua impureza, a mácula do
estritamente individual mesclada à percepção do ideal.
Essa complexidade
permite, contudo, classificar os estágios da história. Ao proceder assim, Hegel
está identificando o despotismo com a impureza máxima, o estágio mais afastado
da consciência plena do sentido do ideal ( liberdade ). Portanto, em seu
pensamento político o absolutismo deve estar rigorosamente separado do
despotismo, pois o Estado moderno é aquele que realiza maximamente o ideal,
aqui onde todos são livres – o pensamento de que um só pudesse ser livre, como
no despotismo oriental, inevitavelmente conserva a liberdade na imanência do indivíduo,
ainda que essa figura despótica estivesse institucionalmente representando o
Estado naquele estágio inicial da história.
Se a liberdade está
se compreendendo na imanência individual não se pode evitar a impureza pela
qual resta na idéia a sombra do capricho pessoal. Será então preciso pensar de
algum outro modo a caracterização do príncipe do Estado moderno, em Hegel.
A ambiguidade e a
indefinição que Hegel constata estarem ligadas ao termo “liberdade” parecem ser
o motor da história, pois são desses fatores polissêmicos que se estendem os “mal-entendidos,
confusões e equívocos” a ser afastados na realização plena. O ponto a
considerar agora seriam os meios pelos quais a plenitude da idéia se afirmou
progressivamente barrando os obstáculos representados por essas acepções
deturpadoras do sentido autêntico.
É então que se
desenvolvem os temas relacionados à ação na imanência histórica do mundo, ou
seja, é por meio da consideração da ação, vista por todos os seus ângulos, que
se compreende a progressão da idéia, desde o indivíduo ao sujeito social, desde
o desejo ao dever, e desde o dever à ação. A Razão na História, nesses dois
textos, repõe a progressão que vimos anteriormente, entre o direito, a
moralidade e o Estado, pois são os mesmos eixos que repetem o ritmo ternário
nessas duas variações.
A ação, o Estado,
como termos da síntese, iluminam o sentido existencial do personagem hsitórico,
o herói, que é o sujeito naquilo que ele tem de supremo, o ter-se tornado o
objeto do relato do mundo. O objeto agora é a concreção do objetivo, não
simplesmente algo material que se opõe ao “Eu”, pois ultrapassou-se
completamente o domínio da filosofia da identidade, o pensar tendo se instalado
no pleno do vir a ser. Mas sendo assim a consideração dos meios, o desenvolvimento
dos temas, precisa repor do ponto de vista do sujeito a progressão de si, desde
o mais idêntico a si, o mais abstrato, o mais individual, ao mais idêntico ao
todo, o mais singular, o mais histórico e geral. O percurso deve considerar
como se conduz da paixão à virtude.
A história usa a
paixão do indivíduo como um meio para ultrapassá-lo no rumo do sujeito moral. O
lodaçal dos atos torpes que a história registra está numa dependência da
perspectiva individual que só vê os resultados na sua relação com um alguém,
suposto ou idealizado. Na realidade o que ocorre é que a paixão, o interesse
mais egóico, fornece o móvel à atividade e com isso, o meio termo que conduz
dos princípios aos fatos. A lei que rege a vontade permanece abstrata, tendo
que ser envolta na paixão que conduz ao ato, enquanto esse ato é o que
preside à efetivação da história.
O subjetivo torna-se
a efetivação sem mediação (fur sich) , isto é, real, do curso do
mundo, pois é a necessidade, ligada à natureza, que impele à ação, mas desde
que semeada no canteiro da história, a ação está destinada a trazer para a
consciência aquilo que já estava implícito na experiência, como natureza. Ao
contemplar a realidade do feito, então, o ser humano retorna ao que ele mesmo
é, toma consciência do princípio, a lei, que dominou por sobre a necessidade e
a paixão.O princípio ou lei eram apenas intenção, possibilidade interna, algo
ideado. A necessidade ou paixão impelem à ação, mas a ação conserva uma relação
com a lei, o princípio. Tendo sido realizada, a ação não deixou de estar em
relação com o meio de sua realização, a cultura. Sendo assim, ao contemplar o
feito, o seu passado, o ser humano contempla a tessitura que entrelaça a Idéia
e a Ação.
Logo, ele se
compreende como sujeito histórico, não mais como indivíduo da necessidade ou da
paixão. Ao constatar-se por esse viés, o sujeito se constitui moralmente,
condena a paixão, exalta o princípio, a lei. Hegel mostra assim que a paixão na
verdade é apenas a disposição do caráter que impele, do ponto de vista interno,
conforme o indivíduo se considera na sua aparente irredutibilidade ao outro ou
ao meio. Como tal ela não pode deixar de estar ligada à convicção, como duas
metades inerentes à ação. Mas na ação todo o problema originado pela aparência
da irredutibilidade desaparece, pois não ocorre ação não inserida na história
ou num meio de cultura.
As ações, nesse meio,
estão ordenadas no curso do mundo, e agora o indivíduo já se tornou sujeito,
logo, sua ação o põe numa relação objetiva com a história. Entre o sujeito e o
objeto da história, entre o ser humano singular e sua ação possivelmente
heróica e registrável no curso do mundo, está o dever, pois o que assegurou a
transição foi a consciência do universal.
Mas como se está
conceituando o dever? A resposta de Hegel é um tanto surpreendente, pois ela
põe em jogo o caráter da obviedade. O dever não está na adesão a uma máxima da
vontade se não tipificada numa instituição de socialidade. Assim, ninguém
precisa perguntar qual é o seu dever, pois ele é o mais evidente a
qualquer um na sua posição social. Assim, “investigar o conteúdo de um dever” é
algo de que não ocorre haver a menor necessidade, e Hegel chega mesmo a
considerar o da-se um tal conteúdo de investigação o indício da vontade de se
livrar do dever.
A posição já é a do
sujeito – como membro da família em relação ao outro membro, no exercício de
qualquer função social, etc., não do indivíduo, e por isso não há o problema do
dever, isto é, porque nesse estágio desapareceu o problema da irredutibilidade
do indivíduo ao meio, como resolveu-se o impasse de necessidade e liberdade. A
necessidade é meio para a liberdade, assim como o indivíduo é a abstração de
algo real, que é o sujeito.
O herói não é aquele
que cumpre o dever de algum modo mais intenso do que os outros, que o
negligenciam ou apenas agem maquinalmente. O herói é aquele que sabe
interpretar a obsolescência de um dever. Pois se o curso do mundo implica na
descontinuidade entre as invariantes de interpretação da idéia da liberdade, os
Estados que tipificam os estágios de predomínio de cada invariante se sucedem.
O herói é a figura da transição, ele sabe compreender a idéia que está vindo,
que está para se tipificar numa forma de Estado sucessiva da que precede. Por
isso ele é subversivo àquele Estado que precede, seus inimigos parecendo ter a
forma da lei do seu lado. Pois essa “lei” só designa o dever imanente ao Estado
que está para ser ultrapassado pelo Estado que se constitui como variante mais
próxima da Idéia, ou sua plenitude.
Aqui não me parece
tão oportuno desenvolver a psicologia do herói no texto da Razão na História,
algo que, contudo, é extremamente interessante. O que me interessa é mais,
justamente, aquilo que o texto prossegue negligenciando, o sujeito comum do
dever na estabilidade do Estado constituído. Pois me parece que nada poderia
ser mais evidenciador do liberalismo de Hegel, já que a forma máxima desse
pensamento é a tipicalidade do sujeito, pelo que o Estado se constitui na sua
imanência. O caráter de transcendência que a teoria do Estado apresenta se
torna algo apto a suportar a imanência desse sujeito típico, e é pela forma da
Subjetividade Absoluta que a transcendência pôde, afinal, ser estabelecida no
horizonte da história.
Pois se pôde ser
tematizado, mesmo assim, o desvio da história, o mal que consiste na
resistência ao dever de modo algum chega a ser proposto como o problema da sua
instituição, isto é, como se pudesse reverter como a legitimidade prévia do
indivíduo na sua imanência de natureza. É verdadeiramente espantoso esse
modo de colocar o dever na relação com sua obviedade, pois tudo o que se tem
normalmente é o dever como o problema de sua instituição, do ponto de vista dos
indivíduos. No entanto, pelo modo como encaminhou a questão, Hegel liquidou a
raiz do dever como algo correlato ao sujeito na anterioridade da cultura.
Assim, se o problema
do mal foi tematizado, ele é uma possibilidade da história, não das pessoas que
interrogam sobre como devem agir. Por um lado, essa interrogação é o mal pessoal.
Por outro, ela é a abertura da história, pois trata-se do conflito configurado
pela transitividade dos Estados, das formas sucessivas da Eticidade.
Por isso, creio que
seria mais coerente com a doutrina de Hegel supor, como Hartman, que ele não determinou
o Estado germânico de sua época como o objetivo final da história plenamente
realizado. Em todo caso, não há possibilidade, nessa doutrina, de se obter uma
justificação do interior para o questionamento acerca da adequação do
que lhe foi prescrito conformemente às posições que ocupa. Isto é, uma
justificação do ponto de vista do indivíduo, pois não existe ponte do indivíduo
`a história. Mas se o sujeito só pode ser histórico de ponta a ponta, então é
preciso situar o seu descontentamento, por relação à história.
Sendo assim, a
realização final do objetivo do mundo não pode ter sido atingida enquanto o
sujeito permanecer passível da interrogação sobre o dever. Como naturalmente
não parece ter sido o caso de Hegel ter suposto que ninguém estava indagando
sobre isso na sua época, seria, a meu ver, contraditório que ele a houvesse
conceituado como a plenitude da Razão alcançada no mundo.
O que a efetividade
histórica do Estado moderno permite aceitar, dadas essas premissas, é o que
está envolvido na invariância interpretativa da idéia de liberdade. A cada
estágio o Estado que se põe na frente do processo é aquele que melhor enuncia a
interpretação correlata. Portanto, que Estado seria, para Hegel, o que no seu
momento histórico enuncia a idéia racionalmente enunciada da liberdade? Aqui a
questão intercepta o problema de saber como ele conceituou o absolutismo. Ora,
se esse regime está na maior proximidade com a plenitude da liberdade é porque
aqui todos são livres, o que implica que a monarquia é constitucional, não a
expressão da vontade do déspota, mas sim a expressão da legitimidade do elo
social do povo.
A representação pelo
monarca não depende da alienação da vontade particular, pois ela está aí para
garantir o exercício dessa vontade engajada nas relações contratuais que se
celebram no âmbito da sociedade civil. Mas se ela o garante pelo poder das leis
e o exercício do governo, essas leis e esse exercício só estão expressando a
força que é interpessoal e, conclusivamente, “impessoal” , desse poder engajar-se.
É isso que o texto da constituição formaliza. A garantia é o reverso formal que
tem como conteúdo o engajamento social constitutivo dos sujeitos. “Impessoal”
portanto, se refere à subjetividade elevada ao absoluto. Creio ser isso a
essência do liberalismo.
O Estado germânico
absolutista constitucional surge como aquele que realiza a plenitude da
liberdade apenas no modo pioneiro ou inicial dessa aproximação do ser
humano-histórico à Razão, ao significado autêntico da idéia. Hegel focaliza
assim, na verdade, o momento moderno, isto é, aquele que está na sua época
configurando a retaguarda do processo de transição ao mundo democrático da
contemporaneidade. Mas isso que, frente ao contemporâneo, ao pensamento que
inspira a revolução francesa, é o retrocesso, se visto do ponto de vista da
evolução do Estado desde a Renascença, representa o apogeu, a plenitude do que
vinha se desenvolvendo, precisamente o ideal da monarquia constitucional “representativa”.
No entanto, esse
Estado de maior plenitude da idéia poderia estar na prática apenas se
interpondo como um bom caminho no rumo do objetivo final, isto é, sua
quantificação vantajosa sendo apenas relativa, conceituada frente ao que vinha
anteriormente se apresentando, quando a plenitude formalmente atribuível como a
consecução da felicidade ou Razão universal seria a realização absoluta.
Pelo Estado moderno o
ser humano alcança a instituição governamental mais viável da realização do
espírito, na visão de Hegel, mas isso não quer dizer que não seja preciso ainda
aperfeiçoá-la, seja quanto às leis que podem precisar ser revistas, seja quanto
aos costumes, que precisam de tempo para se pôr à altura das leis e de uma
(possível) constituição perfeita.
Assim, aos
contemporâneos de Hegel pode ter sido um caminho de interpretação válido supor
que a forma do objetivo final havia sido alcançada com o Estado monárquico, mas
não o seu conteúdo, enquanto outros supõe que ele afirmou que ambos os itens
haviam sido logrados no seu momento histórico como o apogeu da Razão, de modo
que Hegel teria sido o propagandista do regime. Mas basta atenuar essa noção de
que o Estado monárquico constitucional apresentou a forma mais viável da
realização do espírito, para instaurar a possibilidade da interpretação do
hegelismo de esquerda, quando se conserva apenas a perspectiva pela qual a
sucessividade das formas legais enunciam a legitimidade do processo histórico
no rumo da liberdade, o que implica a ação revolucionária dos sujeitos.
Em todo caso, mesmo
esse atenuar precisou encetar a torção da dialética, do idealismo ao
materialismo, pois de outro modo a ação revolucionária teria que ser moldada na
forma da subjetividade, na figura parcializada do herói. Ora, se é isso que o
marxismo terá que recusar com todas as suas forças, é justamente por que a
ruptura com o liberalismo depende da crítica da forma da subjetividade
burguesa.
Com Hegel, ela é a
realização plena do dever. A tensão do sujeito enquanto ser moral reflete a
natureza dialética do processo histórico, mas não o isenta dos laços para com a
família monogâmica, a sociedade civil, o regime governamental, tudo isso
refletindo a forma fundamental da vontade que é intenção da coisa, desejo da
posse, quintessência da propriedade.
Marx não pode, porém,
na sua crítica ao hegelismo, retroagir ao indivíduo, como fez Stirner. O que
ele faz é aperfeiçoar a noção de sujeito socialmente definido para transformar
a ação revolucionária numa necessidade lógica surgida dessa brecha dialética
que se efetiva como processo da história.
Tanto Marx quanto
Stirner estão atacando o idealismo dessa conceituação dialética, mas para Marx
trata-se de permanecer na imanência da história, para Stirner trata de
denunciá-la como o avatar de todo ideal, já que supõe uma realidade superior,
como realização social, ao indivíduo na sua irredutibilidade a todos os
outros, como mostrou Dotti no seu artigo. O importante aqui é observar que Marx
permanece na mesma pressuposição da lógica de Hegel, o que não me parece de
modo algum ser o caso de Nietzsche. Assim, será interessante retornar ao texto
de Williams e ao problema das relações Hegel-Nietzsche, acrescentando ainda uma
crítica a Deleuze conduzida por Ph. Mengue.
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O texto de Bréhier
permite localizar mais pormenorizadamente esse conflito de interpretações
quanto ao papel da monarquia constitucional gemânica em Hegel. Inicialmente há
a sobreposição que ele constata entre as perspectivas de Santo Agostinho e
Hegel, quanto à marcha da história. À contraposição das duas cidades, Hegel teria
propiciado a sua fusão, pois se não ocorre mais uma história mundana distinta
da história sagrada, resta que só havendo a história sagrada esta apresenta sua
evolução – e por isso ela é sagrada, não apenas uma sucessão de fatos
fortuitos – na efetividade política mesma, no espaço do mundo.
Aqui Hegel está se
contrapondo a um ideal católico que parece ter sido bastante acalentado no
romantismo, por exemplo, com Schlegel e Lamenais, pelo que, conforme a sugestão
platônica, na história política efetiva há apenas restos mais ou menos ruinosos
de uma tradição originariamente perfeita. Essa hipótese mística se encontra
ainda hoje em Guenon. Ora, poder-se-ia supor que, só por isso, seria
nitidamente aproximável o pensamento de Hegel daquele ideal do progresso iluminista.
Mas ocorre aqui uma contraposição, pelo que que mostra Bréhier.
Pois ele opõe “progresso”,
no sentido de “perfectibilidade”, a “evolução” (Entwicklung), o que
seria autenticamente o conceito hegeliano. Enquanto a perfectibilidade deixa
supor uma ordenação puramente pragmática ao longo dos erros, confrontados a
necessidades bem explícitas, a evolução que Hegel conceitua é uma teoria de
desenvolvimento partindo de um “germem espiritual” cujos traços originários já
contem virtualmente a história inteira. Essa perspectiva da evolução pode,
também, não ser exatamente a de Darwin, onde o acaso e a ambientação são
fundamentais, de modo que não se propõe que as características de todas as
espécies já estão exatamente como puderam se mostrar, desde o início, muitos
acidentes devendo intervir para moldar o seu curso.
Parece ser justamente
esse caráter da contingência que está sendo negado por Hegel. Pois que o
detalhe da paixão, do singular, é utilizado pelo espírito, aqui apenas
significa que o plano, a finalidade, já está de antemão assegurado, traçado,
determinado. Ora, sendo assim, é esse plano, como a realização de Deus,
Subjetividade Absoluta, que importa visar sobre todos os aspectos menores de
sua aplicação. É nesse sentido que se pode compreender por que a doutrina do
Estado, que parece o momento máximo do Espírito, já que implica o objetivo
final do mundo, está localizada como aquela do espírito objetivo, restando algo
mais, a doutrina do espírito absoluto. Aqui, como observa Bréhier, se a tríade
envolve a arte, a religião e a filosofia, a religião é o verdadeiro fundamento,
não apenas o momento segundo.
Tudo se destina pela
religião, como pelo sentimento religioso, a ligação com o fundamento. Não
haveria sentido no pensamento de um Estado que não fosse a expressão da alma
religiosa do seu povo, pois a suposição de uma simples coleção de leis
sobrepondo-se como expedientes de uma casuística generalizada, parece a Hegel
totalmente artificial. É interessante que aqui “artificial” não se opõe a “natural”,
mas a “espiritual”.
Bréhier conduz então
ao tema da finalidade dessa história espiritual para Hegel. Vimos que o texto
de A Razão na História lidava com uma progressão de três termos, o
Oriente, a Grécia e a modernidade. Agora Bréhier utiliza uma dualidade
fundamental para introduzir o problema da destinação da história ao absolutismo
germânico. Trata-se de uma oposição que Hegel traça entre os espíritos dos
povos latino e germânico. Isso relança a oposição que ele conceitua no texto
sobre a História, entre o cidadão e o indivíduo.
Lembrando a oposição
conceitual entre indivíduo e sujeito, o segundo termo da oposição cidadão versus
indivíduo está por sujeito, não pela irredutibilidade do ser natural. Ora, o
povo latino, católico, seria tipicamente um povo de cidadãos, enquanto só o
protestante, germânico, teria acesso à subjetividade. Isso por que o cidadão é
o humano típico do estágio espiritual representado pela Grécia, e por extensão,
por Roma. Aqui há exterioridade entre a moralidade e a espiritualidade,
entre o Estado e a religião.
Penso que se deve
aqui observar como a análise de Hegel parece artificial frente à realidade
histórica, pois o desenvolvimento que se observa é do Estado antigo, prolongado
no feudalismo católico, em que há uma imbricação inevitável entre esses dois
aspectos, e o Estado moderno leigo, que vem sendo afirmado desde o absolutismo
monárquico de feição liberal até se efetivar como o Estado democrático da
contemporaneidade.
Hegel procede uma
inversão histórica notável, nesse ponto. Ele pensa que o cidadão greco-romano,
que termina por identificar simplesmente com a latinidade, coloca de um lado a
piedade e de outro a lei – conforme Napoleão teria expressado ao afirmar, “bem”,
em todo caso, “retornaremos à missa”.
Hegel aproveita para
colocar nesse mesmo rol o ideal dos revolucionários franceses, mais a concepção
iluminista do Estado pragmático, que o pensa como simples agregado de vontades
atômicas em que cada uma é absoluta. Enquanto que, no outro extremo se poderia
situar o Estado, único absoluto verdadeiro, como concepção intrínseca ao
espiritualismo protestante germânico. Aqui não ocorre separação de direito e
religião.
Bréhier conclui
mostrando que para Hegel “a superioridade definitiva do germanismo é, portanto,
uma superioridade espiritual”. A “raça” possuiria assim “qualidades naturais
que lhe permitem receber a mais alta revelação do Espírito”. Mas aqui seu texto
desdobra uma nítida ironia, pois ajunta que não seria tanto “a superioridade da
raça como tal”, que está sendo afirmada, “mas apenas relativamente a um momento
determinado, o momento final, da história do mundo”. Ora, tanto mais se afirma
assim a preminência.
Parece ser lícito
compreender esse posicionamento de Bréhier como oposto à tese do liberalismo de
Hegel, favorável à idéia de que sua doutrina do Estado é teológico-política, e
que Hegel pensou o Estado germânico protestante como o objetivo da história do
mundo. Não seria tão prontamente relacionável que esse Estado é aquele de sua
época, mas isso parece bem defensável.
Já enunciei os termos
pelos quais penso que, ainda assim, o pensamento de Hegel é liberal, e que há
razões para supor que Hegel havia pensado a política do seu tempo como o lugar
em que, finalmente o problema histórico se tornou bem colocado, mas não
totalmente solucionado, já que isso só seria possível numa plenitude de
felicidade efetiva obviamente não afirmável do mundo.
Hegel não tinha muita
simpatia com o ideal de felicidade individual. Ele considerava como a vítima da
história justamente o sujeito que procura exclusivamente a felicidade privada.
