Livro III
I – Renascimento – a
existência e o paradoxo
Relacionado ao amor,
como questão desse novo sujeito dado a pensar, está o riso. E como observa
Bakhtin, história e filosofia do riso tornam-se bastante aplicáveis à tarefa de
compreender o Renascimento.
Inicialmente é
preciso deslocar o foco de observação que vínhamos mantendo sobre o período
feudal. Assim, desde o estudo da cultura oficial que a filosofia escolástica
desenvolve, devemos nos aproximar agora da cultura popular.
Historicamente, a
delimitação dessas duas regiões se apresenta de dois modos possíveis de
relação. Ou esses elementos se distanciam, não se misturam ainda que coexistam
no interior de um mesmo complexo cultural, ou há continuidade entre eles de
modo que nas formas da alta cultura se podem encontrar aspectos precisos da
cultura popular.
À época feudal
coexistem, conforme Bakhtin, dois aspectos de mundo. Ao mostrar que esses dois
aspectos recobrem o popular e o oficial Bakhtin equaciona ao mesmo tempo o
popular medieval ao cômico-grotesco rabelaisiano do Renascimento.
Assim como as páginas
dos manuscritos da época de Duns Scottus e São Tomás se povoam de ilustrações
fantásticas “de inspiração livre”, inúmeras figurinhas sem relação com o texto
cuja descrição de Bakhtin faz lembrar os quadros de Hieronimus Bosch, na
consciência do homem feudal participavam os dois aspectos do mundo, o piedoso
oficial e o popular carnavalesco.
Mas esses aspectos
superpostos jamais constituíram no feudalismo uma via única. Eram princípios
opostos de modo que a irrupção “legalizada” do cômico se reservava ao
calendário festivo sendo tolerada assim como um procedimento de catarse,
purgando a inclinação irracional da alma humana.
Pode-se assim afirmar
que no contraste entre culturas oficial e popular no feudalismo, enquanto
aquela o representava exemplarmente como concepção imobilista e hirárquica do
mundo, com esta se anuncia no interior mesmo da época medieval uma “verdade
popular” que é fundamentalmente “antifeudal”.
O que ocorre no
Renascimento é a ascenção dessa cultura popular, e consequentemente do cômico,
à esfera da grande literatura. Bakhtin relaciona esse fato ao sentido agudo da
percepção histórica da época, isto é, à consciência de que um velho mundo
estava desaparecendo, à sensação do novo.
Já o cômico popular
do período feudal se constituía como compreensão alegre da finitude e da
renovação como interposições onipresentes da natureza, integrando o elemento da
materialidade e da mudança, do tempo e da alternância contínua, no devir.
Havia uma
conveniência dessas formas cômicas populares, portanto, na expressão das
perspectivas do Renascimento, enquanto que, paralelamente, o período se
institui por uma tradição de ruptura com a cultura oficial medieval. O que é
compreensível, pois o que a cultura oficial do feudalismo oferecia eram formas
conceituais aptas apenas a expresar a concepção de universo e sociedade
imutáveis, estabelecidos eternamente do mesmo modo por Deus.
Enquanto que as
formas descritas por Bakhtin de expressão do cômico popular – a anedota, o
carnaval, as formas do linguajar da praça pública, o calendário festivo, o
caráter comunitário das feiras, por exemplo – evidenciavam os aspectos
relativos e transitórios do devir ao mesmo tempo em que subvertiam as fórmulas
da autoridade instituída através da linguagem “livre e ousada” capaz de
fornecer o “conteúdo positivo mais rico às novas concepções de mundo”.
Com efeito, conforme
Bakhtin, a época do Renascimento interessava-se sobremaneira por formas que
pudessem possibilitar as máximas “franquezas de pensamento e palavra” que “procuravam
a realidade nova” ultrapassando o “horizonte aparente” das concepções
dominantes. A palavra devia agora revelar o que o costume e a convenção
mantiveram sempre oculto.
Esse sentimento do
novo se torna bastante evidenciado. Nessa época ocorre uma quantidade de
transformações que afetam profundamente as doutrinas previamente estabelecidas
sobre universo, ser humano e sociedade. Um erudito da geração anterior,
confrontado a um aluno em seus inícios escolares, pareceria desinformado. Mas
uma observação de Bréhier sobre Montaigne permite que se alcance o sentido mais
próprio do período.
Trata-se do espanto
da razão, a confrontação com os outros povos do mundo, a descoberta do
heterogêneo puro. Paralelamente ao desenvolvimento das descobertas das leis
naturais patenteia-se a irredutibilidade das culturas. Não há “uma” razão que,
à maneira estóica, possa servir de referência universal. O choque intercultural
mostra, inversamente, que o espírito humano é como um grande “inventor de
milagres”, que há inúmeras possibilidades de crenças, explicações de mundo e
linguagens, não apenas aquelas conhecidas no velho continente.
E já no interior
mesmo da cultura européia a desagregação do lastro do latim como língua oficial
em proveito das línguas nacionais antepõe o fenômeno trilíngue – latim
medieval, língua nacional, latim clássico que se quer restaurar – ressaltado
por Bakhtin. Assim se a fronteira de latim e língua nacional demarcava até aí o
limite entre as culturas oficial e popular, paradoxalmente a intenção
filológica do Renascimento em purificar o latim medieval através da
reorientação pelo latim clássico, o de Cícero, determinou a impossibilidade do
seu uso disseminado concomitantemente à universalização da linguagem da praça
pública, veiculando os pontos de vista e formas novas de pensamento, que até aí
se reservavam aos gêneros inferiores, pregões, farsas, comédia, etc. As
fronteiras culturais que demarcavam a irredutibilidade da diferença não se
reservavam ao distanciamente espacial, mas abarcava o tempo, as épocas, a
própria história.
Assim a descoberta
pirrônica de Montagne, conforme Bréhier. A ciência não concede o acesso por si
mesma a uma região superior da humanidade, mas seu valor depende do seu uso. O
valor da ciência é relativo àquele do ser humano que a emprega. Se “o homem” se
torna o objeto mais proeminente de estudo, ele não se visa como “natureza
humana universal” mas sujeito que se descobre a si mesmo “puro” frente ao
mundo, isto é, fundamentalmente desconhecido de si mesmo, não já determinado
por leis e predestinações asseguradas de antemão.
É a própria
interioridade que se torna opaca uma vez que não há certezas disponíveis. Sob o
verniz dos costumes o fundo do espírito, como afirma Montagne, é vagabundo e
flutuante. Estudando o seu próprio “eu” Montagne nada vê de previamente estabelecido.
É somente na experiência, em contato com as coisas e com as pessoas, que se
pode atingir algum conhecimento, relativo é verdade, de si mesmo, mas que serve
à condução da existência na positividade do devir.
Essa concepção “cética”,
mas renascentista, não propriamente antiga, tem bastante afinidade com o riso
rabelaisiano profundamente afirmador da vida. Pois não se trata de constatar a
falência do mundo feudal sem compreender que o que o inviabiliza é
infinitamente mais poderoso. A constatação é, pois, alegre. O tempo novo é
alegre, esse é o capítulo da história do riso em que ele não se dissocia da
noção de verdade. Montagne procura ainda nos livros “o prazer do divertimento
honesto” enquanto que mais tarde a modernidade clássica vai introduzir uma relação
fundamental de verdade e seriedade, riso e superfluidade.
O dogmatismo da
sociedade imobilista, a unilateralidade de uma concepção de mundo imposta como
verdade universal, havia povoado a consciência com as intimidações, os
dogmatismos, a hipocrisia. O riso expurga todos esses sentimentos que “mascaram
o conhecimento da vida” mantendo assim uma relação essencial com a verdade.
Rabelais, conforme Pinski, citado por Bakhtin, é o “pensador” que visa a
relação entre o riso e o conhecimento. Ocorre que essa “verdade” é a do ser
humano, do espírito que apreende os aspectos cambiantes, relativos e
alternantes do real em si mesmo. O físico e o espiritual
não mais se exluem.
São elementos que se alternam assim como os pares de opostos e os valores no
tempo.
As fontes teóricas da
filosofia do riso como meio de compreensão do mundo à época de Rabelais,
enumeradas por Bakhtin, são Hipócrates, Aristóteles e Luciano, o autor do “Menipo”.
Se o exame da influência de Luciano se joga mais no plano teórico literário, interessa-me
aqui especialmente a convergência de Hipócrates e Aristóteles.
Enquanto o
Estagirista observa que o riso é o próprio do ser humano, as concepções
hipocráticas relacionam-se à Demócrito em que o riso expressa uma concepção
filosófica do mundo, como intuição espiritual do ser humano que desperta
triunfando sobre temores derivados de superstições infundadas. Rabelais,
reunindo Hipócrates e Demócrito, havia efetivamente realizado exposições na
Faculdade de Medicina de Montpellier sobre sua teoria da “virtude curativa do
riso”, teoria em voga numa época que reservava à medicina e à astronomia a
preponderância entre as ciências.
Essa convergência
insere-se assim plenamente na “corrente das idéias humanistas” do Renascimento.
Pois não seria algo como uma prática terapêutica estritamente “científica” no
interior do quadro já completamente moderno da especialização que separa o
domínio natural positivo do âmbito da autocompreensão do próprio ser humano.
Ora, quanto a isso a
observação aristotélica é essencial, pois trata-se no Renascimento da
possibilidade de algo que Bakhtin designa como “concepção do mundo cômica” ou “aspecto
cômico universal do mundo”. Esse aspecto precisa então integrar, a priori,
o fato de ser humano, não ao modo de um conhecimento “objetivo” ou neutro dos
fatos.
Assim, ao invés de “concepção
de mundo”, algo que se pode pensar ainda como opinião ou mero aspecto
descritivo-apreciativo, exterior, da existência – que não me parece no entanto
ter sido o significado visado por Bakhtin – prefiro a expressão “compreensão de
mundo”.
Pois essa expressão
ilumina o acontecimento como eclosão do sentido, que está no cerne dos fatos
posteriormente descritíveis como concepções de mundo. O riso abre o mundo “humano”,
mundo que ainda não se absorveu nas leis de uma Mathesis Universalis mas que
expressa perfeitamente o paradoxo como sentido existencial pleno, lugar em que
o profundo senso do cotidiano que impregna as formas da comicidade popular não
são ainda a esfera do privado que localizará o cômico burguês da modernidade
clássica.
Assim se Pinski,
conforme Bakhtin, capta a “relação imemorial” entre o riso e a alternância
temporal, parece-me oportuno observar que entre as situações cômicas analisadas
por Bergson, as que mais se aproximam da obra de Rabelais são as de inversão e
de interferência de séries. Assim a troca de papéis (coroamento do tolo,
coincidência do horóscopo do bufão e do rei, utilização chula ou irreverente de
elementos habitualmente sacralizados, glutões e ébrios mais sábios e lúcidos
que o intelectual típico, etc.). Assim também as associações inesperadas
(sombra da igreja que fecunda mulheres, muralhas da cidade formadas pelos
próprios habitantes, etc.).
Mas de modo inverso
ao cômico burguês dos exemplos de Bergson, sente-se nesse conteúdo rabelaisiano
mais do que o exagero, algo como a derrubada das fronteiras que ao invés de
somar ou encadear noções provindas de regiões diversas do real, fazem
interpenetrar aquilo que se mantem ou deveria se manter expressamente disjunto.
A interferência não
incide jamais sobre séries quaisquer, mas o efeito grotesco supõe que essas
séries sejam forçosamente imiscíveis. Ora, no Renascimento, como mostra
Bakhtin, ocorre uma “assimilação dos elementos cósmicos nos elementos do corpo”.
A relação de macro e microcosmos não se fazia ao modo da representação
simbólica mas como corporificação, ato de conferir o sentido de si, do corpo
próprio e seus processos fisiológicos, como idênticos à materialidade dos
elementos.
O corpo humano se
torna o centro em que se reúne a heterogeneidade do mundo novo, o universo
infinito que substitui o geocentrismo das esferas delimitadas. A espacialidade
se torna horizontal comportando relações de movimentos para trás e para a
frente ao invés da verticalidade pura do gótico. A horizontal do tempo se
desloca inexoravelmente do passado ao futuro.
É inevitável recordar
o modo como Santo Agostinho conjurava sua própria descoberta do tempo anímico,
orientado pela expectação do futuro, através do tempo teológico que era a
personificação da imutável ordem do claustro apta a reproduzir a hierarquia dos
espíritos e a eternidade do tempo da criação através da estabilidade
institucional eclesiástica. Comparando essa concepção com a de Pico della
Mirandola, assim como observada por Bakhtin, vemos que o conceito de
humanidade, agora , impede completamente a possibilidade de subtrair-se ao
tempo do futuro.
O ser do humano, em
Pico della Mirandola, é existência e futuro pois enquanto tudo o mais tem uma
natureza completa e imutável, como única semente a partir da qual se
desenvolve, os seres humanos recebem as sementes de todas as vidas tendo então
que escolher o que neles se desenvolverá: vegetal ou animal, anjo ou filho de
Deus, há liberdade de escolha. O corpo humano reúne todos os elementos e reinos
da natureza, pois o ser humano é aquele que escolhe, no devir histórico, o
sentido de sua existência.
E o paradoxo já se
instala assim nessa concepção do cômico popular em que tudo o que há de mais
oposto se interpenetra, não apenas se toca. Bakhtin ressalta os elementos de
ambivalência e hiperbolização que afetam o cânon do corpo renascentista
rabelaisiano. O corpo cósmico que acentua as funções fisiológicas capazes de
turvar toda delimitação de exterior e interior, movendo-se sempre na continuidade,
acontecimentos de membranas, subverte o sentido da necessidade material no
cômico ao projetar-se parcialmente, hiperbolizando alguma parte ou função que
se torna repentinamente autônoma.
A própria linguagem
popular é ambivalente, de dupla tonalidade, o que se traduz pela
interpenetração frequente de séries injuriosa e elogiosa sobre o mesmo objeto.
Esse aspecto se reencontra na literatura bíblica em que o efeito retórico é
alcançado ao se estender do mesmíssimo modo a série de castigos ou recompensas
que têm lugar conforme a inobservância ou a observância da lei instituída – não
se trata de simplesmente “informar” sobre consequências.
Observa-se assim a
correção da perspectiva de Bakhtin sobre o enraizamento feudal, não tanto
antigo, da matriz formal ou prática do cômico renascentista. Quanto a isso,
Bakhtin insiste na impossibilidade de assimilar, por exemplo, o cômico
rabelaisino ao satírico, apesar de uma certa resonância de formas com o treatro
antigo, como a do ágon.
Ora, nessa época o
humanismo cristão esforçava-se por reestabelecer o cristianismo primitivo,
purgado da oficialidade das fórmulas institucionalizadas da igreja. Podemos
aqui recordar que o paradoxo constituía uma das chaves desse cristianismo
primevo que parece ter se perpetuado na cultura popular . O paradoxo não
coincide exatamente com as formas do cômico clássico antigo onde a subversão
cômica se faz mais pela colocação lado a lado ou pela inversão simples que no
entanto mantem os lugares sociais bem delimitados.
Se o paradoxo irrompe
na sofística, observa-se nela aquela acentuação singular à época em que se
desenvolve, acentuação justamente humanística, em que é o sentido da
compreensão humana, o Nomos, que se torna o que se dá a pensar. Pode-se
inclusive propor que as formas de recepção da sofística posteriores ao século V
ac. apresentam o mesmo deslocamento da compreensão do seu sentido que as do
cômico rabelaisiano renascentista em relação à modernidade.
O que os textos
antigos que a recepção ampliada pelas traduções fornecem ao mundo do
Renascimento propiciam é uma tomada de consciência da época a respeito de seus
próprios arredores, por assim expressar, conforme Bakhtin. E esse é a meu ver o
sentido da recepção histórico-crítica do humanismo em relação à literatura
clássica antiga. Ao mesmo tempo em que se procurava libertar os textos das
sobreinterpretações espúrias dos códigos instituídos pelo dogma, procurava-se
também no próprio acervo da cultura o que se havia semeado às costas da
oficialidade de modo a instaurar-se uma prática real e atualmente válida das
formas do cômico popular.
O sentido existencial
pleno dessa prática estava no mundo da vida mas assim como poderia ser visada
no âmbito dessa compreensão instauradora do riso conexo à revelação da verdade
que é paradoxo. A situação cômica por excelência é também a do inesperado como
a do “boneco de mola”, registrada por Bergson, que salta da caixa sem que se
espere que algum conteúdo ali pudesse apresentar qualquer capacidade de ação ou
movimento.
A existência estava
povoada dessa experiência, à época do Renascimento. Continentes e povos
desconhecidos, o sol central e a terra girando em torno, novidades matemáticas,
inovações terapêuticas, descobertas de todo tipo, e a visão popular que sabia
penetrar com naturalidade o caráter insólito do real, a impermanência
característica do devir, a coexistência do mal e do bem impossíveis de
cindir-se em traços nitidamente destacados.
As funções materiais,
corporais, são agora consideradas essenciais à preservação das funções sublimes,
espirituais, por exemplo, ou a situação de alternância onde o fim de um ciclo é
pressuposto ao início de outro. A constatação do mais inesperado no interior
daquilo que é o mais familiar é o aporte propriamente humano da descoberta da
existência como sendo ao mesmo tempo seu próprio motor e finitude. O papel
central do corpo é também a consciência aguda dessa finitude constitutiva.
Esse riso que abre o
mundo subjetivado comporta algo de irredutível ao momento posterior que se
inicia no século XVII, a partir do qual já não se situa a compreensão de
Rabelais no interior do seu próprio universo de sentido, daí os deslocamentos
das interpretações analisadas por Bakhtin no âmbito da recepção moderna e
contemporânea da obra rabelaisiana. O que poderia parecer algo insólito se
considerarmos que é à época de Descartes que se desenvolve precisamente o
panorama da filosofia do sujeito.
Mas muito da
argumentação de Bakhtin reside na comparação do Renascimento com esse momento
posterior de modo a ressaltar a incompreensão que nele se manifesta quanto ao
aspecto filosófico do riso rabelaisiano. Assim por exemplo a descrição do cânon
corporal moderno em relação ao renascentista. No cânon moderno a corporificação
é um negócio de fechamento, delimitação, superficialidade como fronteira nítida
de interior e exterior que impede as interpenetrações, ambivalência e
hipérbole, do cômico de Rabelais.
É a observação de
Montagne protestando contra as novas restrições que os costumes já estavem
impondo ao ímpeto liberalizante da linguagem do Renascimento. Conteúdo e
expressão de um novo plano, o da estratificação do sujeito moderno.
Incide também aqui o
problema periodológico do Renascimento, não-feudal, não-moderno de todo.
Prolongando a cultura popular do passado, antepondo oficialmente antiqui
e moderni – perpetuadores das discussões escolásticas que vão se
estiolando e autores de uma nova visão da liberdade filosófica e especulativa –
mas sobretudo humanistas, envolvidos com essa compreensão de mundo jogada na
abertura da própria individuação. Quanto a isso, dobrando-se a cesura,
reencontra-se o século XII no século XIV, a retomada do espírito chartrense em
plena tarefa de superação da escolástica.
O que ocorre é que
nesse plano de centralidade corporal, nesse mundo de semelhanças e influências
universais, o sujeito não tem o caráter de generalidade, não é propriamente o “ego”
cartesiano, forma geral de individualidade para si. Não se deveria mesmo,
talvez, falar de “sujeito”.
Entre a alma como
unidade intelectiva do tomismo e a hecceidade escotista o que muda é a
referência do humano conforme o seu lugar específico no plano da criação em
favor da singularidade como dado a pensar na efetividade do seu vir a ser
esse-ente-aqui. Mas precisamente o corpo-microcosmo não se delimita por
oposição ao universo ou ao outro mas se constitui por sua inserção no mundo e
interação material. O que garante o acontecimento – apropriador existencial que
é abertura do sentido. Assim a individuação não se faz ao modo da pessoa,
sujeito, coisa, forma, substância.
Há somente conjunção
de afetos (latitude) e reunião de elementos materiais (longitude), intensidade
e variação entre relações de movimento e repouso. Se essa cartografia é
espinozista, a hecceidade é já o conceito escotista que insere a individuação
no plano da vida, que não se confunde com o do “sujeito”.
A hecceidade é
contração de essência ou grau de potência, na leitura de Deleuze, tom de
brancura e grau de calor, designando-se sempre como positividade plena ao invés
de diminuição do ato puro. Assim só há existência onde o ato é já agenciamento,
“independente da forma de seu conceito ou da subjetividade de sua pessoa”. A
hecceidade é acontecimento que torna singular – o momento, a vida de Sócrates,
o passeio, a estação, o clima, o vento, o bando de animais, mas de maneira que
tudo o mais, o mundo inteiro, se precipita nisso que se tornou singular. É a
concepção ek-sistencial pela qual isso, o cão magro que corre na rua, é a rua,
na visão de Virginia Woolf.
A essência se
contrai, mas a essência só pode ser tudo isso que ela é. A “socratidade”, o
sujeito eterno, não seria sujeito de todo no sentido de algo que não é nada
mais que somente ele mesmo. Mas tampouco é a generalidade do ser que pode, de
outro modo, ser visado particularmente. A neutralidade da essência em Duns
Socott abarca o universal tanto quanto o particular. Mas a socratidade, como a
hecceidade, como os acontecimentos desse corpo microcósmico do Renascimento,
não seria “acontecimento” sem ser também “sentido” – daí seu caráter de modo
algun contingente mas eterno. Mais propriamente a-crônico, aiônico, ainda não
tendo vindo, sempre já tendo sido.
O que estou opondo é
portanto a generalidade do sujeito moderno, que se relaciona à formação
capitalista da sociedade de controle que surge na “grande internação” da
modernidade clássica como reporta Foucault, indivíduo irredutível ao outro mas
forma de generalidade coextensiva a todos, à “universalidade” do “sujeito”
renascentista, hecceidade em que o mundo inteiro se contraiu abolindo a fronteira
do mesmo e do outro. Contudo, apreender essa movimentação complexa que
relaciona a transição ao Renascimento e o alvorecer cartesiano da modernidade
requer novas aproximações que se orientam agora mais no sentido do conceito
filosófico.
Há dois eixos dessa
orientação que me parecem aptos a conduzir a compreensão das mutações em jogo.
O eixo ético-político em que se observa a consolidação ideológica do Estado
absolutista e o eixo epistemológico em que se vê a Metaphysica generalis
transformar-se em Mathesis Universalis, conforme a expressão de Chauí.
Aprecia-se desse modo a continuidade imanente ao devir da filosofia, isto é, na
mudança de planos a historicidade do conceito.
II – A fissura
constitutiva
O revival do espírito
chartrense pode ser de certa forma visado em Roger Bacon, no que se relaciona à
dissociação de sua física que deduz fenômenos naturais das propriedades dos
elementos e de sua experiência das forças ocultas da natureza com relação à sua
concepção da unidade do conhecimento dominada pela revelação.
