quarta-feira, 30 de outubro de 2024

O Devir das Ciências Humanas

O Devir das Ciências Humanas

Escrito entre Janeiro de 2006 e outubro de 2008

 

Eliane Marques Colchete de Morais


Ao pensamento de Epicuro, de quem Timon falava nos seguintes termos, conforme Laércio:

“Último dos físicos, o mais porco e o mais cão, vindo de Samos, mestre-escola, o mais ignorante dos seres vivos”. 



Conteúdo:

 

 

Introdução : Esboçando a problemática 1

 

Núcleo I : Mito / Racionalidade – O Mito no singular e o Logos Anterior

Livro I :

1) O Esquema Linear 4

2) O Esquema Intempestivo ou A Irrupção do Logos 10

3) Os Esquemas Regressivos

a) Heidegger e o Pensamento Matinal dos Gregos

I – do Histórico ao Historial 15

II – a Re – Apreensão das Palavras guia 18

III – Pensamento Pré – Socrático 19

IV – A Sentença de Anaximandro 22

V – A Tese da Mutação 26

b) Sagan e os Grandes cientistas da Antiguidade 29

4) O Des – Agravo da Sofística ou Introdução ao Humanismo

I – do Historial ao Internal (ou ainda: a questão do acesso

como acesso à questão) 32

II – A Formação da Grécia 36

III – Presentação da Aretê

Introdução 45

A Aretê Heróica 48

A Aretê Moral 52

A Aretê Patriótica 58

A Aretê e o Logos

a) transformação do Nomos 62

b) as aporias do homo – escritura 66

c) “educado no ethos da lei” : A Aretê Política 72

IV – O Logos Pharmakon

Introdução: 74

I – A razão de Teofrasto e a palavrização do mundo 76

II – Imagens da Sofística 93

III – O Século V ac. 99

IV – O Paradoxo Clássico 102

VII – O Exercício da Sofística 109

VIII – Introdução ao Pensamento Retórico 123

IX – Pensamento e Linguagem 132

X – A Transição ao Helenismo 142

 

 

5 – Ilustrações 151

A Metacrítica do Relato

a) Transformação da epistemologia 157

b) A Espistemologia Não – Platônica 160

c) Transições epistemológicas – da fundação do platonismo

à nova imagem do pensamento 172

d) Sofística e filosofia 173

e) O projeto epistemológico aristotélico 176

 

 

Livro II –

Introdução

I– 182

II – 188

I – Causalidade e Temporalidade 192

II – Temporalidade e Temporalização 199

III – Paganismo, Filosofia e Cristianismo 209

IV – Plotino e a fenomenologia da temporalização 217

V – Santo Agostinho: cristianismo e ocidentalização 224

VI – Introdução ao Humanismo 233

VII – A Época de Pierre Abelardo 237

VIII – Aristóteles e a teiologia escolástica 247

IX – São Tomás: escolástica e ocidentalização 256

X – O (novo) lugar do Rei 264

– Ilustrações 270

 

Livro III

I – Renascimento – a existência e o paradoxo 275

II – A fissura constitutiva 283

III – A função hermenêutica 289

IV – Balanceando o paradoxo 295

V – Foucault : Arqueologia e Genealogia 303

VI – A loucura e a refutação do ceticismo 307

VII – Moralidade e Política 214

VIII – Ibn Khaldun – A história e as ciências humanas 320

IX – Ciência, Ideologia e Ocidentalização 228

X – Renascimento e Filosofia 333

– Ilustrações 342

 

NúcleoII : Ideologia / Racionalidade

Livro IV

I – Natureza e Subjetividade 349

II – O Barroco e o Classicismo: o continuun 356

III – A Representação e a ordem 366

a) Descartes e Locke 371

b) Cartesianismo e modernidade 380

c) A Idade da Razão

·  A Epistemê 387

·  Epistémê Clássica 396

História Natural 403

Análise das Riquezas 405

Gramática Geral 407

·  A Ética – Antes e Depois do Saber 417

·  Arqueologia e Nomadologia 430

A transição manufatureira 440

O Mundo Barroco 453

A Sociedade de Exclusão 470

Tempos Modernos 485

 

d) Leibniz e Spinoza

 

·  Leibniz e a História do Ser 503

·  A Monadologia 510

·  Liberdade e pensamento Humano 517

·  Spinoza e o pensamento ético 526

·  Pensamento humano e Pensamento ético (Spinoza e a modernidade) 531

·  A Teoria do Ser – A redação da Ética 537

– A Revolução da Ética 542

– Imanência e Expressão

I) As sequências 546

II) O Plano 557

·  A Teoria dos Entes – Introdução 568

– Do Infinito ao Finito 573

– Estrutura, Causalidade e Finitude 578

– Amor intellectualis Dei

: Deus ou Natureza 590

: O estado de natureza 594

: Noções comuns 601

: Visão das Essências 609

 

1.                      A Teoria do Conhecimento

– O Método 615

– Por uma epistemologia política: 623

e) A Teoria Política

1.                      Introdução 631

2.                      Os Estados de Natureza

– Hobbes e Locke 637

– Montesquieu e Rousseau 644

– Ferguson e Paine 659

1.                      Os Sentimentos da Natureza

– Rococó, Classicismo e Pré-Romantismo 664

– Contraponto e Progressão 667

– O Universal, o Todo e o Geral 674

– da natureza, do espírito e da moral

1– 678

2– 695

3– 714

– de literatura, história, historiografia, psicologia e sociedade

1 – 736

2 – 745

3– 758

4– 782

5 – 792

1.                      Berkeley-Hume e Kant-Fichte-Scheling-Hegel

– Introdução 809

– Berkeley e Hume 812

– Hume e Kant 840

– Kant e Fichte 978

– Fichte e Schelling 989

– Schelling e Hegel 1028

: Fenomenologia 1044

: Epistemologia 1051

: Sociedade 1072

: Espiritualidade 1115

: Subjetividade 1130

Ilustrações 1155

 

Livro V

I.........

Os dois modelos

O ambiente industrial

As Eras e as Espécies

As Epistemologias

O Teatro de Geoffroy Saint-Hilaire

Saint-Hilaire, Darwin e a Teoria da Estratificação

O Paradoxo da Epistemologia

Os Saberes do Humano: Heidegger, Foucault, Deleuze-Guattari

Espiritualismo, Psicologia e Psiquiatria: Mille Plateaux e A História da Loucura

A Loucura e a História

Comte e a Sociologia

Um Novo Papel Social

Estratificação e Sociedade: o relato da transformação

Comte, Tocqueville e Marx

Carrol e Melville

O Direito e A Soberania

A Representação do Tempo

Economia política: o espaço social da produção

O Impulso Industrial

Liberando a Produção

Entre a Providência e a Utopia

Myrdal e a Ciência Econômica Social

Althusser e a Ciência Materialista Estrutural

Foucault e a Economia Empírica

O que é a Modernidade?

O Fenômeno da Consciência

A Revolução dos Costumes

Espiritualismo e Positivismo

Do Senso Comum à Lógica das Ciências

A Lógica da Humanidade

O pivô da Economia política

 

 

II...........

 

Realismo e Ciências do Humano

Psicologia Científica?

A Feliz Ciência

Os valores nobres

Os gregos

Os Relatos da História

I –

II –

Continuação dos Gregos

O Registro Oriental

O Registro Judeu-Cristão

O Registro Moderno

Nietzche e as Ciências do Humano

O Eterno Retorno

O Jogo Ideal

I –

II –

Da Moralidade à Eternidade 1510

A Missão Civilizadora 1529

A Missão Cívica

I – 1545

II – 1552

Tendências Epistemológicas

I – 1568

II – 1583

III – 1588

Realizando o Ocidente

A Sociologia e o American Way of Life

I –

II –

O enfoque pragmático

A revolução pragmática

Peirce e James

Dewey e Mead

I –

II –

III –

IV –

V –

a – O Apogeu Funcional – Sociológico

b – Parsons e o Sistema Social

c – Funcionalismo e Mudança Social

 

Estrutura e Subjetividade

I –

A transformação das Nebulosas

II –

III –

IV –

 

 

Watson e Skinner

a)

As Leis do Aprender

b)

limites da psicologia “estímulo – resposta”

o comportamento operante

comportamento e cultura: a tecnologia operante

critério e teoria : a crítica do mentalismo

c) Sistema operante: o cenário da mudança

Reformulando o Aprender

Revolucionando o Aprender

Um behaviorismo Cognitivo

Os caminhos do behaviorismo

Mathêsis Contemporânea

Consciência e Intencionalidade 1839

A contribuição fenomenológica

A objeção epistemológica

O universal a-fundamento

1928 – Sobre a Essência do Fundamento 1865

I – 1866

II – 1888

III – 1877

IV) A tríplice conjunção do Fundar

V)

A corrente fenomenológica

A interposição psicanalítica

As Sexualidades

O desejo e a civilização

Fenomenologia e Psicanálise

dos Espelhos e dos Elefantes

I –

II –...uma palavra emerge...

III –

 

Os Sentimentos de Mundo

I

II

III

IV

V

O Existencialismo nos EUA

Psicologia Humanista

A Convergência Ampla

O novo espaço metafísico

Estruturas Cognitivas

I –

II –

III –

IV –

O período sensório-motor

O período da representação pré-operatória

O período das operações concretas

O período das operações formais

As Imagens da Ciência

I – A Epistemologia em Rede e a Redescoberta

II – Piaget e os problemas epistemológicos clássicos

a)

b)

Pensamento e Percepção

Percepção, Estrutura e Subjetividade

a)

b)

Suplemento :o mito, o saber, a ideologia

c)

obs: consequencias para a filosofia

O Excesso da Linguagem

“A exigência do sistema interno”

(...)

(...)

 

 

A Espécie e as Origens

I)

II)

dobra I : o fundo, a superfície, a altura

– dobra 2 : constituição de singularidade

– dobra 3 : as linhas e o plano

dobra 4 – Postulados da Pragmática

dobra 5 – do Caos ao Cérebro

Observação: o pensamento humano é grego ?

 

Adendo ao Estruturalismo

 

a)

b)

 

 


Livro I

Introdução: esboçando a problemática


Refletindo sobre a natureza da História das Ciências verificamos que tanto podemos nos deparar com uma rapsódia de fatos e informações, de que não se encontra ausente uma intenção de desenvolvimento, quanto com uma apreciação teórica especifica antepondo-se como clarificação qualitativa e operando ao modo de uma progressão ou gênese. Em outros termos, ora predomina o aspecto descritivo, ora o texto apresenta, ou pretende apresentar, uma real capacidade explicativa.

Ainda que se possa com segurança apontar lá uma historiografia, aqui uma epistemologia, seria arriscado pressupor que não ocorre, em ambos os casos, a apresentação de uma certa imagem do saber científico, uma concepção de, e um compromisso com, aquilo que significa pensar – num sentido propriamente epistêmico, que se traduz por uma visão do que ocorre como transição, como “progresso” de uma teoria a outra, ou seja, como atividade de construção desse saber.

Não obstante o quanto essa visão permaneceu apenas implícita, ela não deixa de se manifestar de algum modo. Na vertente historiográfica, trabalhos de divulgação biográfica tendem a apresentar perspectivas individualistas em que tudo é descrito pelo viés do gênio de autores isolados. Outros pretendem mostrar a conexão entre o impulso criativo isolado e a contribuição de predecessores, geralmente combinando esses fatores com as especificidades do presente do cientista. Há aqueles que tornam manifestos os seus pressupostos, como Brockmann (1), que inclui Gertrude Stein e Wittgenstein num enfileiramento significante sui generis para mostrar que há uma determinação da linguagem, talvez como um a priori, na interface com o objeto. Na vertente epistemológica a obviedade da citação de Bachelard, aqui, deve ser desculpada pelo caráter não menos constante de sua obrigatoriedade.

Contudo, há uma certa onipresença da epistemologia uma vez que, desde Kant, a consideração da ratio cognoscendi tornou-se tão fundamental quanto a da ratio essendi. Não basta que se designe algo como uma realidade a partir de uma definição que dê conta de sua necessidade essencial de ser mas é preciso também evidenciar o elo necessário pelo qual disto temos nós o conhecimento.

A esse nexo de realidade e conhecimento, implícito em toda reflexão sobre o real, poderíamos bem designar “necessidade epistemológica” e estabelecer o grau de auto-compreensão revelado por qualquer discurso teórico a partir da variação menor ou maior com que tal necessidade se expressa, isto é, o grau decrescente de sua condição de estar apenas implícita, ainda que, conforme proponho, jamais ausente.

Aquilo pelo que me interesso especificamente é algo que se situa numa espécie de confluência de descrição e explicação tendo por objeto as ciências humanas. Ocorre assim de início um cruzamento de conceitos que parecem se entrechocar: “explicação” e “ciências humanas” não parecem um par consequente desde que “compreensão” surgiu para reclamar os seus direitos.

Mas o que pode ser de utilidade quanto a isso é lembrar que precisamente esta oposição se apresenta como uma margem de leitura pressuposta, já uma visão específica da história, já uma concepção epistemológica bem demarcada numa região de construção conceitual – “precisamente” aquilo que desejo evitar mas não subestimar.

Para expressar bem a intenção que anima esta pesquisa seria oportuna a intervenção de Gagey na explanação da constituição da psicologia, que teria se desenvolvido “assimilando e acomodando os modelos científicos que lhe propuseram as outras disciplinas”, “cada estágio do pensamento científico engendrando um ramo correspondente, uma especificação correlativa ao projeto psicológico” (3).

Estender esta idéia à evolução das ciências humanas no cenário do saber como um todo não equivale a reduzir o projeto das humanidades – ao das ciências da natureza, por exemplo – mas sim a considerá-lo a partir de nódulos temáticos como feixes de questões que se impõem no cenário pontual do seu desenvolvimento.

Estes nódulos seriam capazes, então, de abranger os rumos que as mais variadas tendências elegem, definindo orientações mais gerais que terminaram por configurar o recorte atual do saber cientifico nas três áreas de exatas, humanas e biológicas.

Um destes feixes de questões oferece a leitura de Kant. A famosa “Revolução” da filosofia não me parece tão determinante da centralidade da problemática kantiana quanto a sua determinação de um domínio prático, a fundamentação da causalidade livre, de uma ordem causal puramente humana e independente de toda causalidade natural.

Sabe-se que o filósofo que estabeleceu como pólo de reflexão a história e as nascentes ciências do homem é Hegel, não Kant. Contudo, se a relação do pensamento hegeliano com Kant me parece tão fundamental é justamente a partir deste liame fornecido pela razão prática.

O quanto esta determinação kantiana se relaciona com a depuração progressiva de setores de indagação apartados dos troncos originais da física, da biologia, da filosofia, veio a constituir-se no foco de uma série de interrogações: de que forma se poderia estabelecer a relação entre separação de um domínio prático e constituição, ou sua pressuposição, de uma racionalidade científica especificamente humana? Até que ponto se pode traçar uma curva de dependência entre o desdobramento imediatamente posterior da área e a “fundamentação” filosófica do século XVIII e princípios do XIX, e até que ponto é preciso, inversamente, constatar a ruptura com o “conceito”, justamente no sentido do fundamento, em proveito da experiência como determinante desse desenvolvimento?

A partir deste nódulo questionante vemos que a avaliação do impacto de um tipo de oposição como a de “explicar” e “compreender” torna-se necessária como situamento dentro de um quadro maior, não se tratando de simplesmente associar tal oposição ao desenvolvimento dessa “nova” racionalidade. É preciso também compreendê-la, não apenas constatar sua emergência.

Podemos pensar essa racionalidade, se pudermos efetivamente mostrar que ela existe de um modo autônomo, como exclusivamente moderna e contemporânea ou há continuidade em relação a iniciativas antigas que, à época clássica, pretenderam, por exemplo, separar physis e nomos, ou já no helenismo, privilegiar uma “sabedoria” ao invés de um “saber”?

Se num certo sentido a peculiaridade da “ciência” enquanto tal torna-se evidentemente um fenômeno da modernidade, não parece porém assim tão manifesto no caso das humanas um enraizamento por si no experimental. E no entanto, seria bastante situar o seu surgimento, conforme Chatelet, apenas na resistência da filosofia mesma, definida como força ou exigência critica, manifestando-se pelo viés de sua própria fragmentação ante a mudança no regime do enunciado enquanto verdadeiro?

Ou será preciso retomar as advertências de Piaget, mostrando o quanto a filosofia teve o poder de recalcar o sentido propriamente humano dessa mudança, à medida que tentava impedir que o discurso se recambiasse no sentido preciso da experiência, que nesse caso traduzia-se, contudo, em fato e observação?

Sobretudo, como evoluiu a questão na imanência desse saber conforme foi se desenvolvendo no tempo o correlato de sua reflexão sobre si mesmo? Como se auto-compreende hoje?

Essas indagações se relacionam com o nódulo da razão prática mas como se vê, inbricam-se formando outros nódulos que, por exemplo, originando-se na tradição do humanismo conduzem a Vico e a Rousseau. Nesta via surgem novas imbricações polares: o problema da experiência e do conceito, do visível e do formalizavel, da empiria e da racionalidade. A apreensão de noções fundamentais como causalidade, explicação, validade, orientadas pelos problemas intrínsecos à ordenação desses novos campos de saber. A própria organização e o incessante movimento de fronteiras da área, suscitando questões ligadas tanto ao grau de sua dependência do meio em que surgem quanto à interdependência que manifestam.

Assim como Bachelard mostrou a gênese dos conceitos científicos enfocando a evolução da física, da química e da biologia como cenários fenomenotécnicos, esses nódulos questionantes surgem no panorama das ciências humanas sempre contracenando com pressões e solicitações técnicas e sociais – poderíamos dizer sociotécnicas? – que remodelam a concepção do seu próprio objeto possível.

De um modo geral, a convergência de todos estes traços findaram por sugerir um mapeamento amplo, diagramático, que poderei esboçar sem risco de quebrar a expectativa do viés narrativo, uma vez que logo se notará que os núcleos assim estabelecidos comportam um procedimento de preenchimento de lugares extremamente livre:

 

Mito / racionalidade → ser – alma – sujeito – subjetividade (eu; consciência)

Significação

 

 

Sistema (linguagem)

multidisciplinaridade

Ideologia / racionalidade

 

Notando que os termos iniciais e finais se desdobram, através de barras, como pares fundamentais que na verdade se relançam e se articulam relacionalmente conforme o aspecto sincrônico, constata-se a seguir que os termos intermediários se justapõem por traços, o que os caracteriza sob uma relação de diacronia. Assim, inicialmente, deveremos proceder a uma comparação entre os dois momentos de emergência do logos ocidental, o antigo e o moderno. A partir daí, centrando-nos nos termos em progressão, deveremos analisar os momentos constitutivos, tanto daquilo que precedeu quanto daquilo que plasmou o conjunto de práticas, discursos, pressupostos, problemas e aquisições, agrupado em regiões variadas conforme o critério regulado de dispersão dos saberes que resultou na articulação de campo de que as “ciências humanas” são as manifestações de frequência visível.

Mas, ainda que utilizando um tal mapeamento esquemático “operacional”, tudo deverá ser gradualmente construído, sem ser pressuposto, a partir do desenvolvimento intrínseco à área, seus ritmos, paradas, ímpetos e evoluções, de modo que muito deste trabalho consistirá em reunir e coligir textos que se complementam na tarefa geral de desenhar a progressão das disciplinas específicas, precipuamente psicologia, sociologia, história, antropologia, linguística e geografia, pois como afirmou Hypollite, se já não é mais possível haver epistemologia independente da história da ciência, esta deve ser “recorrente”, isto é, repensada, não a partir do ideal ou do fundamento, mas das ciências efetivas.

 

 

LIVRO I – Mito / Racionalidade

 

O Mito no singular e o Logos anterior :

 

1.                      O Esquema Linear

 

Vários temas e pressupostos confluem na caracterização da palavra misteriosa, ocultante, poética, evocadora, do mito frente ao discurso altissonante, seguro de si, claro e comprovado da verdade racional que – mais um pressuposto – se erigirá na comunidade de validação, o saber circulante, como “ciência”. As ambiguidades relativas a este termo não serão ainda exploradas por agora.

Enfocamos, ao invés, os aspectos pelos quais se pode afirmar que no cenário de origem a verdade racional se ergueu num contexto semântico de oposições que de modo algum se propuseram de um só golpe, ao modo do que poderíamos conceber, por exemplo, diante de um conjunto de objetos de uso de que teríamos por tarefa a nomeação esclarecedora e por si só diferenciante.

Situação forçada, poderia ser aqui anteposto. Pois como imaginar coisas de uso desprovidas de uma nomeação cuja prática ela mesma só pode ser pensada coextensivamente a esse mesmo uso, a esse estar “à mão” ?

Contudo, por um viés de percurso, podemos conceber essa nomeação original, essa situação adâmica. Todas as coisas, animais e plantas, já propostos, como uma série significada à espera de seu listamento significante. O quanto esse mitema tem de analisável também terá que aguardar sua confrontação.

Por ora o fato interessante é que com o termo “verdade racional” e a constelação de seus opostos não se pode de saída, por artificial que resultasse o procedimento e por estratégico que fosse ainda assim sua utilização, supor um tal desdobramento sincrônico termos-coisa.

O filósofo é um Mestre da Verdade, também, assim como o velho do mar, o rei sábio, o adivinho, o vidente e o poeta inspirado. Neste contexto o mito é grego, fala a linguagem da Alétheia, esse termo original que se traduz por “verdade”. Mas a polissemia envolvida se constrói progressivamente ainda que não se possa dizer que não ocorre também um eixo sincrônico antes do devir e da diacronia.

Repõe-se assim a observação de Vendryes. Há uma dupla etimologia, uma atomista e sincrônica, outra sintética e diacrônica que fixa o sentido no interior da língua em momentos estritos.

E não pode deixar de ser assim, o mito fala grego porque é o filósofo que impõe esse novo eixo de progressividade, quem introduz um novo critério de avaliação no interior do significado.

De início, o eixo polissêmico sincrônico de Alétheia, conforme ensina Detienne, oscila entre “revelação” e “realização”, desocultamento e cumprimento, assim como o arauto, ao enunciar o decreto, faz ao mesmo tempo noticiar uma decisão e confirmar o estabelecimento de uma ordem como consecução absolutamente necessária e inapelável de certo estado de coisas a se efetivar.

O Mestre da Verdade (todos os já enunciados sem que ainda tenha surgido o filósofo), aquele que é Alethés (verdadeiro), apseudés (sem erro) e nemertés (infalível), se apresenta como apto a manejar a palavra de um modo simetricamente oposto ao linguajar comum sujeito ao esquecimento (Léthe), ao erro ou enunciado falso (pseudés) ou a simplesmente a não se cumprir, como um engano (Ápate).

A tríplice oposição organizada em torno de Alétheia, como os maus termos léthe, pseudés, ápate, oferecem uma dupla perspectiva quanto ao domínio instaurado por esse núcleo bom.

A correta avaliação dessa constelação conceitual é assim de enorme importância por esses dois motivos: o central é que através dela podemos vislumbrar um procedimento circunscrito ao mito que inversamente ao que comumente se crê não se opõe apenas ao domínio do racional mas também, e de um modo muito intenso, ao religioso ocidental, cristão. E somente assim se pode alcançar com alguma precisão o que ocorre na transição para a filosofia.

Já o motivo interno à própria concepção em jogo é que Detienne nos mostra como aquilo que se esboça num primeiro lance como rede de oposições simétricas, fácil de penetrar por sua acomodação aos nossos próprios padrões cognitivos, na verdade se exerce como uma lógica singular de progressão, de modo que entre a Alétheia e o seu extremo oposto Ápate, não há senão um “glissando” ao invés de uma contradição já de início toda instituída.

A palavra, manifestação de Alétheia, conserva-se na ambiguidade pela qual o revelado se opõe ao esquecido mas o sono branco é o bom esquecimento que alivia todos os sofrimentos humanos. E se o Mestre é aquele que nunca diz o falso ou o que não se realiza, é também o que possui a eloquência de modo que o engano pode conservar um certo lugar estratégico na economia da persuasão.

Mas observando bem o limiar em que os termos se organizam na oposição vemos que no domínio grego arcaico que é o do mito nunca ocorre um confronto entre os núcleos “verdadeiro” e “improvável”, por exemplo. A demonstração, o fundamento pelo qual isto é ou será ou foi assim, não faz parte do campo semanticamente ordenado.

A verdade é instituída. A palavra tem o dom de realizar desde que aquele que a exerce tem a verdade como poder – não como saber, menos ainda como um saber que devesse ser constituído por uma prática contínua de apropriação.

Então, dessa confrontação sincrônica emerge um desdobramento, um salto na diacronia. O filósofo: mestre, mas de uma nova verdade. Detienne circunscreve a questão no sentido da “doxa”, interpretando este novo domínio da “opinião” como uma transposição laicizada de ápate. A opinião, a doxa, reduplica as antigas figuras da ambiguidade no domínio mítico de Alétheia (mulheres-abelha, musas, sereias), mas agora, no espaço leigo da Pólis, o poeta Simônides tipifica a palavra convencional, a “técnica verbal” que se manipula no sentido que se quiser sem relação com a justiça ou a verdade.

O correlato dessa ápate poética – a palavra usada apenas para seduzir ou prestigiar– é a doxa como opinião comum e mutável que conserva no entanto um papel decisivo na terminologia política onde se trata de votar como um ato de opinar, e de influenciar como um meio de prover a adesão, dominar ou governar.

O campo organizado de Alétheia frente a pseudés, ápate e Léthe se transmuta por um novo conjunto terminológico em que os termos que confrontam são agora doxa e ápate mas se Alétheia permanece como o termo confrontado sua circunscrição já não seria a mesma. Trata-se agora de uma verdade-a-se-provar, no meio das doxa rivais.

O procedimento é totalmente outro. Antes o ritual, agora a demonstração. Antes o procedimento ordálico do pré-jurídico, agora a argumentação do direito. Assim o ato da palavra, que era o exercício de uma autoridade, tornou-se o meio de uma confrontação, no tribunal, na ágora, ou no círculo dialético, em todo caso na esfera pública.

Os agentes também mudaram. Os executores da palavra-verdade da Grécia homérica arcaica não são apenas seres humanos. Entre estes e os deuses, que atuam sempre no domínio original da Alétheia, há isso em comum, utilizar convenientemente todos os termos em jogo. Mas aos deuses reserva-se tanto o não haver possibilidade de um revés na habilidade do exercício quanto de provê-la, em geral, àqueles dentre os homens que, à semelhança de Nereu, Tirésias, Anfiarau, costuma-se atribuí-la.

Já o domínio da doxa na Grécia clássica da Pólis, da cidade, a partir aproximadamente do século VI ac., se exerce exclusivamente pelos cidadãos, neste espaço de confrontação assim propriamente político.

Detienne, como Vernant, são exímios em repor a novidade desse espaço de confrontação que é a esfera pública da cidade laicizada. Quanto à caracterização do aspecto filosófico pelo qual se revestiu a busca de uma compreensão da natureza e da possibilidade daquilo que, ultrapassando as doxas individuais e mutáveis, se poderia justificar como verdade, Detienne observa o que ocorre em Parmênides e Vernant se detém nas concepções de Anaximandro.

Ambos os exemplos já se instauram no domínio de prática política sem correlação com a arcaica. Contudo, se um aspecto da epistemê antiga é sincronicamente articulada ao mito – como se pode constatar na démarche platônica e parcialmente naquilo em que se pode pensar a interdição do experimental – essa articulação se modula na diacronia de uma entrada no ontológico que só se pronuncia também progressivamente através de uma apropriação da Alétheia pelo Logos, na convergência das questões do Ser e da linguagem – conforme Appel, através da instituição de uma “metafísica da ordem” que só virá a se realizar plenamente em Aristóteles – a lógica embasada na relação de sujeito e predicado, como correspondência de uma ordem ontológica do ser-assim-do-ente.

Transcrevendo a fórmula de Detienne vemos que só há Alétheia, no sentido do pré-jurídico, com as musas, a Memória, a Justiça. Importa caracterizar a transição do meio. O de Alétheia é Peithó (persuasão) envolvendo ainda a força de adesão mística (Pístis, a fé). Contudo, Peithó evoca assim “o mundo úmido da geração”, a mulher, a palavra e todo o plano físico enquanto meios da “doçura branda do prazer”.

O meio do Logos porém será a argumentação dialética. Appel enfatiza a polissemia do termo. Logos é “discurso” ou “proposição” mas também “sentido”, “lei universal” e “razão das coisas”. Enquanto o estar-na-verdade do homem do mito é ter saído do plano de ápate e ter entrado no plano da Alétheia através do procedimento eficaz –dos deuses, do oráculo, do sábio ou do bom rei – como conjunto de meios que podem sempre equivaler a uma técnica de persuasão “iniciática”, o ser-verdade do homem do Logos implica em um conhecimento da lei natural que governa o processo em questão.

Como exemplifica Vernant, através de Anaximandro, para saber porque “os homens podem com toda segurança andar sobre o solo”, isto é, porque a terra não cai, não se necessita ter tido acesso a uma narrativa de iniciação ou à tradição que localiza o poder que a conserva assim. Basta “saber que todos os raios de um círculo são iguais”, segundo a hipótese geocêntrica. Independente de erro ou acerto o que está em questão é a mudança no regime do enunciado.

E como observa Detienne a propósito de Parmênides, se Alétheia permanece como ponto de convergência entre o “Sobre a Natureza” e os discursos dos poetas inspirados, a evolução do pensamento do filósofo se faz em torno desse “centro minúsculo” que é “Estí”, o verbo Ser, no sentido de uma caracterização cuidadosa daquilo que, separando-se da fluidez da linguagem, seu viés ambíguo e manipulável, pode vir a se constituir como “realidade” – uma tradução de “verdade” que não possui exatamente o mesmo sentido de “revelação”.

Detienne mostra que a estrutura do tratado de Parmênides possui ainda uma singularidade capital que o distingue exemplarmente do discurso das teogonias. Trata-se de todo o espaço reservado à caracterização da via oposta à da verdade, a via da opinião, da doxa, ou do erro. Algo que só pode ocorrer no âmbito da cidade onde a verdade submete-se ao confronto e analisar o discurso falso torna-se de suma importância na tarefa de distinguir o verdadeiro.

Ainda que recorrendo ao linguajar religioso das seitas, são os temas que se substituem no tratado de Parmênides: ao invés dos problemas da purificação e da salvação da alma, os problemas filosóficos do uno e do múltiplo, a reflexão sobre a linguagem, exigências lógicas.

Isso não deve ter sido até aqui suficiente para demarcar com um grau de visualidade bastante acurada esse domínio do arcaico, do pré-jurídico, da palavra-verdade, que se instituiu entre os séculos VIII e VI. Neste período as práticas rituais se relacionam aos mitos que recolhem a memória do passado pré-helênico, desde o império cretense, no terceiro milênio, abrangendo ainda a civilização micênica na idade do bronze, até a invasão dórica e a introdução da tecnologia do ferro (aproximadamente 1200 a.c.) com o subsequente interregno bárbaro.