A vítima estava assim contraposta exemplarmente ao herói que, não se importando
com esse ideal de dever solipsista, valorizava unicamente a grandeza, pelo que
não se importava com as consequências do seu afrontamento da lei injusta. Mas
também se pode notar que Hegel propõe o devir como o progresso rumo a um estado
de felicidade da espécie, como realização do objetivo do Espírito.
No outro pólo está
aquela contraposição do cidadão e do indivíduo, isto é, o sujeito da moralidade
social. Esse ponto é mais importante aqui, pois não somente enfatiza a oposição
dos tipos latino e germânico, como coloca em relevo o tema da interioridade.
Ora, é essa colocação
de Bréhier, essa oposição específica, que me parece extremamente oportuna para
introduzir o problema das relações Hegel-Nietzsche. Esse tema conflituoso não
está apenas, nesse ponto, anteposto como um gosto de polemizar. Ocorre que ele
é exemplar para compreender o pensamento contemporâneo, em que Hegel tem uma
influência tão decisiva, apesar de sua nítida limitação moderna.
Vimos que
inicialmente o romantismo havia sido conceituado em termos do conflito pagão,
Renascentista, classicista versus cristão, medieval, romântico. Se a
evolução da teoria literária conduziu a uma complexidade maior na definição do
romantismo – até ficar apenas a dúvida sobre se existe alguma – essa
contraposição é amplamente utilizável como ilustrando a irredutibilidade de
Nietzsche a Hegel.
Ao elogio do pólo
Norte– germânico-cristão se contrasta o ideal nietzschiano do “Sul”, clássico e
pagão. Ora, o que está implícito no ideal protestante de Hegel é aquele
conceito de sujeito social, oposto à exterioridade da lei ao cidadão que apenas
a observa mas não a interioriza. Aqui não se trata apenas da formação ética, é
principalmente a formação da subjetividade que está em jogo, o que Hegel mesmo
expressa ao nomear o processo histórico da realização do ideal como a formação
(desenvolvimento) da consciência. Mas é preciso conservar o que significa “consciência”
nesse contexto, assim como Hegel muitas vezes repete que a questão fundamental
é compreender o que é o espírito.
Trata-se da
consciência como interioridade moral. Aquilo que vimos permitir o trânsito
entre o indivíduo e o sujeito, mas que ao mesmo tempo é o meio da objetificação
do espírito no Estado. O espírito é assim a inteira e absoluta unidade de todos
os aspectos do real, sobretudo incluindo a consciência dessa unidade. É Deus,
mas o Deus encarnado no mundo, no homem e na história. Por isso, é a “liberdade”.
A imagem dessa subjetividade é portanto a sua destinação à objetividade do que
ela interiorizou, as leis da moral, o Dever. A leitura otimista dessa teoria
compreende isso como a epítome do intersubjetivo, da destinação ao outro do
humano, do ideal do progresso político-espiritual. A leitura pessimista vê
nesse conceituar uma alienação do indivíduo, que ele relegou ao mais abstrato,
mas que na verdade seria o mais concreto.
Ora, o problema da
confrontação Hegel-Nietzsche é que ele parece de antemão destinado ao
mal-entendido, ao diálogo impossível, apenas aparente, quando se permanece no
interior dessa contraposição comandada pela própria lógica do hegelismo. Aqui
seria importante observar a irredutibilidade entre regra e axioma. O axioma não
pode ser demonstrado, ele define os casos de todas as regras possíveis. Assim,
pode haver um conflito de regras no interior da mesma axiomática, mas não entre
axiomáticas irredutíveis. Quando se descreve o axioma pelo qual “nesse espaço
cada pessoa fará o que quiser” não tem sentido contrapor que essa regra é
auto-contraditória, como a regra de não seguir regras, porque o que o axioma
descreve é a impossibilidade de traçar qualquer regra no interior do espaço que
ele descreve.
Isso parece bem fácil
de apreender quando se trata de geometria. Sabe-se que as regras do espaço
euclideano não são válidas no espaço curvo por que esses espaços são gerados
por axiomáticas irredutíveis. Mas o “formalismo” da linguagem cotidiana torna
as coisas mais complexas quando os termos em questão são cobertos por palavras
muito comuns, que todos parecem saber de antemão o que significam. O hegelismo
trabalhou com uma axiomática que se tornou extremamente generalizada no
pensamento filosófico e mesmo, através de seu liberalismo, político, de modo
que é raro observar a compreensão real da irredutibilidade de uma axiomática
filosófica pós-hegel a sua teorização, o que é o caso de Nietzsche. Até agora
não encontrei uma crítica ao aporte nietzsche-deleuziano que contivesse essa
compreensão, mais facilmente notável nos escritores que se compõe
favoravelmente a ele.
Na conceituação
dialética não há possibilidade de algo ser irredutível a outro sem estar numa
relação de oposição e dependência lógica desse outro. Principalmente, não há “outro”
do conceito, há apenas a sua oposição com os momentos de sua própria mediação.
O que se ilustra pelo tratamento da polissemia como a contingência relativa,
mediada, do sentido único autêntico a se revelar progressivamente. Assim, por
exemplo, quando Mengue se interroga como é que se pode rir do teatro grego, ele
conclui que isso só poderia redundar numa “platitude” pelo que o mesmo
sentimento está prescrito seja lá para qual for a situação. Ora, o que parece
que não está pressuposto nessa axiomática é a possibilidade de um riso
não-cômico. O que sugere uma platitude lógico-existencial.
Com os elementos
apresentados creio que se torna compreensível o exemplo, que de outro modo
poderia parecer apenas a ilustração de uma fala de louco, quando a alguém que
pergunta “estás rindo de quê”, a resposta é mais uma pergunta “rindo, em
que sentido estás perguntando?”. Pois supõe-se muito ligeiramente que todos os
termos são regras de uma axiomática universal que todo o mundo domina, mas não
sendo de modo algum esse o caso.
Assim a tarefa de
confrontar Hegel e Nietzsche é muito complexa por que é preciso lidar com uma
irredutibilidade de axiomáticas, sendo que é mais comum estar implícita no
discurso a axiomática do hegelismo. As regras que descrevem o uso de
praticamente todos os termos do conflito pertencem a axiomáticas irredutíveis,
mas os termos são tratados como exemplos de um conflito de regras no interior
do mesmo universo de sentido: desejo, moral, sujeito, senhor, escravo, diferença,
identidade – termos que cada um está manipulando ao seu modo, mas que parecem
objetos num jogo de fazer parecer que o outro os está utilizando do mesmo modo
que nós, quando o que se precisa é iluminar o intervalo polissêmico que parece
alimentar a polêmica, ao invés de favorecer a compreensão.
É oportuna a
observação de Vernant acerca das lógicas que o pensamento grego apresentou.
Haveria assim a lógica do mito, a do teatro e a da filosofia. A lógica do mito
comporta estruturalmente a ambiguidade, a “verdade”, por exemplo, podendo
oscilar ao “engano”, assim como qualquer termo singular oscila entre o negativo
e o positivo como possibilidades intrínsecas do seu mesmo ser. Isso se ilustra
bem pelo texto de Detienne Os Mestres da Verdade.
Quanto à lógica do
teatro, trata-se agora de polaridades. Todos os personagens que se confrontam
na tragédia estão de algum modo “certos”, mas não por que há uma figura de
discurso que as reúne numa oscilação do positivo ao negativo, mas por que eles
enunciam a coerência intrínseca do seu modo de ver. Os pólos se superpõem
formando uma figura complexa que é a situação cênica, mas sem possibilidade de
uma unidade que as define como um certo por relação aos demais errados ou sem o
subentendido ambíguo de uma interdependência por relação a uma forma estrutural
superior.
A lógica filosófica
instituiu a identidade. Agora não se trata mais nem de ambiguidade nem de
superposição de pontos de vista, mas de uma verdade frente aos casos de erro
possíveis ou contingentes.
Utilizo este aporte
do pronunciamenteo de Vernant na Controvérsia Estruturalista por que ele é
singularmente oportuno ao que está em causa, reunindo os problemas lógico e o
estético do teatro grego, isto é, a reportando-se às críticas de Williams e
Mengue.
Assim, inicialmente
ocorre que é relativamente comum a observação pela qual Hegel introduziu uma
ruptura com a lógica da identidade na filosofia. O texto de William, que
doravante designarei HNR (“Hegel-Nietzche: reconhecimento...”) supõe que
Deleuze ignorou essa ruptura, tratando o reconhecimento em Hegel como se ele
fosse o mesmo que a recognição em Kant. As citações aqui são, porém, de fontes
muito afastadas, Diferença e Repetição, e Nietzsche e a Filosofia. Em
ambos os contextos trata-se de escopos não sobreponíveis, havendo, no entanto,
uma relação profunda entre as obras de Deleuze. Creio que HNR ao mesmo tempo
que ignora essa relação, trata os dois contextos numa identificação linear
indevida.
Não creio que Deleuze
tenha ignorado a ruptura da dialética com a filosofia da identidade. Ocorre que
ele conceituou, como Nietzche, essa ruptura mais em termos de uma “correção”,
uma continuidade, do que numa autêntica reversão axiomática – uso as aspas
destacando o termo aplicado em HNR para conceituar justamente o tipo de relação
entre ambas que o texto considera corretamente situável.
O cerne do problema
está na compreensão do Reconhecimento como o momento da formação da
subjetividade, mas mantendo esse conceito de subjetividade na imanência do
texto de Hegel pelo que ele significa a ruptura com a abstração da
individualidade através da interiorização da moralidade. Ora, num aporte bem
kantiano, a moralidade aqui compreende não uma interiorização de máximas cuja
referência está na abrangência do indivíduo para consigo mesmo, no que ele deve
“seguir”, mas na abertura do universal que o reporta ao outro. Nesse sentido, a
ponte que Deleuze estende entre Hegel e Kant está do lado prático, não do
especulativo, ainda que isso tampouco implica que ele pensou que Hegel estava
apenas repetindo Kant.
HNR supõe que
Nietzsche estava se situando nesse mesmo aporte prático quando nomeou o
elemento dionisíoco, pois o define como “a união com o outro”. Esse elemento em
Nietzsche, porém, não define a unidade (união de), mas a multiplicidade. O que
concentra o irredutível desses ambientes filosóficos.
A exposição de HNR é
competente no que concerne à descrição da dialética do reconhecimento no
hegelismo. Trata-se da mediação intersubjetiva, somente pela qual algo como o
sujeito se pode formar. Se o sujeito pudesse ser pensado como o mero ser
irredutível aos outros na sua individualidade, nada disso seria preciso. Mas
como o sujeito só pode ser para os outros, a subjetividade é um efeito da
intersubjetividade. Isso poderia até ser pensado na proximidade do múltiplo,
ainda que não de modo totalmente isento de distorções, mas o que impede
definitivamente essa via é que não há efeito da intersubjetividade sem que
previamente esta tenha sido conceituada por relação a uma Unidade fundamental, Deus,
a Idéia ou o Espírito, que em nível de formação da subjetividade se expressa na
moralidade.
A união com é entre
interioridades fundadas por sua recíproca oposição mediadora. É isso o que
implica a lógica do reconhecimento, pelo que o que está em jogo é a
transposição do desejo, desde a sua intenção ao objeto à relação com o outro do
desejo, o outro sujeito. O desejo só pode encontrar satisfação, do lado do
objeto, com a supressão daquilo que deseja, a consumação do objeto, portanto a
auto-supressão do ato de desejar. Mas ao voltar-se ao outro, o desejo encontra
algo que lhe resiste, que continua a durar.
Isso induz à luta,
pois não há mediação institucional que garanta, por enquanto, que há duas
fontes do desejo, não apenas um desejar e um oferecer-se à satisfação. A
instituição moral é o que resultará como garantia da vitória da moralidade
sobre a simples existência. Pois a instituição é, inicialmente, o contrato da
escravidão, que dá ao mais fraco o direito de existir sob a condição de
respeitar o mais forte. São, contudo, as duas posições do desejo que assim se
tornam sancionadas no seu recíproco contratar. Com o tempo é isso o que vem à
tona para ambas como conscientização da sua situação histórico-institucional.
Logo, a instituição irá evoluir para algo menos abstrato, mas não menos
expressivo de algo mais profundo, a saber, a dominação que subsume todas as
subjetividades à unidade espiritual que expressa a trindade
moralidade-Estado-Deus.
HNR se torna menos
competente quando se trata de descrever a exposição de Deleuze sobre a crítica
que Nietzsche faz a esse dispositivo de subjetivação. Ora, o essencial aqui é
reter que na leitura de Nietzche e a Filosofia, o que se pode observar é que
para Nietzsche o que não se apresenta no esquema do reconhecimento de
Hegel é o que ele próprio está designando O Senhor. O triunfo do escravo
que Nietzsche está criticando não significa o triunfo da figura do escravo
dentro do esquema de Hegel, mas sim da subjetividade que esse esquema institui,
seja do que no esquema se chama senhor ou escravo. Para Nietzche ambos são o
mesmo, o não – senhor que ele se encarrega de conceituar como outro modo de
pensar a “subjetivação”, isto é, um modo que recusa a interioridade, seja como
resultado da mediação intersubjetiva, seja pela relação mais profunda ao
horizonte da unidade ideal.
A lógica dialética de
Hegel não rompe com a unidade ideal, ela se institui na sua imanência. Assim, a
transitividade pela qual o negativo parece se instalar no interior do idêntico,
na realidade vem do exterior do idêntico, ou melhor, do seu fundo obscuro, sua
destinação à determinação. Esse “negativo” é igual à “diferença”, no sentido de
Hegel. Ora, a identidade não supõe que as coisas nunca mudam, mas sim que as
mudanças são apenas casos de um horizonte único de sentido, as determinações
lógicas do ser. Elas sobrevém, elas não são. Viemos mantendo a terminologia do
vir a ser no âmbito do hegelismo, mas aqui essa expressão deve ser tomada na
sua literalidade, não na sua sinonímia ao devir – o que vem, e está sempre
vindo, é o ser, ao invés de se estar pensando naquilo que Nietzsche chamava a
inocência do devir.
Assim, HNR supõe que
Deleuze está incorretamente denunciando a anulação da diferença no hegelismo,
identificando como objeto da crítica de Deleuze o fato de que a contradição
está apenas no interior de um movimento para a síntese. Ora, de modo algum é
esse o caso, pois mesmo as soluções que interpretam o hegelismo como um
pensamento dialético falhado pela síntese, mas recuperável pela oposição, estão
subsumidas a essa crítica, isto é, estão designadas como irredutíveis ao
pensamento da afirmação do nietzscheísmo.
O que se deve
interrogar é como pensar o heterogêneo e o múltiplo de modo outro que aquele
pelo que eles são a oposição e a mediação do uno. Em todo caso, creio que a
razão de Hegel não supõe uma “loucura irracional” ou um “anti-sistema” como HNR
parece de modo paradoxalmente elogioso querer fazer supor apenas porque ela
conserva o contraditório, não o elimina simplesmente no caminho para a síntese.
Esse elogio paradoxal
é sintomático, assim como a conservação do termo “dionisíaco” para a “união com”,
pois parece que se está tentando dar a Hegel o que se costuma atribuir a
Nietzsche. Ora, Nietzsche não desejou ser o filósofo do irracional ou do
conceito gratuito. Nem a contradição de Hegel é qualquer coisa incompreensível,
pois ela está totalmente subsumida à identidade na forma da oposição.
Interpretar a
moralidade como sendo a do rebanho significa estar, sim, confrontando
especificamente Hegel, pois ele a enunciou como o sistema dos deveres que
fundam a posição da subjetividade. O senhor do reconhecimento se forma como o
sujeito dessa moralidade do mesmo modo que o escravo. Para Nietzche o problema
da filosofia é fazer a crítica dessa noção de sujeito, mas sua originalidade
está nisso pelo que ele ultrapassa o dilema habitual ligado a uma crítica
assim, como entre Marx e Stirner.
Vimos que o marxismo
interpretou o hegelismo do lado da história, fazendo apenas a moralidade se
transferir do dever estabelecido pelo código burguês à imanência do social.
Aqui tanto o social quanto o subjetivo são fundamentalmente os do hegelismo,
pois não há individualidade nesse sujeito, ele é a sua destinação ao outro da
sociedade, e esta é a instância economicamente determinada de uma acomodação do
trabalho e da necessidade. Portanto, eliminada a interioridade do código
burguês, resta o sujeito na destinação ética do trabalho.
Stirner se põe do
lado do indivíduo para mostrar que somente ele é algo efetivo, na sua
irredutibilidade a todo outro, logo na sua identidade a si.
Ora, Nietzsche está
recusando a interioridade e a identidade como processos de subjetivação
autênticos. Mas naquilo pelo que a destinação ética permanece num pólo de
unidade, como o trabalho, confrontados à positividade do singular em Nietzsche
essas posições são equivalentes. A idéia de liberdade como objetivo final do
mundo parece assim bastante inautêntica, pois ela se torna a objetificação do
espírito, quando se trata de liberar o múltiplo, precisamente desobjetificar a
imanência. A ética resultante, a do devir ou do Eterno retorno não significa o
capricho individual, tampouco.
Algo que ilustra esse
ponto nada fácil de expressar – já que sua expressão real é mais estética do
que propriamente conceitual – seria observar como tanto Heidegger como Deleuze
compreendem a propriedade, de modo algum a “loucura” daquela pergunta sobre o
riso. Ora, o que mantém Heidegger na incompreensão de Nietzsche é que ele
traduziria isso nos termos da pergunta sempre oportuna sobre o que está sendo o
ser em cada caso. Que é esse riso sobre o qual indagas? Ser dócil à voz do ser
consiste precisamente em conservar esse intervalo pelo que os termos são
jogados numa relação com a transcendência, compreender o que eles são a
cada vez, quando o “impessoal”, o “todo o mundo” são as figuras que
estruturalmente suportam a lógica do idêntico, pelo que sempre se sabe o que
significa tudo, não há sentido na indagação sobre o que é que...
Ora, Deleuze conserva
o sentido da indagação, mas, para ele, aquilo que é preciso perguntar não seria
“o que é que” e sim “o que está se tornando”. A pergunta é sobre o “e”, não
sobre o “é”, sobre o que veio e o que se tornou e a que está se encaminhando...
Compreender a transformação, o sentido do trajeto e a multiplicidade que ele
implica, todos os casos do seu vir a ser, suas linhas. Isso implica confrontar
a unidade pela multiplicidade, naquilo que Deleuze designa “variação contínua”.
Seria impossível supor compreensível essa noção na lógica de uma interioridade
pressupondo um código do dever ser, ou conservar a noção de sociedade na
relação de maior necessidade com esse código, sem ao mesmo tempo estabelecê-lo
na exterioridade do singular que para ele se tornou apenas um egoísmo, uma
exigência caprichosa.
Deleuze pensa, a meu
ver, que Hegel não deixou de descrever o que ocorre como formação da
subjetividade burguesa, mas isso sem por um momento ter se perguntado sobre a
relação entre esse fenômeno observável e aquilo que ele implica, Hegel
pressupondo inteiramente a implicação como derivável da própria “lógica” do
fenômeno. É isso que significa decalcar o transcendental sobre o empírico. Não
que Deleuze tenha pensado que Hegel apenas aplicou o mesmo transcendental
kantiano, mas que do mesmo modo que Kant, ele primeiro descreveu o processo,
para depois, ao invés de se interrogar sobre o seu sentido, se pôs a
justificá-lo na base dos seus pressupostos.
Em Diferença e
Repetição trata-se de mostrar como a descrição das faculdades, no kantismo,
pressupõe a unidade do sujeito da razão, sem jamais demonstrá-la. Com relação a
Hegel, o ponto pelo qual esse indemonstrado se mostra com clareza – assim como
no kantismo sob a aparência da demonstração mesma – está sublinhado por HNR
como o dever de procurar a auto-afirmação, como algo verdadeiro e real
no mundo, de cada uma das partes litigantes na lógica do reconhecimento, que
estão, contudo, cada qual certa de si mesma, isto é, como o dever de justificar
sua existência perante o outro.
Esse dever está assim
numa relação constitutiva com o desejo. Ora, essa imagem do desejo está na
dependência de objetificação do outro: faz do outro o objeto da resistência que
finalmente me restitui o meu desejo de perpetuar o desejar. Não há satisfação
de modo algum, o reconhecimento sendo a figura da falta da Jouissance, a
castração que garante o acesso ao simbólico da lei, pois a alteridade permanece
na espessura da barra entre o escravo/senhor. O que a auto-afirmação se
transformou se não na conformidade ao reconhecimento como sujeito pelo
outro igualmente sujeitado? Ambos se sujeitaram, assim, (des)igualmente,
à lei.
Ora, nenhuma dessas
figuras litigantes é a do Senhor, em Nietzsche, pois aqui o desejo não pode ser
coberto pelo dever, sem que com isso o que se esteja estabelecendo venha a ser
a “ética” da transgressão, isto é, a prescrição do egoísmo, da
irresponsabilidade, da dominação, etc. A afirmação do Senhor é do seu existir
enquanto por ele mesmo garantindo a plenitude do devir. Não há justificação
possível desse existir, nem dele se pede ulterior afirmação que não seja esse
existir mesmo, enquanto for. É isso que reza a fórmula “eu sou bom”,
portanto, se me confrontas por ser, tu é que és perverso, supondo que tenho que
justificar o injustificável.
Nietzche mostra que o
senhor e o escravo do hegelismo estão ambos na dependência de se justificar
existencialmente pelo estabelecimento do outro como instância de sua afirmação.