Em Bacon a mutação se
torna bastante evidenciada pela vinculação manifesta com a inspiração de Santo
Agostinho de uma unidade espiritual pela qual as artes liberais devem servir à
teologia assim como a filosofia que pode apenas ser útil na refutação dos erros
dos gentios. Pode-se avaliar que a posição tomista que designa ao exercício da
razão autonomia em seu domínio havia surgido como ruptura dessa perspectiva
patrística, instituindo porém precisamente aquele acordo próprio à Escolástica
pelo qual a aplicação autêntica da razão é a filosofia aristotélica e enquanto
verdadeira ela deve confirmar a Escritura.
Mas ao invés de
determinar uma prática de limitação do discurso racional ao desenvolvimento
conceitual de noções que estendem proposições nucleares da Revelação,o que
Bacon apresenta é uma ênfase na experiência como terceiro modo de conhecimento,
entre a autoridade e a razão silogística. Bréhier acentua a natureza mística
dessa “experiência”, que não pode ser identificada assim ao método científico
moderno. Por esse meio Bréhier pôde explicar de certo modo a vinculação
franciscano-agostiniana do doutor mirabilis, que afirma o conhecimento por
iluminação, com essa atitude “experimentalista”.
Tratar-se-ia de
experiência no sentido da alquimia, astrologia, magia e manejo de forças
ocultas em geral com base em uma concepção de universo como lugar de
influências das forças emanadas. E essa experiência “de sentido externo” tem
ainda em Bacon sua contraparte na experiência “de sentido interno” que é a do
êxtase. Bréhier relativiza assim o caráter precursor de Bacon que tem sido
considerado antecessor da moderna ciência experimental.
Ocorre que o que
Bacon realmente antecipa é o Renascimento que deverá se caracterizar justamente
por esse tipo de conjunção de (neo)platonismo extático e experiência de sentido
externo. Mas o papel do misticismo se reduz progressivamente até a perspectiva
de Leonardo da Vinci que define a verdade não como algo acima dos meios do
espírito humano e sim pelas conclusões naturais e válidas que excluem tanto as
visões sistemáticas quanto a transcendência e a postulação de realidades
ocultas. Mas it’s a long way entre Bacon e Leonardo e, não obstante, a via
mística prossegue no exterior do ambiente acadêmico de maneira a alcançar uma
ressonância social bastante ampla.
Assim a trajetória do
pensamento Renascentista se relaciona com pressupostos que deverão conduzir ao
momento de racionalidade ilimitada como definição do Ocidente. O que o embasa
sendo a configuração nítida de sujeito e objeto, sujeito e mundo, como
realidades separadas, irredutíveis. Não há na modernidade estrita traços
daquela correspondência de macro e microcosmos. A individuação deixou de ser um
problema.
Assim compreende-se
que a polaridade, desde a época de Descartes, vai abranger o sentido dessa
resolução, seja na via subjetivo-racionalista ou objetivo-empirista. Isto é, do
inatismo das idéias que asseguram a realidade intelectivamente coerente do
mundo irredutivelmente exterior, ou do primado da experiência que se institui
numa relação com as leis do espírito que não se deixam porém compreender de
fora dessa relaçãomesma.
A experiência, desde
aquilo que, conforme R. Bacon, abrange tanto o sentido externo quanto o
interno, deverá portanto se compreender na modernidade estrita pela síntese
desse verso e reverso mas não com base no princípio de unidade universal
profundamente místico do neoplatonismo, que será contudo quase onipresente no
Renascimento.
Vimos que desde a
Escolástica tomista o que se torna o sintoma desse mundo novo é o sujeito.
Inicialmente trata-se do estatuto epistemológico que em São Tomás dota a alma
com a autonomia de substância espiritual. Com Duns Scott a individuação começa
a ser pensada como gênese de um mundo (a)subjetivado. O processo se completa,
por assim expressar, com o nominalismo em que se abandona o problema da
individuação como a um falso problema.
Pois ele depende da
preexistência do universal como princípio de conhecimento humano, o que se
propõe no nominalismo como verdadeiro contrasenso. Ora, como observa Bréhier o
nominalismo dos séculos XIV e XV é algo que não se pode reduzir a apenas uma
solução particular do problema dos universais. Trata-se do “espírito novo” que
despreza as questões metafísicas, considera as verdades de fé como heterogêneas
e inacessíveis à razão, pura questão de crença pessoal, e que se mantém no
âmbito da experiência.
O nominalismo afirma
que o universal, a espécie, resulta de certo modo pelo qual o espírito
considera a imagem sensível, minimizando as diferenças. Mas conforme o
peripatetismo autêntico, o que existe na verdade é a substância, os indivíduos
reais, aquilo que constitui o objeto original do conhecimento.
Nessa relação, que já
se concebe como sendo a do sujeito do conhecimento com seu objeto, claramente
enunciada de início com Pierre Auriol, a realidade desse objeto aqui é o que há
de mais eminente como conhecimento efetivado por esse sujeito aqui. Ao invés de
visar o universal, como se houvesse uma forma ou espécie por si mesmas subsistentes
no exterior da coisa ou da relação intelectiva, o que ocorre no processo da
episteme é que as coisas produzem impressões no intelecto, impressões que
variam em força e precisão.
A impressão ou
aparência que assim se produz é designada por Pierre Auriol como Ser
Intencional (esse intencionale), conceito ou concepção, como uma
aparência do objeto, um reflexo (forma specularis) da coisa no
intelecto. É´ de grande importância a transição da “espécie inteligível” à “intencionalidade”.
Trata-se agora do objeto
da consciência ao invés de uma intermediação pela qual há conhecimento da coisa
pela alma. Ás coisas elas mesmas, poder-se-ia propor, lembrando a fórmula da
fenomenologia husserliana. Pois o ser intencional não possui outra realidade
que aquela mesma da coisa visada, mas é o objeto, presente ao espírito, naquilo
em que este o visa atualmente. O que me parece, porém, impossibilitar a
interpretação dessa tese, que penso contudo ser bastante fiel a Aristóteles,
como fenomenológica, é que o pensamento de Husserl depende fundamentalmente de
conceitos inexistentes na história da filosofia até Descartes, o conceito de “Ego”,
e ainda da Revolução Copernicana da filosofia, que com Kant transpôs a noção de
transcendental.
Sem tentar antecipar
o que deverá ser mais detalhadamente examinado posteriormente, já se pode ver a
interdependência Kant-Descartes nisso pelo que só se poderia propor o
transcendental como conhecimento daquilo que condiciona a experiência após
ter-se efetivado a completa separaçãodo sujeito,o que ocorre com o Ego
cartesiano frente à experiência – o que também exige a formulação do empirismo
de Hume.
Ora, sujeito e
experiência como dois campos contrapostos ainda não estão nitidamente
formulados no Renascimento. O que ocorre no nominalismo, como precursor do
empirismo, é apenas a transformação da problemática da alma ao domínio da
consciência. Transpor o problema do conhecimento para esse domínio é
efetivamente recolocar a questão no âmbito da Physis, em que o peripatetismo se
desenvolve. Assim o epíteto Renascença está correto, quanto a isso, ganhando
todo o seu sentido.
Trata-se, no
aristotelismo autêntico, como já observado por Aubenque, da reversão das
relações tradicionais entre metaphysica generalis (a ontologia ) e metaphysica
specialis ( a teologia ).
Enquanto o
neoplatonismo supõe Deus acima do ser, o Deus de Aristóteles é a essência,
incontestavelmente Ser. A questão não seria como elevar a linguagem, feita para
falar do ser do sensível, ao mais que ser de Deus mas sim como a intuição humana
destinada a Deus ou ao Ser “pode se degradar a um discurso indefinido sobre o
menos que ser do mundo sublunar”, conforme Aubenque.
A ontologia
aristotélica é metafísica da particularidade, do ser em movimento desse mundo
sublunar. Assim o que é propriamente generalis deveria ser a teologia, a
ontologia sendo o que deveria ser o specialis, “metafísica da
Particularidade, da Exceção”, na expressão de Aubenque. Vê-se por esse meio que
não se poderia postular uma redução no sentido do transcendental mesmo que sem
postular o Ego Transcendental. Isto é, não se poderia tentar definir o ser do
peripatetismo, como verdadeiro e falso, ao modo de uma afecção do pensamento,
funções lógicas suas.
Pois para que seja
verdadeira, a ligação no pensamento deve expressar uma ligação nas coisas, a
concepção da verdade é, pois, não lógica mas ontológica. A ambiguidade entre
essas duas posições se inscreve, conforme Aubenque, entre as citações da
Metafísica: K 8 e a verdade
lógica, Q 10 e a verdade
ontológica, sendo a chave E 4. A verdade é sempre desvelamento. Na visão de
Aubenque não ocorre jamais o “oubli” heideggeriano em Aristóteles, do
ontológico pelo lógico.
Não se delimitando
contudo a teoria do Estagirista a uma simples questão de adequação, o que a
palavra faz é “deixar expressar em nós uma certa relação de coisas que existe
independente de nós”, conforme Aubenque. A palavra desvela isso que existe, a
função copulativa do verbo ser se constituindo como o lugar em que “a intenção
significante” se ultrapassa e onde as coisas nascem ao sentido. Assim a
interpretação tomista que Aubenque cita: quantos modos de se predicar, tantos
modos pelos quais o ser pode se expressar, havendo tantos modos de ser quanto
de dizer.
Mas não porque o
dizer condiciona o ser e sim porque a verdade da linguagem humana é sempre
prefigurada ou pré-dada nas coisas mesmas. Assim a dualidade expressa em
Guilherme de Okham entre a significação da palavra (intentio animae,
cenceptus animae ou passio animae) enquanto unversais naturais (universalia
naturalia) e os universais convencionais que são os próprios termos, a
palavra como instituição humana que significa, no entanto, a coisa.
A vinculação dessa
teoria aristotélica com o nominalismo parece-me bastante confirmada.
Historicamente é como se o nominalismo já com Pierre Auriol resgatasse, no “ser
intencional” essa “intenção significante” que a vinculação da interpretação
(neo)platônica tendeu a obnubilar no sentido seja do primado do universal seja
da postulação formal da espécie inteligível derivando assim problemas que o
peripatetismo jamais se propôs resolver.
Mas quanto a reduzir
a teoria do Estagirista a essas correntes, nominalismo ou empirismo, já isso
não me parece completamente exequível. Entre os motivos que poderiam se
estender há o que me parece mais importante a ressaltar. É que se o sentido do
Renascimento pode ser visado, por exemplo, nesse aporte nominalista em relação
à doutrina autêntica do peripatetismo, há uma série de pressupostos históricos
que vinculam o nominalismo ao cenário posterior que será de empirismo versus
racionalismo, como já vimos, irredutível à ambiência da Antiguidade como à
medieval. Em geral prefiro ver em cada teoria a relação constitutiva que ela
mantem com a consistência epocal em meio a que ela pode traçar o seu próprio
plano.
Assim o meio “Renascimento”
mantém, a par da polêmica de antigos e modernos que opõe tomismo, escotismo e
okhamismo, a contrapartida desses movimentos universitários – principalmente do
okhamismo nominalista – no misticismo alemão de mestre Eckart que é inseparável
da vida monástica dos conventos.
Se nas universidades
estudam-se os clássicos e desenvolvem-se termos cada vez mais especializados na
condução das explanações teóricas, nos conventos os místicos usam a linguagem
vulgar, expondo sobretudo através da afirmação, da sentença, da Visão.
Mantém-se aí a vinculação com o pensamento de Plotino. Trata-se de “ascese”, de
afastamento mundano rumo à realidade puramente espiritual.
Mestre Eckart ensina
o amor, como plenitude e identidade com Deus, que se traduz por completa
passividade à vontade de Deus, de modo que o prêmio, a salvação, deixa de ser
objetivado por si mesmo. O amor, inseparável da inteligência, como o Espírito é
inseparável do Verbo, é a união comDeus mas não tanto como objetivo único da
alma e sim como seu ser mesmo. As virtudes decorrem naturalmente dessa
liberdade completa que pertence à alma desde que ela não de desvia de seu ser
autêntico.
A doutrina da alma e
de seu destino, a união com Deus, é ao mesmo tempo, conforme Bréhier ,uma
teoria do ser. Trata-se da descoberta mesma da realidade das coisas. Bem
inversamente a Duns Scott, Eckart afirma que conceber o indivíduo como dotado
de realidade no mesmo sentido que Deus, propor a univocidade do ser, torna
incompreensível o destino das criaturas. A individualidade deve ser apenas
puramente contingente, como um estado provisório, pois todas as criaturas são
unas em Deus.
A manifestação das
coisas corresponde à revelação dessa unidade mais fundamental. Assim a criação
se desenrola como processão, o mundo é expressão de Deus. O Filho sendo o
Verbo, palavra ou inteligência, e o Espírito Santo sendo o amor que une o Filho
ao Pai, cada coisa tem seu ser eterno compreendido no Verbo. “A criação é o ato
intemporal em que Deus se expressa em seu Filho”, conforme Bréhier.
A causalidade mística
de Eckart, mesmo tão próxima de Plotino, é de uma estrita imanência. Não se
pode assim nem mesmo dizer que a existência individual é o correlato de um ato
localizado de Deus, como se ele criasse em certo momento, por exemplo, o céu e
a terra.
Quanto à alma, sua
única função é o conhecimento. Mas sendo “de algum modo todas as coisas”,
conforme a expresão de Aristóteles, na inteligência em ato o objeto sendo
idêntico ao sujeito, a alma compreende todas as coisas ao seu modo, de modo
semelhante às hipóstases de Plotino.
A alma é o lugar em
que todas as criaturas reencontram sua unidade. O conhecimento não permanece
exterior às coisas, mas é transmutação, retorno das coisas a Deus. A doutrina
cristã em mestre Eckart alcança assim um sentido ontológico, o Verbo agindo
como igualdade da unidade. O drama do evangelho, o pecado de Adão, a salvação,
não são aspectos senão acessórios da encarnação que permite ver no Cristo a
imagem que a deidade inefável engendra na alma purificada. A regra de vida
consiste em saber que é loucura tentar perscrutar o ser de Deus. Crer sem
tentar desvendar, eis o que Ruysbroeck, nesse mesmo espírito, designará como
regra: a sobriedade.
Observa-se que
mantendo o aporte inverso ao nominalismo conserva-se aí, nesse misticismo,
contudo, a mesma atitude pós-escolástica de separação completa entre as esferas
de fé e razão. Ora, o contraste entre nominalismo e misticismo, entre
positividade da experiência externa e ênfase na experiência espiritual, entre a
universidade das castas intelectuais e o convento dos movimentos populares com
maior alcance social, parece a Bréhier testemunhar a cisão profunda que
caracteriza a vida espiritual entre os séculos XIV e XV. Contudo, o
Renascimento deverá procurar superar tal ruptura, conforme ele, por dois modos
complementares.
Ou se tenta organizar
a vida moral autônoma tendo como regra a natureza, que é a tendência humanista,
ou se nega qualquer possibilidade de justificação humana, reservando-a somente
à graça, que vem a ser a tendência da Reforma. Humanismo e Reforma, como já
observa também Carpeaux, inversamente ao que se costuma propor, são movimentos
basicamente antitéticos, mutuamente hostis. Assim essas tentativas elas mesmas
rearticulam a ruptura já no interior do próprio Renascimento, que por esse meio
a configura conforma a sua feição, por assim expressar.
A posição cada vez
mais contraditória da Igreja, ao mesmo tempo detentora do imenso poder oriundo
do mundo feudal mas já no cenário das transformações que ensejam o capitalismo,
com os prolongamentos ideológicos que correspondem a esse fenômeno, pode ser
relacionada, a meu ver, a tal cisão operante, constitutiva. A síntese de tipo
tomista que poderia espelhar esse poder unificado que a Igreja sonhava ser é
ela mesma um momento de ultrapassagem mais do que uma solução real. A despeito
do seu brilhantismo, o tomismo não poderia representar a estabilização católica
com a mesma extensão e solidez que o agostinismo patrístico implementou, por séculos.
Os fatores
históricos, incremento do poder temporal, reativação do comércio, descoberta do
novo mundo, vão de par com a fissura incontornável entre o sentido autêntico da
recepção ampliada dos textos antigos e o dogma ele mesmo resultando do fechamento
interpretativo platônico-plotiniano.
Contudo, enquanto o
capitalismo não se cristalizou universalmente na forma do Estado absoluto, essa
fissura se manteve paradoxalmente como linha de força da articulação do mundo
da Renascença em que ambos os influxos, o velho e o novo, coexistiam
inapelavelmente, sem posibilidade de se fundir nem de se resolver por um ou
outro termo singular.
Somente os processos
que se desenvolvem aí poderão fazer compreender o sentido que o momento moderno
da ocidentalizaçãoe efetivamente adotou. Não que se proponha apontar a evolução
dos acontecimentos num sentido determinista, como se derivando ao modo de
alguma obscura causalidade, mas sim observar como e quais decisões lançadas se
revelaram fundamentais nesse processo evolutivo.
III – A função
hermenêutica
Quanto à intentio
animae, ou “noção intra-anímica” na expressão de Apel, é interessante observar
que sua função designativa deveria não ser por princípio suposta no sentido da
idéia platônica, isto é, como identidade a si do conceito, dada como
eternamente estabelecida. Assim ela poderia ter sido proposta como pura
condição de possibilidade epistemológica. Já a possibilidade transcendental – hermenêutica
iria conservar a inteligibilidade desse grifo apenas se pudesse haver consenso
– common sense – sobre algo como algo.
A crítica de Apel se
apóia no seguinte. A intentio enuncia a impressão da coisa na consciência.
Independente da pragmática toda intelecção já está sendo proposta como
objetivamente orientada. Mas, poder-se-ia responder que aquilo que o
nominalismo interpreta assim é que qualquer concepção afirmada de algo sobre
algo corresponde a alguma intenção na consciência, como aquilo de que ela se
conscientiza.
Já para a perlocução
se consumar é preciso se ter consciência daquilo que a mediatiza – para que o
ouvinte se alegre é preciso que ele realize a intenção do logos da mensagem.
Somente a guinada de Kant poderia então conjurar essa preminência semântica da
intenção mas precisamente ela não se perfaz no domínio da linguagem.
Ora, o que Apel
realmente propõe como prévio é o acordo mútuo do sentido – sobre o sentido das
palavras que mediatizam as coisas e sobre o sentido do ser destas coisas assim
mediadas. Para que esse acordo se realize não ocorre de modo algum que o
processo possa vir a ser reduzido ao simples conjunto apontar. Todo o arsenal
poético e retórico se torna constitutivo dele de modo que ao que está em jogo
não se pode atribuir essa crítica de estar revertendo à semântica pura.
Enquanto que já o humanismo retórico, conforme Apel, atribui competência
filosófica a poetas e retores.
Institui-se assim a
dialética como círculo entre os níveis semântico e pragmático: idealmente
pragmático, o significado se estabiliza na semântica plasmando-se como
linguagem natural. Mas o meta-sistema da fala não está sendo proposto em algum
nível sintático-semântico mas sim como pragmático ou seja, como competência
comunicativa – que a competência linguística de Chomski, por sua vez, mediatiza
através das línguas particulares. É assim que o pragmático se torna
transcendental. E o significado se torna o resultado do processo, não o seu
ponto de partida.
Ocorre porém que
enquanto transcendental, meta-sistema, essa pragmática deve se propor sob o
modelo da universalidade. Logo ela encontra na linguagem o a priori que permite
derivar, no âmbito humano, a superação da cisão da filosofia teórica e prática
a partir de uma ética universalista do discurso. Esse é o sentido do a priori
da kommunikationsgemeinschaft. Enquanto verbalizável qualquer formulação
proposicional é, em princípio, proferimento, e enquanto proferimento
condiciona-se por um pressuposto ético que visa todos os seres humanos como
sujeitos de sentido, daí como sujeitos que pautam sua existência a partir de
razões.
Mas o que se torna
assim questionável é se em princípio o sentido de “proferimento” se presta a
uma tal universalização ética que não se performatiza a si mesma apenas
enquanto um formalismo. Assim é interessante observar que também Popper utiliza
a interlocucionalidade do discurso como critério de objetividade científica,
não tanto as condições pelas quais a ciência se produz. A interlocução nesse
caso é a possibilidade de contradição, de falseamento, logo o pressuposto ético
de toda pretensão científica de sentido, enquanto que o pseudo-logos marxista
ou psicanalítico, conforme ele, não podem por princípio ser falseados não
preenchendo assim esse requisito ético da cientificidade.
Ora, o deslizamento
produzido no âmbito da ética do discurso, que parece ser o traço comum de Apel
e Habbermas, se vê nisso: se a princípio “sentido”, como processo complexo da
gênese do acordo mútuo, precisava ser bem diferenciado de “consciência” ou “razão”
como faculdade de captação do significado, como é que se conclui por uma assimilação
universalista de ambos os termos? Não seria por um prejulgamento sobre o modo
pelo qual se produz esse acordo – que aliás não fica explícito?
E esse prejulgamento
hermenêutico não teria assim já de início se colocado no caminho problemático
da mediação, da dialética, demodo que todo o processo já de antemão deveria ser
pensado ao modo do universalizável, do ilimitável? Mas o que tornou a mediação
tão apropriada à démarche da hermenêutica transcendental?
A questão deve mesmo
se repor desde o início. Pois é a postulação do que vem a ser o originário,
enquanto formação de consenso, que se propôs de modo enigmático. Assim os
elementos poéticos e retóricos, o espaço de jogo pragmático, uma vez que se
tenha reduzido à pura forma do comunicável, se não pode ser dado como tendo se
reduzido ao significado, tampouco pode dele, completamente, se destacar.
Ou melhor, não se
pode destacar não tanto do significado mas daquilo em que a semântica se
enraíza – o âmbito da razão pura. A transformação da filosofia no rumo da
linguagem é assim mais essencialmente a transformação da linguagem no sentido
do que até aí se fez como “filosofia”, isto é, o âmbito do racional, do
universal. Mas a questão é que os elementos retóricos e poéticos já haviam sido
há muito visados na constituição do sentido por Nietszche. Contudo aqui
realmente há transformação da filosofia, que se estende agora à genealogia dos
valores, à esfera dos sintomas.
Porque o que esses
elementos acarretam, uma vez tendo sido visados na constituição mesma do sentido,
não como algo acessório ou exterior a essa constituição, é a necessidade de
instaurar as questões que desbordam o âmbito da razão pura, da forma pura, do
universal, na região do pensável.
O pensamento se
desloca ao âmbito da vontade, potência ou desejo, sendo este o alcance real da
revolução pragmática instaurada por Nietszche. Mas também o seu alcance
hermenêutico de modo que aqui incide a grande convergência Spinoza-Nietszche já
tematizada em Deleuze.
Supondo o resíduo da
análise como pura forma do comunicável não há como não se por numa relação
fundamental com o significado. Desde aí como se poderia compreender a
singularidade real se já foi instalada a reflexão no âmbito mesmo do seu
mascaramento? No domínio dos sintomas, da avaliação dos valores, a questão não
seria o que é que ou como é que a vontade comunica mas o que ela quer. Entre o
comunicar e o querer a relação não é de modo algum direta, ou não haveria a
mínima necessidade de hermenêutica. A relação é de mascaramento, de simulação.