Contudo, como nosso escopo prende-se à configuração do Logos antigo, no “renascimento” da civilização grega, agora já dentro do “universo espiritual da Polis”, devemos nos contentar, dessa leitura de Detienne e Vernant, com o delinear do esquema linear que vê entre os domínios de Alétheia e do Logos, uma transposição sem volta, caucionada pela decalagem entre o regime de uma verdade unitária e o espaço político de confrontação das doxas. O momento seria então mais de fazer emergir o regime novo da verdade nesse espaço recém-fundado que é o da Isonomia, da igualdade entre os cidadãos.


2) O Esquema Intempestivo ou A Irrupção do Logos

 

 

Uma curiosa circularidade revela-se no exame do discurso progressivamente entretecido tendo o nascimento da filosofia como tema. Isso se torna claro através da comparação do esquema linear Detienne-Vernant com o texto de Chatelet “O Exercício da Filosofia e o Projeto do Enunciado Integralmente Legitimado”.

Trata-se do fato da multiplicidade de origem como condição histórica da filosofia, como transição do reino de Alétheia ao domínio da Doxa, do arcaico ao clássico, da Grécia homérica à Grécia política, no esquema linear. Contudo, essa mesma multiplicidade que é a das doxas individuais e fragmentares, surgirá em Chatelet como o nó que apenas uma arte do Logos poderá desfazer.

A contraposição em causa, até aqui, pode ser equiparada àquela que se verifica entre as formulações de Cornford e Burnet acerca da filosofia em seu estágio nascente. Assim, Burnet é ainda o intérprete tradicional do “milagre grego” no sentido de que na Jônia o logos teria se separado brusca e irreversivelmente do mito, de modo que a filosofia, pensamento já inteiramente racional, constituiu o caminho à ciência.

Já Cornford nega completamente qualquer estatuto científico-racional à física Jônica, ao discurso cosmológico ou filosófico dos primeiros pensadores ocidentais. Para Cornford, em Homero o mundo era concebido como uma unidade partilhada pelos deuses conforme as atribuições de seu domínio (regiões inferiores, superiores e o mar). Essa concepção se relaciona com os temas míticos de soberania babilônicos: Zeus vence Tifão e Marduk vence Tiamat, respectivamente, e nos dois exemplos os vencedores instauram a ordem cósmica, personificada no domínio humano pelo rei, sobre o vencido caos, personificado pelas forças anárquicas.

Os desdobramentos míticos que conduzem a Hesíodo, na Grécia, “naturalizaram” os processos da organização do cosmos. Os nomes dos protagonistas o demonstram: o Caos original ou Vácuo abre a boca (jogo de palavras, Kaos – Kásma, caos – boca aberta ou goela), a luz aí penetra e ilumina o espaço entre a terra (Gaia, de onde nasce o mar, Pontos) e o Céu (Ouranos). Eros, o amor, aproxima e une os opostos, e assim por diante.

Esta versão subsequente do mito é a que modela a física Jônia. Cornford esboça ainda o seguinte esquema geral da física: a) um estado inicial de indistinção; b) a segregação de pares de opostos (quente e frio, úmido e seco) que se instituem nos domínios do céu (fogo, quente), do ar (frio), da terra (seco) e do mar (úmido); c) o estabelecimento de um ciclo em que cada um dos domínios prevalece. Assim os quatro humores na medicina de Hipócrates, a mútua expiação dos elementos que necessariamente se alternam, em Anaximandro.

O intuito de Cornford, que publicou seus trabalhos no início do século XX, era estabelecer uma continuidade histórica entre o pensamento mítico e o racional. Vernant, de quem utilizamos a exposição dessa contraposição entre Burnet e Cornford, precisa que o laço de continuidade proposta por este último se encontra bem estabelecido mas na atualidade o problema mudou de sentido.

Trata-se então não apenas de mostrar a existência dessa filiação mas “definir a mutação mental” que caracteriza o nascimento efetivo da filosofia, que se verifica paralelamente ao abandono progressivo das formas de governo monárquicas. Com o surgimento da Polis as antigas imagens míticas que corporificavam essas relações de poder, equalizando as funções da realeza e cósmica, foram se neutralizando, adotando formas mais impessoais até a “mutação” que transformou os fenômenos na sua forma de apreensão puramente humana.

Assim, ainda conforme Vernant, em Hesíodo, Caos, Terra, Céu, são realidades ambíguas, duplicadas, comportando o aspecto divino – forças cuja “ação” é análoga à dos seres humanos, e o aspecto físico – a concretude dos elementos naturais que efetivamente observamos. Já entre os pré-Socráticos a Physis, natureza, é concebida como unidade ou totalidade do ser. Os elementos conservam ainda uma designação abstrata mas sua concepção é unicamente a de forças que produzem um efeito físico determinado, como o movimento dos ventos, ou o calor do sol.

Reconduzindo agora à comparação do esquema linear de Vernant e Detienne com o de Chatelet, vemos que em todo caso pode-se afirmar que ao par antitético arcaico Alétheia – Ápate o novo cenário substitui o par clássico doxa – Logos. Dentro da concepção que designei como linear, trata-se de reconstituir a transição histórica que tem sido traçada a partir de duas linhas principais de progressão, ora a da desterritorialização cada vez maior em relação aos genos, de modo que a antiga divisão das pessoas por laços de parentesco foi sendo substituída pela estratificação social das classes economicamente constituídas, ora a das reformas sociais que culminaram na instituição, por Clístenes, no final do século VI a. c., da isonomia e da democracia em Atenas.

Neste cenário torna-se bastante coerente a introdução do novo personagem na história da verdade como sendo o filósofo pré-socrático. A Polis se situa na origem do pensamento racional, mas somente à medida em que se institui como espaço liberado da opinião e o nascimento da filosofia partilha mais geralmente do conjunto de transformações que afetam tanto a prática política quanto o regime do pensar doravante sujeito a se desenvolver neste meio de confrontação de hipóteses diversas e concorrentes.

Contudo, Chatelet não situa exatamente aí o nascimento da filosofia. Inversamente, equipara a diversidade das doxa à mentalidade mítica, o homem da doxa ao poeta inspirado, assim como Cornford, na medida em que, conforme Chatelet “a doxa é certeza que não sonha sequer em confrontar seu conteúdo com qualquer outra visão de mundo: se o homem da doxa fala é para dizer e não para discutir.”

Ora, Chatelet mostra a partir daí que a diversidade da doxa conduz ao mal radical pois seu limite, não podendo ser o discurso, finda por ser a violência. Se não se pode convencer pensa-se em suprimir. Ter sido suprimido ou exilado, ou o receio de o ser, eis o que faz calar toda doxa rival.

O diálogo, como gênero eminentemente filosófico, surge portanto substituindo o poema grandioso dogmático que caracterizava os pré-socráticos. O gênero espelha esse espaço de confrontação que se tornou o da Polis – sempre uma tese frente à sua antítese, seja a variedade de perspectivas conflitantes das camadas sociais diversas, ou os modelos antagônicos de Sparta e Atenas, ou as inúmeras hipóteses que se contrapõem nos mais variados campos de saber ou ainda entre um campo e outro, como no exemplo de Heráclito criticando a polimatia, a vasta cultura de saberes especializados, de Pitágoras.

Mas se Heráclito, assim procede, entre os pré-socráticos, que é que ele – positivamente – propõe? Ou, formulando de outro modo a pergunta, que é que pode caracterizar nessa esfera ainda aproximada à linguagem do mito, um discurso que não pertença nem a esses setores do saber que constituem a polimatia?

Precisamente, a enunciação de uma visão de mundo, do modo de ser das coisas, algo que não se confunde com a forma geométrica do universo, mas que designa algum aspecto mais fundamental da natureza, o devir de Heráclito, o ser de Parmênides. Contudo, se essas visões também se propõem nesse espaço de confrontação que as teria tornado viáveis, eis devido a quê Chatelet pode deplorar como um paradoxo apenas aparente a afirmação de que teria sido pela “própria confusão e por essa espécie de falsidade que caracterizam a situação helênica” clássica, que se engendrou o “milagre grego” e a “vontade de filosofia”. Nenhuma doxa pode aí impor-se como decisiva. O discurso degenera em mero procedimento retórico. Por fim, é violência que se exerce sob os modos da dialética.

Ao invés de uma entrada gradual no Logos, acompanhando as circunstâncias históricas, o que se verifica pela constatação no interior do discurso pré-socrático de uma conquista do pensamento que descobre, num crescendo, a sua própria autonomia, o testemunho dos diálogos socráticos são “um impressionante resumo dos malogros do pensamento grego”, justamente no seu apogeu clássico, o século V.

A entrada no Logos não seria assim gradual mas intempestiva, um pouco como em Burnet. Mas, inversamente a este, não se caracterizaria por um progresso e sim por uma parada: no meio de uma “situação insustentável”, a recusa das meia medidas oportunistas ou ingênuas, a denunciação das imposturas, na tentativa de encontrar e mostrar aos seres humanos a ação sensata. Conforme Chatelet, a filosofia só “nasce” com Sócrates.

A concepção filosófica do mundo não se instaura por uma visão de perspectiva do ser-assim mas por uma inserção voluntária do pensamento no âmbito da generalidade. Reunido o conjunto das opiniões, todas se anulam mutuamente.

O viés inaugural socrático não poderia porém ser considerado cético, ainda que aí o recurso à experiência também se anule, desta vez pela observação de que nela cada uma das doxa rivais saberia encontrar seu ponto de apoio, mas porque nele ocorre a exigência da certeza. É´ justamente o que se está contrapondo às opiniões, exatamente o que elas não podem fornecer. Ainda que possam enunciar “sem dúvida” um fato, não logram destituir as explicações que não se coadunam com aquela que, cada uma em particular, dele oferecem.

Se a ignorância universal foi a primeira afirmação da filosofia, a algo, porém, foi possível não se ter mesclado com o não-saber da ignorância (o não-saber que não sabe, que constitui o apanágio da ignorância real). Este algo que não se confunde com nenhuma doxa é o próprio meio em que cada uma delas surge.

O meio é o Logos, a linguagem. Contudo, a linguagem, se não cooptada pela paixão, ou pela vontade de domínio, não é algo destituído de uma ordem interna. Inversamente, a linguagem se orienta pelo conceito, se entretece no elemento mesmo do pensar filosófico, isto é, na generalidade. Não se trata de fundir as doxas todas numa somação, mas sim de nega-las todas numa subtração. O procedimento constrangedor da negação é o diálogo, o exercício do Logos que se constitui assim pela tríplice caracterização de palavra (declaração), discurso (argumentação) e razão (dialética, agora concebida não como simples hábito de refutação, por parte do interpelante, de uma tese sustentada por um respondente, mas sim como arte dos problemas e das questões de modo a fazer surgir a resposta conveniente).

Se o elemento no qual irrompe o Logos é a generalidade, aquele em que e pelo que ele evolui é o da legitimação.Á enunciação segue-se a justificação, a fundamentação. Ao inverso de um postulado, o conceito abrange o geral e pelo entrelaçamento necessário dos conceitos, não apenas coerente, a linguagem é assim dotada de uma aceitabilidade impossível de ser negada por qualquer ser racional. O Logos se constitui, finalmente, como o lugar da verdade que – só agora – se pode afirmar racional.

O caráter necessário da verdade é correlato, portanto, ao seu ser Logos, razão. Se o real fosse apenas o devir mutável e inconstante, o caos ou o irracional, como elementos trágico-míticos não cessaram de afirmar por sob os aspectos mais apolíneos, conforme Nietzsche, ou se fosse simplesmente incognoscível, como a sofística em seu apogeu neste século de ouro de Atenas se encarregou de propor, não haveria a possibilidade, ou a efetividade, da filosofia.

Assim, se o interlocutor se recusa a participar, se permanece no silêncio, ou se o admite apenas na aparência, sem realmente se engajar nos elos necessários daquilo que se afirma, a verdade lógica do discurso continua sem eficácia. Contudo, ela não poderia ser mais denegada por isso. É a significação mesma que constrange à adesão. Ignorada, a significação pode ser, parcialmente, por um ou outro que insista na loucura de afirmar contraditoriamente ou na mentira de hipóteses que por si não se verificam, mas nunca por todos, na totalidade.

Contudo, a paixão não se extingue apenas pela força da verdade, ainda que incoercível e irredutível aos sentidos da falsificação. Sócrates condenado. Limite da linguagem (que não se confunde com o mero dizer), fim do diálogo. Contudo, como mostra Chatelet, não há alternativa. Se a Polis se tornou como tal injusta o exercício da filosofia é a única via da moralidade. E, com efeito, se o Logos irrompe, via Sócrates, nos escritos de Platão, vemos que aí não é possível separar-se conhecimento e moral, verdade racional e excelência ética.

Do mal radical – das opiniões, das paixões, da sofística como técnica do discurso que se põe a seu serviço – a filosofia conduz ao sumo bem – ao conceito, às idéias eternas, ao conhecimento e à virtude, a partir desse pressuposto fundamental que é a natureza racional do real. Mas esse pressuposto não é gratuito. Ele se situa na ordem mesma da linguagem, é a chave da compreensão do termo Logos. Assim o exercício da filosofia implica os atos pedagógico e político.

Se as condições históricas permaneceram infensas à filosofia, a sua fundação não foi por isso menos exitosa. A pretensão platônica de instaurar a ordem filosófica no sentido de um governo constituído ficou irrealizada, certamente, mas aquilo que se fundou como exigência do pensar se desenvolveu como o “caminho real” da filosofia, que corresponde a consolidá-la contra a doxa,à pretensão de fornecer a prova da inanidade da paixão, à tentativa de instituir a exigência de um fundamento. Caminho de superação de todo desvio individual através da procura entusiástica e ordenada de uma ordem de fato que não se distancie do direito. Assim se delineia a via da Filosofia Perene, como se costuma designar, “até Hume e Kant”, conforme François Chatelet.

A decalagem entre o quid juris e o quid facit, entre o que é de fato e o que é de direito, porém, não se deixa ultrapassar na concretude apenas pela vontade ou pelo discurso. Assim tornou-se exequível uma reflexão sobre o real que abarcasse a cisão, assimilando os reveses efetivos – do cidadão Sócrates, do estadista Platão – às insuficiências de uma ordem de coisas apenas aparente.

A recusa da contingência do devir, isto a que se chama contemporaneamente o absurdo, implicou na afirmação platônica da eternidade inalterável do ser. Contudo o importante aqui é ter-se logrado o lineamento deste outro modo de propor o nascimento da filosofia, da entrada no Logos, isto é, da constituição original do pensamento racional do Ocidente. As aventuras da metafísica constituiriam por certo um desenvolvimento ulterior ao que propomos aqui. Por ora, a intenção é a de apreender esse movimento, tão bem caracterizado por Chatelet, intempestivo e heróico que assinala a entrada no Logos, não ao modo de um tergiversar consigo mesmo até atingir uma tranquila acomodação com as coisas e os poderes circundantes, mas sim àquele irromper impressionante de uma atitude incoercível que conduz – inexoravelmente – à verdade.

 

3) Os Esquemas Regressivos

 

a.                       Heidegger e o Pensamento Matinal dos Gregos

 

I – do Histórico ao Historial

 

O pensamento de Chatelet pode ainda ser visado através de uma série de entrevistas datadas do final da década de 70 que foram reunidas em um volume intitulado “François chatelet: uma história da razão”.

Lendo especialmente o capítulo sobre “A Invenção da Razão” vemos que esta é assim, conforme o esquema “intempestivo”, uma invenção cuja “patente” pode-se atribuir a Sócrates, ainda que aqui Chatelet não deixe de afirmar que “os grandes pensadores apenas formalizam o que os povos inventam” de modo que é a cidade democrática afinal que inventa o diálogo, este termo que Platão modula como dialética (dialetikos) através da adjetivação do verbo de uso comum dialekestai (discutir em um diálogo).

Sem nos determos mais minuciosamente na questão da comparação da filosofia com outras formas não-gregas de sabedoria, observamos apenas que Chatelet, citando Benveniste, define essa singularidade do “Logos” a partir da palavra “ser”, verbo exclusivo da língua grega. Ora, a questão inquietante não se prende tanto a essa revelação do que há de histórico na razão – o fato de afirmar-se que o exercício do pensamento racional não surge necessariamente em qualquer tempo e lugar – mas à consequência de que aquilo que se propõe com o termo “filosofia” é precisamente uma “competência universal”.

A “competência da razão”, fundada no ser, formulada na linguagem, reveste-se assim de uma pretensão que é o fator inquietante aqui. Ao mesmo tempo “uma posição excessiva e uma responsabilidade exorbitante”.

Se a liberação democrática da opinião havia, no texto que examinamos precedentemente, acarretado a consequência indesejável da violência ou da manipulação puramente oportunista do discurso, agora a sua restrição filosófica se defronta com esse risco de converter-se numa prática totalitária que apenas a idéia de liberdade, igualmente fundamental na filosofia, poderia conjurar.

Contudo, essa idéia pode não ser especialmente prezada pelo político que, no entanto, viria se utilizar do discurso do Logos. Na verdade ele poderia não leva-la em conta e ainda assim pretender determinar-se como um novo mestre da verdade justamente através da manipulação dialética.

Na entrevista a questão apenas se esboça, Chatelet contentando-se com essa salvaguarda ideal da liberdade que distingue intencionalmente o filósofo. Contudo o problema é de uma importância enorme, o que pode ser avaliado através da crítica de Heidegger à atitude comum de confiança na “evidência lógico-matemática” ou no “pensamento calculador”.

A crítica Heideggeriana visa assim o fundamento da técnica, no sentido contemporâneo da dominação, que se tornou aceita como a essência aplicada do pensar em sua neutralidade mais absoluta porque instalada no exercício mesmo desse seu modo de ser.

Heidegger observa que tanto a “frieza do cálculo” quanto a “sobriedade prosaica da planificação” são sinais de uma pré-dis-posição como uma previamente determinada tendência de utilização da razão mesma, longe de corresponder a uma sua pretensa essência ou modo natural de ser, sem que se precise aí falar de “paixão”. A dominação tecno-social não se exerce de modo algum apenas por instituir planos alhures desdobrados mas fundamentalmente porque veicula, traz implícita, uma concepção do pensar, uma imagem, portanto, do que é ou deve ser o ser no sentido do existir humano.

Mas o que isso tem a ver com a questão apenas sugerida naquela entrevista de Chatelet resulta de que essa pré-dis-posição da razão foi ela mesma construída, ou melhor, constituída, conforme Heidegger, justamente a partir da mutação ocorrida no interior da filosofia à época clássica dos gregos que levou, de um pensar pré-socrático mais ontologicamente enraizado, ao evento inaugural da metafísica com Platão. A civilização técno-racional-automatizada de hoje seria assim uma consequência da pré-disposição metafísica oriunda dessa mutação.

A partir daí pode-se ver que se o esquema de Chatelet fosse adotado, mas lido conforme Heidegger, o resultado equivaleria a uma condenação da filosofia, à medida em que se pudesse equaciona-la à metafísica tout court.

Ocorre apenas que Heidegger não subscreve de todo essa equiparação entre filosofia e metafísica ou entre verdade e legitimação. Ele conduz ao invés disso, a que se opere um corte radical entre sua visão, pacientemente construída como a linguagem filosófica de seus textos e pronunciamentos, e aquela sustentada pela tradição.

Conforme a visão tradicional a filosofia é metafísica no sentido da legitimação do enunciado e como tal só surge efetivamente com o Sócrates de Platão, sendo a mais coerente então a periodização de Chatelet.

Mas conforme a perspectiva de Heidegger, o nascimento da metafísica com Sócrates corresponde mais propriamente ao fim, não ao início, do pensar mais autêntico. O pensamento metafísico, no momento mesmo em que surge travestindo-se de real filosofia equivale na realidade à sua negação mais radical enquanto tarefa desse pensar porque desloca irremediavelmente a concepção original da A-letheia – essa verdade que não tem a ver com legitimação do enunciado ou com manipulação tecno-sofística da linguagem.

Mas se generalidade e legitimação não constituem necessariamente o apanágio da verdade, isso ocorre na medida em que seu elemento não é o de uma “lógica” do dado sempre já-assim. A verdade se lança “historialmente” não “historicamente”. Quer isto mostrar que se no histórico o acontecimento avança, por assim dizer, na plenitude de sua própria apreensão sincrônica, dada de uma vez, de modo que o verdadeiro apreendido no discurso demonstra o sentido mais geral do fato sempre parcialmente já-entrevisto pelos participantes, no historial a verdade, ao inverso de ter sido “apresentada” na linguagem, é mais propriamente aí “recolhida” – no acontecimento que de modo algum já ocorreu de todo e espera o tempo que estará por vir.

A “filosofia” ou a tarefa do pensamento é intempestiva mas não ao modo de uma irrupção exemplar num momento dado. Ela surge aqui e ali, como o sol que brilha por vezes no meio das nuvens, sendo constantemente oculto por elas. As nuvens sempre voltam, o sol sempre brilha, mas nada disso ocorre sempre do mesmo modo ou ao mesmo tempo. Contudo, e de modo não análogo aos fenômenos físicos, se cada lance da verdade encerra algo do seu ocultamento, a imagem tradicional da filosofia, mais geralmente toda a história da metafísica, não são movimentos apenas aparentes desenrolando-se “por sobre” a verdade “mais profunda” do ser, mas se apreendem na complexidade do devir humano naquilo em que o homem participa de sua própria constituição e constrói suas próprias significações mas não o faz sem constatar a parcialidade inerente à finitude de tudo aquilo que se atribui e que é atribuído.

Essa experiência de sua própria limitação se recolhe, sob o modo do apelo, em todo enunciado da verdade e o que nesse apelo contribui historialmente não pode ser compreendido no agora de sua imediatez. É como a delimitação do vazio que no entanto virá, deverá vir a ser, preenchido no futuro, mas preenchido outramente e de um modo inacessível àquilo que se efetua no atual como o modo de ser pleno. No entanto esse preenchimento futuro não se faz sem relação com o que no apelo do agora se ocultou e recolheu.

A tarefa atual do pensamento não poderia ser assim a de uma “volta aos pré-socráticos” no sentido de estender o que eles disseram na formalização de um modelo. Mas se somos nós, na contemporaneidade, a destinação historial do que eles nomearam, isso se dá porque nossa situação é a do “após”, não por que devêssemos fazer pôr de novo o que já esteve lançado na situação inteiramente diversa do “antes”. O que há “entre”, porém, isto é, entre o antes e o após, é a metafísica, de Platão até Nietszche.

Para bem estimar o sentido desta reviravolta – que coloca o “antes” como o mais digno de ser pensado mas não sem que esse pensar abarque o compreender da limitação incontornável daquele antes e através daí o seu laço para com aquilo que o sucedeu – devemos reexaminar os termos fundamentais que se apresentaram ao olhar pousado na aurora do “ocidente” – a Hespéria, conforme o termo mítico e poético tão longamente utilizado, e reutilizado por Heidegger.

 

II – A Re-Apreensão das Palavras-Guia

 

A questão ainda é a da articulação, alongada no tempo, que se pode estabelecer entre Aletheia e Logos. Assim, se em Detienne-Vernant o domínio do Logos surge como contradomínio da Doxa, ocorre um deslocamento quanto ao regime – e posição estrutural – do enunciado enquanto “verdadeiro”. Já em Chatelet o que se coloca no âmbito da verdade surge no domínio da prova, portanto numa correlação fundamental com o Logos, tanto no sentido discursivo-dialético quanto no sentido da razão e ordem.

Em Detienne-Vernant a transposição histórica do reino da Alétheia ao domínio da doxa se verifica por meio do Logos pré-socrático, pensamento que é já racionalmente ordenado. Em Chatelet tudo o que havia antes do domínio da prova, que é o do Logos frente a diversidade das doxa, só pode ser considerado como estando para lá da fronteira do racional, como o domínio do mito e do exercício do poeta inspirado. A fronteira que instituiu esse domínio lógico no sentido da generalidade e da legitimação é então a obra de Platão e o personagem Sócrates.

Heidegger não institui propriamente uma cisão histórica como domínios em que prevalecem determinados termos separados. O que ele observa é uma mudança de sentido nos mesmos termos que continuam operando conjuntamente em todo o horizonte do pensamento grego. Estes termos são “palavras-guia”, fundamentais enquanto nomeação da experiência grega do ser, isto é, elas nomeiam pré-disposições do pensar que não são sempre as mesmas.

A modulação diacrônica que as faz variar de sentido enquanto correlatos pré-disposicionais existenciais ocorre – mas não do mesmo modo – porém, tanto no interior desse horizonte helênico, na progressão daquilo que podemos designar a “ontologia fundamental” da época inaugural pré-socrática até a ontologia que se tornou a tradicional, instituindo-se a partir de Platão, isto é, o pensamento metafísico, quanto entre aquilo que se constitui nesse horizonte e o que já não mais faz parte dele e chega à atualidade como correspondência pós-metafísica da tarefa do pensamento.

Assim as palavras-guia para a compreensão do esquema delineado por Heidegger são Physis, Hén, Logos e Aletheia, conforme a ordem de exposição na qual empreendem a articulação de uma visão de conjunto da filosofia grega comportando a mutação, a partir de Platão, no sentido desses termos que se plasmam agora metafisicamente como conceitos chave na história da filosofia.

Essa visão heideggeriana se desenvolve através de textos escritos a partir da década de 30 (“Introdução a Filosofia”), incluindo principalmente “A Lição de Platão sobre a Verdade” e escritos sobre os pré-socráticos como “A Sentença de Anaximandro”, a análise sobre o pensamento de Heráclito e o “Parmênides”. Contudo, na década de 60, com o texto “O Fim da filosofia e a Tarefa do Pensamento” ocorre uma revisão do panorama esboçado através destas obras anteriores. Devemos assim pacientemente reconstruir algo desse itinerário do pensamento de Heidegger.

 

III – Pensamento Pré-Socrático

 

É com “A Sentença de Anaximandro” que devemos visar a ordem expositiva que confere a coerência daquilo que Heidegger nomeia como “o pensamento matinal” dos gregos, que não pode ser bem caracterizado nem como uma transposição do mito ao pensamento racional nem como o que seria o inverso disso, isto é, a permanência na esfera da pura inspiração.

O que se tem com os pré-socráticos é sim a entrada numa “ontologia fundamental”, como já assinalamos. Contudo esse acesso não se desenvolve como ruptura mas efetivamente como nomeação de uma experiência que é desde sempre a “epocal” grega, isto é, conforme a relação essencial com o ser que aí se desenvolve inseparavelmente do seu modo de inserção neste domínio que eles “abrem”, instalando-se desta maneira singular.

O acesso ocorre então, a partir da leitura da sentença, inicialmente em torno da palavra-guia Physis, que comumente se traduz por “natureza”. As modulações diacrônicas que se verificam em torno da Physis apontam para uma progressiva circunscrição da noção de “natureza” até estabilizar-se na oposição, corrente na atualidade, entre este domínio e a esfera do ser humano e da produção técnica. “Natural” torna-se assim, como já entre nós, aquilo que se opõe a “humano” ou “construído pelo homem”.

Heidegger observa que uma mediação metafísica operada inicialmente por Platão ocorre justamente pela diferenciação da totalidade dos entes em regiões que se designam como a da Physis, do Ethos e Logos, correspondendo à natureza por um lado, e ao comportamento humano e ao exercício da razão, por outro. Já Aristóteles instituiu, na Física, a partição entre physis onta e tékhne onta, como as coisas naturais e as produzidas pelo homem.

Ora, a questão que Heidegger propõe na leitura de Anaximandro é decidir de que a sentença fala para poder-se “estimar o que ele diz sobre aquilo de que fala”. E aquilo precisamente de que a sentença fala é “tà ónta”, os entes. Mas o que esse termo abarca corresponde assim não apenas a este ou àquele tipo de ente. Tà ónta visa a totalidade do ente: “deuses, natureza, homem, circunstâncias”.

Se os entes não são apenas as coisas da “natureza” no sentido atual do termo, torna-se caduca a interpretação pela qual a sentença se caracteriza como “ciência primitiva”, uma física mal formulada porque antropomorfizada. O conceito pré-socrático de Physis ignora barreiras entre ciências especialiadas como pensamento propriamente não-disciplinar.

Ao invés de um balbuciante começo de ciência física, isto é, ao invés de estar se propondo afirmar algo sobre o modo de ser dessa região do natural, oposta à humana, Anaximandro estaria nomeando, através da palavra-guia Physis, o acontecer da unidade do múltiplo

A Physis como aquilo que abarca tudo o que é, acarreta então essa outra noção que Heidegger precisará ainda mais detidamente em suas análises de Parmênides e Heráclito, o Hén, o Uno.

Instaura-se assim a “ontologia fundamental” na medida em que essa noção de uma totalidade que a tudo abrange corresponde uma pré-disposição do ser que não se presentifica como a simples função proposicional da cópula, nem se identifica com os entes particulares de que se pode no entanto afirmar que são. O éstin de Parmênides, como declinação do éinai (ser) ontologicamente enraizado corresponde ao “Hén Panta” (“tudo é uno”) de Heráclito.

Anula-se também, a partir daí, a concepção, tradicional na história da filosofia, de um desacordo simétrico entre Parmênides e Heráclito no sentido de que suas afirmações fundamentais seriam as vias opostas do ser e do devir. Inversamente, há uma constante pré-socrática que é essa concepção do Ser, observável através do uso das palavras-guia na medida em que se pode coligir o seu sentido nas fontes correntes da produção grega literária, incluindo Homero. Assim a Arkhé, ou origem, propriamente filosófica, que toca a essência da linguagem, reside nesse “Pathos” que Heidegger traduz como espanto: a dis-posição do espanto frente a esse ser que se distingue de todos os entes que são.

A essa “diferença ontológica” que reside entre o ser e os entes, a que corresponde à dis-posição do espanto (Pathos), assim como também a noção de Physis clarificada através do Hén, se liga a palavra guia Logos, a linguagem, que na análise de Heráclito é apresentada por Heidegger como aquilo que “deixa-estendido-diante-em-conjunto”. O que se estende através do Logos é o todo (Panta), aquilo que sendo Hén (Uno), é ainda Physis, que na Introdução à Metafísica se traduz como “Ser”, “brotar”, “surgir”, o “vigor imperante que surge”, aí onde o Logos é”reunir”.

Já a expressão de Parmênides “to gàr auto noein estín te kaì eínai” (é o mesmo o pensar e o ser”), pode aqui mostrar algo do complexo desenvolvimento heideggeriano do Logos que se constrói através destes textos.

A identidade do Pensar (Logos) e Ser (Physis) consiste no seu modo de relação com os entes (tà ónta), o que se verifica através do termo A-lètheia. Heidegger grafa assim a palavra para com isso significar o modo como observa a sua composição. Obtém-se portanto um compósito de Léthe (esquecimento) mais a partícula privativa “a” (não), sendo que este não-estar-esquecido converge com a noção implícita na Alètheia helênica originária de algo que se mostra, desvela, surge, aparece ou brota.