Ora, o caminho nessa via de oposição começa por colocar que o outro existe,
logo que ele tem que reconhecer também, que o mesmo existe. Assim, tudo começa
por ser a negação: do que será escravo, pelo senhor, e vice-versa, como tendo
direito – justificação – a existir: tú és perverso, portanto eu sou bom.
Só então se poderá atingir a afirmação: Nós ambos somos, sancionamos,
portanto, uma fórmula de justificação comum, pela nosso estado comum de ser.
HNR supõe que o
Senhor, que Nietzche está se encarregando de exaltar contra o escravo, é o
mesmo senhor do esquema de Hegel, de que deriva toda a confusão que conduz a
supor que Nietzsche está fazendo a apologia fascista da dominação ou que
Deleuze está prescrevendo algo como “nomadismo anárquico”. O texto começa o
trecho de que se destaca essa expressão com o sub-título “Genealogia e
Hierarquia”, mas não desenvolve esse tema, já que isso iria implicar em todo
caso, no mínimo, uma relativização da conclusão pela qual o que se está
tentando é algo anárquico.
Em Nietzsche,
conforme Deleuze, o Senhor é o existencial autônomo, que não precisa pôr o
outro como escravo para se afirmar. Ele não seria o senhor do escravo,
mas o Senhor na existência, ele mesmo o soberano do seu existir, sem
precisar reificar a própria existência na forma da subjetividade, isto é, de
uma identidade que se define pela sua oposição-relação ao Outro que é apenas a
instância idealizada da Lei.
Assim, HNR expressa o
pensamento de Hegel, quanto a isso, mostrando que para ele “o ‘eu’ requer um
outro para objetificá-lo de modo a sair da identidade abstrata e tornar-se
assim consciente de sua própria liberdade”. Ora, em Nietzche, e até mesmo em
Heidegger, objetificar-se é o oposto de ser livre. Pois o que se tem de
não-mediado (imediato) não pode ser uma abstração, sendo, sim a existência
plena. Que isso precise ser justificado, não ficou demonstrado o porquê.
A posição que HNR
atribui como sendo a de Descombes, à qual recusa coerência, é bem ajustada.
Assim, Nietszche está mesmo afirmando que não se deve sobrepor a posição do
senhor frente ao escravo, como o inverso da posição do escravo frente ao
senhor. Mas isso só pode estar certo, conforme a perspectiva adotada aqui, se
implicar que a afirmação se deve ao fato de que o “senhor” em Nietsche não é o “senhor”
de Hegel.
O problema de HNR
consiste no fato de não conseguir se exteriorizar frente à axiomática da
oposição dialética, de modo que tudo o que não funciona na base dessa oposição
lhe parece simplesmente sem sentido. Ora, Senhor, no interior de uma oposição
com o escravo é sinônimo de sujeito dominador, mas na acepção de Nietzsche
significa pessoa autônoma que não precisa justificar perante ninguém o fato de
existir. Num caso o termo é estruturalmente relacionado ao seu oposto, no outro
caso, não.
Esse existir que não
precisa de justificação, conforme o nietzscheísmo, é multiplicidade como devir
das forças que atuam, sendo a hierarquia, e a genealogia que a recupera na
forma do saber, precisamente a estesia que não pode deixar de expressar o
estado das relações entre essas forças. A relação é de exterioridade, pois elas
não totalizam o Uno, elas são, do lado da imanência, o Caos, do lado do “sujeito”,
a composição com o mundo. Por exemplo, a expressão de um valor supõe a
genealogia do que fala através dessa expressão. Não ocorre haver um texto sem
seu intertexto.
Assim, podemos
apreciar também a crítica implícita a Kant. Pois ao observar as idéias da razão
como um uso “transcendente”, portanto ilegítimo, Kant pressupôs dois pontos que
decalcam o empírico: inicialmente, que esse uso era transcendente no sentido de
regulador. Mas isso por que ele supôs a Razão como o horizonte da
identidade, unidade incondicionada, apenas partindo de interesses setorizáveis.
Por esse meio, se
desenvolveu toda a esfera prática no domínio dessas idéias, tratando-se agora
de instituir a sua legitimidade. Ora, a questão para Nietszche-Deleuze é,
inversamente a esse retrocesso, mostrar que a esse uso só pode se reservar um
sentido menos dominador, castrador do sentido existencial que é a afirmação do
múltiplo: transformar a razão, enquanto inevitavelmente orientada para a
unificação, no seu uso estético, como aptidão a, desde a compreensão da
variação, projetar valores – figuras da arte, ou conceitos da filosofia, ou
atitudes concretas de composição social – que expressem o sentido dessa
multiplicidade parcial com que se está lidando em cada caso. Isto não significa
transformar o múltiplo no uno, mas conceder uma via, um caminho ao múltiplo
como tal.
Outro modo de se
mostrar essa irredutibilidade é a confrontação da figura do herói de Hegel e os
grandes homens, em Nietzsche. No caso de Hegel, o herói não pressupõe “espontaneidade
ontológica”, conforme a expressão de Hartman, pois não há nada nele que não
esteja previamente na idéia, independente dele. Hartman logo procura atenuar
esse determinismo, aduzindo que na verdade o sistema de Hegel não pressupõe que
o universal “usa” o particular, mas que “toma sua natureza plena no/através do
herói”. Ora, o herói deixa assim de se apresentar tão nitidamente oposto ao
homem do dever, que é o sujeito.
Vimos que a contraposição
dessas figuras de homem vinham de que o herói transgride o que parece a lei,
mas está na via da superação pela própria lei do espírito, enquanto o sujeito
apenas se constitui pela imanência a si da interioridade moral. Agora, Hartman
está supondo que esse contraste se atenua pelo fato de que o herói só pode ser
um caso especial de sujeito, nunca um tipo “puro” de indivíduo.
Ora, o herói pode
tiranizar os indivíduos, mesmo os sujeitos aferrados ao obsoleto que lhes
parece, contudo, o dever. Hegel, conforme Hartman, justifica isso mostrando
que, apesar desse detalhe lhe incomodar, ninguém pode se furtar à lógica do
espírito. A vítima se tornou algo fundamental no processo, desde que deslocou o
qualquer do sujeito da moralidade para tipificar apenas um caso desse sujeito,
aquele que se aferra ao dever obsoleto, mas que lhe parece vigente. Ora, esse
aferrar-se seria apenas egoístico. O sujeito social menor, pequeno e anônimo,
que só quer a felicidade, identificando-a porém com a sua própria imagem do que
seja o dever, ou seja, sem ter nada a ver com o indivíduo anárquico,
deve, contudo, muito bem ser sacrificado pela grande figura do Herói que
tipifica a idéia e o progresso da história.
Nada disso
transparece no texto de HNR, quando se trata de acusar Nietszche-Deleuze de
estar justificando a rapina sobre o escravo. Aqui, nenhuma menção da vítima pressuposta
pela história de Hegel. Inversamente, como o escravo e o senhor nunca
aparecem, se não na lógica do reconhecimento da formação da subjetividade de
Hegel, então se Nietzche está exaltando o senhor, ele está fazendo a apologia
da injustiça social, pois essa “auto-afirmação do senhor” não poderia ser de
forma alguma “distinta da desigualdade e da dominação”.
Ora, Nietzsche não
supõe que o herói esteja numa relação de justificação dos seus atos de
dominação do outro por sua pré-formação ideal. O Senhor nietzscheano não é
aquele que atua uma idéia, mas aquele que cria idéias na sua afirmação estética
da existência, isto é, aquele que é capaz desse ato de expressão avaliativo
pelo que se concede sentido a uma hierarquia parcial, relativa ao processo, aos
fenômeno localizado. O Senhor é aquele que cria valores, isto é, que favorece a
operação genealógica. Ele não precisa de vítimas, ele não quer nem depende de
escravos.
No entanto, ele não
está no paraíso. Aqui onde o confronto é inevitável, não se pode pensar “injustiça”
sem “justiça”, isto é, não se pode, inicialmente pensar que a justiça é o
estado do paraíso, onde não há confronto algum. Mas assim, a “injustiça” , o
fato de que há muitos pontos de vista, inclusive aqueles que sustentam a
dominação, se torna o pressuposto da justiça, a composição de forças que não
assegura localmente de modo prévio o sucesso de ninguém, mas que permite a
conjugação das potências no devir das forças: Nietzsche “co-responde” a
Spinoza, Deleuze a Nietzche, etc, e na imanência social, se por um lado a
codificação dos fluxos permanece a operação do Socius, cabe a enunciação do que
isso remete às linhas de fuga, e à nossa inventividade que garante a liberdade:
agenciar, mas para liberar e inventar novos agenciamentos que tampouco estão
para prender, dominar o sujeito.
Quanto a isso, é
preciso também mostrar que Deleuze não superpôs o herói nietzscheano e o
super-homem. Todo nós somos esse ser da afirmação, desde que não se esteja
disposto a investir o devir reativo da força – onde qualquer afirmação só se
torna compreensível como oposto de outro afirmado, logo, como negação ou
reação. Mas o super-homem é o horizonte do futuro, no sentido de que Nietzsche
parece supor que a conjugação das forças vai tornar o existencial da afirmação
algo mais forte daquilo que, através da história, tem se afirmado como o ideal
dialético da negação.
A emergência do
super-homem depende da superação do niilismo, o estado atual pelo que mesmo a
afirmação do existencial está numa relação não negligenciável, não meramente
acidental, com o Estado. Ora, é interessante observar como o Estado, estando
numa pressuposição do dever, confunde o ele social com o dever-ser e a lei,
quando, por exemplo, numa perspectiva feminista mais recente, esse elo é visado
pelo lado do amor, do cuidar. Sem dúvida houve uma fase “tecnizada” do
feminismo, quando se pensava, de um modo corporativista-marxista-ortodoxo, que
a mulher que cuida da casa e daqueles que ama era o protótipo da “coisa” ,
ideal a ser deslocado pela mera existência... dos eletrodomésticos.
Hoje sabe-se que as
coisas não são tão simples – mesmo o eletrodoméstico não cuida de tudo, muito
menos do básico, que é a relação de compreensão inter-pessoal. Assim emergiu no
pensamento feminista a preocupação epistemológica com esse tipo de compreensão,
ao mesmo tempo elo social, que não depende de um modelo de razão impessoal “universal”,
mas implica a afetividade.
Quanto a isso, é
oportuno lembrar que a política de “minoridades” Nietzsche-Deleuze tem muito a
ver com essa preocupação do feminismo. Ora, essa ética dos devires pode se pôr
como antítodo também à determinação oposta àquela visão tecnizada do feminismo,
como se por estabelecer a necessidade de rever o postulado da razão
instrumental ou universal, devêssemos incorrer no que foi pressuposto por
alguns teóricos chamados “da comunidade”, pelo que, num aporte bem à Hegel, o
sujeito, e a mulher, não podem ser mais do que seu papéis sociais. Ora, nem
mesmo Hegel omitiu o que esses aportes nem mencionam, a saber, que não parece
difícil o sujeito se tornar vítima deles.
Naturalmente, o que o
cuidar implica, nessa abrangência feminista, não está sendo que as mulheres
tenham que se definir como a– que– cuida– da– casa -e– dos– seus, mas
justamente sugere uma reavaliação feminista abrangente do compreender e do
relacionar que abrange esse seu cuidar como certo modo de relação com o mundo.
Retornando ao
conceito de agenciamentos, isso pelo que nem ocorre que Nietzsche não tenha uma
teoria social, nem que ela seja uma legitimação do “forte” no sentido fascista,
como afirmado no HNR, é preciso mostrar que ser nômade não significa ser
anárquico, contra os agenciamentos, mas multiplicar os agenciamentos, inventar
conexões no devir. No entanto, isso implica evitar os agenciamentos limite,
aqueles que impedem, como a mauvaise herbe num certo terreno, a variação
existencial – aquele tipo de relação na qual o outro objetifica a pessoa, só vê
nela a definição do seu papel com relação a ele, mais nada.
A afirmação
existencial do senhor é autotélica, é ela que não depende do reconhecimento do
outro, de sua dominação ou imposição pontual como no caso do “senhor” ou
gradual como a do “escravo”.
Ela se põe pela obra,
pelo produto da criatividade do existencial, e é por isso que ao sou
está correlato o bom, pois ele faz e aprova o que faz – não sem
conservar aquele faro crítico do artista perante o próprio produto estético,
seu sentido de disciplina. Mas a obra é sempre coletiva, ela está sempre
destinada, não como contraposição a fim de “se afirmar”, e sim como o presente
(dom) do artista, sua particip-ação que não se põe, tampouco, como do uno que
participa ao múltiplo, como que do alto, mas como expressão imanente do
múltiplo (do agora) destinada ainda a se multiplicar pelo devir (do futuro). O
artista é o tipo dessa operação, mas não significa que toda operação é a de uma
arte determinada, como supôs Mengue que seria o caso em Deleuze, pelo que
qualquer ativismo teria que se limitar aoa genciamento literário ( literatura).
A figura do social em
Nietzsche, naquilo pelo que se destaca da conceituação da sociedade oriunda do
hegelismo que foi o que ele taxou de “rebanho”, surge muitas vezes matizada
pela sua vivência: pessoas comuns que o tratam bem, lugares que refletem
especialmente a afirmação do vir a ser, sobretudo, em Escritos sobre
Educação, a relação do homem da afirmação com aqueles que confluem com ele
na hierarquização dos valores.
A avaliação
ética-estética supõe uma hierarquia naquilo pelo que valoriza: surge
assim o que é o mau, o que é o bom. Há aqueles que, como o artista,
proporcionam valorizações, esquemas de avaliações, pois favorecem o devir das
forças naquilo que é mais autêntico ao seu estado potencial. A essa aderência
coletiva do valor se designa ativa.
Mas o homem do Estado
procura se opor a esse tipo de ação, pois ele precisa veicular a imagem
negativa pelo que o vínculo social depende da sujeição, de que o sujeito
precisa justificar-se pelo seu existir. A esse tipo de imposição de um código
de dever se designa reativa, o que ela prescrevendo é o mal e o bem universais
– o que Nietzsche considera não existir, ser apenas abstração, idealismo, o que
significa ser a imposição de uma dominação.
Por exemplo, a obra
do criador parece, na leitura reativa, apenas um pretexto para afirmar sua
superioridade ou individualidade perante o outro. O destinar coletivo
aqui surge apenas como uma auto-afirmação do uno. Ora, na conceituação
de Nietzsche-Deleuze, todo supor da necessidade desse “auto” prévio do ativo ou
do afirmativo significa objetificação do ato de afirmar, sendo isso a
definição da operação de subjetivação. Nesse caso não é a afirmação que se
autopõe, mas uma unidade que se auto-afirma por meio de sua contraposição ao
outro, o que é o que Nietzsche está conceituando como a figura do niilismo. O
Nada a que se votou a operação mesma da subjetivação é essa necessidade de
objetificar-se, pois nessa exigência trata-se de uma idealidade, uma abstração
pura, não um correlato do devir das forças materialmente existentes.
O devir-”artista”,
como tipo da afirmação existencial criadora, não tem nada a ver com a
(ante) posição frente ao “outro” pela obra, mas sua relação está intimamente
estabelecida com os outros captados na imanência do múltiplo que perfazem as
linhas constitutivas da obra e do seu obrar.
Vemos então que do
núcleo “sociedade” àquele da “espiritualidade”, a articulação do texto de Hegel
favorece a compreensão desse nexo do artístico com o social e o subjetivo, algo
que também se veririca em Nietzche, mas por razões bem irredutíveis. Num caso,
trata-se de compreender a superação da necessidade da arte como o caminho da
elevação da espiritualidade, no outro, de erigir a criação estética como tipo
da plenitude na afirmação existencial. Assim, será oportuno operar a transição
da exposição do hegelismo aos aportes do “espírito absoluto”.
Espiritualidade
Hegel e Nietzsche
operam uma transposição interessante na conceituação estilística de clássico e
cristão.
Hegel transformou a
noção de cristão, desde o medievalismo católico, efusivo e caloroso da
latinidade ao liberal-absolutismo germânico protestante, altamente informado
pela noção de interiorização da Lei. Enquanto que Nietzsche transpõe a noção de
clássico, desde as leituras “classistas” e arcádicas da Grécia como o Lugar
hiperbóreo da Ordem, da Lei e da Harmonia, ao conceito “noturnal” “sulista”, da
Grécia orgiástica, profundamente criativa e inovadora. Aqui também será
interessante antepor a inversão entre um e outro, do conceito de limiar estético.
Em que momento se assinala a ruptura, de modo a se poder afirmar a entrada no
campo científico do humano?
A questão envolve a
filosofia de Hegel de modo particularmente profundo, pois nela as ciências do
espírito se demarcam, como vimos, frente àquelas da natureza. Um tanto
paradoxalmente, por tudo o que ficou exposto acima, se poderia antepor o
nietzscheísmo como francamente limitado como um pensamento esteticizante, que
interdita o tratamente científico de temas que, no entanto, subsume sob sua
perspectiva teórica.
Creio que essa
questão está no cerne do problema das relações Hegel-Nietzsche, e minha
insistência nesse problema se deve a que o identifico em praticamente todos os
pronunciamentos particulares que tratam da crítica ao nietzscheísmo de Deleuze.
Isso é tanto mais importante por abarcar situações de fronteira no momento
atual, algo que é ilustrado pela crítica de Mengue a Deleuze no interior da
teoria do desejo, o que institui como termo do contraste teórico a ambientação
psicanalítica de Lacan.
O tema é de bastante
complexo tratamento por envolver obrigatoriamente algumas extensas aproximações
teóricas em áreas múltiplas, o que torna tudo muito longo, portanto, não tão
facilmente claro. Mas escolher o foco da espiritualidade, assim como ele pode
ser esboçado no interior da arquitetura do hegelismo, parece-me um caminho
adequado para conduzir a tarefa.
Seria possível, a meu
ver, estender juntamente à construção da autonomia dos objetos científicos, de
que trata As Palavras e as Coisas, um processo semelhante no âmbito
estético. Já se constatou a importância que no pré-romantismo apresenta o “pinturesco”.
Ao longo do século XIX o que vai se afirmar são os elementos da teatralidade
e da literariedade. Em todos esses campos deixa de haver a
abrangência de uma ciência estética para evoluir a “teoria” de sua
especificidade, por um lado, e por outro, uma prática que é sempre mais estrita
à obra que se supõe criar a auto-efetuação, não mais traduzir ao seu modo ou
conforme seus interesses um real prévio, o Mesmo substancial do ser, do mundo
ou do humano
Mas essas “autonomias”
só serão plenamente afirmadas na transição ao século XX e com o Modernismo. A
progressão, desde o período romântico ao modernista, se assinala
particularmente compreensível se efeturarmos o paralelo Hegel-Nietzsche, mas o
meio termo teria que ser Freud.
A estética de Hegel
ora se visa na tendência de Bréhier, ora naquela de Chatelet. No caso de
Bréhier, trata-se de destacar a unidade de conteúdo assegurada na obra de Hegel
pela forma, de modo algum algo que, como sugeriu Hartmann, teria estado
profundamente cindido do conteúdo como um lado inverso. Essa forma é a
filosofia da história, que se aplica aos momentos representativos do espírito
absoluto, arte, religião, filosofia.
Assim, as abordagens
do hegelismo pela via do conteúdo são exequíveis desde que se o pensa
estruturalmente in-formado, enquanto as abordagens pela via da forma só se realizam
seccionando-a como algo destacável, independente do conteúdo, aplicável a
outros contextos.
Aqui a recém-esboçada
autonomia desses campos os enuncia como atividades espirituais, reais,
concretas. Mas sua postulação por meio da representação dialética da
Subjetividade Absoluta anula teoricamente tal autonomia que a própria teoria
parecia haver assegurado, pois trata-se, para compreendes essas atividades, de
conceder-lher o sentido que possuem verdadeiramente, ou seja, trata-se de
localizá-las na imanência do seu objeto concreto. Ora, como Hegel já
está se expressando em termos de “ciência do espírito”, ele precisa definir
qual é o objeto: trata-se do humano.
Assim, em qualquer
desses campos, por exemplo, o da religião, todas as manifestações isoladas podem
ser escalonadas como graus de um desenvolvimento preciso. A escala supõe a
região absoluta como a verdade dessas formas isoladas, o Saber do Espírito que
pode se totalizar como o Universal, como o sentido, por ter-se previamente
definido o seu horizonte objetivo, o ser humano na sua espiritualidade, ou
seja, na sua interioridade, essa região supra-sensível que é a da
liberdade. Essa rota para o mais íntimo, que é ao mesmo tempo o mais universal,
não abrange apenas cada forma isolada na sua imanência estrita, ela reúne os
campos de imanência, os destina uns aos outros, e faz da filosofia o termo da
sua perfeição.
Bréhier observa,
criticamente, como essa unidade forma-conteúdo parece artificial. Na verdade,
história e dialética estão mais para a incompatibilidade do que para o fácil
predestinar-se uma à outra, mas ele pensa que Hegel se propôs seriamente
uni-las. Os obstáculos a uma tarefa assim parecem mais óbvias no que tange à
arte, e Bréhier sugere que na verdade são dois os processos dialéticos envolvidos
na análise de Hegel, ambos como caminhos da conversão do material, aquilo com
que as artes lidam, ao espiritual, que seria a sua destinação exclusiva.
