Livro 2
· Introdução
I)
A consistência
geofilosófica do conceito de Logos nos permitiu distinguir, nas origens da
filosofia, destacamentos múltiplos daquilo que em geral se rotula sob a rubrica
única de pensamento racional.
Se a constituição das
ciências desde a modernidade se impôs como forma de vida na sociedade
ocidental, isto se relaciona estreitamente com o fato de que o que foi assim
imposto abarcou os encargos dessa rubrica como o ponto de vista geral, comum e
aceito, o que envolve noções axiais de “pensamento”, “razão”, “ser humano”, de
modo tal que seus pressupostos tiveram que se manter imperscrutáveis.
O ser se ocultou,
poderíamos reafirmar, simplesmente. Mas a complexidade subjacente a essa
reafirmação repõe as perplexidades que operam nas imbricações de ciência,
filosofia, pensamento das humanidades, as quais não são estranhas ou sem
relação com aquelas que assombram os leitores de jornais. A exploração do homem
pelo homem aparece sem disfarce na conexão com uma generalização do que é o homem
pela qual cada um, se examinar-se mesmo sem demora, não se reconhece.
Naquilo que precedeu
vimos que equalizar, sem mais, origem da filosofia com origem do pensamento
racional pode ser útil sob certo ponto de vista. Com efeito, não é
completamente sem sentido, uma vez que na origem estava o Logos. Entretanto os
caminhos do Logos não pareceram unívocos desde que se tornou visível a relação
existencial pela qual ele se constituiu desse ou daquele modo, conforme a
ontologia fundamental, o pensamento retórico, o platonismo, o aristotelismo. E
a ciência ocidental, poderíamos ou deveríamos acrescentar, desde que se trata
agora para nós de ver em que se pode afinal falar de ciência no sentido atual
do termo, especialmente em ciências humanas.
Entre ontologia fundamental
e pensamento retórico estabelecemos um liame possibilitado pela Pólis ateniense
do século V. Aproximamos esse caminho do Logos de uma efetividade epistêmica
bastante contemporânea conceituada por Lyotard como a legitimação pela
paralogia – especialmente bem focalizada a partir dos movimentos sofísticos.
Esse caminho se fez
lá e aqui, na Antiguidade e na atualidade, bem marcadamente na ruptura com o
saber ou opinião enquanto formas de legitimação narrativas – os grandes
relatos. Mas não do mesmo modo, não contra o mesmo fundo.
Na Antiguidade os
primeiros pensadores eram críticos da opinião, devendo fornecer tanto uma forma
quanto uma imagem legitimadora do conhecimento e ainda uma conceituação da
opinião com seus limites devidamente estabelecidos. Agora trata-se de
denunciar, de dentro, uma certa legitimação “clássica” de ciência, a do
desempenho, mostrando em que seu desvio da opinião está ele mesmo limitado pela
decalagem existente entre sua pretensão de atemporalidade e universalidade e
sua dependência de relatos eles mesmos não verificáveis nem falseáveis, no
processo de sua validação para o outro.
Assim o platonismo
surgiu como um estatuto ambíguo que, no entanto, soube balizar o caminho do
desempenho ao manipular a narrativa mítica com vistas ao embasamento de um novo
tipo de certeza que deveria caracterizar a nova legitimação a ser consolidada
no alvorecer da modernidade – o caminho da demonstração e da prova. Ambíguo
porque sua manipulação, ainda que convergindo na exigência desse novo tipo de
certeza, não chegou a estabelecer seu critério enquanto tal.
A ênfase aqui deve
ser colocada sobre o novo envolvido na certeza. Pois que o endereçamento
crítico do platonismo voltado à sofística só pode ser bem avaliado se
observarmos a mutação, como tantas vezes ressaltada por Heidegger, anteposta no
caminho do Logos, envolvendo a noção de verdade. Se o platonismo não se
confunde com o simples retorno do recalcado – o mito no século V “iluminista” –
é porque há nele uma crítica bastante abrangente da doxa, a ponto de por isso
ser tido por Chatelet como o verdadeiro marco de origem da razão.
Mas pode-se pensar
que o platonismo se deixou localizar naquilo mesmo que manipulava para superar,
pois não havia nele instrumentos conceituais efetivos que pudessem possibilitar
a transposição a outro plano. Esses instrumentos conceituais se encontram na
teoria aristotélica. Mas se na análise anterior pudemos sinalizar esse fato sem
proceder a maiores explanações agora isso se torna necessário, pois poder-se-ia
indagar: qual é então o fundamento geofilosófico daquela conceituação do Logos,
se apenas podemos afirmar que a nova forma de legitimação destacada da
ontologia fundamental se estabeleceu através desse destacar-se?
Pois o que se ousou
afirmar é que ao invés de uma progressão da opinião (saber) ao conhecimento
científico (pragmática do desempenho), e deste a uma nova imagem do pensamento
e da ciência (legitimação por paralogia), o que se tem é uma só possibilidade
de confronto da opinião que se choca desde o início com uma imagem de
pensamento, de conhecimento e ciência, que está dada numa relação ambígua com a
opinião: ao mesmo tempo ela se erige como o um do conhecimento certo sobre o
múltiplo das doxai prováveis, mas mantém em comum com estas aquilo que o saber
do relato pretende ser sem poder, contudo, caucionar enquanto pretensão: a
imagem dogmática, a certeza, a forma universal do juízo.
O termo “em comum”
supõe o prolongamento. O saber narrativo sabe que sabe – o que ouviu dizer –
Sócrates sabe que não sabe – o que não se provou ou demonstrou. Mas em se
podendo demonstrar, saberemos e saberemos que sabemos. É isso que é novo no
tipo de certeza com a qual opera as exigências do platonismo. Como tantas vezes
já se explicitou, a filosofia assim empreendida é um negócio de servir o senso
comum mais honesto, fornecer-lhe a instrumentação de que ele carece para se
transformar em conhecimento certo sem nenhuma verdadeira ruptura de natureza
entre estes domínios de partida e de chegada.
É isso também que
funda toda legitimação pelo desempenho como pragmática do conhecimento
científico. Mas a dialética não suportou o ônus da prova. A exigência só
poderia contar com os critérios formais da linguagem sem contudo haver aquilo
que permite recolocar toda a questão numa base independente das idiossincrasias
daquele que conduz a inquirição dialética. Assim costuma-se enunciar a
superioridade do aristotelismo naquilo que se refere à fundamentação do
pensamento racional, sempre associado ao desempenho. Nesse aporte, a lógica fornece
aquilo que a dialética do platonismo não conseguia suprir.
É possível que pela
evitação anterior em estender a questão, esse aporte pudesse parecer endossado
no que precedeu até aqui. Mas se bem que não seja totalmente inconsistente essa
apresentação dos fatos, não me parece de modo algum residir nesse enfoque o
principal quanto a isso. Sobretudo se pode ver as consequências a que se pode
ser conduzido por essa visão das coisas através do exame daquilo que se
convencionou designar de “aspecto psicológico da criação científica” – em uma
obra como a de Molles que se situa justamente num ponto de dobramento em
relação a concepções mais fortemente estabilizadas no horizonte moderno do
desempenho.
Molles pretende
destituir a pretensão de universal a priori da lógica tradicional e por esse
meio constituir uma nova imagem do trabalho da ciência. Essa imagem se opõe
assim àquela mais comum, bastante afastada, conforme ele, do que seria o real
da invenção por se manter no artificialismo da suposição de que o cientista
opera unicamente com base em critérios lógico-formais.
A evidenciação da
adaptação das infralógicas à pesquisa criativa porém, parte do pressuposto de
que há uma mesma origem psicológica do “mecanismo do espírito” que garante sua
identidade, sua unidade, independente do domínio de sua aplicação. Molles
exemplifica isso com duas explicações “causais”, uma teológica e outra
científica, de um mesmo fenômeno natural: o raio é explicado como punição
sobrenatural ou como máximo de potencial favorecido pela conformação física do
terreno. Mas ambas seriam “estritamente comparáveis”. As lógicas formais são
casos de mero aperfeiçoamento das infralógicas, como se a ciência emergisse tão
somente de uma sistematização do órganon, mas por aí se pudesse justamente
criticar a pretensão desse início de ser exaustivo ou normativo uma vez que a
complexidade permite agora estabelecer domínios de ação não previstos por
aquela sistematização.
O pré-científico
difere do científico por ser emocionalmente orientado enquanto que este se
formaliza conforme uma atitude puramente intelectual. Mas essencialmente Logos
é o mesmo, isto é, desenvolve-se sempre conforme processos intrinsecamente
classificáveis e uniformemente descritíveis.
A abordagem
psicológica de Molles, no âmago de sua crítica às pretensões da lógica,
permanece contudo, a meu ver, estritamente aristotélica. Favorece inclusive,
exemplarmente, a compreensão daquilo que é preciso observar no tratamento da
questão do fundamento antigo ao caminho do desempenho.
Pois a contribuição
decisiva de Aristóteles está em que, como observou Heidegger, ele desloca a
questão da “arké” para o âmbito da “aítia” – a “origem” se relaciona agora com
a “causa”.
A inserção do
racional no domínio da causalidade parece-me a fundação estrita da ciência,
destacada tanto do saber quanto do conhecimento como campo mais geral em que a
ciência se inscreve. Uma explicação teológica parece causal mas na realidade
não é científica pois não se apercebe da conexão pela qual a relação causal se
estabelece. Assim como, na metafísica, Aristóteles descreve a diferença entre o
homem prático e o teórico. O prático sabe que é assim mas não sabe o porquê. A
lógica fornece uma instrumentação mas é a causalidade que funciona como
critério na medida em que é a partir dessa base que qualquer explicitação sobre
o ente pode vir a ser mais do que uma simples duplicação daquilo que a
experiência ou o relato vem a atestar. A explicação pela vontade do deus deixa
intocada a questão de porque o deus “quer” assim – e isso é o que, ritualmente,
não se deve perguntar.
Mas a ênfase muda
assim completamente em relação ao que se vinha desenrolando até aí no horizonte
do pensamento grego, pois não está agora em questão o que o ser é ou como ele
vem a ser e sim como os entes se comportam numa rede de relações supostas como
já desde sempre objetivamente detectáveis.
As causas são
enumeradas: a essência, a matéria, a origem da mudança, a finalidade ou bem. A
essência, enumerada como uma causa, permite reduzir em um sentido preciso o “porquê”
à definição – mas também o problema da definição a uma determinação causal dada
numa situação dada. Considero de suma importância que assim se inaugure a
metafísica. Pois o intuito aristotélico logra a pretensão de totalizar o campo
epistêmico antigo ao formalizar o logos no elemento da causalidade. Mas por
esse meio a questão ontológica se transforma também, desdobrando-se no sentido
de uma aceitação do ente na imanência de sua essencialização.
Não me parece
portanto, de todo estabelecido o comprometimento da teologia astral no sentido
da transcendência, conforme afirmado por Aubenque. E aqui reside a complexidade
do aristotelismo, a possibilidade do seu enraizamento escolástico, sua vigorosa
atualidade. Pois me parecem ter se desdobrado duas séries aristotelicamente
motivadas, uma que formaliza o caminho do desempenho através do critério de
causalidade e outra que configurou ontologicamente a singularidade ao aceitar
uma inteligibilidade imanente ao devir na visão da unidade existencial irredutível
da união substancial de forma e matéria.
Focalizando nesse
momento apenas o uso do critério de causalidade no balizamento de uma definição
da ciência pode-se afirmar que se estabeleceu na conformação de uma série de
fatores histórico-epistemológicos de modo a convergir naquilo que Heidegger
diagnosticou como essencialmente metafísico. Esses fatores determinaram o
desconhecimento deliberado do segundo termo dessas séries.
Aquilo que Averróes
pôde participar de mais interior ao pensamento aristotélico, sua compreensão
existencial do devir, não influiu na formação de um conceito de ciência quando
se tratou de desenvolve-lo no âmbito de um mundo cristianizado prestes a se
industrializar, carente sobretudo de uma medida comum de nivelamento dos entes
no processo ideológico da universalização da mercadoria.
A compreensão desse
desconhecimento pode ser recuperada em Leibniz. Surpreendentemente, porque a
monadologia poderia parecer o mais aproximado a uma visão existencial singular
do devir, isto é, à unidade existencial irredutível formal-material de cada
ente, sendo cada mônada uma “unidade de força” que reflete o mundo. Mas essa
unidade não tem sua explicação em si mesma. A mônada é uma fonte de ação mas o
que se exprime em seu ato é sua própria essência – o que é escolhido por Deus,
que se utiliza do princípio do melhor para trazer as coisas à existência. Deus
escolheu Adão pecador, ainda que Adão não-pecador fosse possível, porque na
economia do mundo melhor Adão tinha que pecar.
Como já se observou,
Leibniz não é spinozista. A possibilidade não é já efetividade mas dependência
de critérios, não só de lógica mas também de moral, para vir a ser atualidade.
Esses critérios só são calculáveis por Deus que deles faz uso não por arbítrio,
é certo, mas com vistas ao pré-estabelecimento harmônico do melhor dos mundos.
A análise de
Heidegger em “Sobre a Essência do Fundamento” mostra como, em Leibniz, a
questão da causalidade se relaciona com o princípio da razão suficiente. Assim
como a causalidade em Aristóteles, a questão do princípio de razão em Leibniz –
tudo o que existe tem uma razão pela qual existe – se desenvolve no contexto da
determinação das “primeiras verdades”. Em Aristóteles, da pesquisa dos “primeiros
princípios”. Leibniz, como observa Heidegger, aceita a concepção aristotélica
da verdade como “verdade da enunciação”, isto é, da proposição. Assim ocorre em
Leibniz a sobreposição dos termos nucleares: verdade, inerência do predicado no
sujeito, identidade ou acordo, princípio de razão. Todo ente tem uma razão de
ser, isso redunda em que se pode, do acordo entre sujeito e predicado, ter a
verdade enquanto há razão pela qual pode haver acordo.
Mas a localização da
verdade proposicional em Aristóteles, dentro do âmbito maior de sua teoria,
pressupõe aquela concepção ontológica do devir, aquele outro termo das duas
séries, que permanece na esfera bem grega de pensamento. Assim, que a ciência
pressupõe o conhecimento por causas, ainda não implica que o ente singular
possa ser reduzido à generalidade em sua efetividade – assim como o exemplo
aristotélico do médico que cura o singular real, não o universal.
Mas essa efetividade,
Leibniz a concebe já pressuposta como essência produzida por criação de Deus,
isto é, existe desde o princípio um fator de homogeneidade lógico-ética, a
mente de Deus, bastante característico da ambientação cartesiana, que subsume
por inteiro o devir. A inteligibilidade se dirige a esse fator, à compreensão
de seu modo de operar, não à observação meticulosa dos seres em seu inexplicável
ser assim. Com efeito, se a essência em Aristóteles pode ser causa, ela se
aplica como causa apenas na compreensão do fenômeno determinado a partir do
conhecimento da definição mas não se exige – considera-se isso impossível – uma
explicação da essência em seu ser, o porquê da essência existir. Libera-se o
jogo da observação, das inferências, de modo a estabelecer conexões causais
observáveis entre os fenômenos. Mas a originariedade dos entes continua na
imanência da Physis.
No momento em que a
filosofia se torna escolástica, porém, só se retém da teoria aristotélica o
aspecto proposicional da verdade, ainda que na ambientação da filosofia
medieval seu pensamento tenha encontrado ressonâncias muito mais amplas. A
causalidade se torna, no interior da escolástica e progressivamente à medida
que a modernidade avança, critério de uma ciência que se desvencilhou da
originareidade dos entes em seu caráter não-predicativo. Eles são criaturas,
isto é, desde já apreensíveis unicamente no seu aspecto formal-essencial. Mas o
“unicamente” não se assume como caráter epistêmico restritivo dado aquele fator
homogeneizante do devir em geral.
E de modo análogo,
Molles já dispõe de um modelo de funcionamento do espírito – as próprias
lógicas formais – pelo qual tudo que não se confunde com ele só pode ser
propedêutica, predisposição, co-extensão a ele. É conforme esse modelo que
aquilo com que o espírito lida é sempre o objeto: seja o céu, o deus ou a
conexão dos elétrons. Sendo sempre do mesmo modo objetos eles entram como
variáveis de conexões formalizáveis. Mas há a questão que jamais foi posta
nesse contexto: como é que o espírito se constituiu o deus na mesma forma
relacional que o elétron? A emotividade se apresenta em certo caso, não no
outro, eis tudo.
Mas como é que o
objeto porta emotividade? Se o espírito parece já lidar com ele “dessa forma”,
para faze-lo conectar infra ou logicamente, que é que constitui a decisão do
espírito? Molles poderia talvez responder que essa é uma outra questão –
sociologicamente ou mesmo antropologicamente informada, não importa, mas que se
observa poder ser sempre formalizável esse comportamento. No entanto a questão
real concerne aquilo que se pressupõe como uma só relação do espírito com os
entes – sempre objetos que se pode conectar formalmente em relações
descritíveis. É isso que deve ser posto em questão e que é pressuposto na
afirmação de que a explicação mito-poética é tanto uma explicação – e
fundamentalmente da mesma natureza – quanto a física atômica.
O âmbito em que se
pode desenvolver essa questão é aquele da verdade ôntica, tal como se pode
visar com base na leitura de “Sobre a Essência do Fundamento” de Heidegger.
Esse desenvolvimento deverá permitir uma compreensão do que ocorre enquanto
fenômeno do alvorecer da modernidade.
II)
É verdade que a
descrição das infralógicas é formalmente aplicável. Não se põem dúvidas quanto
a isso. A questão, como penso ter sido circunscrita, reside em que a ação real
do espírito, envolvida no âmbito do mito por exemplo, não pode ser compreendida
através dessa descrição formal que apenas recolhe algo como o seu duplo erigido
num outro registro. Esse registro outro não é só do formalismo lógico sem ser
também aquele pelo qual se tem uma preconcepção do Logos.
Vimos, porém, como a
aderência do Logos na região de legitimação do conhecimento principia, com os
Pré-Socráticos, em conexão expressa com a crítica do saber ou opinião, já desde
aí percebido na sua vinculação com uma pragmática do relato. Lá onde aparece
Logos, tem-se necessariamente exigência de legitimação não meramente narrativa.
Assim torna-se
problemática a asserção pela qual o Logos, como razão a-histórica, é o mesmo,
seja revelado na forma incipiente do mito, seja na forma completa da lógica.
Creio que essa concepção poderia se aproximar da filosofia do juízo, assim como
desenvolvida por Brunschivicg, que define a razão como uma “atividade
incansável de ligação”, na expressão de que Vergez e Huisman se utilizam para
caracteriza-la.
A obra sem fim do
espírito consistiria na unificação da multiplicidade fenomênica, isto é, na
racionalização da experiência pela ordenação formal dos dados empíricos.
Parece-me que isso pode desempenhar o papel de premissa na compreensão da ação
espiritual como efetivável a partir da descrição das formas de unificação
possíveis, dos modos pelos quais se verificam os processos de racionalização
que se expressam através de juízos formulados, como em Molles.
O que se descreve é a
intelibilidade operante, subjacente a todo produto do espírito. A inteligibilidade,
que é o agente, é infinita, não se confunde com seus produtos finitos. Assim
não importa tanto se o domínio considerado satisfaz o requisito da racinalidade
no sentido conhecido das ciências, isto é, as infralógicas não deixam de
apresentar inteligibilidade, pois: a) o mito é produto do espírito; e b) o mito
se encadeia a partir de proposições que expressam juízos sobre a realidade.
Afirmei que essas
descrições são formalmente aplicáveis e isso me parece bastante incontestável.
Mas quanto à compreensão da ação real do espírito não se poderia pensar que se dá
o caso pelo qual as infralógicas são, enquanto disposições, conexas a processos
e modos de pensamento cotidianos no interior do mundo da técnica? A razão
científica é o modelo subjacente que impera. O senso comum na sociedade
tecnológica é “infracientificamente” orientado, procura-se fornecer explicações
conforme a explicação científica ainda que sem aplicação metódica ou práticas
de controle. A sociedade ténica é também uma sociedade do relato mas o modelo
narrativo parece regrado pela forma de inteligibilidade da ciência que fornece
uma amplitude dos jogos de linguagem que aí funcionam.
Nesse sentido seria
possível que as infralógicas não fossem apenas meras descrições factuais
extrínsecas à compreensão do fenômeno observado. Mas não ocorre o mesmo no
âmbito das sociedades tradicionais, isto é, sociedades em que não ocorreu a
emergência do contexto crítico no sentido da exigência de uma nova legitimação.
Afirmei também que o
desenvolvimento do conceito heideggeriano de verdade ôntica pode fornecer o
aporte mais conveniente de acesso ao que me parece tão problemático nesse tipo
de filosofia. Isso pode ser constatado pelo fato de que Heidegger localiza
aquilo que esse conceito envolve – a revelação ôntica, isto é, aquilo que pode
ser designado como ação real do espírito – precisamente no âmbito das questões
do fundamento que se caracterizam por delimitarem a essência da verdade.
O papel de Leibniz é
fundamental por ter introduzido a natureza da verdade, pelo princípio de razão,
como nexus, conexão de identidade ou inesse do predicado no sujeito – na medida
que, conforme Heidegger, “inesse” aqui se designa como “idem esse”. Assim a
natureza da verdade em Leibniz é aristotelicamente embasada, pois se desenvolve
unicamente no interior da proposição enquanto esta não se limita a um mero
prazer de falar mas se reveste da função autêntica do juízo. O princípio é de
razão enquanto que a razão permanece o princípio – a inteligibilidade
que se realiza, mas não se aprisiona, em juízos.
Contudo em Heidegger
a delimitação da essência da verdade por meio do princípio de razão, sempre
proposicionalmente realizada, a que se poderia bem designar razão de juízo,
permanece derivada. Ao princípio se antepõe, paradoxalmente, algo mais
originário. Isso porque a conexão de inesse não torna como tal acessível o ente
que deve, como possível objeto da predicação, estar manifesto antes da
predicação.
A revelação, que é
não-predicativa, é o que se pode chamar verdade ôntica e supõe assim a ação
real do espírito que não se deixou captar naquele tipo de descrição de Molles,
como tampouco na atividade de juízo de Brunschivicg.
A revelação
não-predicativa e anterior a toda predicação não se dá como simples captação
mecânica e indiferente de dados que se impõem já como tais para nós. Isto é, em
termos heideggerianos, o “âmbito revelador” nunca possui, primariamente, o
caráter de pura representação como intuição – Heidegger sublinha que nem mesmo
na contemplação estética.
A importância dessa
observação é enorme porque o inverso do que prescreve é o que está na base da
noção de verdade proposicional como essencial: o que o juízo liga são puras
intuições, representações livres que já se relacionam a objetos do mundo como
tais. Mas o que Heidegger antepõe é que o que há aí não são objetos
preexistentes que são passivamente captados por uma intuição pura e sim um
processo de objetivação do ente, isto é, um resultado ao fim de um, entre
outros, específico processo de revelação ôntica.
A revelação mesma é o
sentir do comportamento situado em meio ao ente possibilitado pela – por uma –
compreensão do ser dos entes. Evidentemente, por exemplo, o mundo arcaico não
disponibiliza uma compreensão da verdade como a que se tornou aquela mais
corrente das sociedades técnicas.
Mas isso no sentido
de que nele a revelação ôntica não se fazia no sentido da
objetivação-para-o-juízo, desenvolvendo-se mais como produção de verdade no
sentido ritual em que a posição de quem enuncia, a manipulação do meio, a
relação instituída entre os participantes, funciona como fatores na concreção
do que virá a ser enunciável como o ente ao invés de este ser considerado como
objeto neutro ou prévio a estes fatores rituais.
O desvelamento, isto
é, a compreensão do ser no sentido de sua constituição em como-ser e que-ser,
ilumina e conduz os comportamentos em face do ente que, assim como a disposição
e a impulsividade, gera a ocorrência (acontecimento) da revelação ôntica. O
desvelamento possibilita a revelação, permitindo também asceder do ôntico ao
ontológico.
Aqui se procede a uma
escanção do conceito de Logos de modo que se pode conservar a impressão pela
qual ele é o que há de mais essencial ao ser humano. Logos, no sentido amplo, é
a compreensão do ser, mas essa compreensão, como se pode depreender do exposto,
não equivale nem à captação do ser como tal nem à redução do assim captado ao
conceito.
Esse sentido amplo do
Logos se opõe assim a essa equivalência designada como seu sentido estrito ou
ontológico. O intervalo entre compreensão pré-ontológica e conceituação
expressa do ser abrange muitos graus. Um desses graus, por exemplo, se
determina pela delimitação de um campo de objetivação através do conhecimento
científico, seja de natureza ou história. Mas o conteúdo fático das ciências –
o “fato” que nelas se explicita – não é a instância fundadora. Apenas aponta
para a “originária constituição ontológica”, isto é, para aquela equivalência
que por sua vez pressupõe uma compreensão mais ampla. Seria preciso acrescentar
que a originareidade dessa constituição não deixa de abranger a historicidade?
Nesse ponto ocorre
uma curiosa bifurcação no projeto que se desenvolve como iluminação da
constituição das ciências humanas. Pois o que se mostra como prosseguimento
natural do que vem sendo exposto seria agora a colocação da problemática da
transcendência até a conclusão do “Sobre a Essência do Fundamento” com a
tríplice posição do fundar.
E isso seria tanto
mais necessário à medida que vem se desenvolvendo uma ambiguidade – que tende a
crescer com o uso não esclarecido dos termos – em torno do pólo conceitual
imanência-transcendência, assim como uso, por exemplo, o termo imanência na
caracterização da filosofia aristotélica.
E tanto mais
vantajoso prosseguir assim, uma vez que pretendo observar nesse mesmo texto de
Heidegger uma importante conexão do pensamento heideggeriano com a filosofia de
Gilles Deleuze. Conexão que permitiria compreender também a posição apenas
aparente do “paradoxo”, pelo qual historiadores de filosofia como Vergez e
Huisman escrevem sobre Heidegger que verdade para ele é justamente o inverso de
“uma construção transcendental”, enquanto que se pode ler em “Sobre a Essência
do Fundamento” que “mundo constitui a estrutura unitária da transcendência;
enquanto dela faz parte, o conceito de mundo é um conceito transcendental”, o
que faz de toda “clarificação e interpretação da transcendência” poder ser
chamada “exposição transcendental”.
Tendo em vista a
centralidade do conceito de imanência em Deleuze, tudo isso poderia ficar algo
menos misterioso se a conclusão se pudesse oferecer já. Ocorre que
provavelmente a compreensibilidade do que há de falso no caráter paradoxal
dessas citações estaria apenas nomeada pela conexão evidenciada. Pois – e assim
se enuncia o outro caminho proposto – somente através da lenta e paciente
reconstrução da trajetória do pensamento ocidental seria possível apreender o
salto pelo qual é agora o mundo que vem a se conceituar transcendentalmente, e
com isso também as ambiguidades que cercam aquele pólo conceitual.
Creio que esse modo oferece maior margem para o desenvolvimento do projeto, pois pode ser operacionalizado concomitantemente à própria evolução dos temas que informam a constituição das ciências humanas. Escolhido assim o caminho cumpre inicia-lo com uma panorâmica sobre a transição feudal de maneira a compreender – sempre no sentido do devir das “humanidades” – as mudanças ocorridas na aurora da modernidade.
I – Causalidade e Temporalidade
A origem quase casual
do termo “metafísica” – meta ta fusica – narrada por Estrabon e
Plutarco, apresenta traços singularmente romanescos.
Os escritos
aristotélicos “esotéricos” teriam sido legados por Teofrasto a Neleu, no século
III ac. Os que deste receberam o legado eram pesoas incultas, incapazes de
apreciar o valor dos manuscritos que depositaram em uma caverna, na qual
permaneceram até ser redescobertos, já no século I ac., sendo então transcritos
pelo peripatético Apelicon de Rodes. Novas peripécias ocorrem até que Andronico
de Rodes, escolarca do Liceu, adquire as cópias que permitem a publicação,
aproximadamente em 50 ac. desses escritos de Aristóteles e Teofrasto.
Sem nos deter nas
inverossimilhanças desse relato romanesco, longamente tratadas por Aubenque,
vemos que esse ar de acaso que envolve a descoberta de textos por tanto tempo
ocultos se estende à designação do conjunto de tratados que hoje se agrupam sob
o título geral de Metafísica.
Aubenque informa que
esses tratados também sofreram um interregno próprio de ocultação, desde Teofrasto
até o século I de nossa era, portanto um século após a publicação de Andronico,
quando Nicolau de Damas assim os intitulou devido à ordem que ocupavam naquela
edição onde figuravam após os livros da Física. Pois se de outros temas
constantes dos manuscritos há sinais de que eram conhecidos pelos autores desde
a época de sua composição, sobre os tratados metafísicos parece haver completo
silêncio de modo que só se torna registrada a história de sua recepção a partir
da intitulação implementada por Nicolau de Damas.
Assim, contornando os
aspectos romanescos da lenda, Aubenque observa que esse “oubli” da “ciência do
ser enquanto ser” perdurou no meio antigo enquanto a divisão do conhecimento se
conservou na tripartição, parece que de origem platônica, de lógica, física e
moral (ou ética). Se Aristóteles mesmo não aplicou um termo para designar a
expressão por ele utilizada de “ciência do ser enquanto ser”, essa ciência
constituía na verdade algo novo, que Aubenque não hesita em considerar menos no
sentido de uma ciência do que de um projeto.
Mas não se pode
deixar de perceber a conveniência fortuita do termo que após Nicolau de Damas
já se encontra nos catálogos de Anônimo e de Ptolomeu. O termo “metafísica” é
assim a princípio puramente extrínseco, aplicando-se pelos editores nos
catálogos, porém, justamente ao conjunto que versa sobre aquilo que não se
restringe à física. Aquilo que na materialidade do texto está “após” (metá) a
física também assim se situa quanto ao próprio conteúdo que trata do “ser
enquanto ser”.