A negação sinalizada pela partícula cumpre então a função de expressar a contínua alternância pela qual no ser as coisas surgem e desaparecem, surgimento e desaparecimento sempre voltando para lá de onde vieram. O velar ou ocultar pertence ao ser tanto quanto o desvelar ou desocultar, fazer ver. Esse desocultamento dos entes no ser, sempre provisório, corresponde assim à experiência grega mais originária da verdade como clareira (Lichtung), essa “abertura” pela qual na luz do ser vem manifestar-se os entes.

Vemos assim como a verdade ou desvelamento corresponde ao processo interior ao ser segundo o qual há os entes. Mas no Logos ocorre algo dessa mesma natureza uma vez que nele o que se recolhe e estende também mantém a diferença em relação à abertura na qual o que se nomeia vem recolher-se.

Ainda mais intimamente se pode constatar que pensar consiste em uma espécie de potenciação do ser, pois no pensar tanto ocorre o recolhimento daquilo que é pensado e se ilumina na clareira, o que pode ser relacionado aos entes, quanto ocorre a “escuta” do ser, na medida em que o pensar apreende o modo desigual pelo qual nele os entes se dis-põem e por aí a própria diferença ontológica situada entre os entes e o ser, ou entre o objeto, a dis-posição e o pensar.

É devido a isso que Heidegger observa que o poematizar não se dá como ornamento, mas é o modo mesmo do pensar que equivale à escuta do ser. Assim o epocal dos gregos enquanto apreensão da essência do tempo como o caráter ec-stático do ser aí. As ekstases correspondem à noção Heideggeriana dos três modos da temporalidade que se alternam no vir a ser como presente, futuro, passado. A elas correspondem modos respectivos do conhecimento, como demonstra Appel: “o ‘esboço do compreender’ (fantasia), ligado ao futuro (que transcende o presente); a apreensão sensível, ligada ao presente; e a lembrança, ligada ao tempo passado”..

 

IV – A sentença de Anaximandro

 

A partir desse complexo de termos que, recapitulando, envolve Physis (totalidade do que é), Hén (Uno ou unidade do múltiplo), Logos (o recolher e estender na linguagem daquilo que se reúne no pensar) e A-lètheia (desvelamento dos entes na abertura do ser), Heidegger pôde propor a sua interpretação da sentença de Anaximandro.

Concordando com Burnet, contra Diels e a transcrição mais comum da sentença, Heidegger a reduz, ainda que as partes eliminadas conservem a seu ver uma relação autêntica com o pensamento de Anaximandro. Contudo Heidegger afirma que a sentença efetivamente emitida deve corresponder à redução efetivada por Burnet, que Heidegger mais acentua acrescentando ainda a redução da parte final.

Assim, a sentença é normalmente apresentada como:

 

“ ex hõn dè he genesis esti tois ousi kaì tèn phtoràn eis tauta gínesthai katá tò khreón; didónai gàr autà díken kaì tísin allélois tes adikías katà tèn tou Khrónou táxin.”

 

Com as reduções de Burnet e Heidegger, chega-se a:

 

“Katà to khréon didónai gàr autá kíken kaì tisin allélois tés akidías.”

 

A tradução da sentença no seu formato tradicional corresponde à de Nietzsche: “De onde as coisas têm seu nascimento, para lá também devem afundar-se na perdição, segundo a necessidade; pois elas devem expiar e ser julgadas pela sua injustiça, segundo a ordem do tempo.”

Essa tradução está na base da concepção que Nietzsche desenvolve desde a “Origem da Tragédia” e que, conforme Deleuze em “Nietzsche e a Filosofia”, ele procura continuamente caracterizar nos escritos subsequentes a partir da determinação do que poderia ser o seu oposto exato.

O trágico é a noção que Nietzsche define como alegre aceitação da existência com tudo aquilo ela envolve, aceitação oposta à sua negação, como algo a ser julgado, justificado ou expiado.

Assim a visão trágica, que ele concebe como “dionisíaca”, é inicialmente apresentada como complementar à “apolínia”, na cultura grega. A complementaridade não chega a poder caracterizar uma verdadeira oposição ao longo da análise e então Sócrates passa a figurar o elemento da decadência.

Poderíamos de certo modo, a partir daí, figurar o esquema nietzscheano como “regressivo” nesse sentido preciso pelo qual o momento posterior platônico-socrático, mais amplamente caracterizado como “filosófico” no sentido de metafísico, é observado como decadência em relação ao pré-socrático inaugural.

Contudo, o pensamento de Nietzsche se revela muito relativo quanto a essa possibilidade. O próprio Sócrates, conforme observa Deleuze, deverá ser compreendido por sua inserção no elemento helênico, à medida em que prossegue a análise, de modo que se revela, nele também, a complementaridade característica de Dionísio e Apolo.

Mais profundamente Nietzsche descobre um outro elemento grego, o titânico, no sentido de se encarar a existência como hybris (crime), e assim já existir aí a concepção da necessidade como expiação sendo essa a interpretação que Nietzsche aceita da sentença de Anaximandro: o devir sendo injustiça, as coisas que nele se encontram lutam até que por fim pagam umas às outras a penitência em razão de sua culpa. O Ápeiron (infinito) seria o ser original que degenera nesse devir culpado. Tal interpretação não se afasta substancialmente do que se observa correntemente a partir da tradução mais comum da sentença.

Assim, Nietzsche procura modular sua concepção dos gregos a partir desses dados ambíguos – o elemento da embriaguez, dionisíaco, o elemento da ordem, apolínio e o elemento da hybris, titânico – de modo a pensar que eles apenas se aproximam de sua própria concepção do trágico como alegre e incondicional aceitação da existência.

A Grécia teria engendrado uma visão mais próxima `a sua, porém, devido ao fato de que, bem misturados, esses elementos convergem numa imagem positiva da existência, uma vez que nela a própria injustiça (adikía) não se concebe como culpa ou responsabilidade pessoal, isto é, não se aproxima da concepção de pecado. Finalmente, o termo da oposição ao trágico é encontrado por Nietzsche, que o situa no cristianismo.

Apesar de todas a ambiguidades parece-me que poderia sim ser afirmado um certo movimento “regressivo” na visão de Nietzsche, devido a que, sob um outro aspecto, em sua obra ocorre assimilação efetiva de platonismo e cristianismo. Essa assimilação, como também propõe Heidegger, não se apresenta como fortuita, no sentido de uma apropriação indevida do cristianismo, mas é observada como derivando da própria natureza do platonismo.

Já a tradução de Heidegger, a partir da sentença reduzida de Anaximandro aproximada à de Burnet, desloca inteiramente as noções de castigo ou expiação pela qual as coisas, pelo fato de virem a ser, terminam por ter que “pagar” sua entrada no devir. Ao invés de uma “necessidade” to khréon se determina como “a mantença”, isto é, o estar e vigorar dos entes na luz do ser enquanto presença que aí se desvela (A-léthes).

Observe-se que desse modo a “verdade” de A-letheia se dá como relação dos entes que é interior ao ser e ao modo pelo qual o ser é. Não subsiste assim o problema da relação do enunciado com a coisa, da adequação da linguagem, o longo e tortuoso “problema da verdade”. Se a A-letheia é o modo mesmo pelo qual os entes são, o Logos não se reduz a uma simples reduplicação representativa do que no ser e pelo ser se pre-senta mas atua também como um presentar, de modo que a linguagem se instala ontologicamente como um comportamento, atuar que não se reduz àquela concepção tradicional de representação.

Contudo, se alguma injustiça (adikía) permanece, ela se relaciona a que os entes, que no desvelamento se mantém vindo do velamento e para lá retornando, trocam a transição de sua mantença, e o acordo com o qual se brindam na conjuntura de sua contemporaneidade, por uma persistência ou insistência como desacordo quanto ao seu ocultamento.

As coisas podem recusar o vir a ser pelo qual se dá a relação originária do desvelar com o ocultar, tornando assim a sua mantença uma des-articulação, a a-dikía, ao invés de simples injustiça, se deixando traduzir mais propriamente como “estar fora-dos-eixos”.

Sendo a mantença o elemento mesmo da temporalidade é inevitável aqui lembrar a frase do Hamlet “time is out of joint”. Mas se o que a intuição de Hamlet percebe assim quanto à sua própria singularidade vem em seguida à expressão, a frase de Shakeaspeare se institui: “The time is out of joint: O cursed spite. That ever I was born to set it right”. E pode-se assim também compreender a possibilidade, com que acena Heidegger, de mudar o destino do ser.

Naquilo que se relaciona com a sentença de Anaximandro, que Heidegger enuncia “ Segundo a mantença: deixam pois ter lugar o acordo e assim também o cuidado, um para o outro (no penetrar e assumir) do des-acordo”, essa possibilidade de mudar o destino do ser equivale a recuperar a compreensão do ser, pela diferença ontológica, tanto como ocultar quanto como desocultar, logo, tanto como Nada quanto como Ser.

A ilusão, pela qual só os entes são conservados, seja no caráter do pensado, seja no caráter do existente, reduplica assim a desarticulação pela qual a persistência se torna desacordo, Assim a compreensão da mantença deve acarretar a articulação e o brindar do acordo, na multiplicidade conjuntural da presença.

Mas naquilo que se relaciona ao Ser, a possibilidade de mudar o destino só pode ser avaliada pela vinculação com o pensamento grego à medida em que, dessa constelação originária de termos que nomeiam a ontologia fundamental, se desenvolve a modulação pela qual os termos mudam de sentido, tornam-se “conceitos” movendo-se já agora no plano da metafísica.

Assim se, como vimos anteriormente, a metafísica está intimamente relacionada ao desenvolvimento do ocidente, condicionando a técnica, este destino do ser, que é o nosso, encontra sua possibilidade de mudança a partir do cenário pós-metafísico que não se confunde com o propalado fim da filosofia no sentido de sua absorção pelos saberes especializados e pela técnica, o que já agora se compreende como a sua mais própria efetivação enquanto metafísica.

Tampouco se pode confundir essa tarefa pós-metafísica do pensamento com a (impossível) volta à experiência grega inaugural pré-metafísica. Mas em que se revela tal impossibilidade? Não seria naquilo mesmo que permitiu esse destino metafísico do ser, a partir da experiência inaugural? Não se pode afinal agora constatar qual teria sido a sua fundamental limitação?

 

V – A Tese da Mutação

 

Ocorre que aquilo que os Pré-Socráticos nomearam, a relação ontológica mais básica de Nada e Ser, no movimento unificante de clareira e ocultação dos entes que é o da Physis, pode ter permanecido como O Impensado, na medida em que este movimento participado pelo traço (A letheia), barra de articulação dos entes ao ser, se oculta ele mesmo na transcorrência comum da palavra Alètheia, pela qual a experiência da verdade, paradoxalmente, conserva apenas, no ocultamento do traço, o caráter desoculto dos entes, a pura presença.

Assim, se em todo horizonte grego, incluindo Platão e Aristóteles, algo dessa nomeação não deixou de permanecer, a relação exclusiva do ser com a Presença permitiu finalmente que certas condições – como o predomínio da doxa e da sofística – favorecessem a assimilação platônica da Alétheia ao jugo da idea.

Nesta mutação está em jogo também uma evolução da noção de doxa. Originariamente concebida como “reputação”, que se excelente se nomeia “glória”, a doxa se designa como “aspecto”, “aquilo que se mostra” enquanto manifestação mais autêntica do ente. No momento de predominância da sofística a doxa se torna “a opinião” no sentido de maneira de ver subjetiva, portanto incluindo assim uma certa impossibilidade de acesso ontológico.

Na medida em que a sofística se autoapreendia como técnica de manipulação da opinião ela acarretava, como contrapartida, uma vontade de verdade não mais como presença que se desvela, logo nomeando-se numa relação fundamental com o velamento (A– Lethés), mas sim como aquilo que se subtrai à mentira ou à parcialidade, logo numa relação fundamental de negação do falso (a-pseudés).

Enquanto relacionada à Idea, a verdade passa para o interior da proposição, no sentido de se designar agora como acordo (omoiósis) das palavras com as coisas. Assim, não só se efetiva o chorismós (cisão) platônico entre ser e aparência como também se institui a clivagem no interior da Physis, de modo que dela se destaca o humano e tudo o que humanamente se produz. À ontologia fundamental se sucede a ontologia do ser oposto ao vir a ser.

Mais profundamente porém a oposição de ser e vir a ser acarreta, pela definitiva eliminação do Nada no pensar, o recobrimento do Ser pelos próprios entes. Conforme Heidegger, desaparece qualquer nomeação da diferença ontológica. Agora a ontologia, no sentido metafísico, se torna um negócio de instituir o que garante a entidade dos entes e as respostas que a partir daí vão se alternar na história da filosofia convergem no sentido de ora localizar alguma propriedade fundamental do ente ora conceber um ente primeiro do qual todos os demais hierarquicamente derivam (o Um de Plotino, o Deus cristão).

A Physis regionalizada, como domínio exclusivo das coisas da natureza que se reconhece como sendo o da física atual, o Logos representativo como linguagem adequada e a Alètheia como aquilo que se opõe ao falso, eis a modulação metafísica como constelação de conceitos que se opõe ponto por ponto às palavras – guia da experiência originária constante no pensamento pré-socrático.

Pode-se agora compreender porque a mutação conceitual dos termos corresponde tão bem às nossas próprias noções referentes à sua significação. Observe-se ainda que ela corresponde efetivamente a uma entrada no pensamento racional que faculta pouco a pouco o avanço da ciência no sentido de um predomínio da técnica na escala global. No entanto, o que Heidegger opõe `a “violência da organização, informação e automatização” não poderia ser algum tipo de irracionalismo.

A designação do ser humano como racional já se operou numa correspondência com o seu oposto irracional, pela qual o que é a razão se instituiu nesse regime metafísico, a partir de Platão. Razão se define assim como essência do pensamento calculador, nada mais, assim como só se atribui realidade aos entes, nada mais.

A relação essencial do pensar com o ser se ocultou e com ela uma imagem do pensamento que se põe a caminho do Impensado, à escuta do ser. Pode-se rastrear a latência do pensar nas palavras dos poetas e mesmo como a motivação secreta da filosofia que sempre e constantemente se debruça sobre as origens.

Mas não seria a partir do espetáculo proporcionado na era atômica pelos horrores da dominação, que se poderia hoje, mais do que em qualquer outro tempo, apreender o destino metafísico do ser e ver esse mesmo espetáculo como aceno do ser à possibilidade de mudar esse destino, possibilidade que é afinal, sempre, a mais essencial do ser humano? Contudo, a decisão, como assinala Heidegger, não pode ser considerada como exclusivamente do homem, sendo sempre, enquanto decisão, do ser.

Utilizei a expressão “esquema regressivo”, quanto a Heidegger, portanto, por esse viés de que só pelo situamento pós-metafísico se pode – e se deve, necessariamente – apreender o pré-metafísico, que se desenvolve nos pensadores gregos da época inaugural. Quanto a isso, porém, deve-se lembrar que o próprio Heidegger, a partir dos anos 60, com a publicação do texto “O Fim da Filosofia e a Tarefa do Pensamento” reviu toda a tese da mutação, com base na crítica endereçada por Friedländer à sua tradução de A-letheia.

Conforme tal crítica, o “a” não seria de modo algum privativo de léthe, o que se constata pela ocorrência do termo “an-alethés”, o não-verdadeiro, dando-se assim testemunho de uma partícula de negação (an), quando em todos os demais termos gregos que são comumente admitidos como compósitos privativos não ocorre, como não poderia ocorrer nesse caso, uma construção negativa semelhante.

Levando-se em conta a observação de Jean Beaufret, Heidegger não teria necessidade de rever suas afirmações, porque ele nunca afirmou que os pré-socráticos efetivamente haviam pensado, “provado ou experimentado” a verdade como desvelamento (A-letheia) mas sim que eles expressaram (nomearam) esse sentido do termo na base do uso helênico comum da palavra que sempre enuncia algo de sua relação com o velamento (léthe).

No entanto, ao subscrever a crítica de Friedländer, Heidegger mantém que se pode-se até chegar a afirmar que a “omoiósis” esteve sempre no horizonte grego, como relação de retitude proposicional, isso não contradiz o fato de que Aletheia, em sua concepção, é o estar desvelado (Unvergorgenheit) ou a clareira (Lichtung) que se opõe ao obscurecimento. Assim a ontologia fundamental se conserva entre os gregos como proximidade com o ser e o sentido da verdade, na medida em que o termo grego é muito mais afim a esse sentido autêntico do que a “certitude” dos romanos ou a “certeza” mais ou menos subjetiva de Descartes.

Os pré-socráticos,contudo, e eis sua limitação fundamental, como já observamos, de um modo ou de outro jamais pensaram o velamento no seio da experiência da verdade, ainda que o tenham nomeado a partir do próprio termo Alètheia. Para eles, se fosse possível manter a tese da mutação, a verdade situava a presença e o esplendor do que se mostra na presença, enquanto Platão a retirava do presentar para interioriza-la na representação lógica e dialética da linguagem.

Ora, assim o esquema pode afinal manter-se por isso que, mesmo se entre os pré-socráticos já tenha ocorrido o situamento da verdade como omoiósis, negando-se assim a tese da mutação, e ainda que seja possível constatar traços da experiência da verdade como presença ou desvelamento em Platão e Aristóteles, que afinal sempre se situaram no interior do horizonte helênico, toda essa ambiguidade não demove o fato de que, como assinala Alain Boutot, ao caracterizar a verdade como ortotés (retitude proposicional e da visão no interior da idéia) Platão se afasta decisivamente do pensar do des-velamento que se abriga, ainda que no modo do impensado, na nomeação pré-socrática da A-letheia.


b) Sagan e Os Grandes Cientistas da Antiguidade

 

Uma concepção que também interpreta o advento platônico – socrático no sentido de uma decadência se desenvolve no meio das ciências empíricas. Carl Sagan, em Cosmos, designa o pensamento pré-socrático, a partir da Jônia “em Samos e outras colônias gregas” entre “ilhas e enseadas” a leste do mar Egeu, como um “glorioso despertar”.

Assim como em Vernant e Detienne, esse despertar é observado como brusca separação do pensamento mítico mas não tanto, como eles caracterizaram, no sentido crescente de uma progressão linear.

Entre as causas do surgimento desse pensamento jônico, enumeradas por Sagan, existe a liberação da escritura do monopólio sacerdotal, incluindo o diálogo e a livre manifestação da opinião. A possibilidade da livre investigação se relaciona com o fato de não haver um centro de poder que “poderia forçar uma conformidade” que costumava ser garantida pelos mitos e o temor ao sobre-humano nas sociedades antigas.

As ilhas gregas desenvolviam sistemas políticos variados que não eram impostas às demais, e sendo o comércio a fonte da prosperidade havia um real interesse no desenvolvimento das técnicas, do trabalho manual e do intercâmbio cultural. Sagan conclui assim que “a chave da revolução foi a mão”, porque “os brilhantes pensadores jônicos” costumavam ser “filhos de marinheiros, fazendeiros e tecelões” afeitos ao trabalho e à resolução de questões práticas, o que os situava de modo bastante oposto às castas sacerdotais que dominavam as grandes culturas antigas como China, Índia e Babilônia.

Sagan caracteriza a “revolução” como consistindo basicamente na tentativa de compreender o mundo sem ter como fundamento a intervenção divina mas sim pelo “trabalho das forças materiais interagindo com a natureza”, conforme se pode observar já em Tales de Mileto.

Mas Sagan caracteriza singularmente essa tentativa na convergência com o método experimental, que costuma ser visado como exclusivo do mundo moderno. Assim na apresentação dos pensadores gregos da época inaugural, ele os designa como “grandes cientistas” incluindo, além de Tales, Anaximandro, Empédocles, Demócrito e Anaxágoras, enfatizando suas descobertas em esferas especializadas de saber, principalmente na física e na astronomia, junto a Hipócrates e Teodoro, este último o engenheiro que teria sido inventor “da chave, da régua, do esquadro de carpinteiro, do nível, do torno mecânico e do aquecimento central”.

Ele chega a criticar a designação “pré-socráticos” porque isso dá a impressão de que “sua principal função tivesse sido sustentar a essência filosófica até Sócrates, Platão e Aristóteles, e talvez influencia-los um pouco”.

O que Carl Sagan destaca assim como a constante do pensamento jônico é então a crença de que a “harmonia do universo” pode ser “acessível através da observação e das experiências”. Essa postulação de base continuaria sendo a dominante na ciência atual.

Apesar da diversidade de orientação é algo curioso que esta concepção confirme em certo sentido a proposição de Heidegger pela qual a experiência grega da verdade anterior a Platão se desenvolvia, enquanto desvelamento, sempre na proximidade da presença. Contudo, Sagan localiza a “mutação” como divergência de método e a situa já a partir de Pitágoras.

A escola pitagórica baseava suas concepções não na observação e na experiência mas no tipo de certeza correspondente à demonstração matemática. Sua concepção de verdade, portanto, devia afastar-se da A-letheia, pois a certeza matemática se estende na direção inversa à do devir, lidando apenas com uma realidade perfeita de relações imutáveis.

O pitagorismo configurou-se como seita religiosa, não apenas filosófica, à qual não faltou o elemento do mistério (segredos iniciáticos), os dogmas e interdições (como abster-se de “favas” que Bertrand Russel traduziu por “feijões”), não suportando a “confrontação livre de pontos de vista conflitantes”.

Ressaltando que os Pitagóricos influenciaram “muitíssimo Platão e posteriormente o cristianismo”, Sagan oferece um exemplo da limitação dessa abordagem metodológica a partir de sua influência sobre Kepler, cuja consecução elíptica dos deslocamentos planetários só pôde se afirmar após mais de uma década de tentativas no sentido de prover uma teoria que incluísse órbitas circulares confirmadoras da hipótese de um mundo perfeito e místico.

Mas inversamente aos pitagóricos, Kepler não se havia interdito a experiência e a observação de modo que afinal pôde abandonar a pré-concepção do movimento circular uniforme como o único admissível para determinar o movimento dos planetas num universo “impresso com adornos das proporções harmônicas” – palavras que o próprio Kepler utilizou para figurar a sua convicção, oriunda da influência do pitagorismo, de que as harmonias matemáticas existiam na natureza.

A influência da seita filosófico-religiosa pitagórica e do platonismo atuou no mundo antigo como sustentação do “desdém pela prática” que afinal aí se tornou dominante, o que Sagan, secundando a hipótese de B. Farrington, atribui à impossibilidade de um desenvolvimento maior de investimento manual num meio em que tal coisa era também atributo dos escravos. A orientação metodológica pitagórico-platônica vinha assim ao encontro dos preconceitos da Antiguidade. O próprio escravismo limitava a necessidade de aplicação tecnológica às descobertas efetivadas já que o uso do braço escravo dispensava a aplicação da máquina.

Sagan concede que a cognoscibilidade do cosmos e o suporte matemático à investigação da natureza são contribuições importantes de Pitágoras e de Platão à ciência. Mas a escamoteação da observação e daquilo que nela se revela de irregular ou acidental, o desprezo pela experiência e por todo o domínio do sensível, a concepção elitista do conhecimento restrito a uma classe social privilegiada, estreitamente associada à aceitação do escravismo, tudo isso os constitui como fatores de atraso no desenvolvimento humano.

O re-despertar do mundo ocidental, após uma longa “hibernação mística” ocorre justamente à época de Da Vinci, Colombo e Copérnico, no momento em que se re-descobre o “acesso jônico”. Assim, na medida em que nossa época comparte espantosos preconceitos e superstições lado a lado com o pensamento científico basicamente afim ao que guiou a livre investigação na Jônia,, Carl Sagan observa que essa contradição atual é na verdade constituída por tradições bem antigas.

Como anteriormente mencionado, utilizei o termo “regressivo” para os esquemas que atribuem ao platonismo um sentido de decadência. Agora desejo enfatizar que essa designação me pareceu apropriada na ordenação geral entre os outros esquemas e porque elas encerram a proposta de um novo olhar sobre o pensamento grego.

Essa novidade do ver se mostra então como possibilidade exclusiva da contemporaneidade, tanto no seu sentido pós-metafísico quanto, e nisso os sentidos convergem, naquele da valorização do devir. A convergência se dá em que é o cuidado com o vir a ser, a proximidade maior às coisas mesmas que se está valorizando assim e esse me parece ser um traço comum de nossa época, algo que nos dota de uma perspectiva favorável à recuperação do diálogo com a Antiguidade e com os seus mais eminentes pensadores.

 

 

4) O Des – Agravo da Sofística ou Introdução ao Humanismo

 

I – Do Historial ao Internal (ou ainda: A Questão do acesso como o Acesso à Questão)

 

Os esquemas anteriormente examinados, com exceção de Sagan, tem isso em comum pelo que não comportam um fator que é contudo fundamental na compreensão do mundo helênico em que surge a filosofia e o pensamento racional.

O fator em questão pode ser visado através de um termo amplo: pluralidade. Vimos como Sagan destaca a pluralidade ou a geopolítica que se recobre na designação geral “Grécia” ou “Grécia Antiga”. Também no seu esquema a pluralidade de orientações que se oculta sobre a classificação por ele criticada, de Pré-Socráticos, se torna proeminente ao ser ressaltada a diversidade de métodos que permite situar o pitagorismo frente à orientação mais positiva dos milésios.

Contudo o que se deve afirmar sobre isso é que aqueles outros esquemas não podem ser simplesmente taxados de omissão quanto a esse aspecto fundamental. Não careciam dele para seus propósitos. Sem penetrar no detalhe de quais seriam esses propósitos em cada caso, no sentido de reconduzir a análise em termos de identificar o âmbito, proveniência, intenções e métodos de cada esquema, podemos perceber que afinal há um traço mais comum e imediato nesse não necessitar, que reside no próprio objeto.

A origem da filosofia, o sentido preciso das mutações que ocorrem nos regimes do pensamento e do enunciado, ou o que se torna o objeto do pensar, tudo isso pode ser tratado dentro de uma mesma abrangência cultural, escalonando-se pela diacronia, sem necessidade de enfrentar o que, para tais propósitos, consistiria antes um problema ou uma dispersão de questões emaranhadas, do que um meio de reconstituição do caminho percorrido nessa transformação.

Mas quando se trata de pensar a origem ou a caracterização dos movimentos sofísticos é impossível desfazer-se do problema da pluralidade. E quando nos apercebemos deste fato parece menos fortuita a coincidência de que aqueles esquemas não situados podem também ser em geral apresentados sem que se precise propor a questão da sofística sob um enfoque não coincidente com o de Platão.

O motivo pelo qual o surgimento da sofística não pode prescindir de uma compreensão geopolítica do mundo grego antigo – e também aquele pelo qual a sofística é necessariamente um tópico de interesse no desenvolvimento geral do que estamos tratando aqui – reside no fato de que ela põe em questão um domínio separado de investigação que só pode ser distinto como tal através de uma evolução social verificada apenas em algumas porções do território grego.

Este domínio – daquilo que é puramente humano – surge assim claramente especificado apenas na e a partir da sofística. A evolução social a ela veiculada não esteve interdita apenas a outros lugares na Grécia mas tampouco ocorreu em todo o universo da mentalidade não helênica antiga.

Esse fato é ressaltado através do exame da obre de Jaeger, a ‘Paidéa”. Como o que está em jogo neste trabalho é justamente a “formação do homem grego”, conforme o subtítulo – e aqui o termo homem deve ser posto em relevo – a estratégia da exposição se baseia fundamentalmente no situamento geopolítico, o que se verifica no desenvolvimento da análise das noções gregas de Aretê (virtude).

Sendo o objeto da ‘Paidéa” a “formação”, ocorre assim uma polissemia que envolve o termo subjacente à expressão, o “espiritual”. Pois tal como está sendo utilizado, o subtítulo “a formação do homem grego” constrange a apreciação no sentido de que daqui por diante espera-se que funcione como se o termo espiritual estivesse mesmo aí, ao modo de um complemento elíptico. Assim, o lugar da ginástica ou a medicina como Paidéia, em Jaeger, por mais que pudessem extrapolar essa elipse na verdade não o fazem. É o próprio termo grego que enseja essa elipse no sentido de que, se nas línguas atuais podemos pensar formação em qualquer outro sentido técnico, na Grécia a Paidéia implica o complemento assim tornado implícito.

Trata-se sempre de algo que permanece na expectativa desse “espiritual” a que poderíamos talvez melhor visar sob a rubrica do ético. O Ethos, o ensinamento moral, sugere ao mesmo tempo menos e mais que uma visão de mundo porque exige a inserção do ser humano que vê. O que permanece central na Paidéia é então a psicossociologia da Aretê e a constelação de questões que a “virtude” impõe, suas aporias, sua positividade.

Essa positividade é que implica o situamento geopolítico na medida em que se traduz pelas respostas efetivamente fornecidas na dispersão de sua pluralidade. Ocorre então que a mudança na ênfase do subtítulo, do “espiritual” elíptico ao “do homem” manifesto, engendra na leitura o presente da cultura como agravamento da dispersão.

Em que sentido não podemos nos furtar a considerar o “humano” na perspectiva nossa – indelevelmente marcada pela repartição das ciências? Contudo, a positividade assim estruturada induz a novas questões mezzo aporéticas pois o que pode estar mais distante das ciências humanas especializadas de hoje do que isso, o Ethos apreendido por uma visão que se exige de conjunto, ainda que o complemento dessas ciências também tenha se captado na variação dos epítetos “morais” e “do espírito”?

Contudo, reconduzindo àquilo que nos fez introduzir o trabalho de Jaeger, o que observamos ali é que de qualquer modo essa formação implica o proceder de um situamento geopolítico, não sendo possível tentar apresentar as concepções helênicas da Aretê apenas como um todo evoluindo progressivamente.

Isso induz a uma consideração que já é bem grega pois nos instala de um golpe na inextrincável partição do Uno e do Múltiplo. Qualquer estudo da história dos gregos esbarra nesse problema. Não se o soluciona de modo algum tentando delinear uma unificação progressiva que viria, primeiro da coalescência arcaica de uma consciência comum da cultura finalmente plasmada no mito de Helen, o ancestral único de todos os ramos constituintes dessa civilização agora helênica, e em seguida, de uma crescente conscientização da exigência estragégica imposta frente ao perigo da dominação, através do ideal pan-helênico após a guerra do Peloponeso.

E a evidência desse insucesso reside inteiramente no que leva do primeiro ao segundo desses termos de uma história linear. Não apenas a guerra em si, a caricatural e molar oposição de Sparta e Atenas, mas uma longa série de questões incontornáveis logo deixa claro aos que se aventuram na “história da Grécia” a inutilidade de obliterar o tracejo molecular das anfractuosidades do relevo e do conjunto. A própria “história”, por ser “da Grécia”, acaba por ter que revelar sua operação fundamental de mascaramento – sendo compelida assim a renunciar ao menos parcialmente a ela.