Inicialmente há a
interiorização da forma: as imagens da exterioridade pura ou natureza, que a
imaginação liga a uma idéia como sua representação; depois, o progresso da
representação à forma do humano; finalmente, a sacralização ou destinação
espiritual da arte que se torna veículo da manifestação religiosa, da idéia de
Deus. Mas como o todo do momento da arte resta como o degrau inicial da
interiorização absoluta, essa manifestação religiosa secundada pela arte é a do
politeísmo, a que se liga a escultura antiga.
O segundo movimento
dialético abrange o progresso histórico dessa arte que se definiu por meio da
realização escultural antiga. Os momentos são os da arte clássica na qual surge
a escultura, da simbólica, que se tipifica pela arquitetura e da romântica que
torna mais conspícuas, progressivamente, a pintura, a música e a poesia.
Na arte clássica
trata-se da concretude da forma que, vista na imediatez, impede a consciência
da oposição entre finito e infinito, individualidade e universalidade. Na arte
simbólica, inversamente, trata-se do sublime, pois seu tema já é essa oposição
mesma, expresso na busca incansável da adequação entre os termos ao mesmo tempo
explicitamente contrapostos, o que Hegel exemplifica com o estilo gótico, onde
a altura é o meio que impossibilida a concretude imediata, obrigando o olhar a
percorrer, elevar-se até o cume, símbolo de Deus.
Mas na arte
romântica, que Deus pudesse ser pensado como estando no lugar materializado do
cume parece uma ingenuidade (materialidade, exterioridade), sua expressão não
devendo mais ser relacionada ao exterior, estando somente dentro do espírito,
onde se manifesta a recepção do som, da cor, não, tampouco, como a recepção
material de um suporte cromático ou sonoro, e sim como veículos daquilo que se
realiza como recepção, isto é, de uma significação essencialmente poética. É na
consciência do sujeito que a arte tem seu lugar e sua verdade.
Entre a arte e a
religião ocorre esse intervalo pelo que lá trata-se de uma ascese até aquilo
que aqui já se tem plenamente desde o início, pois a religião se instala na
consciência subjetiva, na sua relação com Deus ou o Espírito. A religião é a
manifestação do Espírito, mas enquanto efetividade, sua manifestação é a
comunidade dos fiéis. Ora, é no cristianismo que a religião se torna absoluta.
A manifestação do Espírito na forma da religião é revelação, e o cristianismo é
a religião da revelação, portanto, o ponto de destinação de todas as formas
religiosas anteriores: as formas naturalistas do Oriente e da magia e as formas
espiritualistas dos judeus, dos gregos e dos romanos.
O que essas
filosofias da história, da arte e da religião, mostram, é que, inversamente ao
que poderia conduzir o método comparativo do seu estudo, nenhuma de suas
manifestações é paralela à outra. Elas se encadeiam pelo fato de que existe uma
verdade da arte, uma verdadeira religião. A hsitória da filosofia é o processo
que conduz a essa compreensão, como saber absoluto que, conforme Bréhier, é o
cristianismo mesmo, transposto do plano da representação ao do pensamento.
Portanto, há também uma filosofia verdadeira.
Bréhier conceitua essa
teoria do espírito absoluto na corrente do tempo, pois descontando o
misticismo, o que Hegel apresenta é o mesmo que o culto da humanidade em Comte.
Aqui Bréhier está compreendendo o hegelismo como um pensamento estritamente “moderno”,
mas ao que parece o termo conota algo mais do que o período histórico iniciado
por Descartes, sobreponível ao surgimento do Estado absolutista
pós-renascimento. Pois assim ele está traçando uma linha de demarcação entre
Hegel e “os outros filósofos alemães de inspiração mística”.
Essa linha se traça
expressamente pela busca da definição completa do humano, via ciências do
espírito nascentes. Creio, portanto, que esse trecho algo enigmático com que
Bréhier fecha a exposição sobre Hegel não significa que Hegel está, como um
Schelling ou um Fichte, num novo momento em relação à mística alemã que seria
tipificada por um Eckhart, de índole renascentista. Pois é esse lugar central
reservado às ciências do espírito que permite propor Schelling e Fichte como um
desses “outros filósofos” de inspiração mística dos quais Hegel se destaca.
Na via mística alemã
que seria tradicional procura-se incluir a humanidade na vida de Deus, como
parte dela. Mas isso já na ruptura com o misticismo do Renascimento, que
cultiva o panteísmo naturalista, conduz a um panteísmo da cultura, desde que se
sobreponha esse apelo à definição do humano pelas ciências do espírito.
Mesmo que se pudesse
supor que “panteísmo da cultura” é um termo adequado a Schelling, Fichte e os
românticos, não importando nisso as suas divergências, a questão é que Bréhier
pensa a teorização de Hegel como passível de se compreender amputando-se a via
mística tradicional, mantendo-se apenas essa orientação das Geistewissenchaften,
o que não parece uma característica extensível a eles. Não que Hegel não
apresente as duas inspirações, mas sim que a via moderna do seu pensamento se
traduz por essa independência virtual do misticismo, que o faz mais próximo de
Comte.
É interessante
observar que o enigmático desse trecho – Bréhier não cita os nomes desses “outros
filósofos” – deixa como que uma brecha para a abordagem do hegelismo pela via
da independência da forma. Mesmo assim a coerência da sua leitura se mantém no
fechamento da totalização pelo conteúdo, já que, em todo caso, esse “moderno”
que parece mais o “contemporâneo” se limita à proximidade com Comte, isto é,
esse período que está entre o romantismo e o modernismo, no qual se exibe uma
situação curiosa. Há as ciências do espírito, mas elas estão dentro de esquemas
inteiramente comprometidos por uma espécie de filosofia do conhecimento que
abrange a história, a matéria e a cultura num feixe contínuo onde não se opera
mais do que uma demarcação linear, progressiva.
Hegel opera nesse
meio uma atração estranha. Pois o comum é, como em Ampére e Comte, que essa
continuidade se assegura pelo eixo da natureza, universalizada como compreensão
a partir da racionalidade positiva, empírica, a testabilidade e a verificação.
Hegel a estabelece pelo pólo da Subjetividade como Espírito absoluto. Em todo o
caso a imanência está votada pelo transcendental que é esse absoluto. Mas o
irônico é o papel do humano, pois se não há forma vazia do dever ser, é somente
no “espírito”, no sentido de “cultura”, que há devir do absoluto e sua
concretização. Creio que é isso que influi na decisão de Bréhier em classificar
o pensamento de Hegel como historicamente ulterior à via do misticismo
romântico.
Contudo, o resultado
do hegelismo é sempre uma recondução às formas mais conservadoras de sua época
na consideração do fenômeno da cultura. Liberado desse resultado, que ocorre
pelo modo de arrumar o conteúdo, a forma do hegelismo é bastante atual,
recobrindo muitos temas importantes na progressão de várias vertentes
específicas ao século XX. Ora, “recobrir” aqui não significa “determinar”, e
sim que essa forma enuncia o que por meios muito outros se verifica como
comprometimento com aquilo que, contudo, no próprio hegelismo se expressou
através do seu conteúdo impuro. Creio ser isso que Foucault enunciou como o postulado
antropológico da sociedade disciplinar, e que ele relacionou tão estreitamente
com os saberes desenvolvidos como Geistewissenchaften.
O que torna esse
ponto de complexo entendimento e enunciação é que não se pode mais colocar as
coisas no sentido de uma progressão, é preciso instalar a descontinuidade. A
sociedade disciplinar que se orienta pelo panoptismo do século XIX vai ser
progressivamente deslocada no século XX, mas como aqueles que enunciaram e
produziram esse deslocamento em áreas muito variadas, como as artes e a
filosofia, estavam no movimento mesmo de sua luta contra aquela sociedade e seu
saber, torna-se incrivelmente matizada a sua linguagem, depois de um certo
limiar há sempre convergência desses modelos antagônicos, mais do que simplesmente
um corte de intenções nítidas.
Mas creio ser
possível observar uma bifurcação nesses matizes, como tendência. Hegel poderia
ser nomeado como a tendência disciplinar naquilo que ela conserva de mais
atual, por paradoxal que possa parecer essa permanência no ambiente já integral
da sociedade de controle, como conceituou Deleuze. A conservação de Hegel como
o pólo tendencial disciplinar é algo não inteiramente irrefletido na cultura do
século XX. Assim, uma perspectiva como a de Chatelet permite mostrar como se
opera o seu aproveitamento, por assim expressar.
Trata-se de uma
leitura que exime não apenas o conteúdo, mas o resultado mesmo de que o
conteúdo se manejou como exemplar. A ironia da operação pela qual o absoluto ou
transcendental se tornou o homem mesmo, se torna a ironia da leitura pela qual
esse homem se livrou, pela própria operação, da sua destinação absoluta ou
transcendental. Assim, o anacronismo gritante permite ler Hegel não como um
caso especialmente expressivo daquele interregno das ciências do espírito do
século XIX, que na verdade antecedem as ciências do humano sem poder ser
definidas como já tipificando o seu exercício, mas como um filósofo do século
XX, pós-marx.
Chatelet começa por
afirmar que a estética de Hegel se tornou a fonte dessas “filosofias da arte
que pululam nos dias de hoje”, as quais, devido a esse predecessor tão ilustre
só podem se esboçar como “quase sempre repetitivas” do que seria o seu modelo
original. A novidade aqui é que Hegel introduziu a imanência da atividade
artística. Ora, quanto ao que se fez dessa imanência – pois Hegel impede
que dela se deduza as consequências que se apresentam progressivamente na via
do modernismo – Chatelet adverte que devemos nos prevenir contra essas leituras
aberrantes de Hegel, que alimentam especulações sobre o devir da cultura
artística no sentido de uma história da arte filosoficamente orientada. O certo
sendo apenas que ele considerou a arte como “coisa do passado”.
Ou seja, Chatelet
minimiza o caminho dialético que Hegel traça no interior das formas artísticas,
para ater-se ao que considera extremamente positivo, isto é, o caminho
dialético para fora da arte e da estética, rumo ao Estado e à política. Assim,
ele põe como termo da exposição do percurso da arte à religião, ulteriormente a
esta, o Estado, invertendo a ordem da preminência que já se deixa ver pela
contraposição dos termos “objetivo” e “absoluto”. Ele explica: certo, existe a
Filosofia como termo ulterior à religião, na especificidade dessa tríade
espiritual conduzindo ao absoluto, mas que é esse Saber, senão o saber que a
vida do Espírito é o Estado? Mas que é o Estado senão o político? Assim, o que
Hegel apresenta como história da religião é apenas o material que servirá às
reversões materialistas operadas por Feuerbach e Marx, conforme Chatelet.
Tudo isso, porém,
atinge contextos muito específicos, que precisam ser tratados mais
pormenorizadamente. Será preciso deter-se um pouco mais, portanto, nessas
questões.
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Seria preciso fazer
intervir, precisamente, o que ocorre na transição da ciência da estética às
teorias específicas das artes para compreender a importância do que está em
jogo. Assim, por exemplo, na evolução do teatro naturalista ao modernista,
Jean-Jacques Roubine, em A Linguagem da Encenação Teatral , mostrou como
emergiu o conceito de teatralidade, algo que seria interessante colocar
num paralelo com o desenvolvimento da teoria literária que na transição ao
século XX conduz ao formalismo russo e ao conceito de literariedade.
Em ambos os exemplos,
trata-se de uma autonomia sobre o pretensamente real universal que desloca
justamente essa concepção do político oriunda de Hegel. Pois nessa sua
concepção, é a interioridade, como forma da universalidade, que subsume
todas as facetas do real, formando ao mesmo tempo a legitimidade do fenômeno
político. É por isso que a forma estatal não aparece apenas como um
conteúdo contingente nessa teorização. O horizonte da cultura, como do humano,
está de antemão definido.
O que está excluído é
o singular, naquilo pelo que ele possa não ser dado como o exemplar do
universal, ou destinado à forma da interioridade moral pelo próprio
entredefinir-se intersubjetivo do desejo. O que não se destina assim se dá como
vazio ou idealizado, numa inversão notável, já que a universalidade dessa
interioridade só se definiu por uma operação de idealidade totalmente “vazia”
no sentido lógico, isto é, auto-pressuposta.
Mas também o que está
excluído é a compreensão teórica dessas especificades artísticas que,
paralelamente, evoluem rompendo decisivamente com o universal. O problema aqui
é que a autonomia na arte não pode estabelecer com o postulado antropológico a
mesma relação que a autonomia do objeto na ciência mantém com ele.
Ao mesmo tempo que o
objeto científico só mantém a sua espessura com o sujeito efetivo, não com “o”
ser da espécie, ele mantém esse ser como o horizonte de sua especulação,
portanto, desvinculado da imediatez da pesquisa mas a ele sempre retornando
como a pressuposição de uma performance na sombra de toda competência.
Quanto à arte, sua
autonomia depende do imediato do humano, pois só se realiza na performance que
é a leitura ou, caso ainda mais radical, a apresentação fugaz da cena. Mas essa
dependência só ocorre como afastamento do horizonte do sujeito, como
presencialidade manifesta da irredutibilidade da arte, sua materialidade de evento.
O que essa
especificidade artística não permite contornar com facilidade é a
multiplicidade, o que o postulado antropológico conjura em proveito do
universal no caso das ciências. Multiplicidade que a teorização de Hegel se
mostrou absoluta no mister de proibir que pudesse ser pensada. Exterioridade,
multiplicidade, no sentido de que não ocorre conceitualmente a totalização
dessas autonomias num ser assim compósito que seria o lugar do sentido dessas
práticas irredutíveis.
Mas o que cada uma
faz, como no exemplo do teatro, se não repor no humano a sua irredutibilidade,
o seu ser singular, o seu devir, pela experiência do estranhamento dessa continuidade
tão “natural” que é o destinar aparente das formas da cultura até o civismo do
homem moral, militante, que só existe no interesse de servir uma vez que
justifica assim esse fato de existir que tem que ser cobrado pela
coletividade... etc., definindo-se por esse meio a formação da subjetividade
pela interiorização da moralidade.
Não tematizando por
ora o contexto teórico da literatura, mas centrando na evolução do teatro.
Roubine mostra como ao longo do século XIX o teatro interrompeu a ilusão de que
servia apenas para traduzir uma realidade comum. A figura do encenador emerge
no contexto do teatro naturalista, pelo que não somente existe agora o
responsável pelo andamento das cenas, mas sim uma concepção do sentido
da representação da peça. Antoine é o pioneiro. Roubine considera que sua
questão era a mesma que apresentou, depois, Stanislawski: a “conquista de uma
verdade singular” contra o que seria a ilusão da “verdade geral”, e ele define
isso como o “signo do modernismo”.
É muito interessante
que as técnicas introduzidas para essa conquista sejam tão notavelmente
opostas. Antoine rompeu com os truques ilusionista habituais dos palcos do
século XIX colocando em cena objetos reais. Essa presencialidade do
móvel verdadeiro,maciço, ou das postas de carne na apresentação de Bouchers
faz lembrar a preocupação do pintor realista desse tempo: Meissonier desejava
pintar não apenas a sobrecasaca de Napoleão, assim como poderia copiar de
qualquer fonte, ele precisava da peça real, guardada no museu, como seu
modelo.
Essa veracidade da
coisa, contudo, não foi interpretada por Roubine no sentido de que se poderia
supor apenas o delírio da sociedade industrial – seria sobre o real, o mundo
inteiro, que o homem, o artista, se lança agora a conquistar. Mas sim, bem
inversamente, de chocar a passividade do presenciar pela autonomia, a
realidade independente da presença, que no entanto, só está ali pelo fenômeno
da representação da cena. A revelação desconcertante do que existe
independente da representação psicológica, a materialidade do mundo na
exterioridade da idéia funcional, do seu uso, do seu costume pelo humano, é ao
mesmo tempo o presentar da teatralidade, a sua atuação.
O simbolismo e mais
tarde o modernismo exploram esse mesmo objetivo, conforme Roubine, mas por vias
bem próprias, inversas à desse realismo-naturalismo. Trata-se agora de
presentar o hiato, a descontinuidade do fenômeno teatral na sua
irredutibilidade, pela subversão do correlato reprimido, a materialidade bruta.
Utiliza-se agora para
o mesmo efeito, portanto, o processo inverso, o esvaziamento da coisa pelo puro
presentar. O espaço do palco se torna original, irreproduzível. São as “lareiras
dotadas de pêndulos” que devem “servir de portas” ou “as palmeiras no pé das
camas para serem comidas por pequenos elefantes trepados nas estantes” ,
conforme o programa do rei Ubu, de Jarry. Ou os sublimes jogos de cor e luz, em
Craig.
Nietzsche desempenha
aqui um papel muito importante. Pois o que ele propicia é uma teoria dessa
teatralidade, assim um pouco como Roubine, já prenunciada aqui e ali através da
história do teatro. A questão é como Nietzsche conceitou a sua descoberta do
teatro grego, de modo a revolucionar não apenas a concepção estética do
classicismo, transformando a concepção corrente da cultura grega, mas
principalmente como ele mudou com isso a história da filosofia.
Ora, a reversão de
Heidegger, pelo que a origem da filosofia se descreve por um esquema regressivo
que conduz para antes de Platão, já se enuncia com Nietzsche. O limite agora
seria, porém, não tanto Platão, mas Sócrates. O saber dos gregos está, bem mais
do que na filosofia pré-socrática como nos escritos heideggerianos, enraizado
na tragédia, na dramaturgia.
Essa consideração da
reversão que Nietzsche operou no modo de compreender os gregos se tornou
decisiva, por se articular com a sua doutrina da vontade de potência naquilo
que ela enuncia uma teoria do desejo, do inconsciente. Porém, o sentido dessa
teoria somente se bifurcou no período mais tardio do século XX. Creio que muito
da crítica que Mengue endereçou a Deleuze tem a ver com essa bifurcação.
Por um lado, há a
leitura que Freud implementou à reversão de Nietszche, pelo que o mito se torna
coextensivo ao inconsciente. Trata-se em todo caso de uma enunciação textual
que não supõe a recuperação lógica, mas fala através do símbolo para uma
realidade que ninguém pode acessar de frente, diretamente, pelo simples motivo
de que esse real só se manifesta fingindo ou se expressando por meio de
deslocamentos. Não há matéria para tal expressão naquilo que ela seria por si,
por isso, só lhe resta a via da máscara, da figura retórica. Contudo, o que ela
expressa é invariável, uma universalidade do desejo ou da estrutura desejante.
Por essa leitura
Nietzsche teria visto Sócrates como alguém que se pôs na contracorrente do seu
tempo, pois o que ele supôs foi que todo o aparato do desejo só se destinava a
esconder o que o ser humano tinha de mais precioso, justamente o antídoto
contra a máscara, ou algo que não precisava se figurar para existir, algo que
se reportava por si mesmo ao real, algo que não admitia meio termo, mas podendo
ser conhecido, poderia e deveria alcançar a expressão límpida na forma da
linguagem.
Ora, para separar as
duas formas de linguagem, a do desejo (inconsciente) e a da verdade
(consciente), como a arte e a ciência, Sócrates fez intervir o por que de se
ter que preferir a verdade e a ciência, isto é, a moralidade. Isso introduziu
uma re-leitura do teatro e do mito, pois agora tratava-se de contrafazer a
polifonia, no sentido que Bakhtin mostrou ser essencial à linguagem, para
instituir a função da voz única, a que revela o universal, o real. Ora, que
real seria então o das formas da arte, se não a representação do que ocorre ao
humano, ou seja, do que é causado por a sua ação confrontada com o
sistema dos valores estabelecidos como correspondendo, universalmente, à
consciência e à verdade?
Sócrates procurava
assim desfazer a autonomia que a sofística havia instituído sobre o Nomos. Como
na natureza, na physis, uma ação conduz a uma consequência, ele postulou que em
todos os planos da realidade ocorre da mesma forma. Assim como se pode
estabelecer uma observação reiterada pela experiência como algo Universal
anteriormente a essa experiência, uma hierarquia de valores poderia também se
colocar como inferível na ordem do real independente da pluralidade dos
interesses e da conjuntura envolvidos na sua observação prática.
O riso se tornou
definido universalmente como tudo o mais, portanto, algo a se propagar na
comédia, enquanto no teatro “sério” o que se observa é a expiação da culpa do
herói, a concatenação inevitável das consequências do seu desvio em relação à
lei universalmente postulável pela moralidade da consciência. Fundamentalmente
o sentimento para esse teatro seria a angústia. Paralelamente o que a socrática
produziu em termos estéticos foi a teoria da representação mimética, pela qual
a arte expressa precisamente o universal, a idéia simbolicamente travestida
pela expressão da beleza, imitando ou traduzindo o real, e a teoria da catarse
ligada especialmente ao teatro. Coletivamente investida, a angústia, produzida
pela inevitabilidade do erro individual do herói frente à imparcialidade da
justiça, na verdade conduzia para o exterior a culpa enraizada na audiência,
pela representação da cena. Essa culpa deriva da assimetria do inconsciente e
do consciente no sentido de que o inconsciente seria somente o lugar do desejo
informe, bruto, oposto como tal à razão e à lei que o consciente observa com o
seu maior bem.
Nietzsche se opôs à
teoria da catarse precisamente naquilo pelo que rompeu com a mímesis. O teatro
grego só poria em cena a teatralidade que manifestava obrigatoriamente no
espectador o seu provisório desligamento da consciência, o seu enfrentamento do
desejo pela cena e pela participação coletiva, o evento do teatro grego como
celebração da cultura, da cidadania e do ser gregos. Só por isso se compreende
que o riso, que ele tornou coextensivo à esse teatro “sério” como experiência
inevitável do expectador, não se conceitua como o riso cômico desambientado,
como se alguém pudesse se divertir pelo espetáculo do sofrimento alheio, mas
como riso não-cômico, o riso estético, isto é, o riso da celebração
desse evento coletivo.