O que sobe até a
esfera do significado se mascarou para poder chegar até aí. Assim o diagnóstico
espinozista acerca da linguagem: ela é da ordem do signo, da imaginação. A
ordem dos signos convencionais, que é a linguagem, é equívoca, opondo-se à
ordem das expressões, dos conceitos filosóficos enquanto idéias adequadas, que
é unívoca em relação à substância ou natureza.
A hermenêutica de
Spinoza foi aproximada por Todorov à corrente filológica do século XIX.
Trata-se do método histórico-crítico que une o estudo gramatical e estrutural
do texto, exclusivamente intra-textual, à interpretação de sua inserção
histórica, às condições de sua produção e recepção.
Assim a própria
tradição deve ser interpretada, portanto recusada como a priori da tarefa
interpretativa do texto. Mas aproximando-se do que Mello, no posfácio ao “Spinoza
e os Signos” de Deleuze, designa “hermenêutica desmistificadora do sentido”,
Spinoza não se circunscreve totalmente na corrente filológica tal como
reportado por Todorov.
Essa hermenêutica da
desmistificação pode assim clarificar as iniciativas de Marx, Freud e
Nietzsche, pois o que as caracteriza é a consideração do sentido latente que se
oculta sob o sentido manifesto. O sujeito mesmo está assim visado de modo
não-cartesiano: o quadro de suas intenções não coincide com o de suas posturas
empíricas, mas isso de modo constitutivo e sintomático. Seria enganar-se
totalmente, ou pior, manter-se no plano do simples controle ou julgamento
extrínseco sobre o agir alheio, pretender derivar o sentido das intenções pelos
signos da linguagem comum.
A comunicação, ainda
que como pura forma do comunicável, se torna limitada como projeto hermenêutico
de apreensão total da essência da linguagem porque não logra prever as margens
de sua equivocidade. Assim a expressão torna-se conceituavelmente mais
proveitosa quanto a isso, porque também não deixa de recobrir a ambiguidade
constitutiva pela qual o liame do latente e do manifesto não poderia ser
simplesmente descartado, pelo modo mesmo de ser do sujeito enquanto desejo e
conatus.
O modelo do corpo,
como afirma Deleuze em relação à filosofia de Spinoza , implica na descoberta
do inconsciente, logo, uma transformação da filosofia, sim, mas não da
consciência à linguagem e sim da consciência ao pensamento. Converge aí também
o diagnóstico nietzscheano da consciência como campo do reativo em proveito do
pensamento como lugar produtivo, criativo, das forças.
Mas também a
reinserção no pensamento da exigência de crítica das relações do sujeito com o
real. Assim propor o consenso ou acordo mútuo como termo de que deriva tudo o
mais deixa de oferecer a possibilidade de se determinar a ilusão, a dominação
do sujeito por imagens distorcidas do real, se não se estende a crítica
hermenêutica justamente aí. Inversamente, o que isso deveria supor é todo o
trabalho a realizar da genealogia dos valores.
Já observando-se o
sentido “extra-moral” da avaliação da noção de verdade em Nietszche, pode-se
compreender que o que está sendo proposto como hermenêutica de desmistificação
tampouco não seria equivalente a reduzir novamente à pura semântica como
significado último – a verdade, essa multidão “móvel de metáforas, metonímias,
antropomorfismos”, essa “soma de relações humanas que foram enfatizadas poética
e retoricamente, transpostas, enfeitadas e que, após longo uso, parecem a um
povo canônicas, obrigatórias”.
E por isso mesmo a
filosofia é necessariamente hermenêutica, logo compreende seu círculo. Pois a
ascese como “perda das ilusões da consciência” é condição de qualquer conquista
do “sujeito verdadeiro”, conforme as expressões de Ricoeur, mas essa ascese ao
mesmo tempo depende da linguagem mesma de que o sujeito crítico simula ter-se
posto no exterior. Contudo esse modo de simular supõe, em Spinoza, algo como
uma linguagem das idéias, sistema de conceitos inteiramente autodefinidos, que
se move agora no domínio do entendimento, não no da imaginação.
Criar conceitos, como
tarefa da filosofia, encontra assim o seu sentido no interior mesmo dessa
circularidade pela qual a crítica hermenêutica, propedêutica à filosofia, meio
de transpor o espaço ideológico, depende já da filosofia que a torna possível.
O que não invalida de todo o processo de compreensão já que o círculo, como
afirma Heidegger, é ontologicamente inerente à estrutura do sentido.
Mas observa-se assim
que o problema das ciências humanas encontra uma base bem mais ampla de
desenvolvimento. Pois frente à desqualificação da pretensão científica, logo
não-ideológica, da psicanálise ou do marxismo, tal como apontada por Popper –
esses discursos não falseáveis – não se poderia pretender que esse mal crônico
atinge toda teoria “humana” – desde que não se conforme ao modelo do controle
da opinião que está apenas para mensurar a probabilidade do “você decide”?
Desqualificação aliás quase mais séria do que aquela que incide sobre a
impossibilidade de movimentar-se no âmbito das determinações causais.
Ocorre que esse
confronto com Popper, tal como observado por Luc Ferry e Alain Renault,
permite, no âmbito dquilo com que estamos lidando agora, propor outro nível de
aplicação das teorias enquanto pensamento humano. Nível que não seria falseável
nem ideológico mas que atua ele mesmo como instrumento hermenêutico-crítico em
regiões especializadas como o ser humano e a sociedade, por exemplo.
Isto é, instrumento
de redução crítica da espessura entre o latente e o manifesto, ao mesmo tempo
mostrando em que essas instâncias diferem, como o manifesto se produz por leis
de mascaramento do que oculta, quais as relações determinantes da diferença, de
modo que a cura, como horizonte do processo, é pensada de modo heideggeriano
como algo não de todo dependente da simples decisão dos que nela se engajam.
Pois as forças que
atuam são demasiado amplas, as relações muito complexas, mesmo não apenas “materialmente”
sendo propostas aqui. Mas o que continua sendo o horizonte relativo da cura, ou
da terapia, é a decisão da recuperação da existência autêntica, no sentido da
ética dos devires.
Quanto a isso seria
oportuno observar o sentido do termo esquizo-análise lembrando que trata-se de
começar assim por não postular categorias como indivíduo ou sujeito ou
psiquismo ou sociedade, no limite, como noções que podem ser compreendidas por
si mesmas de modo preordenado, antepondo a isso que só se pode pensar
cartografando, isto é, não na base de uma tomada de decisão entre descrever de
fora ou participar de dentro mas em termos de composição de forças. Pois aquilo
que se designa como comportamento relaciona-se muito mais com as forças com que
alguém se compõem do que com um negócio de seguir regras.
A análise incide,
pois, sobre a dupla ligação presente naquilo mesmo que se visa ideologicamente
como pré-formado nas suas oposições estritas, por exemplo, sobre a noção de
sociedade na sua sobredeterminação constitutiva enquanto aparato de poder. Só
nesse sentido a-crítico a noção se oferece como extensível, precisamente, no
sentido da ilimitação. O algoritmo que opera essa extensividade é a oposição
dialética em relação ao indivíduo de modo que o “resto” da operação é a figura
do idiota, do isolado, definido como aquele que por si mesmo “resta”
problemático, anômalo, inadaptado, fora do normal.
A barra do algoritmo
é a função normativa que já permite mostrar que redunda num pleonasmo a
expressão sociedade de controle. A normalidade sanciona o indivíduo enquanto
noção mediatizada pelo social ao mesmo tempo que rotula o idiota como doente ou
marginal, o que se deve vigiar ou punir. Ora, a dupla-ligação consiste nisso
pelo que o isolado é função do social, a sociedade não seria de controle sem
ser de exclusão. A história analítica mesma já lida com a função de expiação do
doente por relação aos conflitos familiares não assumidos.
E quanto a isso seria
até pertinente propor a inserção da questão espinhosa da ideologia, os
preconceitos da classe proletária, no âmbito maior da função social de
exclusão, como se cada classe a exercesse ao seu modo constitutivamente
enquanto classe. Ora, a sobredeterminação esquizofrênica que opera na noção de
sociedade se faz de modo que o ônus fica todo do lado do idiota, a operação de
exclusão sendo, inversamente, como antônimo de associação, de ação social, de
sociedade como termo substantivado daquilo que se propõe mais fundamentalmente
como verbo – a “sociação” . A sociedade é universalmente o que reúne, o
excluído é o que se auto-segrega por suas próprias culpas ou deficiências.
Sem estender a
questão, penso que o importante aqui é ressaltar que a expressão
esquizo-análise é assim já em si terapêutica nisso pelo que alerta para o fato de
que é preciso localizar a sobredeterminação que se instaura naquilo mesmo que
se conceitua como o ideal universal das regras a seguir. Assim em cada caso é
preciso ver como se compõem quais forças, e como nos compomos, nós enquanto
forças, com elas. Trata-se de questões que não se dispõem do mesmo modo, no
interior das ciências humanas, do que decidir se o cientista joga ou não o jogo
de linguagem que analisa ou como se pode vir a compreender a regra que cada um
supostamente segue ao se comportar como algo.
A questão portanto é
deslocar o núcleo conceitual que articula esse tipo de questão, a saber a
categoria da “mediação”, utilizando-se a noção bem mais oportuna de “agenciamento”.
Mas retornando ao que vínhamos examinando, já o desenvolvimento da psicanálise,
que não se esgota de modo algum com Freud, não seria também devido aos “falseamentos”
que conduzem `a tranposição do plano suposto do psiquismo puro, rumo à
esquizo-análise? Mas esses processos de falsear não são simplesmente os que
Popper define, um tipo de prognóstico factual que se pode ou não desmentir, mas
algo como a coexistência de conceitos que se criam e se medem como poder
crítico-hermenêutico crescente das teorias em ciências humanas.
E à filosofia, mais
do que “servir” às ciências, não se reserva algo bem mais importante, criar
conceitos que favorecem a compreensão de todas essas ações e paixões: a
contemplação, a reflexão, a comunicação, que no entanto não se confundem de
modo algum com o seu exercício? Se assim for, o princípio filosófico originário
deve ser que os universais não explicam nada, eles próprios devem ser
explicados...
Inseri nessa altura a
questão hermenêutica por vários motivos. Um deles é que o nominalismo, com sua
recusa do problema da individuação, permite bem colocar o alcance da filosofia
aristotélica na sua oposição fundamental com o platonismo. Mas também porque a
apreciação de uma deriva transcendental da hermenêutica como a de Apel
demonstra demodo excelente o sentido do humanismo que está se esboçando no
Renascimento, tão relacionado à démarche platônica.
Assim esse movimento
complexo abrange: a) a oposição desse humanismo com o projeto cartesiano não
humanista; b) a oposição desse humanismo com o projeto espinozista que mantem
com o humanismo uma posição ambígua pela qual dever-se-á averiguar se e como se
pode postular que trata-se de outro humanismo ; c) a relação desses humanismos
com o devir das ciências humanas.
Esse capítulo pode
ser visado ao modo de algum como se orientar no pensamento. Agora, através do exame
daquele eixo ético-político deve-se estender o âmbito humanista característico
do Renascimento.
IV – Balanceando o
paradoxo
A conjuntura
paradoxal da sofística, como vimos, relacionava-se à singularidade da polis
democrática na ambiência do mundo antigo. Enquanto a democracia e o
desenvolvimento comercial têm por correlato o sujeito que empreende e escolhe,
todo o universo espiritual da Antiguidade orientava-se pela concepção
hierárquica e concentradora do real.
O motor imóvel
aristotélico, assim como o bem platônico e o Uno plotiniano, funcionam como
perspectivas dessa unidade do mundo, de que o Deus providencial do estoicismo –
a que Bréhier não hesita em atribuir uma origem semita – vem completar as
possibilidades a partir do corte socrático que instaura a cisão do conceito no
interior da Physis.
Quanto a isso não se
poderia propor que a intervenção metafísica designada por Heidegger corresponde
à separação das noções fundamentais de Physis e Logos? No entanto essa
operação, conservando-se no cenário da Antiguidade, teve por consequência frear
a dispersão que a sofística e a especulação científica liberada,
características do meio de influência jônico-ateniense, como vimos em Sagan,
ameaçavam estender concomitantemente ao estabelecimento da democracia
ateniense.
Mas se há algo comum
abarcando Antiguidade e mundo feudal é essa concepção una do universo. Se no
apogeu ateniense ela impôs o paradoxo do “eu”, vimos que na transição à época
feudal, no helenismo, o paradoxo é reencontrado na figura do indivíduo isolado
no interior da Urbe. No entanto, mesmo que a expansão do cosmopolitismo romano
fosse forte o bastante para impor à reflexão a realidade positiva desse
indivíduo autônomo de modo que o dado dessa real autonomia forçasse a pensar,
essa realidade mesma não lograva escapar ao círculo mais amplo da Unidade pois
a operação metafísica já havia lançado o quádruplo estatuto de sua
implementação garantida pelo desenvolvimento das formas imperiais do exercício
do poder a partir da consolidação macedônea .
Á época sofística o
paradoxo da subjetividade – ou a subjetividade como paradoxo – oferecia-se como
a novidade do teatro trágico. Na sofística, encarregada de promover a
integração política via formação da cidadania, procurava-se integrar o paradoxo
no pensamento “humano”. Pode-se assim propor que a sofística almejava
ultrapassar as condições do seu tempo? Ora quebrando a unidade, ora estendendo
a linha de subjetivação para além do limite do próprio paradoxo?
Em todo caso pode-se
observar que esse era um empreendimento bem pensante à época, pois
amalgamava-se à preservação da polis democrática, como virtude cívica. A
comédia reflete isso de certo modo pois a liberdade com que invectiva a figura
pública não se põe como paradoxo mas como celebração do exercício da cidadania
plena, transfigurado pela arte, ao modo de uma integração “religiosa” desse
exercício – lembrando que a arte conserva sempre o seu papel litúrgico na
Grécia antiga.
A comédia e a
sofística, por meios diversos, compartem a mesma intenção de naturalizar aquilo
que ao trágico e à tradição ologárquica parecia tão chocante quanto
incompreensível. A comédia visando com tanta naturalidade as instituições
democráticas quanto se costumava visar as tradicionais – e assim ela ignorava o
paradoxo no seu processo de composição. A sofística, inversamente, fazendo do
paradoxo o elemento mesmo do pensar.
A quádrupla
instituição metafísica sutura o elemento neutro da ambiência antiga,
restituindo a bela unidade por meio da transcendência. A physis que era Logos,
dos pré-socráticos, havia revelado seus poderes de desdobramento do múltiplo:
heliocentrismo, atomismo demócrito-epicúrio, medicina “empirista”, universo
infinito, materialismo, tantas hipóteses que a Grécia já enuncia na Antiguidade.
Mas reservando ao Logos o poder sobre a physis, a Unidade reinvestia o mundo
geocêntrico, finito, os princípios evidentes por si mesmos, o sentido da
teologia, a medicina dos elementos e da correspondência universal.
O Bem conserva a
unidade do Logos como Idéia das idéias. O motor imóvel é o pensamento que se
pensa eternamente a si mesmo. Como ato puro ele é mais que suas idéias, mais
que seu próprio conteúdo, mas enquanto pensamento em ato ele é a realização
noética mesma. O Uno plotiniano já amplia essa duplicidade que o motor imóvel
introduz, apontando para uma realidade que transcendo o próprio Logos. Contudo,
se a série de hipóstases se efetiva a seguir como Inteligência e como alma,
resta que o plotinismo pode ser visado ora mais em seu aspecto hierárquico ora mais
na totalidade que pertence a cada hipóstase que ao seu modo compreende o todo.
Caracterizando o
Renascimento pela cisão epocal entre o intuito cientificista que autonomiza as
regiões do real e a conservação dessa visão una do mundo, vemos que progressivamente
a ênfase da interpretação vai se deslocar, desde a interpretação hierarquizante
do plotinismo árabe até a complicatio de Nicolau Cusano em que tudo se une
conforme mais se aproxima da origem. Mas por ora, a questão é compreender o
Renascimento naquilo que ele se relaciona ao que pretende aparentemente fazer “renascer”.
Ora, em certos
aspectos o Renascimento poderia semelhar a continuação do que o cristianismo e
as invasões bárbaras haviam interposto ao helenismo. Mas o papel do paradoxo
mostra que uma tal perspectiva seria ilusória. Pois agora é a Unidade do mundo
que resta paradoxal, a autonomia do “eu” afirmando-se cada vez mais como região
autônoma dada a pensar, de modo a também progressivamente impossibilita-la como
concepção universalmente válida. Mas não logrando-o de todo enquanto dura o
Renascimento, isto é, aproximadamente desde meados do século XIV, ou início do
século XV, até o alvorecer do século XVII.
Que isto pode ser
proposto assim parece-me bastante consequente a julgar pela reversão do aspecto
marginal da economia comercial que substitui finalmente a sociedade agrícola do
feudalismo. A monarquia do Estado absolutista é obra de juristas,
correspondendo à ordem da legalidade. Seu embasamento ideológico, a eleição do
soberano por Deus, é decerto algo essencial à época, não menos do que o
mercantilismo. Mas não se coloca como a única via de sutura. Trata-se do
fenômeno mais amplo de laicização das instituições, da autonomia do poder
temporal que já se concebe mesmo como representação da soberania popular (La
Boétie), se não como simples mestria na manipulação das forças que atuam no
jogo social (Maquiavel).
O paradoxo do
Renascimento pode mesmo invadir a comédia pois não se trata de uma sociedade
que se sabe singular num meio diverso mas sim de uma cisão que se instala por
todo o tecido da civilização, uma contradição epocal, constitutiva. Avaliar o
seu alcance torna-se possibilitado pela compreensão do papel das ciências que
estão surgindo precisamente agora.
O “espírito
experimental matemático e técnico” que Bréhier reporta a propósito de R. Bacon,
parece ter exercido o seu papel na prática da construção – arquitetura,
engenharia – tanto quanto entre os artesãos, durante toda a Idade Média. Mas
como assinala Carpeaux, a linguagem intelectual do feudalismo é eminentemente
simbólica e alegórica, espiritual, não técnica nem naturalista.
A filosofia
aristotélica impõe então, à época de São Tomás, a inovação pela qual surge a
física do movimento definindo seu objetivo como sendo o ens mobile – expressamente
designado como âmbito científico independente da explicação sobrenatural já por
Alberto Magno. Paralelamente desenvolve-se, com Roberto Grosseteste, uma
explicação física da natureza que propõe a produção do real fundada
exclusivamente sobre a matéria e a luz, conforme de Libera. As fontes, entre
alguns outros títulos, são as “Òticas” de Ptolomeu, Euclides e Alhazen, e o “Meteorológico”
de Aristóteles. A ciência da perspectiva, a ótica, com Vitelo, se torna o
modelo científico desse período.
Bréhier assinala que
essa ótica se relaciona à idéia da matematização da física já em R. Bacon,
ligada à valorização da experiência. Mas na escolástica tardia esses projetos
de orientação científica, derivados do peripatetismo, por mais independentes
que se queiram convergem com a teologia, pois se propõem como tarefa solucionar
as aporias que surgem da confrontação dos princípios dessa física grega com
movimentos e transformações descritos pela Escritura como o movimento angélico
e o momento preciso da transubstanciação.
E em sentido de certo
modo inverso, a noção da potentia Dei absoluta, pelo qual “Deus pode por sua
potência absoluta fazer tudo o que não implica contradição”, que é um dado de
fé, vai designar, já no século XIV, o domínio especulativo do raciocínio “secundum
imaginationen”, relacionado ao desenvolvimento da matematização da física e
paralelo à revolução do cálculo.
Em Duns Scott esse
princípio de fé é utilizado para mostrar que, salvo os dez mandamentos, todos
os deveres das criaturas poderiam ser outros, valendo apenas por sua
notificação expressa. Está aplicado assim no mesmo âmbito teológico de que
precede, mas de modo a inserir a nova tendência que, contrapondo-se à
Escolástica, exige a separação dos domínios de fé e razão.
Mas aplicado à
física, torna-se um instrumento heurístico que condiciona certo procedimento
imaginário, ora modelizando matematicamente relações calculáveis entre objetos
físicos manipulados independentemente de qualquer experiência, isto é,
meramente postuláveis pelo pensamento, ora reduzindo problemas físicos à
matemática pura, ora limitando assim o alcance epistemológico do método de
abstração e funcionalização de conceitos ao campo do “não-real”. O procedimento
consiste portanto em remontar do possível físico ao possível lógico.
É interessante o modo
como de Libera compara esse procedimento com as notas de Galileu sobre a função
heurística do imaginário que consiste, já no interior do método experimental
autêntico da modernidade, em propor no pensamento certos objetos não dados na
experiência – como uma superfície “verdadeiramente” plana .Ora, nesse caso o
que assim se articula como apenas pensável só está se propondo para ser posto
em jogo, isto é, para ser de algum modo aplicado à experiência. Já o
procedimento tardo-medieval jamais vai do Ideal ao Real. As relações
conceituais só se movimentam no espaço abstrato da argumentação lógica.
Quanto à “revolução
do cálculo” , ainda no século XIV, abrange a aplicação de linguagens analíticas
– matemáticas ou “quase matemáticas” (Heytesbury, Billingham), linguagem de
proportiones e de suppositiones (Ockham). A finalidade da interação dessas
linguagens no projeto matemático aplicado a problemas lógicos ( denominação,
tradução), ainda que comportando testes impostos a suas regras, tampouco
introduzem qualquer confronto com a experiência ou se destinam a uma
experimentação ativa. A finalidade não abrange por exemplo a verificação de
hipóteses mas apenas gerar puzzles lógicos de modo que se desenvolvem no puro
âmbito da análise lógica, não na efetividade da indução científica.
Ora,
concomitantemente a exigência da separação entre razão e fé, no evoluir do
século XIV, vai se impor sobrepondo-se àquilo que se determinava como a questão
mesma da Escolástica desenvolvendo-se no interior do vínculo de filosofia e
teologia. Guilherme de Okham, “doutor invencível” e “venerável inceptor” dos
nominalistas, desempenha papel proeminente nesse processo. As provas tomistas
da existência de Deus, tanto quanto a salvaguarda escotista da necessidade ao
menos do decálogo, são por ele negadas como puros artigos de fé enquanto a
potentia Dei se pensa assim de modo bem mais absoluto.
A influência do
nominalismo se expande na Universidade de Paris. As teses que se relacionam a
essa nova autonomia da razão envolvem a negação também dos princípios da física
grega. A crítica da causalidade (Jean de Mirecourt) se une à da noção de
substância (Nicolas de Autrecourt). A oposição ao princípio de que “tudo que se
move é movido por outra coisa” implica não apenas revisão da teoria do
movimento dos projéteis mas também negação do esquema astronômico das esferas
com sua separação de domínios supra e subllunar, resulta assim a identidade dos
princípios das mecânicas celeste e terrestre que vem a ser corrente na física moderna.