O “situamento geopolítico” está assim já na compreensão de uma história grega. Contudo essa expressão que demarquei com aspas não deixa de parecer algo forçada. Mais, ela parece redundante. No entanto salva-a, poderiam aduzir os seus possíveis defensores, o sufixo neologizante. Estaríamos com isso a indicar algo a mais, aqui.

Algo que sugere de novo a história, poderiam concluir aderindo aqueles a quem a defesa se dirigia, no âmbito mesmo de uma geopolítica. Mas um contra argumento de peso viria finalmente se abater sobre todo o raciocínio: não era a sofística o só fator a impor tal expressão abstrusa?

Ocorre que a aproximação à “história da Grécia” pode ter muitos níveis, Em alguns deles, os mais iniciais, pode-se mesmo ficar satisfeito com o mascaramento e dar o Uno como o destino do múltiplo. No entanto o que realmente observei pode ser também entrevisto nisso: se com a história grega o limiar que assinala a irredutibilidade do múltiplo pode não ser transposto a partir de uma decisão que só tem a ver com o grau de aproximação, na história da filosofia pode-se pretender tanto mais merecer o reconhecimento de nela ter-se aprofundado quanto mais se permanece atendo-se ao mascaramento como potência mais própria do Uno que no entanto jamais será designada assim e se falará então de “ápice” ou de “verdade” ou de “definição” da filosofia mesma.

O que há de forçado na expressão, porém, deve-se a isto pelo que a esta “geo” não basta ser “política”. Estou usando o termo num sentido aproximado, aproveitando uma expressão que já existe para algo que está surgindo justamente aqui. É o momento em que se deriva do “tipo psicossocial” para o personagem conceitual. Situamento geopolítico encontra o seu significado mais próprio no conceito de Deleuze: “geofilosofia”. E por esse meio vem à tona o termo de Peguy, o “Internal”.

Não se trata, portanto, de uma localização dos sistemas econômicos dos quais vem se desenvolver, derivando de suas práticas, um tipo de sociedade portadora de um tipo de homem com sua visão de mundo correlata. O problema, tanto com a história grega quanto e mais ainda com a origem da filosofia, é que se trata menos de localização do que de migrações, ou seja, da relação – constitutiva do pensamento – entre o território e as desterritorializações, relativa e absoluta, e o sentido das transformações que importam ao emigrado quando é ele que se tornou o autóctone – o pensamento como excedente da reterritorialilzação, isto é, como aquilo que permaneceu na conjunção com o Fora.

Mas se a história da filosofia tem esquemas próprios de mascarar o múltiplo é por ter finalmente conservado o nexo profundo da palavra poética, se grega enraizada no “Ser”. Contudo, a sofística de início se constitui negando a raiz, afirmando o nada, traçando o plano pela emancipação de um nível – o humano. A antítese Physis-Nomos é mais do que repartição do que é natural e do que não é, nela o “por” tem uma função fundamental –quase eu diria “fundadora”. Trata-se não do que “é” natureza ou homem, mas do que, em cada caso, nisso misturado homem-natureza-cidade-cosmos, vem por natureza ou pelo nomos, isto é, por convenção.

É aqui que reside a separação propriamente sofística do domínio humano. É óbvio que anteriormente à sofística o homem se pensou e constituiu inúmeros modos de propor e resolver ou buscar a solução de problemas que lhe são próprios. Contudo, até à sofística, o homem sempre se pensou no âmbito e na dependência da totalidade, natureza ou deus. Essa dependência nada tinha de derivada. Constituía-se como natureza do homem, propunha-se como fundamento de tudo aquilo que a partir dele se produzia.

Com a sofística e a noção de Convenção (Nomos) entra em cena a liberdade, isto é, o pensamento de um estatuir que não se funda senão pelo ser humano em seu inteiro poder de deliberação. Assim todos os problemas fundamentais do espírito mudam de sentido.

Não se trata mais da difícil apreensão de um conjunto visado pelo viés da “visão”:perspectiva ou ética, moral final. A questão é como tratar e nenhuma generalidade pode mais servir. Conforme observa Aristóteles na “Política”: “Aqueles que falam em termos gerais, dizendo que virtude é ‘o bem estar da alma’ ou ‘ação correta’ ou coisas assim, estão errados. Enumerar as virtudes, como fazia Górgias, está muito mais próximo do acerto do que fazer esse tipo de definição”. Sócrates, no Menon, pede a definição da Aretê como a que se poderia fazer de uma espécie animal, não percebendo que os assuntos tratados não pertencem todos à mesma abrangência.

Se o que é propriamente geopolítico não exclui a diacronia, o Internal da geofilosofia abarca o movimento que desloca o presente por relação a si mesmo, restituindo o “out of joint” no elemento de um outro tipo de “rightness”, aquela que convém à resistência do que assim difere. Consistência do itinerante, bem singular concepção de Paidéia e educação e lei. Não deplorar a apropriação platônica, o longo interregno até que se possa “ver com olhos livres” ou com os próprios olhos. Não foi o ser que se ocultou, mas um personagem conceitual que migrou para a proximidade que lhe é a mais conveniente. Naquele momento o mais próximo estava mesmo do lado dos fatos e o resultado da guerra do Peloponeso não nos causa a menor surpresa.

Mas como é que se chegou a isso? Não ao que sempre esteve, obviamente, mas a esse singular movimento geofilosófico que fez confluir na Atenas do século V os tantos caminhos desses professores itinerantes e a novidade que vinha embutida na sua retórica – o “isso” que até aqui não foi ainda bem nomeado. Reintroduzir a questão da Aretê. Procurar restituir algo do deslocamento, apreender no rastro do que por excelência mascara e sutura – o poder maravilhoso do Logos – aquilo que sempre ficou irredutivelmente

Não-Uno.

 

II – A formação da Grécia

 

A Paidéia, termo que a própria obra introduz na variação semântica de que “educação” é um correspondente, de Jaeger, encerra ainda uma outra ênfase possível na leitura do subtítulo, desta vez sobre o patronímico “grego”. A “formação” se designa agora, na trama da polissemia, como um processo civilizatório sugerindo assim que uma consciência de ser “grego” surge só pouco a pouco, não se dá como algo de todo já instalado desde o início.

O conhecimento sobre essa “formação”, enquanto processo civilizatório, ainda é lacunar mesmo na atualidade. Essa característica se torna mais proeminente à medida em que as fronteiras recuam no sentido das origens.

Os três estratos geográficos que mais tarde vieram a se constituir como o território grego antigo – a costa ocidental da Ásia Menor, as ilhas do mar Egeu e a península ao sul dos Balcãs – já estavam povoados desde tempos remotíssimos por uma população de que a historiografia mais antiga desconhece a origem. Rostovtzeff assinala que essa população pode ter se constituído por mais de um povo. Vernant, contudo, tem como certo que sua origem é asiática, ao menos no continente. Ellauri e Baridon a descrevem pelo tipo moreno e robusto que ainda “se perpetua em alguns lugares do Sul da Itália e Espanha”. Em todo caso, sabe-se que os primórdios da civilização são tão antigos no território grego quanto no Egito e na Mesopotâmia.

Desse povo que não falava a língua grega, sem nenhum parentesco racial com os helenos, os gregos tinham a memória e os designavam Pelasgos, Pelágios ou Léleges. Nesse período pré-histórico utiliza-se ferramentas e armas de pedra. Não se conhece a cerâmica, planta-se cereais e cultiva-se o gado. Rostovtzeff afirma que a organização sedentária é tão antiga aí quanto a população e que a maioria dos aldeões se estabelece em Chipre e na Tessália.

Já no terceiro milênio emerge a vida urbana com a introdução do uso dos metais, o cobre e posteriormente o bronze. Conforme Rostovteff não se sabe como ou de onde os metais apareceram na região. O desenvolvimento da cidade no Egeu começa em Creta, a partir de uma estrutura palaciana e de uma escrita própria ainda não decifrada, o “linear A”.

A descoberta por Evans (1900) da sede da cidade cretense de Knossos esclareceu bastante sobre a importância central do palácio e o papel da cidade nessa civilização desenvolvida ao fim do neolítico. A preponderância de Creta se torna evidente desde essa época. A união das cidades da ilha a tornou forte o bastante para constituir-se como autoridade na região tendo Knossos constituído, ao que parece, o centro do poder cretense

A agricultura agora abrange castanhas e uvas, azeitonas e figos, mantendo-se o cultivo de cereais. No entanto, se o termo “Pelasgos” registra entre os gregos a memória dessa população como os “povos do mar”, já se nota assim a preponderância das atividades marítimas como a pesca e o comércio.

Com efeito, a atividade mercantil pioneira dos marinheiros cretenses alcançava todos os estratos do território grego, notadamente Chipre e Sicília, abrangendo também o Egito. A influência da cultura egípcia é nessa época bem documentada. Contudo, Rostovteff sublinha mais o aspecto de intercâmbio pois o Egito também teria se utilizado “dos tesouros do gênio Egeu”. A influência babilônica e mesopotâmica é igualmente bem atestada, ocorrendo através da Anatólia e da Ásia Menor. Vernant sublinha efetivamente a semelhança entre os palácios de Creta e os de Alalakh e Mari. Harvey sugere mesmo que a influência sobre a porção continental pode ter se revestido do caráter de uma colonização cretense abrangendo Micenas, Tirinto e Tebas. Cidades importantes em Creta são também Faestos, Tílisso e Mália.

Os ilhéus e marinheiros cretenses, sendo assim tão economicamente dependentes do mar, são também um povo pacífico que cultiva as artes. Muito hábeis oleiros e em trabalhos de bronze, desenvolveram uma florescente indústria.

A cerâmica parece ter sido introduzida por influência egípcia. Mas após um período inicial de cópia dos modelos do Egito a arte do mundo Egeu atinge uma excelência incomparável com vasilhas e ânforas representando seres marinhos mas também plantas e motivos estilizados, curvilínios, em cores vivas e brilhantes, particularmente amarelo, rosado, vermelho, cinza, laranja e branco, revestidas com verniz.

As pinturas murais do palácio de Knossos representam cenas da vida comum, de festas, caça, principalmente ao javali, cerimônias cultuais, com figuras sempre cheias de movimento e ação, animadas com naturalidade, sem a rigidez da arte egípcia que as havia inicialmente inspirado. As colunas do palácio têm linhas que se alargam na extremidade superior com capitéis sóbrios que lembram o estilo do capitel dórico. Atribui-se aos cretenses grande conhecimento de matemática e engenharia civil.

As cidades de Creta não são fortificadas com muralhas. Os ilhéus se preocupam mais em proteger a sua frota e por isso os navios egeus não têm a mesma aparência dos barcos egípcios ou fenícios. A casa cretense é constituída por muitos cômodos agrupados ao redor de um pátio e sua arquitetura introduz a janela, cujo uso é ignorado por exemplo na Suméria, guarnecida provavelmente com material transparente desconhecido. As residências apresentam importante desenvolvimento de instalações sanitárias, fachadas sofisticadas e vários andares, situando-se em ruas pavimentadas e bem traçadas, com eficiente sistema de canalização.

Os soberanos se intitulam “Minos”, razão pela qual Evans designa a civilização cretense como “minóica”. Rostovtzeff destaca a peculiaridade da cidade egéia que não possui templos como os do Oriente, típicos por suas proporções monumentais. Os santuários eram “geralmente cavernas ou bosquetes de árvores consagradas” ou pequenas ermidas conjugadas ao palácio. Cultuam-se as forças da natureza.

Ainda no século XIX (1870) Schlieman descobriu os restos dos palácios murados de Tróia. Durante o terceiro milênio,o mesmo tipo de civilização que evolui em Creta desenvolve-se por todo o Egeu e também nessa região da Ásia Menor, incluindo ainda Assíria e Fenícia. Contudo, Tróia exibe mais a aparência de fortaleza protegida com muralhas fortificadas pois, inversamente ao que ocorre na Ilha de Creta, onde não há possibilidade de invasão por terra, estava sempre sujeita aos ataques de vizinhos. Mesmo assim Tróia atuou como líder de uma aliança entre as cidades e tribos na Ásia Menor.

Vernant registra a continuidade cultural e étnica no litoral, “na Trôade”, por todo o terceiro milênio (de Tróia I a Tróia V). Contudo, se Vernant assinala a quebra dessa continuidade no início do segundo milênio, com a fundação da tróia VI, a historiografia mais antiga considera que a célebre “guerra de Tróia” ocorrida nessa mesma época, assunto de Homero na Ilíada, foi travada contra uma “população aborígene”.

A descontinuidade mencionada por Vernant se relaciona com o cenário de invasões indo-européias que desde o alvorecer do segundo milênio interfere com a influência de Creta no Egeu, até deslocá-la totalmente. Assim o foco dos acontecimentos se localiza agora mais no continente.

As escavações e descobertas de Schliemann se estenderam ao Peloponeso e incluíram Micenas e Tirinto. Na Grécia continental Vernant informa que a vida urbana “surgiu ao pé de fortalezas, residências de chefes”. Rostovtzeff afirma como sendo o mais provável que os “pelasgos” do continente diferissem daqueles instalados nas ilhas. Vimos como a região esteve sob a influência do império cretense. Agora devemos examinar como se processou essa descontinuidade fundamental devida à introdução dos invasores indo-europeus.

As tribos indo-européias que formam os vários ramos do povo grego chegam por vagas sucessivas e pouco a pouco vão se fixar no continente, instalar-se nas ilhas, colonizando ainda o litoral da Ásia menor, o Mediterrâneo ocidental e o Mar Negro, constituindo assim o mundo heleno antigo. Mas a caracterização exata destas tribos permanece incerta.

A historiografia mais tradicional (Ellauri e Baridon) considera como mais importante a tribo do povo Aqueu que vai se fixar em Tirinto e principalmente em Micenas. Já Vernant designa “os invasores, os mínios” que “formam a vanguarda das tribos” indo-européias a povoar progressivamente os três estratos do território grego, situando sua chegada entre 2000 e 1900 a c. Harvey considera “os mínios” um “povo lendário” cuja inserção entre os antigos invasores é apenas provável e que teria se concentrado na Beócia, em Orcômenos. Ele utiliza o termo “Aqueus” para designar os invasores indo-europeus do segundo milênio como um todo.

Harvey estabelece assim que, tendo os invasores “conhecidos provavelmente como Aqueus”, chegado até as “colônias cretenses na Argólida”, conquistaram Micenas e se estenderam pelo golfo de Corinto, ocupando a maior parte do Peloponeso onde introduziram a fala árcade, que ele pensa ser a língua aquéia original. Mais ao Sul os invasores desenvolveram o dialeto Jônico e ao norte o Eólico, ficando sem solução a questão da composição étnica dos jônios e eólios ser ou não a mesma dos aqueus. Em todo caso Harvey os insere na confederação aquéia, assim como constando na Ilíada.

Munford menciona os invasores como aqueles “aristocratas micênicos”, “intrépidos e ousados”, situando os “aqueanos e dóricos” como povos apenas posteriormente aí localizados.

Já o esquema de migrações dessa época adotado pela historiografia em uso nas escolas estabelece o seguinte quadro: Aqueus, chegam por volta de 2000 ac e fundam Micenas. Jônios, em torno de 1700 ac fundando Atenas e posteriormente ocupando a Ásia Menor. Eólios, na mesma época, fundando a cidade de Tebas. Os dórios, cuja penetração vai integrar um movimento posterior no quadro geral das invasões, surgem em torno de 1200 e fundam Sparta.

Não obstante a controvérsia, que testemunha o estado lacunar do saber atual nesse âmbito, os invasores indo-europeus exibem traços bem singulares em relação a Creta. Com temperamento belicoso, centralizam as atividades “nas guerras, sítios e batalhas” conforme a expressão de Rostovtzeff.

No esquema de Rostovtzeff mencionam-se os “reinos europeus da civilização egéia” com seus centros “em Micenas, em Tebas e Orcômeno e em Atenas, que “desde o começo eram gregos, isto é, Aqueus”. Assim conforme ele, os europeus estariam já bem situados no século XVII ac e daí até o século XIV ac. o império micênico se desenvolveu através da suserania, exercendo-se dos seus soberanos “ aos inúmeros senhores feudais menores”.

Vernant atribui um dialeto grego arcaico comum aos “antepassados do homem grego”. Como vimos, conforme Vernant, “os mínios, os invasores”, teriam irrompido no continente bem no início do segundo milênio. Concomitantemente os hititas, também indo-europeus, aportam na Ásia Menor e se expandem pelo planalto da Anatólia enquanto no litoral um povo “parente próximo dos mínios da Grécia” é aquele que rompe a continuidade étnica de Tróia, conforme anteriormente mencionado, e funda a Tróia VI. Sabe-se que fabricam a mesma cerâmica cinzenta característica, modelada no torno, cozida em fornos fechados, que Harvey designa como “vitrificada”. Vernant atribui ainda a introdução da domesticação de cavalos aos “mínios da Trôade” e aos da Grécia, assim como a técnica de carros de combate.

Por volta do século XVIII ac. uma catástrofe atinge Creta que no entanto se recupera e continua como importante influência local. Não se sabe ao certo o que ocorreu aí (terremoto, revolução ou inssurreição). Rostovtzeff afirma como mais provável a hipótese de ter sido Knossos destruída “por uma aliança de cidades – Estado egéias da Europa”. Contudo Venant assinala que por volta de 1500 ac. os mínios, há muito estabelecidos na Grécia continental, entram em contato com Creta “após a renovação que veio depois da reconstrução dos palácios”.

Os mínios introduzem o cavalo na ilha mas são principalmente devedores da influência cultural palaciana, estabelecendo-se agora uma verdadeira “cretização” do mundo micênico. Rostovtzeff designa as duas variedades dessa civilização homogênea, como basicamente sul-cretense e norte-micênica.

Já vimos como se caracterizava a organização cretense. Quanto ao império micênico, ao par da orientação para a guerra, o aspecto de suas cidades é bem típico do segundo milênio, com espessas muralhas em torno do palácio ou mesmo da cidade toda. A casa é composta de um cômodo, “paredes erguidas em redor de uma lareira que forma o centro da residência”, conforme Rostovtzeff. Vernant descreve o palácio micênico, tendo no centro “o mégaron e a sala do trono”. Uma “fortaleza cercada de muros” construída para sustentar um bloqueio e abrigando, ao lado da morada principesca e de suas dependências, as casas dos familiares do rei, chefes militares e outras autoridades do palácio.

A partir do século XV ocorre a transferência progressiva do poder de Creta para Micenas, não de modo pacífico. Os Aqueus constituem aqui, sem dúvida, o papel decisivo.

A expansão dos Aqueus, constituindo, desde o início ou não, o Império Micênico, é impressionante. Abrange a Ásia Menor, Chipre, Síria, Ugarit e Alalack, chegando à Fenícia, Biblos e Palestina. Progressivamente substituem o domínio comercial de Creta até mesmo no Egito onde é provável a existência de uma colônia micênica em El – Amarna.

Rostovtzeff registra como consequência de sua intensa atividade comercial uma forte influência micênica na arte fenícia.

Rodes é colônia aquéia desde o século XV e Vernant propõe que a Ahhiyawa mencionada no famoso domumento hitita, que geralmente se traduz por “Acaia”, deve ter se localizado aí. Nesse documento o termo Achaiwoi é utilizado para designar os Aqueus.

Finalmente, desde 1450 já se pode assinalar a ocupação militar de Creta pelos Aqueus estabelecendo-se no palácio de Knossos e ocupando-o até a destruição no fim desse século. Assim a partir dessa época pode-se afirmar uma dominação micênica no Egeu, que fará a guerra de Tróia mencionada na Ilíada. Contudo, ocorre assimilação da cultura cretense pelos Aqueus e o que resulta é aquela civilização típica do segundo milênio: uma mistura homogênea de elementos minóicos, micênicos e asiáticos, conforme Vernant, que a designa cipro-micênica. Ellauri e Baridon utilizam o termo creto-micênica e Rostovtzeff, mais simplesmente, “Império Micênico”.

O conhecimento sobre a organização social dos Aqueus, facilitado pelos trabalhos de Schliemann, foi ampliado pela decifração das plaquetas em “linear B”, um silabário derivado do linear A cretense, por Ventris, no século XX. Mesmo assim o quadro continua muito lacunar. Até mesmo certos termos que constam explicitamente das plaquetas decifradas ainda causam controvérsias quanto a sua interpretação. No entanto há algum consenso sobre certos itens e utilizo aqui a descrição de Vernant que afirma ter-se baseado nestes tópicos sobre os quais já há acordo.

Vernant chama a atenção para o aspecto centralizado da vida em torno do palácio, destacando a economia concentrada e unificada em torno da pessoa do rei, o Ánax (wa-na-ka). O sistema palaciano funciona com base na atividade dos escribas, a princípio cretenses, que transformam a escrita de Knossos no linear B continental e aí implementam os mesmos métodos de administração e economia. O Ánax assume todos os aspectos do poder central e também representa as ordens militar e religiosa. Mas há a função de chefe do povo de guerreiros (laós), desempenhada pelo la-wa-ge-tas.

Nas aldeias surge a figura do Basileus. Vassalo do Anax, o basileus domina como um senhor feudal a vida na aldeia, sendo representante do rei. Mas sua autoridade se exerce ao lado da gerousia local, isto é, do Conselho dos Velhos.Vernant destaca assim como traço principal da singularidade micênica, em relação aos impérios do oriente, essa relativa independência das comunidades rurais em relação ao palácio. Rostovtzeff destaca a ausência do aspecto de divinização, comum aos soberanos orientais.

Há ainda, na aldeia, a função do Korete, que figura ao lado do Basileus. Não se sabe ainda ao certo qual a sua atribuição, agindo talvez como autoridade militar.

A partir do século XII uma nova onda de invasões assola o império Micênico e desfaz o poderio local. Entre as tribos recém-chegadas a mais proeminente é a dos Dórios que na historiografia mais tradicional figura simplesmente como “o” povo invasor. Sua supremacia guerreira se relaciona ao manejo da tecnologia do ferro com que fabrica armas mais ágeis do que as de bronze micênicas. No entanto, os dórios constituem-se como povo rústico e à sua introdução no Peloponeso, concomitante ao fim do Império Micênico e ao início da Idade do ferro, segue-se um período de barbárie, sem escrita ou comércio, em que o continente grego retorna à forma de “economia puramente agrícola”, na expressão de Vernant.

Rostovtzeff enfatiza a complexidade desse movimento de povos “na região norte da península dos Bálcãs”, que abrange os ataques ao Egito em que os filisteus têm um papel ativo, estabelecendo-se posteriormente no litoral palestino. Ele assinala que, forçados pela penetração desses povos vindo do Norte dos Bálcãs, os grupos da Grécia setentrional se deslocaram para o Sul, cuja população foi assim, por sua vez, forçada a emigrar especialmente para a Ásia Menor, onde os hititas também estavam sendo destruídos pela nova onda de invasões. O planalto da Anatólia será povoado em seguida, inicialmente pelos lídios e depois pela Pérsia.

Desse modo a população que estava localizada na Ásia Menor, deslocada pelos grupos da Grécia, vão para a Síria, Fenícia, Palestina, Sicília, Itália e Egito. Assim há a probabilidade, conforme Rostovtzeff, de que os filisteus fossem uma porção da população oriunda de Creta ou da Asia Menor obrigada a emigrar.

O período de barbárie, iniciado no século XII perdura até o século X quando uma relativa homogeneidade lentamente se reintroduz. “ De Micenas a Homero”, conforme a expressão de Webster, é como a emergência do mundo novo em que há consciência da ruptura com um mundo do passado, aquele do bronze e dos heróis da civilização micênica extinta. A cerâmica se transforma profundamente adotando o chamado estilo proto-geométrico na decoração dos vasos.

É bem atestado o papel de unificação cultural desempenhado pelas lendas do passado micênico, transmitidas oralmente, de geração em geração, nesse período sem escrita. Gradualmente se formam as confrarias de aedos, cantores que recitam os mitos, agora sob a forma de poemas, geralmente acompanhando a declamação com a música da cítara. A Ilíada e a Odisséia, de Homero, são coleções desses poemas concentrando-se nos temas da guerra de Tróia e das viagens de Ulisses. Posteriormente, quando se re-introduz a escrita, agora importada da Fenícia, as narrativas de Homero são assim registradas.

Estima-se que a formação das duas coleções de poemas que constituem as epopéias homéricas foram reunidas entre os séculos X e VIII, conforme Ellauri e Baridon. Heródoto e Tucídides situam a composição no século IX ac, conforme Harvey, que faz menção a “alguns críticos modernos” que consideram sua localização no século VII ac. Jaeger afirma que atualmente “cientistas qualificados” fazem proceder as partes mais importantes das epopéias “da segunda metade do século VI”.

A época em que se desenvolvem a guerra de Tróia e os acontecimentos narrados por Homero designa-se geralmente a “Idade heróica”. Sendo os seus protagonistas os heróis da guerra, torna-se importante a questão de saber até que ponto sua descrição corresponde às formas de organização do tempo micênico ou se reveste dos modos característicos de sua própria época aqueles acontecimentos.

Vernant assinala que se chegou a pretender, como Finley, total descontinuidade entre o mundo micênico da idade heróica e o mundo homérico, posterior à introdução dos Dórios. Mas Vernant inclina-se mais por ver na Ítaca da Odisséia um quadro certamente próximo do que havia sido a realidade micênica. No entanto o foco da narrativa é a província, não o palácio. Com esse deslocamento figura-se a mais importante transformação registrada entre os dois períodos.

O Ánax (wa-na-ka) desapareceu. À imagem do poder concentrado na figura do rei substitui-se “a idéia de funções sociais especializadas” que podem se chocar umas com as outras colocando assim a questão nova do equilíbrio. Atenas prolonga, é verdade, a instituição da monarquia, vigente aí ainda no século VIII, mas com a função militar autônoma em relação ao poder do soberano que logo cede lugar à instituição dos arcontes.

Esse interregno, desde a reestruturação depois do período das invasões até a emergência da Polis por volta do século VII, começa por ser basicamente agrícola, como vimos, centrando-se no cultivo de trigo, uvas, azeitonas e figos, havendo também atividade pastoril. A população se agrupa em genos, isto é, como grandes famílias de economia auto-subsistente, sem quase nenhuma dependência da atividade comercial.

No entanto, pouco a pouco, uma indústria começa a se desenvolver do excedente dessa produção familiar – cerâmica e artigos de joalheria, por exemplo. O comércio se reintroduz progressivamente e uma acumulação de riqueza finalmente conduz a deploráveis condições de exploração de classe.

Forma-se nas cidades costeiras uma classe urbana abastada. A compra de cereais pode agora ser feita pelos marinheiros em outros lugares por preços melhores do que os praticados no interior. Isso não afeta tanto os nobres, proprietários de grandes extensões territoriais, mas sim aos pequenos agricultores que começam a contrair dívidas. Os nobres credores chegam a escravizar os devedores insolventes.

De uma forma geral o período arcaico pode ser descrito como de predomínio oligárquico, com os nobres detendo a riqueza e o poder paralelamente ao desenvolvimento da nova classe de comerciantes nas cidades. A situação opressiva dos trabalhadores pobres alcança expressão na poesia de Hesíodo, no século VIII ac.

Vernant salienta que é a busca de acordo e equilíbrio nesse quadro social conturbando-se progressivamente, muito afastado da concepção micênica centrada na dominação da realeza, o fator situado na raiz da reflexão moral e da especulação política que definem a forma nascente de uma sabedoria humana. Assim, conforme Vernant, os “sábios gregos”, desde “a aurora do século VII”, isto é, abrangendo já o período pré-socrático, “não tem por objeto o universo da Physis mas o mundo dos homens”. O problema principal seria então como harmonizar as forças mais opostas para que do conflito nasça a ordem na cidade.

Vimos como os vários esquemas consideram a questão dessa origem do pensamento racional. Agora, através da panorâmica sobre a formação da Grécia compreendemos que sua constituição não resultou numa totalidade homogeneizada. O mapa mostra como as três regiões etniciamente diferenciadas organizaram o território assim como ele se estabilizou desde a época em que surge a Polis no século VII ac. Agora temos uma base estabelecida para apreciar o quadro da Paidéia naquele sentido espiritual, isto é, examinar as variadas tendências em que se desenvolvem as concepções da Aretê. 




III – Presentação da Aretê

 

Introdução:

 

O termo grego “Aretê” pode se estender à multiplicidade das “virtudes” específicas. Nesse sentido não precisa ser um atributo essencialmente ético ou mesmo humano. Mas quando se utiliza, ainda hoje, a palavra “virtude” no sentido de “excelência” humana, sentimos que o contexto se determina, ora nesse sentido plural em que cada ser se distingue, ora num sentido outro que dá a paradoxal impressão de ser mais geral ao mesmo tempo em que designa algo para nós ainda mais determinado.

Pode-se falar na ligeireza ou na força como virtude do cavalo, ou mesmo no calor como sendo a virtude do fogo. Mas quando se quer designar alguém como “justo” ou “distinto” ou “excelente”, o termo em português “virtuoso” parece algo emprestado porque usualmente não confundimos ter um conjunto de virtudes com ser especialmente excelente.

Em grego ocorre algo assim. Alguém pode ser muito hábil em seu ofício, ser probo, não contrário às convenções. Contudo, essa virtuosidade pode não coincidir com aquela qualidade da Aretê que é o atributo, por exemplo, do herói.

O herói é aquele que encarna a virtude no sentido de excelência como surplus, algo a mais do que todas as suas virtudes específicas. Há algo então que funciona como o veículo dessa distinção de termos. Esse algo é, a princípio, o ideal.

Jaeger mostra que o ideal deriva de um termo, “formação”, que não se confunde com o termo “educação”. Naturalmente essas palavras originárias designam práticas cuja procedência e alcance tampouco coincidem.

A educação, nesse sentido destacado por Jaeger, é o correlato das virtudes específicas. Pode mesmo chegar a ser um adestramento social no modo como é popularmente ministrada. Mas se chega a isso, esse adestramento, nesses tempos recuados da Grécia, se faz no sentido de uma conformação aos costumes. A educação é aí ensino de regras, iniciação como processo de habilitação a determinadas capacidades.

A formação, porém, designa a gradual constituição de uma consciência do que distingue a totalidade da perfeição humana. Mais precisamente implica a reprodução de uma hierarquia de valores, implicando assim um modo ou modelo de valorar. É uma capacidade, também, mas que não se confunde com as demais, não apenas porque cada uma é diferente das outras, mas porque sua aplicação se exerce sobre todas as outras, correspondendo mais aproximadamente a uma capacidade de avaliar capacidades.