Quanto ao objeto,
portanto, a metafísica encontra-se após a física, ao menos na ordem do
conhecimento. A física estuda a natureza, é ciência do movimento, ou como
afirmou Kant, ciência de que só se pode chegar aos conceitos por meio da experiência.
Mas o que se encontra “metá” para nós é o conhecimento daquilo que não se
encontra na experiência, pertencendo unicamente à especulação intelectual. Para
nós, unicamente, isto é, na ordem do conhecimento, pois em si mesma a realidade
que se constitui conceitualmente como objeto da metafísica é anterior à
física, no sentido de ser mais fundamental do que aquilo que existe
materialmente.
Essa anterioridade
foi platonicamente interpretada como eminência, e mais correntemente, como
reporta Aubenque, apenas no sentido de fundamento. Mas em ambos os casos houve
uma identificação com o que nos escritos aristotélicos se designa “ciência
primeira”, a que porta sobre o gênero mais eminente, isto é, cujo objeto
compreende algo “eterno, imóvel e separado”, à parte de todas as coisas
sensíveis e que Aristóteles designa Teologia.
“Ciência do ser
enquanto ser”, filosofia primeira ou teologia – termos que agora remetem à
questão: são mesmo sinônimos? Equivalem realmente, na imanência do vocabulário
do autor, à designação pela qual foram posteriormente enfeixadas? Se não todas,
qual ou quais dentre elas podem sustentar a equivalência desde que a aplicação
do termo metafísica deixou de ser puramente de utilidade para se tornar pelo
uso o lugar de desenvolvimento de um específico projeto?
Aubenque se aplica
então a desfazer as preconcepções arraigadas que estabelecem os termos como
sinônimos. Conforme sua interpretação somente se equivalem os significados de
filosofia primeira e teologia no interior da teoria aristotélica, sendo a
física a filosofia segunda. Quanto à assim designada metafísica, se sua
circunscrição de ser nada mais que a “ciência do ser enquanto ser” permaneceu
sem um termo específico definido nos escritos aristotélicos, a expressão mesma
veio a se estender no sentido de ontologia, a ciência do on (on) , declinando-se por oposição às ciências particulares.
Na episteme
aristotélica há assim uma ciência dos fundamentos que estabelece os princípios
comuns a todas as ciências, ciência do ser enquanto ser, ontologia ou
metafísica. Mais especificamente essa ciência se designa como a filosofia em
geral a que se agrega outras partes que se particularizam conforme o gênero de
seres sobre que portam constituindo-se como seus objetos.
A teologia porta
sobre seres separados e imóveis que compreendem o motor dos céus, Deus, mas
também os motores das esferas celestes, sendo assim mais geralmente uma
teologia astral. A física, ciência segunda, porta sobre seres separados, mas
móveis. “Separação” não se afirma no mesmo sentido, em ambos os casos. Os seres
separados da teologia o são por não apresentarem matéria. Já os seres separados
da física o são por subsistirem por si mesmos, sem necessidade de algo mais
para que existam. A matemática ocupa um lugar entre a filosofia primeira e a
filosofia segunda, portando sobre seres não separados e imóveis. Seguem-se as
outras ciências como astronomia, zoologia etc. A ordenação do conhecimento é
feita entre as ciências classificadas como Teoréticas (a Física, a Matemática,
a Metafisica e a Teologia), Práticas (a Ética e a Política) e Poéticas.
O que se apresenta
como metafísica nasce, conforme Aubenque, como projeto a partir da necessidade
de precisar as relações de linguagem, pensamento e ser, pois na refutação dos
paradoxos sofísticos, Aristóteles estabeleceu a condição de possibilidade do
pensamento e linguagem, respectivamente discurso interior e proferido, no fato
de que as palavras têm um sentido uma vez que as coisas têm uma essência.
Contudo, como observa
Aubenque, trata-se aí de uma experiência de distância, pois a linguagem
torna-se agora instrumento da intenção. Ao invés de ser, como o Logos da
ontologia fundamental, a abrangência que estende unificando, o Logos
aristotélico se mostra como meio de uma unidade mais fundamental que é a do ser
assim como visado na intenção de significar. Há distância entre a palavra, a
intenção e o ser.
A linguagem é
ontológica, pois nela o que se expressa a cada vez é a unidade de cada intenção
humana, tornando-se a própria ontologia, enquanto discurso total sobre o ser, a
“tarefa infinita” do discurso em geral de “examinar todas as razões que tornam
as refutações aparentes a qualquer pessoa” (não apenas ao competente no
assunto), conforme a expressão de Aristóteles nas Refutações Sofísticas, citada
por Aubenque.
Se o projeto
ontológico aristotélico nasce na análise da linguagem a ontologia é sistema ou
axiomática da comunicação. Mas se a análise assim se interioriza – atingindo o
plano das intenções que a sofística devia ignorar para lidar com a
materialidade do discurso – o que Aubenque ressalta é que o que se reencontra é
uma nova objetividade, a do ser, pressupondo que o plano das palavras na
sofística permanecia meramente objetivo, isto é, não-subjetivo no sentido da
intenção.
Não utilizo o termo
materialidade no sentido de objetividade. Parece-me que objetividade nasce no
projeto aristotélico assim descrito. A materialidade não se opõe tanto à
subjetividade. Mas o que é propriamente aquele que utiliza a linguagem se não
se propôs de antemão a cisão de sujeito e objeto? Assim compreender por esse
meio a questão sofística deve comprometer o que nela era a motivação real que
de modo algum se efetuava no exterior de uma visão pragmática da linguagem.
Quanto à objetividade
“nova” do ser, a expressão de Aubenque no que se relaciona a Aristóteles é a
mais adequada porque é também aqui, nesse plano das intenções, que o discurso
se torna uma contração de sujeito e predicado, S e P, ao mesmo tempo em que se
torna uma enunciação – de/para. Mas esse de/para-um-sujeito não está programado
no sentido transitivo do diálogo sem também se estabelecer contra todo
dialogismo efetivo na axiomática do enunciado, sob a forma do juízo, isto é,
estritamente semântico-proposicional.
O que o diálogo põe
em marcha nesse aporte é a trama pontual das significações como unidades
essenciais que dizem a cada vez o ser na possibilidade categorial de suas
relações. O Logos não é o unificante, ele é agora, ou se tornou, o
significante. Assim todo elemento pragmático-retórico precisa ser expurgado da
lógica.
Contudo parece-me
algo redutor situar o nascimento do projeto ontológico aristotélico apenas no
encaminhamento da questão da linguagem. O começo da Metafísica com a exposição
da doutrina das causas, que consta também no texto da Física, revela que há
conexão da exposição causal com a ontologia, logo, deste com o estabelecimento
de uma fundamentação do conhecimento racional. Mas o tratamento da questão da
linguagem é o lugar adequado para o desenvolvimento do projeto, o lugar por
excelência deste, a partir do momento em que ele se efetiva como projeto de
fundação – não mais como nos pré-socráticos ou sofistas, apenas uma crítica do
saber do relato e uma revelação dos poderes do Logos, mas sim, e de modo
pioneiro, uma autêntica fundamentação epistêmica.
Isso porque a
linguagem ontologicamente analisada é o instrumento a serviço desse
conhecimento por causas. O que a fundação ontológica libera, como penso, é o
campo objetivo das ciências particulares. Assim, ao invés do desenvolvimento de
uma impossibilidade como trajetória do projeto ontológico, conforme a
proposição de Aubenque, penso que o que Aristóteles efetivamente pretendeu
realizar responde ao modo de um campo epistêmico organizado e fundamentado em
uma perspectiva de estabilidade e ordenação do devir garantida pela “ciência do
ser enquanto ser”.
Algo que apóia essa
asserção é o desenvolvimento do aristotelismo que se efetivou progressivamente
no sentido da pesquisa de ciências naturais como física, zoologia e botânica.
Ao invés de realidades contrapostas, conforme o que a perfeição da
transcendência viria deslocar a pretensão de uma ontologia no mundo sublunar,
creio que a inspiração mais interior ao aristotelismo tem a ver com uma
continuidade de organização que se estende progressivamente sendo o critério de
perfeição a proximidade do ato, que se manifesta como forma. Deus é ato puro,
mas como observa Bréhier, a teologia aristotélica é mais uma cosmologia do que
uma afirmação da intransponibilidade da transcendência.
O motor imóvel que é
Deus é também a finalidade para o que tudo vem a tender. Mas permanece como
princípio que atualmente se poderia considerar físico, já que não mantemos a
divisão por gêneros, ou antes não consideramos o objeto da teologia como
científico.
O que desejo
enfatizar pode ser observado justamente com base nessa analogia, isto é, nessa
possibilidade de transposição ou aproximação do que as “disciplinas” tratam,
guardando-se as especificidades da Antiguidade e da atualidade. Tanto quanto a
teologia aristotélica, o mundo dos seres separados da matéria, platônico, exibe
uma descrição cosmológica. Mas se o espírito do platonismo inclinaria
teologicamente esse conteúdo, no sentido que teologia tem para nós na
atualidade, a inspiração do aristotelismo o inclinaria mais no sentido da
física como explicação do universo. Vemos que aqui não se derivam as
implicações éticas que a idéia do bem ou a noção de alma do mundo acarretam no
interior mesmo do campo do conhecimento.
O que ocorre é que se
estabelece no aristotelismo uma continuidade entre os mundos na concepção do
cosmos como natureza hierarquicamente superordenada conforme graus de
perfeição. À natureza material do mundo sublunar e material não pertence, é
certo, o mesmo movimento circular dos céus. Mas sabe-se que quanto mais
desenvolve sua doutrina mais Aristóteles percebe que o estudo da natureza
material, deste mundo, revela uma organização ou perfeição intrínseca,
particularmente visível na região da biologia. Encontra-se assim já na Antiguidade
uma epistemê sistematicamente consagrada abrangendo experiência e observação,
mas compreendendo também a especificidade do humano.
No entanto, se essa
especificidade não destoa de forma absolurta do plano de conjunto do universo –
sempre transição do indeterminado ao determinado, de modo que Bréhier tenha
concebido no aristotelismo algo como um verdadeiro “método da substância”– se
as atividades humanas são de forma que se as pode pensar ao modo de materiais
que se combinam para formar a cidade, resta que nesse âmbito se reinsere a
pragmática retórica, os estudos de ética e política, de modo que, à semelhança
do que ocorre na atualidade, confere-se autonomia a cada uma dessas
disciplinas.
Pode-se propor que a
meneira pela qual essa autonomia se confere não sustenta o paralelo já que na
atualidade prescinde-se de uma base de fundamentação filosófica ao exercício
independente das ciências. Mas talvez esse mesmo princípio, ainda que não
completamente delimitado no sentido antigo da ontologia da substância, venha já
atuando como fundamentação a partir de uma série de pressupostos – primado da
experiência, legitimidade dos processos de quantificação, por exemplo – que vêm
se consolidando desde a modernidade e que se consubstanciam numa doutrina como
positivismo lógico ou filosofia analítica.
Se assim for o
pensamento hermenêutico contemporâneo pareceria ter muito a fazer para não ser
simplesmente o reincidir idealista. Mas a situação da contemporaneidade, se
pôde suportar alguma analogia com a Antiguidade, é tal que esse procedimento só
pôde se implementar graças à peculiaridade do aristotelismo. Principalmente o
que impede que o paralelo se estenda é o destino da dialética – lá, na Antiguidade,
algo imanente a uma prática do discurso. Aqui, desde a modernidade, uma
concepção de natureza que findou por reverter a condição de possibilidade
ideológica das ciências humanas através da dialética marxista.
Mas retornando à
consideração da episteme antiga, uma vez que ainda teremos oportunidade para
desenvolver com mais base essa questão contemporânea, o que se encaminha agora
é que na transição do helenismo ao feudalismo é comum apontar-se um certo
afastamente desse ideal “clássico” de episteme – “clássico” já que com todos os
percalços do século IV, e mesmo mantendo-se que o apogeu do período encontra-se
no século V, não se poderia propor Aristóteles ou Platão como fenômenos de
epigonismo.
Em todo caso é
bastante consensual a apreciação pela qual o helenismo buscou mais a sabedoria
do que a ciência, mais os parâmetros do bem viver do que o conhecimento exato
sobre os entes. Contudo, naquilo em que platonismo e aristotelismo
desenvolveram projetos paralelos de fundamentação de uma nova legitimação, é
interessante verificar como o neoplatonismo inseriu a sua própria versão de
acesso à realidade inteligível.
Pois o que se tem a
partir do helenismo é o movimento geral pelo qual o conhecimento intelectual
interessa menos pela ciência do que pelo espírito, ou como afirma Bréhier, mais
conduz à teologia do que à realidade sensível por si mesma. Mas dentro desse
movimento o neoplatonismo supera sua própria limitação platônico-teológica ao
investir o pensamento humano – doravante assim designarei a orientação geral
das ciências do homem – com o que talvez venha a se constituir como o seu mais
autêntico impulso.
O encontro de Grécia
e Oriente favorecido pelas conquistas da Macedônia e mais tarde pela expansão
de Roma, localiza o neoplatonismo como o movimento intelectual mais importante
desde o aristotelismo – na perspectiva historial que preserva o que vem a ser
em termos de constituição epistêmico-existencial. Provavelmente isto se
conserva bastante redutor pois como se poderia minimizar a importância do
estoicismo e do epicurismo, e tantos aportes imprescindíveis à compreensão não
só do período mas de toda a filosofia?
Minha afirmação se
restringe, contudo, no sentido do exame da formação das ciências e quanto a
isso vemos que há uma relação de ontologia fundamental, pensamento retórico e
pensamento humano, havendo também uma relação de ontologia metafísica e “ciência”
no sentido de que esse termo se revestiu desde a sua modelagem pela física, na
modernidade.
Importa ver em que o
neoplatonismo demonstra a guinada, que se preservou no cristianismo nascente,
relativamente àquele estado de coisas pelo qual se havia logrado os fundamentos
de uma “tradição do humanismo ocidental”, conforme a expressão de Apel.
Assim se localizamos
no aristotelismo o ápice da epistemê antiga no que se relaciona com o quadro de
instituição das ciências tal como historicamente se desenvolveram, isso se deve
a que nele institui-se a fundamentação da racionalidade que se recupera no
sentido moderno do termo, isto é, a fundamentação pela causalidade. Quanto ao
neoplatonismo o que nele se opera é não tanto a fundamentação mas a inspiração
essencial pela qual o pensamento humano se desenvolveu no deslocamento
ontológico da causalidade pela temporalidade e com isso, da objetividade do ser
para a constutividade ou existencialidade da alma.
Deslocamento
problemático. Pois vimos como em Aristóteles a própria objetividade do ser
possuía o seu lugar de desenvolvimento, enquanto questão, no terreno da
linguagem na medida em que esta fazia derivar sua autonomia de algo mais
fundamental, a intenção da alma. No entanto, vimos também que essa intenção
permanecia coextensiva á essencialização objetiva do ser. Mesmo assim, tem-se
aqui uma demonstração daquilo que já afirmei sobre a complexidade dos estudos
aristotélicos, e mesmo o espaço de reserva em que se institui a decalagem entre
Aristóteles e aristotelismo. O que se torna mais enfatizado pelo próprio fato
de que, como afirma Bréhier, “é frequentemente a leitura de um comentário de
Aristóteles que apóia o início dos tratados de Plotino”.
Mas deslocamento
nesse sentido pelo que se pode atribuir ao aristotelismo a origem da
fundamentação causal e mesmo aos escritos aristotélicos a intenção pioneira
quanto a isso, sem comprometer-se assim o conjunto da teoria ainda suscetível
de análises ulteriores, isto é, sem restringi-la à concepção estreita de
ciência, verificável por exemplo numa doutrina de índole neoepositivista que
destitui de significação tudo que não é passível de experiência.
Assim se o tempo é
tratado como tópico da física, e até o neplatonismo permanece uma constante a
inserção do tempo nas explicações “científicas” da natureza, já com Plotino
ocorre a pioneira inserção do tempo como realidade da alma, inaugurando uma via
de reflexão que se reconhece, por exemplo, na atualidade, em Heidegger. A
temporalidade estabelece essa via como vertente mesma do pensamento humano e
examinar as consequências da exposição de Plotino garantirá o acesso a
importantes desdobramentos que se efetivam no mundo feudal.
II – Temporalidade e
Temporalização
O que se tornou
evidenciado na consideração em torno da origem do termo metafísica foi o plano
de fundo do platonismo. Até aqui não se pode afirmar que tenha sido uma
preocupação real delimita-lo. No entanto ressalta naquela consideração, como
que tangencialmente, o papel desempenhado pelo platonismo na recepção dos
tratados de ontologia. O efeito dese desempenho se tornará mais enfatizado
quando se tratar de avaliar as implicações atinentes às relações de
neoplatonismo e cristianismo nascente.
Efeito do platonismo,
certamente, mas então efeito de um outro efeito já que, como observou Derrida,
o próprio platonismo não pode ser mais que “um dos efeitos do texto assinado
por Platão” – e contra o texto, acrescenta ele, pois nenhum texto se limita
co-textualmente e a trama histórico-filosófica do intertexto solapa a unidade
da intenção, a lógica do autoral.
Assim quanto à
recepção dos tratados aristotélicos observa-se algo bastante curiso. A
designação – meta ta pusika - reservada ao conjunto dos escritos
surge unicamente em função do projeto ontológico de Aristóteles. No entanto o
que esse conceito logrou significar determinou-se pelo que se constituiu no
interior da escola platônica.
Heidegger já
estabeleceu a origem da metafísica como destinação niilista – em sentido
nietzscheano – do pensamento ocidental nas decisões operadas pelo platonismo.
Desse modo tem-se a retrogradação do termo metafísica na aplicação à filosofia
platônica. Mas que significa agora metafísica?
Vimos como na
imanência da teoria aristotélica a “ciência do ser enquanto ser” não portava
sobre um atributo de preminência quanto ao objeto. A substância poderia mesmo
desempenhar o papel de método, conservando-se no elemento da neutralidade, na
economia de uma fundamentação causal do conhecimento. Mas no platonismo o fundamento
não se erige do interior daquilo que ele funda. O corte propriamente metafísico
– em sentido heideggeriano – opera entre sensível e inteligível de modo que a
completude da Physis garantida pelo Hen fundamental se tornou precisamente o
conteúdo esquecido da ontologia metafísica.
Nesse locus platônico
a recepção de uma ontologia da substância convinha como teologia. Pois não há
dúvida de que se Aristóteles realiza a unidade material-formal, a pertença – ao
menos possivelmente afirmada – do inteligível reservando-se ao elemento formal
permitia uma leitura platonizante favorecida pelo fato de que há
verdadeiramente desenvolvimento na trajetória intelectual do Estagirista de
modo que pode-se afirmar que só progressivamente seu pensamento conquistou independência
real relativamente à influência de Platão.
Assim vemos que a
retrogradação do termo só se tornou possível porque aquilo que ele designava
originalmente teve seu sentido, ao menos quanto à recepção, prévia e
estrinsecamente estabelecido por aquilo mesmo sobre que a retrogradação veio a
incidir. A autenticidade ou independência do sentido aristotélico só pôde se
estabelecer lá onde, esparsamente através da história e mais consensualmente na
atualidade, o que antecedeu, isto é, o platonismo, não condicionou o que veio a
se estabelecer como ontologia dos tratados da ciência do ser enquanto ser,
devido às peculiaridades dessas instâncias recepcionais que não analisaremos de
todo por agora.
Cabe então assinalar
a questão do platonismo que se torna porém plenamente enunciável apenas a
partir do momento em que se impõe o pensamento cristão nascente, quando o
cristianismo se torna capaz de produzir algo como pensamento, não
determinando-se apenas como uma repetição de relatos ou cristalização de
dogmas, isto é, com Santo Agostinho.
Pois o que se impõe
como questão é estabelecer até que ponto se pode afirmar que só o cristianismo
introduz descontinuidade efetiva entre os mundos, tendo a physis de qualquer
modo assegurado sua unidade até, inclusive, o neoplatonismo que a garantia pelo
fio de continuidade inquebrantável, presentificado como luz, entre todos os
planos do real. Não se poderia, ao invés, postular a metafísica platônica
enquanto pioneira quanto a isso? Em outros termos, poder-se-ia indagar: como nasceu
a matéria, a noção de uma realidade puramente material que induz a pensar algo
não por si informado mas carente de forma, o impensável sem-conceito?
O impensável não é
novo. Deparamos com a necessidade de postula-lo ao examinar o paradoxo de
Górgias. Nesse contexto o impensável é o real, o ser para o qual o pensamento
tende como limite na concepção grega ontológica fundamental. Mas pensamento,
enquanto Logos, só lida com a materialidade de sua unificação relacionante,
isto é, com o processo sempre local, toda uma tópica, de abrangência.
A opinião visa a
coisa como se ela fosse o real mas o conhecimento compreende o limite e é dócil
à complexidade existencial pela qual o caos se ordena guardando-se assim, na
Physis, o inomeável do ocultamento. Mas não se postulou do Caos nada mais do
que o Nada.
Platão no entanto
deslocou o limite ontológico, a noção mesma de limite aí jogada. O platonismo
postulou o Korismós, a separação, intransponibilidade radical de matéria e
essência de modo que, como Heidegger mostrou, o que antes apenas se revelava
desvelando-se se torna agora a presença constante da identidade a si da
essência. O impensável sofístico é o que não pode aparecer, o platônico é a
realidade mesma da aparência.
O limite assume no
platonismo precisamente o papel principal na combinação dos dois elementos,
material e ilimitado, formal e limite. O ilimitado oscila sempre entre pólos
contrastantes: grande e pequeno, agudo e grave, quente e frio, de modo que cada
componente do par tende para o mais exatamente inverso do outro (o maior e o
menor, etc.). A relatividade e perpetuidade da oscilação encontra seu termo
pelo limite, sendo esse elemento limitante uma relação numérica fixa, como o
dobro ou o triplo. O misto, como ensina Bréhier, resulta “da introdução de uma
relação fixa em um par de opostos”.
Mas penso que o
problema persiste no seguinte. Temos com clareza três termos quando só são
textualmente enunciados dois. Pois limite e limitante não são o mesmo. A
relação numérica limita mas o limite enquanto tal não precisa ser dessa
espécie. Assim o limite é a ação, o limitante é aquilo que a exerce. Que a
limitação seja numérica, que toda a questão se defina como matemática, isto se
tornou o que restou por compreender.
Podemos ver como
Aristóteles já conta com uma noção bem estabelecida de matéria. A definição do
termo está em conexão com a teoria causal, como aquilo de que a coisa vem a ser
e na qual se mantém. O livro delta (4, 25 e ss.) da Metafísica reúne seis
aplicações da palavra natureza, dentre as quais se englobam as duas já
utilizadas na Física II e se esclarece o uso que se encontra no início do livro
A da Metafísica.
Com o “y “ longo,
Physis, natureza, lembra o brotar heideggeriano sendo “gênese das coisas que
crescem”. Mas também é a parte imanente da coisa, da qual provém o seu
crescimento. Seguem-se as outras definições: origem do movimento, o material de
que são feitos os objetos naturais, a essência desses objetos e a esência em
geral.
A matéria corresponde
portanto ao elemento – componente primário que inerentemente constitui algo – de
que as coisas são feitas. Nesse sentido pode-se afirmar também: o bronze é a
natureza da estátua. O termo para matéria, utilizado por Aristóteles, é sempre ule – Hylé.
Não ocorre, apesar do
escândalo da terminologia medieval, matéria sem forma postulada pela teoria,
uma vez que conforme a expresão de Bréhier, a existência só pode ser afirmada
sob a forma de substâncias atuais. A indeterminação ou a matéria que pode
existir no mundo “não se postula como uma indeterminação absoluta e em si, mas
somente relativa a formas mais completas”.
Ao registrar assim os
usos dos termos – natureza, matéria, elemento – Aristóteles mantém uma relação
constitutiva do pensar com o que circunda, isto é, com o uso registrado dos
termos, e com o que precede, inaugurando a história da filosofia. Mas nesse
sentido, ele ao mesmo tempo mantém a originalidade do que recolhe e instala a
reflexão no domínio de sintese que é o do seu próprio pensamento. Ocorre assim
uma progressão, como se o que é anterior informasse de dentro o processo pelo
qual, consequentemente, as questões se perfilam e recebem seu influxo em
esferas de complexidade crescente.
Pode-se objetar que
de modo algum a “originalidade” do que precede se mantém, pois o que entra como
componente adquirido na reflexão não conserva o sentido precisamente original
de sua constituição – os “fisiólogos” não eram, provavelmente, “materialistas”.
Mas no interior desse pensamento novo, isto é, desse agora “presentual” da
história o papel que desempenham como o que se adquire não deixa de ser
originalmente exercido. De modo algo paradoxal não se pode tampouco falar nesse
caso de distorção.
Mas quando se propõe
a interrogação sobre o korismós, e sobre o estatuto da matéria na filosofia
platônica, essa familiaridade expressa dos termos, (re)constituída no interior
do aristotelismo, não surge, ao invés ocorrendo a surpreendente emersão do
paradoxo do lugar que envolve a proposição de matéria separada. Assim para nos
aproximar da questão proposta – como nasce a noção de uma realidade sensível
separada do inteligível – o platonismo exige que se a recoloque em outros
termos: como se pode propor a existência e a separação das idéias?
Bréhier aponta como
método autenticamente platônico o da análise – que remonta do condicionado à
condição através de hipóteses. Assim Sócrates, no Fédon (97 e ss.) testemunha
que a hipótese das idéias surge quando ele abandona o tipo de explicação da
física, como a de Anaxágoras, que intervém relacionando realidades já dadas,
acessíveis ao modo de fenômenos.
Relacionando-os
causal e extrinsecamente, a física explica um fenômeno por outro, jamais
procedendo na exterioridade do observável ou intuível. O método platônico é
oriundo, ao invés da física, da matemática, enquanto hipotético – tal como
procede o geômetra do Menon (87 a). Sócrates resolve, após notar que Anaxágoras
permanece incapaz de explicar a liberdade de sua própria decisão ética,
abandonar inteiramente as explicações físicas e lançar a hipótese das idéias –
aquilo que é em si e do qual tudo o mais participa sem, contudo, confundir-se
de todo com ele.
Mas de onde surge
esta – não qualquer outra – hipótese? A influência pitagórica, se até aqui não
negligenciada, preserva-se. Pois a origem do conhecimento – ciência real ou
filosofia – já se instalou no que transcende os sentidos, portanto também a
necessidade material ou natureza como ordem fenomênica, através de um remontar
ao mito que introduz a preexistência da alma.
A autonomia do
espírito que formula suas hipóteses e as aplica especultivamente ao que percebe
a fim de testar sua sustentabilidade veio a se impor pelo modelo da matemática.
Mas o que o geômetra utiliza na formulação de suas hipóteses são relações já
dadas na axiomática de sua aplicabilidade, o que define a aceitabilidade.
Analogamente, quanto à filosofia, o que a alma encontra na liberdade do
espírito que propõe é tão somente aquilo que ela já possui. Conhecer é lembrar
o que a alma viu no mundo de que precede, o das idéias separadas da matéria.
Mas como se pode postular a ciência pelo enraizamento do mito?
Esse problema se
enuncia exemplarmente na análise de Derrida sobre a Khôra platônica. Conhece-se
a problemática do Timeu (48 e ss.). Khôra é o lugar ou receptáculo do vir a
ser, isto é, de toda coisa material. Mas Khôra não é hylé. Hylé é o material
mesmo, a matéria – prima, madeira ou bronze, aquilo que em Aristóteles se
afirma como de que algo é feito. Khôra não é uma coisa, é um não-conceito na
verdade, um paradoxo nem sensível nem inteligível. Sendo este o elemento formal
e aquele o elemento já informado, a Khôra é o que recebe a informação
permanecendo porém sem identificação possível com ela.
Receptáculo
(dekhomenon), mãe, ama, conforme as imagens propostas pelo Timeu para designar
essa noção aproximada como lugar, território, local, o problema é que entre o
vir a ser e o ser deve haver esse fator a possibilitar a natureza enquanto
sobredeterminada pelos dois planos separados. Mas como conceituar o
inconceituável?
Se o timeu mantém
esse terceiro gênero, o lugar, que não se confunde com o da forma imutável nem
com a realidade em movimento, na economia do diálogo ele se reserva à linguagem
de um raciocínio ilegítimo, um Logos que não é o do conceito e que Derrida se
pergunta a princípio se não pertenceria antes ao mito, de algum modo repondo a
questão que examinamos anteriormente, com Molles, da mito – logia.
O que Derrida observa
é que o Timeu se constrói como uma série de regressões – ao diálogo de ontem de
que o Timeu de hoje se encarrega de narrar, mas também ao povo mais antigo, os
egípcios, que recolhem a memória dos gregos, às sucessivas gerações de Crítias
e ao legómenon do mito, a palavra sem origem, sem a identidade do conceito, que
no entanto se exerce para que este último se viabilize.
Conforme Derrida a
Khôra seria o mise em abyme desse recuo das origens, funcionando, penso,
metalinguisticamente como o espelho dentro do quadro que se espelha assim ao
infinito. Pois Khôra é uma noção que a linguagem conceitual não pode designar,
obrigando o discurso a recuar no sentido mítico mas aí tampouco se deter pois o
sem objeto da proposição não mantém a progressão e assim “nós o percebemos como
um sonho”, como afirma Platão, a linguagem desdefinindo-se em proveito de algo
que finalmente se vê a funcionar como horizonte de sentido.
Esse horizonte
reencontra o lugar da possibilidade da hipótese – é o da reminiscência de que
se encontra a noção no mito da preexistência da alma. Pode-se então pensar que
o próprio Timeu se exerce no sentido de mise em abyme com relação à obra de
Platão que se instala inteiramente na procura do relato perdido do período
arcaico. O gesto platônico por excelência é de evasão do século IV, de recuo ao
momento em que ainda se poderia pensar Sólon poeta prevalecendo sobre Sólon
político.