João Buridan e
Nicolau Oresme desenvolvem esses novos aportes da física. Oresme chega a
formular com exatidão a fórmula do espaço da queda dos corpos no movimento
uniformemente acelerado. A potencia Dei do nominalismo estende assim uma noção
de lei – civil ou científica – não condicionada por nenhuma necessidade
natural. A natureza é um campo limitado de relações a ser explicadas apenas
como processos que se podem reconstituir entre as coisas mesmas. Mas essas
relações não poderiam ser pressupostas no exterior da observação pois tudo
poderia ser simplesmente de outro modo. Elas não são teoricamente destinadas a
atualizar princípios gerais metafísicos pré-estabelecidos. A unidade do mundo
se rompeu. Os aspectos dessa ruptura progressivamente determinam a constituição
de regiões epistêmicas autônomas – natureza, indivíduo, sociedade.
A história do
provisório equilíbrio que o Renascimento ainda mantém entre miticismo e
ciência, como remanescente daquela Unidade, e o percurso de sua invalidação na
modernidade nascente, é o que devemos observar agora. Mas mesmo sob o risco de
insistência a respeito de alguns temas, penso que certos aspectos devem ser
ainda mais desenvolvidos, quanto a isso. Pois a autonomia dos domínios da fé e
da razão parece um tipo de clichê. O que se designa assim, efetivamente?
Por uma lado uma
certa pressuposição sobre o que veio a ser a Escolástica. Mas também aquilo que
a caracteriza, aquele acordo entre domínios doravante independentes. Essa
autonomia deveria significar que no exterior do âmbito escolástico não se trata
mais de fé, e sim tão somente de razão? Mas basta examinar, por mais
ligeiramente que se queira, o Renascimento para ver que não se abandona de modo
algum a preocupação com a espiritualidade, não se penetra de modo abrupto,
desde o ulrapassamento do âmbito escolástico, no iluminismo que caracteriza o
porvir das revoluções política francesa e industrial inglesa.
O ultrapassamkento
escolástico não seria ainda o ultrapassamento especulativo de Deus. Em que se
pode então evidenciar o salto que anuncia o Renascimento?
O que ocorre pode ser
visado como transformação na cartografia dos conceitos de modo que se assiste à
movimentação que enuncia o nucleamento do espaço conceitual pelo sujeito. Os
problemas que anteriormente se traçavam conforme as coordenadas do mundo
fechado, de que testemunha Koyré, isto é, conforme a ordenação universal e
revelada, mudam de sentido e se propõem agora a partir da perspectiva do ser
humano enquanto sujeito singular.
À hecceidade de Duns
Scott vem sobrepor-se a “forma corporeitatis” de Ockam. O sujeito singular se
conceitua progresivamente como esse ente aqui que é corpo e intelecto – Ockham
inclui a existência da alma na categoria dos puros artigos indemonstráveis da
fé. Assim pode-se compreender como é que a potência absoluta de Deus é agora
utilizada para embasar a maior liberdade de pensar e ser, abrangendo todos os
domínios – da especulação, do direito, da espiritualidade. Colocando,
inclusive, a questão da existência do mundo exterior, a possibilidade de tudo
ser apenas sonho, já enunciada por Siger de Brabante.
A potentia Dei
absoluta é conceitualmente aplicada agora a partir dessa nova centralidade que
é a do ser humano, enquanto que no momento inicial do cristianismo a vontade
absolutamente livre e onipotente de Deus se aplicava, bem inversamente, como
centro ulterior àquela quádrupla fundamentação metafísica antiga, de modo a
assegurar o fechamento do mundo sobre a criação inteiramente submissa e
teologicamente ordenada.
O ser humano se torna
assim o aspecto conceitual central desse mundo novo, infinito, não geocêntrico.
Se a hipótese de que é a terra que se move, ao invés do céu, não permaneceu
ignorada ao feudalismo desde suas raízes antigas, o pitagorismo e as
referências do Timeu, Bréhier observa que sua sustentação, já no século XIV, se
torna secundada pelas noções de mecânica geral aptas a lhe fornecer o sentido
pleno. Alberto de Saxe e Nicolau Oresme a propugnam efetivamente desde esse
período.
Mas a mudança se
reflete não somente a partir da cartografia dos conceitos, incluindo também a
reconfiguração das forças que aglutinam as correntes de pensamento. Mas para
compreender as relações que aí se estabelecem deve-se observar que não basta
caracterizar superficialmente as vertentes: aristotelismo paduense, humanismo
platônico-cristão, os avanços da ciência natural experimental, os moralistas e
políticos, movimentos místicos como a Reforma.
Sem dúvida essa
partição é fiel aos fatos. Mas não conduziria a uma apreciação autêntica da época
se não enfatizasse certas tendências que se superpõem à delimitação rígida das
doutrinas.
Ora, o correlato
desse sujeito novo dado a pensar não poderia ser já designado como o Cogito. A
ontologia ainda não se enunciou como Mathesis. Se a unidade do mundo foi
descartada no Renascimento, sobrevindo a nova física, mantem-se o valor da
Ética e da Política do Estagirista, como preconiza Nicolas d”Autrecourt.
As transformações que
afetam o pensamento humano são claramente enunciáveis: separa-se a política da
ética, designando-se a ética como estudo do ser humano assim como ele é, das
paixões e suas causas, à política reservando-se pensar a sociedade ao modo de
um campo de forças humanas em interação. Contudo, se essas transformações são
progressivas, evoluindo até a enunciação do pacto social enquanto conceituação
plena da noção de representação política, a espiritualidade se mantém como a
consistência em que se pode pensar o sujeito-microcosmos – até a redefinição
moderna, cartesiana, em que a representação política pode se exercer por puros
sujeitos que se enunciam como forma mesma do inteligível. Aí sim a consistência
em que emerge o sujeito moderno se emancipa da espiritualidade como pertença
cósmica, pela forma da razão pura.
Assim é preciso ver
que as designações dessas correntes – peripatetismo paduense, platonismo
cristão – no Renascimento funcionam nesse meio singular, não como teorias
redutíveis ao corpus textual de cada uma de suas proveniências antigas, mas
como configurações estratégicas de questões que se encaminham conforme as
exigências do tempo.
A maior influência
que o aristotelismo paduense estende à França é oriunda da crítica moral e
religiosa que Bréhier descreve, precisamente, como pensamento livre e
independente que não se traduz por nenhuma doutrina filosófica isolada mas que
desliza entre literatura e poesia “de mil maneiras”. Conjuga-se por toda parte,
mesmo sob o influxo de questões que enfeixam origens filosóficas nítidas, um
certo regime intelectual que mistura cristianismo, astrologia, alquimia e
ocultismo. O naturalismo paduense envolve, conforme Bréhier, uma concepção de
mundo bastante próxima do estoicismo e do plotinismo. E Jerônimo Cardan, médico
em Pádua e célebre matemático que descobriu os números complexos e a
probabilidade, desenha o horóscopo de Jesus, sob a conjunção de Júpiter e do
Sol, relacionando a história das religiões aos períodos cósmicos regidos pelas
conjunções dos astros.
A consistência
espiritual em que ainda se pode pensar esse sujeito microcósmico prolonga assim
o que de Libera designa “o espírito da filosofia medieval”. Se a unidade
daquele mundo se rompeu, o sujeito se encarregou de conserva-la no elemento da
contemplação. O destino do ser humano é a vida filosófica, uma vez que a
intelectualidade se funda como essência do humano, na “mística especulativa
dominicana do século XIV”, inspirada pelo peripatetismo, conforme de Libera.
Se o (neo) platônico
Nicolau Cusano propõe o intelectualiter, conhecimento ao modo da segunda
hipóstase, como objetivo de ultrapassamento do rationaliter, a razão discursiva
que corresponde ao modo de ligação das coisas na hipóstese alma, a ética do
Estagirista já pressupõe a contemplação intelectual como virtude superior tanto
às virtudes éticas (coragem, justiça), quanto às dianoéticas (frônesis ou
prudência na deliberação, síneses ou penetração como correta apreensão das
ações dos outros, e o bom-senso como faculdade de julgar em geral).
Aristóteles situa as
ciências – teóricas, práticas e poéticas – como meios de filosofia enquanto a
propõe como estudo da tendência de todas as coisas ao pensamento. Já no
Renascimento assiste-se o percurso da assimilação de Deus e verdade – com o
princípio correlato da contemplação – àquela postulação moderna da verdade
definida por conclusões seguras e naturais acerca dos fatos de experiência. Mas
como o sujeito moderno poderá conservar sua relação com o pensamento sem
limitar-se, por exemplo, à cisão cartesiana que impede o acesso ao conhecimento
da história? Enuncia-se assim a instituição do questionar que é próprio à
problemática das ciências humanas.
Com essa base da
tendência mais geral do período torna-se mais exequível uma aproximação
daquelas vertentes que presentificam as correntes especulativas do
Renascimento.
V – Foucault :
Arqueologia e Genealogia
Michel Foucault
enumera , na Arqueologia do Saber, o espaço articulado das relações que se
estabelecem entre instituições, processos econômicos e sociais, sistemas de
normas, técnicas, tipos de classificação e modos de caracterização, que definem
aquilo que permite o surgimento dos objetos do discurso científico. Essas
relações formam sistemas. Sistema de relações primárias ou reais, de relações
secundárias ou reflexivas e de relações discursivas.
Não são as relações
reais nem as reflexivas que definem as condições para que apareça um objeto de
discurso. Ora, na medida em que Foucault designa essas condições de enunciação
como “históricas”, assiste-se a um deslocamento da análise histórica situada
nos limites da epistemologia. Trata-se de observar as relações que não se
confundem, por exemplo, com aquelas reais que se estabelecem entre a família
burguesa e o funcionamento jurídico num determinado período, ou aquelas
reflexivas que assinalam a região de discursividade acadêmica exercendo-se sobre
relações reais.
Esses feixes de
relações permanecem analisáveis por si mesmos em outros âmbitos de interesse
mas não são sempre passíveis de sobreposição às relações formadoras de objetos.
É interessante
observar que esse domínio de visibilidade se aproxima de questões bastante
familiares na esfera periodológica que se convencionou pós-moderna. Trata-se,
por exemplo, da ênfase que Gadamer institui entre a produção científica e sua
recepção pela linguagem corrente, isto é, pela comunidade “leiga”. Ou do Rorty
de “O Espelho da Natureza”. Trata-se também da problemática comunicacional da
comunidade científica, de Apel, na medida em que instaura o modelo ético
através da formalização do discurso argumentativo – comunicativo (Apel –
Habbermas).
O que se coloca mais
geralmente em questão parece ser a relação entre ciência e saber,
delimitando-se estes termos a partir da escanção entre conhecimento científico
e pragmática narrativa, tal como já observamos em Lyotard. O que também
constitui o traço comum, parece-me, é que essa questão se articula no âmbito da
linguagem pragmaticamente concebida. Mas como se pode observar as
características próprias a cada uma dessas demarches?
A princípio deve-se
mostrar como se conceitua, em cada caso, a pragmática da linguagem. Foucault
opõe assim os termos coisa e objeto, pois não se interpreta o discurso no
sentido de seu referente, a coisa real, mas sim no sentido da formação regular
dos objetos que só nele se produzem ou enunciam. As relações discursivas, isto
é, aquelas que se desenvolvem entre enunciados, caracterizam a prática da
linguagem como as regras que definem seu uso. A especificidade dessa pragmática
foucaultiana se organiza assim no domínio mesmo dessas regras mas como não se
incide a análise tampouco no pólo oposto ao das coisas, aquele da análise linguística
do significado, o que essa “axiomática” deve descrever é o regime dos objetos –
nem a existência da coisa nem o uso canônico do léxico.
Através da observação
dos enunciados da clínica médica, desde o século XIX, Foucault destaca os
elementos entre os quais o discurso, enquanto prática de linguagem, vai
instaurar um sistema de relações: o status do terapeuta, os lugares
institucionais em que exercita sua habilitação e a posição de sujeito que
observa, ensina, prescreve, etc. Ora, esse sistema não se concede a priori, não
pré-existe à instauração do discurso. Os elementos formam planos variáveis que
se interligam no sistema de relações mas é fácil ver que esse sistema não se
estabelece pela atividade sintética de uma consciência idêntica a si mas sim na
especificidade prática das condições em que se realiza a enunciação.
Assim o regime de
enunciação também não se concede a partir de uma subjetividade prsicológica ou
transcendental. A questão que se coloca então é: pode-se afirmar que o sistema
de regras que definem a prática da linguagem, enquanto sistema de formação de
objetos é ele mesmo transcendental nos termos da démarche da arqueologia?
Não focalizando a
análise por agora em Gadamer, Rorty ou Habbermas, de que deveremos nos
aproximar posteriormente, penso não haver dúvida sobre o fato de que se a
resposta for positiva há certa convergência com a pragmática transcendental de
Apel, nisso pelo que a pragmática da linguagem não se atribui, no âmbito da “Transformação
da Filosofia”, a um “sujeito observável” mas funciona transcendentalmente a
partir da interpretação da comunidade científica ilimitada que define o
concenso de verdade científica.
Assim Apel designa a
transposição da filosofia contemporânea: nem investigação dos entes, como
ontologia, nem reflexão sobre conceitos da razão, epistemologia, mas reflexão
sobre o sentido das manifestações linguísticas, instaurando-se assim a reflexão
sobre a prática discursiva. Ora, se a pragmática requer o acordo mútuo quanto
ao sentido como prévio à semântica, o que é transcendental aí é que a linguagem
mesma é já o instrumento desse acordo enquanto espaço do intercomunicável.
Desse e daquele outro, consigo mesmo.
A formação das
modalidades enunciativas na clínica médica, analisada por Foucault, se
estabelece transcendentalmente como a prática da linguagem que relaciona
sistematicamente os elementos da prática institucional. Com efeito, Foucault
designa o “a priori histórico” como delimitando a lei de coexistência dos enunciados,
isto é, aquilo que articula sistemas de enunciados que devem produzir na
prática da linguagem as relações de acontecimentos e coisas. Ora, esse a priori
histórico não pode se tomar no sentido de um a priori formal. O a priori
histórico define-se como o conjunto de regras que caracterizam uma prática
discursiva, enunciativa. Não se trata das condições dos juízos, mas sim dos
enunciados.
Contudo, e
sobrepondo-se à positividade relativa da resposta, o que Apel prescreve como a
priori transcendental hermenêutico parece se repor no âmbito formal quando se
propõe – transgressivamente em relação ao texto do segundo Wittgenstein – como “o”
jogo de linguagem ideal. Ora, o que Foucault antepõe é justamente a
descontinuidade dos campos delimitados de leis. Apel não estaria também,
contudo, visando esse a priori histórico quando afirma que “o” jogo delinguagem
ideal em sentido normativo se antecipa em qualquer cumprimento local de uma
regra? Não, parece-me, uma vez que afirma-se como pura competência comunicativa
que aliás define o jogo de linuagem transcendental sem caráter extralinguístico.
E isso pode ser
visado também pelo fato de que Apel emprega essa mesma competência como
capacidade de acordo mútuo entre participantes de comunidades linguísticas
diversas. Assim, quanto à especificidade da situação da ciência, ela se
constitui como um caso particular de comunidade. A síntese transcendental em
qualquer comunidade, que Apel propõe como substituindo a da apercepção
kantiana, é a da interpretação mediatizada pela linguagem em uma comunidade
qualquer de comunicação. O que é a priori resta universal enquanto formação de
consensos a partir da capacidade de se comunicar consigo mesmo e com os outros.
A mediatização linguística
da formulação de hipóteses que caracteriza essa concepção de conhecimento não
converge assim com as formações discursivas de Foucault, ainda que em ambos os
casos se esteja pensando a linguagem, de certo modo, transcendentalmente.
Torna-se muito
fecunda, quanto a isso, a comparação da superação da cisão entre filosofia
teórica e prática, propugnada por Apel – que desloca a ênfase do acordo mútuo
entre os cientistas do âmbito das “ações do intelecto” ao dos “atos de fala” –
com a constatação de Foucault de que se as manifestações enunciativas fazem
mais do que utilizar signos para designar coisas isso torna o discurso
irredutível à língua tanto quanto ao ato de fala – pois trata-se de práticas
que formam sistematicamente os objetos que enunciam.
Resta que os
elementos que são articulados no espaço regrado das condições de enunciação
permitem endereçar o questionamento crucial de nossa época. Apel enuncia muito
bem o problema na perspectiva da ética. Trata-se da dominação tecnológica que
atinge progressivamente toda a sociedade humana de modo que se tornou pensável
a necessidade da atribuição de valores em escala planetária. Pois a ação local
torna-se extensível, em seus efeitos, a todo o meio ambiente.
Porém se a
argumentabilidade pudesse ser o critério ético universal poder-se-ia evidenciar
que o domínio ético por excelência já é o da ciência mesma pois não há outro
logos de demonstração que se lhe possa comparar. O círculo evidenciado não
semelha, pois, a inevitabilidade da hermenêutica.
Ora, a questão
permanece enraizada no questionar heideggeriano dessa modulação propriamente
metafísica do Logos. Pois ao invés do consenso ser aquilo que pré-existe
enquanto círculo da argumentatividade ou da comunicacionalidade, trata-se de
perguntar, de modo bem foucaultiano, como é que veio a se constituir no meio
mesmo de normatividade em termos da organização do poder. Em outros termos como
é que a cientificidade se converteu, no processo mais amplo da ocidentalização,
de simples produção localizada de conhecimento a instrumentação do poder
político.
Certamente essa é a
cientificidade do consenso mas a questão que assim se enuncia pode ser bem
visada pela consideração de Foucault acerca da crítica popperiana à pretensão
de cientificidade do marxismo e da psicanálise – problema que se estende, por
exemplo, à crítica literária, à semiologia, e que já tivemos ocasião de
examinar. Ora, o que Foucault antepõe é uma crítica a essa cientificidade mesma
que se está hesitando em atribuir. O que ele espera do marxismo é que não seja
justamente isso, “ciência” , pois sua indagação incide sobre o que é que seria
preciso desqualificar para circunscrever-se assim o marxismo ou qualquer
rubrica como “o” domínio de racionalidade a legislar sobre o lote de sua
objetividade.
O que esse consenso
faz, portanto, não seria uma circunscrição semântica ou de sentido sem ser ao
mesmo tempo a dominação dos outros saberes. Esses saberes dominados não são só
os blocos que os conjuntos funcionais e sistemáticos consensualmente
articulados se encarregam de mascarar e que formam os domínios de erudição que
a crítica histórica deve vir a desocultar. Mas são também o saber “ingênuo” – o
do médico que propugna uma teoria paralela à oficial, a dos enfermeiros, do
próprio doente, do psiquiatrizado, e mais geralmente o que Foucault designa o
saber “das pessoas” – naquilo em que ele não forma um senso comum mas
apresenta-se na multiplicidade desses saberes locais, regionais, particulares,
e que é senpre crítico.
Esse saber, que
Foucault designa “local” e Deleuze “menor”, é ao que o consenso se opõe, assujeitando.
Surge assim o método foucaultiano que reúne uma arqueologia e uma genealogia.
Se a arqueologia analisa a enunciatividade local, a genealogia, a partir dessa
descrição arqueológica, ativa os saberes liberando-os, liberta-os da sujeição.
Pois o que permanece impensado na caracterização da formação de consenso nos
moldes da intercomunicação argumentativa é que o que o consenso presentifica –
todo o “macro” comunicável – é derivado em relação ao que o produz enquanto as
condições da comunicabilidade, esse âmbito “micro” em que se articulam as
relações de poder que esquadrinham o espaço do enunciável, formando suas leis
em um meio de dispersão, isto é, de tensão e relacionamento de fatores
múltiplos.
A lógica que se
manifesta no comunicável e que lhe formaliza o caráter mesmo de ser comunicado
só se exerce, portanto, no nível derivado, de modo algum constitutivo. Eis o
que enuncia o círculo na proposta de a priori ético, se a ciência mesma é o
domínio por excelência da argumentatividade.
Assim o método que
empreende fazer ver o que deixou de ser discursivamente manifestável, em razão
das formações de consenso, vai ter que se encarregar de reproduzir essa
articulação de relações de poder. Logo precisa justamente furtar-se ao
aparente, ao empírico, ao produzido, para encontrar as vias de sistematização
do enunciável.
O que nos interessa
particularmente e muitíssimo pois o que Foucault entende como “ciência” não
seria apenas um conjunto de conhecimentos produzidos mas efeitos de poder que o
Ocidente, a partir da Idade Média, atribuiu a essas formações enunciativas
científicas. Observa-se assim que a descrição do surgimento dos objetos das
ciências humanas nascentes que Foucault empreendeu organiza propriamente uma
história da ocidentalização.
Trata-se de algo de
modo algum disciplinarmente redutível, como ocorre por exemplo nas
reconstruções epistemológicas de Bachelard aplicadas ao domínio das ciências
naturais. Não se tenta reconstituir a emissão de conceitos num espaço lógico
mas as transformações sociais num espaço genealógico, político, que é
inteiramente o da inteligibilidade. Assim a governamentalização do Estado, que
se entrelaça intimamente à criação da Economia Política constituindo esse novo
objeto, a população.
Foucault observa
assim os três estratos estatais: o medieval do Estado de justiça, o
Renascentista do Estado administrativo e o moderno ou Estado
governamentalizado. Ao reconstruir os processos históricos que se introduzem
entre esses estratos libera temas particularmente importantes na compreensão do
período que estamos visando, aproximadamente entre os séculos XV ao XVII. E
esse desenvolvimento teórico abrange outros domínios das ciências humanas, não
apenas a ciência política, de modo que se torna fundamental aqui um estudo da
obra de Foucault que permitirá embasar os movimentos de pensamento da
Renascença, que propomos anteriormente observar.
VI – A loucura e a
refutação do ceticismo
Descartes começa o
processo da dúvida metódica com o argumento sobre a incertitude dos sentidos.
Como prover a fundamentação das ciências se não se está completamente certo
sobre os conhecimentos mais comuns? Mas a meu ver o que ele faz a seguir é
encenar a objeção mais usual que se pode antepor ao procedimento dubitativo
proposto: negar a própria pertença ao corpo é loucura, ou seja, negar
filosoficamente certas evidências dos sentidos não é exequível.
O parágrafo 5 dessa
meditação inicial enuncia a estratégia cartesiana para contornar a objeção
através da hipótese do sonho, que é filosoficamente aceitável pois embasada na
tradição filosófica a partir do averroísmo, já com Siger de Brabante
sustentando que somente a evidência dos sentidos não pode garantir que isso que
eles evidenciam não passa de sonho. Na utilização desse argumento se torna
claro que Descartes está transpondo nesse trecho os problemas herdados da
tradição, formulando-os em novo sentido.