Mas observe-se o que
ocorre na leitura de Freud sobre essa reversão de Nietzsche. Assim como
Sócrates, mas por vias próprias, o que resulta é um saber do universal. Não
mais o universal da consciência, como a idéia clara e distinta, e sim o
universal do inconsciente, como o mito representa os acontecimentos do desejo:
o Édipo, a castração, a entrada na cultura pela absorção do desejo como falta,
sua pré-destinação à forma da lei. Ou a eterna oscilação de ódio e amor,
conforme a filosofia de Empédocles. Em todo o caso, Nietzsche teria ensinado a
ler os gregos como mestres do intervalo entre o inconsciente, a vontade, e o
consciente, a razão, tendo por meio termo os artifícios, não a “informatividade”
lógica, da linguagem.
A psicanálise lê o
mito como a linguagem do inconsciente, mas o que Deleuze pôs em questão foi a
indagação sobre essa predestinação do inconsciente à forma da consciência, e
precisamente, à linguagem do mito lida como o registro da realidade do desejo
definida pela falta.
A questão torna-se
então como é que se pode ler a leitura de Nietzche sobre os gregos de outro
modo que Freud. Ora, conforme Deleuze, o que Nietzche viu no teatro grego foi o
inverso de Sócrates, mas não porque o resíduo é o universal do desejo.
Trata-se da teatralidade, o irreversível ao mesmo tempo da celebração grega
da cultura, e daquilo que o destino do herói enuncia como a interpretação
grega daquilo mesmo que se celebra, a saber, o vínculo estético que não pode
deixar de ser político, mas pelo motivo precisamente reversivo do elo “político”
da moralidade socrática.
O vínculo político da
moralidade socrática suprassume, no sentido de Hegel, a arte. Por esse vínculo,
o que a idéia esteticamente investida e imitada pela representação cênica faz é
reconduzir o humano à interiorização do seu dever pela expectação do terror que
se torna o informe (a culpa). Informe significa não-formado, não mediado pelas
formas lógicas da consciência, informe é o desejo puro, que se queria
experimentar fora da falta. O nexo entre o terror do que ocorre na cena e a
culpa se torna de inferência, ou puramente presumida. Por que sofre,
algo deve ter feito, está sendo punido. A inferência cobre o informe
como a forma da consciência destitui a pretensão do desejo inconsciente de
valer na sua autonomia.
São portanto dois os
processos de subsunção do múltliplo ao uno: da teatralidade, do Nomos, da
vinculação política da cidadania, todos esses domínios que a democracia grega
conduziu à autonomia relativa, ao uno da moralidade que se prescreve como o
universal da lei, destinação do humano, como de todas as suas instituiçõs que
não podem mais ser conceituadas na exterioridade dessa destinação. O processo
de dominação é impressionante, quando se lembra que esse uno ou universal na
realidade não passa da expressão da hierarquia de valores de uma classe bem
materialmente delimitável na história grega, as forças que na Hélade se opunham
à democracia, a nobreza, assim como no caso de Hegel, a burguesia protestante.
O outro processo é a
subsunção do desejo à cena do teatro e à langue do mito como expressão
universal das suas duas faces: a falta, a culpa, mais o seu terceiro termo, a
expiação, sentido da existência moral – uns devem aos outros, uns pagam aos
outros, etc. , o que moral-politicamente significa que o inconsciente e o
desejo só se formalizam na sua destinação ao consciente, no reconhecimento,
apagamento da plenitude pela limitação (falta) do desejo na consciência do
Outro.
O vínculo da
celebração política que é a leitura de Nietzche conforme Deleuze, inversamente,
sugere que o teatro desfaz a ilusão da convergência a esse uno como horizonte
pre-concebido da multiplicidade dos processos do real. Agora trata-se do papel
autônomo da arte, isto é, da leitura estética, não dialético-moralmente
destinada, do teatro.
O vínculo
sofístico-retórico-grego é a interpretação do elo social como uma invenção
benfazeja, mas não isenta dos percalços que o funcionamento de qualquer máquina
que está sendo inventada pode apresentar. Tudo pode saltar por todos os lados
se não houver muito cuidado, treinamento, paciência, e, sobretudo, como se
trata do humano, não do projeto de um objeto, o feliz acaso cooperar. Mas se
visado dessa perspectiva, o riso sobre o real é inevitável, por que é quase
certo que tudo não pode dar totalmente certo. Esse é precisamente o “segredo”
do teatro grego, o que se celebra é a aceitação, como algo, em teoria
engraçado, de que se vai ver algo a explodir. Contudo, isso não significa que
não se sabe que, uma vez a cena se desenvolvendo, o envolvimento de todos não pode
deixar de ter estado esperando a perfeição, e que se treme e se sua com o
destino do herói, se o autor é bom.
Assim, o autor joga
com o expectador uma espécie de puzzle cênico. Não há culpa do herói, mas o
expectador vai procurá-la pelo próprio jogo da cena, ainda que desde o início
saiba que não deveria fazê-lo, já que o herói pelo pressuposto da Aretê grega,
é o impecável. Finalmente, quando ele se apercebe que não existe a culpa do
herói, que tudo o que ocorreu foi obra do destino – leia-se confronto de muitos
fragmentos desconexos que se compõem, contudo, como um enredo – ele se
confronta a si mesmo como o “culpado” de estar procurando o que sabe que não
deveria estar procurando, a culpa interminável que seria o elo causal de uma
moral universal.
Procurando inclusive
na sua própria maneira de ser, pois não há desejo sem a fantasia da
onipotência, isto é, a fantasia refletida na consciência de que há uma
concatenação causal moral universal que garante que entre os seus ele é mais do
que simples argumentador em meio. E no entanto, que mais o teatro celebra, se
não essa mesma onipotência do desejo, pois foi ele, o desejo, que moveu tudo, a
cena em que o herói se põe na via do seu desejo, a procura do expectador pela
culpa, a descoberta da inocência no palco e na platéia, finalmente, a
(re)lembrança de estar no teatro, de que tudo não foi mais do que o teatro e o
vínculo da cidadania, a celebração...
Creio que a lição de
Nietzsche sobre o teatro grego reside no seu valor educativo, pois de modo
algum a mensagem seria a da resignação, mas sim o triunfo da vida sobre o
sofrimento, do que é luminoso sobre o aspecto sombrio, mas isso por que a vida
provou a sua “inocência”, isto é, a operação da teatralidade, a autonomia do
artístico, veicula a sabedoria que anula aquele atrelamento de vida, expiação,
culpa. Os aspectos sombrios da existência são o que o herói enfrenta no palco e
o que o expectador presencia na platéia, mas ambos triunfam.
O herói triunfa por
que ele encenou, atuou, o seu ponto de vista, ele cumpre o
destino do seu ser singular. Ora, esse destino não se esgota no sofrimento, ele
é, principalmente, a prova da Aretê do herói, que sobrepuja tudo o que lhe
ocorre.
O expectador triunfa
por que após a peça ele se sente heróico, capaz de suportar o que há para
enfrentar, mas ao mesmo tempo mais forte, por que a peça garantiu a existência
como algo mais do que o aspecto sombrio, algo que não se confunde com isso,
algo infinitamente superior, valorizado por si mesmo, autônomo em si mesmo.
Assim, a mensagem do
teatro grego é alegre, pelo que o que ensina é a existência desatrelada da
culpabilidade. Não resumindo seu sentido no sofrimento, a existência resta
naquilo que é, triunfa sobre tudo o que não é, sendo dança, arte e expressão,
transformação, renovação, devir. O riso não-cômico é o riso heróico, daquele
que triunfou sobre o sofrimento pelo sentido que soube dar, como o artista
sobre a matéria, ao caos.
O talento do artista
atua do mesmo modo que a Aretê do herói. O riso heróico, e o estético, é aquele
da realização. Mas seria preciso uma altura do sentir, o pathos
grego, para compreender esse riso ou poder rir assim. Ora, é esse pathos
que o teatro grego ensina. É o sentimento da afirmação, a plenitude do atuar, a
valorização máxima da existência.
Aqui o sentido da
afirmação tem uma conotação implícita de responsabilidade, e é isso, as consequências
do que faz, aquilo de que mais se orgulha o herói, pois ele nunca vacila na
certeza da sua coerência, do sentido que impôs ao seu destino. Torna-se, a meu
ver, bem claro que isso está nos antípodas de algo como o riso irresponsável
perante o sofrimento alheio, do mesmo modo que de uma conduta estereotipada
frente ao real.
Ora, Mengue ataca a
argumentação de Deleuze nesse ponto, pois ele supôs surpreender nela uma
contradição fundamental. Por um lado, Deleuze afirma que Nietzche teria
recusado a teoria da catarse por antepor que a teatralidade grega nada tem a
ver com a recepção moral, e sim estética. O riso que se pode correlacionar a
essa recepção iniciada, não leiga ou socrática, seria estético. Mas
sendo assim ele não poderia ser, justamente político, isto é, moral. Não
obstante, Deleuze vai afirmar alhures que esse riso ou que o teatro grego são
essencialmente políticos.
Como poderia ser ao
mesmo tempo estético (não-moral) e político (moral), indaga Mengue, para supor
nisso dois itens de crítica a Deleuze: por um lado, confusão na leitura de
Nietzche por uma inadequada teorização do desejo, por outro, platitude nessa
imagem do desejo “maquínico” que seria indiferença pura, no limite, vazio, mera
refulgência de uma “alegria” estereotipada frente a qualquer coisa independente
do conteúdo real, isto é, sem possibilidades de uma efetiva relação com o real.
O desenvolvimento de
Mengue envolve um paralelo com Lacan, o que torna mais oportuna uma aproximação
detalhada da questão.
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O texto da crítica de
Mengue se localiza no volume “Deleuze e le systeme du multiple” (...) . No
início desse trecho ele enuncia estar lidando com noções de fato estranhas à
expressão de Deleuze, como o vazio, o indeterminado, mas mesmo assim insiste no
seu uso como se fossem adequados ao contexto deleuziano. Essas noções teriam se
tornado inevitáveis, conforme Mengue, por que ainda que Deleuze quisesse
negá-lo, elas designam o lado inverso, logo coextensivo de algum modo, ao
conceito de desejo deleuziano.
O texto prossegue
focando o que seria também a ambiguidade de Lacan, parecendo assim estar
almejando fornecer uma comparação dos dois modos de conceituar o desejo e o
inconsciente, o deleuziano e o lacaniano. Lacan se movimentou sempre no
interior da psicanálise, que Deleuze rejeitou explicitamente pelo atrelamento
freudiano do desejo com a falta, a culpa, a castração. Ora, Lacan permaneceu
ambiguo nesse movimento psicanalítico por que, ao mesmo tempo,
subrepticiamente, ele liberou o desejo do nexo indesejável com a falta que
permitiu incorporar o Édipo como a interiorização da lei.
Mengue felicita
Deleuze por ter realizado a crítica que Lacan não fez. O nexo da leitura de
Freud se desloca a Platão. Ainda que Mengue não explicite esse ponto, é
sobejamente conhecido o pronunciamento de Freud sobre o que para ele
representou a leitura dos gregos, e alguns autores sublinharam o papel de
Nietzsche nessa leitura. No entanto, como vimos, o que Freud interpretou nessa
renovação da compreensão dos gregos foi a possibilidade do universal
internalizado no âmbito mesmo do inconsciente. Finalmente se pode propor que
ele implementou uma extensão do socratismo platônico na região do inconsciente.
Esse é o caminho pelo
qual Mengue mostra o proveito de uma crítica à psicanálise, pois vem de Platão
o atrelamento do desejo como sendo “de” alguma coisa, ligado ao objeto, logo,
faltante-necessitante, pois só se deseja o que não está acessível e assim ao
infinito. Esse é também o modelo do desejo de Hegel, que alhures também se
propôs aproximado a Freud, como em Renault-Ferry,justamente por que a
psicanálise supõe que todo o real é racionalmente recuperável, inclusive a
região abissal do desejo e do inconsciente.
Liberar o desejo,
conforme Deleuze propôs na via crítica desse atrelamento ao objeto, é o mesmo
que desfazer o laço que o prende ao ser “de” alguma “coisa”. O pleno do desejo,
em Deleize, implica a conceituação do inconsciente maquínico como energia
conectante, implícita em todos os processos de produção, o que se expande numa
conceituação do ético e do político como liberação do desejo. Mas nesse ponto o
texto de Mengue retroage sobre Deleuze, pois ele julga que o programa de liberação
ficou apenas abstrato no contexto deleuziano, já que o reverso desse conceito
maquínico-desejante do desejo seria o vazio, o indeterminado. Quanto à Lacan,
Mengue afirma que ele, que não procedeu à devida crítica de Freud, liberou de
fato o desejo, pois conceituou o Imperativo como lei do gozo (jouissance).
No entanto, não ficou
claro no texto como é que o reverso do inconsciente maquínico se tornou o
vazio, o indeterminado. Mengue simplesmente o enuncia, sem demonstrar, enquanto
que o grosso do volume se desenvolve como um estudo descritivo das principais
obras de Deleuze, onde se mostra suficientemente que a estratégia do projeto “capitalismo
e esquizofrenia”, de Deleuze-Guattari, investiu bastante bem na tarefa
conceitual de conjurar essa interpretação, esse esvaziamento. Pois a questão é
a imanência, algo central no pensamento deleuziano, sendo que a conexão do
desejo é não-mediada, algo concreto, não localizado genitalmente, mas
abrangendo todos os caminhos da produção que assim se conceitua numa vinculação
com o inconsciente desejante.
Mengue não demonstra
expressamente sua dedução crítica justamente por que não esclarece de forma
alguma como é que se instala o vazio no meio de uma teoria da imanência, do
não-simbolicamente mediado do desejo. Na perspectiva da libido não ocorre o
processo de seu atrelamento simbólico justamente por que esse domínio do signo
está no outro pólo ou estado energético, o do Numen, do registro, onde o
símbolo é investido na atuação da expressividade. A compreensão da lei depende
da relação desse pólo energético com o o Socius, onde se codifica os fluxos
desejantes, não da relação com o Édipo ou do comprometimento da libido. É assim
que o inconsciente não se conceitua como teatro, mas como fábrica. O mais
surpreendente é que Mengue descreve bastante bem tudo isso ao longo do mesmo
volume sobre Deleuze.
Ele estende então uma
relação Nietzsche-Deleuze, pelo que o problema poderia ser enunciado em termos
de uma interpretação exagerada do pensamento de Nietzche sobre o teatro grego,
por Deleuze. Mengue supõe que Nietzche na verdade teria se limitado a rejeitar
a teoria da catarse de um ponto de vista estético, isto é, não político,
portanto não moral. O teatro grego seria um evento liberador por que
desvinculado de qualquer função ético-moral, puramente orgiástico ou de fruição
estética.
Realmente a leitura
de Nietzsche está votada à afirmação do teatro grego como basicamente
resgatável no elemento da teatralidade, como vimos, mas isso, nem na
Grécia nem na modernidade, está definido como um programa de alienação da arte
com relação a tudo o mais. A teatralidade é investida na linguagem cênica e no
sentido que a arte suporta, pelo que, assim como o herói, o artista ordena o
caos, mas com seus próprios meios, que incluem o seu conhecimento do mundo, e
aquilo que ele deseja fazer ver, não por sua dependência com uma ordem
universal, moral, exterior à especificidade da arte. Por isso o que se sente na
realização é o triunfo, o riso, não a sensação de ter se subordinado a algo,
cumprido um dever. No entanto, o que a compreensão dessa autonomia faz ressoar,
como ensinamento, conforme Nietzche, é a inocência do devir, sua natureza
convergente de processos múltiplos,tampouco totalizáveis como uma lei
transcendente. Tudo isso se mostra bem refratário ao que temos constatado no
pensamento de Hegel.
Ora, Mengue afirma
que a impropriedade da descrição de Deleuze sobre a interpretação de Nietzsche,
atrelando-a a uma concepção política, não somente poderia ser confrontada na
sua contradição básica, como impregna toda a obra estética de Deleuze, por
exemplo, sua leitura de Kafka.
Creio que ficou claro
a impossibilidade de se confundir política com moral, nesse caso, ainda que se
possa usar a palavra “política” de um modo comum nos dois sentidos, o que evita
taxar de contraditório o pensamento de Deleuze quanto a isso. O que Deleuze
considera essencialmente político, ou mesmo revolucionário, é a desvinculação
da moral com o fenômeno estético, e isso só se compreende bem iluminando o seu
confronto com Hegel, que é muito devido ao mesmo confronto já estabelecido
nominalmente por Nietzsche. Esse é inclusive o sentido da rejeição da teoria da
catarse, conforme Deleuze. Assim, o corte que Heidegger celebrizou, entre
gregos platônicos e gregos não-platônicos, seria o sentido mesmo da operação
profunda de Nietzche na história da cultura, só que não para propor uma relação
originariamente grega com o ser e sim com a afirmação ético-estética do devir.
O que Deleuze faz é
estender as consequências dessa leitura de Nietzche, o que se torna
extremamente interessante do ponto de vista da escrita do terceiro mundo, ou
das margens, não implicado apenas como localização geográfica e sim como
situação periférica vivida também por minorias no interior dos países centrais.
Trata-se sempre da afirmação do singular, mas não “representada” por uma
figuração-informação na língua maior, e sim “apresentada”, atuada, no devir da
realidade cultural marginal que materializa a expressão na obra, o que implica
a variação da língua. Essa é a leitura de Deleuze sobre Kafka, e o que ele
enuncia assim é uma noção de literariedade pela qual ela seria sempre o
terceiro-mundanizar-se, o atuar ou devir de algo que não representa pela língua
standard a interioridade burguesa da moralidade estatizada que apenas ressitua
os estereótipos do leitor sobre o que é, ou deve ser, o ser humano e a
sociedade.
Isso foi
especialmente criticado por Mengue que parece considerar perigoso, por uma
possível reapropriação fascista da teoria, estender o cultural numa conexão
definitiva com o terceiro mundo.
Creio que se Marx
pôde ter o seu Stalin, nada deveria a priori ser considerado impossível
quanto à teoria. O que ocorre é que, não obstante tanta polêmica acerca da
superinterpretação, o signo comporta denotação e conotação, mas não apenas num
sentido restrito e sim amplo. Assim, há sempre esses dois modos de conexão com
o texto, ao menos: por um deles, procura-se o que o autor quis expressar, por
outro, procura-se as sugestões que o texto lança exclusivamente na nossa
recepção, independente da consciência ou intenção do autor.
Naturalmente esses
dois modos não são separados estritamente na recepção, estando muitas vezes
sobrepostos, implícitos, principalmente quando se trata de uma leitura “comum”,
isto é, não crítica ou teoricamente investida. Assim, o texto, a obra, se torna
uma equipagem que se utiliza singularmente conforme os usos que se encontra ao
nosso modo.
O texto de Mengue não
esclarece totalmente sobre o que seria a possibilidade do uso fascista do
contexto deleuziano, mas pelo que sugere parece antepor o que poderia resultar
altamente negativo de uma junção dos sintagmas terceiro mundo e situações de
margem, induzindo a supor tipos xenofóbico-terroristas, nacionalistas
agressivos ao Outro da cultura, grupos de violência, mas também de veiculação
ou apenas pró-descriminalização da droga.
A efetividade social
das margens ou minoridades, assim como os usos de qualquer texto, na verdade
não pode nem pretende se configurar de antemão. No entanto, o que Deleuze está
mostrando é que a noção de maioria, assim como proposta numa teorização de
Hegel, é que retroage marginalizando os grupos efetivos constitutivos do social
que não se configuram de todo nesses estereótipos, aliás, misturados no texto
de Mengue, que parece incluir na mesma crítica utilizações neurótico-fascistas
e perfeitamente justas das formações de minorias.
Seria mesmo muito
estranho que grupos que só se formam como antagonistas da criatividade e
liberdade sociais se utilizassem de textos que se votam a mostrar o que é a
existência sem tais tipos de compromisso “fascista”. Mas nas
reterritorializações artificiais do capitalismo, Deleuze mesmo antepôs que
qualquer coisa poderia ser esperável. O que não impede a compreensão do que
está em jogo nesse confronto conceitual que é o que importa ao devir, ao futuro
– pelo que se sabe, Deleuze nunca repudiou o maio de 68.
É assim que se está
compreendendo a dominação de um ponto de vista “microfísico”, foucaultiano. Não
se poderia, tampouco, afirmar que toda violência é uma reação a essa
dominação onto-teo-socio-lógica, mas sim que o problema está bem
colocado se visto por esse ângulo.
O “poder”, no sentido
da “dominação”, se tipifica justamente por esse tipo neurótico-fascista de
formações grupais repressoras, não dependendo da instância governamental ou de
leis instituídas para se formar, mas pressupondo uma interiorização moral como
horizonte do que vem a ser “o” humano – ou “o” sagrado – para vitimar tudo o
que não se subsume.