Ato filosoficamente
paradoxal, pois lançando o korismós entre ser e aparência, Platão inaugura a
metafísica já que ao que pertence puramente à física não se atribui a função de
explicar o real tendo, isso sim, que ser explicado. Mas nesse passo atrás, do
fenômeno ao ser, não se atinge algo como imediatamente o conceito – este tomado
na sua simples determinação lógica – assim como se o logra atingir numa
enunciação fenomênico-constatativa.
Recuando
indefinidamente, do presente do fenômeno chega-se ao eterno da idéia. Ora, a
hipótese também se encontra lá, no mito da preexistência da alma, agora
transposto na doutrina da reminiscência. A alma viu, a alma possui o que ela
viu. Como observa Alain Boutot “é precisamente essa presença antecedente da
idéia que torna possíveis o desvelamento e o encontro das realidades que dela
participam como tais”.
A regressão é então o
movimento próprio do platonismo, do presente ao eterno, trnascendendo o
espírito à causalidade fenomênica. Mas o que é propriamente metafísico é que
esse horizonte de transcendentalidade que são as idéias não abre a
possibilidade existencial como compreensão do ser mas antes já hierarquiza o
devir a partir da presença constante que é identidade a si na idéia – inclusive
na idéia pensada ela mesma ao modo do número.
O pensar do ser como
precedendo e condicionando o ente pode então designar-se metafísico pois Ser “enquanto
Physis”, não – platônico, conforme Heidegger em Nietzsche II, “não tem
necessidade de nenhuma ordem a partir da qual e na qual se decide de sua
anterioridade ou de sua posterioridade, de seu antes ou depois; pois ele é o
produzir-se (das her-vor-gehen) de sua própria clareação”.
Mas também ato que
inaugura de certo modo a própria filosofia, e daí o seu caráter paradoxal. Pois
conforme Heidegger em “Que é Metafísica” expõe, a nossa própria pertença
metafísica consiste nisso pelo que enquanto se é humano ocorre filosofar, mas a
filosofia sempre já se está exercendo a partir do “peculiar salto da própria
existência nas possibilidades fundamentais do ser-aí em sua totalidade”. O
reverter do pensamento não-metafísico guarda relação com o fim da filosofia mas
conserva-se ainda como tarefa, pois não se trata, como em “Tempo e Ser”, ainda
aqui, apenas de “proposições enunciativas”?
O movimento
regressivo do platonismo parece o do próprio conceito – mas não se deveria
estar no caminho de algo mais que o conceito, visado como idéia, sobretudo em
um tempo de paralogia ou paradoxo como legitimação? Como precisar agora esse
outro peculiar salto sem se restringir à coisificação da linguagem e do mundo
propostos pela técnica?
O movimento platônico
instala, pode-se propor – o exercício independente do espírito vindo assim ao
encontro do pensamento humano. Mas o que assim se instalou – a alma – só o pôde
fazer instaurando uma relação de duplicação, não tanto agora, talvez, de
regressão, no tempo. Tornou-se pensável o tempo anímico da reminiscência mas
apenas como não-tempo.
O tempo
conceitualmente tematizado na filosofia platônica se compreende ele mesmo
dominado pelo modo do presente. O tempo tematizado nasce com o céu enquanto o
discurso sobre a Khôra se apresenta como sendo relativo à exposição sobre o que
estaria “antes do céu” – isto é, apresenta-se como explicação sobre a origem
dos elementos.
Mas se o atemporal do
pensamento é algo da ordem da reminiscência exige então o salto que se dirige
no sentido da ex-temporaneidade, nessa “temporalidade” do conceito enunciada
por Bachelard, ou o “tempo lógico” de Goldsmidth, esse último sintomaticamente
apresentado na abrangência de um estudo sobre a “Religião de Platão” como
inerente aos sistemas filosóficos, logo, proposto como método de sua
compreensão.
Ora, é provável que
esse seja o traçomais marcante da metafísica precisamente inaugurada por
Platão, a saber, a impressão de que pensar é subtrair-se ao tempo histórico,
equivalendo espiritualmente ao ato pelo qual se escande uma refração na
continuidade existencial, a Khôra sendo mesmo o conceito desse rasgo ou
escanção que Derrida apresenta como abismo abrindo-se no interior do discurso
do Timeu e que ele identifica como movimento de recuo em relação ao discurso
filosófico, a meu ver também de ascese em relação à efetividade histórica, na
direção dessa linguagem outra que é a do mito.
Mas porque utilizar
aqui precisamente o termo movimento? Tudo transcorre como se a operação do
platonismo consistisse em uma série de movimentos regressivos, como observa
acertadamente Derrida quanto ao texto do Timeu. Mas essas voltas determinam finalmente
um corte na continuidade do devir assim problematizada ou evidenciada por
demais, exagerada.
Fazer sempre possível
o deslizamento temporal no sentido do passado, deslizamento por sua vez
tampouco linear mas recortado a cada vez da efetividade da enunciação no tempo
do diálogo, efetividade que deveria ser sempre promessa de novidade conforme a
lei da informatividade, isto equivale a diferenciar a continuidade do devir
como que sobre si mesma.
Ao lançar a hipótese,
ao atingir o limiar do discurso filosófico-racional-conceitual, o que se operou
foi um outro agir, dessa vez já possibilitado por essa sobredeterminação do
devir na série de regressões. Esse agir agora é a escanção pela qual
suspende-se o tempo do devir, duplica-se o real, ascedendo assim ao atemporal
da reminiscência, a-temporalidade do conceito. Corte e duplicação mas logo
verticalidade de modo que o duplo do real fenomênico se pretende mais real do
que esse, logo o único real. É então muito importante que sua pretensão seja a
de ser único.
O tempo das origens
do mito arcaico, isto é, o tempo da regressão indefinida conforme a proposição
da Khôra em Derrida, é agora com Platão o lugar da fenda pela qual se escande o
tempo do conceito, a-temporal da reminiscência, ascese dialética.
Mas na realidade não
se opera conceitualmente sem que a operação – seja lá qual for contanto
que exista – seja uma ação na historicidade do conceito. Assim a preparação da
ascese não torna ascessível o a-temporal da idéia sem que a série de regressões
deixe de atuar como propedêutica também de ascese a uma nova história da
filosofia purgada do século V. O “novo começo” de que o discurso da Khôra se
faz introdutório no Timeu seria o da própria filosofia (re)nascendo no
platonismo que sonha apagar o que sucedeu historicamente o arcaico como
ontologia fundamental e sofística.
Que se possa ter
designado esse a-temporal do pensamento, como Bachelard, “temporalidade” é
bastante proveitoso para mostrar que essa temporalidade, sendo como ele mesmo
acentuou o “não-tempo”, opõe-se à temporalidade da Physis pré-socrática que
prefiro designar como temporalização.
A physis mesma é
temporalização naquilo em que o Hén é unificação relacionante. Logo não se pode
pensar unificação no sentido absoluto de unidade mas como a reunião da irredutível
multliplicidade. O Logos da ontologia fundamental temporaliza compreendendo,
ele estende o que na Physis já está se relacionando de modo a mostrar-se no como
do desvelamento, na clareira do sentido. Creio que a frase de Anaximandro
permite essa interpretação ao preservar o elemento do tempo como aquilo em que
as coisas se relacionam.
O Logos sendo
caminho, como abundantemente se afirma em Heráclito, é movimento, traçado do
Plano de (ou “na”) imanência, imagem de pensamento e meio de conexão das variáveis
que povoam o conceito não de todo identificado com a idéia platônica.
Assim na será
legítimo designar como movimento o voltar de Platão e o corte de transcedência
que esse voltar pretende viabilizar. Como Deleuze estabeleceu trata-se de
transcendência precisamente onde há parada, “interrupção de movimento”. O
conceito como idéia, que Heidegger aponta como inaugural da metafísica, Deleuze
define como interrupção de movimento, e a pretensão do duplo do real de ser o
único real corresponde à natureza da idéia, “sempre unidade” que “opera no meio
de uma dimensão vazia suplementar àquela do sistema considerado” conforme a
citação de Mille Plateaux.
E é exatamente essa
dimensão vazia que resulta da ascese platônica, é a ela que a duplicação faz
asceder pela parada que se escande após a série de regressões, ascese calcada
na modelagem do pensar pela matemática. Como tal pode-se, sim, falar de uma
religião de Platão pois conforme Deleuze pode-se afirmar que “há religião cada
vez que há transcendência”.
À regressão
indefinida das origens como tempo próprio do mito arcaico – que o pitagrismo
havia modulado como eternidade enquanto elemento das vicissitudes da alma – se
transpõe a temporalização como nascimento do pensamento, na crítica do saber,
já se instalando como ontologia fundamental e pensamento retórico na ambiência
do humano. A temporalidade platônica se estabelece na dimensão vazia do pensar
da identidade “pura”, interrupção do movimento, redução do múltiplo ao uno como
presença constante da idéia. A causalidade aristotélica mantém uma relação
complexa com esses predecessores.
O agir do aristelismo
não produz a duplicação como operação de transcendência, não se processa como
ascese a essa temporalidade vazia de tempo (a-temporalidade). A pesquisa aristotélica
envolve sempre observação do real fenomênico, é operação de imanência. No
entanto o corte teofrástico precisa ser considerado no sentido histórico de uma
possível e vindoura modelagem do pensar pela física.
Possível – pois não
pretendo já estabelecer como dada a vinculação do pensamento aristotélico com
essa modelagem pela física mesmo afirmando que é o que me parece o mais
plausível. Vindoura – pois sabe-se que será o que efetivamente ocorre na
modernidade.
No entanto o que a
a-temporalidade platônica efetivou, com sua modelagem do pensar pela
matemática, foi a sobredeterminação do termo “metafísica” oriundo como vimos
dos escritos aristotélicos. Esses escritos relativos à ciência do ser enquanto
ser não devem ter estado conexos aos tratados de Física apenas casualmente.
Como método da substância e fundamentação causal garantem, em Aristóteles, a
estabilização da teoria provendo a observação do real fenomênico com o status
de uma prática científica.
E logo o fator Platão
se conecta com a índole helenística e cristã de modo que se tem nesse período
de transição, cujo momento culminante é Santo Agostinho, a questão enunciada:
os processos cosmogônicos do mito grego implicam sempre geração,
desenvolvimento, enquanto que a mentalidade judeu-cristã lida com a noção de
criação abrupta ex-nihilo. Assim esse tipo de descontinuidade, que determina
também a duplicação de planos no seio do real, não pode ser imputada às
correntes anteriores ao pensamento cristão na transição do helenismo ao
feudalismo. Mas será o bastante para se pensar uma Physis una mesmo na
contingência do platonismo?
Penso que a fratura
do real consubstanciada como corte metafísico propriamente platônico
relaciona-se a uma exacerbação do arcaísmo pelo que se buscava a todo custo
restaurar o fundo de descontinuidade política oligárquica, o que pode ser
observado plenamente no pensamento ético-político de Platão.
Se, como observa
amiúde Jaeger, a Paidéia autêntica dos nobres nos tempos recuados da Arete
heróica e da economia agrícola pressupunha uma continuidade social bem grega,
isso se devia ao elo intrínseco que ligava os ideais aristocráticos à cultura
popular pois a descontinuidade, como desigualdade fundamental de classe,
subsistia sob a salvaguarda do mito. Mas o evolver da história atuou no sentido
de convergir cada vez mais as desigualdades de classe e cultural, favorecendo
uma movimentação popular tendendo à igualdade política – continuidade isonômica
e democrática – favorecida pela revolução econômica no limiar da emergência da
Polis.
Contudo quando se
pretendeu remontar a corrente o que resultou foram sínteses forçadas como as
políticas culturais dos tiranos – impondo a exibição da cultura a um povo
indiferente e despreparado para ela – ou a figuração de uma realidade puramente
formal e modelar contraposta àquela a que só se devia imputar o dever de
imitar.
Ainda assim penso que
o criacionismo atua como elemento decisivo, pois o Korismós platônico não deixa
de se exercer como explicação sem funcionar também como método de análise efetiva
– sempre mistos de que se deve considerar precisamente a composição. No
cristianismo, porém, trata-se de estabelecer o corte no sentido de realidades
corporais e anímicas, havendo também a instauração de planos de realidade
extremamente opostos, o de Deus e o dos homens, paradoxalmente relacionados
pela existência do Deus-homem Jesus.
A realidade corpórea
se torna assim conceituada de modo inteiramente novo pois o corpo, sede da
alma, mantém com esta relações não de todo harmoniosamente pré-estabelecidas.
No intervalo conflituoso instala-se a novidade da consciência que é afinal o
que decide ou responde pela alma perante Deus no juízo.
Quanto à irredutibilidade dos planos, o de Deus e o dos homens, e sua paradoxal inter-ligação, as consequências deverão se tornar bastante visíveis no campo do pensamento humano pois surgirá daí algo como uma filosofia da história, com Santo Agostinho. Mas para delinear-se bem como se estabelece essa realidade histórica, doravante filosófico-metafisicamente fundamentada, é preciso compreender como a história se desenvolve no seu elemento mais próprio – o tempo – e através dessa análise se poderá precisar em que se pode efetivamente consignar ao cristianismo o pioneirismo daquela separação – ou “superação” – da Physis.
III – Paganismo,
Filosofia e Cristianismo
O período que devemos
examinar sob a designação geral de helenismo abrange, desde o século I de nossa
era, até a consolidação do estado de coisas feudal, de que poderia ser um marco
o fechamento das escolas filosóficas de Atenas por Justiniano (529). Ele se
caracteriza pela tensão entre três tendências, a místico-pagã, a especulação
filosófica e a religiosidade cristã.
Para viabilizar uma
linha de continuidade desde a época clássica que vimos estudando, pode-se
mapear o helenismo, utilizando as resenhas sinóticas de Sciacca, conforme os
subperíodos moral e religioso. O período moral abrange epicurismo, estoicismo,
ceticismo e ecletismo, vindo desde o final do século IV até o início de nossa
era. O religioso, a partir dessa época, compreende a filosofia
judeu-alexandrina de Fílon, neopitagorismo, neoplatonismo e as escolas siríaca
e ateniense.
Como já acentuei essa
aproximação à transição do helenismo ao feudalismo é muito panorâmica pois
minha intenção é delinear o curso de evolução das linhas de prolongamento,
localizando se possível o ponto preciso de sua refração. Por esse motivo não me
deterei no período moral e estou examinando apenas o religioso.
Naturalmente se
poderia objetar que com isso a importante conexão de cristianismo e estoicismo
permanece não tematizada. Ocorre que a evolução que pretendo focalizar tem a
ver com temas que surgem especialmente no confronto do pensamento cristão com o
neoplatonismo.
Eternidade do mundo,
divindade dos astros, crença na magia e na metempsicose são universais no
período religioso, a ponto de se poder falar dessa “fé” como configuradora do
helenismo, designado agora como tendência espiritual oposta ao cristianismo que
nega cada uma dessas proposições.
A tendência marcante
é o sincretismo, especialmente a mescla de religiões orientais com as gregas e
latinas: adoração ao sol, à Mitra, cultos sírios, mistérios egípcios, não raro
aceitando elementos provenientes uns dos outros nas cerimônias oficiais. Ao
lado dessas religiões organizadas o paganismo se vê povoado por uma
multiplicidade de seitas e doutrinas místicas como a alquimia – o tratado de
Hermes Trismegistos é localizado por Sciacca no século I e por Bréhier no
século IV – que este último reúne sob a rubrica da teurgia: conhecimento de
práticas para fazer intervir o sobrenatural conforme a inclinação da vontade do
praticante.
Essa espiritualidade
não encontra resistências de tipo racionalista. A atitude puramente intelectual,
como por exemplo a antidogmática cética ou a crítica epicurista contra toda
superstição, se tornam bastante raras, praticamente não ocorrendo qualquer
pretensão de explicação física ou mecânica dos processos da natureza. Tudo é
visto como uma rede de relações mágicas, influxos misteriosos que propiciam os
acontecimentos. A cor, sendo qualidade, por exemplo, é utilizada como prova de
que o racionalismo jamais poderia explicar todos os fenômenos. Os Oráculos
Caldeus e o Timeu de Platão são considerados os textos fundamentais na época em
que predomina esse tipo de inclinação espiritual.
Os que se devotam
agora à especulação filosófica de modo algum se isentam dessas crenças. Mas
esses filósofos se encarregam de algo outro em relação aos teurgos que eles não
deixam de respeitar e que não se interessam por tais tarefas. Trata-se de
especular sobre a realidade suprasensível, determinando-lhe as formas
hierarquicamente conceituadas. O mundo sensível é em todo caso concebido como
meio de interação de influências mágicas. Mas o que os filósofos do helenismo
pretendem é compreender a realidade que está acima da magia do mundo.
As tendências
sincrética e mística persistem ainda assim pois o filósofo, como Plotino,
também é o homem do seu tempo. O neoplatonismo de Plotino desenvolve, por
exemplo, paralelamente à filosofia, uma religião autêntica dotada de dogmas e
uma profusão ritual bastante peculiar. E se o filósofo se singulariza em
relação ao teurgo, a princípio, por sua recusa dos meios da magia, o teor mesmo
das filosofias se concentram progresivamente em torno de uma realidade suprema
visada como objeto de veneração religiosa.
Quanto ao
cristianismo a questão inicial importante é a relação com a filosofia.
Antagônica a todas as formas de religiosidade pagã, o cristianismo apresenta
duas posições opostas quanto à especulação e à cultura filosófica proveniente
dos gregos. Conforme Sciacca, os apologistas latinos (Tertuliano, Arnóbio,
Minúcio e Lactâncio) representam a posição daqueles que consideram a filosofia
inútil ou perniciosa – a mãe de todas as heresias. Já os alexandrinos Clemente
e Orígenes admitem a continuidade de pensamento grego e revelação cristã.
Mas nesse aporte a
continuidade apresenta pontos de inflexão, refratando-se. Por vezes de modo
sutil. Utilizando-se a fórmula proferida por um filósofo em seu contexto,
conduz-se a conclusões exclusivamente oriundas do dogma da revelação. É assim,
por exemplo, com o monoteísmo de Antístenes e Xenófanes e com os atributos de
Deus enumerados por Cleantes ou pelos pitagóricos. Tudo é desde então aplicável
ao Deus cristão e a sabedoria anterior pode ter se aproximado da verdade, mas
permanece fundamentalmente incompleta.
Contudo, naquilo que
mais importa, é o próprio molde do ensinamento filosófico grego, sua coerência
e organização teórica, que o cristianismo inteiro emprega constituindo – se
assim enquanto doutrina consistente. Orígenes, no século II, produz, com
efeito, sob a influência da filosofia sincretizada judeu-grega, a pioneira
exposição sistemática do dogma cristão. Quanto a isso ressalta-se a importância
da filosofia judeu-alexandrina de Filon que no século I já pretende encontrar
nos filósofos gregos a verdade do Velho Testamento interpretado alegoricamente.
A posição dos
apologistas, porém não foi de todo minimizada ao longo da dominação feudal.
Ainda nos século X e XI conta com adeptos como São Bernardo e os vitorinos
Gualtério e Gofredo. Mas é interessante observar que a continuidade temática
persiste mesmo aí pois na vontade de negação reside uma via polêmica de
argumentação, de modo que a tentativa de argumentar contra as proposições dos
filósofos teve o efeito de conserva-las.
Subsiste contudo a
consternação com que se depara aquele que observa a mudança brusca de natureza
das fontes de reflexão no limiar do feudalismo. Na expresão de Bréhier “o VI e
o VII séculos são momentos de grande silêncio”, após o interregno da
consubstanciação doutrinal ainda no helenismo, em que todas as questões foram
se resumindo às formas fixadas do dogma. Mas pelo que vimos nesse momento do
cristianismo nascente sua via mística não parece de todo deslocada no meio da
profusão de religiões, oriundas do cenário de cosmopolitismo romano, ou da
convegência característica de especulação filosófica e contemplação do sagrado.
O que o cristianismo
instaura não permite que se estabeleça a mesma divisão de trabalho que se pôde
localizar entre a filosofia e as seitas pagãs do helenismo. Ao mesmo tempo em
que prolonga motivos bastante próprios do período só o faz a custa de
inviabilizar não só a relação entre essas instâncias mas a existência mesma da
religião pagã e a consistência mesma da filosofia antiga. O que se torna
surpreendente é que ao solver essa consistência o cristianismo lança o novo
meio conceitual no qual a filosofia se desenvolve de modo que a historicidade
do conceito se manterá integralmente.
Talvez não seja
demasiado simplista relacionar os fatos de modo a lembrar que se a filosofia
nasce na transição da economia agrícola para a intensa movimentação comercial e
industrial na Grécia, é coerente que a interiorização feudal tenha sido
favorável à sua estagnação. Contudo o cristianismo recolhe de um modo ou de
outro a linguagem do conceito. Interessa agora examinar o modo pelo qual isso
foi feito.
Já afirmei que o
helenismo em geral buscou mais a sabedoria do que o conceito. Analogamente
Américo Pessanha observa algo importante sobre a motivação do pensamento de
Santo Agostinho. A filosofia não se visa, no Doutor da Graça, como disciplina
teórica que coloca problemas à estrutura do universo físico ou à natureza dos
deuses, mas como indagação sobre a procura da beatitude enquanto modo mesmo de
ser humano. Assim a inserção desse pensamento em seu período é bastante
evidenciada.
Mas a continuidade
temática se refrata, pois se no helenismo a procura da sabedoria, como
felicidade e ideal de bem viver, é algo inerente à humanidade porque o ser
humano é racional, no cristianismo a beatitude se basta como Ideal que é já
essência do humano. No “Contra os Acadêmicos” Santo Agostinho combate o
ceticismo aliando felicidade e verdade – só se é feliz tendo encontrado a
verdade. Mas a consequência é mais o enraizamento ético do conhecimento do que
a identidade bem helênica de bem viver e racionalidade. Assim se esse
enraizamento é já socrático-platônico, sua consistência não se deriva do mesmo
modo.
Pois para o
cristianismo a questão importante é negar que verdade seja apenas uma via da
razão. Ela o é inicialmente da fé já que todo o sistema depende de uma verdade
a ser aceita por revelação. Aceita essa proposição única, fundamental e
indemonstrável que é Cristo tudo o mais recebe o juízo conforme o critério
dessa aceitabilidade, na ideologia da salvação. Mas não se trata de uma verdade
lógica, não havendo tampouco necessidade de se apontar esse fato ao modo de uma
carência já que tão fundamental é a aceitação daquilo que tem caráter de
revelação quanto a consciência desse ser assim do revelado. Deve-se crer porque
é absurdo – se fosse razoável não seria o caso de crença e sim de evidência.
Observe-se a questão
proposta anteriormente, sobre a separação das idéias e a introdução da
descontinuidade na Physis. Em Platão o que se destaca da natureza do mundo
material é uma realidade sagrada que tem a natureza dos deuses. Os seres
divinos “nascendo uns dos outros” compreendem a “verdadeira realidade” em
relação à qual o mundano se conserva como mera aparência. No entanto nessa
hierarquia celeste subsiste algo da unidade da Physis, da noção helênica de
continuidade inerente à sua concepção de natureza no sentido de realidade
fundamental.
No cristianismo o que
se formaliza como posição oficial após o Concílio de Nicéa (325) é a adoção da
trindade como única realidade a que se pode atribuir ser Deus. Multiplica-se a
argumentação cristã contra a noção de hierarquia sagrada dos seres celestes. As
objeções tematizadas nos argumentos são por vezes bastante medíocres mas a que
me parece importante é a de Lactâncio. Criticando os estóicos, ele inverte o
sentido da asserção pela qual os astros são deuses por apresentarem o curso
mais regular e racional. Argumenta-se então que justamente Deus é aquele que
tem poder para agir como quiser, isto é, possui “vontade livre”. As
manifestações de Deus tem a ver assim com decisões imprevisíveis como a
inspiração dos profetas ou o enviar do Cristo.
Como se poderia
compreender uma mudança tão acentuada de mentalidade se a própria ordem
racional, isto é, regular, não basta mais para prover o caráter de divindade
aos seres que a apresentam? Aparentemente o fator de referência cultural
poderia ser dado como decisivo, da Grécia à Israel. Mas o cristianismo mesmo é
uma mudança de registro em relação à cultura de Israel pois é possível mostrar
que os evangelhos conservam já efeitos da mescla característica do
cosmopolitismo romano. Santo Agostinho, por exemplo, se utiliza da introdução
do evangelho de João reportando-se, senão à letra ao menos quanto ao espírito,
a textos platônicos de proveniência egípcia.
Deslocamento do
âmbito da evidência para o da revelação, identificação da supremacia espiritual
com o poder da vontade, são fatores que convergem na singularidade do
cristianismo e que podem ser relacionados à observação de Paul Ricoeur em “A
Imagem de Deus e a Epopéia Humana”. Ricoeur enfatiza aí a importância nova que
o cristianismo atribui ao elemento humano.
Examinando o texto de
Ricoueur é inevitável o reencontro daquele recurso retórico, a antítese, que
irá ser definitivamente tipificada no barroco, este atualizando-se como a
última fulguração da mentalidade cristã. Por mentalidade cristã denomino não
apenas adesão ao cristianismo a qualquer época mas sim o período específico de
sua dominação. Mas a linguagem da antítese, prefigurando-se em Ricoeur através
da dialética do mal e da graça, é aí entrelaçada com o motivo do paradoxo.
O que assinalei como
entrada na mentalidade cristã, a transposição da evidência para a revelação,
envolve agora esse fator enfatizado por Ricoeur. Pois se na economia da criação
o humano é o fator de propulsão, aquilo que impele à evolução assegurada como
promessa pela segunda vinda, o mal desempenha nessa economia, como também a
graça, papel costitutivo. Nenhum destes elementos antitéticos se tira ou
acrescenta mas se medem e se depuram como o processo de desenvolvimento da
história.
O paradoxo será então
aplicado por Ricoeur como envolvido na natureza humana tal como visada no
cristianismo. Os padres da igreja concebiam o ser humano como ser,
paradoxalmente, singular coletivo. Reencontramos assim vários temas caros ao
pensamento hermenêutico tanto quanto ao pensamento retórico.
O período prevalente
da mentalidade cristã inicia-se com o paradoxo feudal, encerrando-se com a
antítese barroca. A relação da verdade com o desvelar e com o revelar e a
apreensão do humano na partição do coletivo, que confere a força das
comunidades do cristianismo nascente, também encontram de certo modo seu termo
na emergência da reforma, pela qual o círculo do ser-com se resolve na linha
reta do “eu” no liberalismo após ter se configurado na elipse barroca. Com
efeito poder-se-ia propor que a elipse figura o movimento antitético mesmo pois
a cada volver circular ao ponto mais inferior do círculo se contrapõe o ponto
superior como a multiplicação infinita de pares de opostos do cristianismo,
trevas e luz, mal e graça, inocência e pecado, bem e mal, sagrado e mundano,
inferno e céu, etc.
A antítese barroca
prepara de certo modo o individualismo liberal ao propor nessa relação
antitética de oposição o que só poderia constituir a força da religião nascente
no elemento relacionante do paradoxo. O “eu” do capitalismo avançado é assim a
solução da antítese barroca pela prevalência, como linha reta ou via única,
desse pólo subjetivo no desenvolvimento da historicidade conceitual alimentado
pela ética protestante. Mas no momento que examinamos agora o manejo do paradoxo
se faz coextensivo ao acesso hermenêutico-retórico na medida em que o desvelar
é o receber da escritura, e o revelar é o descobrir de sua verdade, geralmente
descrito como experiência de iluminação espiritual de que provem o aceitar.
Logo a compreensão se
instala desde o início no âmbito da palavra, dependendo dessa relação
constitutiva com a linguagem pela qual o absurdo é repentinamente
compreensível, isto é, aceitável. A comunidade cristã primitiva relança assim
algo da participação total da polis dos sofistas pois o ser singular coletivo,
desenvolvendo-se como auto-compreensão do humano, o dota com força de inserção
social considerada essencial, não produto de uma pertença contingente ou
derivada, particular a um grupo, classe ou etnia.
Mas nada mais
afastado do modo de aglutinação dessas comunidades do que a autonomia do
cidadão do século V, ele mesmo encarregado de seu mundo e de suas instituições.
Se o cristianismo recolhe as consequências da reversão retórica pela qual não
há objeto primeiro mas acordo provisório acerca da realidade, ele não o faz sem
recolher também a transposição platônica pela qual esse acordo não se produz
pelos homens nem deve ser impermanente mas se impõe pelo eidos, a realidade não
sendo nem consensual nem objetual mas ideal, modelar.
Contudo no platonismo
essa eternidade é eminentemente espiritual, identidade a si do conceito
imutável. A assimilação cristã por sua vez precisa transpor o caráter modelar
do eterno como expressão de uma vontade ao modo de uma subjetividade, aquela
que cria o universo consoante a fórmula de Feuerbach pela qual o cume do
princípio de subjetividade é a criação ex nihilo.
Assim o obedecer que
se torna “regra de vida” vem a ser o correspondente dessa subjetividade
absoluta como fator de aglutinação das comunidades do cristianismo antigo.
Penso que se pode desenvolver esse problema da trasnsposição do conceito ao
plano de subjetividade feudal através do exame dos temas de continuidade entre
Plotino e Santo Agostinho.
A influência do
neoplatonismo sobre o pensamento de Santo Agostinho, que se desenvolve entre os
séculos IV e V, é ela mesma uma questão. Trata-se de antepor as teses de sua
negação ou efetividade. Bréhier, por exemplo, tende para a negação,
considerando que, apesar de sua simpatia por eles, Santo Agostinho se afasta
bastante do platonismo assim como da espiritualidade de Plotino. Contudo, creio
que não se pode ignorar a interlocução inegável ainda que o que se utiliza
dessas fontes não se aplique de modo algum nas mesmas condições, já se tendo
até proposto ser Agostinho o pensador pioneiro da modernidade.
Com efeito, se bem
que sintomático, não creio que se possa afirmar isso de todo uma vez que a
consistência feudal conserva-se bastante específica, há certamente o fato de
uma novidade real em relação ao pensamento antigo, já estabelecido nesse
elemento de voluntariedade e subjetividade.