Pois logo que ele
torna a encenar uma objeção ao seu próprio empreendimento dubitativo metódico,
isto é, à hipótese do sonho, relaciona-a ao procedimento de composição mais
característico do período final da idade média, a composição ou mistura de
elementos do real conforme a livre imaginação assim como nos quadros de Bosch e
nas ilustrações de textos, conforme observado por Bakhtin. O que Descartes vai
encenar como impossibilidade também dessa hipótese é seu modo mesmo de
produzir-se.
Assim a mistura
imaginária resulta da união de coisas reais e sempre se conserva o elemento do
real em todas as possibilidades da imaginação, como por exemplo a cor real
utilizada para compor a figura inteiramente fictícia. A enunciação dessa nova
objeção conduz à postulação da impossibilidade do procedimento dubitativo,
desta vez pela evidência dos elementos mais simples e inegáveis do real, o que
pode ser ilustrado pelos objetos da matemática.
Ora, desde o início
havia sido proposta a dúvida com o objetivo determinado de fornecer uma efetiva
fundamentação às ciências. Assim, ao tratar essa objeção posterior à postulação
da dúvida, Descartes mostra que ela só garante algumas dentre as ciências, isto
é, aquelas que tratam somente das coisas mais simples e gerais. A transposição
da hipótese tardo-escolástica – como a potentia Dei é absoluta, tudo o que
existe poderia ser de outro modo ou apenas sonho – se completa pois Descartes mostra
que a validez daquelas coisas mais simples e gerais, objetos da arimética e da
geometria, permanece independente da hipótese.
Mesmo se tudo fosse
sonho sua validez continuaria indubitavelmente afirmada. Mas a argumentação
assim conduzida enuncia os limites da episteme – no sentido foucaultiano do
termo, isto é, como estrutura epocal de conhecimento – da época tardo-feudal e
do Renascimento. Pois ela se movimenta no interior do círculo da necessidade
escolástica (Deus faz o mundo conforme as leis necessárias da racionalidade) ou
da liberdade renascentista (Deus faz o mundo conforme sua livre vontade).
A hipótese do Deus
falseador parece ser uma reformulação cartesiana da opção pela liberdade desde
que todo o trecho se desenvolveu como uma hábil transposição da tradição. Se
Deus não pudesse nos enganar, ou se ele fosse enganador, isso deveria ser
indiferente ao número de vezes, logo também a qualquer partição entre as
ciências. Que o círculo de liberdade e necessidade tenha surgido como limite da
episteme do Renascimento, que em certos aspectos prolonga o período
tardo-feudal, significa em Descartes, a meu ver, o seguinte. Ela não logrou
fornecer uma fundamentação epistemológica capaz de garantir a validez das
ciências.
Mas isso de modo tal
que aquilo mesmo que infirmou o acordo escolástico como postulado da
necessidade, isto é, o postulado da liberdade, ao mesmo tempo condicionou o
desenvolvimento autônomo das ciências e conduziu ao ceticismo filosófico.
Descartes enuncia o dilema como círculo fundado por e tendendo para a Potentia
Dei absoluta. Mas desse modo ele enuncia que o período anterior havia se
exaurido, isto é, que aquilo que o Renascimento havia conduzido como
desenvolvimento da aplicação da Potentia Dei encontrava-se sem possibilidades
de fornecer a fundamentação daquilo mesmo que desenvolvia.
O próprio
procedimento dubitativo encena, mais profundamente, a impossibilidade da época
anterior a Descartes, que no entanto consiste ainda no fundo do empreendimento
cartesiano, isto é, no estado de coisas com que se ele se defronta. Tudo o que
se oferece como ciência desenvolveu-se na liberação em relação à fé mas como
domínio precisamente do indemonstrável, do infundável, do puramente
contingente, quanto ao fundamento.
Assim é interessante
ver como Descartes joga com a possibilidade desse mesmo movimento “continuar”
de modo a que o ceticismo que deriva da Potentia Dei venha a atingir o próprio
domínio que o possibilitava agora negando que a existência seja criação de
Deus.
O ceticismo radical
que a dúvida exercita chega à sua consumação, isto é, não ocorre mais a
posibilidde de objetar seriamente o procedimento dubitativo se for levado ao
absurdo o jogo de premissas que sustenta o desenvolvimento do pensamento
renascentista.
Descartes de certo
modo fechou o ciclo, mostrando que aquilo que se oferecia como justificativa
apaziguadora da consciência da época e que frente à acusação formal de
ceticismo encenada pela dúvida ofereceria suas meias verdades sob a forma das
objeções reencenadas na enunciação do procedimento dubitativo, se desmorona de
modo que a época se vê assim como é, cética porque incapaz de fundar aquilo
mesmo que permite produzir. Todas essas dissimulações repõem afinal a época
frente a si mesma, mas desse modo a desmascara e a faz confessar a própria
verdade mais íntima.
A consideração que
empreendo aqui sobre o procedimento dubitativo cartesiano vai permitir agora a
aproximação à polêmica de Foucault e Derrida sobre esse mesmo trecho inicial
das Meditações conforme amplamente desenvolvido por Ferry – Renault. Trata-se
de uma divergência de interpretação acerca do lugar da loucura na economia da
dúvida.
Foucault havia
observado que Descartes não procede do mesmo modo frente às duas possibilidades
de negação da evidência dos sentidos, a loucura e o sonho. Assim o sonho, como
a ilusão, conserva em relação a verdade uma certa simetria pois a estrutura
mesma da verdade conjura as consequências céticas daquilo que proponho como
sendo a hipótese escolástica.
Mas Foucault afirma
que nesse trecho Descartes exclui simplesmente a loucura pois estabelece uma
implicação entre pensar e não ser louco. Com isso propõe que se pode demarcar
nesse trecho, nitidamente, a mudança de regime de pensamento, do Renascimento à
modernidade.
Foucault faz intervir
Bosch, com suas figuras compósitas, entre outros exemplos, como ícone do
prolongamento da concepção medieval da loucura, concepção impregnada da
possibilidade enunciada como absoluta liberdade de Deus em relação à criação.
A loucura como “manifestação
cósmica obscura”, na expressão de Foucault, seria o avesso possível do mundo
como o animalismo do homem ou as misturas loucas das coisas. Essa concepção
ilustrada por Bosch se opõe de um lado à fase mais estabilizada da Idade Média,
em que a figura do animal se utilizava ainda apenas como antropomorfismo
ilustrando tendências do caráter humano ao invés de animalização mesma do
homem.
Mas enquanto Bosch e
o procedimento da composição se relaciona à concepção cósmica da loucura, no
prolongamento do período tardo-medieval, Erasmo é a posição própria do
Renascimento que engloba a loucura na sabedoria tornando-a pessoal e humana.
Essa é a concepção crítica da loucura. Pois a razão descobriu seus limites no
momento em que se separou da fé.
Assim em relação à
Razão de Deus toda sabedoria humana não passa de loucura mas ao ser humano o
pensamento de Deus pareceria loucura se ele pudesse se alçar até lá. A razão
real do ser humano consiste portanto, no Renascimento, em aceitar seus limites,
saber que está numa relação de reciprocidade com a loucura.
“Aproximem-se um
pouco, filhas de Júpiter! Vou demonstrar que o único acesso a essa sabedoria
perfeita a que chamamos cidadela da felicidade, é através da loucura”. A
expressão de Erasmo ilustra essa concepção renascentista, francamente
contrastante com a do início da modenidade que Foucault designa a “época
clássica” e que se enuncia precisamente no trecho de Descartes que estamos
analisando: “Mas quê? [aqueles que negam a evidência da própria pertença
ao corpo] São loucos e eu não seria menos extravagante se me regrasse por
seu exemplo”.
Excluída a loucura,
resta o sonho. Mas se o sonho atravessa a corrente de imagens do real, o real
subsiste em sua validez naquilo mesmo em que é o que permite sonhar, isto é,
nessas imagens mesmas que se deturpam. Agora a relação entre os termos é
antitética. Ou loucura ou razão. Ou imagem composta onírica ou imagem real
básica. Ou tudo ou nada. Ou o nada saber da dúvida hiperbólica e do ceticismo,
seja ele mascarado ou professado como em Montagne, ou algum fundamento que
garanta todo conhecimento existente. Esse é bem o modo de pensar da “época
clássica” e da Reforma protestante, conforme observou Foucault.
Ora, Derrida acolhe
muito bem a “História da Loucura” mas contesta que Descartes, nesse trecho,
tenha excluído a loucura. Muito inversamente, ele teria feito silêncio sobre
ela até relança-la espetacularmente na hipótese geral do Deus falseador. O
procedimento cartesiano só poderia ser apreciado conjugando-se esse trecho à
segunda meditação. Pois se a hipótese do sonho não invalidava as ciências
matemáticas, a hipótese da loucura – isto é, conforme Derrida, a hipótese de
ter sido completamente enganado por Deus – não invalidava o fato mesmo de
pensar. A fissura do irracional se insinua portanto como diferença no texto que
é a própria fundação moderna da razão como identidade.
O interessante na
análise de Ferry-Renault sobre esse assunto é que eles utilizam ambas as
versões interpretativas, de Foucault e Derrida, para desqualificar o método genealógico
e mais geralmente uma certa tendência dos anos sessenta que, como expressamente
enuncia Foucault sobre suas próprias influências, alia Nietzsche e Heidegger.
A resposta de
Foucault à objeção de Derrida estabeleceu um corte metodológico no interior
dessa tendência mais geral: Foucault propondo que o texto não pode ser
compreendido sem recolocar-se a exterioridade a partir da qual ele se enuncia e
Derrida afirmando o célebre “nada há fora do texto”.
Quanto à resposta de
Foucault, Ferry-Renault detectam uma circularidade na estratégia utilizada. O
trecho das Meditações teria servido para esclarecer a posição da época acerca
do irracional enquanto que agora é a estrutura da época que serve para
esclarecer o sentido do trecho. Já quanto à interpretação de Derrida, eles
antepõem que, inversamente ao que Derrida por ela estabelece e mesmo que esteja
tecnicamente correta, não implica que a “fissura da diferença” esteja nesse
texto cartesiano, “no coração mesmo da constituição da identidade”.
Assim Ferry-Renault
pretendem mostrar que a genealogia nietzscheana conduz à regressão ao infinito,
o heideggerianismo à superinterpretação. Quanto a Descartes, o que teria feito
equivaleria, conforme eles, a enunciar a objeção da loucura à postulação da
dúvida – só um louco poderia duvidar da pertença ao próprio corpo – mas não a
responder à objeção. Ele, inversamente, a teria ignorado deliberadamente à
falta de qualquer possibilidade de trata-la e a seguir teria radicalizado a
dúvida pela hipótese do sonho, filosoficamente fundada, ao invés de correlata
ao que poderia fazer um louco.
A partir de que Ferry
– Renault convidam a, por prudência, verificar a totalidade da armação
argumentativa da “História da Loucura” já que esse “erro” não seria de simples
detalhe mas teria se instalado no seu próprio cerne. Nesse momento não seria
interessante estender a verificação assim empreendida que vai, em seguida, se
utilizar da “lógica da democracia” de Gauchet e Swain para contrapor ao esquema
foucaultiano do capitallismo como sistema de crescentes processos normativos de
exclusão.
O que me parece
relevante aqui é que Ferry-Renault enunciam também, em todo caso e de modo um
tanto contraditório, tanto em Foucault quanto em Derrida, que no texto de
Descartes se trata, sim, de um modo ou de outro, de exclusão da loucura ou ao
menos do seu estabelecimento como o radicalmente Outro da razão.
Pois no
desenvolvimento da hipótese Derrida, Ferry-Renault demonstram inicialmente que
conforme ele, o cogito “precede a separação entre razão e loucura” mas também
que “a eliminação da loucura só se efetiva com a refutação da hipótese” do Deus
falseador. Assim, não se deixa de afirmar, como Foucault, que há “partage” de
loucura e razão na época clássica e mais precisamente em Descartes.
Enquanto que no
Renascimento, conforme Foucault, ela é a sua contrapartida. Só se é sábio, à
época de Erasmo, sabendo que perante Deus toda sabedoria humana é vã. Só se é
sábio, à época de Descartes, tendo reconhecido que se pensa, logo não se pode
ser louco. E na contemporaneidade nova transformação: louco ou sábio, tudo é
humano demasiadamente humano. Ao louco se trata como a qualquer doente, isto é,
como a qualquer desvio da natureza.
Ora, poder-se-ia
demonstrar que esse esquema histórico enunciado por Foucault não é desmentido
nem mesmo por Gauchet – Swain quando mostram que a lógica democrática não
implica exclusão da alteridade mas integração, pelo postulado da igualdade.
Foucault não disse outra coisa. Apenas “igualdade” em um caso é utilizado no
regime atemporal da conceitualidade enquanto Foucault manipula a historicidade
do conceito. Pois igualdade veio a ser a condição do não-desvio enquanto que em
outras épocas poderia ter sido coisas totalmente outras de modo, por exemplo, a
não implicar ver como desviante certas e tais manifestações de comportamento
que vieram a ser todas englobadas sob a rubrica da loucura.
E “desvio em relação
à norma” em sentido foucaultiano, equivale complementarmente a “poder sobre a
vida do Outro”, isto é, sobre a vida daquele que se pode apontar como
desviante. Comparando pois, Gauchet-Swain com Foucault, o que se tem é a versão
banal da ocidentalização como progresso frente à denunciação dos processos de
poder sobre os corpos ou de sua dulcificação que se institui desde o final da idade
média até a contemporaneidade, processo pelo qual ou se pode exercer o poder
sobre o corpo ou ele já se tornou assujeitado.
O que o processo cria
são posições de controle, de exercício desse poder sobre o outro assim como
dispositivos de assujeitamento, o que amplia sobremaneira, tranformando-a, a
questão da ideologia.
Consequentemente
pode-se observar que de modo algum o procedimento foucaultiano é circular, na
resposta a Derrida, uma vez que o que Descartes enuncia se enuncia
transformando aquilo sobre que se institui (tradição, discurso do Renascimento)
como novo momento (modernidade, “época clássica”). O texto se articula com a
exterioridade, não se explica por ela nem tem a função de explicá-la, conforme
me parece ser o procedimento genealógico de Foucault.
Mas como afirmei
devemos nos aproximar mais tarde das consequências da análise que Ferry-Renault
empreendem sobre Foucault. Por agora convém focalizar o tema do Renascimento
assim como se desenvolve nos escritos foucaultianos.
Circunscrevo a observação
à “História da Loucura”, “Microfísica do Poder” e “As Palavras e as Coisas”.
Assim, a princípio dois personagens centralizam o tema, Erasmo e Maquiavel.
Quanto à “prosa do mundo”, deverá embasar aquilo que se depreende das transformações que evoluem no espaço de produção desses personagens, de modo a definir os contornos epistêmicos do período.
VII – Moralidade e
Política
Com Aristóteles
instituiu-se a circunscrição da esfera da filosofia prática, com seu sentido
autônomo em relação à filosofia teórica. A ética se designa assim como âmbito
do circunstancial, não do universal. As virtudes são qualidades que se deve
deliberadamente desenvolver até se tornarem hábitos. Não são inatas mas
resultam da ação voluntária relacionada à escolha refletida (proaíresis) como o
justo meio em um par de tendências extremas opostas – a coragem, meio entre a
temeridade e a covardia, por exemplo. Eis porque a ética deve ser desenvolvida
como descrição de afecções e ensinamento sobre situações efetivas, não apenas
exposição de princípios gerais.
Quanto à política, em
Aristóteles desenvolve-se no âmbito de uma reflexão sobre a cidade, como ocorre
na consistência da Antiguidade em geral. A cidade é concebida como meio da vida
ética. Se a política é o estudo dos meios de viver bem, corresponde à
organização mesma da Polis. Há conexão do ético e do político. A organização da
cidade implica necessariamente a educação dos cidadãos mas a educação boa é
aquela que sabe manter uma hierarquia de funções ao invés de, como fazem por
exemplo os espartanos, supervalorizar a função combativa.
Assim a educação
desenvolve o corpo em função da alma e as paixões inferiores da alma em função
de sua instância superior que é a vontade, mas essa instância mesma, por sua
vez, em função da razão contemplativa. Se o objetivo da cidade é asegurar a
felicidade e a virtude dos cidadãos através das leis e da educação, o
desenvolvimento da contemplação intelectual é o objetivo supremo do ser humano,
em relação a que tudo o mais se conserva apenas como um meio.
Na interpretação
cristã de Aristóteles desenvolvida por São Tomás assim como ocorre a
delimitação da atribuição de fé e razão, entre física e teologia, também no
domínio da ética se empreende uma circunscrição de domínios. A moral natural é
aquela que se apóia na espontaneidade da vontade como tendência ao bem e a
felicidade, enquanto que à destinação sobrenatural só a revelação teológica
conduz. A moral natural do tomismo é a aristotélica, instituindo através da
sindérese – hábito da virtude que se manifesta em preceitos particulares – a
via da retidão da vontade.
A deliberação
racional que precede a escolha da virtude é agora designada como livre
arbítrio. Mas se o livre arbítrio escolhe o meio melhor através da razão,
ocorre que as leis mesmas da ética como as do direito são racionalmente
fundadas. E se a vontade de Deus é racional, ela deve submeter-se também à lei
eterna da razão. Esse raciocínio influencia notavelmente o direito moderno que
considera, com Grotius, que a lei é razão, portanto há algum direito imutável.
Quanto à moral
sobrenatural, consiste, no tomismo, naquele conhecimento de Deus que no entanto
é interditado na totalidade ao ser materialmente composto, reservando-se porém
como dom de Deus aos eleitos e manifestando-se nas virtudes superiores,
caridade e beatitude, que não são accessíveis por via racional.
Ptolomeu de Luque
desenvolve as consequências políticas do tomismo, defendendo uma espécie de
teocracia moderada, pois o poder temporal conserva a autonomia da circunscrição
da moral natural, ainda que deva permanecer submisso ao poder espiritual pois
só a ele se relaciona a esfera da moral espiritual.
Paralelamente o
agostinismo anti-tomista que propugna, por exemplo, Henri de Gand, propõe como
objetivo da vida espiritual, assim como da vontade enquanto faculdade de amar e
desejar, a união com Deus, a política tendendo à teocracia estrita.
Com Duns Scott
observa-se o surgimento da tendência a separar os domínios da vontade e do
entendimento. Vimos que a ética aristotélica instituía a especificidade dos
domínios moral-prático e teórico-especulativo. Mas conservando a moralidade da
ação fundada na deliberação racional. Com Duns Scott a vontade se considera
livre, pois os princípios éticos decorrem da lei de Deus que não possuem outra
justificativa senão sua vontade mesma.
Scott propõe que, à
exceção da família, que é uma ligação natural, todas as demais formas de
associação humana se formam por livre contrato, antecipando a moderna teoria do
pacto social (electio e consensus). O Renascimento acentuará sobremaneira essa
tendência do escotismo. Mas, curiosamente, através da influência crescente,
desde o quinhentos, do estoicismo.
A moral dos estóicos
se concebe, desde a Antiguidade, como o conjunto de regras de conduta do sábio
e estudo das inclinações da alma, supondo a tendência a persistir na existência
ou princípio de auto-conservação (conatus) como inclinação natural mais
originária. Contudo, opera um corte nítido entre aquilo que se oferece como
objeto natural das inclinações pessoais, ou o útil, e aquilo que se pode
designar como realizável apenas pela vontade, ou o bem.
A virtude – o bem ou
a felicidade – é algo que não se confunde com uma finalidade dos atos quaisquer
mas é algo que possui uma autonomia como disposição estável e acordo consigo
mesmo que se designa prudência (frônesis). Virtude fundamental, a frônesis
qualifica todos os domínios da ação, a temperança, por exemplo, sendo a
prudência nas escolhas assim como a coragem é a prudência quando ao que se deve
suportar, etc.
Na Renascença a
influência do estoicismo torna-se preponderante mas é preciso distinguir o
neo-estoicismo, de Guilherme de Ver e Justo Lipse, purgado do panteímo e em
geral de quaisquer concepções sobre o universo para se ater aos princípios de
um guia de consciência, do estoicismo mais naturalista que vemos inspirar tanto
os meios aristotélicos em Pádua quanto os meios humanistas platônicos.
Com Guilherme de Ver
pode-se observar como a influência estóica contribui na acentuação da tendência
voluntarista da ética de Scott, pois mantendo o bem como distinto do útil, o
estoicismo permite propugnar uma espiritualidade independente da especulação.
Trata-se assim da afirmação da independência do “eu” frente à necessidade da
natureza, do espiritualismo como afirmação de autonomia enquanto conhecimento
de si mesmo.
Nessa concepção – a
época é geralmente influenciada por Sêneca, Cícero e Epiteto – o bem depende do
conhecimento de si, do que se pode evitar ou não, do que está em nosso poder ou
não, até que ponto se estende nossas possibilidades de ação, de modo que a
liberdade consiste na harmonia da vontade com aquilo que ela pode, logo na
renúncia aos ideais que prescrevem perfeições de conduta inatingíveis na
realidade.
Torna-se assim
compreensível o encaminhamento da ética renascentista no sentido de um estudo
do ser humano como ele é, estudo das paixões e de suas causas, que em todo caso
converge com a índole do naturalismo humanista que estuda as coisas nelas
mesmas, não na sua relação com o plano da Revelação. O que ilustra
perfeitamente o salto da Renascença em relação à Idade Média escolástica pois a
um São Boaventura, por exemplo, ainda à época tomista, o objetivo da filosofia
não deveria ser “o fruto de uma curiosidade que pretende atingir as coisas
nelas mesmas”, conforme a expressão de Bréhier, mas sim “uma tendência
religiosa que nos conduz a Deus”.
Quanto a isso é
interessante observar que a expressão “as coisas nelas mesmas”, hoje, obriga a
um certo sorriso e talvez mesmo de circunspecção. Pois o longo trajeto da
filosofia, desde Descartes, autorizou a inversão de perspectivas pela qual a
fenomenologia pôde utilizar esses termos com o sentido inteiramente delimitado
pelo primado da consciência, de modo que desde então essas coisas, “elas mesmas”,
conforme também Hegel, somos nós – transcendentalmente mediadas pelo Ego.
E de modo geral a
atualidade, mesmo no seu aspecto mais empirista dos momentos posteriores ao
Círculo de Viena, só pode pensar os fatos e as coisas no âmbito de uma problematização
da experiência que envolve necessariamente uma reflexão sobre a teoria. A
situação da filosofia analítica exemplifica bem o que estou expressando aqui,
pois de uma deliberada opção pela experiência na rejeição de toda metafísica “a
priori”, chegou por todos os meios à exigência metateórica.
Mas a Renascença é
ainda o momento, precedendo Descartes, em que esse anseio das coisas mesmas
parece aflorar na pureza de um anelo pela experiência não mediada. Pensar o ser
humano e a natureza assim como são em si, do mesmo modo que Verochio incitava
seus discípulos a observar atentamente a realidade material dos modelos a ser
fielmente reproduzidos na tela, conforme o exemplo de Chatelet na entrevista
radiofônica com Emille Noel.