Ora, a noção de minoridades
no contexto deleuziano se relaciona à operação inversa, de liberação de linhas
de fuga, mas não como deserção do social, e sim como formação de minorias que
são, precisamente, em todo caso sem implicação com o fascismo por não se
subsumir a tais definições de humano ou sagrado. Aqui a questão não seria tanto
o programa que Deleuze está traçando como estratégia, mas a descrição que ele
está propondo como o que ocorre na sociedade, o que é constitutivo dela, ponto
que Foucault não desenvolveu. Esse é o sentido do terceiro-mundanizar-se, pois
a não subsunção, o traçado das linhas de fuga no social, não ocorre apenas de
modo programático, consciente, mas decorre da própria situação existencial de
muitas pessoas, muitas comunidades, independente do que quereriam, apenas por
serem como são.
O preconceito gera o
antagonismo e o problema social, mas ele só se põe como algo ulterior à
multiplicidade dos grupos, algo que reage a isso como doença do uno: ironicamente
esse uno que se apregoa como natureza muitas vezes fica totalmente menor no
contexto que utiliza para antagonizar, mas nem sempre ocorre assim. Essa
colocação é bastante conexa a Nietzche e ao seu conceito de “devir reativo da
força” . Ora, a emissão das singularidades, isso que Deleuze conceituou como o
traçado das linhas de fuga e Nietzsche pensou em termos de devir ativo da
força, nunca se neutraliza, é constitutivo do devir, é o que constitui as
sociedades – antropologia e história estando numa relação produtiva com esse
pensamento social, mas pode-se-ia também estender a relação ao amplo campo das
ciências do humano. O que se iria encontrar, se não que é a teorização do
singular, ou a noção da força como potência, multiplicidade potencial, que está
suportando essa transversalidade?
Não parece que
Deleuze pensou um tipo de panacéia, ou uma totalização previsível entre esses
dois pólos, paranóico e “esquizofrênico”, isto é, entre o uno e o múltiplo como
tendências em conflito. Mas a realidade, no sentido do constitutivo ou
da gênese, é o múltiplo. Por isso essa tendência das linhas de fuga se torna
estratégica, considerando contraproducente tentar instituir um outro tipo de
maioria, oposta a que seria o “foco” (ideal) da dominação. O anti-Hegel aqui
está na ênfase da minoridade social, numa ruptura total com o modelo –
positivo, à Hegel ou presentemente negativo, à Marx, mas sempre estatal. Ou
seja, na minoridade nos dois pólos, desfazendo a impressão, a idealização, de
que ocorre, como fundamento do social, um fenômeno de maioria, o que conduziria
a definir o sócius pelo estatal como expressão formalizada dessa maioria
constitutiva, “natural”.
Tanto quanto Hegel,
Nietzsche se opôs à idéia de um direito natural, mas de modo algum numa
continuidade desses pensadores. A crítica de Hegel ao direito natural supõe a
oposição que ele está instituindo entre natureza e cultura, no mesmo lance em
que subsume o todo do real à racionalidade. Ocorre que a natureza é o mais
abstrato e o espírito só se realiza concretamente na cultura. Assim, Hegel se
põe na contracorrente de qualquer interpretação do cultural na coextensividade
com o natural. Ora, Nietzche pensa que a idéia de um “direito natural” é
profundamente contraditória: seria bastante “natural” o funcionamento viral, a
ascendência do animal mais forte, etc. Mas o que a cultura realiza é o devir da
potência, como liberação do desejo, expressão do singular, enquanto que no
pensamento de Hegel é o universal da Lei pela formação estatal.
A compreensão
antropológica de Nietzsche supõe a multiplicidade, a autonomia e a
irredutibilidade culturais, o que de modo algum seria o caso de Hegel. Assim, a
teorização de Hegel, orientada pelo uno, sempre vai lidar com a multiplicidade
da cultura como algo subsumível a uma gradação, a uma escala de
desenvolvimento, supondo algum horizonte de otimização do humano, a saber, o
ocidente capitalista, cristão, das nações centrais, sua cultura, padrões de
consumação, etc.
A noção de que as
culturas do terceiro mundo são inteiramente válidas e atuais sem depender de
algum modelo extrínseco, mas estando em comunicação com o devir planetário da
cultura, isto é, com a multiplicidade cultural que inclui, obviamente, sendo
como é o contexto atual, a produção cultural das nações centrais, será sempre
algo incompreensível a esse aporte, assim como o Outro da cultura é algo que o
grupamento fascista está sempre a atacar. Interessante é observar como esse
modelo desenvolvimentista se compromete pela própria lógica do capitalismo:
sabe-se que o nível de consumação de energia dessas nações centrais não pode
ser igualado por todos os países do mundo, pois ecologicamente, “fisicamente”,
isso se torna inviável, como se aprende comumente na geografia do segundo grau:
não ocorre suporte para o funcionamento de tais padrões de consumação
energética na escala do planeta. A vítima da história parece mesmo algo não
inteiramente acessório nessa teorização.
Creio que se pode
compreender assim a inserção do “socio” na onto-teo-logia, como devida a Hegel.
A importância de sua teoria se torna devidamente aquilatada. A abrangência
desse termo complexo que converge o ser, o sagrado, o social e o lógico só se
esclarece devidamente, porém, na consideração espiritual de que procede, isto
é, depende da interiorização, da moralidade como momento formador do desejo. A
ruptura com esse sistema do uno não se fez de modo profundo mesmo quando se o
procurou utilizar contra uma certa dominação histórica, de classe. A subsunção
de qualquer teorização a essa “idade do ser” , como poder-se-ia
heideggerianamente expressar, compromete a intenção libertária que muitas vezes
motiva a teoria.
O que se torna
necessário é lidar com o humano na sua imanência singular, na sua
multiplicidade, e com a sociedade na pluralidade dos grupos efetivos. A noção
chave é autonomia, conforme Deleuze, não “hegemonia”. A cultura se
articula com o terceiro mundo transmutando valores. Mesmo que não se possa
prever todos os devires de uma obra, parece-me que esse sentido de
interpretação é bem viável e por ele o contexto nietzsche-deleuziano nem parece
contraditório, nem conduzindo a algo anárquico ou indesejável (vazio),
inversamente, mostrando-se extremamente útil na compreensão dos temas que
desenvolve.
Subjetividade
Hegel conceitua a
essência do Espírito como ação. Os temas nessa proximidade fazem um continuun
perfeito com a história do ser heideggeriano: a ação é trabalho, o espírito se
torna o que é como o seu produto. Muito ingenuamente, na limpidez do seu
momento moderno que jamais suspeita do que isso vai fazer supor, Hegel exulta
por enunciar sua descoberta, sua reversão de toda a história: o espírito se
torna o objeto, pode ver-se como “uma existência exterior”, naquilo que
produziu, na cultura.
O importante para o
núcleo considerado em torno da subjetividade é que nesse trecho da Razão na História,
em que examina o Curso da História do Mundo, Hegel está construindo a
noção de Espírito como ponto da junção, ponto de unidade, do objetivo e do
subjetivo, da exterioridade, as formas institucionais da cultura, e da
interioridade como o foco originário da ação que plasmou essa realidade
exterior. Assim, o “espírito” ou ação, não se separa de si mesmo, seja pensado
num ou noutro desses pólos. No entanto, a efetividade dessa ação é a mais
profunda des-juntura. Esse é o cerne da novidade que o pensamento de Hegel
introduziu, e qualquer dos núcleos pelos quais se penetre na sua filosofia,
pode-se constatá-lo. O que faz a entrada de cada núcleo é justamente o modo
como a des-juntura procede, isto é, seu ponto de des-junção daquela realidade
que, previamente ao teorizar de Hegel, estava conceituada numa representação do
entendimento, numa formalização, numa identidade abstrata.
Assim, a entrada
nesse núcleo de subjetividade pode ser proposta pelo foco da ação, naquilo em
que, independente de se estar considerando do ponto de vista de um sujeito
particular ou coletivo, trata-se sempre de uma unidade de sentido, “do”
Espírito efetivado como vetor de uma ação processual, sempre localizada na sua
recuperação conceitual, mas sempre ressituada como veículo da totalidade na sua
enunciação racional. É sempre o sujeito, como o indivíduo que já não está pura
ou materialmente “individualizado”, mas se fez “Espírito”, dotado, portanto
dessa veiculação intencional, que consubstancia a ação, desencadeia o processo.
Quando se trata de
compreender a subjetividade do ponto de vista de uma psicologia, no
interior do hegelismo, é preciso compreender esse ponto inicial, pois ela se
endereçou criticamente aos projetos que lhe foram contemporâneos, como os do
kantismo ou do espiritualismo, que a empreenderam como uma ciência de fatos da
consciência, conforme observa Bréhier. É do movimento do pensamento filosófico,
da necessidade racional que ele se vota a apreender, que se pode derivar, ou
situar, as realidades psicológicas.
Esse nexo de
filosofia e psicologia se torna importante, porém, se compreendemos a torção
que Hegel imprime na noção de teleologia. Jacques D’Hondt, em “Teleologia e
Práxis na ‘Lógica’ de Hegel”, mostrou convenientemente esse ponto, ao traçar um
paralelo de Hegel com Spinoza, em que se torna central o tema da ação. O humano
é o lugar por excelência da ação teleologicamente orientada, transformando-se
assim a concepção pela qual se costuma responsabilizar Spinoza, o que seria o
conceito de uma teleologia natural.
Hegel conceitua a
finalidade como um processo racional, isto é, inteligentemente orientado, o que
a define sempre no interior de uma ação. Assim, não pode haver
finalidade fora do contexto humano, na natureza, que iria subsumir o sentido do
que o homem faz, mesmo que se pensasse essa exterioridade como a expressão da
vontade de Deus. Hegel é bem explícito quando se trata de criticar o
espinozismo, utilizando precisamente esse ponto de argumentação.
Hondt articula o
texto numa espécie de corte entre dois aspectos da teleologia do hegelismo,
pelo que, inicialmente se trata da imanência do conceito, para somente depois
compreender o idealismo no qual se situa.
A princípio essa
finalidade só se apresenta na efetividade de uma realização, isto é, num processo
local, num ato visando um fim. O ato teleológico se esquematiza por meio de um
silogismo, em que o sujeito é o ser humano que age; o utensílio, coisa ou dado
natural inerte é o meio termo; e a realidade externa que deve ser transformada
pela ação do ser humano, é o outro extremo.
A natureza, na pureza
da sua vigência independente da ação do humano, ostenta um funcionamento
mecânico, mas nunca uma finalidade. O ser humano, através da sua “astúcia”
desvia esse funcionamento em seu proveito, precisamente dotando-lhe de uma
finalidade – assim ele aproveita as forças do vento, da tendência, do peso,
etc. e faz o moinho girar enquanto descansa.
Mas ele poderia ficar
preso na sua própria disposição, se esta apenas fosse um outro tipo de
funcionamento. O utensílio, instrumentalizado pelo homem, se tornaria mais
importante do que os produtos que permite efetivar, se o silogismo da ação
ilustrasse apenas uma sociedade funcional, uma colméia. A astúcia do humano
está em que ele inflige uma violência ao objeto, já que a finalidade vai
ultrapassar o objeto, não poderá se confundir com ele.
É interessante como
nesse aspecto Hondt parece aproximar Hegel e Nietzsche, no momento mesmo de uma
confrontação com Kant. Pois Kant já havia instituído a oposição, a antinomia insolúvel,
entre finalidade e mecanismo. As leis mecânicas, isto é, naturais, são aquilo
de que depende qualquer produção de coisas materiais, mas a produção não pode
ser pensada como exclusivamente a partir das leis naturais, já que a natureza
nada faz sozinha.
Hegel se propõe
resolver a antinomia, conforme Hondt, desfazendo a irredutibilidade com que
Kant havia lidado, entre o fim e o meio. Uma constelação conceitual se emaranha
assim conforme dois eixos teóricos, o de Kant e o de Hegel, ainda que Hegel tenha
atribuído o fiat da sua teorização às tentativas de solução do problema
por Kant. A bifurcação dos eixos está no modo de situar o dualismo, o
antinômico kantiano e o dialético hegeliano.
A margem dos fins,
conforme Kant, subsume o ser humano, a liberdade, a moralidade e a produção.
Está assim radicalmente distinta daquela dos meios, que compreende o mecanismo,
a necessidade e a positividade, isto é, a factualidade seja de relações entre
seres humanos, seja dos processos naturais.
Hegel procede por uma
totalização do mecanicismo, no âmbito da natureza, que conduz a uma
quase-finalidade por introduzir a noção de sistema natural, rede de causalidade
que vai esclarecer-se na filosofia da natureza, mas por meio dos conhecimentos
positivos mesmos, que se entre-determinam uns aos outros.
Ora, mesmo aqui,
conforme mostra Hondt, Hegel está subvertendo o princípio da finalidade interna
de Kant, que não poderia legitimamente ser aplicado à natureza. Pois ele pensa
que a finalidade falhada no âmbito natural se compensa não apenas pela sua
metaforização na totalidade, abrangendo ainda a conservação no âmbito mesmo do
que seria o mecânico, na atividade animal que se permanece sempre a mesma, não
deixa assim de, com isso, manter o vivo.
Contudo, se a ação
está processualmente racionalizada na forma silogística, seria lícito
compreender todo processo localizado de quase-finalidade como um caso de
finalidade em um nível superior, aquele que franqueia o limite do natural, já
na abrangência do humano. Aqui a oposição meio-fim se torna dialética, pois
quem quer o meio quer o fim, a ação inteligente não pode pretender colher sem
plantar.
O mundo deixa de ser
o meio de um fim exterior, ele se torna o processo mesmo da interioridade
enquanto teleologicamente orientado. A “finalidade interna” , conforme a
expressão de Hondt, se torna um “imanentismo”, mas a transcendência se
reinstala, poderíamos antepor, naquilo que Hondt irá esclarecer como o segundo
aspecto da teleologia de Hegel. Pois a duplicidade do afiado gume lógico-silogístico
vai operar a des-juntura do Sujeito e do que Subjetiva, o agente e o nexo
precisamente teleológico, “inteligente”, da sua ação.
Na perspectiva do
agente, e aqui poder-se-ia, conforme Hondt, localizar a sedução de Hegel, mas
também o que seria o vínculo com Nietzsche, é o “Eu”, o sujeito, que concentra
todo o mistério da atividade. O que o sujeito realiza, o trabalho, expressa a
inversão da antinomia na dialética, o comprometimento dos meios pelo fim, mas
também o sentido da falha da coisa, a reversão da totalidade na finalidade,
pelo que o que o trabalho faz é apropriar-se, utilizar-se da coisa,
transformá-la num escravo, dominá-la.
Finalidade e
dominação se tornam profundamente idênticas, e Hegel trata como instinto de
conservação, “vontade de poder” conforme a interpretação de Hondt dessa rubrica
de Nietzsche, qualquer exemplo dessa utilização: sobre coisas ou pessoas,
escravos ou servos. Mas o corte entre os dois aspectos incide também aqui: as
coisas permanecerão dominadas, os seres humanos dominados irão reconquistar sua
liberdade, e isso, justamente por que são eles que se tornam os agentes do
trabalho para o que foram, inicialmente, violentamente agenciados.
Mas se isso parece
a conclamação a transformar o mundo, ou uma filosofia contemporânea da
subjetividade, como antepõe Hondt, é por que, por um lado, a limitação ao
especulativo deve lidar com um mundo em permanente mudança provocada pela
práxis do humano, mas também por que assim, é graças aos sujeitos humanos que a
razão se realiza enquanto processualidade da ação. Ora, se essas reversões não
chegam a mais do que parecer aquilo que só mais tarde se afirma
efetivamente, observa Hondt, é por que a razão, o que se realiza, vai roubar a
cena, por assim expressar, e subsumir o humano como caso do seu processo
ativo.
O mundo social,
espiritual, a que o trabalho conduziu, o espírito objetivo, tornou-se a razão
mesma que se utilizou do humano, isto é, do sujeito, simples suporte (trager)
das relações da legalidade que expressam a realização da razão.
Ora, creio que o
conceito de “vontade de poder” não poderia simplesmente se traduzir por “instinto
de conservação”, o que mede a extensão da impropriedade de se vincular
Nietzsche a Hegel. Enfatizar a importância dos estudos deleuzianos nesse
sentido é fundamental `a minha intenção de conceituar o problema epistemológico
da atualidade. A meu ver estaríamos agora numa bifurcação semelhante à que
Foucault nomeou como a ruptura do clássico.
Nossa ambiguidade
cultural reside no fato de que é o postulado antropológico que faz a
irredutibilidade dos caminhos, conforme ele esteja ou não sendo conservado,
ainda que em todo caso é preciso estar numa certa relação com ele. Ora, é Hegel
que se poderia, do ponto de vista filosófico, colocar como o vetor no rumo de conservação
desse postulado, pois ainda que mantendo-se no fechamento do período moderno,
que Foucault designou “clássico”, por isso mesmo ele enunciou sem mistura o que
dele se produziu, mas apenas dialeticamente, como o seu Outro.
Quanto ao rumo que só
se tornou plenamente resgatável com o assim (mal) designado pós-estruturalismo,
o precursor é Hume, mas o vetor é Nietzsche. Manter a perspectiva da
irredutibilidade de Hegel e Nietzsche torna-se emblemático no sentido de
compreender o que veio a constituir a bifurcação com o postulado antropológico
que não cessou de estar atuando, mesmo na atualidade, o que se pode constatar
quando, na tentativa de atrelar Nietzsche à história da filosofia se pretende
traduzir seus conceitos conforme a racionalidade do hegelismo, o que sempre
implica, como um obstáculo epistemológico, ignorar a especificidade do que não
conserva o postulado.
Esse tema se torna
tanto mais complexo por que imbrica inevitavelmente o problema social do
estágio do capitalismo atual, isto é, junto com a polêmica que se trava em
torno da problemática teórica – como lidar com textos como Mille Plateaux
– há a questão de se houve, ou não, uma transformação social implicando a
superação da “sociedade disciplinar”. Assim, não ocorre, ainda que isso possa
parecer surpreendente, uma simples associação entre o pensamento de
Deleuze-Guattari e a efetividade teórica de uma competência conceitual para
lidar com essa transformação. O que ocorre é um leque de perspectivas
conceituais que competem por uma competência assim.
Isso determinou uma
situação complicada no que tange ao projeto de “capitalismo e esquizofrenia”.
Por um lado, aqueles que pretendem negar que ocorreu a transformação social
fundamental dos nossos tempos atribuem a falácia de sua pressuposição a esse
tipo de projeto pós-estrutural, do que decorre a insuficiência de seus
conceitos do fato de que se reportam a uma realidade fantasiada, quando as
categorias mais ortodoxas da filosofia hegel-marxista permanecem bastante bem
equipadas para lidar com o mundo que não mudou.
Mas ali onde a
transformação social se tornou um dogma, o pensamento deleuziano fica muitas
vezes “situado” no passado da competência de conceituá-la, algo que se ajustava
a um estágio primitivo dessa mudança e que por isso não pôde captá-la
convenientemente. Ora, o interessante é que esse situamento depende geralmente
da crítica à sobreposição, isto é, irredutibilidade, da versão de Deleuze sobre
as relações Hegel-Nietzsche. Assim, nessa vertente também ocorre uma relação
substancial com a filosofia de Hegel.
Creio que é
importante manter o limite entre os dois temas, para somente depois de ter
localizado o que o pensamento deleuziano problematizou nos dois campos,
aventurar a questão do seu entrelaçamento. Essa tarefa intercepta o estudo de
Hegel por que, como já observado, o fundamental é o traçado da relação ou
irredutibilidade Hegel-Nietzsche.
Mas isso implica
iluminar a complexidade histórica do pensamento de Hegel, naquilo pelo que, ao
mesmo tempo situado no período moderno, ele se tornou o molde do pensamento
antropo-contemporâneo. É preciso então sempre mostrar em que ele se limita, mas
também, ao mesmo tempo, como é que ele se estende, em relação a cada núcleo
temático.
O texto que permite,
do ponto de vista da subjetividade, esclarecer algo quanto a isso é “O poço e a
pirâmide, introdução à semiologia de Hegel”, de Jacques Derrida, que captou
muito bem essa duplicidade do hegelismo. Mas para introduzir a problemática do
signo na teorização filosófico-psicológica, será oportuno observar como Hegel
caracterizou o que designou “o espírito subjetivo”.
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A unidade do
subjetivo e do objetivo, sendo ação, a des-juntura está nisso pelo que,
aparentemente, teríamos a ação como foco sempre subjetivo, modelada, por assim
expressar, por uma individualidade, pessoal ou coletiva. No entanto, a ação,
como processo teleológico, implica tanto nessa polaridade do seu foco
(juntura), sempre o sujeito da ação, como na transitividade do seu
proceder, no seu desenvolvimento (des-juntura) .
Essa duplicidade está
tanto enunciada como explicação teórica do fenômeno localizado, sempre legível
enquanto processo ativo, como abrange o alcance universal da teoria, pelo que o
ponto de unidade é a realização do sentido. A idealidade do segundo aspecto da
teleologia, pelo que a razão é que se torna o realizado e o referencial do
processo, em vez do humano, poderia então ser visada como a expressão dessa
unidade de des-juntura, pois não ocorre haver razão na exterioridade do mundo
humano, cultura ou legalidade. Ou seja, em todo caso a realização teleológica
poderá ser enunciada em termos de liberdade.
Por isso o humano
como foco da ação localizada e da realização da legalidade é ao mesmo tempo o
que se ultrapassa e o que se realiza, não havendo contradição senão numa das
formas de apresentação do tempo, o presente, enquanto que o que se revela como
o nexo da racionalidade é o tempo em desenvolvimento.