Quanto às teses de
identificação, costumam incidir, por exemplo, sobre a doutrina da alma, a
assimilação da trindade cristã às três hipóstases neoplatônicas, a teoria do
conhecimento por iluminação, a concepção de tempo, e inúmeras figuras de
discurso platônicas que povoam os textos agostinianos. Limitando-me ao exame da
interlocução entre esses pensadores, contudo, torna-se favorecida a
visibilidade daquela refração que procuro localizar.
Assim, quanto à
natureza da alma, Plotino insere a sua compreensão no que seria a doutrina
platônica sobre a gênese do universo. Há uma existência não passível de
predicação ou nomeação,ou seja, a ela nada pode ser atribuído como uma
qualidade nem dado como uma designação. É algo originário, de que tudo o mais
se deriva. Pode no entanto ser concebida ao modo de hipóstase, termo que
designa, conforme Bréhier, algo existente independente de determinação. A
hipóstase originária é assim o Uno ou o Bem, não chegando a ser substância,
isto é, sujeito de determinação por atribuição positiva.
A hipóstese
originária emana uma outra hipóstase designada Ser ou Essência, Inteligência ou
Mundo Inteligível. Essa também emana uma outra hipóstase, que é a Alma. Entre
as hipóteses o percurso é do mais ao menos luminoso, sendo a origem comparada
ao sol como pura luz.
Após a alma
encontra-se o mundo sensível, “extremo desvanecimento” do alcance da luz que
não se identifica, porém, com a matéria considerada como sem qualidades,
princípio de indeterminação, espelho no qual a alma reflete as formas
inteligíveis. O mundo sensível depende desse espelhar para ser constituído mas
a realidade mesma não se confunde com ele pertencendo apenas à Essência, ao Ser
e ao Bem de que deriva. A doutrina de Plotino concentra-se na ascenção às
realidades supremas, supondo uma ascese que vai do controle das paixões no
plano físico ao êxtase do contato intelectual com a luz do Bem que supera até
mesmo o estágio de atividade do pensamento discursivo.
A alma se descreve
assim como “imagem” que “precisa olhar para o seu original”, sendo este o “Princípio
Intelectual”. Ou seja, a hipóstase Alma se espelha na hipóstase Inteligência de
modo que desse modo pode informar a matéria organizando-a pois a Alma se
estende por todo o corpo em que ela habita, enquanto que a Inteligência
contempla o Bem. Contemplando o inteligível a alma organiza o sensível. O que
se poderia supor então é que se trata da mesma submissão da alma cristã a Deus.
Oposto ao processo de
emanação do Uno ao múltiplo – o movimento de ir, ou processão, proodos
– há o processo de conversão do múltiplo ao Uno – o movimento de vir, epistrophé.
Em Plotino as almas singulares estão contidas na alma do universo, cada ser
humano é uma idéia ou ente inteligível, espiritual e eterno. Mas pode-se
considerar a alma tanto sob esse aspecto de reflexo da idéia quanto de
princípio que vivifica o corpo. O objetivo da ascese intelectual será assim
desfazer a identificação que se tem com o aspecto de relação corpórea da alma,
isto é, com aquilo que dela se poderia derivar algo como a subjetividade, para
reconduzi-la à lembrança de sua origem sagrada.
Já em Santo Agostinho
a relação da alma é com o criador, subsistindo sempre uma diferença de natureza
entre criador e criaturas. Algo paradoxal incide nessa relação, pois a
submissão da vontade a Deus é emancipadora da noção mesma de vontade no ser
humano, isto é, do visar a existência como subjetividade já que a consciência dessa
relação enquanto decisão pessoal torna-se fundamental na economia da salvação.
Trata-se de uma revolução o “pensamento de si” de Agostinho, conexo à sua
teoria do conhecimento. Para apreender o que se desenvolve aí é preciso
confronta-lo com o análogo plotiniano.
Ocorre que a alma em
Santo Agostinho realmente conserva a flexão platônica dos elementos anímico e
corporal. Sendo assim a alma tem acesso a sensações provindas do corpo, as
quais possuem o caráter de instabilidade, não podendo o que vem dos sentidos
fornecer algo como conhecimento. Ms a alma pode, sim, conhecer, e o que ela
conhece são princípios imutáveis como os da matemática e aqueles que Agostinho
propõe como sendo os da ética. O conhecimento é facultado à alma porque ela
recebe a luz que vem incessantemente de Deus, possibilitando o processo de
produção das idéias que ela forma.
Analogamente ao
platonismo, e à doutrina da reminiscência, a alma possui o conhecimento
previamente à experiência dos sentidos. Mas se em Platão “previamente” significa
numa outra existência, em Santo Agostinho esse termo significa apenas “independentemente”.
A iluminação que vem de Deus age em relação à idéia de modo semelhante à luz do
sol em relação às coisas, permitindo que sejam vistas.
Em Platão a
visibilidade vai da alma à idéia mesma, ao inteligível ou essência enquanto ato
de reminiscência. Mas a idéia lembrada pela alma conserva-se existencialmente
independente desta. Quanto a isso ocorre em Plotino um certo afastamento do
platonismo original e uma influência de Aristóteles. A segunda hipóstese,
equivalendo à esência e à inteligência, reúne o que no platonismo permanecia
separado, isto é, o inteligível e a inteligência, o conhecido e o cognoscente.
O pensamento de si é à hipóstase Inteligência a garantia formal de sua própria
existência, mas também a garantia da certeza quanto ao seu próprio conteúdo
enquanto conhecimento.
Santo Agostinho
institui o pensamento de si da alma também como certeza de existência na via da
negação do ceticismo radical. Mas sem que isso de modo algum conduza à certeza
quanto ao conteúdo. Inversamente é o fato mesmo de se poder estar errado que
garante o fato de se estar existindo. E apesar da instabilidade de todas as
aparências sensíveis o te-las não pode ser negado a sério. Assim como assinalou
Bréhier o conhecimento de si em Santo Agostinho é autoconhecimento, em Plotino
é conhecimento da essência inteligível das coisas.
Esse plano de
subjetividade a que o cristianismo transpõe aquilo que ele prolonga da
filosofia antiga não manifesta tampouco as características da subjetividade
moderna, a meu ver. Ele já se afirma no âmbito da vontade pessoal, é verdade,
mas de modo algum se poderia por exemplo fazer convergir aqui o homem-metron de
Protágoras ou algo que pudesse rotular-se como subjetivismo. Ora a própria
inserção da sofística na Polis também não permite uma identificação dessa
proposição com o princípio ideológico moderno de “eu”, o que evidencia o fato
de que não se deve igualar esses aportes apenas sob a rubrica geral de “humanismo”
ou “subjetivismo”. A consistência medieval traz justamente o subjetivo sem com
isso acarretar o individualismo.
Contudo a doutrina da alma em Plotino opera nessa transposição de modo algo complexo pois a doutrina da alma apresenta ainda uma nova autonomia em relação ao platonismo. Isso se pode mostrar através da sua conceituação do tempo.
IV – Plotino e a
Fenomenologia da temporalização
O exame da teoria do
tempo em Plotino permitirá que se localize precisamente a ultrapassagem da
ontologia grega clássica, a partir de quê tem início a formação daquilo que
Backtin, na observação de Alliez, “não hesita em chamar de tomada de
consciência do homem europeu”. Com isso a interlocução do plotinismo com o
pensamento de Santo Agostinho deverá favorecer também localizar o ponto de
refração no prolongamento, pois já se atribuiu a este último o epíteto de “pai
da consciência ocidental”.
Trata-se então aqui
de dois movimentos contíguos, ou melhor, de dois movimentos na continuidade do
mesmo gesto de compreensão. Inicialmente localiza-se a grande ruptura entre
plotinismo e platonismo como nódulo central da ultrapassagem histórica do mundo
clássico. Após o que deve-se buscar na transvaloração cristã a natureza precisa
da relação entre os mundos tardo-antigo e feudal através da apreciação do
alcance dessa ruptura no pensamento agostiniano.
Conforme o estudo de
R. Brague, citado por Alliez no volume I de Tempos Capitais, no Timeu o tempo
permite ao céu ser a imagem da eternidade, o que erradamente tem sido
simplificado como se fosse o tempo mesmo a imitação do eterno. A relação que se
oculta nesse erro é a do processo que engendra o tempo com a Alma do Mundo.
Pois se o tempo é a
regulação numérica do movimento do céu, este número corresponde à estrutura da
Alma do Mundo. O tema da imagem no platonismo original desenvolve-se no âmbito
da cosmologia estabelecendo o tempo na ordenação do mesmo que se reproduz na
forma circular do céu. Mas o helenismo altera essa sensibilidade votada ao
mesmo cósmico, transpondo os temas da imagem para o âmbito da antropologia e da
psicologia.
Com Plotino o
processo que engendra o tempo evolui na relação não mais com a Alma do mundo e
sim com a alma do ser humano. Ao invés do tempo-medida há o tempo-intenso que é
concebido como temporalização.
O tempo se instaura
na convergência da clareação dessa ruptura, que é tão significativa a ponto de
se chegar a propor que o neoplatonismo é na verdade um pseudoplatonismo e até
mesmo neo ou pseudoaristotelismo.
Vimos como Platão
pensava o Limite como determinação do Ilimitado. Vimos também como a relação
restava problemática pois o Limitante não se determinava como limite por uma
necessidade em si mesma. Naquela ocasião o problema surgiu no exame do Timeu
onde se encontrou o impensável do platonismo na conceituação da Khôra. Mas como
observa Aubenque, em sua análise do neoplatonismo na História da Filosofia de
Chatelet, o platonismo exibe ainda um impensado – o “não-dizível” conforme a
expressão do próprio Platão na Carta VII.
O limite será então
concebido como o Uno, o limitante atualizando-se a cada vez como a relação
precisa de determinação sobre o ilimitado. Surge assim o conceito de Uno por
oposição à díada indefinida do grande e do pequeno. Mas, Platão se pergunta no
momento mesmo de se debruçar sobre o que permaneceu impensado na instituição do
Limite, como dotar o Uno de sua própria autonomia, como conceituar sua
atividade limitante?
Platão deixou a
questão se resolver por uma espécie de sobredeterminação dos princípios
antagônicos mas na realidade profundamente relacionados. O uno precisa se
desdobrar sobre a ação do seu inverso que é o múltiplo, o par de opostos, mas
assim ele determina e domina cada momento da dualidade.
Plotino retomará a
questão nesse ponto, indagando: qual é a origem desse precisar, que é que faz o
Uno engendrar se aquilo que é perfeito não tem necessidade de sair de si,
bastando-lhe ser o que é? Mas a essa pergunta (En. III, 2) sobrepõe-se a
consideração (En. V, 4) de que tudo o que atinge o ponto de perfeição não
suporta permanecer em si mesmo e engendra.
A contradição
permanece aparente, pois o que está subjacente é a natureza mesma do Uno. Ora,
a reversão da metafísica principia justamente pelo fato de que o Uno agora, com
Plotino, não mais se confunde com o Princípio-Intelectual e este, como já
constatamos, envolve a esfera do Ser, o pensamento de si implicando a
coincidência absoluta de inteligível e inteligência. Logo, o Uno não é ser.
Assim a contradição deriva do uso impróprio dos nomes que devém da necessidade
paradoxal de se falar daquilo que não tem a natureza do atribuível. Produzir ou
engendrar são aqui utilizados ao modo de metáforas.
Mas deve-se
compreender bem de que modo o Uno não é ser ou qual ser o Uno não pode ser. Se
não nomeável o Uno não pode identificar-se a nenhum ente.
Heidegger localizava
precisamente como a pertença metafísica do pensamento a identificação do Ser
com o ente como presença constante de que é preciso fazer esquivar o elemento
cambiável do devir para alcançar, enquanto essência, eidos ou idéia.
Quanto a isso, ainda
que a união existencial possa vir a ser designada como verdadeiro objeto da
ontologia aristotélica, ela permanece na compreensão do ser como presença. Pois
o ser que se pode declinar em vários sentidos é aquele sujeito da atribuição
categorial sempre movimentando-se na pressuposição da essência. E quanto à
essência enquanto ser inteligível, situa-se na eternidade, não tendo relação
com o tempo. Contudo, talvez se devesse atribuir a designação de “onto-teologia”
apenas àquilo que o retrogradar do termo “metafísica”, oriundo do contexto
aristotélico, designa em Platão. “Ontologia” seria bem mais próprio à “ciência
do ser enquanto ser” no âmbito do aristotelismo estrito pois ainda que
pensamento da essência, preserva-se no elemento do devir.
Mas conforme sublinha
Aubenque, em Aristóteles e Platão a eternidade é concebida através da intuição
do tempo enquanto presente constante, permanência imutável do presente. O ser
inteligível, essência, na realidade o ente verdadeiro, surge como a causa
daquilo que há de permanente na mudança.
Assim o tempo é da
ordem do sensível de modo que sua teorização depende mais do modo como se o
apreende “empiricamente”, isto é, no plano gnosiológico, ao invés de
propriamente ontológico, uma vez que pode ser pensado apenas pela exterioridade
do processo, todo ele relativo ao movimento.
O que está em jogo
pode ser bem visualizado através da comparação entre a teoria aristotélica,
pela qual se institui o “tempo da física”, concebido como mensuração do
movimento extensivo, e a teoria oriunda do plotinismo, pela qual se introduz o
tempo pensado na relação com o movimento intensivo, isto é, o tempo anímico.
Torna-se inevitável aqui uma aproximação com Bergson.
A crítica de Bergson
à noção de tempo utilizado na física é precisamente o fato de que não se trata
aí de algo que se compreenda em si mesmo, mas apenas enquanto dado na relação
constitutiva com o espaço, sempre conservando-se assim como o conceito ambíguo
de “tempo espacializado”.
O tempo é definido
como intervalo do movimento, aquilo que o mede. Esse tempo-medida é relativo a
um movimento que só pode, por sua vez, na física antiga, ser pensado na
pressuposição daquilo para o que tende, sua finalidade (telos). Não pode assim
haver movimento no instante, que se define como sua suspensão. A mudança que o
movimento introduz só se compreende na totalidade do que nela se cumpre.
Vemos então que a
teoria do tempo da física prende-se a uma análise dos movimentos regulares do
céu que é aquilo de que o tempo deriva. Mas a teoria aristotélica faz intervir
as noções complementares de número numerante e número numerado. Conforme
Brhéhier, Aristóteles afirma que pensar o tempo conforme a medida numerante– a
unidade que usamos para mensura-lo, isto é, o dia e seus submúltiplos – não é
exato. Pois o tempo é aquilo que se conta em cada movimento, qualquer que seja,
enquanto duração, o número numerado. Cada movimento possui sua duração definida
como seu número conforme o antes e o depois.
O instante, sempre
identificado com o presente do agora, fim do passado e princípio do futuro, é o
que permite que possamos contar o anterior e o posterior adotando como meio de
contagem as revoluções celestes, assim como para a mensuração da altura pode-se
utilizar o côvado. Mas como a altura está na própria coisa, assim também o
tempo.
Já a crítica de Plotino
amplia a de Bergson pois ele começa por mostrar que esse tempo-movimento, mesmo
com a ressalva aristotélica, continua sendo pensado pela exterioridade, podendo
sê-lo, é verdade, mas assim conservando-se como derivado. É a noção mesma de
movimento que Plotino visa aí, pois ao invés de pensa-la teleologicamente ele
antecipa o tempo bergsoniano e, ao menos quanto a isso, o da física moderna.
Assim o movimento é ato que recomeça a cada instante, isto é, alteridade
incessante. Na hipótese de uma realidade absolutamente sem mudança, a alma
continuaria a mensurar o repouso.
O tempo intenso é
aquele imanente à alma. Em sua atividade de espelhamento material a alma
temporaliza, ou melhor, a alma se temporaliza organizando o sensível. Tempo de
Narciso, já que o espelhamento – organização é paradoxalmente voltado ao mesmo
e ao outro. Ao mesmo enquanto a alma organiza contemplando o mesmo inteligível
no qual ela mesma é enquanto dele procede. Ao outro pois o que se espelha é o
mundo sensível, o outro especular que é matéria. Contudo é nesse outro que a
alma se vê particularmente ela mesma, não apenas parte ou prolongamento do
Todo. Como Narciso ela se deixa tragar pelo enfeitiçamento da matéria que lhe é
inevitável, pois é aquilo mesmo que lhe permite ter-se como individualidade,
subjetividade.
É a natureza da
processão que é complexa, podendo ser designada como emanação, sim, mas sem que
isso deixe de suscitar questões. Inicialmente há o tema da queda que individua
cada alma como particular, privada. A individuação não se faz, para Plotino,
como em Aristóteles, pela quantidade de matéria. Não é a matéria que
individualiza cada alma que se separa do âmbito maior da Alma hipóstase. A
matéria surge como efeito sensível dessa separação pois a alma irradia ou emana
o seu duplo corporal ao se lançar no movimento da processão.
Já desde o início a
organização universal se supõe como Alma hipóstase, que cada alma individual,
como idéia de indivíduo, vem a exprimir. Reencontra-se essa concepção em
Spinoza. Todas as almas são a Alma hipostasiada, união-articulação da
organização do mundo. Mas se conservando sua diferença no interior desse todo,
elas não podem se dividir enquando aí delimitadas. É só quando presas do
movimento intensivo no rumo descendente da matéria que a alma se envolve com a
atividade puramente subjetiva do espelhamento de si no corpo que vem a animar.
As diferenças
intrínsecas, virtuais, o signo da multiplicidade imanente ao universal, que se
conjugam plenamente na hipóstese, torna-se oposição, separação subjetiva no
atual, entre almas individuais que são agora pessoas, sujeitos de paixões e
afetos. A alma hipóstase seria, conforme a utilização por Plotino da
conceituação de Aristóteles, o gênero de que as almas individuais seriam as
espécies. O tempo decorre então do movimento ou tendência da alma rumo ao
sensível, é a vida da alma.
Heautem ekhronosen –
essa expressão nova que Plotino se vê obrigado a introduzir para designar esse
conceito de tempo traduzindo-se precisamente por temporalização (En. III, 7). A
novidade aqui é de grande importância pois o que se introduz é o “sistema de
formação da subjetividade irredutível aos elementos constitutivos do sujeito
moral”, conforme a expressão de Alliez. Parakoulouthesis, termo com que Plotino
inaugura na filosofia a noção de “consciência”. O tempo se autoconstitui como
encadeamento temporal do sujeito que é sujeito de vontade. Paradoxalmente essa
vontade é o signo mesmo de sua queda, de seu afastamento do modelo inteligível,
mas também do seu reencontro com “algo da livre expansão do uno” que é puro
ato.
“A fonte da liberdade
da alma”, conforme frisa Aubenque, está assim “num plano mais elevado do que o
da inteligência”. Aqui precisamente se localiza a ultrapassagem histórica da
ontologia grega clássica. O homem interior, eis em que as três realidades, o
Uno, o Ser e a Alma, são como suas partes, já desde que há absoluta identidade
entre o visto e o que vê, a inteligência e o inteligível. Essa identidade, só
na alma individual encontra a consequência real enquanto pensamento do humano –
“tudo existe na alma e a alma existe em tudo”, conforme sublinha Alliez.
Trata-se de real
afastamento de Plotino em relação a Platão pois se o humano não se põe como elo
natural estabelecido na hierarquia das hipóstases a posição da alma é única,
mais eminente de certo modo, pois se saber é ser, a atividade cognitiva é
transformação ontológica– restando que o paradoxo da processão se contorna pela
obra não menos anímica de conversão e pela experiência do êxtase em que a alma
se vê ela mesma como Uno.
Aubenque ressalta que
a temporalização é descrita fenomenologicamente de modo pioneiro por Plotino
pois trata-se do movimento “pelo qual a alma se reconquista” sempre novamente
por sobre a dispersão que é inquietude. A agitação que traduz a sua tendência
para o outro-corpo-espelho-matéria, rompendo o círculo do mesmo pela inquietude
do instante, corresponde à irrupção no tempo do sujeito fenomenal.
Temporalizando-se o
sujeito se recupera na linha reta do tempo orientada pelo futuro. O uno-todo se
torna progesso, unificando-se sempre o devir pelo que está por vir, mas também
autounificando-se a linha quebrada da subjetivação num sujeito de vontade. O
destacamento do todo, o isolamento do princípio, a queda, são figuras da fenda
constitutiva da subjetividade como separação-pertença à origem.
Temporalizando-se, isto é, constituindo-se no tempo flechado, irreversivelmente
orientado pelo futuro, no envolvimento de seus afazeres, na vontade que se
envolve nas tarefas da vida, o sujeito se autocompreende agora como vontade
mesma de heteronomia em relação ao todo – isso que é a audácia (tolma) da alma
inaugurando o tempo pelo fracionamento do Aion, eternidade, de onde surge
Cronos, o tempo-ação subjetivo.
Em Plotino a
eternidade não se confunde com o Uno – ela é vida da inteligência assim como o
tempo é vida da alma. O Uno permanece sem portar nenhuma atribuição. Mas essa
negatividade não se concebe ao modo de privação. Inaugura-se também a
positividade, na filosofia, dos conceitos de infinito e de negação, esta vindo
conceituar a irredutibilidade do Uno à natureza do ser dos entes.
O pensamento de
Plotino insere-se com toda coerência no período religioso em que à Polis
participativa substituem-se as cidades burocratizadas das monarquias
helenísticas e de Roma. Trata-se da experiência pioneira da solidão urbana, em
que a consciência de si se recolhe no particular, evoluindo no vácuo do
político. A arte do período se lança na aventura da expressão do sentimento, à
forma atlética do clássico vindo contrapor a forma ascética do helenismo.
Contra o estabelecimento da arte no elemento do sensível, como imitação,
Plotino a pensa, no tratado Sobre o Belo, como desvelamento da essência,
mais fundamentalmente do que toda manifestação sensível. Como sublinha Aubenque,
se o ente dissimula o ser, a obra de arte o desvela.
Exemplar quanto a
isso é a análise de Bakhtin do romance assim chamado “grego” ou “sofista”, isto
é, dos século II a VI, dentre os quais ele enumera A Novela Etíope de
Heliodoro, Leucipes e Clitofonte de Aquiles Tatius, Chereas e
Callirhoé de Chariton, As Efesíacas de Xenofonte, Dafnes e Chloé
de Longus. Na observação de Alliez, o cronotopo do limiar constitui agora tanto
o romance grego quanto a própria filosofia neoplatônica.
Bakhtin mostra assim que
todos os gêneros do clássico, os dramáticos e os retóricos do mesmo modo que os
narrativos como a epopéia, o romance histórico e geográfico, são remanejados
para que se introduza essa nova entidade romanesca que é o homem particular, o
indivíduo privado que age nesse mundo abstrato, estrangeiro, igualmente novo e
desconhecido, em que se desenrola o “tempo das aventuras” ou do acaso, isto é,
da intrusão das forças irracionais na vida humana.
Tempo e espaço são
essencialmente reduzidos às ações dos heróis no romance grego. O “movimento do
homem no espaço” é que fornece a unidade de mensuração espacio-temporal, isto
é, o cronotopo. Ao mundo estrangeiro corresponde o herói particular, o
indivíduo isolado sem qualquer laço substancial com a pátria, cidade, linhagem,
grupo social ou familiar. O centro organizador da imagem do homem no romance
grego é apenas a identidade consigo mesmo.
Contudo penso que não
se tem assim já o que se poderia identificar como o “eu” no sentido moderno do
termo. Seria o quase-indivíduo tardo-antigo o que emerge tanto no pensamento de
Plotino quanto na análise da obra literária. Pois é verdade, que ocorre aí uma
subsversão do platonismo ainda que utilizando-se rebarbativamente as fórmulas
de Platão, operação que Alliez designa “dublagem”. O que se concede ao pensar é
agora o sujeito-alma e seu mundo, de modo que as categorias que aí se compõem
deixam de se instituir por modelagem matemática ou física, movendo-se novamente
no âmbito do humano.
Mas à diferança da
retórica sofística esse âmbito não precisa responder pela cidade ou fornecer o
embasamento de suas instituições. O homem não é pensado na constitutividade de
uma formação. Inversamente, agora trata-se de pensar a subjetividade que, como
heteronomia, se opõe não apenas ao princípio, no ímpeto do movimento de
processão, mas também a tudo o que diverge do seu próprio espelhamento
narcísico, isto é, propõ-se agora a experiência de irredutibilidade do sujeito.
Mas sempre se pode
reestabelecer o sentido original da voz platônica, ou mesmo, o plotinismo não
abre ao pensar o tempo existencial sem caracterizr-se por essa tensão entre as
duas vias que o estabilizam, o ir e o vir relativamente ao Princípio, daí o
nele privilegiar-se o tema da volta, a nostalgia da origem. Há dependência dessa
origem na constitutividade do sujeito.
Assim parece-me só
haver realmente “eu” no sentido moderno a partir de Kant pois aí toda a
constitutividade do mundo é já formalmente subjetiva. Não há origem, nada a que
o pensamento se proponha como tema de um voltar, o sujeito é absoluto,
transcendentalmente garantido. E se o transcendental garante, a cada sujeito, a
sua própria posição, independentemente de algo pressuposto, isso que é comum a
todos como constituição de subjetividade é no entanto o mais particular a cada
pessoa. A liberdade se institui, é certo, no âmbito da moral, mas não se
constitui a pertença do mundo se não pela via especulativa, que responde à
indagação epistemológica mais fundamental de como é que se constitui a
experiência.
E como é que esse
sujeito absoluto se pôde postular na modernidade é uma questão por desenvolver.
Por ora, retornando à consideração do helenismo, constata-se que o
neoplatonismo de Porfírio, Jâmblico, Proclo e Damáscio, não conservam as mesmas
soluções conceituais de Plotino, ainda que se movendo sobre o mesmo lote de
problemas.
Utilizando algo do
esquema extremamente conciso de Aubenque, pode-se estabelecer os aportes subsequentes
do seguinte modo: alguns, como Jâmbico e Proclo, vão se deter nos mecanismos da
processão instituindo séries de intermediários, este último porém concedendo
uma preminência à negação como verdadeiramente originária e motor da afirmação
–e compreende-se assim o elogio de Hegel que o caracteriza como precursor da
dialética e do “trabalho do negativo”. Outros, como Porfírio e Damáscio, se
esforçam por ultrapassar o nível do Uno, Porfírio inaugurando a oposição de ser
infinitivo (ser somente ser –monon einai) e ente particípio,
enquanto Damáscio nega que se possa afirmar do Princípio que ele é Uno,
podendo-se apenas limitar a conceitua-lo como Inefável.
Damáscio fecha o ciclo de toda a filosofia antiga. Mas com essa base neoplatônica já estabelecida podemos agora nos aproximar da teoria do tempo em Santo Agostinho.
V – Santo Agostinho:
cristianismo e ocidentalização
Conceituar o Logos
como pessoa, isto é o que Heidegger na Introdução à Metafísica vai mostrar como
essencialmente não-grego. Encontra-se aí também, de modo muito sucinto, a
relação dessa concepção cristã com a filosofia da religião elaborada por Fílon.
Logos, enquanto
palavra, é mediador – mesites – entre criador e criaturas. Na economia da
criação que Fílon enuncia a palavra é mesites porque encerra o mandamento,
transmite as ordens que a criatura tem que observar para de algum modo fazer
preservar sua relação com o criador. Na economia cristã da salvação o Logos é
mesites porque ele é relacionado a Cristo, o mensageiro ou enviado que
transmite as novas ordens, a boa-nova da salvação.
Mas observando o
processo de constituição feudal, e conforme o próprio Heidegger, a
onto-teologia está se configurando como a via de ocidentalização propriamente “metafísica”.
E se o plotinismo já foi considerado como movimento não de todo enraizado na
grecidade, mas dependendo de elementos oriundos do Oriente, a questão se torna
bastante complexa. Na verdade é um problema em que várias questões convergem.
Inicialmente a
questão da pertença grega do plotinismo, a seguir a relação do cristianismo com
a filosofia greco-latina, e como tudo isso converge no pensamento de Santo
Agostinho. A seguir a questão mesma do Ocidente.
Quanto ao plotinismo,
creio que se pode propor uma compreensão de sua realidade sincrética a partir
da própria pluralidade que se verificou na geofilosofia da Grécia. O elemento
de contemplação, que Alliez sugere como o orientalismo de plotino, talvez
pudesse ser mais aproximado ao “pensar poetante” da ontologia fundamental, na
expressão de Heidegger, do que propriamente à onto-teologia platônica. Aqui
então seria bem o caso de inserir o afastamento da estética do plotinismo em
relação à mera pertença sensível que Platão reserva à arte.
Quanto à relação de
cristianismo e filosofia, nenhuma aproximação desse tipo poderia vir a se
operar pois é na transposição mesma de planos em relação ao Logos que se pode
começar a propor a vacuidade das discussões sobre a existência de um pensamento
cristão. Esse pensamento efetivamente se joga e se define como tal no momento
mesmo de anunciar-se como algo mais do que “pensamento” no sentido “grego-filosófico”
do termo.
Resta então perguntar
sobre o que há com a relação de pensamento cristão e o que se diferenciou
daquela ontologia fundamental, isto é, com Platão e a metafísica ou o
pensamento da filosofia helênica assim como o cristianismo a defrontou desde o
início. Pois se o cristianismo deriva de algo que é não-grego essencialmente,
como é que nele se encontra o sentido histórico da ocidentalização como via
eleita na encruzilhada de possibilidades que se constituem desde o helenismo?
Ocorre que aquilo que
vem a ser Ocidente não somente se distingue conforme seus momentos propriamente
constitutivos como levanta ainda a indagação acerca desses momentos, como se
houvesse algum obstáculo em apreende-los simplesmente como estágios de algo já
sempre e intrinsecamente o mesmo.