No entanto o Sêneca
de Justo Lipse, identificando Deus e a natureza, permite pensar Deus como sendo
inteiramente livre, identificando-se também à sua própria necessidade. E em
geral, como vimos, é na transição ao Renascimento que surge esse pensamento
novo da inteira autonomia do espírito. Assim o neo-estoicismo já separa a
compreensão do ser humano de um tipo qualquer de inserção cósmica, já se ocupa
de um pensamento humano, de algo como uma causalidade livre.
Bréhier sobre isso se
expressa mesmo em termos de “uma espécie de paradoxo da história”. Contudo, não
seria aqui o lugar de ver resoar essa expressão de Artaud, citada por Foucault?
“A Renascença ... rompeu com uma realidade que tinha suas leis, sobre-humanas
talvez, mas naturais”. Assim somos compelidos a indagar, utilizando ainda os
termos de Artaud: trata-se aí de diminuição ou de engrandecimento do ser
humano?
Artaud pensa
condenatoriamente o Renascimento e mais geralmente isso que nele aflora apenas
como tendência de conceder-se ao pensamento humano algum domínio autônomo de
exercício. Em todo caso penso ser importante nesse contexto a observação de
Foucault sobre o”percurso da dúvida cartesiana” já no século XVII. Pois mais do
que apenas um trecho é o sentido mesmo da argumentação cartesiana que me parece
permitir perfeitamente notar como já se desenvolve em um âmbito outro, com
relação ao tema da loucura, do que aquele de Erasmo e Montagne.
E isso se evidencia
pelo fato de que literariamente Descartes manipula o discurso da dúvida de modo
que simula estar reconduzindo a questão, da loucura ao sonho, no sentido de
prover a sua aceitabilidade. Assim é como se implicitamente ele estivesse
negando o tema da loucura como inserido na tradição filosófica, inversamente ao
do sonho. Contudo sabe-se que à época do Renascimento ambos os temas eram
correntes de modo que, também, sim, o próprio trecho expressa uma deliberada
exclusão da loucura no âmbito da reflexão filosófica.
Ora, Foucault mostra
então que “se o homem pode sempre ser louco, o pensamento, como
exercício de soberania de um sujeito que se atribui o dever de perceber o
verdadeiro, não pode ser insensato”. Temos assim a escanção epocal que a meu
ver delimita Renascença e Modernidade estrita.
Pois esse “eu”, esse
ser humano que a Renascença libera a pensar, é mais aquele sujeito de vontade
que vimos no escotismo, enquanto tema de uma especulação autônoma em relação à
natureza, do que aquele sujeito de pensamento que havia esboçado a filosofia de
São Tomás.
Contudo se a outra
vertente humanista do Renascimento vai ainda tender para uma inserção
naturalista da concepção ética, o próprio tomismo movimentava-se no sentido de
embasar existencialmente a teoria do sujeito, tornando-a extremamente
dependente de toda uma via de participação metafísica que implicava, no sistema
propriamente escolástico, por exemplo, a física antiga. Somente a modernidade,
com Descartes, vai liberar a teoria do sujeito, no sentido de puro pensamento,
de modo a transpor completamente o sentido de toda problematização anterior e
ao mesmo tempo superar a dualidade sujeito-natureza a partir da recondução da
problemática nos termos estritos da consciência.
Assim já à época de
Schopenhauer, como observa Nietszche, se o “moralista” ainda tem como tema “a
vontade”, ele a universaliza ao mesmo tempo que a estende à natureza, numa “falsa
coisificação”, mas isso no âmbito de um pensamento que se desenvolve a partir
do Kantismo, de modo algum como proposta de inserção da compreensão do humano a
partir de um plano cósmico.
Ocorre portanto um
movimento, da Renascença à Modernidade, que expressa algo mais do que
simplesmente a autonomia do sujeito. Nesse sentido, ao invés de paradoxal, o
desejo de uma filosofia que seja apenas guia de consciência manifesto no
neo-estoicismo está bastante próxima do sujeito de vontade do escotismo assim
como da política realista de Maquiavel e em geral do tema político da Potestas
que se desenvolve já em um âmbito de reflexão independente da ética, como
pensamento do poder como relação estritamente social.
O que esse movimento
delineia assim é a curvatura ideológica pela qual o capitalismo nascente
inflete a linha de continuidade dessa nova autonomia de modo a comprometer
também a concepção do poder. Ora, desde atributo do imperador romano a atributo
de Deus que o papado devia terrenamente representar, a Potestas (potência) será
a seguir novamente dessacralizada para investir o conceito estatal e moderno de
soberania.
No entanto, assim
como o Ego moderno do cartesianismo, esse conceito de Estado também apresenta a
inflexão característica sobre o que vinha se desenvolvendo desde a Renascença.
É então proveitoso
comparar: a) a citação de Chatelet sobre a definição de República de Jean Bodin
(1576), surgindo como concepção de Potestas – “República é um reto governo de
vários lares e do lhes é comum, com potência soberana”; e b) a observação de
Foucault sobre o desenvolvimento, entre o quinhentos e o século XVIII, dos
tratados que “se apresentam não mais como conselhos aos príncipes, nem ainda
como ciência da política, mas como arte de governar”.
Ora, justamente
Foucault demonstra que essa literatura que tem como tema o governo surge
relacionada com o “retorno do estoicismo”, no quinhentos, assim como a nova
temática da pedagogia e as questões das pastorais católica e protestante.
Governo das crianças, de si mesmo, da espiritualidade, são temas que se
relacionam a essa concepção anti-Maquiavel e que lida com uma noção imanente do
ato de governar.
A expressão “potência
soberana” parece-me permitir situar a definição de Bodin no âmbito da Potestas
temporal que permanece como sendo o de Maquiavel, apesar de já se expressar em
termos de governo, não de principado. Quanto a Maquiavel, trata-se do príncipe,
o soberano, como princípio singular transcendente que não possui o território
por qualquer direito naturalmente assegurado por Deus ou por algum pacto social
mas que é aquele que sabe manipular estrategicamente esse “jogo de forças
humanas e o conflito de paixões” que se lhe afigura como sendo a sociedade, nos
termos de Bréhier.
A relação de soberania
assim instituída é de exterioridade. O principado é o território assegurado por
meios jurídicos, da força ou de aliança, mas de modo que há sempre o risco de
as coisas serem de outro modo. Foucault define o tratado de Maquiavel como “essencialmente”
“um tratado da habilidade do príncipe em conservar seu principado”.
A influência de
Maquiavel, como dessa noção de Potestas temporal correlata à transcendência do
soberano, se verifica portanto nos momentos em que se coloca a questão de como,
em que condições, se pode manter o poder absoluto do soberano sobre o Estado –
como o momento napoleônico, do Congresso de Viena ou das unificações da Itália
e da Alemanha.
Bréhier opõe a
Maquiavel o “idealismo jurídico” de La Boétie. O poder de que o tirano pretende
se apossar não se produz nesse apossar-se mesmo – já o príncipe de Maquiavel é
um guerreiro, não um jurista. Mas esse poder é alienado pelo povo por uma “servidão
voluntária” que ao menos permite supor que ele existe independente da dominação
do tirano, ainda que sob esse modo subjugado.
Quanto a Foucault, seu objetivo é mostrar que os tratados anti-Maquiavel – Guillaume de la Perrièrre, La Mothe Le Vayer, Pufendorf – possuem um conteúdo positivo, “objeto, conceitos e estratégias”, não constituindo apenas um avesso do problema de Maquiavel – como o tirano pode dominar o povo – isto é, esse mesmo problema mas visto pelo lado do povo. Trata-se nesses tratados de outro gênero de pensamento político, uma arte de governar, que estará na origem da ciência da Economia Política assim como no controle policial da sociedade civil. Contudo, será necessário observar de modo bem mais minucioso o conjunto de relações que assim se tecem.
Uma observação de Chatelet
no artigo sobre a História no volume sete de sua “História da Filosofia” pode
nos ser proveitosa para a colocação da questão que deverá estar subjacente ao
que doravante deveremos examinar.
Logo no início do
artigo Chatelet observa que as questões mais atuais ligadas ao interesse que
pode haver em “fazer história” – questões de método, enfoques, procedimentos e
meios – pecam por irrealidade ou abstração. Mas não o fazem menos por também
constituir uma redundância ou desajeitada reiteração das mesmas questões já
propostas por Hume, Voltaire e Montesquieu.
Um pouco mais à
frente, a mesma perspectiva se reintroduz. Há uma pré-história da história e
assim Chatelet afirma que trata-se sempre, ao menos, do mesmo “gênero”, forma
inalterável desde que há cidadania, direitos políticos do cidadão, logo desde
Heródoto.
A perspectiva
enunciada nesse texto de Chatelet se estabelece numa certa duplicidade de
registro pois não se trata apenas de história sem tratar-se também de
epistemologia. A “disciplina” pode flutuar conforme os desvios observados pela
acumulação dos saberes. Mas ela é como a matéria, enquanto que mais fundamental
continua sendo aquilo que a informa, o gênero ou forma mesma de sua
inteligibilidade.
Chatelet vai se opor,
tenazmente, ao longo do texto, à filosofia da história e nisso a
contemporaneidade poderá lhe oferecer algum suporte já desde Braudel realizando
o sonho de Michelet através da desqualificação disciplinar de todo método em
favor do protocolo. Pode-se assim entrever que a definição de história que se
enuncia desde o seu nascimento concomintante ao do Estado político – “texto que
visa a introduzir a inteligência do presente pela inteligibilidade do passado
próximo ou longínquo” – é a que se preserva na reviravolta contemporânea que
permite por sua vez superar as querelas das escolas de história filosófica,
historicizante ou sociologizante.
Não há saber
historiador mas sim conhecimentos historiadores oriundos da impressionante
proliferação de acontecimentos desde a irrupção da sociedade de massas com seus
meios de comunicação correlatos. Contudo esses conhecimentos do extinto ou do
presente têm que estar numa relação de eficiência com o atual, têm que se
conscientizar de que equivale em cada uma de suas escolhas ou a cada etapa de
sua produção a uma tomada de posição no combate ideológico.
Essa perspectiva
epistemológica de Chatelet ressoa assim com precisão em Ibn Khaldun, no século
XIV refletindo sobre o quadro problemático de transições e crises do Maghreb do
século VIII. Ela repousa numa ontologia. O ser, ato ou substância, qualquer que
seja tem uma natureza e um conjunto de manifestações contingentes. Esses dados
de flutuação contingentes , pertencentes a realidades naturais inteligíveis que
correspondem cada uma ao seu conceito próprio, formam o campo de observação das
ciências que se especificam conforme seu objeto, isto é, o conceito ou
realidade natural existente por si mesma.
A inserção filosófica
dessa perspectiva aparece portanto por sobre qualquer bifurcação que se pode
apontar entre os dois autores considerados. Pois Chatelet pode inserir Khaldun
em seu esquema evolutivo da história esboçado no artigo.
Há assim a
historiografia antiga que analisa a verossimilhança dos relatos para deduzir
racionalmente um plano causal no interior de um conceito de tempo que se
mantém, como devir, numa relação fundamental com o movimento. Há posteriormente
uma nova idéia de totalidade temporal introduzida pela revelação cristã como
plano da criação, da gênese ao juízo, de modo que a história desde Santo
Agostinho não se delimita mais como texto sem refletir a necessidade te (le)
ológica de sua filosofia inerente. Mas o Espírito absoluto de Hegel ou o
Capitalismo poderiam servir de inteligibilidade a essa inerência tanto quanto a
Revelação.
Assim a superação da
historiografia racional da Antiguidade é mais do que uma tendência histórica,
instituindo-se como uma de suas orientações fundamentais. A sociedade
contemporânea oferece então mais dois aportes constitutivos. O conceito de
tempo físico que se instaura pela revolução das ciências instaura um modelo
positivo à história de Ranke e Niebuhr que a entendem desde o século XIX como
ciência cujos resultados devem submeter-se à lei da verificabilidade. Mas
opondo-se a isso surge a orientação que tem como modelo as ciências humanas e
seu círculo característico enunciado por Dilthey, em que o intérprete da
história é ao mesmo tempo agente histórico.
Mais atualmente há a
implicação da luta de classes. Mas mesmo sem reduzir a história à sociologia a
proliferação de dados e temas atravessa o campo de forças da atualidade.
Superam -se os álibis de neutralidade, a razão pura ou a teleologia, a
descrição objetiva ou a erudição e a especialização.
Entrementes havia
ocorrido a disjunção Kant-Hegel. Kant, jogando com a duplicidade causal de
necessidade e liberdade enunciava a história como sutil composição desses
elementos. Assim essa composição permite introduzir o espaço de manobra que
articula como em Weber e Durkheim o escalonamento dos fatos em seus patamares periodológicos
e a construção sociológica de uma causalidade de que se poderia derivar, como
de uma ciência autêntica, previsões e decisões políticas.
Hegel, procurando
superar a dualidade, inscreverá o nexo teleológico do Espírito de modo a
favorecer de certo modo mais a narração ou reconstituição evenemencial, isto é,
dos acontecimentos. Assim, ainda que Chatelet não pareça derivar diretamente
dessa disjunção as orientações opostas de história historicizante ou
sociologizante, permanece no ar uma inclinação nesse ou naquele sentido na
descrição dos projetos de Kant e Hegel.
Ibn Khaldun está,
nesse esquema, junto a Tucídides e Políbio, isto é, na inserção antiga de uma
historiografia racional. Com efeito, o estudo de Abdel-Malek sobre Khaldun
inicia por inserir seu pensamento na problemática comum à época de transição da
Escolástica ao Renascimento, pela qual se desejava emancipar a inteligibilidade
de uma implicação puramente silogística a partir de princípios propostos, para
aplicar-se à observação do real de modo a nele mesmo desvendar as conexões
causais.
Contudo a
constituição da história enfeixa, com Ibn Khaldum, algumas relações
surpreendentes com temas que assim parecem ora renovar-se, ora inaugurar-se.
Inicialmente observa-se que há consciência da escanção que opõe gênero e
método. A historiografia não esgota a tarefa de compreensão da história. Deve
haver algo pelo que se pode deliberar sobre a pertinência dos relatos ou sua
verossimilhança. Acima desse nível descritivo dos acontecimentos há uma tarefa
mais fundamental que abrange o domínio das causas, o porquê e o como dos
eventos.
Até aí tudo ainda
cabe no esquema de Chatelet. A historiografia antiga implica uma meditação dos
fatos até que se deslinde suas conexões de motivos de modo a fornecer modelos
de ação e compreensão do devir. Mas Khaldun fornece também uma definição de
história: “informação sobre a sociedade humana”, isto é, a civilização e os
fenômenos que nela têm lugar “naturalmente”.
A sociedade humana
reveste assim tanto a aparência do múltiplo quanto a determinação do uno.
Enquanto objeto uno da história desdobra o campo contingente de flutuação que
são os seus múltiplos fenômenos observáveis: selvageria, abrandamento dos
costumes, formação de grupos agnásticos, constituição dos Estados.
Essa multiplicidade
ordenada de fenômenos é porém já o resultado do escalonamento em séries da
proliferação indefinida dos eventos que em cada série pode vir a ter lugar. Já
se está no elemento pós-escolástico de um pensamento da sociedade que se
relaciona de modo necessário com o Estado. Mas se o objeto da história é a
sociedade, o domínio das causas depende de uma ciência que visa não a descrição
de suas manifestações ou de sua natureza ao modo de uma fisionomia produzida
pela reunião de traços ou fenômenos que a compõem.
Trata-se agora não
tanto da superfície social mas daquilo que incrementa a consistência mesma
dessa superfície, isto é, da sociabilidade, que Khaldum vai designar pelo termo
“Umram”. A história se enraíza sociologicamente. Enquanto a história é uma “informação
sobre a sociedade humana” a sociologia tem “a sociedade humana e os fenômenos
que lhe são próprios “ como objetivo.
A história noticia os
eventos que se agrupam em séries precisas. A sociologia dá a razão de cada
série como articulação específica e situada do que deve apontar como sendo os
elementos fundamentais da sociabilidade, isto é, os níveis que Khaldun
estabelece estruturalmente como do econômico, do político e do cultural.
O que não quer dizer
que a Política não se constitui aí também como ciência, independente da
sociologia. Enquanto ciência independente ela é administração “da casa ou da
cidade”. A sociologia analisa então, juntamente com os econômicos, os modos
administrativos que compõem a sociabilidade. O econômico se concebe mais
fundamentalmente porém, como meio que define a especificidade de um grupo. E a
vigorosa inspiração dessa “economia” precursora já se instala no âmbito
conceitual do trabalho.
A sociabilidade
humana se estrutura fundamentalmente de dois modos, ambos estruturados “conforme
a natureza” mas correspondendo a estágios de desenvolvimento progressivo e
aglutinando-se através de laços específicos de solidariedade.
O campesinato nômade
ou tribal (umram badawi) é a sociabilidade que se constitui primitivamente como
meio de subsistência das pessoas que o compõe aglutinando-se através do
espírito de grupo, solidariedade de parentesco ou étnico.
O acúmulo de riquezas
e a constituição de soberania corresponde à formação das cidades e do Estado
(umram hadari). Se o Estado soberano é o estágio a que o desenvolvimento social
conduz inapelavelmente, sua formação conjuga os fatores econômicos (acúmulo de
bens), culturais (superação do estado de pura necessidade frente à natureza) e
políticos (desde as alianças de grupo até a dominação das tribos por alguma
dentre as famílias que as compõem).
A proposta
sociológica de Khaldun oferece assim elementos que parecem facultar o uso de
termos como “prefiguração do materialismo histórico”, ciência política,
economia e sociologia. Sobretudo parece possibilitar, como faz Abdel-Malek,
localizar-se em Khaldun a “fundação das ciências humanas e sociais”
considerando-o “nosso contemporâneo”. Sem dúvida a estatura intelectual de
Khaldun não deve ser minimizada. Mas situar desse modo seu empreendimento é
algo que põe em jogo uma compreensão histórica e epistemológica de modo que até
esse ponto preserva-se fundamentalmente a perspectiva de Chatelet.
Francamente
contrastante é a perspectiva de Foucault. Já tivemos ocasião de aproximação ao
conceito de a priori histórico que a informa. Fica assim descartada de início a
opção de uma forma básica de ciência que seria a da história ao longo de sua
flutuação disciplinar. Asism como todos os saberes sua constituição e
desenvolvimento só podem ser enfocados no interior de sua própria
contemporaneidade, a partir do traçado das condições de possibilidade que forma
a epistémê de uma época.
Ora, na atualidade a
história parece ter tido fim. Não simplesmente na evocação de um horizonte
pós-moderno para o qual tudo afinal veio a tender na homogeneidade sem política
de uma sociedade tecnológica. Mas porque tanto narração quanto explicação de
acontecimentos, tanto apreciação da contingência quanto estruturação de motivos
parecem se ter solvido na imanência dos processos que fazem proliferar as
ciências humanas, o inconsciente, a produção, a linguagem. Ao mesmo tempo em
que o objeto mesmo dessas ciências, o ser humano, se desuniversaliza pela
limitação de sua inserção na história.
Mais fundamentalmente
o que ocorre agora é que a história solveu-se na historicidade. Tempos que se
tornaram heterogêneos uns aos outros, como poderiam ser aptos a estender um
tecido que fosse “a história”, de modo a constituir algo mais do que o
permitido por uma analítica da finitude que designa por certo positividades mas
rigorosamente especificadas e delimitadas na efetividade epocal de sua eclosão?
Quanto a isso se pode
concordar, sim, que Foucault revoluciona a história. Pois se o a priori
histórico-epistêmico não rompe com o procedimento de (re)constituição das
heterogeneidades irredutíveis estas não surgem tampouco na flutuação aleatória
de um “mundo” de acontecimentos fortuitos de que só se pode captar os
contornos, os vestígios, ao modo de fenômenos espontâneos. Se não há “causa” no
sentido de se ter que explicar porque o encaminhamento de uma época se
verificou nesse ou naquele sentido – nem ciclo nem determinismo – esses
fenônenos não são por isso mais fortuitos.
Não porque devessem
remeter sempre uns aos outros ao modo de um circuito fechado de influências mas
porque se estabelecem sobre um fundo de relações que compõe um campo
epistemológico. Assim, o prefácio de As Palavras e As Coisas se expressa em
termos de deslocamento, da história à “arqueologia”.
Foucault insiste em
que não se trata de um procedimento que pudesse ser descrito como história das
idéias ou das ciências – ainda que não precisem se eximir de se utilizar dos
resultados. O espaço a partir do qual se constitui o saber não é neutro. Ele se
organiza como ordem de constituição que torna possíveis saberes e teorias.
Nessa perspectiva
devemos agora interrogar o caráter precursor da sociologia de Khaldun,
inserindo-a no contexto dos desdobramentos epistêmicos que conduzem à teoria do
governo e ao pensamento do poder – fundando a escanção entre Renascimento e
Idade clássica ou modernidade.
Quanto a isso,
utilizando a referência de As Palavras e as Coisas observa-se que aquilo que
Foucault define como sendo o sentido da história até meados do século XVII –
estabelecer a compilação dos documentos e dos signos – parece assinalar a
Khaldun um lugar de exceção. Ou introduzir o momento de bem aquilatar as
peculiaridades de Oriente e Ocidente.
Inicialmente cumpre
mostrar que há um percurso historiador, também conforme Foucault. O ver e
narrar da Antiguidade opõe-se a esses puros compilar e redizer do Renascimento.
Mas a Idade Clássica ou modernidade estrita deverá reconduzir ao ver das coisas
mesmas – que afinal se torna mais como vislumbrar já que logo esse ver se encontrará
com aquilo que o deve possibilitar, desde Kant.
Assim, do ver e
narrar antigo à compilação e glosa do Renascimento. E daí a esse novo espaço do
ver que é, na modernidade estrita, contudo, classificatório e ordenativo ao
invés de simplesmente descritivo como na Antiguidade. Após o século XVIII a
história deverá repor algo do ofício da interpretação mas constituindo agora o
âmago do empírico, aquilo mesmo pelo que as coisas vêm a ser possíveis objetos
de conhecimento.
A excessão de Khaldun
ou o problema do Oriente não são assim obstáculos reais. Como já foi assinalado
por Bréhier, o Oriente não apresentava a questão do poder espiritual de modo
que a Renascença, com toda a liberação do saber que fez intervir, pode se
comparar de certo modo àquele mundo de intensa espiritualidade oriental que se
desenvolve porém no âmbito pleno do poder temporal.
Ora, Khaldun inscreve
uma reflexão crítica no interior de um domínio que parece, pelo testemunho de
Abdel-Malek, ter se constituído ora pela narrativa dos feitos desse poder, ora
– desde o século IX até sua própria época – pelos resumos dessa gigantesca
narrativa – mais de mil livros, analogamente ao que ocorre na China. Pode-se
confirmar assim, aproximadamente, o esquema de Foucault também no Oriente.