Mas que é assim que essa capacidade valora? O que ela procura ou o que ela vê nas demais capacidades? O que ela avalia nas demais capacidades é a relação que todas e cada uma mantém com algo que não se confunde com nenhuma delas. Esse algo é nos termos de Jaeger, como vimos, aquele ideal. Sem isso não há o que é o vil ou o que é o nobre. Há apenas aptidões que todos possuem, pois todos produzem coisas diversas e quando produzem as mesmas coisas alguns o fazem melhor nesse gênero de produto.

Podemos, sem dúvida, observar já aqui o quanto a postulação desse algo como “tipo ideal”, definido como modelo daquilo que “o homem deve ser”, está em Jaeger intimamente relacionado a uma concepção platônica. Sendo assim, trata-se de uma realidade ideal, sob o modo da eternidade, portanto o bem em si mesmo, sob o qual nenhuma crítica ou procura de causas poderia proceder. Interessante comparar esse ideal platônico subtraído do tempo com a concepção dos tipos ideais em Hegel.

Pois se aqui a realidade espiritual absoluta se plasma na história como outro do espírito – que é aquilo que o espírito é em seu devir – não se está menos frente a frente com esse eterno imperscrutável no sentido de um dado sempre já assim como tal encarnado no tipo ideal historicamente determinado de cada povo.

Mais fecundo se torna então o contraste entre essas concepções idealistas e a terminologia do valor em Nietzsche. A vontade de potência atua aí como aquele algo enquanto critério. Assim esse diferencial das forças ou capacidades não está isento ele mesmo do diagnóstico que vai esclarecer sobre as condições e os limites de sua própria valoração. É essa vontade “nobre” no sentido exclusivo de ser auto – afirmadora, isto é, na sua avaliação se pode observar que o que ela afirma é também o que afirma a vida? Ou o que ela afirma, como seu “ideal” de ascetismo contra-natura produzido por um intelectualismo vazio avesso à realidade, conduz a estimar como “superior” precisamente aquilo que se põe, sob a ótica de uma avaliação afirmadora, como “vil’?

E como se chega ao ideal desses “homens superiores” ou, inversamente, aos valores que afirmam a existência? A questão da formação assim se reveste de um aspecto

crítico – clínico. Ao invés de “ideal” é preciso pensar o critério em termos da vontade: o critério da avaliação dos valores como virtude existencial de afirmação.

Vemos então porque em Nietzsche os gregos oferecem o acesso mais adequado a essa questão, já que na Grécia a relação de formação e educação surge como a questão filosófica crucial a implicar escolhas determinantes quanto ao futuro da assimilação de uma esfera a outra.

Para nós, afeitos a uma civilização ocidental e democrática há séculos, tudo isso pode parecer algo inusitado. Nossas escolas e nossos profissionais de educação se esforçam ao máximo a fim de prover os meios mais adequados a fazer justamente desaparecer o fosso entre educação e formação, nesse sentido destacado por Jaeger. E o que procuramos embutir de formação na educação vai precisamente na direção de elidir as dicotomias, de instaurar um plano de igualdade social. Mas isso não implica que o problema do critério desapareceu.

A questão do niilismo está assim intimamente relacionada ao critério da vontade, ao sentido da avaliação, na medida em que este é eminentemente político num meio de capitalismo tecnológico que tende a substituir todo diferencial pelos universais – da comunicação ou da técnica. Mas não deixamos de cultivar algum “ideal” e por aí expressar o estado de nossa virtude existencial de avaliação.

Já na Grécia estamos diante de um fenômeno de todo ausente no contexto atual. Pois a educação, como observa Jaeger, é uma prática tão antiga e enraizada no modo de ser dos povos, como transmissão incessante de costumes e maneiras de viver, que nem sempre dela se teve consciência como de um domínio autônomo. Assim, entre os gregos, o que assistimos através da evolução do conceito de Aretê é justamente essa coalescência de uma esfera separada de ensino e propagação de saberes concomitante a importantes transformações na formação do “ideal”, para utilizar os termos de Jaeger.

Pois se nem sempre, na Grécia, a “formação” esteve de mãos dadas com a educação em geral, isso se deve a que por muito tempo o ideal permaneceu como apanágio exclusivo da classe dominante. Como se chegou aí, de modo pioneiro e fundante da civilização ocidental, no sentido mais específico desse termo, a um ideal cuja formação convergia com a educação enquanto processo que se estende a todos os cidadãos?

Inicialmente pareceria que a própria questão assim colocada, e devido a isso o empreendimento mesmo de Jaeger, redunda numa convergência entre as etapas da coalescência do uso clássico do termo Paidéia, a “educação dos meninos”, e as transformações do conceito de Aretê que acenam afinal para as transvalorações que acompanham a descontinuidade geopolítica assim tornada inevitavelmente geofilosófica. Mas Aretê não se restringe aos usos localizados, funcionando mais como um conceito cujos componentes se lançam na articulação das questões como traçados no plano de imanência clássico, a dividir sofistas e socráticos, retóricos e filósofos, a doxa e a episteme.

A simples enunciação da questão “é possível ensinar a Aretê?” é impensável na exterioridade desse plano de que só o século V poderá contemplar firmemente o traçado. Em nossa própria época podemos nos utilizar seguramente desse modo de junção do conceito de Aretê e procurar ver como é que se modula a avaliação, através de que processos e de que transformações em curso na esfera já plenamente separada da educação. Contudo a novidade dos gregos é essa separação. Através dela alcançamos o devir conceitual e os personagens que aí desempenharam os papéis mais decisivos.

 

– A Aretê Heróica

 

Em Jaeger há uma longa e precisa caracterização do ideal homérico da Aretê. A virtude suprema pertence aí ao herói e seu coroamento é a glória do guerreiro. Através das peripécias de Aquiles, na Ilíada, o ideal heróico se desenvolve confrontando as forças que no interior mesmo do homem lhe podem ser antagônicas.

Assim Aquiles prefere a glória à vida tranquila e anônima. Seu retorno ao campo de batalha se deve ao impulso de vingar Pátroclo. Impulso cavalheiresco, semelhante àquele que o fez anteriormente retirar-se por se sentir não devidamente aquinhoado na partilha do butim, tendo Agamenon interditado-lhe a posse de Briseida. Mas a glória dessa Aretê heróica não se confunde como simples poderio da força bruta. Aquiles finalmente exemplifica a hybris, como desmedida de seu orgulho, ao triunfar sobre Heitor.

A Aretê heróica comporta um alcance ético que é correlato de sua inserção, enquanto ideal, no plano maior do Cosmos. A ação humana fundamentada na prescrição dos deuses deve ser harmoniosamente pensada na extensão de toda a natureza.

Jaeger enfatiza assim que os elementos irracionais do devir, a Ate (cegueira momentânea provocada pela ilusão) e a Moira (destino), são apresentados na Ilíada como poderes não humanos mas sua atuação é de algum modo favorecida ou conjurada pelo próprio comportamento e atitude do homem.

O alcance ético da narrativa de Homero não se confunde assim de modo algum com o ideal de resignação da “sabedoria asiática” que trata “de evitar esse perigo pela inação e pela renúncia”. Inversamente a intenção ética se entrelaça a uma intenção pedagógica pois o que pretende instituir como a mais alta Aretê – que é também o que inspira a simpatia do poeta pelos Aqueus, o “resplendor imperecível do seu heroísmo” – está na oposição à ilusão ou à fatalidade na medida em que estas forças irracionais constituem obstáculos à ação e à aventura.

Jaeger observa ainda que a obra de Homero é inspirada “por um pensamento ‘filosófico’ relativo à natureza humana e às leis eternas que governam o mundo”. O essencial da vida humana é apresentado de modo que os acontecimentos são avaliados “pelas normas mais altas e a partir de premissas universais”. No entanto, quando se introduz esse termo, “lei”, um curioso deslocamento se observa no interior do discurso de Jaeger.

Pois se esse termo se estende no sentido daquilo que é por si mesmo universal, subentende-se que há uma conexão essencial entre conduta humana e natureza do mundo. Mas ocorre que o critério que inspira a avaliação e que produz o ideal não possui de modo algum essa natureza assim abrangente. Inversamente, como vimos, ele é atributo exclusivo da aristocracia.

A figura de Tersites, tentando tomar a posição “es meson”, “no meio”, da assembléia dos guerreiros, que aí ocupa aquele que exerce a palavra entre seus iguais, se torna tristemente caricatural na Ilíada: Ulisses o golpeia com o cetro. Ocorre que Tersites não pertence à aristocracia do Laós mas sim ao “demos”, à massa que “não ordena, não julga, não delibera”, conforme a expressão de Jeanmaire.

Jaeger chega a afirmar que a origem de “toda cultura superior” deriva efetivamente da “diferenciação das classes sociais” devida, afinal, à diferença natural “de valor espiritual e corporal” das pessoas! Assim, para ele, seria “pela própria natureza das coisas” que sempre se forma uma classe dominante constituída pela elite ou escol, mesmo se ocorre alteração no equilíbrio de poder existente na sociedade.

Desse modo, a formação de uma nação enquanto processo espiritual tem, para Jaeger, sua fonte na nobreza. Aquilo que se determina como formação posterior da cidade helênica deriva dessa fonte e conserva a marca da origem. No entanto Jaeger não desenvolve de modo algum as consequências desse processo que ele designa como “derivação”. Na verdade dever-se-ia bem mais falar de ruptura, mas como tal envolvendo mais do que simplesmente renúncia “à estreiteza das velhas concepções”.

O esquema de Jaeger pressupõe assim que a superioridade ou excelência é prerrogativa da elite mas para ele aquilo que permite formar essa elite não está, como na tradição, necessariamente vinculado à casta ou ao sangue, e sim à preeminência espiritual e à força moral. Se as condições sociais implicam no favorecimento dessas qualidades apenas no interior da nobreza de sangue numa determinada época, devido por exemplo à restrição da educação como formação apenas a seus membros, novos modos de agregação social podem fazer com que surjam desvinculadas das condições de nascimento.

O que está em jogo é aquilo que entre os gregos se denomina a Kalokagathia, isto é, a educação completa de espírito e corpo com vistas ao ideal do homem. Na sociedade estratificada este termo e mesmo esta concepção está ausente na propagação dos costumes como educação popular. É´ exclusivamente ideal cavalheiresco, isto é, aristocrático. Mais tarde ele se estende a todos os cidadãos enquanto iguais dentro da lógica exclusivista do Estado grego clássico: não inclui estrangeiros, muito menos escravos. Quanto às mulheres, há sem dúvida uma virtude feminina mas que de modo algum se confunde com o agathós – epíteto de um cavalheiro ou homem educado nesse sentido mais amplo que é o cidadão apto a exercer a maestria política da palavra, algo inconcebível para as mulheres naquele contexto histórico.

Nesse ponto chega-se à imbricação fundamental desse ideal de virtude com a linguagem. Com efeito, o ideal cavalheiresco da nobreza pode ser plenamente observado em Homero através da preponderância de sua vinculação com a bravura, a valentia ou habilidade guerreira, isto é, à honra, no sentido mais antigo. Contudo, algo que não parece muito destacado em Jaeger, mas que se torna evidenciado em Detienne, a “honra” não distingue por si só o cavalheiro se não se acompanha como uma habilidade que envolve a inteligência e a fluência na arte da palavra.

Quanto a isso pode-se observar a transição de Aquiles a Ulisses, entre a Ilíada e a Odisséia, como da habilidade puramente guerreira à astúcia do Logos. Ulisses é o herói do Logos no duplo sentido do termo, que inclui inteligência e habilidade verbal. É relevante observar como seu papel se torna central no estado de coisas relacionado à constituição da soberania em tempos de paz, isto é, naquela situação prototípica de constituição da nação consolidada, superados os perigos que ameaçavam o território. Se a bravura do guerreiro está sujeita à hybris do excesso, conforme o exemplo de Aquiles, Ulisses é a excelência aristocrática naquilo em que a Aretê desempenha a função modeladora na formação do ideal nesse sentido de aptidão ao exercício da soberania.

Pode-se assim inferir que a destreza ou domínio da linguagem aparece como credencial do exercício do poder. Ainda que Jaeger não desenvolva plenamente esse tópico, impõe-se a conclusão de que a conexão do mito com o ideal da Aretê heróica funciona como fundamentação social do poder da nobreza pois infunde no povo a crença na vinculação da superioridade dos nobres à ostentação do seu capital simbólico, como apanágio de sua origem divina, logo do seu potencial a governar.

Se Jaeger não destaca esse ponto do modo preponderante como o fazem por exemplo Vernant e Detienne, ele de certo modo o tangencia ao ressaltar a “função social e educadora do poeta” que possui uma “posição firme na sociedade dos homens” porque é ele o “mantenedor da glória”.

O poeta tem a função de inscrever na memória o exemplo a ser seguido, através do louvor ou da censura. À época arcaica, cada família nobre possuía seu próprio conjunto de mitos e rituais correspondentes, que lhe assegura a descendência dos deuses ou de heróis.

A vinculação ritual da memória torna-se assim importante para a compreensão dessa função educadora do poeta, não por seu “desígnio consciente de influenciar o ouvinte” mas pelo “simples fato de manter viva a glória através do canto”, conforme Jaeger. O foco agora deriva então para o exame desses “aspectos míticos da memória e do tempo”, expressão que serve de título ao capítulo dois da obra de Vernant “Mito e Pensamento entre os Gregos”.

Ressaltando o papel da memória enquanto função psicológica elaborada, Vernant observa que ela “põe em jogo um conjunto de operações mentais complexas” atingindo “grandes categorias psicológicas, como o tempo e o ‘eu’ “. Ocorre então que nesse modo de ver, a imagem que os homens conservam da memória é solidária às técnicas de rememoração praticadas, à organização interna da função e à sua situação no sistema do “eu”, em cada época e em cada cultura.

A memória não se dá apenas como função “natural” na espontaneidade de suas manifestações episódicas e individuais. Inversamente, ela se distingue daquilo que se conserva como puro hábito e se organiza, como invenção ou descoberta, variando no tempo o seu papel nas sociedades antigas. Assim no período arcaico, o pensamento mítico na Grécia preserva o exercício da memória como acesso ao presente eterno dos deuses que se situa, porém, como “arkhé” ou “tempo das origens”.

Esse passado se conserva pelo exercício do poeta inspirado. O exercício dos “aedos”, os iniciados na arte poética através dos ensinamentos ministrados em confrarias sobre as quais, como enfatiza Vernant, sabemos ainda muito pouco, abrange tanto o desenvolvimento da habilidade individual como o dom das musas e tem como objetivo o poder de rememoração (anamnesis).

Esse dom as musas concedem como o coroamento do esforço, treinamento e exercício do iniciado, representando assim uma conquista e revestindo de um caráter sagrado todo o processo de iniciação. Mas porque o tempo mítico das origens, aquele em que se desenvolvem os acontecimentos fundamentais do mito, é a arkhé de tudo o que existe, o dom da rememoração é também o dom da previdência, e constituiu uma verdadeira onisciência.

Podemos intuir a importância desse regime da memória cultivado entre os Aedos nessa época em que não há escrita e toda a tradição se conserva apenas pela via da palavra falada ou cantada. Mas a importância da palavra poética se conserva sempre no sentido de que através dela também se registra os feitos dos heróis, guardando-se assim a memória daquilo que deve ser louvado.

Recapitulando, os aspectos mais importantes da Aretê homérica residem na sua vinculação com o ideal do Agathon, a formação espiritual completa da nobreza cavalheiresca, conjugando à honra do guerreiro a sua excelência ética que se estende à habilidade de linguagem intimamente associada à desenvoltura com que se desimcumbe de qualquer tarefa digna ou transpõe qualquer obstáculo.

Se, como vimos, à comunidade de sangue substitui-se o laço comum da cidadania, esse ideal homérico, distinguindo os “aristoi“ (aristoi), isto é, os “melhores”, subsiste quando o quadro muda do período oligárquico, que Jaeger considera “primitivo”, ao período clássico, democrático. Com efeito, a importância de Homero não reside só na imensa tarefa que desempenhou enquanto estrutura fundamental da consciência de uma unidade grega. Ela pode ainda ser apreciada por esse aspecto de permanência e porque, conforme a expressão de Jaeger, em Homero se revela “com nitidez, todas as forças e tendências características que se manifestam no desenvolvimento posterior do povo grego”. Cabe agora examinar que outros fatores surgem de modo a produzir esse “desenvolvimento”.

 

 

– A Aretê Moral

 

Há algo de paradoxal na concepção heróica da Aretê, consistindo em impor um ideal humano mas que não deve, quase que por definição, estender-se a todos por igual. Inversamente, aquele ideal pressupõe uma desigualdade fundamental.

Em certo sentido se pode contemporizar e sublinhar a função do exemplo. O triunfo do herói expressa a superioridade do valor pelo qual ele combate, aquilo que nele se representa como aretê e que tende assim a constituir o que se deve emular.

Mas se não se pode negar esse aspecto tampouco deixa de importar o fato de que o Aghaton que distingue um nobre e o torna modelar também o mantém inigualável, como ideal inatingível, em relação ao demos. Implica também o Agon (disputa) dentro de sua própria classe: não basta pertencer à nobreza ou ao Laós, é preciso alcançar a Aretê.

Vimos o quanto o discurso de Jaeger, fortemente platonizado, admitia sem problemas esse princípio de desigualdade como fator natural da distinção de classes e de pessoas. Para ele o aspecto paradoxal se resolve na penetração salutar da influência do ideal, ainda que inalcançável pela massa.

Assim, é sem surpresa que se constata, em sua apresentação de Hesíodo, a intenção manifesta de garantir ora a preeminência de Homero, ora a influência das “camadas superiores” sobre a “vida espiritual do campo”.

Naturalmente Jaeger não deixa de afirmar o enraizamento popular de mitos cujas fontes não são homéricas e uma sabedoria prática peculiar à experiência de vida acumulada pelo povo. Mas pelo modo como ele entrelaça os fatores, e ao admitir que a transmissão de Homero pelos aedos se reservava “primitivamente” ao interior das residências de nobres, parece que Jaeger propõe uma gradativa penetração do seu conteúdo no campesinato, de modo que por fim Homero se torna o traço do que pode haver aí de espiritualmente mais excelso.

Sem aprofundar essa questão, e assim sem discutir a validade da asserção de Jaeger pela qual Hesíodo “se sujeita, sem vacilar, às formas estilizadas por Homero”, torna-se mais importante frisar a transformação ocorrida entre a ambientação tradicional da poesia homérica e aquela que será a de Hesíodo no século VIII.

Com alguma margem de manobra, recuando de um século a datação de Heródoto e localizando o contexto homérico a partir do século X, observamos que a concepção de Aretê heróica se instala plenamente na época subsequente ao remanejamento generalizado da população, devido à nova onda de invasões e à penetração dos Dórios. Nesse momento, como vimos, ocorre uma retração, a economia tornando-se agro-pastoril com a população agrupando-se em torno dos genos, sem indústria ou comércio.

Ocorre assim a preponderância dessas famílias nucleares que têm ainda condições de prover a segurança do território. O ideal heróico e o lugar do demos silencioso garantem em todo caso a continuação da vida social no meio daquele quadro ainda marcado pela instabilidade das convulsões recentes. Mas vimos também como a acumulação alterou essa primitiva composição de forças.

Já no século VIII um novo período se demarca. A situação política inclui agora a rivalidade entre os genos nobiliárquicos, entre os nobres e os novos ricos oriundos do comércio e da indústria e ainda entre os nobres e os pequenos agricultores. Assim ao tempo de Hesíodo a imagem da nobreza não era mais a dos protetores do território e mantenedores das bases da vida social aldeã. Surgiam mais com feições de rapina, como exploradores do labor alheio, ávidos e ociosos.

A desigualdade não pode mais ser associada a um dom de excelência pessoal mas surge como correlato da injustiça. Desigual é agora a proporção da riqueza em relação à pobreza. Trata-se de algo que parece, àquele que sofre a injustiça, como algo desonesto, desmedido. Pois a ambição dos que se consideram por natureza destinados a prevalecer, eis o que se pode afirmar sem limites.

A hybris não é mais tanto qualquer desmedida mas aquela que se caracteriza como usurpação do direito. Não se traduz por posturas desregradas como mera deselegância pressupondo assim um código cavalheiresco, ou prosaicas normas de etiqueta. Relaciona-se com a transgressão sobre a vida de outrem.

Portanto a Aretê se torna, inversamente a essa concepção de hybris, virtude moral no sentido de respeito mútuo, reciprocidade absoluta e inalienável. Quanto a isso é interessante confrontar a modulação que o termo “ético” exibe. Quando se afirma que o ideal do Agathon é ético, essa noção se estende a ideal do homem inteiro, à excelência da formação de corpo e espírito, contrastando com a parcialidade de uma capacidade específica. Mas quando se afirma que a conduta baseada no respeito pelo direito alheio é ética, considera-se o termo no sentido de valor moral pelo que a conduta pode ser considerada humana independente de sexo, classe ou mesmo etnia.

Trata-se, já naquele período recuado, na Grécia, de como se avalia a humanidade em geral no trato com a pessoa do outro. A Aretê moral também poderia se afirmar “humana” tout court, agora sem implicar algum paradoxo na expressão.

Os Erga de Hesíodo figuram o arquétipo da hybris que predomina na desigualdade das relações de pobres e ricos através da situação vivida pelo próprio poeta, que narra em primeira pessoa, o processo que se desenvolve então entre ele e seu irmão Perses.

Perses malbaratou, de início, as propriedades da família. Depois subornou os juízes de modo a ficar, indevidamente, com a maior parte da herança. Constantemente insiste com novos processos de modo a despojar gradativamente o irmão. Os Erga já foram considerados obra de circunstância, em meio a um desses processos de Perses, até porque o poema não nos informa quanto à decisão do juiz. Em todo caso, o poema enfeixa mensagens aos juízes que deverão deliberar sobre a causa. Tais mensagens aludem não só à própria luta judicial com Perses mas à situação geral dos pobres frente aos exploradores (“devoradores de presentes”).

Há também mensagens ao próprio Perses exortando-o para que se arrependa de suas injustiças, mitos que fundamentam o atual estado de hybris no mundo, como o de Prometeu e o da caixa de Pandora e fragmentos de sabedoria popular como conhecimentos e conselhos profissionais, normas sociais e de moral, concentrados em fórmulas facilmente memorizáveis.

A Aretê moral é aí finalmente considerada como a do verdadeiro êxito pois a maior bênção de Zeus é a Justiça. O caminho do êxito é o trabalho. Vê-se aqui como surge a noção de que se pode efetivamente ensinar a Aretê.

Se a excelência é algo que distingue como um dom ou o treinamento de uma vida a que se tem acesso privilegiado, a idéia de ensiná-la torna-se inaplicável. Não se pode ensinar um talento natural ou um conjunto de hábitos e atitudes que se torna como uma segunda natureza por ser assimilado desde a mais tenra infância. Tampouco se pode ensinar a credencial de um nome ilustre. Mas se a Aretê não se confunde com nada disso, sendo correlato da honestidade, no sentido de absoluta aversão à violência ou ao abuso do outro, então ela é efetivamente fruto de um ensinamento moral.

Contudo, em Hesíodo esse ensinamento é pensado ainda na base da transmissão de costumes, um atributo do povo através da valorização do trabalho. Mesmo assim podemos notar como naquele contexto antigo a concepção de que se pode ensinar a virtude nasce na ruptura com a ordem de coisas tradicional, ou seja, com a dominação da nobreza. A poesia de Hesíodo é o sintoma da revolução nascente na Grécia que a partir dessa época começa a instaurar a concepção de sociedade fundada na reciprocidade dos direitos e deveres dos seus membros.

Esse período, que se demarca entre os séculos VIII e VI ac. é de suma importância, tanto para a compreensão da geofilosofia clássica quanto para o futuro do Ocidente. Nele nascem a sociedade do direito e o pensamento racional. Hesíodo é o poeta que consolidou a voz do povo como fonte de sabedoria prática a partir da justiça e da equanimidade entre todos os participantes do socius.

São dois os fatores mais importantes na compreensão tanto da poesia de Hesíodo quanto desse período no qual ela se desenvolve. Esses fatores são a luta de classes que chega ao ápice na forma da escravização por dívidas e a nova expansão colonizadora. Como já examinamos o processo de esfacelamento no predomínio dos genos, agora devemos observar algo do novo ímpeto de colonização.

Geralmente ele se associa a três fatores: a densidade populacional, a situação política e o progresso da navegação. Já vimos como se plasmou a situação política pelo acirramento da luta de classes. Quanto ao incremento populacional, as invasões já haviam atuado nesse sentido.

Os gregos, como vimos, gradualmente restabeleceram sua atividade marítima e comercial. À época da retração em que a economia permaneceu agro-pastoril, os fenícios haviam se tornado os novos senhores do mar. Eram eles que traziam as mercadorias orientais que os helenos importavam e lentamente começaram a reproduzir.

A influência fenícia favoreceu a reintrodução da escrita e os gregos copiaram também a sua arte náutica. No entanto os gregos logo inovaram inventando a trirreme (Corinto, séc. VIII), barco com três classes de remadores, e superaram progressivamente os fenícios no domínio marítimo e comercial derivando daí a nova onda de expansão colonial.

Resulta assim a incorporação ao território grego antigo da Magna Grécia (Sul da Itália e Sicília) e de outras colônias abrangendo desde Fasis, na região mais a Leste do Mar Negro até a costa da Ibéria (Espanha), incluindo Massília no Sul da Gália (França), cidade que fundou, na mesma região, Nikaia (Niza), Antipolis (Antibes) e Monekis (Mônaco).

O quadro voltava assim a ser de intensa mobilidade espacial migratória. O desenvolvimento propiciado pelo intercâmbio comercial favoreceu a ruptura com as concepções mais tradicionais, efetivada especialmente nas cidades costeiras de cultura Jônia, como vimos de modo destacado no esquema de Sagan. O ambiente de inovações que libera a atitude racional e prática a ser aplicada a problemas de ordem intelectual, cria um novo modo de lidar também com questões especulativas fundamentais, favorecendo o início da filosofia. Paralelamente desenvolve-se uma nova concepção da memória que envolve uma atitude espiritual não simplesmente perpetuadora daquela tradição dos Aedos que cultuava Homero e a recitação dos mitos como seu exercício de Anamnesis.

Vernant ilustra essa transformação do regime da memória ao modo de uma mudança de ênfase, da cosmogonia à escatologia, isto é, à doutrina da metempsicose que se torna muito popular através das seitas órficas e pitagóricas.

O que se visa através da memória é agora encontrar a verdade do que cada um foi nas suas vidas anteriores e assim esquivar-se da identificação exclusiva com a existência atual. Essa identificação é interpretada como erro devido ao esquecimento. No culto de Orfeu, há também a aspiração a libertar-se do elemento herdado dos Titãs através de práticas ascéticas e preceitos de moral. Adotando uma regra de vida as almas podem libertar-se de sua condição sofredora, do “ciclo” ou “roda da necessidade”: elevar-se progressivamente do humano ao herói, do herói ao daímon (algo como “espírito”), do daímon ao deus.

Essa nova noção da Anamnésis supõe uma concepção de existência como expiação. Vemos como os mitos narrados por Hesíodo relacionavam-se já a uma visão pessimista do mundo. Se o âmbito da memória à época anterior saudava o triunfo do herói, sua concepção de existência abrangia o elemento glorioso naquele ambiente de equilíbrio social em que a classe dominante impunha seus valores sem contestações sobre um demos aquietado pela estabilidade dos costumes agrários.

Agora o espetáculo da dominação faz erguer a voz dos explorados que não observam no mundo nenhuma ordem perfeita, desde o início assegurando uma existência isenta de labor, restrições, lutas e enfrentamento de injustiças. O mundo, na visão da “outra” classe, é o lugar do esforço e se este é coroado do êxito do homem simples, com suas posses moderadas, o que resulta é a consciência da importância da ação, da aplicação das forças na superação dos obstáculos, na fé em Zeus e na observância da justiça que é o seu maior dom.

Assim a crença generalizada na metempsicose, o sucesso do orfismo, a profusão de seitas filosófico-religiosas, como o pitagorismo, testemunham essa transição. A mentalidade continua racional e prática mas também agora realista e consciente dos obstáculos materiais. A Aretê moral de Hesíodo tipifica esse período por contraste à Aretê heróica de modo que o próprio Homero é agora lido conforme a inflexão da época. É nesse sentido que a questão da sua influência sobre Hesíodo pode ser bem posicionada, ainda que por ora não me proponho a desenvolver tal questão.

Retornando à caracterização da atitude espiritual mais típica do período entre os séculos VIII e VI ac., Vernant examina detalhadamente o modo como Empédocles e Pitágoras desenvolvem essa nova função salvífica da memória. O que pretende demonstrar é que através deles se conserva a notícia de uma tradição antiga que atribuía poderes especiais a homens que a lenda designa “Magos”. Suas práticas de rememoração de vidas anteriores propiciada por técnicas de respiração evoluem no sentido de recuperar esses poderes. Há referências a procedimentos de êxtase e experiências visionárias atribuídas a Pitágoras, de quem se afirma que lembrava de todas as suas antigas vidas e há uma tradição de Empédocles como tendo sido também um mago.

Novas teogonias se desenvolvem (Helânicos, Ferecides) e nelas a tarefa de fixar o tempo como Arkhé se transforma. O tempo se torna uma espécie de imagem imóvel da eternidade, algo que se subtrai ao devir e é simbolizado como uma serpente enrolada sobre si mesma, em um círculo. Vernant propõe que o realce dessa concepção do tempo corresponde à necessidade de preservar de algum modo a visão mais antiga relacionada a Homero, com sua noção de tempo imutável já predeterminado pelos acontecimentos míticos, nessa época nova em que a existência do tempo humano e material, linear, contingente e sucessivo assume a preponderância no mundo prático.

A rotina dos negócios, a mobilidade espacial, os afazeres e o progresso vertiginoso nesse período de expansão impõem lentamente essa realidade temporal dessacralizada que alcançará livre expressão na poesia lírica nascente por volta do século VII. Observe-se quanto a isso que Hesíodo já se expressava a partir de uma posição pessoal, utilizando o pronome “eu”, como vimos.

A Aretê moral da poesia de Hesíodo surge assim como a outra voz, aquela que devia permanecer em silêncio no mundo da nobreza homérica. Contudo esse quadro antitético parece acenar mais para um cenário de transformação do que simplesmente a uma alternância radical de pontos de vista. Como essas forças antagônicas evoluem durante esse período de expansão é o que devemos examinar agora.


·  A Aretê Patriótica

 

O período entre os séculos VIII e VI ac. se desenvolveu sob o influxo de uma verdadeira revolução econômica. A indústria do azeite não apenas introduziu um produto alimentício mas substituiu a manteiga e os archotes na iluminação, na Grécia e em certas porções do oriente. `A produção do óleo somou-se a do vinho, conjugando-se ainda a uma expansão na exportação da cerâmica.