A teoria do espírito
subjetivo deverá então esclarecer não tanto sobre o que é o ser humano na sua
subjetividade em si, individualidade “livre”, objeto do que poderia ser uma
psicologia pura. Mas sim como esse ser que se apresenta na forma mais
exteriorizada como em si irredutível do humano aos outros e ao mundo, na
verdade só se compreende no processo de sua interiorização ou efetivação nesse
mundo e com os outros.
Se do ponto de vista
do conhecimento a consciência é a forma mais básica, do ponto de vista do
espírito em si, o grau mais inferior é aquele pelo que ele se tem como algo
natural, alma, receptividade pura a todos os fenômenos igualmente naturais:
climas, tempos, estações, e suas gradações. A alma é coextensiva ao corpo,
sendo também finita. Nesse grau mais inferior se apresentam apenas a sensação
e o sentimento, como pólos respectivos da receptividade ao exterior e ao
interior. O sentimento (Gefuhl) é apenas a autopercepção (selbstschkeit)
vaga de um Eu, espécie de estado crepuscular ou sombra da consciência.
Hegel, a propósito
desses dois tópicos, expressa algo como o inconsciente, desde a agitação do
espírito, sem objeto, a sensação, até essa espécie de sonambulismo que é a
autopercepção, no entanto, nem mesmo enunciando-se ainda em termos de pessoa.
É somente o sentimento mais consistente do Eu, sentimento de si (Selbstgefuhl),
que efetiva o pólo da individualidade como irredutibilidade ao universal.
Esse sentimento de si
permanece confuso e incoordenado, mas já está se realizando em termos de
pessoalidade. Ora, é pelo hábito que a alma se libera desse nível mais básico e
disperso, puramente sensitivo, para concentrá-lo como sua vida, sua
realidade, podendo assim estender ligações com atividades superiores, isto é,
não derivadas desse fundo de pura receptividade.
Entre esse nível
inconsciente, crepuscular, que Hegel designa “corporeidade do Espírito”,
conforme Bréhier, e a consciência, não ocorre, contudo, uma continuidade, mas
sim uma transposição de níveis. Certamente a consciência está se definindo numa
correlação essencial com o Selbst, como auto-consciência. Mas o
que torna essa relação consigo algo de consciente é ao mesmo tempo o fato de
ser uma “certeza” e o elemento que funda qualquer coisa como “certo”. A
consciência, portanto, não surge na região do sensitivo, mas do formal. Não no
sensível, mas no âmbito da abstração. Assim a formalidade da consciência se
auto-apreende pela exclusão desse nível “natural” que, como nas descrições do “Eu”
empírico de Kant e Fichte, põe na exterioridade de si as coisas em si.
Com efeito, se a
consciência é o nível mais modesto no processo de conhecimento, ela não está
menos localizada nele, nesse terreno do inteligível. O que a limita nesse campo
é apenas o fato de que a consciência só se produz como auto-consciência pelo
processo de se pôr como uma coisa existente, uma exterioridade à própria
apreensão, mas do ponto de vista formal, isto é, como pura existência
irredutível. Isso que Hegel conceitua em termos de abstrato e formal é,
portanto, o tipo de conhecimento que só tem como seu índice a apreensão de algo
como coisa que força a uma experiência por parte do sujeito, mas ao mesmo
tempo, que faz a imagem desse sujeito como uma existência irredutível, unidade
de pura apreensão formalizante das coisas.
A psicologia de Hegel
parece bem limitada, porém, pois desde que se trata de compreender a
subjetividade em si aporta-se, da total obscuridade exterior ao inteligível, à
consciência que, tão logo se atinge, dá lugar à descrição fenomenológica,
articulando-se portanto, com a epistemologia e com a história, não tanto com a
psicologia.
Os estágios que
conduzem desde essa auto-consciência abstrata ao Sujeito objetivamente situado,
ou seja, intersubjetivamente constituído, são aqueles da consciência sensível
(relação com o dado imediato), à percepção (dados relacionados e entrelaçados),
entendimento (Verstand, apreende o que permanece sob a aparência das
mudanças), consciência de si (auto-apreensão como indivíduo, egoidade que se
põe na confrontação com O Outro) que desencadeia o processo do Reconhecimento,
conduzindo à compreensão da objetividade como determinação fundamental da
consciência, isto é, à Razão (Vernunft), assimilação da consciência como
Universalidade.
Pode-se observar como
essa via é limitante de um ponto de vista psicológico-subjetivo. O termo do
processo, aquilo que se trata de compreender não é a Subjetividade e sim a
Inter-subjetividade. Certo, aquilo a que se ascede é a Razão como
universalidade, compreensão do transcendental pelo que a certeza evoluiu, desde
a auto-posição, como forma vazia do “Eu”, até a posição objetiva das
determinações da consciência como “determinações da esência das coisas” que são
“seus próprios pensamentos”, conforme o texto da Enciclopédia. Porém, se
é do ponto de vista do conhecimento que as coisas são assim, e conduzem
portanto, exclusivamente ao Saber absoluto, a novidade fenomenológica é que não
há teoria sem prática, o especulativo tornou-se a articulação da objetividade
enquanto Espírito.
No entanto, o que
preserva o liame com a psicologia é a importância filosófica de que se reveste
agora o processo da interiorização, pois ele não mais poderia se destinar
exclusivamente nos termos de uma epistemologia pura. Trata-se do problema da
interiorização dos dados da intuição, mas não como formação de uma consciência
individual e sim da consciência do Sujeito, isto é, da formação do elo
fundamental da cultura que não está mais num código do dever ser
abstrato, e sim como a efetividade da subjetividade.
É nesse ponto que
intervém o momento do signo. Ora, a noção que está articulando essa guinada histórico-racional
do idealismo é a Alteridade. A extrema originalidade de Hegel, e o que faz a
sua influência na contemporaneidade, é o fato de ter inserido a alteridade no
pensamento de uma forma constitutiva. Muito da crítica que se faz a Deleuze,
especialmente sobre a irredutibilidade que antepôs entre Hegel e Nietzsche,
está na impressão de que sua polêmica contra o hegelismo originou-se da
perspectiva indequada pela qual ele teria se mantido no terreno do Mesmo, da
identidade, interditando assim o pensar da diferença.
A exposição de
Derrida sobre a teoria do signo de Hegel é bem oportuna aqui, pois mostra onde
essa crítica falha, ou seja, mostra como, ainda que sem dúvida Hegel tendo
introduzido um “progresso” na semiologia por ter deixado de considerá-la como “um
resíduo”, e por aí também conceituado positivamente a transgressão – Ubersichhinausgehen
(transgressão de si) – como necessária transitividade dialética, isto é, a
alteridade como intrínseca ao processo do real, essa estruturalidade da Aufhebung
se revela como a impossibilidade de pensar a alteridade na exterioridade do
negativo, não captada como o vir a ser do Mesmo, pelo que Derrida localiza o “impensável”,
o limite epistêmico da dialética de Hegel. Ora, nesse texto Derrida estende
esse limite a conceituações bem aceitas na atualidade, como a de Saussure,
explicitando ainda que ele é imanente a vários setores no interior das ciências
do humano.
O importante para
compreender a originalidade de Hegel é acentuar que o Mesmo de que parte o
movimento transgressivo à exterioridade de si, não se põe apenas como a
totalidade racional, o Espírito, Subjetividade absoluta, mas a dialética fez
intervir um ser-outro do mesmo na microtextura do real, pelo que, por exemplo,
a Subjetividade do humano só pode se compreender como Inter-Subjetividade,
relação constitutiva com o Outro. A forma transitivo-transgressiva do devir é o
que conceitua a alteridade em Hegel, mas com isso o que ocorre é o situamento
do Outro. Sempre que ocorre o processo dialético, o momento da alteridade é a
transgressão, logo, o processo só ocorre no rumo do Apagamento da transgressão,
o que se logra precisamente pelo situamento na forma da transitividade
relevada, isto é, sobreposta pelo retorno do Mesmo na síntese.
Creio que aqui seria
interessante estender uma relação entre o que está se desenvolvendo no
pensamento desde Kant e a transformação global que está atingindo o mundo
ocidental na curva do Iluminismo ao Romantismo. O papel importante cabe ao
terceiro mundo, pois trata-se do esfacelamento da visão de mundo
pré-navegações. Os temas edênicos ligados à descoberta do território colonial
ilustra a tentativa de incorporar o novo ao antigo: as terras até então não
cartografáveis deviam corresponder ao lugar que os mapas feudais do mundo costumavam
incluir como pertencendo ao paraíso bíblico.
O desconhecido devia
caber no lacunar, mas já no século XVIII esse estratagema não funcionava mais.
Ora, como Deleuze mostrou, utiliza-se de modo inadvertido a expressão “Outro da
cultura” quando se pensa que o Ocidente, desde que precisou enfrentar a
alteridade do terceiro mundo, apenas lançou na exterioridade o que descobriu
como irredutível, pois o que ocorreu não foi a descoberta do irredutível, mas
sempre o seu mascaramento. A transgressão não foi nomeada senão para ser
apagada. Ora, o apagamento, nesse nível político de relações coloniais, se fez
pelo situamento do colonizado, isto é, ele só pôde ser conceituado como o outro
no momento em que se o escalonou por um critério de referência ao mesmo. É o
referencial que se torna o decisivo, e isso é o que não poderia ser alterado, o
referencial sendo o Ocidente colonizador, cristão, em vias de se capitalizar.
Se entendemos o Outro
como o irredutível ao Mesmo, então, conforme Deleuze, o Ocidente nunca nomeou
assim os povos do mundo não-europeu. Mas se o entendemos como o momento ou o
transitivo do Mesmo, estamos no âmago do hegelismo.
Ora, desde Kant a
reversão do liberalismo, do seu momento inicial lockeano ao seu segundo momento
“revolucionário”, compactando a transformação desde o particular como
básico-modelar do geral a este último como in-formando o particular, o que se
tematizou de modo fundamental foi a Alteridade. Isso ocorre, portanto, no
interior da teoria, no momento mesmo em que o Ocidente estava transformando as
relações internacionais de dependência, pois o Iluminismo suporta
historicamente um movimento amplo de descolonização que se estende como
necessidade de reorientar o processo de identificação cultural.
A novidade do
kantismo havia sido, a meu ver, ter nomeado o Outro como a forma do Mesmo, isto
é, o transcendetal como formalizando a consciência subjetiva na sua correlação
à objetividade. A isso designei a fenda que se interpôs no tabuleiro “inteiro”
ou “cheio” do clássico. A fenda é, precisamente, a operação da alteridade. Ora,
esse Outro no kantismo resta paradoxal, pois ele não é somente a forma do Mesmo
no sentido que informa a identidade do que se objetiva, mas também porque ele
informa dentro de um esquema teórico que poderia se recuperar como uma
psicologia. Isto é, ele é sempre uma forma de Subjetividade “pura”.
Com Fichte isso
evolui, pois agora a aceitação de um ato de auto-posição identitária muda a
fórmula: o Outro põe o Mesmo, o não-Eu desencadeia o ato originário do Eu.
Schelling inverte a mudança: é o Mesmo que põe o Outro. Ora, Hegel inovou
realmente, pelo que só ele enunciou o Ser-Outro do Mesmo. A identidade não se
define como uma forma de mesmidade mas pela sua transitividade processual, pelo
que o transcendental se internaliza, deixa de estar na exterioridade de um “outro”
Ego para se tornar a efetividade do sujeito e da história e assim nem mesmo
costuma se conservar o termo “transcendental” quando se trata de Hegel.
O movimento
fundamental se torna a formação do sujeito, pois é por ela que se dá a
ultrapassagem da transgressão sensível, das necessárias ilusões da natureza e
do em si do indivíduo, ao sentido processual do Apagamento, à gênese do
Espírito naquilo que ele é, seu retorno a si. É o signo, como mostra Derrida,
esse movimento de sublimação da natureza, pelo que o Espírito se põe perante
ele mesmo: as coisas são agora seus estados, não mais coisas nelas mesmas, sem
deixar de ser o que são, inversamente, tornando-se assim, exclusivamente, o que
podem ser.
Derrida mostra que a
teoria do espírito subjetivo intercepta antropologia, fenomenologia e
psicologia, conforme, respectivamente, é considerado: a) em si ou imediato,
como alma ou espírito natural; b) para si ou mediatizado, como alma, reflexão,
particularização ou relação com o “outro”; c) determinando-se como sujeito, em
si e para si mesmo.
Podemos observar como
o uso do termo antropologia está historicamente situado, pois aquilo que
estudamos na rubrica “subjetividade”, enquanto teoria da alma, que se considera
comumente parte da psicologia, está no contexto de Hegel designado como
antropologia, “estudo do homem na natureza”.
Ora, a semiologia
forma um capítulo da psicologia definida como ciência do espírito determinado
como sujeito, em si e para si, o que, nota Derrida, impede que seja considerada
na fenomenologia. O estudo do signo se torna algo relativo à interiorização
formadora da subjetividade, não o processo da legalidade e do Saber. Mas de uma
subjetividade que se forma na destinação ao Inter-subjetivo constituído como
legalidade e Saber.
O importante aqui é
rastrear a gênese dessa teoria do signo, pelo que Derrida enfatiza que Hegel
repõe a conceituação de Aristóteles que o conceitua como estado da alma,
pathemmata psychês. A determinação da universalidade articulada com o mais
íntimo da subjetividade se produz nesse ponto, conforme Derrida, pelo que
Aristóteles observa a comunidade daquilo de que os signos são expressões. Os
estados da alma são comuns, idênticos, a todos, assim como também as coisas de
que esses estados são imagem.
Os pathemmata
não são, portanto, nesse nível mais elementar da semiótica, Sttimung, conforme
a expressão cara a Emil Steiger, essas inclinações ou disposições da alma que
formam a carne da poesia lírica, mas muito prosaicamente, as impressões que a
alma recebe dos objetos dos sentidos.
O que Derrida
observa, quanto a isso, é que Hegel, considerado “o instituidor do primeiro
grande projeto de semiologia geral e científica, modelo de tantas ciências
modernas e humanas” , conforme o texto O poço e a pirâmide, ao instituir
a semiologia como capítulo da psicologia não faz mais do que preservar “esta
necessidade que é propriamente metafísica”, presente também em Saussure e
Hjelmslev, a saber, o vínculo do signo com a expressão de estados subjetivos.
A perspectiva
dialética de Hegel compreende o signo conforme o movimento de suprasunção da
natureza, o que implica ao mesmo tempo superação e retenção, conservação,
daquilo que se superou. Ora, a psicologia é a ciência que considera a atividade
do espírito enquanto tal, isto é, enquanto essa destinação
teleológico-racional que abarcou, processualmente, a supressão e a conservação.
Entram na psicologia, portanto, a intuição, a representação, a recordação, os
desejos, etc. , como articulações de um movimento organizado e orientado.
Lembrando que a juntura se faz pela focalização sempre subjetiva do vetor da
atividade, Hegel considera todas as “faculdades da alma” na unidade, ou “soldadura”,
conforme Derrida, desse movimento. A semiologia aí se localiza como uma parte
da teoria da imaginação.
A representação (Vorstellung)
consiste numa intuição interiorizada. A intuição apreende a imediatez
sensível, mas a inteligência representa o que intui, isto é, ela não
apreende o dado sem, ao mesmo tempo, se colocar a si mesma como tendo a
intuição de si mesma. A exterioridade só se coa pelo filtro da interioridade.
Os termos de Hegel, porém, são capciosos. Ele pensa que é a interioridade do
dado, enquanto captado, vivido, que precisa ser aufgehobene, suprassumida
pela inteligência, para que esta se torna o que é como exterioridade, isto é,
como um nomear objetivo da coisa e de si mesma como o que nomeia. Mas como
observa Derrida, a representação é ao mesmo tempo rememoração– interiorização
(Erinnerung) da intuição.
É a Erinnerung que
opera a transição do simples conteúdo sensível da intuição ao seu Status de
imagem, isto é, já despoluída do singular, de toda imediatez sensível, para
poder destinar-se conceitualmente. Ela forma com essas imagens, à
serviço da inteligência, uma espécie de reservatório (Vorrat)
inconsciente que já não são do que está “lá”, mas do que se conservou por esse
viés representado, figurado, aqui intervindo as metáforas do poço noturno (nachtliche
Schacht) ou inconsciente (bewusstlose Schacht ) e do veio no fundo
da mina.
O tesouro oculto
desse reservatório se torna muito prontamente resgatável, pois a inteligência
não precisa mais do que mudar o foco da intuição, do exterior ao interior, para
recuperar o que possui, evocar o que apreendeu, processo que Hegel designa imaginação
reprodutiva, que transfere a proveniência das imagens à interioridade do “Eu”,
podendo assim, para conservar o viés metafórico, a qualquer momento fazer vir
da noite à plena luz.
A inteligência se tornou,
na representação, algo mais do que a consciência ou a presença, mas aquilo que
relaciona preservando, de dentro, isto é, o sujeito, o em-si dessas
determinações. Ora, feita a reserva de imagens, a inteligência continua a
operar naquilo que recorda, reproduz ou interioriza, o que se constitui como
imagem da inteligência mesma que se produz como Fantasia, “imaginação
simbolizante, alegorizante, poetisante”, conforme Derrida. Essas formações da
fantasia permanecem “reprodutivas”, porém, porque são sínteses sobre dados
intuitivos, recepções passivas do exterior, o conteúdo dado (gefundene) ou
encontrado (gegebene) da intuição.
Já na imaginação
produtora, o limite da passividade é contornado, pois a intuição imediata
torna-se ente produzido no mundo, o Signo, resultado de uma produção
fantástica, imaginação-que– se-faz-signo (Zeichen machende Phantasie). A
inteligência, conforme Hegel, se apropria daquilo que encontra em si
determinando-o ao mesmo tempo como universal, isto é, conforme a razão como
ente sígnico, suporte inteligível de significado, expressão ou manifestação de
um conteúdo interior que, como sublinha Derrida, paradoxalmente, ou melhor,
muito ambiguamente deriva de uma produção de intuições. Aqui ele
faz intervir o paralelo do signo em Hegel com o esquematismo em Kant. Derrida
conceitua esse paralelo como ilustração da relação não conflituosa de Hegel com
o kantismo. Assim como o esquematismo transcendental, a imaginação produtora do
hegelismo é uma espécie de arte natural, movimento de temporalização entre o
sensível e o inteligível, o passivo e o ativo, o exterior e o interior, o outro
e o mesmo, todas essas convergências pertencendo como qualificações ao Signo, Mittelpunkt
(ponto do meio) lugar de transição dos opostos.
Lugar da Fantasia, a
convergência mais importante assegurada aqui, a meu ver, é entre o ser e o
universal, isto é, entre o dado singular que se apreende e o caráter semiótico
que o empreende no processo da significação, pelo que o Ser se transpõe, pelo
signo, em universal, isto é, já não ocorre que coisa alguma possa ser na
exterioridade do processo que confere a sua determinação positiva pela
representação.
Mas esse lugar
ambíguo da fantasia é também o de uma exterioridade com relação à Verdade. O
signo permanece forma, antes da atividade que o trans-forma no Saber. A
novidade aparentemente escandalosa do hegelismo, afirmando a fantasia como
razão, é apenas aparente, pois ela é razão apenas como unificação dos trabalhos
da oficina interior (innere Werkstatte) que produz signos, mas essa
razão é formal, não a Razão que inclui o conteúdo em vista da Verdade. A
novidade que permanece, como vimos, é a inclusão desse momento da semiose – da
imaginação criadora – na caracterização da racionalidade, mas como observa
Derrida, o que se deve interrogar aqui é o intervalo do signo e da verdade. Por
que é assim a relação entre ambos?
A interrogação tem
que ser dupla, ao mesmo tempo envolvendo o ser da metafísica, logo, de uma
certa caracterização da Verdade, e do signo. Ao mesmo tempo o porque da
metafísica estar agora incluindo o signo, e o porque dessa inclusão continuar
paradoxal. Logo, interrogando o nexo de toda metafísica com uma certa
conceituação de signo como déficit de Verdade, e do hegelismo, última
fulguração metafísica, com a noção do signo como progresso em vista (tanto
destinando-se como na presença ) da Verdade.
Creio que esse modo
de colocar a questão ilumina particularmente bem o problema da localização
histórica do hegelismo. Ora, a meu ver podemos compreender o questionamento de
Derrida já nessa região pós-iluminista do pensar que é de dependência da
experiência, pelo que, se designarmos essa região como trans-empírica, deixa de
fazer sentido perguntar sobre “o que” da significação, mas torna-se então muito
questionável por que é que, estando a verdade numa relação fundamental com a
experiência, e esta um caso do signo, o signo continua a ser metafisicamente
interpretado como inferior à verdade.
Assim, como observa
Derrida, este “porque” já não se deixa traduzir como “o que isso significa”. Ou
seja, já não se interroga o que significa o significado, mas como é que que
pode ele não significar, ou seja: como é possível a metafísica?
Parece-me que nesse momento do texto Derrida toma posição, também, com relação
a Heidegger, pois ele não apenas reproduz o movimento de perguntar sobre o
ser de.
Ora, estamos no cerne
da questão da Alteridade. Será preciso se deter aqui de modo mais
pormenorizado.
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O jogo do signo é
complexo, não ocorre apenas uma relação direta entre algo que se dá a ver e
algo que se dá a significar. Inicialmente é preciso compreender a atuação da
fantasia, pelo que, estando ligada à representação, por meio do signo ela agora
cria intuições.