Assim desde a
desterritorialização do feudalismo aqueu em relação à máquina despótica
oriental, abrangendo a operação de racionalidade conceitual que marca o
surgimento do jurídico na Polis, o terceiro momento da feudalização vai definir
como ocidental não mais grego ou racional e sim cristão. Há, contudo, desde a
Polis à “cristandade do ocidente” que se singulariza em relação ao oriente
árabe, a partição da própria igreja conforme sua pertença geográfica local “ocidental”
à Roma ou às regiões exteriores “orientais” de Grécia, Antioquia, Bizâncio.
Sem deter-me nas
questões particulares que animaram a controvérsia de ortodoxia e heresias da
cristianismo ocidental e oriental, não coindindo de todo, importa observar como
a ocidentalização caminhou no seu sentido mais essencial: operação política na
Grécia primitiva, operação conceitual na Polis Helênica, e agora no
cristianismo uma operação complexa que dobra o político e o conceitual ou, mais
propriamente, teológico.
Pois como assinala
Bréhier, as grandes controvérsias da ortodoxia com as heresias na patrística,
isto é, desde o início do cristianismo até a consolidação doutrinária no século
V, estendendo sua validade aproximadamente até o século X, importam mais à
política eclesiástica do que ao dogma no sentido de sua estrutura metafísica.
Não se trata, para o papado, de uma filosofia da natureza de Deus ou teologia
por si mesmo, mas apenas de assegurar através das fórmulas mais convenientes o
poder espiritual da igreja. É um problema político e jurídico, não propriamente
filosófico, que no entanto importa ao conceito.
Contudo aquilo que
constitui esse novo mundo ocidental cristão mantém uma relação inquebrantável
com o processo geral de ocidentalização, isto é, precisa de alguma forma integrar
aqueles momentos anteriores. Muito do problema da relação entre pensamento
grego e cristianismo nascente poderia se reduzir pela figuração da realidade
histórica do início da nossa era, em que nos cultos de seitas proeminentes como
a dos gnósticos adorava-se imagens de deuses da religião grega, de filósofos e
esfígies de Jesus Cristo. E do mesmo modo aqueles que professavam o
cristianismo estrito eram frequentemente oriundos de escolas filosóficas,
havendo inserção de pagãos e cristãos no mesmo ambiente cultural, com uma
linguagem comum.
Pode-se então afirmar
a dobra do político pelo teológico– filosófico como constitutiva do
cristianismo enquanto regime de dominação eclesiástica. Mas a deriva
propriamente conceitual aí só se observa através daquela transposição de plano
do Logos de modo que é uma atitude inteiramente outra que se institui como
exercício de pensamento no interior do cristianismo.
Pode-se avaliar esse
salto comparando Atos, XVII com Coríntios, I,17. Aceita-se geralmente essa
comparação como uma mudança de atitude do apóstolo Paulo em relação ao
pensamento grego que estaria prefigurando aqueles dois modos que examinamos
anteriormente, a recusa e a aceitação estratégica do discurso filosófico. Não
tendo sido bem recebido, o apóstolo se torna hostil.
Mas penso que na
realidade a identidade da atitude espiritual paulina não só deve ser afirmada
como é solidária da atitude mais básica do cristianismo em relação ao seu fora.
Isso pode ser entrevisto pelo comentário, em Atos, sobre o sentido da atividade
que estava tendo lugar no Areópago: tratava-se de “passatampo”, isto é, de
simples e puerilmente trocar novidades.
Assim mesmo ali onde
aparentemente há uma atitude mais esclarecida a concepção básica não mantem
nenhuma comunidade com aquela que anima a filosofia. Nesse sentido a única
matéria de reflexão e verdade deriva da aceitação da pessoa do Cristo, de
obedecer à ordem do “verbo”. Essa opção básica define o ser humano e assim todo
aquele que com ela não se defrontou não pode ser considerado mais do que
estando no exterior do estatuto de seres adultos e responsáveis.
Como lidar, porém,
com a excelência da produção desses excluídos? Ora enunciando que se trata de
um furto – de Homero a Platão, conforme a apologética antiga, tudo é cópia das
escrituras dos judeus – ora utilizando contra eles os seus próprios produtos
conforme a fórmula de Damasceno.
Na evolução do
feudalismo, com a reforma de Alcuino no final do século VIII, essa posição de
Damasceno evolui no sentido de uma repartição de tarefas. A verdade, ou aquilo
que é essencial, pertence ao recebimento e aceitação da Mensagem. O que é
mundano conserva o sentido de sua utilidade prática e só assim deve ser
acolhido. Instituem-se as sete artes liberais, o Trivio (gramática, retórica e
lógica) e o Quadrívio
(aritmética,
geometria, astronomia e música) sem prejuízo para as vedades da fé.
Mas se ao poder
eclesiástico a dobra do conceito só interessa politicamente, ela não deixa de
marcar o próprio percurso espiritual daqueles que se envolvem com a
controvérsia anti-herética, como é o caso de Santo Agostinho. Assiste-se assim
nessa fase de consolidação doutrinária que é a patrística uma verdadeira
ruptura com o cristianismo primitivo, conforme observou Alliez.
Santo Agostinho é o
artífice dessa ruptura na medida em que, desde uma doutrina da missão salvífica
que investe o iniciado na obrigação de transformar a lei do mundo e da carne
pela lei de Deus, todo o sentido do cristianismo agora se transpõe ao “ homem
interior”. Trata-se de evitar as possíveis interpretações das Escrituras
capazes de investir a Mensagem de uma autêntica força de transformação da
exterioridade social.
Mas como pensar esse “homem
interior”? Insere-se aí, por exemplo, o alcance do antepelagianismo
agostiniano. Pois Pelágio afirma, numa recuperação cristã da confiança estóica
na virtude, o poder da natureza humana em evitar o mal e fazer o bem, se assim
desejar.
Aparentemente o zelo
de Santo Agostinho em relação a essa controvérsia pode se explicar
suficientemente pela consequência que ela acarreta. Pois se Pelágio aporta a
essa afirmação para lutar contra os que querem se eximir de executar a lei de
Deus sob a desculpa da fraqueza da carne, o que se segue é a negação do pecado
original. Deus não poderia imputar a inocentes o pecado de um só homem, Adão.
Mas essa consequência
seria tão indesejável se ela não fizesse a força do humano independente dos
meios da “graça”, a saber, os sacramentos da Igreja? Santo Agostinho
enuncia assim, contra
tal “heresia”, a sua doutrina da predestinação. O bem só pode vir à alma
decaída por uma graça especial que pertence apenas àqueles predestinados
eternamente por Deus para recebe-la. Até um recém-nascido, sem batismo, é um
pecador, assim como todos os pagãos ignorantes da graça do Cristo.
Conhece-se através de
Palcal os problemas que uma tal doutrina suscitará posteriormente. Aqui importa
observar que essa concepção se desenvolve com muita coerência na teorização do
homem interior que designa como a própria consciência da individuação a consciência
da diferença da criatura em relação ao criador.
Converge aqui aquela
reintegração do conceito, a plicatura do grego sobre o não-grego, problemática
característica a enfrentar na compreensão da consistência medieval. Pois como
não ver nessa ruptura com o cristianismo primitivo que assinala o cristianismo
imperia, em vias de se feudalizar como instituição política dominante, o
influxo do neoplatonismo já ele mesmo sobredeterminado em relação à filosofia
helênica?
O novo cristianismo
agostiniano emerge na auto-certeza do sujeito deslocando a cristã determinação
anterior da certeza da salvação. Fé como exercício da vontade, a certeza do
sujeito sobre si mesmo como possibilidade da certeza sobre Deus, a preminência
da teologia negativa já que essa realidade que é Deus não se deixa determinar
por nada que se restrinja meramente ao ser criado. O plotinismo permite como
vimos, efetivamente a mesma auto-certeza que deriva, algo dialeticamente, do
hipostasiar da alma em relação ao Todo.
E já a relação de
contemplação entre Alma e Ser faz intervir na própria realidade anímica a
identidade do conhecimento de si que pertence ao Inteligível. Como afirma
Heidegger, o neoplatonismo se constitui como estrutura profunda do
cristianismo.
Mas o pensamento
cristão vai tender a dialetizar aquilo que em Plotino se desenvolve como
movimento de ir e vir constitutivo da economia do Universo. Pois entre os
neoplatônicos os momentos sucessivos que compreendem a via de multiplicação do
Uno e a via de reunificação do múltiplo são derivados de uma necessidade
natural e eterna. Assim o exemplo de Jean Scot Erigena,no século IX, que
desenvolve um esquema “neoplatônico” de divisões da Natureza: Deus princípio,
Verbo, Mundo, Deus fim. O Deus princípio é de onde tudo procede, o Deus fim
para onde tudo tende como termo do movimento das coisas que buscam a perfeição.
Como observa Bréhier,
porém, esse não seria um verdadeiro sistema de emanação e sim, propriamente,
uma Teofania. Deus pai, Verbo filho, sendo que em Deus ser e querer, natureza e
vontade, são o mesmo. Há desenvolvimento histórico e iniciativas aí onde o
neoplatonismo só via uma ordem eterna e imutável.
Quanto a Santo
Agostinho, ainda no processo inicial de redução cristã de todo elemento pagão,
se encarregará de dialetizar a relação alma-todo de modo que o mais
característico do cristianismo, derivando de sua concepção pessoal de Logos,
será a Cisão de criador e criatura. Cisão irredutível entre homem e Deus,
dependência total do homem em relação a Deus. Como afirmou Alliez, considerando
o alcance da cesura entre os sentidos neoplatônico e cristão do termo “conversão”,
não se trata com Santo Agostinho da ilusão do conhecimento do semelhante pelo
semelhante mas sim de “apreensão” entre princípios opostos que vão encontrar a
síntese, como reconciliação, em Cristo.
A oposição se relança
tematicamente em vários níveis. Há duas leis, a de Deus segundo o homem
interior, isto é, a do espírito, e a da carne. Duas cidades, a secularmente
orientada pela cupidez e a espiritualmente orientada pela caridade.Há também
dois tempos, o Aevum, que é vida eterna, o “tempo cósmico da criação” e o tempo
do homem “o tempo histórico da alteração”, conforme as expressões de Alliez.
Ora, o plotinismo
também observa uma duplicação temporal. Pois o que a alma que contempla o
Inteligível vê são formas de luz enquanto que na existência corpórea o que
resta a ver são os traços sem qualidades das figuras geométricas, a pura ilusão
da materialidade. A via da salvação consiste na renúncia da alma a esse olhar
que obscurece a visão para liberar aquele ver que lhe restitui a visão da luz
no êxtase – experiência do Todo. Mas nesse acontecimento de Contemplação o que
se libera é também o tempo do Aion que Alliez conceituará como a
autotemporalização do absoluto, o originário do tempo em que os modos do
passado e do futuro são contemporâneos do presente na síntese passiva da
unificação do ser.
Experiência da arte
bizantina, o Aion do plotinismo estaria assim na prefiguração do Ereignis
heideggeriano e do Logos do mundo estético, o Urzeit husserliano. Trata-se do
paradoxo do sentido íntimo. Pois o Ereignis enquanto Contemplação, só restitui
o Eu puro no momento mesmo em que ele deixa de ser o “eu” individual que se
autoapreende a si, isto é, quando torna-se “outro”, seu centro devendo agora
ser coincidente com o centro do universo.
Já na conceituação do
tempo em Santo Agostinho a duplicação inicial deve redundar em três
apresentações. Inicia-se com a menção ao Aevum, o tempo em que Deus cria o
mundo, o tempo cósmico dos movimentos celestes, eternidade participada às
criaturas naquilo em que elas são mais essencialmente. A seguir deve-se
conceituar o tempo existencial que não se mede pelo movimento do corpo e sim
pela atividade da alma. Simetricamente oposto ao Aevum esse é o tempo como
distensão da alma, o tempo derivado da queda. Trata-se do tempo psicológico,
ligado à avareza e à atividade do mercadejar porque só se instaura a partir do
momento em que o ser humano se exterioriza no mundo da materialidade,
Mas como reconduzir essa
alma que se distende, à qual o tempo é a atividade mais própria, a forma mesma
da atividade pois só “mede” a duração como movimento intensivo de espera,
atenção, expectação, sendo a distensão sempre o tender ao futuro, como
reconduzir esse tempo derivado da alma ao pensamento do homem interior,
espiritual, portanto mantendo a relação essencial com o criador através do
exercício da fé?
A via da contemplação
do plotinismo não poderia se manter uma vez que a conciliação só se faz, como
conversão, por uma providência posterior, o Cristo, ao invés de se propor como
constitutividade do humano mesmo. No entanto, se a relação é de autoria, deve
haver algo de participado na criatura que vem do criador. Santo Agostinho vai
utilizar aí a oposição entre os termos distensio e intentio. O tempo derivado,
que é o que conhecemos do mundo “secular” é distensio animi, o tender da alma
ao futuro que pertence ao comum dos homens na exterioridade das relações. Mas à
alma, através do exercício da fé, conserva-se a via da Intenção,a Intentio,
pois ela assegura a transformação dos modos temporais, ampliando o presente,
sendo agora o tender da alma ao eterno.
Assim, desde o Aevum
e a caracterização do tempo secular da distensio, segue-se a teorização do
tempo teológico da intentio como via de conversão de modo que se a ciência
procede pela exterioridade na distenção, a sabedoria é “contemplação do eterno”,
a via do homem interior. Observa-se que a conservação da noção de contemplação
se desloca em relação ao uso que dela se faz em Plotino. Pois esse tempo não
poderia ser concebido por si mesmo, sem a poressuposição do presente eterno de
Deus que no entanto permanece por natureza irredutível à alma.
Como as duas cidades
na existência terrestre os dois tempos não chegam nunca a se destacar
completamente, permanecendo de algum modo misturados. Conceitualmente é preciso
pensar a síntese dialética mas como operação cristã ela deve supor a realidade “mesites”
do Logos e aquilo que a ela se relaciona, a realidade da Cisão.
A questão aí não é de
modo algum simples. A liberação da Intenção depende da cisão fundamental de
criador e criatura que se refaz no âmbito mesmo do humano enquanto este é
vontade e consciência que decide entre o homem secular e o homem espiritual,
exterior e interior. Mas todas as duplicações convergem para esse paradoxo da
semelhança-reconciliação dos opostos. Assim é uma apreensão metafísica, não
psicológica, que permite captar a figuração interior de Deus no mais profundo
da consciência de si, na “Memória Dei”. Objeto intencional moralmente
sancionado porque cem por cento interior.
O que se pode
possibilitar assim, no plano mesmo da criatura ainda que transpondo-se pelo
exercício da fé, é aquilo a que se relaciona a introdução do Logos-mesites.
Pois se o Logos é dado na relação Deus-criatura, a mutação afeta a apreensão
mesma do Ser. Há identidade entre consciência e objeto, preexistência
espiritual das coisas, corte com o pensamento antigo do ser que se conservava
como entidade objetiva.
A relação da trindade
com as hipóteses já o demonstra, pois se em Plotino a conservação de Ser e
Essência se mantém derivada do Uno, o cristianismo oficial vai taxar de
heréticas as objeções de Sabélio e dos Modalistas da Igreja oriental que
insistem na negação da assimilação do Verbo hipostasiado a Cristo. O dogma
prescreve essa assimilação no momento mesmo da afirmação da Trindade. Deus é
Ser e Ser é Verdade. A independência do plotinismo, do Uno em relação ao Ser,
não se mantém. A Intensão, como a Revelação,não são acontecimentos de
auto-apropriação mas sim fatos do conceder da existência já pressuposta como
derivação do criado em relação ao criador.
Assimilação da
realidade do mundo com o ser criado, logo a existência resultando como o mais
inautêntico, domínio do afinal meramente prático e utilizável. A cisão
permanece, pois a verdade da alma é a sua limitação em relação a Deus. O que é
eterno é a hierarquia dos espíritos. Se o tempo teológico tende para o Aevum
como eternidade, neste não se encontra mais do que a mesma limitação derivada
da Cisão. O máximo de transcendência acarreta assim o máximo de limitação do
particular, inversamente ao plotinismo onde a transcendência é o horizonte de
abertura na qual todo o particular se abole para liberar a continuidade do
Princípio que, mais propriamente, o constitui.
Nesse sentido pode-se
reconsiderar o aporte humanista do cristianismo, o modo pelo qual ele se
instala, como já afirmei, no horizonte conceitual do pensamento
retórico-hermenêutico grego. Pois se podemos ainda pretender que a Intensão de
Santo Agostinho retoma algo da imagem-contemplação de Plotino, liberando-se da
imagem-ação, quanto a isso devemos recordar a afirmação de Paul Ricouer, citada
por Alliez, pela qual há impossibilidade da pertença fenomenológica do tempo
agostinisno, ao mesmo tempo em que aí se pode localizar a fenomenologia única e
autêntica.
A transposição do
plano parece-me porém não estender tal afirmação no sentido do paradoxo. Pois a
relação da Revelação depende do Conceder da graça, e a criatura jamais aspira à
sua própria natureza no Todo.
Recoloca-se aqui de
certo modo a questão complicada da Ocidentalização. Pois se não se pode pensar
seus momentos como de todo sem relação uns com os outros, resta que na medida
em que se afasta tão decisivamente de toda possibilidade de uma ontologia
fundamental a dogmática cristã se relaciona de certo modo com o crescimento do
deserto que caracteriza o aporte relacionante de pensar e razão tão
propriamente metafísico e ocidental.
O afastamento aí é
precisamente feito em relação àquele “pensar poetante”, ou ao elemento puro da
contemplação, ao pensamento não subsumido à proposição e ao juízo lógico. Mas
parece problemático convergir no mesmo horizonte essa dogmática cristã, para a
qual a razão é sempre algo derivado, reservado ao domínio do instrumento, e a
possível definição moderno-contemporânea do Ocidente como projeto de
racionalidade total.
Mas se for feita
abstração do juízo de valor, o que o cristianismo possibilitou em relação a
esse novo momento da ocidentalização é a sua essência mesma, na medida em que o
termo “razão” só se determinou por completo nesse aporte de utilidade, nesse
estar voltado ao ente, a partir do pensamento cristão. Até então a tensão
permanecia entre tendência metafísica e abertura hermenêutica de modo que no
interior do mundo grego e da filosofia “pagã” mesmo após as “decisões operadas
no platonismo”, conforme a expressão de Boutot, conservava-se o sentido
originário da Physis, o que a via sincrética do helenismo poderia, inclusive,
vir a favorecer.
Não obstante, o
pensamento cristão e o que dele se conservou, por exemplo em Kirkegaard,
conforme observou Pépin, sempre sustentou o primado do absurdo como objeto da
fé. Mas vimos qual a imagem da razão que daí deriva. Pode-se propor, contudo,
que o problema restou intacto. Pois essa imagem não prolonga aquelas decisões
mesmas, de modo que, como sugere S. Weil o platonismo prepara o cristianismo?
Parece-me contudo que o neoplatonismo antepõe a necessidade de se afirmar que
não necessariamente. Pois o projeto platônico poderia ter prosseguido numa
interlocução que viesse recuperar o sentido mais originário de suas
palavras-guia autenticamente gregas.
Quanto a isso é
interessante a observação de Bréhier pela qual os próprios “destinos da
filosofia” da época feudal poderiam ter sido outros se Boécio houvesse levado a
cabo seu “imenso trabalho” de traduzir em latim as obras de Platão e
Aristóteles.
O mundo fechado dos
claustros derivou, como reporta Bréhier, do sem-número de comunidades
filosóficas religiosas do paganismo, características do final do helenismo, que
parecem reconstituir o cenário do “Contra os Acadêmicos” agostiniano. Mas a
reintrodução das obras de Aristóteles e a doutrina de São Tomás já é a
ambiência tardo-feudal. Sem aprofundar a análise do período, basta observar
algo da filosofia de Duns Scot quanto à teoria do tempo.
Conforme Alliez,
aceitando a independência do tempo relativamente ao movimento físico, como
aporte propriamente agostiniano, Duns Scot deverá opor o que ele designa como
tempo abstrato, potencial enquanto existente na ausência de qualquer movimento,
ao tempo atual que o representa, contudo, mensurando todo movimento real.
Resta que o tempo
abstrato, se independente do movimento celeste, não é mais, por isso,
psicológico, e sim absoluto, independente da experiência, aprioristicamente
postulado. O tempo comum permanece, portanto, relativo à experiência, à
percepção dos movimentos visíveis dos corpos celestes.
Conhece-se a história: a partir desse ponto tender-se-á a limitar o conceito de tempo ao sentido exclusivo do tempo atual convergindo assim, concomitantemente à unificação da lei natural universal, até aí observando a repartição dos mundos celeste e sublunar, na eclosão da física moderna. Mas aqui já se pode introduzir o cenário – e as consequências – dessa revolução.
VI – Introdução ao
Humanismo
A via interior de
Santo Agostinho tornou-se afinal o caminho mesmo da feudalização. No recesso
dos conventos, em que se desenvolve a ambiência própria do hino e da hagiografia,
foi possível preservar os estudos em meio ao caos das duas invasões bárbaras, a
do século IV e a dos séculos VIII e IX.
Conforme observa
Carpeaux a segunda invasão bárbara, de húngaros e vikings, assinala mais
profundamente o processo de interiorização com as poucas cidades sobreviventes
subsistindo apenas como nomes de comarcas rurais, ao que se acrescentou o
fechamento do comércio no Mediterrâneo pela expansão árabe.
A reforma de Alcuíno
no século IX coincide com a iniciativa de Carlos Magno, correspondendo essa
proto-renascença cultural ao projeto político de latinização dos povos
germânicos. O antigo panteão em Roma torna-se nessa mesma época a Igreja de
Santa Maria, em que se introduz a festa de Todos os Santos. Carpeaux vê nesse
fato o nascimento da Europa, isto é, a sanção da unidade latina do Ocidente.
Mas esse é também o
momento em que o processo de interiorização mais se acentua, pois os conflitos
não cessam com a conversão dos bárbaros. Com efeito, o elemento conflituoso não
se limita ao que vem de fora, abrangendo também guerras entre feudos, corrupção
administrativa eclesiástica, penúria generalizada. “Fehde” ou “feud” é o termo
que designa o estado de guerra civil permanente e generalizada entre os
feudais, sintomaticamente não possuindo tradução neolatina.
Assim se o momento
agostiniano marcava a ruptura com o cristianismo primitivo pela consolidação da
igreja oficializada do Império, o cenário do Contra os Acadêmicos prefigura o
que virá a ser a opção agrária da Igreja no feudalismo.
Contudo a reforma de
Alcuíno não deixou de exercer um importante papel. Scot Erígena, atuando apenas
alguns anos após a época da reforma, assinala já o início da Escolástica.
Conforme Carpeaux o
século XI e o império dos três Otto marca a mudança. Mesmo com a grande
agitação do ano mil, com todo tipo de exacerbação apocalítica devido à
transição do milênio, esse é o tempo de superação do caos social e de
saneamento moral da igreja. Em Chatroux e Poitiers a guerra foi abolida. O
convento de Cluny suplanta a anarquia pela regularidade da liturgia enquanto os
cistercienses substituem a guerra pela rotina do trabalho. Se a patrística
correspondeu ao momento de interiorização, a Escolástica é agora o período da
expansão.
A igreja começa a
urbanizar-se. Ao invés do convento ruralizado, os centros eclesiásticos são
agora os bispados e todo esse movimento de organização social, moralização e
pacificação, conduz ao grande momento de Chartres, no século XII em que a
Escolástica deverá produzir uma nova ambiência intelectual.
A história da
recepção dos escritos aristotélicos converge com a história do que designarei
renascimento filosófico do século XII. Ambas inter-relacionadas com a retomada
do intercâmbio entre Ocidente e Oriente. O interesse de determo-nos mais sobre
esse período é que isso facultará a compreensão do fenômeno geralmente
designado Renascimento cultural ou entrada na modernidade.
O percurso oriental
não coincide, a princípio, com o do Ocidente nem no plano político nem no
filosófico. Observando o modo como o Islã se institucionaliza como
religiosidade e relacionando-o à dominação militar que se segue à conquista de
Síria, Egito, Pérsia e Espanha pelos árabes, é possível mostrar que não há
aquela dobra teológica conceitual característica da dominação eclesiástica do
catolicismo, isto é, do movimento próprio àquele momento da ocidentalização.
Bréhier afirma assim
que as controvérsias anti-heréticas não surgem aí, pois o monoteísmo islâmico é
“sumário e simples como uma paisagem do deserto”, não acarretando questões como
a trinitária ou cristológica. Não há, no Islã dessa época, poder espiritual que
deva interpretar e dizer o dogma. O corão deve ser auto-suficiente, pois o
dogma resume-se na afirmação do Deus único, absolutamente simples e
todo-poderoso.
O que libera uma
especulação filosófica desenvolvendo-se independentemente de qualquer
constrangimento institucional de tipo eclesiástico. Mas essa filosofia oriental
vive uma situação bastante curiosa. É teologicamente inspirada, ainda que os
problemas principais dessa teologia se limitem a duas questões, conforme
Bréhier, a saber, as negações da multiplicidade de Deus e de qualquer outro
poder. Mas as fontes de sua especulação são mais vastas do que as que,
concomitantemente, nutrem o mundo ocidental, pois dos países conquistados
recebe o influxo da literatura filosófica grega.
Os cristãos
nestorianos desde a Escola de Edessa no século V traduzem Aristóteles em
siríaco. À época áurea de Bagdá, por volta do século IX, o mundo árabe já conta
com muitos títulos importantes oriundos da Grécia, via Síria, incluindo as
obras de Aristóteles excetuando apenas O Político.
Mas uma “Teologia de
Aristóteles” circula com textos que na verdade correspondem a extratos das
Enéadas de Plotino. Há também o “Livro de Causas” com extratos do “Elementos de
Teologia”, de Proclo,, que se atribui igualmente a Aristóteles. É´ assim um
aristotelismo neoplatonizado – incrível mistura da orientação positiva do
racionalismo do Estagirista com a mitologia das forças espirituais do universo
do plotinismo – que se desenvolve como filosofia oriental.
O que se torna
importante a reter é a continuidade que se estabelece então com o pensamento
ocidental. Pois a mesma espécie de teologia filosófica começa a desenvolver-se
entre os chartrenses. Graças às viagens de Constantino “o Africano” e Adelardo
de Bath ao Oriente, e suas traduções, novos influxos de filosofia grega
oriundos do mundo árabe penetram no Ocidente – que até aí contava apenas,
dentre as obras aristotélicas, com o Organon e o De interpretatione devidos a
Boécio.
São duas as vias de
importância dessa continuidade que desejo destacar. Há assim o conhecimento da
física corpuscular de Demócrito. A Escola de Akhari começa a sustentar o
atomismo no Oriente já entre os séculos IX e X. O chartrense Constantino o
introduz no Ocidente entre os séculos XI e XII. Há também a grande influência
que a filosofia de Aristóteles exerce estabelecendo um campo de controvérsia
comum entre os filósofos orientais e ocidentais o que se pode constatar, por
exemplo, examinando as filosofias de São Tomás e Avicena.
Ora, na medida em que
o aristotelismo prepara, conforme a observação de Sciacca, tanto o nominalismo
quanto o empirismo da idade moderna, isto ocorre devido à ênfase no aspecto
científico dos estudos aristotélicos que deverá predominar em Oxford. Pois a
recepção dos escritos de Aristóteles se amplia na Europa de modo que a
Escolástica, já à época de São Tomás, pode se ocupar dos títulos que
permaneciam por traduzir do árabe, até então.
Essas duas vias me
parecem tanto mais destacáveis porque assinalam o segundo momento de asimilação
cristã do pensamento grego. Convergem, apesar do seu espaçamento – atomismo
democríteo e continuun extenso aristotélico – na mesma intenção de compreender
as teorias que aí se encontram sem comprometer a aceitação das verdades básicas
do cristianismo, para isso devendo, é verdade, emprestar-lhes um sentido novo.
O sentido preciso
dessa assimilação, contudo, permite visualizar a relação dialética de
exterioridade e interioridade que define a patrística e a Escolástica. Pos a
via do homem interior da patrística só se instaura como filosófica na medida em
que sua motivação é polêmica, determinando-se no horizonte de exterioridade das
heresias e do pensamento pagão. A via naturalista da Escolástica desenvolve-se
na ambiência que é, já de dentro, cristãmente informada, havendo um meio de
estudos há muito estabilizado na familiaridade do manejo cristão com a
argumentação dialética e o exercício das artes liberais.
As vias de destaque
da Escolástica, a chartrense e a que se concentrará no aristotelismo, convergem
também no fortalecimento de uma corrente algo subterrânea que não deixa de
despontar no período feudal mas que aí, como observa Bréhier, sempre se manteve
reprimida: a do naturalismo, da pesquisa das leis imanentes do universo.
Assim o
Renascimento,já oficialmente considerado como tal a partir do século XIV, será
o momento em que a leitura desses textos deverá se liberar da necessidade de
convergir com o dogma cristão, procurando-se agora compreender o que eles
efetivamente quiseram expressar. Assiste-se assim a transição do teocentrismo
feudal ao humanismo da Renascença.
O que ocorre na
Escolástica é então algo paradoxal. A absorção do pensamento helênico em maior
amplitude corresponde ao apogeu da assimilação cristã enquanto elaboração de
sua filosofia teológica. Mas ao mesmo tempo corresponde também à progressiva
inviabilização desse projeto de assimilação. Algo que se figura nos gêneros
hinográfico e hagiográfico que se esgotam no século XII, justamente no momento
em que, como sublinha Carpeaux, com Hoveden, Grève e Varagine, se otém suas
maiores realizações.
O que me parece
importante é observar o papel que o humanismo nascente, já no século XII com a
Escola de Chartres, vai exercer na transição desses momentos da
ocidentalização, do cristão medieval ao racionalista moderno. Aqui também se
poderá observar algo como o nascimento das “ciências” humanas – para precisar o
sentido em que estou usando “ciência” melhor seria o termo science,
conforme a caracterização de Appel.
Vimos como se pôde,
desde a Antiguidade, visualizar o que designei “pensamento humano”: desde a
retórica sofística à psicologia de Santo Agostinho, trata-se de opor à
explicação física – que corresponde ao projeto de uma lógica racionalista da
linguagem – a compreensão do mundo orientada pela existência do ser humano em
que consiste, primariamente, qualquer apreensão fenomênica.