Até o século VIII, desde a fase proto – geométrica, a decoração dos vasos evolui no sentido do geométrico puro. Ao longo do século VII os geometrismos recuam, assim como a organização das cenas restritas a bandas horizontais. As figuras desenhadas com traços pretos com detalhes ocasionais em branco e vermelho são progressivamente mais estilizadas, tendendo a ocupar maiores espaços nos vasos que são geralmente pequenos, como no vaso Chigi atualmente no Museu Nacional de Vila Giulia, em Roma. Especialmente a Corinto do século VII é o centro de produção dessa cerâmica produzindo também uma pintura mural primitiva. Posteriormente o foco de produção dessas artes deverá migrar para Atenas.

Na Ásia Menor os rebanhos de ovelhas, famosos pela qualidade de sua lã, favoreceram a indústria têxtil que se tornou proeminente juntamente com a de trabalhos em couro e madeira e o desenvolvimento da metalurgia.

Em geral a expansão abrangeu indústria, comércio e navegação. Mas a essa revolução do cultivo seguem-se consequências paradoxais. O surgimento da nova classe de grandes comerciantes e industriais relaciona-se tanto com o aumento de cidades com regimes de participação popular quanto com o incremento do escravismo.

Especialmente a produção de vinho e óleo se torna adequada ao trabalho escravo por exigir muitos braços sob o comando de um só proprietário. Mas os escravos são também utilizados nas fábricas, servindo ainda como remadores de barcos. Assim se pelo menos na Ásia Menor se pode constatar a proliferação de regimes urbanos emancipados no sentido da democracia, concomitantemente ocorre a expansão das condições deploráveis de escravização. Mas em geral considera-se que o crescimento econômico do período foi paralelo ao desenvolvimento político e social pois daí decorre a formação e o desenvolvimento da pólis grega.

Nesse sentido podemos situar aí a origem do multimorfismo de que a Polis vai se revestir no conjunto do território heleno. Enquanto na Ásia Menor o fenômeno de expansão do comércio rege as transformações da vida urbana, em alguns lugares do continente o esfacelamento dos genos que dominavam a organização à época do recesso agrícola produziu um quadro bilateral. Mantinham-se duas classes, a dos grandes proprietários de terras provenientes das famílias outrora unidas pelo genos e que repartiam assim o território herdado e a dos muitos pequenos agricultores. Esse é o caso da Beócia de Hesíodo, por exemplo.

Já em outros lugares do continente, as famílias oriundas do antigo geno predominante que repartiram o território subjugaram o restante da população reduzindo-a à servidão. Esse é o caso exemplar de Sparta, conforme Rostovtzef.

A Ilíada situa o reino de Menelau, esposo de Helena, na Lacônia ou Lacedemônia, no vale do Eurotas, que Homero considerava dentre os mais poderosos reinos do Peloponeso. Posteriormente a região foi conquistada pelos dórios que aí fundaram a cidade de Sparta.

Ellauri e Baridon observam que os dórios deslocaram os antigos habitantes para se instalar na planície mais fértil do lugar. Os Lacedemônios ocuparam a zona montanhosa e foram assim chamados “Periecos” por situar-se “ao redor da casa”. Essa população se conservava livre ainda que inteiramente subordinada à classe dominante.

Os grupos dórios instalados na planície denominavam-se “Esparciatas”. Por volta do século VIII apoderaram-se das terras vizinhas, a região da Messênia. Esse fato constitui um marco fundador na história espartana.

A escravização dos messênios os tornou constituintes da classe dos “Hilotas” mas reordenou também a própria organização do Estado. A essa reordenação dois nomes estão associados: Licurgo e Tirteu.

A conquista da Messênia não foi um empreendimento fácil. Uma federação dos Estados do Peloponeso, como noticia Rostovteff, interferiu no sentido de defende-la. Mesmo assim a dominação se implementou seguindo-se porém um novo período de guerra devido a uma longa sublevação iniciada alguns anos depois da consolidação da hegemonia de Sparta.

A atuação nesse novo período de conflito armado com a Messênia foi decisiva. Parece que Tirteu chegou a ocupar o posto de general mas a reinvestida do exército, após um momento de vacilação causado pela tenacidade dos revoltosos, deveu-se mais ao vigor dos seus poemas elegíacos que renovaram a força moral dos combatentes espartanos.

Como observa Jaeger, originalmente a elegia não possuía a forma de lamentação, distinguindo-se da epopéia apenas por pressupor um interlocutor. Tirteu exorta a comunidade a manter a campanha lembrando-a de que o destino dos messênios já uma vez subjugados espreitava os próprios espartanos caso desistissem de defender o seu domínio. Verifica-se assim, contudo, um sentido de alcance mais geral nessa poesia pois através de Tirteu o que ocorre é uma modulação da aretê heróica dos nobres ao ideal do cidadão espartano.

Essa extensão das características do herói ao grupo social se mantém por exemplo na transformação das técnicas de combate através da reforma hoplita, que se origina nesse período em Sparta e posteriormente se torna comum na Grécia. Assim os guerreiros agora formam grupos compactos ao invés de se distinguir, como nas narrativas homéricas, nos moldes do combate singular. As virtudes necessárias do hoplita são portanto o espírito de grupo, a capacidade de se movimentar conjuntamente e sobretudo de não desfazer a formação. Já o herói do combate singular, inversamente, era louvado por sua iniciativa, inventividade, capacidade de distinguir-se pela bravura pessoal, o que o dotava de ampla liberdade de iniciativa e movimentos em relação à tropa.

Após essa nova consolidação da hegemonia em Sparta, as três classes sociais resultantes de esparciatas, periecos e hilotas não constituíam um quadro estável. A situação dos hilotas era deplorável. Mesmo com todas as ameaças do terror estatal constantemente logravam organizar revoltas com vistas a se libertarem da escravização. Os esparciatas viam-se assim na contingência de manter incessantemente a vigilância contra a população hilota. E como os esparciatas formavam a classe dos que se consideravam cidadãos, logo a cidade – Estado se tornou uma associação entre iguais orientada para a guerra. Se em relação ao exterior não havia motivos para um conflito armado, a necessidade de manter o jugo sobre os hilotas justificava tal orientação.

Licurgo surge como a figura do legislador, o autor das rhetra (leis constitucionais) que instituíam o poder da “Apella” ou “Assembléia Popular”. Conservava-se a função dos Éforos que apresentavam as leis a serem votadas e representavam formalmente a soberania juntamente com os dois reis instituídos mais como figuras simbólicas. Porém a instituição dos éforos, sintomaticamente como ressalta Jaeger, é a única não atribuída a Licurgo.

As rhetra não correspondem à nossa noção de carta constitucional, nem mesmo ao que em outras regiões da Grécia se compreende como legislação. Não são leis particularmente aplicáveis mas o registro de uma “tradição oral” mantida como o “nomos” nesse sentido espartano do termo. As leis de Licurgo fundamentam uma ética de cidadania característica da mentalidade esparciata. Nesse sentido elas correspondem a uma educação que molda desde o berço a moral do cidadão.

O Estado escravocrata militarizado, como observa Jaeger, constitui “a abominação dos democratas do mundo inteiro”. Todos os membros da classe dos cidadãos dotados de direitos políticos eram elementos permanentes do exército que nem mesmo moravam na casa que possuíam, residindo na caserna. Quanto à educação no sentido cultural do termo, limitava-se ao estritamente necessário: ler, escrever e contar. O isolamento de Sparta no meio altamente desenvolvido das cidades helenas é notável.

No entanto a solidez das instituições espartanas inspirou a adesão de Xenofonte e uma concepção entusiástica ingênua que via na constituição de Licurgo uma espécie de arquétipo do que deveria ser a política no sentido da integração total do cidadão com o ideal da Aretê da nobreza podendo-se estender agora a todos os membros da sociedade.

Jaeger observa que essa visão é “estilizada” e influenciada, tanto em Xenofonte quanto na biografia de Licurgo por Plutarco, pela reação contra a cultura do século IV, que vicejava como profusão de vozes audaciosas naquele ambiente conflituoso. A intenção de Jaeger é pôr em relevo o fato de que tais relatos “românticos” mascaram a realidade do pouco que sabemos sobre a antiga Sparta.

Mesmo assim a exposição na “Paidéia” do que vem a se tornar a Aretê heróica através das elegias de Tirteu não chegam, parece-me, a mudar substancialmente a concepção de que o sistema espartano constituiu um molde de total subjugação do indivíduo ao Estado. Se isso pôde parecer algo desejável no meio de corrupção que havia se instaurado à época de Platão não se deve menos observar que essa aparência não contradiz de modo algum o impulso oligárquico do pensamento político daqueles que assim se deixavam “influenciar”.

Os poemas de Tirteu, que expressam com clareza o ideal da Aretê como o “valor guerreiro”, modulam porém esse heroísmo cuja fonte de inspiração original é Homero. Para Tirteu, inversamente ao que ocorre na Ilíada e na Odisséia, não se trata de um valor cujo correlato é a glória pessoal do guerreiro. O heroísmo agora só é valoroso por corresponder ao amor da pátria. O epíteto de herói só pode ser afirmado daquele que aceita se sacrificar por ela.

O valor do nome substituiu o da pessoa, na argumentação de Tirteu exortando a esse ideal patriótico, pois o nome dos que se sacrificaram pela comunidade se preserva para sempre. É a ética do Estado que se torna o critério do valor da vida. Os que se sacrificam no campo de batalha ou os que vencem a guerra e retornam vitoriosos só são honrados porque sua ação tem a comunidade por fundamento e motivação.

Nunca anteriormente o Estado havia sido elevado à natureza dos deuses, venerado como ideal religioso, e esse é o princípio novo instaurado nos poemas de Tirteu. A transformação, da Aretê da epopéia homérica à Aretê elegíaca de Tirteu abrange assim a atitude religiosa pois agora a Polis é que dá sentido a tudo, deuses e homens.

A importância literária de Tirteu se conservou como a mensagem do heroísmo patriótico do cidadão que se estende no sentido ideal da comunidade. Seu valor, quanto a isso, transcendeu às circunstâncias da localização histórica, Sparta e a guerra contra os escravos rebeldes. Nessa localização específica, porém, Tirteu foi o educador, no sentido mais próximo ao atual do termo, pois instituiu no seu ensinamento o alcance de uma verdadeira formação. Estendeu a todos os cidadãos o ideal heróico-patriótico da Aretê e constituiu assim uma espécie de nobreza por cidadania.

Não obstante, não creio que se deva minimizar o fato de que esse ideal “educativo” só pôde se desenvolver por meio de uma dominação constantemente exercida sobre um povo escravizado. A importância de ressaltar esse aspecto reside a meu ver no fato de que ele é exemplar. Toda subjugação “heróica”, logo de tipo fascista, da pessoa ao Estado, depende fundamentalmente de uma classe estigmatizada a explorar.

 

 

A Aretê e o Logos

 

a) Trasformação do Nomos

 

Na origem o povo de Atenas traz as marcas do múltiplo e da margem. Estando situada paralelamente à Argólida, a Ática, região em que se localiza Atenas, não faz parte da rota que une a Grécia Central ao Peloponeso através do istmo de Corinto e por isso ficou fora do âmbito das invasões dórias. Em compensação constituiu uma região natural de refúgio para os fugitivos, conforme Baridon e Ellauri. Harvey registra também a “infiltração gradual de estrangeiros”, atraídos pela importância comercial de Atenas.

À mistura de elementos pré-helênicos e micênicos somou-se o cosmopolitismo dos emigrantes oriundos “de muitas terras”, conforme a expressão de Harvey. Contudo, e principalmente em Atenas, considera-se o jônio como o ramo predominante cuja influência cultural estende-se por toda a Ática.

O interregno entre o início das invasões dórias e o século VIII, o chamado período homérico da historiografia oficial, configurou portanto uma exceção em Atenas, tendo aí evoluído pacificamente, à margem do quadro conturbado da conquista comum às outras regiões gregas.

A Ática dessa época era um conjunto de pequenas comunidades independentes, cada uma com seu “centro político e financeiro”, conforme Rostovtzeff. Por volta do século VIII ocorre a congregação de todas essas comunidades tendo Atenas como centro.

A importância da cidade tem a ver com a vantagem de sua posição. Se a Ática forma uma unidade geográfica, a saída mais conveniente para o mar são os dois portos atenienses, o Faleros e o Pireu. A cidade mesma se localiza a 5 km do Egeu, junto ao maciço rochoso central que mais tarde veio a ser a Acrópole povoada de templos. Atená é a protetora da cidade e o Paternon, seu templo, predomina no espaço da Acrópole. Atenas é uma das três planícies férteis da Ática, juntamente com Maratona e Eleusis.

A “união” das comunidades da Ática com capital em Atenas foi gradual, livre e pacífica. Os gregos atribuíam esse “sinecismo” ou “simpoliteia” ao lendário Teseu, descendente do rei fundador Cécrops que possuía corpo de homem até a cintura e membros inferiores na forma de serpente.

A monarquia ateniense cedeu gradualmente à aristocracia. Os “eupátridas”, os “bem nascidos”, possuíam os melhores territórios agrícolas da região e a posse era inalienável, hereditária. A consolidação do domínio dos eupátridas limitando o poder do monarca principia com a instituição dos três arcontes dentre os quais estabelecia-se o rei eleito como representante apenas do poder religioso. Os outros dois arcontes eram o Polemarco, chefe do exército e o Epônimo, juiz supremo na qualidade de chefe de Estado. Mais tarde nomearam-se mais seis arcontes, os Tesmostetes, que atuavam como juízes.

A oligarquia vigorou na Ática como o governo dos Eupátridas mas sua hegemonia tornou-se cada vez mais problemática à medida em que a economia se afastava da forma puramente agrícola. A partir do século VIII desenvolveu-se a revolução econômica grega, como vimos, e o surgimento de uma nova classe abastada, juntamente com a opressão exercida sobre os pequenos agricultores, levou a uma situação próxima da guerra civil. O resultado inicial mais importante da limitação do poder dos nobres foi a introdução da lei escrita, por Dracon, no século VII ac.

Jaeger considera o código draconiano apenas como tendo significado “uma consolidação das relações” já existentes, o rompimento da tradição só podendo ser efetivamente afirmado com as reformas de Clístenes que instituíram a democracia em Atenas. Contudo a importância da introdução da lei escrita não se mede apenas pelo fato empírico, já de tão grande alcance, pelo qual os nobres não podiam mais torcer ou deformar o “Nomos” que ainda se considerava no sentido original de “tradição oral” ou “costume”.

A meu ver a questão se torna mais preponderante no contexto daquilo que se tornará a cultura ateniense clássica e isso pode ser evidenciado através de uma mudança de ênfase na leitura da expressão “lei escrita”.

Habitualmente pensamos que o que há de interesse quanto à introdução do registro da lei somente implica uma análise no âmbito que afeta a própria lei. Contudo, o que me parece de suma importância aqui é toda uma constelação de termos relativos à escrita.

Não que aquela análise também não tenha muito a revelar. Neste sentido não creio que o registro implique só uma “consolidação” de costumes.

Se tudo se resumisse a isso teríamos apenas o seguinte esquema: o “Nomos” constitui uma repartição de direitos cujo critério é a justiça. Os nobres se valem de sua duplicidade. Pois justiça tanto se afirma no sentido ressaltado por Hesíodo, equilíbrio recíproco de direitos e deveres na ordem equitativa do mundo abrangendo assim a Polis e o Cosmos, quanto se restringe às cortes e tribunais, isto é, à instituição civil que se encarrega do julgamento. É nesse último sentido que os nobres podem dobra-la através da compra de juízes, ou apelação a prerrogativas derivadas do pretenso fundamento mítico do poder da estirpe. Com o registro porém o sentido intrínseco da justiça, aquele de Hesíodo, se torna incontornável. Mesmo que os juízes sejam eles mesmos nobres suas decisões estão doravante submetidas à norma instituída.

Ocorre que o papel da justiça se altera, desde os tempos homéricos até esse período, entre os séculos VIII e VI que a historiografia em curso nas escolas denomina arcaico. Em Homero a “themis”, ou “lei”, deriva de Zeus que a concede, juntamente com o cetro, ao rei. A themis era assim o equivalente da justiça no código cavalheiresco da nobreza, critério de formação do ideal da Aretê heróica. Nos tempos arcaicos a confrontação de classes transpõe o significado moral da dominação dos nobres no sentido de que, do ponto de vista dos “outros”, sua themis outorgada designa agora justamente o oposto do que lhes surge como o correlato essencial da lei, a igualdade de direitos, e esse sentido se torna o prevalente do termo justiça (dike).

O papel da justiça se torna assim fundamental. É a justiça que dá o sentido à themis, à lei, não o inverso. O desenvolvimento de sua nova abrangência deve ser considerado através das evoluções que se operam nas cidades jônicas da Ásia Menor.

Jaeger observa que mesmo em Homero a figura de Ulisses já traz algo dessa vocação jônica de expansão. Ele equipara o itinerário das viagens de Ulisses à expansão marítima e comercial dos jônios. Surge assim, do confronto com outros povos e culturas, a ampliação de horizontes que se associa à independência do espírito manifestando-se na poesia lírica e na filosofia, nascentes. Em todos esses domínios penetra a noção de uma limitação natural dos poderes no sentido de uma igualdade que dá aos opostos a justa medida de sua tensão na coexistência, conforme se vê em Heráclito.

Já examinamos o alcance que o termo justiça mantém na sentença de Anaximandro. Vimos que ali impera esse sentido de coexistência e limitação que abrange igualmente a todas as coisas. Não me parece que se possa colocar numa só via o influxo entre a centralidade dessa noção entre poetas e filósofos e a vida pública, o exercício institucional do direito. Jaeger pensa que o discurso poético e filosófico é apenas um reflexo desse exercício no qual a luta de classes se encarrega de impor progressivamente o sentido da justiça como igualdade.

Contudo não me parece menos inadequado supor que esse discurso “precede a realidade”. O que se pode afirmar é que toda a atitude ética e espiritual desse período se processa, como a formação perfeitamente assinalável de uma feição própria, em franca ruptura com o período homérico anterior, de modo que nele se desenvolvem os fundamentos da cultura “política”, isto é, da Polis, que devem caracterizar o clássico sem contudo se reduzir de todo também a este. É a essa mentalidade do arcaico como um todo que se deve imputar tanto “os progressos da vida pública” quanto os desenvolvimentos filosófico e lírico. Não se pode simplesmente separar o espírito do tempo de suas práticas constitutivas.

Se em Hesíodo os contornos dessa noção nova de justiça podem ser bem apreciados, nele o Nomos ainda se conservava, como vimos, no sentido de “tradição oral”. Trata-se então de fazer remontar, pela reflexão da palavra poética, o termo e a prática ao seu fundamento e instalar esse fundamento justamente no interior da novidade da noção, agora associada ao direito e à igualdade por este garantida. Mas o desenvolvimento da idéia deve conduzir à correlata transformação da noção mesma do Nomos.

É o que ocorre com o registro da lei. Enquanto “tradição” o Nomos é algo que se fundamenta sempre por transcendência de princípio, traço recuperável pela forma mítica com que se reveste o pensamento de Hesíodo. A lei escrita é já o Nomos imanente, no sentido de que se auto-fundamenta ele mesmo como princípio derivado da justiça pelo exercício do direito. O Nomos expressa o sentido da vida pública naquilo em que ela é materialmente exequível apenas pela limitação do que cabe, a cada um: direitos e deveres.

Seria, ao inverso do “costume” consolidado, o registro de uma “lei” natural, em conformidade com o funcionamento do mundo. Podemos aquilatar o sentido da transformação em curso abrangendo a noção de Nomos do seguinte modo: observando o antigo significado, vemos que ele permitia o uso da expressão “direito” de fazer justiça com as próprias mãos, e a consequente apelação dos nobres, como frequentemente ocorria, à sua origem como fundação mítica desse mesmo “direito”. Já o novo sentido, intrínseco ao Nomos registrável, impede completamente uma tal extensão semântica.

O “direito” como aquilo que a justiça fundamenta consiste precisamente agora na igualdade de atribuições e se estende a todos por definição. Como fazer justiça com as próprias mãos não pode de modo algum ser atributo de todos, pois isso seria o caos social, segue-se que não pode ser considerado um direito de quem quer que seja, logo torna-se hybris pratica-lo ou mesmo pretender poder fazê-lo.


b) As Aporias do Homo – Escritura

 

O traço mais proeminente da nova concepção de escritura, essa concepção tão bem relacionada aos outros elementos que se unem no espírito do tempo arcaico, já posta em jogo na possibilidade de registro da lei, é aparentemente a publicidade. A escritura é a palavra que se constitui pelo olhar. Blanchot o enunciou com surpreendente clareza: “escrever começa com o olhar de Orfeu”. Mas “para escrever, é preciso que já se escreva”. Há nesse trecho do “Espaço Literário” um aceno à essência.

Resta que a essência enunciada não se comporta como uma definição e só pode ser visada ao modo de um movimento.

Movimento de paradoxo absoluto, olho do furacão, a intransponível imobilidade da aporia se enuncia como o motor desse movimento instaurador de escritura. Somente se escreve se se atinge esse instante do canto, da palavra poética escrita, mas chegar a esse instante só é possível pelo ato mesmo de escritura. O olhar proibido, a hybris do olhar: insistência paradoxal do desejo em transpor pela visão o limite mesmo da visibilidade.

A inspiração extrapola todo canto, toda escritura, vem de alhures, continua a estar alhures. A inspiração é o movimento da liberdade, pertence ao reino do numinoso. O reino da inspiração é conexo ao da alma, do sopro, da voz, mas o canto é o corpo da escritura, sua materialidade e única realidade a qual é por natureza visível. O olhar é o meio de sua reconexão, do canto à origem, do som ao sentido, através do exercício da leitura. É por isso que a armadilha reside no olhar, a que Orfeu sucumbe. Pois o segredo da reconexão por meio do olhar seria precisamente não ver.

Ignorar a materialidade da escritura que só pode existir para ser vista e só pode pôr em funcionamento o sentido através da publicidade do seu dar-se a ver mas que só conserva a autenticidade de sua missão pelo anular-se de sua visibilidade através da decifração que repõe a voz. Ética da leitura, nessa paragem mítica, revelação religiosa da verdade do ser.

Precisamente a economia de toda a concepção dualista do orfismo, imperante nesse período em termos de uma certa mentalidade comum à profusão de seitas. O corpo-letra-escritura opondo-se à alma-sopro-voz-sentido. Mas o vivente não pode conjurar o corpo, todo o compromisso com a materialidade, ainda que sua regra de vida se exerça no sentido da liberação da alma dentro dos limites da existência. Assim a publicidade da escritura conserva o seu duplo corte fascinante, acesso ao mesmo tempo interdição, pois ao inverso das identificações ingênuas dos não-iniciados, a escritura jamais será a voz, tem suas leis imanentes, não se exerce no mesmo plano da alma.

E no entanto que mais de terreno tão próximo à alma do que o canto, a palavra poética registrada, o olhar? Por que outro meio “contemplar”, senão pela “teoria” – isso mesmo que pertence ao reino da Escritura?

Jaeger julga “sem qualquer conexão” a polimatia de Pitágoras e a doutrina por ele professada da transmigração das almas “vinculada à seita religiosa dos órficos”. Nesse mesmo trecho, menciona a conceituação aristotélica do conhecimento pré-socrático que faz intervir a oposição entre a “metereologia” dos jônios e as “mathematha” ou “estudos” dos pitagóricos que Jaeger parece assimilar à polimatia.

A questão para Jaeger é assim negar qualquer atribuição de Pitágoras “como uma espécie de curandeiro” e afirmar o heteróclito das “mathematha” numa base puramente “singular e acidental”.

Mas que a conjunção pitagórica da teoria com o mito, da polimatia com a doutrina da transmigração, se exerce como exemplar tanto da mentalidade arcaica quanto das transformações em curso, isso pode ser observado através de Empédocles.

Já examinamos o sentido da metempsicose quanto à imposição de um novo regime de exercício da memória. Ocorre que de Pitágoras a Empédocles podemos detectar com precisão o curso dessa transformação, o rumo que toma e que se acentua no futuro da época clássica. Esse rumo intercepta o novo regime do exercício da Escritura.

Empédocles escreveu as “Purificações”, exaltando Pitágoras, e Diógenes Laércio o classifica entre os pitagóricos, atribuindo a Neantes o seguinte relato: até a época de Empédocles “todos os pitagóricos participavam de conversas”. Mas quando Empédocles “as divulgou em seu poema, os pitagóricos tomaram a decisão de não dar conhecimento de sua doutrina a nenhum poeta”. Laércio ressalta que “não se diz, todavia”, de que filósofo pitagórico Empédocles teria sido ouvinte.

Apresentando-se como “theos âner”, homem – deus, imortal, Empédocles afirmava ter alcançado essa condição pela anamnesis de suas vidas anteriores e pelo conhecimento da natureza eterna da alma. Sabemos que nisso ele estava em total acordo com a doutrina pitagórica. Mas a sua novidade vem da escritura: a descrição do processo rememorativo como “uma tensão de todas as forças do espírito”; a utilização do termo “prapides” como misto de sinônimo de espírito, designação do movimento do diafragma e termo da assimilação da alma ao sopro e à respiração, modo pelo que ela se mistura ao corpo; a noção de anamnesis como ascese da alma; afirmação dos poderes que ela assim obtém como a faculdade de projeção astral. Que tudo isso se possa registrar parece impensável no século VI pitagórico. Como se torna exequível no século V de Empédocles? E o mais importante: em que o fato mesmo do registro altera a forma do registrado?

A questão abrange a barra, entre a voz e a letra, entre oralidade e escritura, sendo a natureza da barra reduplicar uma segunda oposição, entre o sagrado e o público, o que se mantém oculto e o que se dá a revelar – e porque não entre o mito e o pensamento racional?

É oportuno observar que Pitágoras está associado à fundação da retórica. Córax e Tísias, conforme Aristóteles, foram os pioneiros a “dar um método e regras” às questões submetidas aos tribunais. A invenção da retórica na Sicília começa assim por ser científica, “baseada na demonstração técnica do verossímil”, para utilizar a expressão de Armando Plebe. Mas em seguida a Magna Grécia engendra uma nova teorização retórica, dessa vez não – científica, psicagógica, isto é, “fundada na sedução irracional que a palavra, sabiamente usada, exerce sobre o ouvinte”.

Essa escola, contemporânea de Córax e Tísias, era pitagórica. Já no “Sofista” Aristóteles atribuía a Empédocles a invenção da retórica “goeteýonta”, isto é, como arte de fascinação e encantamento através da palavra falada. O verbo goeteýo tem o duplo sentido de sedução oral ou de feitiçaria em geral.

A retórica assim codificada a partir do século V não deixa de prolongar, pela sistematização de seus procedimentos, a prática antiquíssima que a inspira. Assim vemos mais um domínio atravessar a fronteira da oralidade no rumo do registro. Esse processo generalizado que vai da prática oral empírica à sistematização escrita pode ainda ser rastreado pelo mito. Em Detienne a barra que franqueia a escritura se personifica no lendário Palamedes, o rival de Ulisses.

O domínio mítico helênico, inversamente ao que ocorre no complexo de crenças em outras culturas politeístas, reserva a escritura como atributo puramente humano. Em Veneto, na Itália etrusca, por exemplo, Detienne reporta o templo da deusa da Escritura, Reitia. Suméria, Babilônia e Egito são exemplos de culturas em que os deuses escrevem o real, portando por vezes as plaquetas do destino.

Na era grega arcaica, os deuses “integrados no sistema político-religioso” possuem templos de domínio público onde são fixados as decisões da assembléia e os decretos da cidade, mas escritos por seres humanos que se encarregavam tanto dos assuntos sagrados quanto dos assuntos legais. Podemos recordar Io, fazendo valer sua natureza humana através da escritura do seu próprio nome.

Na Grécia desse período começa-se a engajar escribas. As cidades os contratam, mas sem atribuir-lhes qualquer função sacerdotal. Ele devia apenas, como perito em letras fenícias ou purpúreas, registrar as leis e decisões da cidade gravando-as sobre a pedra, suporte marmóreo, em letras coloridas, com cinco ou seis centímetros.

Estásimo de Chipre, do século VII ac., é o autor dos “Cantos Cíprios”, em que se narra os acontecimentos decisivos da Guerra de Tróia, até o início da Ilíada. É então que a figura de Palamedes se torna importante. Ele denuncia a pretensa loucura de Ulisses como pretexto para não participar da guerra. Palamedes é o homem de inteligência prática, que sabe contornar dificuldades e resolver aporias.

É o inventor de jogos que descobriu também o alfabeto e a métrica, isto é, o sistema de pesos e medidas. Através do abecedário Palamedes resolve, em Aulis, o problema do abastecimento de víveres que afligia a tropa. Ele o resolve com a aplicação do registro num processo minucioso de racionamento que partilha tudo com justeza, por igual, entre as fileiras do exército, de modo que todos se sentem contemplados com sua porção.

Na Grécia o sistema alfabético era acrofônico, servindo também para designar números. Jogos, escritura e cálculo são o apanágio, na Grécia – e mesmo em outros lugares onde, inversamente, sua introdução é atribuída aos deuses – de um mesmo tipo de habilidade inventiva.

Aquiles, o herói da profundidade corporal, o homo natura, se opõe a Ulisses, o homo historia, a voz da altura. Ulisses, como a voz, está efetivamente sempre vindo, sempre a chegar. Palamedes surge como a superfície de inscrição, o herói da Escritura. A tensão se faz então entre Ulisses e Palamedes, não entre qualquer dos dois e Aquiles.

Assim o complô de Ulisses contra Palamedes se serve afinal da duplicidade da escrita naquilo em que nela se pode estabelecer de relação com o seu fora. Pois se a escritura é um meio de resolver querelas é porque no seu sistema de inscrição ela fixa a verdade – a mensagem da carta ou do documento – como se furtasse o conteúdo formal do devir da voz que não pode se separar de todo o contexto corporal e mundano, fluente e mutável com o tempo.

A materialidade da escritura se opõe à alma e à voz, mas tampouco se confunde com a materialidade do mundo à qual afinal, como vimos no mito de Orfeu, alma e voz estão subsumidas. Inversamente, a materialidade da escritura faz sistema e não se retrata como conteúdo, ela engendra o puro elemento formal – assim como o jogo e o cálculo.

A materialidade do mundo porém não pode se furtar ao devir e é nesse elemento fluente que Ulisses se instala. Palamedes usa a escrita para formalizar a verdade extraindo-a do devir e fixando-a na superfície de inscrição. Ulisses opera a reversão dessa possibilidade formal inscrevendo a mentira, a carta falsa de Príamo, condenando injustamente Palamedes.

A inscrição da mentira é a re-inserção do devir nesse elemento que se reservava ao puramente formal. Contudo, o que me parece de suma importância aqui, é que através das reformulações mitográficas dessa época os gregos põem nitidamente três realidades irredutíveis – a do espírito, alma ou ser mais real do homem; a do mundo, matéria corporal ou devir material onde o homem tem sua existência fenomênica; e a formal, da escritura na sua materialidade puramente de sistema.