História descritiva a que posteriormente se justapõe uma atividade de síntese,
de reelaboração.
Mas nesse domínio de
reescritura e síntese, Khaldun faz o “balanço teórico”. Abdel-Malek observa
assim com precisão o que constitui a novidade e a restrição de Khaldun com
relação à época.
A novidade é que esse
balanço inclui uma “recusa fundamental da dimensão especulativa”. Não apenas da
silogística em proveito da observação mas principalmente uma recusa da
metafísica, ou da teologia, que prescreve o ideal para inserir ora uma
cronologia tradicional ora uma tipologia dos desvios. É a descoberta de um
objeto, a sociedade humana concebida como aquilo que os seres humanos fazem,
construção de sua atividade efetiva, ação basicamente econômica mas também
política.
A restrição é que não
tendo sido dada a constitutividade desse objeto, isto é, as classes sociais,
tampouco teria sido possível estender essa atividade no sentido de projeto,
conforme o teria permitido a intuição da classe que seria o motor da história.
Essa perspectiva de Abdel-Malek se movimenta interiramente no espaço teórico
das continuidades.
Reconduzindo porém a
leitura de Khaldun à orientação de Foucault, vemos que a linearidade de sua
observação permanece junto à arquitetura do signo que compreende o regime do
saber circunscrito à Renascença. O realismo de Khaldun se exerce na verdade
pela semelhança que há entre os seres na existência. Impérios, assim como
pessoas, constituem elementos de uma natureza fundamental que os distribui
conforme o encadeamento causal que se repete por toda parte. As coisas se
aproximam de modo a revelar uma natureza secretamente partilhada. Eis porque a
história pode ser postulada, nesse âmbito, como ciência.
Os impérios que se
sucedem são realidades, tangíveis assim como as coisas e as pessoas. Não são
propriamente a reconstituição teórica ou a representação objetiva do
conhecimento. O “sistema regular do mundo” é “ordenação perfeita”, conforme a
expressão de Khaldun. E por isso as mesmas leis se aplicam a todos os seres,
desde que sejam.
É curioso o
deslizamento dos termos em Khaldun, pois “sistema” e “ordenação”, tanto quanto
a recondução da história desde a glosa à observação do real, são termos chave
na ruptura do Renascimento, isto é, na irrupção da Idade Clássica, conforme Foucault.
Mas ocorre que esse
momento novo em que se ocupar das diferenças é mais determinante do que se
deter nas similitudes vai ter como consequência o alijamento da história do
campo das ciências que se prescrevem apenas ao que oferece a clareza e a evidência
dos juízos derivados das “intuições e seus encadeamentos”, na expressão de
Foucault que observa ainda a extensão dessa implicação no horizonte mesmo da
modernidade estrita, não apenas no interior do cartesianismo.
O que me parece
particularmente ilustrativo da orientação de Foucault é o seguinte. Se há na
Idade Clássica o alijamente da história do campo da ciência e sua circunscrição
ao campo da simples erudição é porque não se pode constituir para ela nessa
época uma –em termos foucaultianos – positividade. Inversamente, se pudemos
estabelecer uma continuidade esquemática de “história” descrita em As Palavras
e as Coisas, é preciso ter em conta o fato de que esse reconduzir a história ao
ver, que se estabelece como o movimento próprio do Clássico, introduz um outro
âmbito de sua aplicação.
Não se trata, nessa
modernidade estrita, de história “científica” que não seja “história natural”,
isso que os historiadores de ciência costumam designar como a primitiva
biologia. E se a contemporaneidade reintroduz a interpretação é porque desde o
século XIX se estendem as regiões claramente delimitadas das “ciências humanas”
e a história já se volta a entender cientificamente no sentido humano.
Khaldun pensava esse
objeto impossível na Idade Clássica: a sociedade humana concebida como
realidade natural ao modo de um organismo. Mas o que lhe permitia postular esse
objeto era menos uma concepção de mundo quanto uma grade do signo, pelo que a
linguagem que reúne os conceitos na perfeição do encadeamento gramatical reúne
do mesmo modo a realidade em si.
O conceito não seria
assim, como veio a ser na Idade Clássica, uma representação sobre as coisas na
ordem do conhecimento mas a coisa mesma na semelhança de sua marca verbal. A
ordem da natureza, no Renascimento, institui um mesmo princípio de ser que é a
linguagem muda inscrita nas próprias coisas. Toda linguagem humana só pode
visar, portanto, glosar e comentar essa linguagem natural.
Esse princípio de ser
se estende a tudo o que vem a ser. Assim Foucault analisa as formas da
Semelhança que preside o sistema de signos da Renascença: conveniência, por
exemplo da alma e do corpo mas também do limo com o dorso da concha onde ele
cresce; emulação, que constrange as aparências das coisas que se refletem
indefinidamente como a relação entre o rosto e o céu, o intelecto do homem e a
sabedoria de Deus, a boca e Vênus – por ser o veículo do beijo e das palavras
amorosas; analogia, que assegura o parentesco de tudo com tudo, da planta com o
animal, do corpo humano com o dos pássaros, da tempestade com a apoplexia;
simpatia, que atua livremente no mundo como entre os elementos que Deus mistura
de modo a compensar suas atrações e repulsões e se fogo quente e água fria se
repelem, entre eles se interpõe o ar que é quente e úmido.
Mas se a similitude
pode assim universalmente se exercer é porque havendo a ordem da natureza que a
tudo compreende ela não poderia deixar de se fazer visível na manifestação
mesma das coisas. É porque essa linguagem muda é resgatável enquanto domínio
esotérico das Assinalações. Assim que há simpatia entre o acônito e os olhos, e
que por isso o acônito os cura, pode-se saber já pela forma de suas sementes
que se parecem com pálpebras.
A forma do signo é
semelhança com aquilo que ele indica. Entre o signo e o referente há a
assinalação, entre o que marca e o que é marcado há a semelhança que permite
relacioná-los. A natureza é o mundo de figuras, signos a decifrar que são eles
mesmos formas da semelhança depositadas sobre as coisas e que subsistem,
enquanto marcas, por si mesmas, independentes de sua decifração pelo homem.
O mundo dos signos
convergentes é circular de modo que essa escrita esotérica das coisas determina
a necessidade de um limite já que esse jogo da semelhança realmente não possui
termo. A noção de microcosmos desempenha estruturalmente essa função de limite,
conforme Foucault, antepondo a uma possível infinitude do macro a curva
constringente de sua semelhança com o micro. A distância entre ambos não pode
ser infinita. Os seres devem ao menos teoricamente ser contáveis, fechando-se o
domínio de tudo o que nesse interior se assemelha.
No limiar do século
XVII o sistema de signos se transforma. Irrompe o espaço da Representação que
facultará a aglutinação das positividades : gramática geral, análise das
riquezas e história natural. Compreende-se pela teorização de Foucault a
impossibilidade de atribuir a essas positividades o estatuto de estágios
primitivos daquilo que se designará como as novas empiricidades: Trabalho,Vida
e Linguagem, já no âmbito da epistemê contemporânea.
Cumpre agora observar
o curso dessa démarche teórica de modo que nos seja possível compreender porque
a restrição observada por Abdel-Malek sobre a sociologia de Khaldun – o fato de
que não se chegou a uma problematização de classes – não poderia ser dada como
deficiência e sim como a afirmação mesma do domínio em que se desenvolve. Em
outras palavras, porque Marx só se torna viável nesse cenário do século XIX.
IX – Ciência,
Ideologia e Ocidentalização
A convergência do
pensamento de Khaldun com o Renascimento ocidental pode parecer talvez ter sido
algo forçado pela sobreposição da leitura de Foucault. Afinal a Renscença tem
bem mais a ver com os dois séculos subsequentes à própria época de Khaldun.
Contudo, creio que o traço mais saliente dessa convergência é o modo como aí se
faz o elogio da monarquia.
Mas, pode-se
replicar, esse traço abrange bem mais que uma época, ainda que se conserve a
observação pela qual trata-se na Renascença da transição ao regime monárquico
absoluto que constitui a gênese do conceito moderno de nação.
O que conserva o
elogio da monarquia no âmbito da Renascença é, a meu ver, que essa atitude só
se compreende relacionada ao salto que se verifica desde o pensamento político
da cidade ao Estado. Aqui o pensamento de Khaldun toca ao mesmo tempo que se
afasta do Ocidente.
Em Khaldun o poder
monárquico se propõe, num viés bem pós-escolástico, como mais conveniente não
por ter uma destinação sobrenatural e sim por mais convir à “natureza da
espécie”. O ser humano se agrupa. Mas o que pode fazer com que o grupo social
seja mais do que uma multidão desordenada vai ser o poder do chefe. Entre o
campo e a cidade, entre os modos nômades e sedentário se constitui, porém, um
ciclo. O campo não se constitui como o motor da evolução histórica e sim a
cidade. Mas o soberano exercício do poder nessa sociedade – Estado não evita a
decadência. Após o que o ciclo recomeça.
Ora, seu pensamento
orienta-se pela realidade política do Oriente. O califado parece oferecer o
modelo do Estado que se bem realizado poderia constituir o antídoto a esse
movimento cíclico que no entanto é o mais natural, pois se prescreve ao modo
dos organismos individuais.
E desse modo o
antídoto poderia ser a monarquia. O texto de Abdel-Malek sugere efetivamente
que as coisas, em Khaldun, poderiam não ser tão “verdadeiramente ‘inalteráveis’”,
isto é, que ele possivelmente vê na monarquia forte a possibilidade de
conservação do Estado contraposta ao ciclo que no entanto tem se verificado
como a realidade natural da história. É certo que, em todo caso, ele identifica
o exercício da soberania, que supera a dispersão das tribos e a condição
nômade, com a instituição monárquica mesma.
Contudo, se até aí
temos o que pode haver de comum entre a Renascença ocidental e Khaldun, o que
nele permite ainda conservar a terminologia do “Império” parece ser esse modelo
do califado. Já no Ocidente o pensamento do poder monárquico entra, em plena
Renascença, no auge polêmico que o conduzirá à concepção do liberalismo político,
com Locke, e desde esse período sempre conserva a proximidade do conceito de
nação ao invés de uma idéia de império como reunião de povos.
Vimos que o
Renascimento ocidental é o lugar em que se desenvolvem os seguintes modos de
pensar o poder: aquele que se deriva da noção de direito natural e de pacto
social ( Luque) e aquele que se propõe como imposição da força ou astúcia
(Maquiavel). Mas ambos se igualam nisso pelo que em todo caso é o soberano que
deverá personificar o poder temporal naturalmente concebido e a imposição da
força ou astúcia não deixa de ser necessária, isto é, de certo modo
naturalmente necessária, para que haja vínculo social nacionalmente assegurado.
A ruptura que
introduz o clássico ou modernidade estrita – da era da semelhança à da
representação – estabelece também o espaço da possibilidade de quebra desse
círculo que parece fechar toda problematização política renascentista na figura
do soberano. Algo como o liberalismo – do rei às instituições parlamentares –
pode ocorrer, como na Inglaterra da revolução gloriosa.
Chatelet, na
entrevista com Emille Noel, opera essa demarcação de modo que
estabelece,inicialmente e desde a citação de “O Defensor da Paz” de Marcilio de
Pádua, a questão da afirmação da legitimidade do poder temporal. Vemos também
assim uma importante característica da problematização ocidental do poder na
Renascença, isto é, o fato de estar intimamente relacionada com o quadro de
superação da hegemonia do poder espiritual da Igreja.
Mas essa
problematização que deverá conduzir à equalização de “potência soberana” e “Estado”
permanece, conforme Chatelet, “abstrata”. Maquiavel e Bodin são citados como
seus formuladores. Maquiavel pela demonstração da necessidade da unidade
política para a existência da sociedade, Bodin pela proposição de que o que
pode assegurar essa unidade é a “Potestas”, a potência ou soberania
consensualmente estabelecida.
Chatelet vai afirmar
que o que ainda não se desenvolveu e que se torna necessário então é a
elaboração de uma teoria política que só se efetiva com Hobbes e Locke. Como se
o Renascimento tivesse apenas constituído o espaço da questão mas não os seus
termos próprios, esse espaço tendo definido apenas o vácuo de uma teoria que
devesse fornecer a inteligibilidade tanto dessa necessidade da unidade quanto
desse consenso circularmente nela e por ela estabelecido. Assim quando a teoria
finalmente se efetiva, com Hobbes, surge a noção de estado de natureza,
recolocando-se a noção de pacto social e de Estado político em outro sentido.
Já Foucault no curso
do “Collège de France” sobre a “Governamentalidade” mostra que existitu sim, na
Renascença, teoria política e de modo surpreendente que essa teorização
positiva não ocorre na continuidade daquele espaço, definido assim como
abstrato por Chatelet, da questão da soberania.
Pois até aí
tratava-se da necessidade postulada de pensar como a soberania se justifica
enquanto exercício de poder do soberano. A teoria que vem preenche-la, no
entanto, permanece “filosófica”, não “científica”, isto é, política no sentido
antigo. Trata-se em Hobbes como em Locke de definir o estado fundamental do
homem para só assim poder definir como se constitui o liame político na
sociedade.
Para Hobbes esse
estado fundamental é o de natureza, para Locke é já o do direito. Em seguida
trata-se de mostrar como desses estados primitivos se deriva a necessidade do
soberano. Ora se aliena a liberdade individual em favor do soberano para
superar o estado selvagem da natureza, no qual nenhum direito pode ser
garantido de antemão, ascedendo-se ao Estado político, ora os seres por seu
próprio direito e conscientemente se põem de acordo para atribuir ao soberano a
missão de garantir o bem comum.
E era por isso que
Chatelet não podia ver num Maquiavel uma autêntica “teoria política”.
Tratava-se aí apenas de uma prática de exercer o poder, não de uma formulação
filosófica sobre a natureza mesma desse exercício.
Mas justamente
Foucault mostra que o exercício de poder deve, contra Maquiavel, ser pensada já
no quinhentos de modo bem mais “prático”. Em todo caso ao invés de asceder ao
geral do “por que o poder” trata-se de centrar-se na particularidade mais
estrita de “como é que” se conduz esse exercício. E é só no âmbito desse
intuito que se põe a questão – e ela se põe já aí – do que é governar.
Foucault insere essa
teorização política do quinhentos – notadamente Guillaume de La Perrierre (“Miroir
Politique”, 1567) e La Mothe de La Vayer – numa descontinuidade. Ela é
coerente com o desenvolvimento concreto do aparelho administrativo da monarquia
que já se desenvolve desde essa época, mas também com o salto do pensamento
político no sentido do Estado.
Pensar o Estado não
põe as mesmas questões do pensamento da cidade. Ele exibe questões intrínsecas
de modo que Foucault assinala assim o conjunto de “análises e saberes” que
constituem entre o quinhentos e o século XVIII uma ciência do Estado. O quadro
se torna bastante complexo nesse ponto. O problema do poder já com Perriere se
torna a questão de como e o que é governar. Mas a essa linha de teorização vai
se interpor a outra linha, aquele que estivemos examinando, a que se desenvolve
exclusivamente como problemática do poder soberano.
As duas linhas ora a)
se tornan excludentes e Foucault observa que entre La Perriére e o século XVIII
ocorre todo um bloqueio da “arte de governar” ou teoria do governo pela
preminência teórica da problemática do “poder soberano”; ou b) se interpenetram
amiúde e Foucault mostra como as teorias do contrato social, Hobbes inclusive,
constituem matrizes teóricas a partir de que se procurará formular uma teoria
do governo; ou ainda c) se entre-esclarecem de modo que se a reconstituição
arqueológica dessa teoria micro do governo mostra o limite macro, por assim
expressar, da teorização do poder soberano, o bloqueio que esta institui sobre
aquela assim como o modo de sua interpenetração permite ver que e porque no
início a própria formulação da arte do governo foi muito débil.
Vamos agora procurar
recuperar a inteligibilidade que Foucault institui ao longo do texto entre a, b
e c. Em qualquer caso convém observar que de certo modo Chatelet não deixa de
ter razão pois se a teoria do governo não coincide em seu gênero e seu objeto
com a do poder soberano, uma perspectiva amplamente filosófica dessa última só
ocorre a partir de Hobbes e Locke.
Ora, a teoria do
governo enuncia dois deslocamentos constitutivos com relação à teorização do
poder soberano. Há inicialmente a pluralidade das formas de governo na
imanência de uma sociedade ou Estado enquanto na teorização do poder soberano
ocorre a tendência de identificar o exercício desse poder com a constituição de
Estado proposto, por exemplo como atribuição do poder do príncipe.
Já La Perriére afirma
uma tipologia possível de governantes – rei, imperador, juízes, etc., enquanto
La Mothe La Vayer, no século XVII, atribui três esferas de aplicação da ação de
governar. Governa-se a si mesmo conforme a moral, a família conforme as leis da
economia e o Estado conforme a política. É´a introdução da economia “ao nível
da gestão do Estado”, porém, que define essa teoria do governo . Assim o
governante ideal de La Vayer deve se instruir nos três domínios para que possa
aplicar ao Estado aquilo que assim se mostra mais útil.
Mas desloca-se também
a finalidade do exercício pois se o objetivo do poder soberano, sua razão mesma
de ser já que não se o atribui de modo algum como um direito por si, é o bem
comum, a finalidade do governo, isto é, cuidar das coisas , está naquilo que
vem a ser a conveniência em cada caso. Governar é cuidar daquilo que se
governa, provendo o seu bem específico. Assim o âmbito do governo é também
plural, conforme o objeto sobre que se exerce enquanto o do poder soberano, por
exemplo com Maquiavel, é a unidade do território ou principado.
Quanto à introdução
da Economia, a articulação da teoria do governo se faz inicialmente, como
vimos, pelo eixo da família. O limite que lhe impôs do exterior a teorização do
poder soberano se redobra assim pelo pai de família como modelo interior de sua
própria elaboração. A questão é que na realidade a economia do Estado não se
escalona pela da famíllia. Foucault vai mostrar que o desbloqueio da teoria só
pôde ser observado a partir do século XVIII, quando a abundância da moeda e a
expansão da produção agrícola, relacionadas à expansão demográfica, fará
intervir esse novo conceito que é o da população.
A estatística permite
configura-lo devido a seus fenômenos imanentes, irredutíveis aos da família.
Também quanto aos seus efeitos na economia, enquanto que a família se torna
agora pensável como instrumento pelo qual o governo acessa a população. O
objetivo do governo torna a se centralizar, como ocorria com a teorização do
poder soberano, mas pela população. Com isso já não se propõe a teoria como “arte
do governo “ e sim como ciência política que é, portanto, ciência econômica
concebida a partir da população.
Ora, nesse momento as
relações da ciência do governo com a teorização do poder soberano se invertem.
Ao se investir como ciência o governar deixou de ser algo a ser deduzido a
partir de uma teoria consistente do poder soberano mas, inversamente, como
ciência tornou-se o fundamento pelo qual se pode modernamente se colocar a
questão da forma institucional do Estado.
Assim Foucault afirma
que não se tratou de modo algum de substituir uma teoria pela outra mas sim que
a ocidentalização, a condução à “preminência desse tipo de poder que se pode
chamar governo”, instituiu o triângulo soberania-disciplina-gestão
governamental com a população como finalidade de seu exercício e os meios de
segurança como mecanismos essenciais.
A governamentalização
do Estado deriva assim de um processo complexo pelo que este deixou de ser
definido pelo território para se constituir por sua massa populacional.
Foucault estabelece os elementos dessa gênese: a pastoral cristã como modelo
arcaico, a técnica diplomático-militar como apoio de seu desenvolvimento e os
instrumentos sociais que configuram a formação da polícia como garantia de sua
constituição. A finalidade do governo não seria a população apenas de uma
perspectiva extrínseca, mas compreende o controle no detalhe. O estudo da
governamentalização é também a observação do surgimento da sociedade de
controle.
O que me parece
importante reter aqui é que a questão, assim como apresentada por Foucult,
permite assinalar a bifurcação pela qual se acentua a curva da ocidentalização.
A racionalização do exercício do governo expressa bem o momento em que o
Ocidente como que escolhe seu caminho. Se até o âmbito pós-escolástico, no
século XIV, é possível observar uma continuidade com o Oriente, mesmo lote
cultural greco-romano como campo comum de teorização, a partir da Renascença o
âmbito ocidental se especifica de modo irredutível.
Não se trata de algo
fortuito o fato de que assinalar essa bifurcação tenha se tornado especialmente
favorecido por esse estudo do curso sobre a governamentalidade de Foucault. É
exatamente pela inserção do percurso da racionalização no plano político que se
pode definir algo como o Ocidente e que se pode, concomitantemente, observar a
evolução do pensamento humano, e de modo geral a problemática epistemológica,
já inteiramente situadas no elemento da ideologia.
Como se somente nesse
lugar de mistura da racionalidade com a sociabilidade fosse possível observar a
transposição mais radical da Episteme no sentido da ocidentalização: da antiga
inserção no domínio do mito à constitutividade da ideologia. A consequência é
que não se pode afirmar um projeto que seria o da ocidentalização ou da
racionalização desde os gregos. É preciso pensar a ruptura de modo extremo,
âmbito de outro projeto, não como uma espécie de transposição do mesmo.
Compreender ou apreender essa transformação é o que deve ser possibilitado já
pelo estudo da modernidade estrita, o período que Foucault designa o “Clássico”.
X – Renascimento e
Filosofia
Observando a
filosofia do Renascimento vemos que a linha infletida e as rupturas que
assinalam as descontinuidades do que poderia, no entanto, reunir-se sob a noção
ampla de “Ocidentalização”, encontram aqui um momento notável.
Heidegger possui o
mérito incontestável de ter tematizado a ruptura inaugural. Os gregos fizeram
nascer o Ocidente no movimento de desterritorialização do poder despótico. Mas
não se reconhece esse projeto como idêntico à reterritorialização conceitual do
platonismo. A fundamentação do pensamento metafísico já é outro Ocidente.
Mas se poderia propor
que aí onde nasce esse projeto novo delineia-se também tudo o que pôde vir a
ser esse domínio. O período medieval teria sido apenas um interregno ou afinal
contribuiu como um incremento naqueles tempos conturbados de assimilação dos
povos bárbaros na composição do povo europeu.
Porque em todo caso
agora a ocidentalização abrange algo mais que um processo político, ou mudou a
escala de alcance desse termo, Política. A ocidentalização tomou o rumo da
racionalização que é coextensiva, enquanto ratio, à universalização. Logo não
se poderia registrar, quanto a isso, nenhum desvio, nenhuma diferença.
Assim, na época que
estamos examinando, o que se poderia esperar se não uma retomada dese projeto
antigo, seu recomeço ou retificação purgado já de pressupostos feudais que o
veiculavam à pura crença, mesmo que isso se tenha feito, por vezes, sob o
emblema da liberdade máxima do crer – a famosa ruptura de razão e fé da
pós-escolástica?