Mas até aqui a
possibilidade desse compreender esteve inserida na prática social, como no caso
dos sofistas, ou no interior de uma concepção metafísica no sentido da
onto-teologia, como a cristã, que comprometia o viés humano do pensamento pelo
estabelecimento de todo questionar no âmbito do teocentrismo.
Como se pode
caracterizar esse humanismo novo que se prefigura já no naturalismo ocidental
chartrense do século XII e que poderá ser ainda reencontrado na sociologia
oriental de Ibn Khaldun, no século XIV?
Talvez se pudesse principiar a tarefa dessa resposta pela observação de Abdel – Malek, conforme a qual, o que se vê aí é a substituição da razão como “ancilla theologiae” pelo “realismo filosófico”. O realismo positivo, o método – eis, no abandono da alegoria medieval como também da especulação pura da “razão silogística”, a gênese do momento novo da ocidentalização como projeto de racionalização total.
A inserção aqui da sociologia nada tem de casual. Assim deve-se agora procurar compreender esse momento de transição a partir da Escola de Chartres de modo a tematizar também como esse viés realista acarretou algo como o projeto de racionalidade total ou mundo da técnica, o ocidente que é o da atualidade, se aquilo que filosoficamente o embasa está, na origem, em comum com o Oriente.
VII – A Época de
Pierre Abelardo
O século XII inicia
movimentações que desabrocharão plenamente no século seguinte. No entanto
conserva uma ambientação de liberdade e iniciativa bastante característica, o
que se compreenderá melhor ao analisar a época de São Tomás.
No plano político já
surgem, ainda que muito no início, os sinais da recuperação do poder monárquico
centralizado, a partir da França. Quanto à igreja os focos principais de sua
evolução nessa época são o movimento expansionista das cruzadas e o
desenvolvimeto das escolas que logo se concentrarão na instituição
universitária nascente como projeto eclesiástico de consolidação da hegemonia.
A tendência
monárquico centralizadora porém é de certo modo culturalmente reforçada assim,
pois se podem delinear as características do que deverá futuramente
consolidar-se como cultura nacional. As universidades de Paris, Oxford, Nápoles
e Bolonha são centros intelecturais que localizam na França, Inglaterra,
Itália, movimentos importantes de personagens e idéias que caracterizam a
transição da Escolástica ao Renascimento. Já no século XIV, com Mestre Eckhart,
constuma-se localizar o início da filosofia alemã.
Se no século XII
ainda se pode afirmar o “universalismo” do período feudal, a partir da
delimitação comum da cultura eclesiástica e do uso do latim, ou do caráter
fechado da sociedade, as oposições internas e o apelo das origens são elementos
que se aguçam nesse novo ambiente urbano, cenário agora de irresistível
heterogeneidade. O equilíbrio político dos poderes espiritual e temporal
estabelecido no Ocidente a partir da época carolíngea – que provavelmente é o
que define com mais propriedade a chamada “Idade Média” – começa a se desfazer.
A produção filosófica
chartrense constitui um limiar. Já se beneficia, como vimos, da introdução na
Europa de contribuições árabes atinentes ao pensamento antigo. Mas não se
deparou ainda com o impacto representado pelos textos de filosofia aristotélica
plenamente recuperados. O momento chartrense não se confunde com o momento
tomista, como se essa dupla de séculos viesse assinalar a verdadeira mutação no
interior do processo longo de ocidentalização, de modo que se torna possível
compreender como se transpõe o momento cristão àquele da racionalidade moderna.
Mas já o gótico
transforma a concepção do espaço espiritual, a igreja. Trata-se de substituir a
parede pesada pela ambientação luminosa da catedral que se eleva ao mesmo tempo
em que se adelgaça. A arte do vitral é a da luz colorida. Conforme Honório de
Autum, citado por Alliez, essas janelas são os doutores da “lux nova” que à
época de Chartres oferecem o esclarecimento sobre os elementos e os seus
verdadeiros lugares no mundo.
Permitem assim que se
pense esse mesmo mundo como ordenação sempiterna e coerente dos lugares
atribuídos a cada parte – bispo, rei, burguês – sob cuja tutela a cena sacra
representada no vitral pode se desenrolar. Mas na evolução do período a cor vai
solicitar cada vez mais elementos para a constituição do campo, aumentando a
complexidade mas também tornando mais visível a intervenção do artista. A
imediatez se rompe, do vidro e do elemento constituinte, da palavra e da coisa.
Assim como do momento platônico-chartrense da translucidez máxima até o
aristotélico – tomista da complexidade maior em que o sujeito vai emergir do
que até aí deveria ser apenas o conhecimento das coisas.
Isso sem contrapor o
esquema de Panofski que, conforme Carpeaux, demonstrou a correspondência da
planta e da decoração da catedral com o plano “fornecido pelos construtores da
teologia e da metafísica”.
Ainda no século XI a
carta de Otto III a Gerbert de Aurillac, que veio a ser o papa esclarecido
Silvestre II, testemunhava a autocrítica de sua rusticidade saxônia. Solicitava
ele assim, com comovente humildade, que o amigo lhe completasse a educação e
reavivasse o espírito helênico herdado de sua mãe, legitimamente grega.
Esse caso, narrado
por Henry Focillon, não surge de modo isolado. Repercute, por exemplo, na
observação de Carpeaux sobre a popularidade do gênero “romance de Tróia”
contemporâneo do “romance cortês”, ambos da “cosmopolis” do século XII. Os
príncipes feudais costumavam crer na sua descendência de heróis troianos
baseando-se até em árvores genealógicas arbitrárias.
Há agora o anseio
generalizado pela cultura antiga. Assim Carpeaux não deixa de notar, a
propósito da Escola de Chartres, suas “veleidades de poesia e ciências naturais”
enquanto Sciacca observa que é o gosto e o cultivo da cultura clássica,
juntamente com a multiplicidade de interesses, que concede à essa Escola “uma
carcterística particular”. Com efeito, o famoso “estilo” chartrense é ainda
sublinhado por Bréhier por seu caráter “cuidadoso” e por sua “fantasia
humanista”.
Por tais vias me
parece possível aproximar a tendência dos estudos no interior da Escola
chartrense àquela que anima a produção cultural literária do século XII, no
exterior deses meios eclesiásticos. Basta verificar a multiplicidade dos
gêneros.
Há assim,
inicialmente, ainda nos meios escolares e religiosos oficiais a produção
carcteristicamente derivada do cristianismo, o desenvolvimento da filosofia
impregnada pela ideologia eclesiástica.
Quanto a isso o
século XII é uma época de sistematização dos dados do cristianismo até aí
esparsos: cânones, regras morais e opiniões dos padres devem ser agora reunidos
em modos expositivos coerentes. Os gêneros que se consagram a esse exercício
abrangem os “Espelhos” da fé e dos costumes (Ives de Chartres, Raul Ardent) e
os livros de Sentenças como o de Guilherme de Champeaux e sobretudo o de Pedro
Lombardo, o Mestre das Sentenças que se tornou o fundamento do ensino de
teologia no século seguinte.
Lombardo foi
discípulo de Abelardo, autor do Sic et Non, livro de sentenças que inova por
apresenta-las agrupando em duas classes as opiniões dos padres, as que afirmam
e as que negam, de modo que o autor pode então definir as regras para conciliar
as opiniões. As glosas e as paráfrases são os gêneros dessa época que, conforme
Alain de Libera, introduzem textos de autores que se deve estudar e que
estabelecem um programa de leitura imposto ao texto em questão. Em meados do
século surge a Summa, o gênero feudal por excelência, na forma de tratado
sistematicamente organizado
O par catedral &
suma pareceu por muito tempo tão emblemático da idade média quanto a versão
renascentista desse tempo como de obscuridade e superstição puras. Mas pode-se
constatar, procedendo agora o bosquejo da literatura praticada nos castelos e
nas aldeias, conforme Carpeaux, que há bastante complexidade nesse período,
assim como se poderá observar também a partir do exame do pensamento
filosófico.
Assim ainda na
própria produção intrinsecamente relacionada ao cristianismo, concomitantemente
à progressiva decadência do hino e da hagiografia, apontada por Carpeaux, há o
florescimento do gênero “Visio”. São relatos de visões e êxtases místicos em
que se destacam Strabo, Monte Cassino e inúmeras poetisas, como Hildegarda de
Bingen e Santa Gertrudes, que introduzem um “vocabulário erótico” nas “descrições
dos êxtases”.
Mas com essa vertente
religiosa coexistem mais dois vetores importantes na produção literária da
época. São vetores oriundos do paganismo. A greco-latinidade constitui, como
vimos pelo exemplo da nobreza em geral e particularmente de Otto III, um
horizonte perene de referência espiritual sendo progresivamente acrescentado
pela recuperação das fontes através das traduções.
E há ainda o influxo
popular que parece explicar o lirismo medieval fazendo ressoar na forma de
baladas, canções de amor e de romarias, os elementos bárbaros que constituíram
o povoamento local. Esse elemento popular é bastante demonstrável na produção
poética da península Ibérica mas também ocorre entre povos germanos e célticos,
estes acrescentando-se-se aos anglo saxões na Inglaterra.
Com efeito, esse
elemento popular tem sido fecundamente relacionado ao problema ainda sem
solução sobre as origens da poesia aristocrática provençal que se desenvolve,
desde esse núcleo na “Proensa”, até a produção galego – portuguesa e os “Minessang”
germânicos. Há ainda, entre outras teorias menos convincentes, a que associa a
origem do trovadorismo ao desenvolvimento da heresia cátara no Sul da França.
Romances de espírito
greco-latino, como de Tróia ou do tipo viagens de Alexandre, sátiras zoológicas
como o Physiólogos, em que os animais representam tipos e caracteres humanos,
romances da corte de Carlos Magno, são comuns já no século XII. A
provençalização dos temas se expande e há ainda o gênero “romance cortês” de
Chrétien de Troyes, em que utiliza-se as lendas de Arthur e os cavalheiros da
távola redonda, predominando os temas do Graal e da relação entre Lancelot e
Guinevére. A poesia provençal coexiste com a dos goliardos, andarilhos que
cantam o amor e o vinho. Ambas são acentuadamente heréticas e anticlericais.
Ora, essas vertentes
culturais se relacionam aos elementos que vimos dever se adequar aos seus
lugares precisos na composição gótica, especialmente na arte do vitral. A
igraja, a nobreza e a burguesia – cristianismo, greco-latinidade e origens
bárbaras, são também os elementos agora em oposição no interior dessa sociedade
que se reurbaniza.
Não apenas existe a
oposição tripartite de superfície mas também o conflito opera em profundidade.
O clero não tende para os mesmos interesses e posições conforme se trate do
alto funcionalismo ou dos frades menores. A nobreza tende a se repartir
conforme o interesse centralizador monárquico vai se consubstanciando como a
opção mais viável à consolidação do poder temporal confrontando o religioso.
Nas cidades há óbvia oposição entre a alta e a pequena burguesia. E de
modogeral todos esses elementos se opõem ao camponês pobre – a nobreza querendo
apenas garantir a dominação sobre os servos enquanto a burguesia acrescenta a
mofa sobre os rústicos habitantes do campo que alimentam assim sua oposição à
gente das cidades.
Se, como vimos, a
arte se torna cada vez menos simples no seu sistema de composição, as relações
sociais se tornam também bastante complexas a ponto de transbordar o sistema
que vinha se caracterizando como “feudalismo”. Quanto a isso é bastante consensual
assinalar-se o ponto de ruptura na oposição entre o papado e o império
manifestando-se já no século XI quando tem início a querela das investiduras.
Efetivamente desde então o conflito entre poder religioso e temporal se
acentua, não se limitando ao Sacro Império mas também à França de Filipe IV em
que eclode o cisma do Ocidente.
Assim desenrola-se a
pugna envolvendo desde a nomeação de cargos eclesiásticos no Sacro Império até
a própria eleição do pontífice, o que determinou o deslocamento da sede do
papado para Avignon e a consequente eleição de outro papa em Roma – com ainda a
eleição do papa de Pisa – e as lutas que se seguiram entre os três papas. A
tensão entre as duas “civitates”, que rivalizam pelo título augustiniano de
Civitas Dei, na interpretação de von Freising, vai se transformar na questão
teórica da Potestas que finalmente modelará a doutrina moderna do Estado
nacional.
Esse ponto de ruptura
problematiza aquela periodização mais comum da Idade Média como interregno
trevoso entre a cultura antiga e o Renascimento. Esse esquema tripartido das
Idades emergiu da condenção a que o Renascimento votou o passado medieval e
parece severamente comprometido pela consideração desse estado de coisas
conflituoso, mas ainda pelo situamento cada vez mais recuado dos movimentos de
renascença cultural.
Já observamos que o
século XII pode ser pensado na abrangência de uma verdadeira renascença,
conforme também já propôs Haskins. Assim, como sublinha Bréhier, o platonismo
praticado na Escola de Chartres não procura subordinar-se ao dogma ou servir à
apologética cristã, mas se desenvolve como filosofia independente.
A Escola de Chartres
foi fundada ainda no século XI pelo bispo Fulberto. Mas são as viagens e
traduções de Constantino e Adelardo que principiam a sua fase áurea. Essa fase
inclui também Bernardo de Chartres, Guilherme de Conches, Gilberto Porretano,
Thierry de Chartres e João de Salisbury.
Adelardo de Bath
introduz os Elementos de Euclides, obras astronômicas, a aritmética de
Alchwarismi. Amplia-se o quadrivium. Mas Adelardo introduz também a tendência a
conciliar Aristóteles e Platão quanto à teoria do conhecimento. Conforme essa
solução, bastante comum no período, Aristóteles e o conhecimento que depende da
imaginação, isto é, da capacidade de formar imagens individualizadas a partir
dos dados dos sentidos, são corretamente aplicáveis ao mundo material. Mas o
conhecimento perfeito é o das formas platônicas arquetípicas, assim como
existem na mente de Deus.
Essas formas existem
independentemente das coisas sensíveis. Quanto aos universais aristotélicos,
designam a realidade das coisas sensíveis conforme consideradas pelo intelecto.
Assim o problema dos universais se resolve pela especificação da relação sob a
qual a essência está sendo considerada, seja como indivíduo, gênero ou espécie.
Os universais derivam da significação das coisas sensíveis e são nomeados pela
linguagem. As formas platônicas separadas que existem em Deus são também
cognoscíveis mas através da dialética.
Já com Bernardo de Cahrtres
a tendência a conciliar as teorias platônicas e aristotélicas se acentua. As
formas arquetípicas e os universais são por ele concebidos como idênticos.
Mas é na obra de
Guilherme de Conches que se concentra uma verdadeira mudança na concepção de filosofia,
relacionada efetivamente com o “novo sentimento da natureza”, conforme Bréhier
também assinalado por Alliez. O trivium se torna propedêutica à filosofia. Mas
a filosofia mesma se designa como comportando duas seções: a teologia e o
quadrivium. A ciência real comporta o conhecimento de Deus e da Natureza. As
formas retóricas não se classificam propriamente como científicas.
Ocorre assim a
delimitação de um campo de saber a que se relaciona a compreensão da natureza
que devém da explicação humana, não da revelação. Trata-se do conhecimento das
leis naturais. O atomismo postulado por Guilherme de Conhes é, conforme Alliez,
tributário do modelo fisio-lógico de Galiano, provavelmente mais do que
da tradição do Timeu platônico cuja tradução, via Chalcidio, pára no momento
preciso da exposição platônica da estrutura geométrica dos quatro elementos.
Assim, Guilherme de
conches postula que esses quatro macroelementos empiricamente acessíveis,
terra, água, ar e fogo, são na realidade compostos por “particulae”: os átomos
indivisíveis que compõem os elementos divisíveis. Análise e síntese formam o
método pelo qual se pode conhecer racionalmente a natureza que é essencialmente
um processo de composição e decomposição. Os macroelementos não precisam ser
diretamente derivados das Idéias, do mundo inteligível platônico. A matéria
informa a matéria através dos seus elementos atômicos constituintes que se
conjugam mecanicamente.
As leis naturais
obtidas pelo método racional de análise e síntese constituem a ciência como
explicação física da transmutação dos elementos invisíveis mas inferíveis pela
penetração do método. A física em Guilherme de Conches é já suposta como
ciência autônoma. A operação atribuída a Deus se designa como potência que
concede às coisas a sua natureza. Mas são as operação da natureza que formam os
seres vivos que nela coexistem.
O pai cria o mundo, o
Filho é a sabedoria pela qual Ele o criou e o Espírito Santo é a vontade pela
qual Ele controla o universo. Essa imagem da trindade, expressa alegoricamente,
pretende deslocar a mais clássica –potência, sabedoria e bondade – propugnada
por Abelardo, Beda, Santo Agostinho e o Lombardo. A crítica de Guilherme de
Conches se enraíza na atribuição de afecções humanas a Deus.
Sua imagem da
trindade se concebe como relação de Deus com a criatura, não designando Deus na
sua itimidade mesma ou a inter-relação das pessoas da trindade, conforme
observa Bréhier. Já a tríade cássica pretende enunciar o conhecimento de Deus
assim como Ele é intimamente, ao mesmo tempo em que O considera sob o aspecto
das afecções humanas – a bondade pela qual ele cria o mundo. O problema que
assim se enuncia é, juntamente com a questão platônico-aristotélica do
conhecimento, das formas e dos universais, bastante característico desse
período.
Trata-se da
atribuição das categorias: são elas atribuíveis a Deus assim como às criaturas?
Se não, como se pode ter algum conhecimento enunciável sobre Deus? Ou em outros
termos, conforme a expressão de Bréhier: até que ponto a realidade divina está
sujeita às regras do conhecimento das coisas naturais?
Pode-se observar como
essas questões se desenvolvem com Gilberto Porretano que adota a concepção de
Sêneca pela qual a forma platônica é o modelo exterior da obra enquanto a
aristotélica é a forma inerente à obra. Ele postula que o ser da substância só
existe por essas formas que lhe são inerentes. Mas as formas não subsistem fora
das substâncias que fazem subsistir. Deus possui assim uma forma – divindade ou
deidade – pela qual as pessoas da trindade são informadas, sem se confundir com
ela.
Existe assim uma
regra comum às coisas naturais e a Deus, a ordem pela qual o ser vem sempre da
forma. Quanto ao mais, conforme Gilberto Porretano, não convém aplicar às “coisas
teológicas” regras que pertencem às “coisas naturais”.
Essa perspectiva se
encontra também em Guilherme de Saint-Thierry: há reconhecimento de que os “nomes”
que são aplicados pelos homens à “doutrina da fé” não podem ser totalmente
descartados, permitindo-se assim resolver a questão pela adaptação desses nomes
às regras doutrinais. Mas essa resolução é como uma concessão ou uma
justificação da necessidade do controle eclesiástico sobre o modo de se fazer a
adaptação. Com efeito, Guilherme de Saint-Thierry e São Bernardo são os maiores
críticos dessa nova filosofia que se expande no meio chartrense e em Paris
através de Abelardo.
Já Thierry de
Chartres – “príncipe dos filósofos da Europa” – é nomeado chanceler da Escola
na década de quarenta, quando se inicia a construção da fachada ocidental da
Catedral de Chartres. Sua explicação da criação é de modo pioneiro, conforme
Alliez, puramente física.
A natureza criada
surge como histórica, continuidade articulada. Trata-se de um idealismo
naturalista possivelmente assimilável como panteísmo, retorno à concepção
cósmica antiga no interior mesmo de uma explicação da criação do mundo
começando pelo Hexaêmeron do Gênesis. Ao invés de pensar a intervenção criadora
atuando a cada vez, a cada “dia” conforme poderia sugerir a narrativa do
Gênesis, basta que Deus tenha criado o fogo, o igneous vigor que põe
automaticamente em marcha o engendramento dos outros elementos. Até que o calor
chegou ao ponto vital, vitalis calor, pelo qual puderam vir à existência
os animais, dentre os quais o homem.
Os quatro
macroelementos são constituídos por partículas, como em Guilherme de Conches,
mas suas qualidades são agora explicadas através de uma teoria cinética. Assim
o ar e o fogo devem sua leveza ao seu movimento incessante. Cercando a terra e
a água, por sua vez, o ar e o fogo as dota com a solidez e o peso respectivos,
pela força resultante do seu movimento em torno delas.
As partículas móveis
constituintes estão em constante transformação, pois os elementos se transmutam
uns nos outros. Suas relações mecânicas explicam cineticamente suas
localizações. Mas a forma essencial das coisas é a unidade e, portanto, é Deus.
As coisas existem enquanto participantes do Todo que é Unidade.
Objetividade ou
subjetividade, virtude operante enquanto Alma do Mundo ou Espírito Santo, eis o
que não mais faz diferença. Trata-se apenas de escolher, ou poder escolher,
usar a linguagem da fé ou do mito platônico – pois Platão no Timeu fala “per
integumentum”.
Essencialmente no
meio chartrense a natureza é considerada como princípio de atividade
relativamente autônomo. Logo a rede de correspondências que liga tudo o que
participa desse mesmo Todo vai ser concebida como rede causal, repondo-se a
consistência do pensamento no âmbito da cientificidade assim como já
conceitualmente delineada por Aristóteles: conhecimento por causas, retorno à
evidência.
É a Providência mesma
que se concebe agora como necessidade absoluta. Clarembaud de Arras, aluno de
Thierry de Chartres, a enuncia como operador da complicatio-explicatio, par já
presente em Thierry, conforme Alliez, que deverá caracterizar o pensamento
filosófico no Renascimento com Nicolau Cusano e na modernidade, em Spinoza.
O que em Deus existe
conjuntamente, o que nele está ou é “complicado”, se “explica” na ordem
domundo. Deus é a complicatio de todas as coisas, o universo é a sua
explicatio. O que em Deus é igualdade, simplicidade e identidade, no universo é
desigualdade e divisibilidade. O que em Deus se encontra contraído, se estende
na ordem universal. O movimento de complicação e explicação á algo análogo a
epistrophé e proodos, conversão e processão, de Plotino. Apenas o quese
desenvolve assim não se pensa ao modo de emanação, provindo do Uno, mas de
expressão relacionada a Deus. Segue-se que o que no mundo é “explicatio” corresponde
realmente ao racionalmente explicável na ordem do conhecimento.
A ordem lógica do
mundo, essa concepção que tão bem se harmonizará com o projeto de
racionalização total que corresponde, a meu ver, ao momento moderno da
ocidentalização, encontra no meio chartrense a sua aplicação no interior mesmo
da teologia filosófica cristã. É o próprio Deus que a ordena, mas é da natureza
de Deus que a ordem procede. A razão, que só era aplicável de modo derivado e
instrumental, na vertente mística do cristianismo, não precisa esperar pelo
século XV para reencontrar a postulação de sua originareidade nessa mesma
capacidade de instrumentação. O encontro do Ocidente cristão com as fontes
greco-latina já o permite, pela proposição do cosmo intrinsecamente ordenado
por Deus.
Quanto a isso a
relatividade com que se trata o Trivium em Chartres já assinala que a coloração
de que o humanismo se revestirá nas academias do Renascimento italiano é de
tipo bem especial se comparado ao que designei como “pensamento retórico”.
Contudo, essa posição do Trívium no esquema pedagógico chartrense é também algo
excêntrica.
O caráter relativo
que assinalei está nisso pelo que, conforme sublinha Alliez, o físico de
Chartres é gramático, pois como compreender o Timeu sem ser capaz de penetrar a
sutileza do mito? Mas a excentricidade reside em que a atribuição propedêutica
da lógica ou dialética se torna cada vez menos localizado ao longo do século
XII. E de fato a importância da lógica cresce de modo que invade a teologia
como condição de seu acesso desenvolvendo-se também paralelamente como arte
formal independente das outras disciplinas, isso não sem suscitar protestos e
ataques como o de São Bernardo e dos vitorinos.
Talvez o caráter
precursor do momento chartrense esteja mais definido como momento de transição
da causalidade formal à causalidade eficiente, isto é, das formas exemplares às
formas materiais, de Platão a Aristóteles: mesmo que se conserve, como os
chartrenses Bernardo e Thierry, a dualidade das formas, preservando assim o
equilíbrio bem escolástico entre “expressionismo” e criacionismo, imanência e
transcendência, como observa Alliez. Pois a dualidade assim preservada não
deixa de fazer ver a possível independência.
Mas retornando à
questão do Trivium, agora desdobrada na polêmica suscitada pelo florescimento
do cultivo da lógica: João de Sallisbury, que se tornou bispo de Chartres já
próximo do final do século XII, posiciona-se quanto a isso conservando a
utilidade da lógica como instrumento de investigação mas critica os que a
cultivam ao modo de arte pela arte. Interpreta assim a obra lógica de
Aristóteles como plenamente aplicável só à matemática pois considera o
conhecimento humano limitado à esfera do provável. A teologia ou conhecimento
das coisas de Deus, eis o que supera todo conhecimento humano.
João é bastante
influenciado pelo estoicismo, ainda que limitando Cícero pela dúvida acadêmica,
conforme observa Bréhier. Providência e natureza não se contrapõem, mas se
pressupõem, conforme o espírito de Chartres. Contudo, João de Sallisbury
acentua que em um mundo assim ordenado o poder espiritual tem precedência sobre
o temporal, pois é o intérprete da verdadeira lei. Se o príncipe é eleito por
Deus ele deve ter sempre bem à vista essa lei que só os padres sabem interpretar.
Tal posição situa bem a Escola de Chartres em seu tempo já que, inversamente ao
seu caráter precursor em outras questões, o que se verifica progressivamente no
interior da filosofia é a tendência para acentuar a independência do poder
temporal.
E associado a essa
tendência mais laicizante está o personagem que é sem dúvida o mais famoso da
época, Abelardo, que após o terrível desenlace de seu caso de amor com Heloísa,
se tornou clérigo. Condenado pelos concílios de Soissons e Sens, Abelardo se
celebrizou, como professor e escritor, tanto por sua verve dialética quanto
pela caracterização de racionalista puro. Mas o racionalismo de Abelardo
limita-se à sua paixão pela lógica. Com efeito ele, inversamente ao modelo de
Chartres a que se costuma porém aproxima-lo devido à tendência mais geral do
espírito, praticamente ignora o cultivo do quadrivium.
Quanto à teoria do
conhecimento Abelardo restringe-o no sentido humano pois considera presunçoso “discutir
pela razão” o que ultrapassa a condição da humanidade. Ele sempre se considera
mais cristão do que filósofo. Isso contradiz profundamente a acusação de São
Bernardo pela qual o método de Abelardo pretende tudo guardar à inteligência
sem nada reservar à fé.
Se o conflito entre
fé e razão tornou-se um problema filosófico, Abelardo não nega a autoridade da
revelação mas afirma que pode-se compreender racionalmente o dogma, ao menos
até o ponto em que na própria fé se encontra aquilo que não se destina ao
compreender mas apenas ao crer.
O que há de efetivo é
que, bem antes de Luthero, Abelardo já denunciava a remissão de penitências por
dinheiro, questionando mesmo o poder dos padres de perdoar pecados. Sua ética
sustenta que a moralidade consiste em obedecer à consciência. Em um meio como o
do século XII, no qual multiplicam-se as heresias e chega-se a proclamar que o
casamento entre monges e monjas deve ser lícito, contudo, malgrado a severidade
do seu opositor, São Bernardo, essas teses de Abelardo parecem bastante inóquas
e são até mesmo passíveis de explicações em sentido ortodoxo. Em todo caso são
bem menos radicais do que poderiam ter parecido na ambientação da polêmica
anti-filosófica. O “racionalismo” de Abelardo admite a influência dos espíritos
da natureza sobre a alma humana.
Em seu ensino de
lógica Abelardo engloba questões de física e metafísica, teoria das causas,
relação de matéria e forma. Ele se distingue pela solução “conceitualista” que
adota sobre os universais. Uma vez que se aceite essa perspectiva que vimos ser
comum na época, pela qual as formas platônicas são realidades presentes na
mente de Deus e os universais são aplicáveis apenas à designação das coisas do
mundo, pode-se propor a solução “nominalista” do problema enunciado por
Porfírio acerca da existência dos universais.
Atribui-se assim por
vezes a origem do nominalismo a Scott Erigena pois para ele a lógica só tem a
lidar com a expressão linguística. Inversamente, o mestre de Abelardo,
Guilherme de Champeaux, postula a realidade do atributo essencial que no
indivíduo vai ser diferenciado pelos acidentes. A essência é sempre a mesma,
mas as limitações materiais individualizam a espécie assim como as diferenças
especificam o gênero. Sua posição define-se, portanto como “realismo”.
Abelardo considera o
universal unicamente como termo predicado, que não existe
à parte daquilo que
designa. Bréhier questiona a propriedade de se chamar a essa doutrina “conceitualista”.
Contudo, Sciacca observa que se Abelardo concede como os nominalistas que o
universal é nome, ele o designa enquanto discurso – sermones – a uma realidade
significada. Penso que conserva-se a legitimidade das três posições bem
nitidamente designadas. E Abbagnano assinala que os termos conceitismo e
nominalismo foram utilizados na história da filosofia oitoscentista para designar
a mesma opção não realista, mas o conceitismo seria assim uma vertente do
nominalismo, própria da orientação de Abelardo, que não se confunde com a de
Roscelino, para quem o universal é simples voz : vox, flatus vocis. Nesse
sentido o nominalismo posterior como o de Ockan seria inspirado em Abelardo,
uma forma de conceitualismo.
Já aproximando-se do
que será uma tendência no período tomista, a reflexão ética de Abelardo se
desenvolve posteriormente no sentido de procurar o verdadeiro sentido do dogma
cristão racionalmente refletido.
Considero importante
fixar agora as questões peculiares ao século XII: relação entre fé e razão,
entre dogmática teológica cristã e cultivo da filosofia e das artes liberais.