Quanto à realidade do espírito, podemos observar que a transformação do regime da anamnesis aponta para uma concepção espiritual de participação do sábio, o iniciado, na vida eterna. Utilizando a expressão de R. Wilhelm podemos observar que no Oriente tal concepção seria completamente estranha, por exemplo no budismo “o qual nega todo ‘eu’ substancial”.

A observação de Wilhelm se aplica à novidade que o pensamento de Lu Yen representou no meio chinês, por sua noção de participação pessoal no eterno, aproximadamente mil e quatrocentos anos após a redação de Estásimo e do sucesso do orfismo na Grécia.

Vimos a relação que se estabelece entre o olhar de Orfeu e a tensão de oralidade e escritura. Mas se originalmente a tensão se fazia pela duplicidade da escrita naquilo em que sua materialidade permanece ilusória, a denunciação do seu ser artifício, a impossibilidade do resgate do desejo poderia ser dada como a hybris do “concretismo” enquanto via pecaminosa da leitura, sua possibilidade transgressiva oposta à “boa” leitura que supera a matéria para recuperar o espírito.

Pecaminosa porque traidora da hierarquia que põe a preeminência da voz, da mensagem, sobre o texto, a inscrição colorida. No entanto o mito culmina no despedaçamento, mesclando assim no culto órfico a figura de Dionísio Zagreu – o despedaçado. As mulheres trácias despedaçam também Orfeu e a Trácia, como se sabe, é o território do analfabetismo “honroso”, no sentido de que os trácios odeiam o exercício das letras e o cultivo da cultura.

Mas esse despedaçamento perpetrado pelos elementos ligados `a pura materialidade corporal, o devir louco da profundidade, não seria uma transposição, ela mesma mitográfica, isto é, uma figuração daquela outra materialidade, a da escritura? A vingança da materialidade, a da escritura, exercida pela força daquela outra materialidade, a do corpo. Ou mesmo, não estaria aí a prefiguração do destino do arcaico, a prenunciação do que será o futuro clássico em que a escritura se liberta afinal da voz?

Com efeito a hybris vai nos dois sentidos quando se trata de artifício formal. Ora se joga pelo “concretismo” e se é enganado por desejar o que no desejo mesmo é sua interdição, ora se faz, contudo, no sentido oposto e se confunde a escritura e a mensagem, o enunciado e a enunciação na obstinação de tudo conceder à alma e à voz.

Nessa última aporia o engano consiste em supor que o conteúdo pertinente à forma escrita é ele mesmo oral. Inversamente, se a escrita forma sistema é porque o signo articula seu próprio conteúdo e, conforme Gorgias expressará mais tarde, é do mundo que vem o dar sentido à escritura, não o inverso. A escritura é o despedaçamento do contínuo devir da voz, ela começa por retalhar em pedaços mínimos o que era o contínuo sonoro, fixando-o em unidades a ser re-misturadas como o corpo despedaçado que Apolo cozinha no caldeirão para novamente reunir e reviver.

Contudo, se o caldeirão da escritura reúne o que despedaçou, o sistema resultante contém a semelhança do contínuo anterior sem se confundir porém de todo com ele. As palavras seduzem por sua semelhança com o mundo mas confundir texto e mensagem, querer reduzir a escritura à voz, eis a outra hybris de Orfeu.

Mas eis também o regime dessas seitas filosófico-religiosas tão próximas do orfismo, como o pitagorismo. A “teoria” ou “mathematha”, os “estudos”, no pitagorismo, pertencem à oralidade, enquanto o orfismo faz derivar a cultura do livro, da escrita iniciática. Contudo, aqui oralidade e escritura se interpenetram pelo absoluto da voz – e eis o sentido do segredo, esse fator reservado à transmissão oral, sendo a escrita o elemento mesmo de constituição da publicidade.

A escritura iniciática do orfismo é ainda culto da voz, ela guarda o triunfo da voz sobre as vicissitudes das duas materialidades nisso em que a alma de que a voz deriva é eterna e tem o conhecimento dessa sua natureza imortal. Sem o auto-conhecimento, apanágio só da alma e da voz, toda materialidade, por mais violentamente que figure sua irredutibilidade, se constitui no vazio.

O mito tem a dupla função conforme o uso que dele se faz. É o registro da consciência da irredutibilidade das três naturezas e narra as hybris possivelmente decorrentes da confusão de umas com as outras. Mas utilizado ritualmente como no orfismo é a salvaguarda da voz e o triunfo da alma sobre o mundo e sobre a pura forma. A alma nessa época, sendo considerada sopro, de modo algum se pensa como elemento ou faculdade puramente formal.

A “teoria” surge como forma de conhecimento adequada a esse complexo de valores tendo a alma como centro. As “mathematha” assim cultivadas não podem ser simplesmente separadas da concepção de um exercício anímico, assim como a anamnesis também é exercício de ascese e instrumento de elevação da alma. Tampouco pode ser separada do auto-conhecimento através da doutrina da metempsicose, das práticas espirituais esotéricas e do segredo, esse correlato do sopro.

E aqui, fazendo intervir a figura de Palamedes entre Aquiles e Ulisses, parece-me possível captar algo essencial a esse período arcaico. Como se a linha sinuosa da marca inscrita permitisse o traçado da escritura ao modo de um gume, o caminho estreito entre os dois abismos, da pura voz e do puro corpo. O arcaico foi o momento feliz da mais ampla consciência da relação como segredo da interpenetração dos três domínios, o fio através do labirinto da dispersão oriunda da descoberta da irredutibilidade que se mantém entre eles.

Heidegger, sobretudo, me parece ter visto com acurácia a physis pré-socrática, a harmoniosa unidade do múltiplo, e ainda mais a sua acertada noção grega de A-lethéa: o ocultar inerente ao ser, expresso na mitografia pela hybris do olhar de Orfeu.

O registro da lei, o segredo poematizado por Empédocles, tudo isso porém já prefigura a evolução. Vernant registra a transformação que vai desse regime arcaico de rememoração ascética à concepção imperante no clássico de uma memória completamente ligada ao registro, dependente da escritura.

O conteúdo daquilo que se registra não mais se oferece como termo ritual testemunhando o conhecimento de um necessário subsumir – do corpo à escrita mas desta ao segredo e à voz. É sim, doravante, aquilo que se oferece à publicidade e assim se furta ao esquecimento, ao não-visível. O segredo que se resumia no conhecimento da preeminência da voz, logo no auto-conhecimento do homem, não tem sentido algum nessa nova economia do desejo de ser-visto e ver, liberada a verdade de toda “ocultação” para ser pensada como o publicável e o inscritível da coisa, ser humano incluído.

Uma nova repartição dos três domínios, no lugar da antiga unidade abrangente da Physis, com seus problemas igualmente novos de atribuição de poderes, eis o que se anuncia a partir do século V.

 

c) “Educado no Ethos da Lei” : A Aretê Política

 

A seisakhtéia ou “Lei da liberação”, foi introduzida por Sólon em Atenas, abolindo a escravização por dívidas e restituindo assim a liberdade a vasto número de pessoas que se encontravam naquela situação opressiva. Mas Sólon não foi apenas o homem do centro, ao mesmo tempo eupátrida e comerciante, respeitado pelos pobres tanto quanto pelas classes dominantes. Foi também o sábio escritor de poemas, entre os quais sobressaem as formas da elegia e do iambo que é uma poesia predominantemente satírica, ambas de origem jônica assim como o essencial da cultura Ática.

Aqui o mais importante é a apreciação de sua poesia política que desempenha em Atenas um papel análogo ao de Tirteu em Sparta.

Como este, Sólon exorta os concidadãos conforme um certo critério de Aretê, desempenhando assim a função de educador. Como tirteu, também Sólon possui o acento apaixonado da “responsabilidade comunitária”, conforme a expressão de Jaeger. Mas nessa poesia o “Pathos” é inteiramente novo em relação a todo influxo anterior da Aretê que modulava, de um modo ou de outro, o heroísmo homérico.

A ênfase de Sólon na Aretê está certamente em conexão com os Erga de Hesíodo. Também aqui a justiça, como igualdade de direitos entre todos os seres humanos, desempenha o papel preponderante. Mas Hesíodo conservava a “Eunomia”, isto é, a aplicação da “boa lei”, num sentido exortatório, estendendo-a como ordem natural do universo. A sua infração relacionava-se com os cataclismas da natureza como castigo divino enquanto que a sua observância garantia boas colheitas e a ordem nos fenômenos naturais. Sólon mantém a Eunomia no plano estrito da responsabilidade dos cidadãos uns com os outros. A infração da boa lei redunda assim apenas no mal social que atinge a todos os cidadãos. Deve-se evita-la, portanto, como a uma doença contagiosa. Em compensação, a Eunomia bem observada garante a paz e a harmonia do “cosmo social”.

O critério imanente ao pensamento de Sólon é assim, conforme Jaeger, o da legalidade intrínseca da vida social. A lei age como força educadora e a Aretê suprema é política, isto é, consiste na consciência daquilo que é Koinón, comum, a todos os cidadãos, plasmando-se em linguagem e ação adequadas à essa ordem de boa legalidade.

Se a Moira é o elemento de incerteza inseparável das iniciativas humanas, a insegurança do êxito não acarreta a moral da renúncia mas sim a redobrada exigência de agir com responsabilidade para consigo mesmo e para com os demais. Essa responsabilidade política, derivada do conhecimento da legalidade intrínseca à vida comunitária, torna tão virtuoso e digno de admiração o camponês mais humilde quanto o nobre mais opulento. Ambos estão na contingência de escolher entre o que é bom e o que não é, entre a ação desmedida da ambição pessoal ou a ação regulada pela lei.

Assim como cada idade da vida tem seu sentido intrínseco em concordância com o sentido das outras, o que faz pressupor uma legalidade entre elas, na argumentação de Sólon também a observância ou não da boa lei por cada um se estende em seus efeitos a todos os outros.

Jaeger observa a raiz comum do nascimento do Estado de direito com o da consciência filosófica, na Jônia. Trata-se do pensamento da ordem como princípio todo-abrangente manifestando-se na natureza e fundamentando uma cultura “humana”, isto é, “universal”, aplicável por todos. Mas o Bios Politikós, ou existência social, e por extensão do termo humana, funda uma esfera nova que se traduz nesse conceito igualmente novo de Aretê ateniense. Pois a existência humana política, social, não se confunde com a existência puramente individual da pessoa, visada na sua naturalidade psicofísica, por assim dizer.

Ao “ídion”, o individual, opõe-se o Koinón, o comum ou social. As virtudes específicas, por exemplo, podem pertencer ao indivíduo como pluralidade de suas habilidades próprias ou até mesmo profissionais, mas a Aretê suprema, nessa conceituação ateniense, ático-jônica, só pode ser uma virtude genérica, cívica, Politiké Areté, pela qual cada um “se põe em relações de cooperação e inteligência com os outros” no espaço da Polis, conforme Jaeger.

A expressão “Educado no Ethos da Lei” constitui a fórmula utilizada e repetida pelos “grandes teóricos áticos do Estado”, Aristóteles, Platão e Isócrates, por exemplo. A conexão com a escritura é aqui fundamental, pois através da fórmula ressalta-se a “significação educativa” da norma jurídica “universalmente válida através da lei escrita”.

Assim a lei é tanto uma Paidéia do cidadão quanto uma introdução à filosofia pois abrange e fundamenta o critério ideal do ser humano. Com a concepção de Aretê política, o “Ethos” enquanto critério ético de comportamento se torna o elemento de conexão da virtude com o Logos, não só porque a partir daí a linguagem inere ao comportamento eticamente fundado tanto quanto a ação – o que é de suma importância quanto ao pensamento sobre a linguagem – mas também porque o que é Koinón se debruça sobre as relações como critério essencialmente racional de comportamento.

Se o arcaico descobria a escrita como apanágio problemático do humano, o clássico o instala na racionalidade, produzindo o pensamento do homem como ser essencialmente racional. E é nesse elemento que a “filosofia” evolui descartando as “mathematha”, aquela outra forma de conhecimento tão adequada à visão do período anterior que não havia ainda captado a peculiaridade do Bios Politikós e permanecia no âmbito da harmoniosa unidade daqueles domínios que examinamos mais acima.

Essa convergência de Aretê e Logos, essa vida nova ou Bios Politikós, com a consequente interpenetração da linguagem no âmbito do Ethos e a correlata novidade de sua noção de Nomos intimamente ligada aos igualmente novos problemas da escritura, tudo isso se torna central numa adequada análise do fenômeno sofístico.

Afinal foi para que isso se tornasse exequível que introduzimos todo esse movimento geofilosófico. Agora já podemos então nos instalar na ambientação clássica do século V e ver surgir esses não menos novos mestres retóricos.


 IV – O Logos Pharmakon

 

Introdução:

 

Por volta do século III d. C. o pensamento grego está em plena fase de recesso. Pode-se falar já em termos de aproximação àquela profunda transformação que afetará todos os setores sociais culminando no período bárbaro que marca o início do estado de coisas feudal.

Mas quando se trata de uma exposição da sofística, porque começar pelo fim do mundo antigo? A resposta é que não há meio melhor para expressar o seguinte modo de ver: a fase de recesso está intimamente relacionada com a ascenção do cristianismo. Contudo, essa ascenção só pode ser plenamente assimilada através da peculiaridade inerente ao próprio helenismo, o abandono do Logos ou seu assujeitamento em favor da “sabedoria de vida” ou seja, da moral dogmática. E na medida em que esse viés está no curso de desenvolvimento de uma certa atitude ou mentalidade que pode ser localizada na sua forma sistematicamente mais coerente seiscentos anos antes, simetricamente oposta à sofística, torna-se oportuno examina-la aqui.

Mesmo assim algo da estranheza resta. Ainda que o recesso no helenismo tenha a ver com o que é o oposto da sofística, que sentido teria procurar compreende-la precisamente através do que ela não é?

Sem dúvida uma tal questão seria justificada não fosse a sofística isso mesmo que ela é – ou veio a ser. Compreender o sentido aporético desse “ser”, porém, é estar já no âmago mesmo daquilo que a inspira.

Pois nesse caso “ser” corresponde plenamente a um “modo de ver”. A maneira pela qual a sofística ficou “sendo vista” – essa seria a expressão mais adequada. A ressaltar aqui, então, que a sofística tem um jeito muito seu de ser fiel a tudo aquilo que a inspira, de modo que a aproximação honesta já nos revela algo sobre aquilo que ela empreendeu.

Uma das maneiras – então o sentido estaria mais completo. Precisamente a maneira de ver sugerida por aquele modo oposto, que com seu alarde pregoeiro de “honestidade, honestidade” foi tudo menos isso no que se relaciona a essa aproximação à sofística e por extensão, no interior do raciocínio apresentado, com o mundo grego naquilo que lhe era mais autêntico, mais singular em relação ao meio circundante.

Quanto a isso sem dúvida penso também o fenômeno do platonismo no sentido regressivo, situando-o não só como decadência mas como o sentido mesmo de toda decadência que vai culminar no esfacelamento da civilização. A partir do feudalismo por um longo interregno o mundo volta ao oriente do imobilismo social e do sistema Igreja – Estado.

Esse oriente cujo meio feudal, porém, é Platão em pessoa, portanto tendo o déspota tão bem interiorizado que não se precisa mais de sua imagem visível, bastando a cruz. Mas pode-se observar: pelo menos quanto ao sistema Igreja-Estado deve haver bem mais a pressupor do que simplesmente circunscreve-lo ao feudalismo, no que se reporta ao ocidente. Contudo o que desejo enfatizar é precisamente isso: esse era o sistema chave da mentalidade do meio circundante antigo e a Grécia constituiu a exceção, nela ocorre a novidade que retorna no mundo moderno, mas nem mesmo “toda” a Grécia. Certamente não a de Sparta ou de Platão. Sem dúvida alguma, sim, a Grécia da Atenas dos sofistas e a Jônia dos Pré-Socráticos.

Bem pequenas porções do território, bem delimitado meio do pensamento e da liberdade. Mas o bastante para o fomento desse mundo novo em que se jogam hoje as nossas próprias perspectivas. Pois aqui novamente existe a escolha, não de Aletheia ou Ápate, mas sim de aproximação já totalmente comprometida ou daquele se por na atitude adequada do compreender.

No primeiro caso qualquer que seja o termo utilizado não se pode imputar precisamente qualquer coisa como criatividade. Não creio que se possa usar esse epíteto quando se trata apenas de reformular de qualquer maneira o mais batido dos argumentos, a mais “standard” das visões. Quanto a isso, contudo, tampouco se pode pretender que não ocorra aí nenhum laivo de audácia. Mas devido à antítese entre o que essa palavra enfeixa – “audácia” sempre tem qualquer coisa de comportamento inusitado – e o contexto no qual está sendo aplicada o efeito não deixa de ser cômico. Pois não é que uma das mais recentes dentre essas “reformulações” se quis valer justamente da noção de “ultrapassado” para caracterizar a via oposta – que não consiste no mero adorno da desonestidade de Platão?

Não creio que a cronologia não possa, de boa fé, desempenhar aí algum papel. Assim lá pelo fim do helenismo também se podia julgar toda filosofia “ultrapassada”... pela pregação cristã. Mas se houver ainda alguém cujo voto sincero não se confunda estritamente com uma Nova Idade Média, então, esse alguém compreenderá o sentido desse riso.

 

I – A Razão de Teofrasto e a palavrização do mundo

 

O turning point da filosofia, conforme K.O – Appel, abrange o abandono da via da análise – seja transcendental ou psicológico-empírica – da consciência como acesso privilegiado à problematização da verdade, predominante na modernidade, até o século XIX. Já a partir do século XX a via integra a análise linguística e o fenômeno marca assim uma autêntica transição epistemológica: “da crítica da consciência, à crítica da linguagem”.

A perspectiva mais abrangente de Appel está bem expressa na entrevista “Rekonstruktion der Vernunft durch Transformation der Transzcendental Philosophie”, tal como citada por Cassin. Aí ele nomeia três grandes momentos históricos que se distinguem quanto ao paradigma ontológico.

Inicialmente teríamos uma idade ontológica clássica, desde Platão e Aristóteles, que se funda na relação do verdadeiro com o modo de ser mesmo dos entes. Assim, que o ente é e que o não-ente não é, permanece como a única atribuição de base verdadeira, o inverso sendo falso.

A seguir ocorre a fundamentação moderna pela reflexão na consciência do sujeito, desde Descartes ao transcendental kantiano, abrangendo ainda Husserl. Atualmente porém a questão, conforme Appel afirma na entrevista, não seria mais “a das condições do conhecimento” e sim “das condições do discurso sensato (sinvollen Redens) ou da argumentação sensata (sinvollen Argumentierens)”.

Já nos dois volumes da “Transformação da Filosofia”, Appel localiza a origem manifesta da transição contemporânea na obra de Wittgenstein, em conexão com seu prolongamento vienense: “na sequência da suspeita wittgensteiniana de ausência de sentido das proposições metafísicas, erigiu-se no ‘Círculo de Viena’ o assim chamado princípio de verificação”.

Pode-se observar a originalidade da abordagem de Appel já pelo fato de que, intentando estabelecer a hermenêutica como limite de todo viés cientificista, ele situe Husserl no eixo superado da consciência e conceda a iniciativa da mudança ao pólo oposto ao seu pensamento. No entanto, as consequências estão aí, conforme ele as descreve com tanto brilhantismo. Assim, conforme a sua argumentação, aquilo que começa como intenção de depuração da linguagem para excluir a ontologia do universo de sentido, conduz justamente à máxima aporia para a qual só o desenvolvimento de uma compreensão ontológica pode oferecer alguma saída.

Torna-se tanto mais conveniente que a iniciativa dessa tão importante transição se estabeleça pelo viés da filosofia analítica. Mostrando como ela afinal se exaure esclarece-se que seu limite coincide com a motivação mais própria daquilo em que a transição pode então encontrar o seu verdadeiro alcance, isto é, a hermenêutica de Heidegger e o que dela se pode desenvolver.

O foco que centraliza a oposição de Appel em relação ao “neopositivismo” pode ser visado através do desdobramento por ele operado ao conduzir o problema do sentido que constituiu o cerne da teorização da Círculo de Viena também designado “positivismo lógico” e posteriormente “filosofia analítica”.

Tratava-se então, para o neopositivismo, de reservar o sentido a proposições analíticas ou testáveis através da experiência. A proposta de depuração da linguagem assinala aqui o turning point uma vez que a validez torna-se uma questão de análise proposicional.

Tal pretensão de circunscrição do sentido ao testável pela experiência enunciava-se a partir do aporte epistemológico de Russel: todo conhecimento sintético é fundado sobre a experiência, logo incerto, inexato e parcial.

Inicialmente sustentou-se o mais extremo verificacionismo, como em Schlick, mas a démarche posterior desembocou na teoria de Popper pela qual a testabilidade ou verificação como critério de sentido cede lugar à falseabilidade. Ao invés de verificar a ciência visa falsear as suas próprias hipóteses e uma teoria só se mantém enquanto isso não puder ser feito.

Isso conduz afinal a uma margem controlada de incerteza. Podemos estar cientes do que não se verifica ser o mundo como tal, mas só podemos ter uma certa concepção sobre como o mundo realmente é.

Se o que se procura assim é a demarcação de uma fronteira nítida que defina o conhecimento e a produção de discurso dotado de sentido, por oposição a tudo o que não se enquadra nesses limites, observa-se ser justamente este último o caso da filosofia, isto é, do corpo de conhecimento construído através de “proposições metafísicas”.

Como a religião ou a simples opinião subjetiva, a filosofia se reserva como ocorrência de discurso, rigorosamente falando, absurda, isto é, inverificável ou finalmente não falseável por princípio pois devido ao seu fechamento puramente conceitual – não se refere a nada que tenha existência concreta no mundo material – as teorias filosóficas seriam na verdade imunizadas contra o real: sempre é possível ajustar um conceito que impeça a contradição já que não se exige ancoragem factual ou empírica.

Appel trata esse núcleo do problema do sentido através de uma confrontação das aporias históricas da filosofia analítica com a hermenêutica transcendental de modo a desdobrar a questão em dois terrenos. Primeiro o ontológico, em que afinal o próprio positivismo lógico não pode deixar de estar embasado enquanto concepção do que é afinal esse real. A partir daí conduz-se às consequências da tese da insustentabilidade de fundamentação fora do contexto experimental no terreno da ética.

Será nesse segundo campo que a transformação ganhará toda a sua relevância hermenêutica no sentido próprio de Appel, pois através do centramento na linguagem o que ocorre é justamente o inverso da proposta neopositivista inicial que o dispôs. A linguagem tratada pela via hermenêutica aporta coerentemente à pragmática transcendental e se torna eticamente fundamentada através da reciprocidade constitutiva de qualquer ato de fala enquanto comunicante.

Vamos agora examinar separadamente o curso do pensamento de Appel conforme o desdobramento dessas questões de modo a ver em que sua teoria se encontra com o desenvolvimento do pensamento sofístico.

A descrição da trajetória do positivismo lógico na “Transformação da Filosofia” realiza-se como a contínua recolocação da aporia da fundamentação da linguagem a partir de sua relação essencial com as coisas ou fatos de experiência.

Inicialmente a aporia que se chega pela via de Carnap. O verificacionismo nesse princípio consiste na derivação de qualquer proposição, por meio da função Wittgensteiniana da verdade, a uma proposição atômica que por fim pode ser verificada de modo puramente empírico. As proposições gerais devem então ser interpretadas e criticadas como simples convenções sintáticas.

Ocorre que determinados termos, como os sincategoremáticos, não podem ser empiricamente reduzidos, o que também infirma qualquer teoria estrita da referência no terreno da filosofia da linguagem. Quanto a certas proposições filosóficas, tiveram que ser afinal aceitas como regulamentações do uso da linguagem. Surge então a aporia do significado metalinguístico como já pressuposto na aplicação das regras de derivação.

Tanto quando se trata do problema da verificação de proposições filosóficas ou mesmo de cálculo operativo, a aplicação ao real pressupõe um significado que fornece o sentido do manejo das regras. A aplicação subentende algum plano “outro” em relação ao das próprias regras, situado precisamente na linguagem corrente.

Appel sublinha aqui ao mesmo tempo a proximidade e a ruptura do movimento seguinte do neopositivismo com essa problemática metalógica conforme já pressentida na filosofia medieval, segundo Bochenski. Assim, se a análise das estruturas linguísticas logicamente relevantes, derivando-se do problema dos universais, enfeixou doutrinas como da Supositio – em que ao invés do significado geral de definição procura-se verificar os vários modos pelos quais o termo está substituindo a coisa no interior da proposição – o meio analítico consistia no latim como língua universal da ciência.

Já o que ocorre na era contemporânea, após a renúncia da sintaxe lógica, consiste na procura de uma lógica da linguagem enquanto semântica, assim também analisando a relação dos signos com o mundo extralinguístico. Mas a “nova dimensão da verdade” que “jamais havia sido considerada” consiste na abstração de qualquer língua corrente a partir da utilização da lógica matemática. A função semântica é construída na forma de regras que legislam sobre qualquer designação possível a respeito do mundo.

Ao invés da “legalidade universal” de Kant, a priori constituída por juízos sintéticos, há agora as regras de semântica lógica, construídas de maneira consciente e arbitrária, o que deve valer como a priori dos significados de juízos validamente formuláveis.

Contudo para que esse processo resulte na “muito almejada busca da precisão” do significado é ainda necessário que as regras construídas permaneçam na dependência metalinguística da linguagem corrente. Inversamente ter-se-ia sistemas adequados a quaisquer mundos possíveis apenas dispensando-se a possibilidade de verificação empírica.

Assim ainda que, guardando-se o vínculo com o mundo factual, o procedimento semântico possa ter sido considerado como o apogeu do positivismo lógico, restou insolúvel o problema do significado, isto é, de sua pressuposição a toda aplicação de regras pelos usuários do sistema.

Appel se interroga sobre aquilo que poderia constituir o fator de superação dessa lacuna. Aquilo que faz com que uma proposição preencha a expectativa de significação e que nem mesmo se esgota na denotação pura. O que garante que a “porta” “abre”, o “muro” é um “obstáculo”, o “isso” da mensagem é na verdade hostil ou amigável, lesivo ou útil, interessante ou não, etc.

Seria por exemplo o fator “emoção”? Ora qualquer resposta válida teria que escapar ao círculo privado encaminhando-se, como qualquer teor objetivo de significado linguístico, ao nível intersubjetivo: não sendo emitido apenas como episódio de fala (parole) mas já constituído no sentido mesmo da langue.

Nesse ponto a “Transformação da Filosofia” opera a imbricação dessa questão linguística da necessidade de um novo fator não redutível à sintaxe ou à semântica com a questão da verdade uma vez que linguisticamente formulada, na base da constatação aí dos mesmos necessidade e fator.

Quanto ao encaminhamento neopositivista, o próximo passo já se instalou no território da filosofia americana, após a emigração dos pensadores oriundos do “Círculo de Viena” refugiados da guerra. Houve então a convergência com Morris, que estabeleceu por fim a semiótica na tridimensionalidade tornada clássica de sintaxe, semântica e pragmática.

Mostrando a impropriedade da proposta de Carnap quanto ao uso desse novo fator que se ocupa da relação do signo com o ser humano que o utiliza, que Carnap queria restringir à análise linguística empírico-descritiva, Appel sublinha o verdadeiro alcance da contribuição de Morris.

A semiótica não tem na pragmática apenas uma dimensão ulterior de análise mas se torna ela mesma pragmaticamente fundamentada enquanto “ciência do comportamento humano mediado pelos signos”. As regras sintático-semânticas só podem ser aplicadas se visadas como regulamentações do comportamento humano objetivamente determinado.Nesse âmbito a análise de Morris, a que o The Meaning of Meaning de Ogden e Richards correspondeu plenamente, estabelece a superação daquele modelo puramente informativo-designativo da linguagem. Doravante ela está sempre em situação.

A semiótica de Morris converge de algum modo com o aporte teórico a que chega o segundo Wittgenstein. Morris se expressa em termos de “Modes of Signifying” (identifying, designating, appraising, funções prescritiva e formativa) enquanto Wittgenstein utiliza a célebre expressão “jogos de linguagem” que seriam virtualmente infinitos. Mas de qualquer maneira a designação científico-informativa dos fatos apenas permanece como uma possibilidade entre tantas formas de comportamento linguístico.

Appel realiza em seguida uma espécie de “back to antiquity” e delineia a mesma questão assim como ela encontrou expressão na controvérsia sofística, mais precisamente na polêmica envolvendo a retórica. Ele domina a problemática a partir do seu resultado histórico. Assim, de toda a contestação anterior restou a nomeação de Teofrasto, discípulo de Aristóteles, tal como registrada por Amonius, da dupla relação da linguagem: com as coisas sobre o que se fala e com aqueles a quem se fala.

A partir dessa nomeação Teofrasto realiza a repartição de tarefas. Da relação com o ouvinte se ocupam poesia e retórica mas a atribuição do verdadeiro só pode pertencer à relação com as coisas e devido a isso essa esfera é exclusivamente a preocupação do filósofo.

O Logos é prerrogativa da filosofia e seu sentido não tem a ver com a relação entre os participantes. Estabelece-se desse modo a fundamental partição entre retórica e lógica, ornamento e verdade, poesia e ciência, pragmática e semântica.

O interesse de Appel agora se encaminha no sentido de mostrar que o desenvolvimento do humanismo ocorreu precisamente no sentido de contestar a divisão teofrástica. Assim, se historicamente a superação dessa doutrina amplamente vitoriosa na era feudal se expressa plenamente na obra de Vico, Appel mostra que aí se enfeixa a “tese central da filosofia secreta do humanismo” afirmada “com maior ou menor clareza” tanto na “ideologia sofística” quanto entre os mestres da retórica da Antiguidade, desde Quintiliano.

A citação de Amonius é repetida na Transformação da Filosofia em dois capítulos diferentes. O que se depreende do modo como nesses dois lugares Appel enuncia a tese central do humanismo é que ela tem um aporte não declarado mas latente na sofística e nos mestres retores, torna-se expressa com Cícero mas permanece de algum modo secreta para tornar-se mais plenamente o que é a partir de Vico.

Cícero havia também introduzido uma repartição fundamental ainda que mudando inteiramente a ênfase. Haveria assim duas artes da razão, a tópica e a dialética. A tópica é a arte de encontrar, a dialética a arte de julgar. Cícero critica os estóicos por terem permanecido apenas dialéticos. Appel pode enunciar então a filosofia secreta do humanismo ocidental através da fórmula: a tópica universal pré-reflexiva da linguagem corrente precede a crítica reflexiva da linguagem feita por meio da semântica puramente lógica.

Assim o lógico puro “jamais pode garantir a verdade sobre as coisas do mundo” da maneira exaustiva que os opositores da sofística e da retórica exigiam. Tal critério inatingível não foi apenas o principal argumento contra a sofística. Foi também formulado como imagem de racionalidade que, longe de ter sido superada historicamente pelo humanismo, continua na atualidade a atuar como uma das forças em confronto, acrescida agora do poder político da sociedade técno-científica.