O que ocorre porém
não parece poder ser rotulado apenas como uma mudança de amplitude. É o que
Foucault procurou mostrar, quanto ao corte da Idade Clássica, tanto em relação
ao que lhe antecede quanto à contemporaneidade. Aquilo de que se pode retraçar
os pontos de cruzamento, os focos de convergência, os elementos de dispersão e
os meios de estabilização, o regime do enunciado, não se mantém a partir de uma
definição prévia, como o singular momento de um mesmo processo.
Carpeaux já havia
observado o traço peculiar da Renascença na Itália. É moderna em relação à
Europa da época, mas feudal em comparação com a modernidade estrita. Ora, o que
permanece feudal no Renascimento, o que já não se pode divisar no Clássico, é
sua base consensual de antítese, por assim expressar. Pois há união profunda
das correntes aparentemente mais opostas na rejeição comum à filosofia
escolástica: à concepção teocêntrica do universo, às doutrinas éticas e
políticas relacionadas com esse teocentrismo, à síntese de razão e fé, mundo
natural e domínio do sagrado.
A consequência que
daí se depreendeu foi que aquilo que assim atravessou os domínios mais
diferentes, as oposições mais bem marcadadas, se ofereceu a partir de
instrumentos conceituais inteiramente forjados no âmbito pós-escolástico, isto
é, o escotismo e principalmente o ockamismo. Assim observa-se por exemplo a
influência de Ockam sobre Lutero, iniciado nessa “teologia nominalista” por
Staupitz. Mas o ockamismo influencia também fortemente o humanismo, o que se
pode destacar com Nicolau Cusano.
Essa instrumentação
conceitual não deixa de enunciar o modo próprio de sua inserção. Não se trata
de continuar às avessas a problemática da “escola” mas de uma transformação
lenta de relações estruturais na sociedade, do encontro de um mundo novo ao
mesmo tempo em que se desenvolve a amplitude de todo um regime do enunciado
delimitado por esse quadro de transformações.
Antiguidade e
feudalismo, vimos, não evoluem tampouco na mesma consistência. Mas aquilo que
enunciou a guinada racionalizante da ocidentalização antiga comparte com o
cristianismo algo de profundamente análogo. Trata-se, em filosofia, de enunciar
o ser metafisicamente fundado, o ser impessoal, sempre o “que ser” independente
do “como ser”.
Trata-se de fornecer
uma explicação do ser, enquanto o que designei pensamento humano, do mesmo modo
que aquilo que Heidegger conceituou como o pensamento matinal dos gregos, devia
atuar o ser assim como ele é aí, desvelar o pré da presença, para expressar de
modo simples. E esse ser impessoal se enunciava de modo análogo ao cristianismo
que entre todas as crenças se propõe como a crença legítima, a religião versus
a idolatria.
Ora, no Renascimento
a pretensão da racionalidade não se joga do mesmo modo. Não se trata de
fornecer a doutrina, filosófica ou religiosa, legítima, mas sim do projeto de
enunciar os princípios de uma religião universal que pudesse englobar e
justificar todas as crenças efetivamente sustentadas através da história e da
multiplicidade dos povos. Como fazem Plethon e Postel, esses princípios são os
da filosofia antiga tal como interpretada à luz do saber desses novos tempos,
notadamente Platão. Ou, como Pico della Mirandola, trata-se de mostrar a
convergência de todas as doutrinas, a concordância de todos os filósofos.
A coincidentia
oppositorum de Nicolau Cusano – em Deus coincidem todos os opostos –
corresponde a um verdadeiro regime epistêmico. O intinerário dessa epistémê
conduz da aparente multiplicidade das coisas que se apreendem pelos sentidos (“phantasia”)
às relações que se estabelecem unindo de certo modo as representações
conceituais (“ratio”) e daí ao mais desejável, a anulação do múltiplo na
unidade da “Inteligência”.
Mas enquanto esse
processo permanece no âmbito do cognoscível, enquanto conhecimento humano, ele
se limita pela impossibilidade de se atingir de fato essa unidade como o que é
realmente. O absoluto da unidade transcende a possibilidade do conhecimento
humano que é sempre de algum modo especificação, captação de diferenças na
explicatio. A intuição mística que pode alcançar a unidade da complicatio em
Deus já não se propõe portanto no âmbito propriamente epistêmico, esse lugar da
douta ignorância. O objetivo transcende o conhecimento na via do que é
puramente espiritual.
Pode-se sugerir que
esse regime se tornou viável no mundo da ordem cristã desde Erígena. Trata-se
da circularidade fundamental, de Deus a Deus, tendo como meio a natureza. Mas
agora, como ocorre explicitamente em Marsílio Ficino, esse meio tornou-se o ser
humano, o amor sendo a realização da circularidade do processo cósmico. Essa
razão que caracteriza o regime da Renasceça e que aí preside tantos intuitos de
mostrar a realidade una da vida do espírito não mais se define, como observa
Bréhier, como faculdade de raciocinar.
Trata-se de uma
concepção mística, fortemente neoplatonizada que se conceitua como o Verbo, o
Logos, “a alma do mundo que anima todos os seres e que inspira os profetas” na
expressão de Bréhier. Assim compreende-se porque por vezes prefere-se o termo “Inteligência”
ao termo “razão”. Mas também essas sínteses que de outro modo pareceriam
surpreendentes entre revelações sibilinas, cabala, oráculos caldeus,
hermetismo, sabedoria dos Etruscos – tudo isso profundamente permeado pela
religiosidade do cristianismo.
A ênfase que se
costuma apresentar desse período acentua a emergência das ciências naturais,
reservando a das humanas à contemporaneidade. Mas o que se pode observar é que
a racionalidade do Renascimento não comporta ainda, de todo, essa gênese que só
se efetiva a partir de Galileu, e se efetiva já no século XVII que Foucault
designa “o clássico”. Assim mesmo quando, no período mais tardio da Renascença
com Telésio e Giordano Bruno, trata-se de fornecer uma explicação autônoma da
natureza isso não significa ainda negar uma realidade que a transcende.
O “materialismo” de
Telésio, que identifica natureza e matéria, conforme Sciacca, é na verdade o “animismo
estóico”, conforme Bréhier, que admite uma força ativa imanente desdobrada em
tendências opostas de calor e expansão ou frio e contração. Alma material,
pneuma, fundando o conhecimento na sensação (o sentir) que se encontra, como a
consciência, em todos os seres da natureza (pampsiquismo) – esse animal
universal em que todas as partes se correspondem por simpatia.
Bruno, afirmando a
infinidade do mundo e o heliocentrismo também concebe um princípio imanente da
natureza como força ativa, Deus “misturado nas coisas” como a alma do mundo que
as ordena.
Sciacca observa que
na obra de Campanela ocorre a “solução filosófica” do que seria a antítese
básica entre a tendência naturalista do Renascimento e o humanismo. O sentir de
Telésio se desdobra referindo-se não mais apenas à exterioridade das coisas mas
também à interioridade da autoconsciência. Mas já todo conhecimento da
exterioridade é sentido como consciência de si mesmo (sentir de sentir). Ora, o
que Campanela enuncia assim é o problema crítico do conhecimento, apontando a
dúvida cética como resultando do encobrimento da autoconsciência pela
consciência das coisas externas.
Sua solução do
problema é metafísica. A autoconsciência, inata, prova a existência de Deus
assim como fundamenta o conhecimento e realiza a unidade homem-natureza. Pois o
que o exame – bastante agostiniano – da autoconsciência revela são três atos
fundamentais do ser: poder ser, saber ser, amar ser. Posso ser, sei que sou,
amo o meu ser. Esses princípios que o autoexame encontra na consciência de si
precisam se estender a tudo o que é – enquanto ser. A autoconsciência se torna
assim o conhecimento inato do ser que se é.
Bréhier observa que o
sistema de Campanela, apesar do seu caráter tardio, abrangendo já o início do
século XVII, permanece inteiramente circunscrito ao âmbito da Renascença.
Pampsiquismo, mundo como ser vivente e sensciente, portanto magia natural como
arte positiva de utilizar forças ocultas, astrais ou que emanam da vontade,
assim como em Plotino. Mas poder-se-ia ainda assim propor que a singularidade
apontada por Sciacca – ter lançado o problema crítico do conhecimento – tem a
ver com essa escanção temporal, já próxima de Descartes?
Não seria o problema
mesmo do conhecimento – sentido como problema – algo mais próximo da
modernidade estrita do que desse mundo inteiramente marcado pelo estatuto do
redobramento a si de todas as coisas como partes da unidade ou todo que se
pensa como realidade ou Deus?
Essa unidade profunda
parece, em todo caso, lançar num mesmo sentido pensamento humano e conhecimento
da natureza. Creio que seria oportuno deter-se mais sobre essa questão. Pois a
filosofia de Campanela, talvez mesmo por esse caráter de ulterioridade, oferece
como que uma síntese do pensamento neoplatônico cristianizado do Renascimento
assim como desenvolvido em todos esses autores que estamos examinando. E nisso
seu pensamento deixa ver algo que aí é essencial.
A colocação da
questão do conhecimento na verdade não se limita, apesar da observação de
Sciacca, a Campanela. Seria interessante, quanto a isso, a comparação com
Montaigne, já que se os motivos não poderiam ser mais diversos – fundamentação
mística e metafísica de Campanela, ceticismo pirrônico de Montagne – a reflexão
evolui no mesmo meio de conhecimento de si como critério ou possibilidade de
validez.
Mas o pensamento de
Campanela situa de modo incomparável a consistência neoplatônica da Renascença,
pois poderia se indagar em que essa consciência de si não apenas repõe a
teorização de Santo Agostinho ou se, na ordem inversa, não é precursora da
problemática do cartesianismo. Ora, vê-se bem que por uma lado a
autoconsciência em Santo Agostinho jamais conduziria à magia natural como
manipulação consciente dos elos imanentes que relacionam todas as coisas.
Mas também observa-se
que esse inatismo da autocerteza não conduz, como em Descartes, a uma concepção
de idéias inatas que garantem a validez da representação das coisas. O Verbo, a
Inteligência, na Renascença, não mantém com o objeto uma relação puramente
exterior de representação mas sim de constutividade. As coisas são ora coesas
na unidade de Deus, ora especificadas conceitualmente na inteligência, ora
percebidas como seres individualizados. Assim, de certo modo, a idéia é a coisa
mesma, o que fundamenta a crença na manipulação da coisa pela manipulação
numérica ou do nome e tantas práticas de magia por simpatia.
No entanto é esse o
ponto de mutação, por assim expressar, da Renascença. Sua inserção de algum
modo na modernidade, seu caráter de transição. Pois é o verbo, participado na
inteligência do homo-microcosmos, que se articula como meio de ser, não mais a
imediatez da natureza como até aqui se pôde de certo modo prescrever.
Certamente a orientação neoplatônica poderia sugerir algo de modo bem outro.
Mas esse aporte microcósmico do humano não me parece pertencer ao domínio do
neoplatonismo antigo. E é ele que assinala a tranposição do meio pela qual a
própria emergência das ciências naturais pode se fazer compreender.
Pois ao invés de ter
fundado um meio experimental de racionalidade que as ciências humanas na
contemporaneidade deveriam como que suplementar, as ciências da natureza
emergiram desse meio novo que se inaugura por uma transposição fundamental do
pensamento humano. Essa transposição não significa tampouco algo como um
projeto que se pudesse traçar do homem-microcosmos ao Ego transcendental do
Kantismo. Mas sim que esse longo período que se tem o costume de designar sob a
mesma rubrica do moderno e no qual se reconhece a feição mais característica da
nossa própria racionalidade ocidental se repõe sobre vários modos de
sistematização.
Assim o conhecimento
fazer problema, no âmbito da Renascença, tem mais a ver com a tarefa aí sempre
renovada de conceituar a profunda unidade recém-descoberta dessa natureza não
pré-determinada pela silogística ou pelo dogma. E isso a partir do novo lugar
do sujeito na economia do conhecimento. Não se trata portanto, mais
propriamente, de oferecer um aporte crítico do que significa pensar, o que
deverá inaugurar o espaço de reflexão na modernidade estrita.
Quanto a isso, é
importante retomar agora os efeitos da emergência desse sujeito dado a pensar,
que vimos desde o escotismo. `A época do Renascimento encontram-se reunidos os
meios pelo qual o tema se amplia. Na verdade ele se torna central aí pois a
concepção do homem-microcosmos, que integra a circulação do mundo pelo
conhecimento intelectual e pelo domínio mágico da vontade, só pode se
estabilizar a partir de uma conceituação explícita do “eu”.
Esses meios podem ser
visados a partir da transformação social que se opera agora. A classe dominante
deixa de ser a nobreza feudal e se torna aquela dos comerciantes e banqueiros,
burgueses. Assim se compreende a preponderância italiana e posteriormente
espanhola. O ideal cortesão da época é o do “super-homem”, conforme a expressão
de Carpeaux. Trata-se de uma arte de viver, da estetização máxima de todos os
setores da existência, de éticas inteiramente voltadas à ação.
Carpeaux mostra que a
política de Maquiavel supõe mesmo um príncipe assim, cujo território é tratado
como a um objeto artístico. Carpeaux explica também desse modo a crítica comum
na época à astrologia determinista em prol da magia como espaço do exercício da
vontade. Ora, sem negar de modo algum o valor dessas afirmações, deve-se porém
estendê-las de modo a compreender a inserção desse individualismo, característico
da nascente sociedade burguesa, nessa época, que não se confunde por exemplo
com a teorização do “eu” da Idade Clássica posterior.
O que se precisa
enfocar é então o sentido mais geral do humanismo. O termo costuma ser
anteposto, como vimos já em Sciacca, a “Renascença”. Enquanto a Renascença
constitui o renovado interesse pelo naturalismo, o humanismo é a centralidade
do ser humano com os temas que lhe são correlatos, entre os quais as teorias
políticas, a ética, a utopia social.
As teorias políticas
compartem o embasamento ideológico do poder temporal frente à dominação
eeclesiástica. Mas esse poder temporal é absoluto e centralizado, forjando as
bases do Estado nacional moderno. Abrange, como vimos, as teorias do pacto
social de que o soberano se beneficia. Abrange também a arte política de
Maquiavel e a literatura anti-maquiavel formada pelos “Espelhos do Príncipe” em
que Foucault soube delinear a evolução da “arte” à “ciência” do governo.
A ética, como vimos,
se encaminha no sentido de uma concepção centrada no íntimo do ser humano ao
invés da tradicional síntese do naturalismo antigo. Quanto à utopia, seus
efeitos, naquilo em que não se limitam aos que se englobam nessa observação do
humanismo, deveremos examinar posteriormente.
O que se depreende
dessa observação? Algo que, no conjunto de transformações que anunciam a era
moderna, pode ser filosoficamente enfocado na obra de Campanela. É o conceito
de Potestas como um dos constituintes do ser, sendo os outros como examinamos,
a sapiência e o amor. Ora, a potência do ser – querer ser e tender a conservar
o seu ser – estende a inteligibilidade do poder como abrangência do indivíduo,
da sociedade e da natureza.
O que ocorre no
humanismo é o embasamento filosófico e já ideológico do que se designará
Renascimento com a focalização epistêmica que o caracteriza. A magia é a
ciência mesma assim como pode haver conhecimento autônomo da natureza nesse
período. Mas quando o meio circundante da oferta do capital ultrapassar a
fronteira do metalismo, concomitantemente à transição epistêmica que deverá
inserir o indivíduo no plano da representação, surge o novo quadro de ciência “puramente”
natural.
A inserção da
Potestas é o lugar conceitual em que se pode observar o enraizamento ideológico
do pensamento humano que permite embasar o nascimento mesmo das ciências da
natureza, o enquandramento da sua possibilidade epistêmica de modo que na era
da representação teremos que examinar a transição desse conceito haurido na
filosofia de Campanela ao seu novo uso na filosofia de Spinoza.
Essa perspectiva
permite situar o famoso antagonismo de Erasmo e Lutero, o humanista católico e
o reformador protestante. Erasmo propugna a renovação do cristianismo pelo
retorno à simplicidade do Evangelho, contra a corrupção do clero e as
hipocrisias das instituições. Mas o cerne humanista vê na Escritura uma verdade
universal, portanto também encontrável nos autores e filósofos clássicos da
Antiguidade.
Que a verdade
liberta, essa lição de Cristo alcança o júbilo do ser humano ao encontro de um
mundo novo, isto é, livre das superstições e corrupção institucional que o
oprimem. Quanto a Lutero, seu ideal é o da subjugação total do ser humano a um
Deus concebido como expressão da soberania, da subjetividade absoluta ou
vontade onipotente.
A subjugação a Deus
se encaminha no mesmo sentido, de certa forma, erasmiano, de libertação do ser
humano presente, frente às instituições decaídas. Mas o ideal não poderia
coincidir menos pois Lutero procede a um corte radical entre o sagrado e o mundano
de modo que jamais se poderia estender a mesma noção de verdade às Escrituras e
à literatura, por clássica que seja.
Mesmo a afirmação da
felicidade autônoma do ser humano, decorrendo da harmonia cultivada de alma e
corpo, pareceria a Lutero muito herética, pois para ele qualquer êxito humano
depende da graça, é uma concessão de Deus e só relacionada a Deus pode ter
algum sentido não pecaminoso, sendo também inatingível pelas obras, pela mera
posse da virtude.
Enquanto que a “virtú”,
no humanismo, não se constitui apenas como objetivo da vida feliz mas é seu
meio mesmo já que impele e engaja o ser humano no desenvolvimento de suas
aptidões e assim modela as atividades, a ocupação e o tempo, trantando-se do
cultivo estético da personalidade.
O que pode haver de
humanismo na Reforma, mesmo sob esse viés antitético, é aquilo que se expressou
na filosofia de Campanela como o Poder Ser, o cerne do pensamento da
Renascença, expresso na autonomia da vontade. Para Lutero, a vontade que se
devota a Deus.
Mas a concepção de
vontade, na Reforma, se constitui como “arbítrio” que por sua decisão autônoma
se aceita como “servo” pela revelação da onipotência de Deus. Há também nesse
ponto ensejo para apreciar o deslocamento de Lutero em relação ao humanismo
autêntico. Pois a vontade que se envolve no humanismo é autônoma mas não puro “arbítrio”.
A arte e a virtude impõem regras e exercícios. A autonomia da “bela” vontade
renascentista consiste no seu polimento, na sua adesão aos processos de
desenvolvimento enquanto o protestantismo pensa a vontade despótica de Deus,
cujo espírito habita o seu porta-voz humano dotando-o com o mesmo sentido
estático da subjugação do outro.
Se a Reforma é
antitética ao humanismo em bloco, no interior deste ocorre uma certa
polarização entre as correntes platônicas e aristotélicas. O platonismo
agrupou-se notadamente na academia de Florença de que participaram Ficino e
Pico della Mirandola. O aristotelismo centraliza-se em Pádua mas exibe uma
oposição interna entre os averroístas e os que adotam a orientação de Alexandre
de Afrodisia.
A polêmica paduense
gira em torno da eternidade do intelecto. Os averroístas, como Nifo,
reservam-na ao intelecto universal, portanto não extensiva às almas enquanto
individuais mas sim enquanto participantes dessa universalidade. Os
alexandrinistas, de que Pomponazzi é o maior representante, fazem do intelecto
agente mesmo apenas uma função do organismo humano, ou grau superior do
desenvolvimento da alma sensitiva.
O naturalismo de
Pomponazzi é bastante acentuado mas a reflexão moral, influenciada pelo
estoicismo, conduz à afirmação da autonomia do ser humano, responsável pelo
sentido de sua própria existência já que não se admite qualquer finalidade
sobrenatural, extrínseca aos valores a que se adere apenas por amor à virtude.
A moral do período, bastante influenciada também por Aristóteles, como vimos, é
em geral votada à ação.
Esses traços permitem situar aqui a questão que se colocou tantas vezes sobre a dependência suposta entre Renascença e Antiguidade. Quanto a isso é exemplar a oposição das visões de Burkhardt e Bakhtin, um pensando a Renascença como imitação da Antiguidade, outro sublinhando a singularidade do período, como vimos quanto ao cômico, muito mais formalmente estruturado pelos modelos populares do passado feudal.
/ 1 /
Carpeaux adere à posição de
Bakhtin, mostrando que o papel da imitação deve, nesse contexto, ser bastante
minimizado. Os motivos antigos servem para justificar as inovações “modernas”,
eivadas de elementos feudais e do realismo popular. Esse realismo, como a
profunda tendência à ação, são característicos do Renascimento autêntico. Assim
para situa-lo frente aos “proto-Renascimentos”, como o carolíngio e o do século
XII, que examinamos anteriormente, Carpeaux assinala a superação do anacronismo
estilizante, da linguagem alegórica do feudalismo oficial, entre outros motivos
pela recuperação da visão popular feudal, profundamente realista .
A reprodução fiel da figura
parece ser fenômeno intrínseco desse período dentro dessa perspetiva realista.
Compreende-se agora a impossibilidade de identificação com os modelos
clássicos. Há uma consciência da inserção no tempo, da distância entre o antigo
e o presente. O que ocorre, e examinaremos mais tarde a importância desse
tópico, é que o ultrapassamento do mito corresponde à entrada na história ao
mesmo tempo que ao enraizamento ideológico da epistémê.
Assinala-se assim a salvaguarda da coerência em manter, nesse sentido explícito, o epíteto amplo “moderno” aplicado a todo o processo cultural que se estende, desde a pós-escolástica, na ruptura com o domínio antigo inteiramente inserido no âmbito do mito – ainda que desdobrado na forma da teologia.
– Ilustrações
J. Bosch, Tentação de Santo Antonio (detalhe) – observe como a
manipulação das figuras utiliza amplamente a mistura de espécies.
Petrus Christus. Santo Elói. 1449 – transposição pioneira de uma cena sagrada com motivos mundanos.
Brunelleschi. Zimbório da catedral de Florença. Cerca de 1420 - 36. Colocação pioneira de zimbório com o tamanho requerido pelos florentinos para sua catedral, bem maior do que o que se costumava adotar até então. A resolução desse problema por Brunelleschi introduziu o novo proceso de construção que integrou as formas da arquitetura clássica nos modos de realização da Renascença.
Anônimo – Retrato de João, o Bom. Século XIV
A Alma do Mundo – o mundo na Renascença é concebido como unidade perfeita, animado por uma força sensciente ou sabedoria que se costuma personificar como arquétipo feminino (alma).Jan Van Eick. O homem do turbante. 1433. – Comparando as composições percebe-se a tendência realista que se acentua fortemente durante a Renascença.
Homem e Mulher Mandrágora – Exemplo da utilização da magia natural.
Pensava-se na mandrágora como planta miraculosa, o homúnculo vegetal
(virunculus mandragoreus), empregando-a para acalmar fluxos de humor bilioso
responsável por estados melancólicos. Paracelso e outros autores afirmavam
possuir fórmulas para recriar o homúnculo da mandrágora.
Verochio – estátua equestre a Colleone. Cerca de 1450. Exemplo do realismo renascentista.









Nenhum comentário:
Postar um comentário