Relação da ontologia aristotélica com a teologia platônica abrangendo teoria do
conhecimento, problema dos universais e da causalidade, gênese, estrutura e
formação do mundo. Essas questões, determinadas pela introdução das traduções
de texto greco-latinos, desabrocham plenamente a partir do impacto provocado
pela ampliação dos horizontes intelectuais no século seguinte, devido à
continuidade desse processo de recepção.
A filosofia oriental, longamente a par desses textos, se torna interlocutora do Ocidente. As Universidades são agora os centros em que o aristotelismo latino poderá se desenvolver, propiciando uma verdadeira renovação da episteme.
Se com esse bosquejo constatamos a complexidade do momento chartrense à época de Abelardo, essa complexidade será ainda mais acentuada no subsequente período tomista.
VIII – Aristóteles e
a teiologia escolástica
O desenvolvimento das
traduções de textos de filosofia até então desconhecidos no Ocidente principia
no século XII, em que se destacam os trabalhos em Toledo, alcançando a
plenitude no século seguinte. As fontes são o árabe, mas também textos
importados de Constantinopla vertidos diretamente do grego ao latim. Assim o
Ocidente tem já o texto do Político de Aristóteles, desconhecido dos árabes. E
São Tomás descobrirá a verdadeira autoria do “Elementos de Teologia”
identificando-o como adaptação do “Livro de Causas”, de Proclo, traduzido por
Guilherme de Moerbeck. Mas o Ocidente também conta com obras de filósofos do
oriente muçulmano e judeus: al-farabi, Avicena, Averróis, Isaac Israeli,
Avicebron e Maimônides, entre os mais proeminentes.
Vimos que a leitura
oriental de Aristóteles é fortemente neoplatonizada. De fato, as filosofias
platônica e neoplatônica oferecem plenamente acesso à “preocupação sobrenatural
da alma”, conforme observa Bréhier. Mas ele insere essa expressão justamente no
âmbito da comparação da relativa facilidade com que a teologia monoteísta,
baseada nos textos de origem hebraica, pode lidar com Platão e Plotino,
adaptando-os, em relação ao Ariatóteles “puro” que oferece aportes completamente
irredutíveis a tal tipo de adaptação da filosofia grega.
Assim, mesmo
utilizando uma mescla característica de Aristóteles, Platão e Plotino, já no
Oriente a necessidade de conceitos aptos a modular o pensamento aristotélico na
perspectiva de transcedência do monoteísmo de origem hebraica se presentificou.
O Ocidente assimilou conjuntamente tanto a filosofia aristotélica quanto esses
procedimentos de modulação. Contudo o impacto dessa literatura filosófica
ampliada não foi por isso minimizado.
Inversamente o que
ocorre é que a soma desses textos “novos” vem se inserir na ambiência de
questões próprias, não comuns com aquela específica do Oriente árabe ou de
Bizâncio. Há assim duas ordens de fatores pelas quais o impacto é bem maior no
mundo latino.
Os fatores que
designarei internos por serem constitutivos do domínio mesmo em que se
desenvolve a filosofia, são aqueles ligados à organização dos estudos. Mas esse
caráter interior ao domínio não significa que se trate apenas de uma questão de
forma, isto é, do ajuste dessas novas fontes ao esquema canônico do trivium e
do quadrivium. Na verdade é todo um como fazer que está em jogo.
Teologias adaptativas
inteiramente alegóricas como a de Abelardo, que como os chartrenses reencontra
a trindade nas hipósteses de Plotino, e utiliza certos termos de Platão como
uma forma figurada de expressar as verdades cristãs expurgando-os de todo “naturalismo”,
perfeitamente praticáveis com base nos textos platônicos, se tornam
inaplicáveis no caso de textos aristotélicos.
Mas essas teologias
respondem a uma necessidade profunda, amadurecida no século XII, de buscar na
fé cristã uma estrutura intelectual que pudesse totaliza-la, integrando-a
conceitualmente. Assim a filosofia aristotélica deverá vir ao encontro dessa
necessidade mas, por sua natureza mesma, impõe uma verdadeira mudança de
sentido no interior dessa problemática.
O outro domínio de
fatores poderia ser designado externo, mas apenas por razões de simetria – algo
contudo não especialmente prezado no gótico. Isto é, para se contrapor
qualitativamente àqueles que designei internos. Na verdade esses fatores
outros, que se relacionam ao momento político, deixam de parecer meramente
contingentes ao curso do que está precipuamente em causa no momento em que se
os considera na perspectiva do poder central da época, a hierarquia
eclesiástica.
Pois a igreja, como
já observamos, não se limita a exercer sobre os estudos uma censura extrínseca
já que o tipo de dominação que instaura depende explicitamente do acordo
ideológico, de uma adesão à fé que deve ser fundamentada na dependência
espiritual da autoridade eclesiástica. Pode-se argumentar que esse acordo nada
valeria sem a força do braço secular e que ele só se consegue à custa do
difícil equilíbrio com o poder temporal. Pode-se mesmo antepor que toda
dominação tem que ser, de algum modo, ideologicamente embasada. Mas resta que
seu modo de exercer-se não iguala o do poder temporal assim como uma monarquia
se opõe diretamente à outra, jogando-se ambas na mesma ordem material de
dominação política.
Com efeito o poder
eclesiástico não se confunde nem com o democrático nem com o monárquico. O “feudalismo”,
isto é, a independência relativa dos grandes senhores de terras, lhe convém por
isso que lhe reserva o espaço de manobra “espiritual” pelo qual o poder
teocrático se insinua como meio de referência universal. E vimos como a
peculiaridade da interpretação do dogma no Ocidente influi na estrutura do
poder eclesiástico independente, de modo não análogo ao que ocorreu no Oriente
nem ao tipo de cesaropapismo bizantino.
Portanto ao fator
político especialmente eclesiástico, ainda que surja como outro em relação ao
que designei “interno”, na verdade só pode assinalar-se uma exterioridade
relativa.
A orientação
eclesiástica agora se concentra no esforço de assegurar ideologicamente a
consolidação do seu domínio. Assim ao mesmo tempo em que apóia e encoraja a
Universidade de Paris, sanciona a Inquisição. Quanto a esse apoio, não se faz
tampouco sem exercer-se ao modo de um mecanismo de controle. Franciscanos e
dominicanos, as duas ordens igualmente de recém instituição, possuem cátedras
reservadas na Universidade.
Principalmente há o
objetivo claro de sistematizar toda a produção intelectual em torno da doutrina
religiosa sancionada pelo dogma. O papa retém o domínio sobre o ensinamento
universitário. Institui-se uma hierarquia entre os cursos. Às “faculdades de
artes”, em que se ensinam agora o trivium e as ciências aristotélicas, tanto
quanto às faculdades de medicina e direito, impõe-se restrições severas.
A faculdade de arte
deve ser muito nitidamente propedêutica, “ancilar” à teologia, matéria aliás de
que se proíbe a discussão aos alunos das “artes”. E conforme as ordenações
papais, a Teologia deve exercer domínio sobre todas as outras faculdades.
Compreende-se bem a
observação de Bréhier comparando o século XII, aquela “renascença” das
liberdades do espírito, com o seguinte, à época de São Tomás. Agora a procura
de uma unidade a qualquer preço, mesmo à custa da lógica e da coerência, se
impõe não apenas por motivos intelectuais, mas principalmente políticos e
sociais.
Mas no Oriente a
filosofia neoplatonizada é professada já no século nove. Obtém maior expressão
com al-Farabi e Avicena, no século XI, começando por se propor o problema do
conhecimento das essências. Enquanto as propriedades dos objetos, dados aos
sentidos, assim como os axiomas universais conhecidos por si mesmos, não
oferecem nenhuma dificuldade, o conhecimento das essências, logo, a
possibilidade da definição, não podem ser atribuídos a nenhum desses fatores.
Postula-se então o
intelecto agente, sempre em ato, que: a) pensa sempre as essências ou quididades
como formas universais das coisas; b) concede às coisas sua essência ou forma;
c) concede as formas à inteligência em potência. O intelecto agente precisa
assim manifestar uma relação fundamental com Deus, o que transforma o sentido
original da “ciência do ser enquanto ser”, transpondo-a agora como teologia.
Pois como teologia deverá mesclar, ao monoteísmo em que se desenvolve, as
influências de Aristóteles, Platão e Plotino.
Em al-Farabi
completa-se o seguinte quadro do universo: teologia astral aristotélica, com
suas esferas concêntricas e a inteligência que rege cada esfera. Produção de
seres neoplatônica. Do Eterno ao temporal como do Uno ao múltiplo. Do ser
eterno, o Uno ou Deus, deriva-se o Intelecto.
Esse Intelecto
eterno, mas derivado ou possível, apresenta três modos de conhecimento: o
conhecimento de sua existência como possível ou de sua matéria. O de si mesmo
ou de sua forma (essência). E o conhecimento do Princípio, da fonte de sua
existência (Deus). Três modos de conhecimento que correspondem a três seres: o
conhecimento que possui de Deus como seu princípio permite ao Intelecto derivar
outro intelecto. De sua matéria nasce a matéria da primeira esfera (movimento
circular) e de sua forma nasce a alma motora dessa esfera.
Assim na processão a
cada intelecto corresponde uma esfera com sua alma, e cada intelecto produz um
intelecto subalterno com sua própria esfera e alma motora. A última esfera é a
da lua, e o intelecto que a domina é designado “intelecto agente” por ser o que
faz os intelectos do mundo sublunar, terrestre, tornarem-se operantes.
Al Farabi produz uma
teoria complexa da intelecção humana. O inteligível, isto é, a forma, está
misturada com a imagem que se atinge pelos sentidos, aí acompanhada das
particularidades individuais. A intelecção procede de modo que, pouco a pouco,
dos dados dos sentidos se desdobra o senso comum e deste a imaginação. O
inteligível se aproxima então da pureza de sua natureza formal cuja abstração é
a capacidade ou potência do intelecto no seu grau mais inferior, o intelecto
potencial. O intelecto em ato é a realização dessa capacidade.
Há em seguida o
intelecto adquirido que de modo intuitivo apreende as formas na unidade do
Princípio. Finalmente vem o intelecto mais superior ou ativo, que é o da lua,
possibilitando a atividade de todos os outros sob sua influência.
Esse esquema de al
Farabi é aceito por Avicena que torna mais complexa a teoria do conhecimento.
Inicialmente há minuciosa descrição do processo de conhecimento das idéias
abstratas que corresponde ao intelecto em ato. Esse percebe atualmente as
formas inteligíveis que o intelecto material ou possível percebe em potência.
Mas o intelecto em ato não se confunde com o intelecto “disposto ou preparado”,
próximo do ato, correspondendo ao conhecimento dos primeiros princípios e
axiomas, nem com o intelecto “emanado ou infuso” que corresponde ao
conhecimento por revelação, como o conhecimento do futuro.
Bréhier mostra como o
funcionamento do intelecto em ato é descrito em suas várias operações por
Avicena. Alain de Libera localiza essa descrição como uma teoria das faculdades
da alma.
Há assim inicialmente
a sensação ou senso comum que recebe a forma misturada aos acidentes através
dos sentidos. A seguir há a fantasia, vis formans (als-musanwwira) ou
imaginatio (khayal), que integra a forma no tempo e lugar em que existe,
retendo-a singularmente. A faculdade cogitativa, imaginativa ou coletiva, é a
vis imaginativa (mutakkayyila) nos vivos animados em geral e vis cogitans
(mufakkira) no ser humano, servindo para compor e dissociar as imagens
conservadas na imaginatio. Surge assim a vis aestimativa (wahmiyya), ou opinião,
que apreende as intenções “não sentidas” que residem nos sensíveis singulares,
isto é, as que são percebidas não imediatamente pelos sentidos exteriores. O
exemplo típico de “intenção” é a periculosidade do lobo captada pela ovelha. Na
alma racional ocorre ainda, sob a influência do intelecto agente, descoberta
das formas abstratas, operações lógicas e reflexivas, conforme Bréhier, a vis
memorialis (hafiza) ou reminiscibilis (dhakir) que retem as intenções captadas
pela estimativa, conforme Alain de Libera.
É interesante
observar que essas operações são concebidas como atividades corporalmente
localizadas, conforme a “doutrina celular” de Qusta b. Luqa, reportada por A.
de Libera, que prevê para cada “célula ou “concavidade” do cérebro a associação
de uma função específica. O senso comum tem lugar na concavidade anterior, a
imaginação na extremidade da concavidade anterior, a imaginativa na concavidade
mediana onde se situa o vermis cerebeloso, a estimativa no cume da concavidade
mediana e a memorial na concavidade posterior.
Subsiste porém, de
modo aparentemente paradoxal, em Avicena, a tendência a postular o conhecimento
tanto mais perfeito quanto menos dependente do corpo. Os sonhos proféticos são
assim explicados em sua validade pela inclinação do intelecto agente sobre a
imaginação enquanto que o conhecimento intelectual das essências não é possível
por si mas apenas concluída dos próprios – conforme Aristóreles, o próprio é
aquilo que não se constitui como definição, por exemplo o ser racional do homem,
sendo contudo peculiar a ele, por exemplo, a capacidade de rir ou de estudar
gramática.
Quanto a isso é
legítimo não somente recordar a convergência de neoplatonismo e aristotelismo,
manifesta por exemplo na hierarquização dos intelectos e esferas, mas também a
influência do sufismo iraniano quanto à caracterização do conhecimento anímico.
O que há em comum
nessas teorias do conhecimento de al Farabi e Avicena é, inicialmente, que
ambos supõem Deus como pura inteligência que, conhecendo sua essência, conhece
todas as coisas. Propõem também a emanação e a processão pelas quais derivam-se
os intelectos, almas motoras e matérias das esferas que se movimentam
uniformemente imitando o intelecto de que derivam. Finalmente postula-se a
esfera da lua como intelecto agente que produz o conhecimento nos intelectos
sob sua influência e concede às coisas sua forma ou essência.
É importante observar
que a relação substancial de matéria e forma está assim sendo proposta como
concessão a partir de um “datur formarum” – inteligência “superior e exterior”
à natureza, como ensina Bréhier. Ora, é sob esse ponto que incide a crítica de
Averróis, já agora no século XII.
O ser natural que
Aristóteles soube tão bem pensar em sua unidade substancial é proposto nessas
interpretações neoplatonizantes a partir da dualidade mais irredutível. Forma e
matéria são pressupostos, conforme o peripatetismo original, sob a relação
ordenadora do devir com o conhecimento abstrativo, não como modos irredutíveis
de ser. Assim Averróis restabelece a teoria aristotélica mais autêntica ao
propor que a forma só se introduz na matéria por alguma forma já existindo
materialmente: o homem engendra o homem, conforme a teoria da geração unívoca.
Mas é a teoria
aristotélica que se constituiu na consistência grega da imanência que se torna,
como vimos, incompatível com os pressupostos do monoteísmo. Assim, o problema
que Bréhier enuncia como aquele que se impôs aos filósofos árabes: como
conciliar essa metafísica da multiplicidade que abrange os princípios de que se
deriva tanto a teologia astral quanto a física, com o princípio único
professado pela religião?
E aquele, que a
recepção ampliada dos textos aristotélicos impõe ao Ocidente: defrontar-se com
essa teologia que, ao invés de “explicar” a física dela distinguindo-se por
princípio como radical exterioridade, nela justamente se prolonga. Com efeito,
o estudo do motor imóvel é intimamente relacionado ao dos corpos móveis de
maneira que o próprio estudo da alma, como forma do corpo organizado, no peripatetismo,
integra a física, não a teologia.
Al Farabi e Avicena
propõem como solução a necessidade enquanto atribuição intrínseca ao ser
supremo. Isso ressoará ainda em Spinoza. Só Deus é causa sui, causa de si, isto
é, não causado por nenhuma outra causa, mas derivando seu ser apenas de sua
própria necessidade. Al Farabi e Avicena enunciam então que Deus é o “ser
necessário”.
Tudo mais pressupõe
uma existência apenas possível dependendo do ser necessário para que a
possibilidade se efetive como realidade. É ´ a célebre tese da neutralidade da
essência, isto é, à essência é indiferente a atribuição da existência que pode
apenas lhe ser extrinsecamente acrescentada pelo ser necesário. Conhece-se a
repercussão dessa tese, via Ettienne Gilson, no pensamento ocidental: Deus será
concebido como existência pura, sendo que sua esência é existir.
A distinção entre
essência (res) e existência (ens), que se origina com al-Farabi será
introduzida na escolástica latina por Guilherme de Auvergne, a partir da
oposição entre o quod est e o quo est. O quod est, enquanto essência ou aquilo
que a coisa é, conceitua-se como potência. O quo est, enquanto aquilo em que a
coisa é, sua existência enquanto aquilo que é, conceitua-se como ato. A
essência é potencial à existência enquanto atual.
Essa tese
característica da Escolástica, desenvolvendo-se como aristotélica, na verdade
não pertence ao peripatetismo grego original em que, conforme Abbagnano,
equaciona-se-se o ser ou existência com o ato e o ato com a forma. Na tese
Escolástica a forma, essência ou substância são potenciais. Forma e matéria são
potência em relação à existência que é ato. Pode-se assim, antes de desenvolver
a ambiência propriamente ocidental da filosofia à época de São Tomás, precisar
a importância do momento oriental em que se postula de modo pioneiro essa tese.
Nasce aí aquilo que Heidegger designará “teiologia” definindo-se como “entre-implicação”
de ontologia e teologia, conforme a expressão de A. de Libera.
Vimos como o projeto
metafísico aristotélico não se confunde com a filosofia primeira ou teologia.
Essa é a tese de Aubenque, parecendo-me a mais correta. O que ocorre na
assimilação monoteísta do peripatetismo resulta na teiologia como
impossibilidade dessa mesma tese.
A metafísica é
considerada como filosofia primeira, e isso até mesmo por Averróis, não
obstante seu desacordo fundamental com Avicena a propósito do objeto da
metafísica. Avicena pretende que esse objeto é o ser enquanto ser (ens
inquantum ens), mas cabendo-lhe também provar a existência de Deus. Averróis
sustenta, inversamente, que a existência do motor imóvel, Deus, deverá caber à
física demonstrar.
Mas se Averróis
reserva assim à metafísica apenas o estudo da substância, em grego Ousia, esta
deve limitar-se como substância imóvel, isto é, o objeto da ousiologia se
subsume às substâncias “absolutamente separadas do movimento e da matéria
conforme o ser e a definição”, de acordo com o Guia do Estudante Parisiense,
citado por de Libera. Adota-se assim implicitamente a tese averroísta da ousiologia
como teologia da substância imóvel, já afirmada por al Farabi.
A relação da
filosofia aristotélica com a teiologia é assim complexa. Não há originalmente,
a meu ver, na metafísica genuína de Aristóeles, a postulação do objeto efetivo
como sendo o “verdadeiro ser” ou o “ente supremo”. Mas somente com a introdução
do peripatetismo se ultrapasa a teologia puramente platônica de modo a postular
uma ousiologia que engloba o estudo do ser enquanto ser.
É assim que há agora
espaço para uma controvérsia como a que opõe Avicena e Averróis quanto á
dualidade ou à unidade substancial dos seres naturais, enquanto que o
platonismo propõe unicamente a dualidade radical de matéria e forma. Mas não me
parece haver dúvida de que a teiologia se articula como leitura da filosofia
aristotélica no âmbito da transposição de planos, desde a consistência grega
àquela que se caracteriza na filosofia do mundo feudal.
Nessa leitura se pode
mesmo constatar o afastamento da doutrina original, assim como recuperada,
quanto a isso, por Aubenque, de modo bem claro na Summa Thelogiae de Alberto
Magno. Sustenta-se aí que o objeto próprio da metafísica é aquele da telogia
enquanto é o “objeto segundo” precisamente o ser, com suas “partes” e “paixões”:
uno e múltiplo, potência e ato, possível e necessário. Comparando com a tese de
Aubenque pode-se mostrar que há assim inversão real de perspectivas.
Mas com Alberto
Magno, mestre de São Tomás, já se está em plena ambiência do aristotelismo
latino, que por sua amplitude e complexidade deveremos estudar mais
detidamente. Quanto ao pensamento judeu, destaca-se inicialmente Avicebron, que
se torna, à época de São Tomás, uma das fontes mais importantes do
neoplatonismo.
Preocupando-se com a
relação de matéria e forma, sustenta ele a emanação das coisas em relação à
origem de modo que quanto mais afastadas dessa origem mais as coisas se tornam
dispersas, e quanto mais próximas, mais unidas. A forma universal, o mais alto
nível da realidade, contém todas as formas unidas. A realidade sensível as contém
separadas. A inteligência, entre esses níveis extremos, une as formas, mas
considerando-as singularmente.
A cada nível da
realidade corresponde uma espécie de matéria. Quanto mais perfeita a matéria,
tanto mais superior o nível de realidade a que pertence, sendo o critério a
proximidade da fonte. A hierarquia ascende assim das substâncias corporais à
matéria das substâncias espirituais ou almas, destas às substâncias simples ou
inteligências e finalmente à matéria universal a que corresponde a forma unviversal.
Enquanto as formas
estão conjuntas na inteligência por uma união espiritual essencial, a união que
agrega a forma à matéria corporal permanece contingente, conforme a perspectiva
intrínseca ao neopolatonismo que, como assinala Bréhier, não considera a
inteligência como na dependência da realidade material mas a localiza entre o
Uno e o múltiplo.
Isaac Israeli e
Maimônides são também pensadores importantes do período. A Isaac Israeli se
deve a famosa definição de verdade como adequação das coisas e do intelecto:
adaequatio rei et intelectus. Maimônides sustenta a tese da essência potencial
em relação à existência atual, mas modulando-a de modo que a existência se
torna acidental por relação à essência. Maimônides propõe também o acordo de fé
e razão de modo que a autonomia da filosofia não a exime de confirmar as
verdades da fé. Essa proposição se torna bastante aproximada desse acordo
universal que designa a orientação da igreja no Ocidente, como vimos, nessa
época.
Na verdade ela embasa
a unidade espiritual que marca o apogeu da Escolástica, mais como clichê
derivado da orientação da igreja do que efetividade do estado de coisas que se
mostra bastante complexo devido ao crescendo de influxos não convergentes que
envolvem desde a defasagem de cristianismo e pensamento genuinamente grego ao
fortalecimento da tese da autonomia do poder temporal.
Pode-se ver nesses
itens uma continuidade. A razão humana se encontra cada vez mais
conceitualmente instrumentalizada de modo a poder vir a basear uma nova imagem
do pensamento, na qual sua autonomia nãomais poderá ser contestada. Segue-se
que essa autonomia deverá estender-se como autocompreensão humana mesma,
impossibilitando as dominações de tipo teocrático do feudalismo. Com efeito, já
no século XIV, razão e fé estarão completamente separadas. É´ a trajetória do
teocentrismo ao humanismo, ou desenvolvimento do aristotelismo latino, que
ensejará a compreensão dessa nova era – o Renascimento.
IX – São Tomás:
escolástica e ocidentalização
Em vários aspectos
penso que se pode afirmar que a filosofia de São Tomás opera como ponto de
fusão na transformação do momento cristão ao moderno da ocidentalização.
Assinalo assim que há transformação conceitual no tomismo, pela qual certas
noções fundamentais podem ser apresentadas de modo que já embasam o
Renascimento enquanto que a irredutibilidade daquilo que não o poderia informar
se torna patente, progressivamente devendo derivar seu sentido relacionando-o
às transformações em causa.
O problema da relação
entre fé e razão já se propõe aí em outros termos, como se sintetizasse o
sentido novo dessas noções – revelação, razão – em que a filosofia
posteriormente deverá estabelecer o plano de sua elaboração.
Aparentemente a
posição tomista está na retaguarda relativamente, por exemplo, aos averroístas
que, como Siger de Brabant, opositor de São Tomás na Universidade de Paris,
sustentam a a independência ou autonomia de fé e razão que efetivamente
caracterizará o Renascimento. São Tomás propõe que a teologia controla os erros
dos filósofos naquilo em que a filosofia possa afirmar de impossível à
viabilidade do projeto teológico.
Aceita porém que as
verdades relativas a cada campo não são as mesmas. Assim restabelece-se,
novamente de modo aparente, a repartição de tarefas que tanto favorece a
inclinação do dogma eclesiástico.
À razão cabe “sistematizar
as verdades naturais”, conforme a expressão de Sciacca, e prover a defesa da
teologia enquanto que a fé completa com a revelação esse objetivo. Torna-se
patente assim o caráter ancilar da filosofia em relação à teologia.
Mas o que se está
entendendo agora por Teologia? Etienne Gilson propõe a questão no início de “A
Existência em São Tomás”. Ora, assim como se desenvolve aí, a questão se
encaminha para a afirmação tomista de uma identidade de objeto entre filosofia
e teologia. Esse objeto é a origem de toda ou qualquer verdade. Se a metafísica
é a busca dos primeiros princípios e se a verdade pertinente ao princípio é a
fonte de toda verdade, a teologia coincide com a filosofia nisso pelo que ambas
tem por objeto conhecer a Deus – já que “as coisas têm na verdade a mesma ordem
que têm no ser”, conforme a expressão de Gilson.
Enquanto Santo
Agostinho, o Doutor da Graça, propunha que o conhecimento natural é dependente
da revelação, São Tomás, o Doutor Angélico, o afirma independente em seu
domínio. Contudo esse domínio jamais atinge aquele mais excelso que é o das
verdades da fé. O “revelatum” é aquilo que essencialmente só pode ser conhecido
por esse meio, a revelação. A razão por si mesma não o descobre.
Mas ocorre que aquilo
que a razão descobre, se verdadeiro, por mais humilde que seja o seu âmbito de
ação, conforme observa Bréhier, não pode deixar de atingir plenamente o ser.
Portanto há algum campo comum entre o revelado e o racionalmente conquistado.
Isso que há em comum, constituindo-se como filosofia, integra a teologia.
Quanto ao que na teologia é supra-racional, transcendendo a razão, pode também
ser esclarecido pela razão.
Assim São Tomás
justifica a fundação de uma Ordem Religiosa dedicada aos estudos. A verdadeira
finalidade desses estudos sendo a compreensão da Sagrada Escritura. A teologia
muda de sentido. Fazer teologia até esse ponto podia ser definido como partir
de uma verdade revelada como premissa para dela chegar a alguma conclusão. Com
São Tomás fazer teologia é “fazer conhecer melhor o sentido da verdade revelada”,
conforme Gilson. É´ portanto utilizar todos os “reveláveis” ou elementos
passíveis de integrar o conhecimento teológico.
A teologia assim
concebida pode ser pensada ao modo de uma super-razão. Pois o “revelatum” do
conteúdo do cristianismo, se pensado como algo mais que razão, isto é, como
autoridade das Sagradas Escrituras, não pode deixar, por sua vez, de ser
defensável pela razão. E como vimos, trata-se sempre do mesmo objeto enquanto
fonte da verdade.
Sciacca observa ainda
que a afirmação tomista da suficiência da razão em seu domínio é algo
característico do Renascimento. Mas penso ser importante notar que o que ocorre
assim seria menos a antecipação de uma noção do que a transformação de certos
termos axiais. A teologia como ciência que engloba a filosofia e todas as
outras ciências como suas partes supõe a transição do momento cristão da
ocidentalização naquilo em que se articula a transposição da noção mesma de
revelado.
Pois inicialmente a
Revelação cristã compunha-se como transposição poética do originário, em
relação ao trabalho do conceito tal como vinha se desenvolvendo na Grécia. E
isso pode ser observado pela comparação entre o pensamento retórico e a imagem
racional do pensamento em vias de se desenvolver nas filosofias aristotélica e
platônica.
A crítica sofista “iluminista”
do mito não acarretava a contraposição ao caráter auto-poiético do discurso,
enquanto consensualidade provisória na via de uma legitimação por paralogia, no
sentido de Lyotard. Enquanto que a utilização platônica e explícita do mito
buscava na realidade balizar um tipo de certeza que se poderia associar ao
desempenho, racionalidade destacada ou oposta ao devir como realidade imutável
do conceito – a forma, idéia ou essência, nisso vindo a relançar formalmente a
imagem dogmática de toda doxa ao invés de estar efetivamente se colocando como
conhecimento acima das fllutuações da opinião.
Assim pudemos estabelecer
certos paralelos do cristianismo, na ambiência do cristianismo primitivo, com a
retórica hermenêutica e aquilo que havia sido negligenciado na formação
racionalista do conceito. Isso foi possível através do elemento da revelação
enquanto acesso a uma compreensão de mundo que, como vimos anteriormente, se
instala desde o início no âmbito da palavra. Mas o que se seguiu foi a
utilização dessa mesma formação no âmbito de uma dogmática que operava aquela
transposição decalcando o poético revelado, enquanto conteúdo mítico das
Escrituras, da forma conceitual – sendo isso o nascimento da teo-logia.
O problema de razão e
fé subsistiu enquanto esteve subjacente à insolubilidade dessa tentativa, visto
que o poético qua poético, isto é, o dado mítico da revelação, nunca poderá de
fato ser cem por cento transposto conceitualmente, subsistindo apenas como
conteúdo da fé. No entanto o problema se resolve no momento em que se encontra
no objeto último daquele dado mítico o mesmo objeto de toda investigação racional
no seu sentido metafísico.
Ora, isso só se torna
possível ao precisar-se o sentido da metafísica como a “ciência do ser enquanto
ser” aristotélica. Porque a fonte da verdade, de toda ou qualquer verdade,
sendo o originário, é Deus ou o Ser,conforme São Tomás, mas Ser com o sentido
de Existir.
Com efeito, enquanto
o ser foi proposto no sentido platônico e neoplatônico, na base de uma
identificação com a essência ou forma, essa transposição racional do poético
não se possibilitou. Cabe agora compreender o que está em jogo nesse sentido de
Deus como existência pura.
Em Avicena o conceito
do “ser necessário” engendra uma relação com o possível na qual se joga,
conforme o estudo de Ernst Bloch, o destino da matéria. Mas se estabelece assim
o aporte numa base mais ampla do que a do conceito, isto é, a da modalidade. O
possível é tão “por si” quanto a forma. Contudo, se a lógica da modalidade
resgata assim a eternidade da matéria primeira concebida como potência ou
possibilidade totalmente destituída de forma, a metafísica da substância
utiliza a noção de matéria segunda como já informada: matéria universal efetiva
na concretude do existente.