O signo suscita a
experiência da sua recepção, por assim expressar. Mas essa espécie de intuição
comporta características especiais com relação à captação comum dos dados dos
sentidos. Ora, o signo é também algo dado, devendo ser representado. Contudo, o
que se representa na intuição do signo é a representação de uma representação,
de uma idealidade conceitual, Bedeutung, isto é, uma Significação.
A questão se torna a
relação entre a significação transportada pelo signo como correlata a um querer
expressar, e aquilo que transporta o signo, o significante, seu suporte
material. Repõe-se com Hegel, conforme Derrida, uma longa continuidade teórica
que desde Platão, investindo a arbitrariedade dos nomes como o Hermógenes do
Crátilo, até Husserl, aproxima o significante à carne e ao corpo, o significado,
à alma. Husserl chega a nomear a palavra viva, isto é, o signo que reúne
significante e significado, como geistige Leiblichkeit , uma carne
espiritual.
O poço conduz à
pirâmide porque, conforme o movimento metafórico do texto de Derrida, nesta continuidade
teórica a materialidade do significante está para a significação assim como a
pirâmide está para a alma, como um invólucro que lhe é perfeitamente estranho.
Hegel utiliza o termo pirâmide para designar o significante da significação, ao
mesmo tempo a operação semiótica e a sua opacidade à verdade. A proveniência da
metáfora não é arbitrária, pois Hegel irá se engajar numa explicação histórica
da escrita na qual, pelo viés dessa aproximação à carne e à alma, se deverá
verificar a superioridade da escrita alfabética, implicando a crítica do
procedimento hieroglífico como do “estágio” da espiritualidade egípcia.
A operação de
significação descrita por Hegel como “o erguer da pirâmide”, conforme a
expressão de Derrida, comporta a identificação do signo com a intuição que o
produz como o querer expressar fantasiado da imagem. Ora, o que se vê no signo
é a ausência do que a expressão fantasiou sobre o que a imaginação guardou, o “lá”
da coisa que é significada, mas por isso mesmo, não dada na plenitude da
intuição que a evoca.
Atualmente a
semiótica observa uma classificação básica dos signos: o ícone é a imagem
idêntica da coisa, como a estátua em relação ao modelo; o índice é a sugestão
da semelhança da coisa pelo seu efeito, como a fumaça em relação ao fogo; o
símbolo é arbitrário em relação ao modelo, como a palavra nada tem de análogo à
coisa que significa. Hegel não utiliza a terminologia dessa classificação
atual, mas conserva o seu sentido que separa o motivado e o arbitrário. Assim
ele nomeia apenas a irredutibilidade entre o signo que guarda alguma semelhança
com o referente e o signo que não o faz. Àquele designa “símbolo”, a este,
propriamente, “signo”.
Essa arbitrariedade é
o que permite esclarecer sobre a propriedade da semiologia como capítulo da
psicologia, no hegelismo, conforme Derrida. Vimos que Hegel não pensa a
psicologia na imanência do individual, mas do Sujeito. Assim, se ela é a
ciência do espírito que se determina em si, como sujeito para si, demarca o
momento em que “o espírito não tem mais do que realizar o conceito de sua
liberdade”. No símbolo ainda se guarda alguma relação com a necessidade, com a
natureza, enquanto Arbítrio e Liberdade estão o mais estreitamente unidos no
signo. Relação com a necessidade é ao espírito um tipo de exílio, o elemento da
liberdade somente podendo ser o estar ele na interioridade dele mesmo. O estudo
da significação, porém, conecta-se também à Lógica, por sua importância no
movimento especulativo que desencadeia o Saber.
A semiologia de Hegel
estende uma relação fundamental entre a memória, imaginação e pensamento.
Quando se trata de compreender a linguagem, é a relação desses dois ítens, a
memória e o pensamento, no movimento pelo qual um deve se tornar o outro, que é
preciso focalizar. Vimos que a interiorização da imagem captada pela intuição
vai produzir um memória de representações que será aproveitada como material
tanto da fantasia criadora do signo quanto do pensamento que os utilizará no
lugar das coisas. O modelo é aqui a linguagem falada, não apenas como algo que
exemplifica o funcionamento sígnico, mas como aquilo que é a sua essência.
Assim como em
Saussure, o sistema linguístico fônico preside qualquer sistema semiótico, o
que garante a superioridade da escrita fonética sobre o hieróglifo ou o
ideograma como também sobre o formalismo matemático. À aproximação do hegelismo
com Leibniz, proposta, como vimos, por alguns autores, aqui se antepõe a
crítica do projeto de uma característica, na base da salvaguarda dessa
superioridade da palavra falada e da escrita alfabética que a reproduz. Hegel
censura a Leibniz ter considerado vantajoso uma língua escrita perfeita e
universal, contruída sobre o modelo hieroglífico, como também a sua valorização
do esquematismo hexagramático chinês ou da consideração da matemática como
paradigma do conceito.
O esquema dialético
que envolve o signo na teorização de Hegel comporta a Aufhebung, pelo
que ele é a suprassunção da intuição sensível-espacial, opondo-se-lhe como
inteligência, presença no tempo. Intuição e espaço são o que precisa ser
Relevado (Aufgehobene), ao mesmo tempo superado e conservado, pelo
elemento do tempo, Dasein (existência, presença) do conceito. O
que equivale, como notou Derrida, a afirmar que o tempo e o conceito são a
verdade do espaço e da intuição. Assim como o significante se apaga pelo
significado que o releva, o tempo é o veículo da transição orientada pelo
sentido, isto é, do Relevo. A voz, o som fônico, é o mais aparentado ao tempo,
como veículo do espírito. Pela voz o som anula a sua mácula, o seu vínculo
natural, para se tornar “exterioridade realizada da interioridade que se
manifesta”, conforme Hegel traduzido por Derrida.
O elemento
fenomenológico da voz se compreende assim topicamente instalado entre a
naturalidade antropológica e a idealidade psíquico-semiótica, assim como a
fenomenologia, ciência da experiência da consciência, se instala entre a
filosofia da natureza e a filosofia do espírito. Ora, é preciso apreender aqui
a importância do que é nomeado por essa transição. Pois o som significado não
apenas transporta a idealidade ao exterior, mas transforma o exterior num meio
de sentido, promove a existência sensível à existência representativa ou
intelectual, transforma, pois, o mundo e a experiência.
É a língua e as
trocas semióticas realizadas na parole que fazem asceder ao domínio da
representação, mundo espiritual, da cultura ou do humano no sentido
forte. Hegel não perfaz uma linguística, é certo, mas conceitua os seus
lineamentos, que comportam a oposição entre o elemento formal, gramatical, e o
elemento material ou lexicológico. Este último reenvia, regressivamente por
relação à teleologia, à antropologia e à filosofia da natureza. A gramática,
inversamente, reconduz à especulação e à lógica, à filosofia do espírito.
A palavra, na
materialidade de sua emissão, está como que num momento hierárquico que envolve
na sua compreensão os desdobramentos da Física, desde o puramente material ao
já de algum modo manifesto da luz ao som, e na Estética, o estudo dos sentidos
humanos, desde os puramente naturais como o tatear, o provar pelo gosto ou pelo
olfato, àqueles que Hegel designa os sentidos teóricos, o ver e o ouvir. A
captação do som é, portanto, o cume desse desenvolvimento que ordena a
materialidade para o relevo de si mesma, a idealidade. O som, elemento mais
imaterial dentro do elemento mesmo da materialidade, é o sentido que realiza a
maior negatividade, tanto da exterioridade sensível quanto de si mesmo como
veículo exterior, pois o som se desvanece, é estremecimento ou vibração que
nega duplamente o fora, correspondendo assim o mais intensamente ao dentro, “à
subjetividade interior”.
A formalidade
gramatical já se instala no pleno espiritual, ainda que de início somente no
patamar do entendimento. A gramática está informada pelas categorias lógicas do
entendimento, e Hegel pensa que as línguas primitivas permitem comprová-lo de
modo mais abrangente do que as línguas mais desenvolvidas dos povos cultos,
pois nestas a gramática se apresenta como que simplificada ao máximo, enquanto
que naquelas as formas gramaticais se estendem nos seus detalhes.
Mas isso enquanto uma
comparação entre linguagens faladas. Pois no que concerne à evolução da
escrita, trata-se de mostrar como, dado o predomínio fônico, ela é algo totalmente
acessório, portanto quanto menos investida na materialidade significante tanto
mais aproximada à eficiência. A escrita é conceituada por Hegel como “suplemento”,
como expressa algo ironicamente Derrida, para quem o termo suplementar
significa algo mais do que simplesmente apor um acessório, mas sim um movimento
bem mais visceral, transgressivo, ao mesmo tempo que compreensivo daquilo que
se suplementa – o que poderia parecer a dialética, mas não seria bem
conceituável assim.
Quanto a Hegel,
engaja-se agora na descrição da “hierarquia teleológica das escritas”, conforme
a expresão de Derrida, que vai considerar o mero poder “aprender a ler e a
escrever uma escrita alfabética” como algo de inestimável valor espiritual,
apto a afastar do “concreto sensível”, conctribuindo “de maneira essencial para
fundar e purificar no sujeito o solo da interioridade”, como esclarece o texto
da Enciclopédia.
Examina-se a
pasigrafia, ou escrita universal, historicamente localizável antes de Leibniz,
abrangendo os modelos egípcio e chinês, o que envolve o julgamento espiritual
de Hegel sobre essas culturas, mas também a abstração matemática tipicamente
grego-pitagórica. A progressão do déficit com relação à plenitude do espírito
compreende assim o hieróglifo, o ideograma e o hexagrama e atinge essa
perfeição paradoxal, de ser a plenitude de um déficit, com o número.
A manipulação
significante, cuja possibilidade é maximizada no formalismo matemático, é o
outro do pensamento, que ele mesmo suscitou, é verdade, mas que não deixa de
lhe fazer face, de lhe estar face a face contraposto. O encadeamento histórico
do hieróglifo à máquina do cálculo permite compreender o caráter apenas
aparente de um tal paradoxo. É que atingir o pleno da alteridade equivale a
poder ser formulado como o exato oposto daquilo a que se contrapõe,
assim como o número com relação ao conceito. Ora, somente o que é perfeitamente
oposto permanece embutido naquilo que lhe é contraposto, também como o
número permanece indispensável ao movimento conceitual.
O número é “determinação
absoluta da quantidade”, mas “colocada apenas de maneira totalmente exterior”,
conforme o texto da Lógica. A diferença se torna indiferente nesse
elemento quantitativo, pois não há para o número “objeto concreto que tenha em
si relações internas”, as quais, para que pudessem vir à luz, dependeriam do
labor da ciência. Não apenas esse trabalho científico parece desnecessário com
o número, este mais precisamente o impede, é o seu oposto, pois limita o que há
para compreender à decifração do próprio signo. Ora, isso, tal atividade de
decifração, é que é o oposto do pensamento, o seu “estranhamento mais exterior”
, conforme a expressão de Hegel traduzida por Derrida que conserva o termo
original “ausserte Entausserung”, permitindo, portanto, que se recorde
aqui a acepção fenomenológica da Extrusão.
A violência do signo
é essa atividade que consiste no desenvolvimento intelectivo-cognitivo de um
não-pensamento. O mais abstrato da determinação da exterioridade se encontra
pelo lado de dentro do pensamento puro, esse pensar “do estranhamento próprio
do ato de pensar”.
O pensar está posto
pela matemática, portanto, “face ao seu outro”, registra Derrida, esse outro “que
ele certamente suscitou que se lhe oporia em vistas a reapropriar-se (dele)”.
Se Leibniz fosse preservado, se o não-pensamento fosse constituído em modelo
ideal, estaria neutralizada a operação dialética. Hegel pensa que é preciso,
pois, “interiorizar, resumir, relevar” a oposição no pensamento, isto é,
o pensamento tornando-se esse relevo, o que assinala também o ponto alto do
texto de Derrida, onde se compreende a possibilidade da metafísica.
Pois que o pensamento
possa relevar a transgressão sensível, que é o que se formaliza no formalismo
matemático e no número, significa que é ele a verdade do Ser, não a coisa que
somente ele compreende que “é”– aí.
Assim, ele, o
pensamento, retroage sobre tudo o que veio se lhe opondo: é o signo que é a
verdade do símbolo, é o conceito que é a verdade do signo, mas o conceito é
essa “linguagem sem linguagem”, voz interior que murmura “bem junto do espírito”
– com efeito, atinge-se aqui a mais perfeita identidade do nome com o ser, como
demonstra Derrida.
Creio que se
evidencia por esse meio, plenamente, como a alteridade dialética é uma redução
do Outro ao Mesmo, tanto mais que possa nomear o Outro, situá-lo por relação ao
Mesmo, anulando-se assim, num só golpe, o Outro e a Alteridade. Ora, o que se
deveria interrogar aqui, como o faz Derrida, é sobre o que seria o negativo que
não se deixasse suprassumir, negativo que pudesse não “ aparecer como tal”,
isto é, que pudesse não “trabalhar ao serviço do sentido”: a resposta seria “muito
simplesmente uma máquina, e que funcionasse”, definida assim “no seu puro
funcionamento”, precisamente “no seu trabalho” – deveríamos grifar esse
possessivo.
Ora, eis o que “Hegel,
intérprete relevante de toda a história da filosofia, nunca pôde pensar”.
A máquina que pudesse funcionar “sem ser nisso regulada por uma ordem de
reapropriação”. Isso é o impensável de um pensamento que só pode pensar
relevando, isto é, constituindo-se como o relevo do seu oposto. O impensável
seria nomeado, se pudesse ser pensado, como pura perda, correlato do
não-funcionamento, do não-trabalho. Pois o funcionar não pode ser pensado,
nessa estrutura do relevo, na abrangência daquele possessivo.
O que está
impossibilidado de ser pensado é a Alteridade do pensar, o pensamento não
metafisicamente subsumido, e o que impossibilita é esse gigantesco psicologismo
que não apreende a sua própria maquinação. A condenação do cálculo como o “vazio
de substância” (wesenlos) do pensar, estende uma aproximação de Hegel a
Heidegger, a quem pertence a expressão entre aspas, conforme o texto de
Derrida. É à repetição que se opõe o espírito pensante-falante naquilo que
seria a sua perene novidade. Confronta-se portanto, de modo o mais extremo,
esses dois eixos filosóficos, o pensamento dialético do Mesmo e do Outro
pós-estrutural, pois aqui qualquer frase se lê ao mesmo tempo num sentido e no
seu oposto. Na acepção pós-estrutural, é a repetição que garante a Alteridade
não situada pelo Mesmo, enquanto a aparente espontaneidade da experiência
loquaz se torna o puro repor desse interditar o ver a irredutibilidade, mas
também o se ver o que se está a repetir – experiência do clichê.
O percurso da
Alteridade desde Hegel compreende, portanto, Nietzsche, Heidegger, Deleuze e
Derrida. Ora, a questão é que só intervem o que se designa geralmente
pós-estrutural quando a transcendência deixa de ser o modelo ou a destinação da
imanência, o que nesse percurso só parece ainda se verificar com Heidegger.
Aqui a alteridade está como diferença ontológica, isto é, entre o Ser e
todos os entes, pelo que a existência ou o humano, enquanto lugar do sentido
que recolhe o Ser na linguagem e na cultura, é transcendência, sempre uma
exterioridade que guarda o deslocamento do sentido pelo a-centramento do ente.
O humano nunca está totalmente nele mesmo, assim como a coisa não se ausenta de
si, inversamente, ele é esse estar se orientando a, transcendendo no tempo e
pela sua relação com o ser que descobre-encobre na linguagem.
O devir deleuziano
pretendeu conjurar a transcendência. Aquilo que se conceitua como a relação
importante não está nomeando um orientar-se conforme um sentido anteposto de
descentramento do sentido, um corte ou uma falha no ente que o faz carente de
Ser, mas, de modo inverso, algo que se restitui o ente na plenitude que é, ao
mesmo tempo, não fechamento na identidade, o que seria tão somente o
reinvestimento metafísico prévio à descoberta de Heidegger. A exterioridade se
torna o meio da multiplicidade.
Sem dúvida o projeto
derrideano da gramatologia se insere nesse âmbito pós-estrutural, pelo que
trata-se de recuperar as articulações que tensionam o campo do sentido. A uma
apreciação devida do percurso desse contexto teórico se reservará o estudo do
panorama contemporâneo.
Aqui se torna
necessário ainda esclarecer um tópico da polêmica que desde os anos noventa se
tem voltado ao pensamento de Deleuze, devido à sua relação polêmica com Hegel.
Há uma série de noções transversais liberadas no projeto deleuze-guattariano “capitalismo
e esquizofrenia” que incidem na compreensão da Alteridade não-mediada pela
oposição. Já o texto deleuziano “Diferença e Repetição” traça uma
espécie de linha de demarcação nos estudos humanos, pois sua teorização não os
tematiza do ponto de vista de uma filosofia ocupada apenas com sua própria
história, mas os utiliza constitutivamente na formação conceitual que,
recirculando, apresenta-se não somente como uma compreensão do contexto
epistêmico contemporâneo de plena vigência das ciências humanas, mas também do
próprio desenvolvimento da filosofia.
Por “noção
transversal” compreendo conceitos que interferem em vários campos de estudos, e
um exemplo importante seria o estatuto do problemático assim como enunciado
nesse texto. Isso foi utilizado por Jameson como uma demonstração de como
Deleuze apenas repõe de certo modo o que já havia sido feito por Hegel, a
saber, o produto conceitual da ambição de fornecer a resolução de todos os
problemas por via filosófica. Ora, Hegel teria realmente solvido o problema do
problema ao ligar metodologia e conteúdo pelo viés do problemático: é o modo
como concretamente um problema se põe que mostra, no mesmo lance, o seu sentido
pelo relacionar-se à totalidade dos problemas, isto é, ao Mundo.
Isso seria, nesse
texto de Jameson, o mesmo que faz Deleuze com sua noção de “problemático”,
assim como, para ele, a constelação de noções transversais liberadas por Deleuze-Guattari
são inteiramente resituáveis no conjunto de temas contemporaneamente investidos
e costumeiramente associados à originalidade de Hegel como a diferenciação de
sociedade e Estado, a inclusão das culturas não-ocidentais que naquela época estavam
emergindo no campo do saber europeu, o ultrapassamento da forma ou da
identidade pura pelo movimento conceitual. Assim, o conceito
deleuze-guattariano de desterritorialização seria o mesmo que abstração, as
multi-polaridades como multiplicidades seriam sempre expressões de uma
dualidade fundamental, a ultrapassagem teórica desses reducionismos, contudo,
se não podendo deixar de ser apontadas, seriam sua Aufhebung, o que
explica o título desse texto ácido de Jameson “Os dualismos hoje em dia...”.
Creio que o
importante é mostrar como a imagem do pensamento se tornou o impensável
nessa reapropriação de Deleuze por Hegel, mas também como isso testemunha o
inverso do que os autores que optaram por essa via antepuseram, ou seja, ao
invés dessa reapropriação ser algo sério, é a compreensão da novidade
pós-estrutural que depende do estabelecimento da crítica fundamental a Hegel. O
que não desmerece o lugar proeminente de Hegel no pensamento ocidental, mas
permite conceituar a transformação epistêmica que vem ocorrendo desde os anos
sessenta.
Contudo, aquilo em
que o estatuto do problemático se torna algo efetivamente não apropriável na
abrangência desse Mesmo é algo cuja emergência é sintomática da transformação
que só se compreende no desenvolvimento do estudo sobre a contemporaneidade.
Esse algo é o Virtual, noção que se tornou sempre mais importante ao longo da
obra de Deleuze, o que se pode observar em textos publicados na proximidade de “O
que é a Filosofia”.
Vimos como Foucault
estabeleceu a autonomia das empiricidades que estendem o espaço contemporâneo.
A descoberta de As Palavras e as Coisas, porém, não consistiu apenas
nessa autonomia que rompeu o quadro clássico, mas também na constante que se
instituiu no ambiente do Saber contemporâneo, o postulado antropológico que se
manteve como horizonte dessas autonomias, comprometendo-as de cert forma. O
postulado se constituiu no Saber como algo em simetria com a formação da
sociedade disciplinar. Mantendo esse esquema que considero válido e
extremamente proveitoso, as transformações da atualidade precisam, para ser
conceituadas, operar com essa exterioridade entre o Saber e o Poder, a fim de
que se possa oferecer o problema bem colocado de suas inter-relações.
A obra de Hegel enuncia o limiar da “modernidade”, quando o Saber clássico se fende, quando a Idade do Absolutismo se fecha. O conceito deleuziano do Virtual surge somente, aproximadamente, um século e meio após. A construção desse conceito parece-me depender inteiramente da conpreensão do que ocorreu nesse ínterim. Pelo que o panorama polêmico da pós-modernidade só deve aqui ser enunciado, já que ele se pronunciou como se ignorasse essa espessura, tudo o que veio ao encontro nesse meio tempo. Mas ele será retomado lá, no momento em que o Virtual estiver.
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Ilustrações ------------–
Watteau – Festa num parque. Cerca de 1718
Reynolds: Retrato de Giuseppe Baretti. 1774
Reynolds: Retrato de Miss Bowles com seu cão. 1775
Gainsborough: Retrato de Mis Haverfield. Cerca de 1780.
François Boucher: Madame de Pompadour. 1757.
Jacques Louis David: Madame Recamier. 1800.
George Iness: Peace and Plenty. 1865.
John Soane: projeto para uma residência no campo. 1798
Fragonard: o parque da Villa d’Este em Tivoli. Cerca de 1760
François Boucher: The Breakfast. 1739










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