Essa matéria segunda
exibe então uma preformação a que o ato com que Deus a carrega de realidade
efetiva vem como que motivar. Por si mesma a pré-informação da matéria segunda
dispõe o que vem a ser como substância deste ou daquele ente. A disposição
material é a referência a uma determinada forma. A forma é a “verdade ígnea” ou
“fogo imanente” da matéria.
Averróis aprofunda a
concepção liberada de matéria que se encontra em Aristóteles, na imanência da “natura
naturans”, natureza naturante, correspondendo à matéria concebida
originariamente como contendo todas as formas. O movimento celeste, circular,
portanto também fundamentalmente material, atua como elemento que faz a forma
substancializar-se, individualizando-se como os entes da “natura naturata”.
Esse naturalismo
materialista avant-garde em relação ao Renascimento – Alliez assinala a
convergência do pensamento de Duns Scottus atuando já no século XIV com Avicena
e Ernst Bloch mostra que essa valorização da matéria deverá prosseguir em
Giordano Bruno – não poderia ser professado no âmbito de uma doutrina cuja
intenção permanece sendo a afirmação da transcendência conforme a leitura de
Aristóteles com base no texto das Escrituras.
É preciso então
constatar os nódulos que constituem a inflexão do texto bíblico sobre a
doutrina aristotélica de modo a ver que é nesses mesmos lugares que se processa
a ruptura do tomismo em relação à “filosofia oriental”, como também ao assim
designado averroísmo latino de Siger de Brabant.
Gilson analisa
extensamente a singularidade do tomismo assinalada já em relação à leitura de
Santo Agostinho aplicada ao trecho do Êxodo em que Deus responde a Moisés: “EU
SOU aquele que sou”. O De Civitate Dei agostiniano traduz: “Ó Deus, ó Senhor
nosso, qual é o vosso nome? Meu nome é É.” “Quem É enviou-me a vós”.
Santo Agostinho
interpreta esse trecho identificando o ser com a substância no sentido da
essência. Assim, conforme ele, “essentia” vem de “esse”, ser. A esência é o que
é, o ser, uma vez que é aquilo que permanece, subtraindo-se ao devir. O “Eu sou”
do texto bíblico significa: permaneço, sou eternamente aquilo que não muda.
Gilson localiza o
avanço tomista, em relação a essa interpretação de Santo Agostinho, no Contra
Gentiles, como se o salto se verificasse entre os capítulos 21, que ainda está
na linha da esência, e o 22, em que se estabelece algo mais que a essência,
isto é, a entidade, o fato de ser, concebido como existência atual. Deus é puro
ato de ser, sua essência é o seu ser ou o seu estar eternamente sendo. Deus é
identificado com o ato “sem o qual nenhuma essência existe”.
O ato de ser que é o
Deus do tomismo não se conceitua como a necessidade conforme a doutrina de
Avicena. Tampouco o ser se acrescenta acidentalmente à esência, conforme a
conclusão que Maimônides vai deduzir da filosofia greco-árabe. A tese de São
Tomás é enunciada do seguinte modo por Gilson: “Deus é o ente cuja essência é o
seu próprio ato de ser. Todos os entes, com exceção de Deus, têm a sua essência
distinta de sua existência. O efeito primordial da essência é restringir o ato
de ser às dimensões determinadas pela definição daquilo que a essência é”.
A essência é concebida
assim como limitação do ser, finitude, o ser algo, “aliquid”, restringindo o
puramente ser. Deus é absolutamente simples, não composto de essência e matéria
mas essência pura, ato puro, ato existencial sem limitação uma vez que sua
simplicidade também significa que à sua essência não vem se compor a existência
mas ser aquele que é implica que em Deus o ato de ser é aquilo que a essência é
nos outros entes.
Avicena havia
afirmado que Deus não tem essência justamente para dar conta dessa simplicidade
de Deus enquanto puramente existente. Mas São Tomás conserva o vocabulário da
essência pois não ter essência equivale a não ser pensável. Identificar a
essência de Deus com o ato existencial resolve o problema de pôr a essência sem
a limitação que ela exige. Mas a essa limitação reserva-se o importante papel,
do lado das essências finitas, de esclarecer o modo pelo qual a existência vai
se compor com elas.
Se Deus é
absolutamente simples, a atualidade existencial das essências exige que sejam
compostas. Com exceção de Deus, todo ente se compõe do quod est e do quo est,
daquilo que ele é enquanto essência ou quididade e do seu ato de ser pelo qual
existe.O ato de ser é a perfeição dos entes. Se a alma é a forma do corpo no
ser humano o ato de ser é ato e perfeição da alma. Como glosa Gilson, é melhor
ser o Ser do que ser algo mas é melhor ser algo do que nada ser.
Esse ato corresponde
à participação do ente no ato de ser supremo de Deus. A essência será
justamente aquilo que diferencia o participante do participado, logo aquilo que
dá conta da imperfeição dos indivíduos que não são Deus. Ser é o ato de todos
os atos. A essência constitui assim uma espécie de valor negativo. Mas se o ato
de ser está em comum, de algum modo, entre Deus e os demais entes, nasce aí a
noção de analogia do ser.
O valor negativo da
diferença é o que embasa a afirmação de que o ser é análogo. Deus é, todo outro
ente é, são duas afirmações referentes ao ser. Formalmente parecem estar
dizendo o mesmo, mas na verdade, conforme São Tomás, a atribuição de ser aos
entes e ao supremo ente é feita somente na base da semelhança, por analogia.
Essa utilização da
relação analógica não se declina ao modo daquilo que os escolásticos designavam
como analogia de atribuição, isto é, o significado diverso que um termo pode
assumir conforme a sua atribuição a este ou àquele ser. Assim, conforme
Abbagnano, a analogia de atribuição é aquela que consigna por exemplo a
referência de um mesmo termo a Deus e às outras criaturas.
Mas o conceito que
está em jogo especialmente quanto à significação do ser, em Deus e nos outros
entes, é designada como analogia de proporcionalidade. Deus e os outros entes
não são no mesmo sentido, realmente. Em deus o ser é a essência, nos entes
finitos é o elemento que se compõe com a essência. Deus é o seu ser, os entes
têm ser. A definição dos entes finitos será: uma essência dotada de um ato de
ser.
Como observa
Aubenque, secundado nisso por Abbagnano, Aristóteles mesmo ignora a analogia do
ser. Não se pode derivar essa noção tomista, que no entanto lhe é atribuída,
desenvolvida no âmbito da relação entre criador e criaturas, como já implícita
na relação do um e do múltiplo, do ser e das categorias. A solução tomista
analógica não recobre na verdade a questão da homonímia do ser no projeto
ontológico aristotélico. Contudo essa atribuição tem sido muitas vezes afirmada
desde São Tomás, inclusive por intérpretes contemporâneos.
Parece-me contudo que
a posição de Aubenque é correta quanto a isso mas não no sentido de que tenha
permanecido somente “uma questão”. Não creio que a ontologia aristotélica seja
assimilável unicamente a título de projeto, mas penso que se constitui de modo
eficaz como ciência do ser plenamente estabilizada.
Mas por ora,
retornando à doutrina de São Tomás, sempre se está considerando o ser no
sentido de existência atual. A originalidade da tese tomista é enorme se
comparada à noções mais correntes como a que identifica o ser, no composto
substancial de forma e matéria, com a forma ou essência. Não que o ser seria o
abstrato como ente de razão, mas a realidade da essência na atualidade da
existência. Ou como a tese da “essência real”, de Suarez, que consiste em
reduzir a existência à substância, uma vez que ser, é ser uma coisa, tese que
Gilson identifica enquanto contraposta ao tomismo original se bem que o próprio
Suarez a tenha apresentado como sendo genuinamente tomista.
O objeto da
metafísica tomista não repousa na forma ou na substância, isto é, em todo caso
no quid enquanto aquilo que se diferencia como ente finito e singular, mas no
ser. Se fosse circunscrita à forma, como se poderia implementar a síntese
teológico-metafísica efetivada por Tomás?
Mas que é agora o
ser? Pode-se avançar a resposta afirmando que ser ou “Esse” é o ato. É o
princípio cuja existência se conhece pelo efeito que causa. As operações que os
entes efetivam são efeitos do ato pertinente a suas formas, como tudo o que o
ser humano faz é devido à sua alma. Mas a forma não explica a existência. O ato
de ser não se concebe, em São Tomás, por simples contraposição à potência, mas
sim pela identidade ao ser.
Ato e potência são
condições dos entes. Mas ato existencial é ser, existência atual. Nesse sentido
nada mais oposto ao pensamento de São Tomás quanto considera-lo acidental à
forma. O que São Tomás propõe é que à substância, composta de forma e matéria,
é amalgamada estruturalmente a existência atual, sendo este ato de ser possuído
como perfeição, isto é, como a realidade do seu poder ser. Nesse sentido ao
invés de casualmente acrescentado, o ser é causalmente constitutivo de tudo
aquilo que é.
Isso não significa
que o mundo apresente o caráter de necessidade, derivando-se de Deus.
Inversamente, São Tomás está nos antípodas de Leibniz como também afasta-se da
posição de Avicena.Com efeito, a contingência do ser criado surge com Avicena
de certo modo coerentemente justificada, assim não tão contingente, a partir da
relação modal. O que é possível em si é necessário com relação a outrem. Deus é
ser necessário, mas tanto que não poderia agir de modo diverso do que faz.
Leibniz pretenderá interrogar sobre a razão suficiente do mundo: porque há o
ser, não antes o nada? E conhece-se a doutrina do melhor dos mundos.
São Tomás responderia
que Deus criou o mundo, mas não há causa pela qual deveria te-lo feito. E
sempre poderia te-lo feito melhor. Mas compreendendo-se o que Deus é,
identificando sua natureza com o ato de ser, basta que se tenha desse ato a
noção adequada para que se penetre o sentido mesmo da criação. Ora, a natureza
do ato é agir. Criar é produzir o ser das coisas, causar a existência atual.
Participar, comunicar o ser, é próprio do agir de Deus. Todo ser criado
participa do ser. Mas só Deus é “o” ser. Ser criado é ter recebido o ser. As
substâncias ou entes finito recebem o ser de Deus por si mesmas. Já aquilo que
as compõem, a forma e a matéria, são apenas concriadas juntamente com elas.
Mas para sustentar o
criacionismo São Tomás faz intervir uma modulação na teoria aristotélica das
causas. Sabe-se que entre as quatro causas, em Aristóteles, há a motriz, como
aquela que é apta a engendrar o movimento. Mas o movimento é sempre algo que só
se compreende como tendência ao seu objetivo, seu “telos”. O movimento tem uma
finalidade. Assim a teoria aristotélica pôde assimilar Deus ao motor imóvel.
Não há finalidade aí causada por algo alheio mas, inversamente, tudo tende para
Deus. Em compensação o modo como Deus faz a potência vir ao ato, em
Aristóteles, é físico. O motor mais exterior põe em ato o movimento circular
que convém à matéria celeste.
Se São Tomás
identifica os entes como aquilo que recebe a existência, ele não utiliza a
definição complementar a essa, a saber, a de Deus como puro ato existencial, ao
modo de uma prova ontológica da existência do ser supremo. Quanto a isso São Tomás
conserva a orientação de Alberto Magno. Bréhier e Bloch mostram assim que ao
tipo de argumento ontológico de Santo Anselmo que identificava o ens
perfectissimum ao ens realissimun, isto é, Deus perfeito a Deus existente,
Alberto Magno contrapõe que a razão só pode proceder dos efeitos às causas, não
o inverso.
A prova só pode ser
cosmológica, consistindo em remontar do fato de que o mundo existe à dedução de
alguma causa dessa existência. São Tomás considera igualmente a demonstração “propter
quid” – da causa ao efeito – inacessível à mente humana que só pode operar as
demonstrações “quia”, partindo dos efeitos. Assim São Tomás desenvolve as
famosas cinco vias de prova, derivando-as de princípios aristotélicos:
necessidade do motor imóvel, necessidade de uma causa eficiente primeira,
evidência do ser necessário a partir dos seres possíveis, posição do verdadeiro
absoluto como ser absoluto, exigência de que o mundo tenha governo.
Como observa Bréhier,
a segunda via utiliza uma noção de causa eficiente não de todo idêntica à noção
aristotélica original de causa motriz. Quanto a isso Gilson mostra que em são
Tomás somente Deus pode causar a existência atual enquanto que por exemplo o
artesão só pode criar algo a partir tanto do fato dele mesmo ter sido já criado
quanto da existência prévia da matéria que ele fará “ser” deste ou daquele
modo.
Na doutrina
aristotélica estrita só se lida com essa noção de causa eficiente, isto é, ao
modo do artesão. Na doutrina tomista a “causa eficiente” é na verdade “causa criadora”,
que Aristóteles não deveria jamais propor já que sua concepção de universo
compreende a eternidade sem criação ex nihilo.
Essa modulação da
causa eficiente já se havia formulado em Avicena. Gilson a identifica com a
causalidade transitiva – algo que não se assemelha a outra coisa mas que no
entanto é causa dessa outra coisa – que na modernidade virá a ser objeto, com
David Hume, de uma crítica efetivamente demolidora. A utilização que São Tomás
implementa dessa noção nova, nesse contexto, de causalidade, é de modo a
faze-la intervir na teoria do ser de modo a alterar profundamente a consequência
que dela se deriva na doutrina de Avicena.
Assim ao invés de uma
lógica da modalidade, opondo necessário e possível, a causa que conduz ao ser
permite pensar o ser como aquilo “que há de mais íntimo nas coisas”, conforme o
texto da Summa Theologica, isto é, o “princípio formal” em relação a tudo o que
há na coisa. Resta que se afirma assim a onipresença de Deus – por seu Esse –
em todas as suas criaturas. Logo, conforme Gilson, “Eu Sou” é o ser do qual se
deve esperar o ato de criação.
Ser é causar ser. E
Deus se conhece a si mesmo como participável por seres criados, a
multiplicidade de suas idéias correspondendo à infinidade de possibilidades dos
modos finitos ou essências. Cada essência espelha Deus como comunicável em um
dos seus modos de participação. Todo ente finito é passível de definição,
expresando assim ao mesmo tempo sua participação em Deus, como idéia, e sua
limitação existencial.
E isso ainda mais
porque a individualização faz intervir uma noção de matéria que não se confunde
com a composição geral de forma e corpo enquanto característica da espécie. O
que vai designar a pluralidade dos indivíduos no interior da espécie é uma
matéria não específica mas “signata”, isto é, considerada sob dimensões
determinadas. A matéria signata assinala assim a imperfeição ou o modo de
deficiência individualizante pelo qual recebe a forma. Em todo caso trata-se do
valor negativo da diferença, uma diminuição da atualidade do ser, conforme
Bréhier.
Mas a
inteligibilidade mesma da essência é proporcional a essa limitação, a
quantificação do ser ou seu grau de perfeição relativa. O ser infinito não
seria inteligível para nós precisamente por não ser definível ou restringido em
sua essência. Eis porque a metafísica é sempre como aquilo que força a pensar,
de modo algum a espécie de conhecimento como a que tem por objeto os entes
finitos em que o pensamento se desenvolve como que por um exercício natural e
se encontra tão à vontade.
Ora, a essência,
longe de ser neutra, exibe aptidão ao ser. Surpreendentemente, o universo
criado é de certo modo eterno mesmo em São Tomás, pois Deus o criou desde a
eternidade. Nesse ponto a doutrina tomista é bastante sutil contrapondo-se por
exemplo à tese de Siger de Brabant que apóia o averroísmo sustentando a
eternidade do mundo como antitética ao criacionismo. São Tomás pretende,
inversamente, fazer convergir eternidade e criação.
Argumenta assim que
nada tende para o nada, mas tudo tende a ser. A matéria mesma permanece
indestrutível como sujeito de geração e corrupção. O mundo criado por Deus é o
mesmo mundo natural que tem por objeto a ciência. Conforme o Eclesiastes “as
obras que Deus fez continuam para sempre”.
Contudo, se as formas
materiais têm como única função atualizar a matéria, no caso do ser humano o
ser é o ato da alma e só através desse ato anímico vem a ser o ato do corpo.
Forma absoluta, independente da matéria, a alma é “substância intelectual”.
Anima o corpo mas também conhece, estando apta a realizar operações puramente
espirituais pelas quais não materializa em si o objeto que conhece mas dele
assimila a espécie puramente inteligível. À espécie expressa, como definição da
coisa enquanto termo da operação intelectiva, corresponde assim à espécie
impressa pela qual o intelecto compreende a coisa.
Se Aristóteles afirma
a incorruptivilidade das substâncias espirituais, São Tomás estende assim essa
atribuição à alma humana. É por isso que o tomismo se contrapõe às interpretações
do intelecto agente como comum e separado, constantes tanto do peripatetismo
árabe quanto no averroísmo latino de Siger de Brabant. Afirma, inversamente, a
unidade do intelecto.
O que permanece afim
ao peripatetismo oriental é a operaçãointelectual descrita como abstração da
forma a partir das imagens que se elaboram por sobre os dados dos sentidos. Mas
a partir daí o peripatetismo latino de São Tomás vai afirmar sua originalidade
reduzindo a dois os intelectos necessários à operação. O agente é o que extrai
as formas das imagens, o possível ou passivo é o que recebe essas formas
abstratas. Assim ambos pertencem à alma. O ser humano é, desde agora, sujeito
de conhecimento.
X – O (novo) lugar do
Rei
Com São Tomás já se
pode afirmar, como vimos, efetivamente o sujeito de conhecimento. Mas
também se poderia grafar: sujeito de conhecimento.Com efeito, basta que
se acentuem certas posições tomistas, mais especialmente, aquelas que se
anunciaram como verdadeiras rupturas em relação à ambientação platônico-agostiniana
que afinal configurava a dogmática eclesiástica desde a patrística, para se ver
surgir a tonalidade de pensamento realmente nova que se estabelece em
continuidade, desde essa época, com o século XIV e o Renascimento.
Afirma Bréhier,
contra a atribuição de agostinismo ainda aceita por Sciacca, a irredutibilidade
do pensamento de Duns Scott, seja ao tomismo, seja a Santo Agostinho. É
interessante notar que em apoio a essa tese Bréhier cita as proposições
características das correntes agostinianas que Scott critica. Mas ao
enumera-las Bréhier condensa justamente os pontos controvertidos enfrentados
pelo tomismo a partir do agostinismo.
A teoria do
conhecimento aristotélico-tomista se opõe à via da iluminação de Santo
Agostinho. Contudo o tomismo inova também por sustentar o intelecto agente não
separado, em relação aos demais intérpretes do aristotelismo. Ora, é a
acentuação radical desse sujeito de conhecimento em Duns Scott que vai conceder
ao intelecto possível a autonomia do ato mesmo de compreender, enquanto o
intelecto agente permanece apenas como capacidade abstrativa que distingue a
forma específica da imagem sensível.
A compreensão se
relaciona ao objeto fornecido pela abstração do sensível mas tem papel autônomo
em relação a essa abstração. Resta que o sujeito se commpreende assim como
fonte do processo intelectivo cujo produto tem sua validez assegurada tanto
porque o sujeito apreende a evidência dos princípios quanto porque se pode
obter a certeza seja pela via da experiência, seja pela via interior do
conhecimento dos fatos da consciência.
Mas esse sujeito
autônomo de conhecimento é ele mesmo concebido como algo mais compreensível em
si do que por sua mera pertença aos princípios que regem a formalização da
espécie. Pode-se pensar que nisso o escottismo se inclina no sentido
agostiniano uma vez que este, para defender o destino sobrenatural da alma,
deve conceitua-la como indivíduo perante Deus, negando assim a tese tomista da
individuação apenas pela matéria.
Vimos que, quanto a
isso, o cristianismo avançava sobre as concepções demasiadamente formais da
alma na filosofia grega. Mas por isso mesmo seria algo contraditório esperar
que a doutrina tomista da individuação comportasse uma tal limitação. Assim é
também sustentado pelo tomismo, como vimos, a tese da alma como substância
espiritual incorruptível.
Gilson mostra que
essa concepção estritamente cristã, vinculada à ressurreição, pôde ser
dogmaticamente sustentada a partir de uma modulação da concepção platônica de
alma. Mas com a introdução do peripatetismo na ambiência do monoteísmo, o
problema de inserir a noção de alma como forma do corpo tornou-se central e
constituiu o mais agudo ponto de controvérsia da crítica agostiniana ao
tomismo.
Avicena havia
resolvido o problema pelo modo de considerar. Em si a alma é substância, em
relação ao corpo é forma. São Tomás elabora uma resposta que dota a alma humana
de uma particularidade inigualável até aí. A alma como substância espiritual é “substância
intelectual”, mas composta de forma e ato de ser. A própria forma é potencial
em relação ao ato pelo qual a alma é. Assim, como vimos, a forma que a alma
humana é não se confunde demodo algum com a forma dos outros seres ou coisas.
Se no restante dos
entes o ser da forma é o todo do ser, a alma humana apresenta algo mais que
forma, possuindo ela mesma o ato de ser que a constitui substancialmente. O
corpo é sujeito de sua alma já que nela encontra-se essência mais existência. A
alma intelectual, no universo de São Tomás, é como que a fronteira entre as
coisas incorpóreas, como os anjos, e as corpóreas.
É a teoria da unidade
do intelecto humano. Enquanto apoiada na dualidade de agente e possível, a
operação do conhecimento está ainda na materialidade ou no domínio empírico,
dependendo dos sentidos. Mas a alma, em São Tomás, é pensada ao modo de
inteligência, unidade intelectiva, de modo que as faculdades de nutrição e
locomoção, por exemplo, não se acrescentam como tantas almas ou formas
distintas mas são reportadas ao inteligível como possibilidade de sua atuação.
Essa teoria encontra severa crítica a partir da postulação do agostinismo,
sustentada, por exemplo por São Boaventura, da pluralidade de formas.
Ora, como mostra
Gilson, o problema a partir daí não será o de provar a incorruptibilidade da
alma que se deriva por si a partir de que pode ser concebida como “substância
intelectual”. Já esta deveria ser a função da espécie inteligível. A alma,
sujeito de conhecimento, torna-se aquilo que ela conhece, mas não se transforma
no sentido material. O caráter imaterial do ato de pensar é garantido nisso
pelo que a alma “sabe” a multiplicidade de coisas que apreende mas não se torna
materialmente essas mesmas coisas. E enquanto as outras formas apenas atualizam
a matéria, a alma conhece.
Portanto a preocupação
de Duns Scott em assegurar uma doutrina do ser humano abarcando algo mais do
que apenas “a forma do corpo” é mais propriamente cristã e coerente com sua
época do que propriamente agostiniana ou tomista. Contudo ela se estende no
sentido de pensar o ser humano como algo mais do que simples diferenciação
numérica, material, da espécie.
Pode-se observar que
em São Tomás essa teoria da individuação se completa, por assim expressar, com
a teoria da alma como substância espiritual dotada com seu próprio ato de ser.
Já se está na esfera do sujeito autônomo enquanto que a tendência agostiniana
de São Boaventura, por exemplo, acentua o papel passivo da matéria que compõe
toda criatura.
Propõe-se também em
São Boaventura, como vimos, a pluralidade de formas – a luz, por exemplo, que
se acrescenta ao composto substancial para torna-lo ativo, ao invés da
completude apenas formal– material da substância que ao agostinismo parecia
demasiadamente independente de Deus e do dogma.
Nesse caso o algo
mais que a alma deve ser no plano da criação comporta na verdade um algo menos
por relação ao criador. A natureza mesma deve apresentar essa limitação pois
contra a “edução das formas” da matéria por um ser já em ato, conforme o
peripatetismo, afirma-se a teoria das razões seminais pelas quais o ser em
potência contém já as formas que a influência do ser em ato vem apenas tornar
manifestas.
E se São Boaventura
pode ainda conservar a interpretação tomista da intelecção, reservando ao
intelecto agente apenas a capacidade abstrativa, termina por afirmar que essa
capacidade é apenas favorecida pelo agente e realmente efetivada pelo possível
mas afirmando concomitantemente que a luz natural que há em nós permite
postular um conhecimento todo “intuitivo” que não depende do elemento sensível
mas sim de Deus, conforme a teoria da iluminação.
Quanto à novidade do
escotismo, consiste em considerar essa alma do tomismo que é intelecto autônomo
como algo ainda mais autônomo do que simplesmente intelecto. Observe-se que a
relação entre fé e razão deve inicialmente liberar, em Duns Scott, a razão da
tarefa de comprovar aquilo que é afirmado pela fé. Criação, atributos divinos,
imortalidade ou sequer existência da alma, tudo isso é agora tão somente artigo
de fé. A autonomia da razão em seu domínio, que no tomismo se afirmava para
depois fazer associar à fé, parece mais uma vez radicalizada como independência
de um exercício filosófico doravante desvinculado da teologia.
O que se dá a pensar
no escotismo efetivamente é o sujeito, este ser humano aqui, não a alma ou o
ser humano como exemplar indistinto de uma espécie. Terá esse novo dado a
pensar algo a ver com a crescente fragmentação da unidade da igreja, da
autoridade papal, a par do desenvolvimento de novas formas centralizadas de
poder temporal?
Estar-se-ia
reservando desde já o novo lugar do rei que será o moderno Estado – nação,
prefigurado pelas alianças entre príncipes e doutores de universidades a que
Carpeaux reporta a origem do termo “nação” ? Ao invés de uma coincidência
fortuita com o termo que se usava nas faculdades medievais para designar cada
especialidade a cursar, a nação estatal nasce efetivamente da sustentação
ideológica fornecida a essas novas lideranças pelos intelectuais que aí se
profissionalizam, enquanto que o poder espiritual conta com a autoridade
eclesiástica.
Assim em Duns Scott a
unidade do intelecto não separado se torna postulável do sujeito mas não o
define enquanto alma apenas como faculdade de conhecer. A unidade do sujeito se
volta ao princípio essencial mesmo, não dependendo do ato existencial, é
verdade, mas inversamente a reconstituir-se o idealismo da essência separada
que só permiote pensar o indivíduo por sua deficiência no sentido da queda –
metempsicose ou simplesmente o ser criatura – o que se pretende é assegurar-lhe
tanto de cognoscibilidade quanto possui a forma mesma.
Isto é, propõe-se que
há forma, matéria e sujeito individual, três realidades postuláveis em si
mesmas. O indivíduo não se constitui como composto de matéria e forma, um tipo
de resultado, mas como algo irredutível a tudo mais, existente e pensável de
modo que se pode afirmar a “socratidade” independente da existência atual de
Sócrates. A essa unidade do individual, que se propõe com Duns Scott,
designa-se “haeceidade”.
Já a matéria, nem
comportando as razões seminais do agostinismo como princípio interno de
aspiração à forma nem existindo apenas na potencialidade da forma que a
atualiza, como no tomismo, é afirmada no escotismo como atual em si mesma.
Esse sujeito eterno,
que se afirma como “haeceidade” no escotismo, é sujeito de vontade e só de modo
derivado vem a ser de conhecimento. “Espécie especialíssima”, é a contração da
essência nesse ente aqui. Trata-se do voluntarismo, a tese escotista pela qual,
inversamente ao princípio tomista pelo qual a vontade obedece ao que o
intelecto aprova, é a vontade que comanda, orientando o entendimento a este ou
àquele objeto.
A vontade é causa
livre da volição, quer o que quer porque quer, independente do princípio
intelectivo. Assim acentua-se também a tese tomista da liberdade em Deus, isto
é, aquela afirmação da não necessidade da criação. Á questão de porque deus
criou o mundo, Duns Scott responde, conforme Gilson: Deus, que é amor, ama sua
perfeição a ponto de querer que haja seres que também a amem, desejando assim
criar o mundo. Seu querer é criar e se omundo é racional assim Deus o quis, ao
invés de se afirmar que Deus quis este mundo porque este é o mundo racional.
Tanto quanto se pode
ver que há causalidade livre em Deus, do mesmo modo que nas criaturas,
desfaz-se também o fundamento analógico afirmando-se inversamente a univocidade
do ser que se reporta agora igualmente a Deus e às criaturas.
O que se observa é
que o ao sujeito estendeu-se a exigência do pensar, não mais como detentor de
um papel na economia da criação, nem mesmo como atuando um processo intelectivo
mas como realidade autônoma que deve propor as suas próprias questões. Vemos
assim desenvolver-se aí a concepção do amor que se relaciona também, de certo
modo, à valorização platônica que nessa época se opõe ao ideal de conhecimento
puro do tomismo afirmando que o amor é mais importante do que o conhecimento
intelectual.
Contudo, enquanto a
argumentação do platonismo agostiniano se orienta no sentido de postular o amor
como união com Deus, no sentido da fé, a convergência desse novo lugar do
sujeito dado a pensar do escotismo tem mais a ver com esse “sentimento novo”
que Carpeaux registra desde “o trecento”, e que é desconhecido até então.
Reunindo numa mesma mística de “élan vital” paixão erótica, ideal espiritual e pensamento filosófico, esse sentimento de amor é aquele que inspira o romance cortês no cenário dos gêneros nascentes nessa época: a lírica pessoal, a pastoral e o conto. Examinando-os observa-se que esses gêneros correspondem a formas autênticas de expressão subjetiva. Como enfatiza a expressão de Bréhier, o amor se torna agora o “motor da vida superior”.
Ilustrações:
Fachada da Catedral de Chartres (Séc. XII)
Portais ocidentais da Catedral de Chartres (1145 – 70)
Jean Fouquet – Miniatura (1425 – 80), Contrução do Templo de Jerusalém.
A imagem representa de fato a construção de uma igreja gótica. Com frequência os habitantes das cidades participavam pessoalmente das obras, pois havia intensa competição interurbana pelo feito de erigir a abóbada o mais alto possível.
O Belo Deus de Amiens (1225) – detalhe
O Belo Deus de Amiens (1225)





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