Mas se o próprio positivismo lógico chegou ao aporte pragmático de Morris e do segundo Wittgenstein, em que medida se pode constatar que ele não se tornou por isso um “humanismo”? Em que medida ele não renovou também a própria concepção de racionalidade?

A análise de Appel prossegue então para mostrar que também Morris considerava a retórica e a poética, no sentido teofrástico, como tendo apenas o papel de alegrar, entusiasmar ou subjugar pelo convencimento o ouvinte. Enquanto que à lógica, por extensão à ciência, ficava reservada a aplicação às puras katáfasis e apófasis (afirmação e negação).

Ocorre que para Morris tanto a retórica quanto a poética têm como objetivo predominante a “indução eficiente de uma determinada valoração”. Os próprios mestres retores também o consideravam de certo modo quanto à sua arte, ao enfeixar no uso valorativo da linguagem uma verdade própria assim como ao orador ilustrado cabe”revelar a verdade da situação prática” aos concidadãos no fórum. Contudo a questão vai surgir, conforme Appel, pelo lado da poesia pois como supor aí que haja um critério prático de designação correta?

Quanto à retórica, para admiti-lo basta estender a correção não apenas às qualidades das coisas mas também às carências dos seres humanos. No entanto a resposta afirmativa de Morris abrange também a poesia, o que Appel considera decepcionante. Afinal, nessa semiótica pragmática todos os Modes of Sgnifying pressupõem a denotação correta das qualidades objetivas e uma teoria da adequação está assim pressuposta como finalmente aplicável à verificação do que é ou não verdadeiro.

O que Appel quer inserir nesse limite semiótico porém é a existência, até então não tematizada, do “momento de significância” – irredutível à “interpretação do mundo convencional ocorrida por meio da linguagem”. Esse momento “parece clamar por conceitos novos”.

Mais claramente Appel observa dois usos no interior do fenômeno que habitualmente se designa de modo único como sendo o da linguagem. Um que “pressupõe as qualidades das coisas e dos seres humanos como sendo patentes” e outro que “torna patentes essas mesmas qualidades”.

O primeiro uso subentende um ser-assim da coisa convencionalmente já estipulado. O segundo “põe em cena” as palavras “enquanto potência de encarnação de sentido”, ou seja, nesse caso ulterior supõe-se que objetivos ou carências ainda não se revelaram “na essência do seu momento presente”.

O que escapa ao primeiro uso, e que se pode designar como limite interno da concepção de Morris, permite também estipular o limite de toda “science”, conforme a visão de Appel. Pois nesse âmbito aquilo mesmo que deveria englobar as humanidades está pressuposto através do procedimento generalizante da ciência natural, apenas circunscrevendo como objeto o comportamento humano semioticamente mediado.

O real fator que impede a redução de toda problemática da compreensão aos procedimentos da razão científica natural, enquanto possibilidade de intelibilidade efetivamente humana, é conforme Appel o das “ocorrências de sentido” que estaria prévio tanto ao próprio ser-assim presumido como tal pela ciência natural quanto às considerações do que vêm a ser as carências humanas.

Abre-se desse modo a historicidade do mundo da significação linguística, tematizada por Vico através da noção de poiésis como base daquilo que o trabalho do conceito vai transformar em uma “tópica escolar”, por Humboldt que propõe o conceito “poiético” de verdade como processo de constituição da cosmovisão “por meio da força das palavras” e ainda por Weisgreber que afirma a forma linguística interna enquanto estilo de apropriação transformadora do mundo por meio da linguagem, a “palavrização do mundo” constituindo a “real tarefa da humanidade”. Toda essa fundação histórica do mundo na linguagem que se constitui na via tradicional do humanismo ocidental porém culmina em Heidegger como hermenêutica de antecipação linguística junto ao mundo.

Aqui se torna nítida o confronto de visões, a semiótica e a ontológica, algo bem enunciado pelo título de Martin Kusch “Linguagem como cálculo versus Linguagem como meio Universal”. Trata-se, na semiótica, de um método para tratar a linguagem enquanto “sistema objetualmente disponível” enquanto a hermenêutica ontológica de Heidegger “pensa com a linguagem”. Conforme Arion Kelkel, em Heidegger “o sentido está sempre pressuposto e sua articulação vai de par com a explicação e a estrutura de antecipação que caracterizam a compreensão”.

Após a enunciação da tese central da filosofia secreta do humanismo a “Transformação da Filosofia” procede uma exaustiva comparação entre Wittgenstein e Heidegger de modo a ressaltar que, não menos que a semiótica de Morris, o pluralismo dos jogos de linguagem chega também finalmente ao limite pois a descrição de um jogo não pode ser feito do interior e pressupõe a finalização da sua abrangência na captação por um outro sistema descritivo.

O sentido liberado no compreender precisa ser objetivado pela análise mas na medida em que as formas de vida não coincidem a compreensão do ontem pelo hoje só pode ser concebida, enquanto forma linguística do jogo, através de uma “projeção universal do sentido” que permitiria corrigir a dispersão. A recuperação do sentido pressupõe assim inicialmente, na teoria wittgensteiniana, um horizonte de convergência em que forma e conteúdo podem ser novamente destacados pela diferenciação modelar das regras, recuperáveis como tais na análise abrangente que “leva em conta” a objetivação do mundo e das formas de vida. Appel mostra assim que a decalagem teórica entre o primeiro e o segundo Wittgenstein não foi de modo algum tão radical.

Mas a confrontação da teoria de Wittgenstein com a formulação conceitual do círculo hermenêutico de Dilthey, convergente com a própria teorização de Heidegger, é efetivada por Appel com base na inserção aí de uma mediação necessariamente histórica no processo de correção da apreensão presente da regra objetivável no jogo do passado.

O círculo hermenêutico se instala pelo fato de que não se pode constituir um domínio exterior ao sentido, pelo qual se pudesse julgar os processos linguísticos ou se pudesse instituir a compreensão hermenêutica. É já na linguagem mesma, com todos os seus pressupostos de historicidade, que qualquer análise pode vir a se constituir.

A partir do volume II da “Transformação da filosofia” torna-se mais explícito o desenvolvimento da oposição de Appel à filosofia analítica agora no terreno da ética de modo que se desenvolvem as consequências propriamente hermenêuticas do Compreender enquanto transcendentalmente enraizado na linguagem.

Enquanto território intersubjetivo comunicacional a linguagem pode ser visada através da teoria dos atos de fala de Austin. Através desse aporte localiza-se aí dois níveis ou dimensões, a conteudística-proposicional e a performativa. É nessa última que se estabelecem as relações comunicativas entre os participantes. A contribuição de Appel consiste em considerar a performativa como estrutura profunda pragmática da linguagem e em seguida caracteriza-la como transcendental.

O salto inicial se torna manifesto como ruptura em relação à concepção corrente, inclusive na própria textolinguística, pelo que a estrutura profunda é essencialmente semântica equivalendo ao projeto pelo qual se articula a mensagem.

Nessa concepção tradicional da linguística, a mensagem se articula na estrutura profunda precisamente como conteúdo semântico do texto ou do enunciado que a estrutura de superfície se encarregará de modular. Entre o fundo e a superfície pensa-se ainda a superestrutura como forma típica, por exemplo, narrativa.

Appel introduz então a pragmática no lugar da semântica e a torna assim como condição de possibilidade mesma da linguagem, logo transcendental, de modo que o que ela condiciona abrange como derivada a própria dimensão proposicional.

Toda expressão humana, enquanto verbalizável, seria estruturada profundamente como endereçamento ao outro pelos de atos de fala, implícitos nas formas possíveis desse endereçamento. Recusar a possibilidade de fundamentação dessa pragmática transcendental, portanto, equivale a contradizer a própria atitude de se estar já comunicando ao enunciar a recusa.

Appel procura assim refutar o trilema de Munchhausenn de Albert, convergente com a escola popperiana, que infirma qualquer possibilidade de fundamentação transcendental, com base em que seria impossível realmente fundamentar asserções baseadas puramente em outras asserções, isto é, provar de algum modo a consequência irrefutável de proposições não falseáveis.

Conforme o trilema de Munchausen a pretensão de qualquer fundamentação transcendental deve ser destituída de sentido porque: a) ou interrompe-se arbitrariamente a cadeia de deduções; b) ou surge um regresso infinito; c) ou emerge um círculo lógico. Mas Appel propõe que a própria formulação do trilema já está transcendentalmente garantida como “contradição performativa”. Aquilo que se faz, argumentar, contradiz aquilo que se diz, isto é, que não é possível argumentar racionalmente nesse campo.

Appel afirma então que pretender infirmar o a priori da comunidade de comunicação, isto é, o fato de que qualquer formulação linguística já está endereçada a uma comunidade virtual capaz de receber a mensagem, equivale a colocar-se fora da possibilidade mesma do discurso, que é comunicacional. Nesse ponto surge uma convergência curiosa entre o procedimento de Appel e aquele utilizado por Aristóteles na Metafísica ao refutar a possibilidade de não aceitação do princípio de não contradição. Assim, sem proceder por agora a um exame crítico da teoria do a priori da comunidade de comunicação, torna-se mais oportuno observar o alcance dessa convergência.

Isso se torna mais necessário aqui, também devido ao contexto em que essa convergência já foi analisada de modo que aí imbrica-se uma questão importante quanto ao tema da sofística. Pois se Barbara Cassin observou a convergência de procedimentos de Appel e Aristóteles, o contexto em que se desenvolve sua análise é precisamente de exposição do pensamento sofístico mas efetivada de tal maneira que a conexão crítica com a perspectiva heideggeriana se torna uma constante.

Assim poderíamos pensar que o aporte humanista da sofística, tal como presente em Appel, faculta a aproximação de Heidegger com esse movimento da Antiguidade Clássica, uma vez que a “Transformação da Filosofia” se desenvolve tão estreitamente em convergência com a hermenêutica heideggeriana. Mas se a explanação “sobre a interpretação heideggeriana da sofística” em Barbara Cassin propõe a questão: o pensamento matinal dos gregos abrange ou não o movimento sofístico na medida em que todo esse meio se desenvolve como pré-socrático? a resposta é bem clara: há dois tipos de pré-socráticos na formulação de Heidegger, os autênticos Parmênides, Heráclito e Anaximandro e os inautênticos Zenão e sofistas em geral.

Mas se a inautenticidade de Zenão reside no fato de seu exercício permanecer apenas dialético, podemos enfeixar a censura de Heidegger no sentido único da sofística. Historialmente posteriores a Platão e Aristóteles,que seriam portanto bem mais gregos, os sofistas tampouco deixam de ser de todo gregos, e só por isso convém escuta-los. O que emerge dessa escuta porém é que os movimentos sofísticos constituem um eixo da modernidade irrompendo no seio mesmo da antiguidade.

Ao invés dessa modernidade ser aquela de Vico que prolonga a filosofia secreta do humanismo, para Heidegger trata-se da “pior das modernidades não-filosofantes”, conforme a expressão de Cassin, por constituir-se na abrangência do ceticismo e do relativismo, mais a “queda própria ao Dasein”: a tagarelice e a etiquetagem.

O desenvolver desse problema do distanciamento entre as perspectivas de Heidegger e de Appel poderia bem se encaminhar no sentido de responder à questão de saber se a inserção da sofística conforme a teoria de Appel faculta a compreensão mais abrangente desse fenômeno. Mas deixando a oportunidade desse desenvolvimento para o momento de análise crítica do a priori da comunidade de comunicação, por agora o mais importante permanece sendo a convergência do seu procedimento de exclusão com aquele já praticado no livro gama da Metafísica.

Trata-se aí de fundamentar o exercício da filosofia através de um duplo movimento. Inicialmente relaciona-la à pesquisa do verdadeiro desqualificando a dialética e a sofística quanto às suas pretensões nesse sentido. Em seguida, e para que isso seja viável, é necessário estabelecer um princípio que destitua qualquer procedimento dubitativo quanto às possibilidades de algo assim como a enunciação do verdadeiro. Fundamentalmente precisa existir um mínimo não exposto a qualquer controvérsia.

O elemento da verdade é então enunciado por Aristóteles na forma do princípio de contradição: “O mesmo atributo não pode, ao mesmo tempo, pertencer e não pertencer ao mesmo sujeito com relação à mesma coisa” (1005b 20).

A argumentação que se desenvolve contra qualquer tentativa de demover o princípio baseia-se assim numa exclusão radical pois qualquer afirmação já pressupões o princípio “e se ele nada disser” – “um tal homem não seria mais que um vegetal”.

Aparentemente teríamos assim com Appel a repetição do procedimento aristotélico já que a não aceitação do a priori enquanto fundado como tal implica na impossibilidade de participar da linguagem. Em ambos os casos trata-se de excluir o opositor da classe dos seres humanos se ele não se pronuncia tanto quanto de tornar implicada a aceitação da teoria no simples fato do pronunciamento qualquer do opositor.

Ora, Appel não reconhece de modo algum essa pretensa convergência de procedimentos. Para ele trata-se, inversamente, de uma radical alternância teórica pois Aristóteles teria permanecido no elemento proposicional, isto é, depurando toda pragmática, enquanto sua própria fundamentação se instala, enquanto pragmática transcendental, desde o início no âmbito intersubjetivo que permite estabelecer o critério da validez a partir das regras vigentes no exercício mesmo da argumentação.

Cassin propõe então que o erro de Appel consiste numa leitura muito tradicional de Aristóteles. Já o livro gama se poderia interpretar como “busca transcendental das condições de possibilidade do logos humano” de modo que o próprio elemento da controvérsia “lhe é antecipadamente ganho”.

Contudo creio que sempre se pode localizar a defesa do princípio tal como formulado no âmbito mais abrangente do pensamento aristotélico, não tanto pela possibilidade transcendental do logos mas sim no enraizamento do próprio logos em sua coextensão ao ser. É´ porque o ser não pode não ser que algo não pode deixar de ser o que sempre já é enquanto enunciado. Assim se o Logos se funda como possibilidade humana do dizer, o que se delimita como próprio do homem está racionalmente na dependência do ser.

A metáfora da planta, nesse sentido é significativa. Sabe-se que na teoria da alma Aristóteles pensa a mais simples como vegetativa, sendo o animal capaz de movimento e o homem de pensar. A imobilidade da planta reproduz assim, mais do que uma mobilidade à esmo animalesca, o nada de pensamento envolvido na asserção qualquer que não observa o princípio de contradição. Se entre aqueles que dele duvidam podem constar os que apenas não pensaram o suficiente, estes poderiam ser visados por uma metáfora de animal já que seu movimento reflexivo ocorre à esmo, sem a ordem necessária da conexão com a substância. Mas a estes sempre se pode convencer pela exposição de uma ordem de razões. Contudo, aqueles que se comportam de modo sofístico falam apenas pelo prazer de falar, logou chárin (1009, a). Como nesse “falar por falar” não há pensamento algum, torna-se bastante apropriada a metáfora vegetal que reduplica a exclusão. A imobilidade da planta, a não-humanidade do procedimento irracional, o pensamento nenhum da flatus vocis. Sem dúvida a argumentação aristotélica releva aí a sua própria exigência de ser apofântica, isto é, de fazer ver.

Assim a asserção de Appel quanto ao enraizamento do paradigma clássico no ser dos entes prolonga muito coerentemente a sua observação de Aristóteles como tendo iniciado a orientação ainda vigente na lógica contemporânea da ciência inteiramente situada no âmbito semântico, mesmo no seu desdobramento pragmático neopositivista com vistas a abranger algo do comportamento.

Se o princípio de contradição é logicamente indemonstrável ele depende no entanto daquilo que o tornou possível, isto é, da ontologia da substância. Ter o Logos está realmente prévio a qualquer tentativa de refutação do Logos mas a validez do racional só pode ser plenamente comprovada alhures, não no terreno do próprio Logos e sim no ontológico, porque “algo deve haver que denote substância”. A teoria da atribuição depende finalmente desse dobramento do ser pelo qual ele tanto afirma a essência quando dela deriva os acidentes.

Ora, para Appel o que restou justamente a demonstrar foi essa fundamentação ontológica da essência. O que ele põe em jogo é a estrutura do ser-como algo, a “Als Struktur” heideggeriana, isto é, “a estrutura existencial da qual emergem sentido e significação”, de acordo com Arion Kelkel. É nesse sentido que se opera a inserção do pensamento de Appel no âmbito do transcendental, uma vez que entender-se a respeito do ser-como algo está já antecipado na linguagem, o que não ocorre de nodo algum na argumentação aristotélica. A coisa, a qual finalmente o mínimo pensável se relaciona aí inevitavelmente, não existe como tal, independente da linguagem, de modo que a inteligibilidade desta pudesse se fundar por ela, conforme Appel.

Como já observou Jaeger, Aristóteles é pioneiro na elaboração de uma teoria da significação que Pierre Aubenque enuncia como compreendendo “ao mesmo tempo a separação e a relação entre a linguagem como signo e o ser como significado”. No entanto é o liame com a substância que permite a relação da palavra com a coisa através do elo justo e necessário da atribuição.

Ocorre que, como designado por Aubenque, Aristóteles não ignora o duplo alcance da linguagem de modo que sua refutação da possibilidade de negar o princípio de contradição se lança em duas frentes, tanto no laço com a coisa enquanto significação quanto no aspecto dialógico. Na verdade ela se lança pela mais íntima relação que Aristóteles estabelece entre esses dois aspectos hierarquizando-os. O dialógico só pode funcionar pelo lógico que por sua vez só pode se fundar por um terceiro fator, ontológico. Eis o que conjura todo aporte transcendental garantindo ao mesmo tempo a independência do lógico, quanto à sua validez, em relação ao dialógico mas de modo algum o inverso.

Quanto a Appel a inserção do seu pensamento no âmbito do transcendental se faz pela recombinação dessa hierarquia. O ontológico já está pragmaticamente enraizado no dialogismo. Portanto qualquer pretensão lógica pressupõe o engajamento comunicacional e comunitário.

Aristóteles já havia proposto a comunicação enquanto experiência própria da linguagem. Mas ele a situa a partir do ser: “se os homens comunicam”, conforme a explanação de Aubenque, “eles comunicam no ser” suposto como “horizonte objetivo da comunicação”. O termo “objetivo” funda toda a decalagem entre a perspectiva ontológico-substancial aristotélica e a via transcendental de Appel.

Mas quanto a isso é oportuno verificar que o próprio Aubenque de certo modo confirma a perspectiva de Cassin. Pois ao invés de centrar a questão a partir de uma depuração pragmática que poderia se designar como o “sofisma da abstração”, conforme a expressão de Appel, Aubenque enfatiza o papel exercido no livro gama pela ontologia da essência, como a priori da comunicação através da linguagem, na defesa do princípio da contradição.

No entanto, se o desenvolvimento da argumentação de Aubenque apresenta resultados surpreendentes, a imbricação aí da ontologia com “uma reflexão implícita, mas sempre presente, sobre a comunicação” se torna decisiva.

Assim, se a teoria aristotélica da linguagem “pressupõe uma ontologia”, Aubenque afirma que essa ontologia não pode fazer abstração da linguagem. A razão dessa interdependência não reside apenas na utilização do discurso como meio de expressão mas abrange o seu caráter necessário à própria constituição do objeto. O ser – enquanto – ser só pode ter sido proposto pelo homem por efetivar-se “como horizonte sempre pressuposto da comunicação”.

Nesse sentido os paradoxos da sofística encontram um tipo de justificação pois teriam fornecido a “solicitação involuntária” inicial daquele espanto do filósofo perante a linguagem, sua constância num meio de equivocidade, sua inevitável atuação de significância, que conduz afinal à colocação da questão ontológica.

Por aí Aubenque quase antecipa a questão tratada aqui, pois insiste no fato de que a separação tradicionalmente enfatizada entre o teorético por um lado, e o prático e poético, por outro, apenas recobre aquilo que se torna mais proeminente como a unidade estrutural da “especulação filosófica efetiva” de Aristóteles.

Finalmente a interpretação de Aubenque conduz a uma antropologia da mediação como imitação, por uma já agora impossível ontologia, da teologia da transcendência. A humanização do homem e a naturalização da natureza, pelo trabalho, se torna o corretivo da inelutável cisão da essência devida ao movimento do mundo sublunar e desse modo o objetivo permanece sendo uma aproximação infinita da unidade e imobilidade do mundo celeste.

Do mesmo modo, se a dialética se reinsere pela insuficiência da intuição nesse cenário de “ontologia da contingência”, ela não teria sentido se não visasse apenas à própria supressão, à consecução da intuição mesma ainda que como possibilidade sempre a vir de modo que seu exercício permanece também apenas no sentido de uma mediação.

Assim, ainda que se pudesse confirmar a proposição de um ato de exclusão transcendental praticado na defesa do princípio de contradição, assim como se afirma que Appel sustenta efetivamente as regras do jogo de linguagem transcendental a partir da implicação do reconhecimento de sua validade, enquanto argumento de fundação contra o decisionismo popperiano, o decisivo reside no caráter hermenêutico dessa sustentação.

Pois Aubenque, como vimos, afirmava, sim, o procedimento aristotélico de defesa do princípio a partir da ontologia como a priori da comunicação através da linguagem, mas não como a priori comunicacional da linguagem. Nisso se pode precisar a decalagem: se o projeto ontológico aristotélico se relaciona a uma reflexão implícita sobre a comunicação, o fato apenas o caracteriza pelo viés da antropologia. O “universo da comunicação” como nódulo do interesse de Aristóteles pelo discurso prossegue, conforme Aubenque, em conexão com as várias significações da fala humana sobre o ser, de modo que a ontologia pode equivaler a uma antropologia, mas não a uma linguística como preconizava Trendelenburg.

Quanto ao caráter hermenêutico do empreendimento de Appel, vemos que pela via da historicidade dos jogos de linguagem se poderia pretender que ele permanece na proximidade da antropologia mas com isso não se poderia manter o foco de transcendência do dasein em seu aporte ontológico mais próprio.

Essa constatação me parece incompatível com a possibilidade de uma “estrutura de consenso filosófico” comum a Aristóteles e Appel. Não há dúvida de que tanto quando se trata de defender o princípio de contradição como de garantir a fundamentação ético – transcendental, a argumentação “prende-se inteiramente à problemática do sentido”, conforme as expressões de Cassin. No entanto, é justamente esse o termo que impede uma redução ao mesmo dos procedimentos de Aristóteles e Appel, pois a conclusão a que isso deveria conduzir é que se trata, nos dois casos, da precedência do “regime semântico”, qualquer outro regime tornando-se assim “inaudível, inominável, forcluído”.

No entanto o que se constitui a meu ver como o movimento de fundamentação mais próprio de Appel é precisamente a destituição da pretensão semântico-proposicional como condição de possibilidade da linguagem, que ele estrutura profundamente como performativa. Nesse âmbito não surge como fortuita a aproximação da sofística com a tese da filosofia secreta do humanismo.

Entretanto permanece a questão de se este aporte permite a inserção mais abrangente dos movimentos sofísticos, o que não pode deixar de incluir uma análise quanto aos próprios pressupostos pragmático-hermenêuticos aí envolvidos, sendo o meio mais conveniente para esse exame precisamente aquilo em que penso vir a consistir a teoria sofística da linguagem. Mas quanto a isso, a contribuição de Cassin permanece bastante relevante e proveitosa, pois fornece efetivamente, de modo não imbricado à análise do empreendimento de fundação de Appel, uma via ampla de aproximação ao pensamento sofístico.

Mas, Quanto a Isso...

 

A cisão da essência não se lança na mesma consistência da des – cisão acerca do sentido. Mas quanto a este último aporte conceitual, seria preciso ainda indagar: o que há com o decisório, em que instância se produz ou constitui?

Appel permite esclarecer a culminância conceitual heideggeriana, o que é propriamente circular na hermenêutica. Não mudamos o que já não foi dado numa apreensão de mundo “como” aquilo que se interpreta para ser objeto da des – cisão quanto ao que dispor dessa interpretação. A interpretação vinculada na linguagem se exerce como o lance de sua própria modulação entre os jogos, isto é, como produção histórica de sentido.

A cisão da essência porém se conserva como intervalo temporal que a ordem se encarregará de impor ao devir como sendo a ordem do ser. Só a conservação do passado se pode enunciar no ser. As decisões estão no mundo mas não são pressupostas como se tocassem o sentido e sim como se o sentido as recolhesse para que a linguagem as pudesse enunciar.

Já na des – cisão o mundo está antecipado e guarda o vínculo com o passado mas o descerramento do sentido, o que é o elemento descobridor-acobertante, sombreia o que não se colhe na interpretação enquanto projeto de futuro. E se o vínculo da antecipação é pensado como as possibilidades hermenêuticas dos jogos de linguagem, em todo caso resta a pergunta sobre o que é que se desvela ao descobrir encobrindo.

O dasein surge como o conceito mais amplo fornecendo o critério da autenticidade e daquilo que renuncia. Do que permanece no já-assim-constituído pela indiferença ou pela adesão mais negligente e do que se lança na tarefa do pensamento, do que descobre.

Husserl havia situado a imanência na consciência transcendental e em seus atos constitutivos de sentido. O transcendente estava no mundo como objetos que o sentido se encarregava de constituir “para nós” mas que restavam ainda de algum modo no fora de sua irredutibilidade ao Ego transcendental. Heidegger suprime a barreira, o dasein é sempre transcendência, o estar lançado pelo qual o ser é também o devir puro mas não sem que as palavras o enunciem na existência do dasein. A compreensão do mundo implica a compreensão da existência, e que a recíproca seja verdadeira, eis o “círculo do ser” como mostra René Schérer.

Mas seria lícito observar que o grande equacionamento ser=devir, via Physis pré-socrática entre outros modos possíveis, não se faz sem dobrar o devir conforme a curvatura que lhe é imposta pela preensão do ser, uma vez que ela se faz como “harmoniosa” unidade do múltiplo?

Dasein é Aletheia. Ser, homem, mundo, todos se equivalem como “o mesmo” enquanto objetos da questão “O que é...?”. Sem que isso reduza a essência à cisão, pois penso que essa cisão não pode ainda ser postulada como a transcendência do dasein, uma vez que ela se faz sem projeto a partir do que o ente sempre já é, mesmo que pelo movimento toda a iminência do não-ser se recolha como deriva da linguagem, pesquisa dialética provisória até que se apresente a ciência e o conhecimento. Portanto, pela virtude do círculo, sem que o projeto e a pergunta se esgotem na pura facticidade semântica.

Mas mesmo que o círculo reintroduza o múltiplo é a pré-estrutura do compreender, enquanto ele é compreender, que situa tudo o que escapa à semântica sem contudo atingir o desejo. O que o círculo impede é que se postule o devir liberado do ser, o múltiplo sem a forma de historicidade do Uno. Aqui nada impede um certo sorriso, já que a historicidade parece ter sido dada como a possibilidade autêntica da escolha, o fora da história sendo a forma da exclusão do humano que afinal sustenta o a priori comunicacional.

Mas se a historicidade, esse meio que é mundo e sentido inseparáveis de ser e homem, surgiu com Hegel enquanto correlato do espírito, logo do ideal, com Heidegger a redução semântica se vê apenas como produto final do amálgama pragmático de modo que o que está em jogo é precisamente o compreender irredutível à forma lógica da idéia para ser-com aquilo que empreende compreender. Mas não é menos verdade, nem menos dogmática.

O corpo, a linguagem, abrem o mundo, mas só o fazem como estruturas de intervenção – e aqui se deve fazer algum lugar, ainda que não devidamente explorado, para a variação de abordagem entre Arion Kelkel e K.-O Appel, quanto `a teoria da linguagem em Heidegger. Appel tende a faze-la convergir sem problemas com Humboldt enquanto Arion kelkel observa que o que se produz como acontecimento,Ereignis heideggeriano na linguagem é a alteridade do mundo e das coisas, a qual permanece subsumida no “horizonte”, istoé, na linguagem de Humboldt onde estas se encontram desde sempre inscritas e no exterior da qual elas permaneceriam no puro em-si de sua inacessibilidade, o “Zwischenwelt” se interpondo “entre” e ao mesmo tempo unindo o que assim se encontrava separado.

Em todo caso o dogmatismo se torna inseparável da circularidade. O princípio de incerteza de Heisemberg entra na linguagem de modo tal que não se oferece processo algum de retificação ou correção de “erros” – mas sim de “aguçar o olhar em direção a acobertamentos fixados pelo destino”. Parece, contudo, que isso só pode ser completamente feito um pouco tarde demais de modo que pode ser que a vida não tenha como pagar um tal preço de espera.

Haveria algum modo de não se pensar tudo isso de modo simplesmente a priorístico de sorte que se possa visar a questão por algum ângulo que não redunde numa “Prison – House of Language”, conforme a expressão de Jameson?

Seria bastante oportuno, quanto a isso, observar o texto de René Schérer,”En Marge de Nietzsche”, no volume do Heidegger publicado em parceira com Arion Kelkel. Há aí uma comparação entre as leituras de Nietzsche assim como efetuadas por Heidegger e Deleuze-Gauttari.

O crucial fica sendo o regime das máquinas. Heidegger não pode apreender a produção desejante uma vez que sua concepção de máquina a vincula quase que por definição ao objeto da técnica. Mais profundamente se poderia propor: o conceito maquínico do desejo engendra uma via de “autenticidade” que não se limita à escolha de se tornar passivo ao ser ou à voz, assim como a produção poética desborda a dimensão do “Sagrado”. Não se propõe que por aí se tenha ultrapassado toda perspectivística, muito inversamente. A questão não seria como voltar à circunscrição da semântica mas sim como é que se pensa o acontecimento, ou melhor, que é que permaneceu impensado nesse pensamento – para guardar a fórmula pela qual desde Heidegger sempre se pensa de certo modo com ele e essa pergunta permanece no âmbito de seu estilo de questionar.

Que significa a via para o super-homem ou para o pensamento do super-homem (metáforas da ponte, da corda e da flecha)? Mais precisamente, que quer aquele que o enuncia enquanto conceito?

Como se pode estender o conceito heideggeriano de Acontecimento à luz da formulação teórica deleuziana que se utiliza tão fundamentalmente desse mesmo termo?

Em que o devir pode ser liberado do ser e que conceito de história se interpõe aí?

E principalmente, qual a imagem do pensamento que se depreende do aporte hermenêutico de modo que se pergunta igualmente: como se pode derivar daí o estatuto mais abrangente do Conceito filosófico?

O pensamento sofístico vai então se lançar no entre-dois dessas questões que se voltam no sentido do pensamento que se produziu, Heidegger & Deleuze (mas se “entre” é a multiplicidade, & Nietzsche & a Antiguidade clássica...).

Seria bastante responder sim ou não ao que foi anteriormente formulado – se a tese do humanismo convém à sofística? Assim, inicialmente examinaremos algumas imagens da sofística para daí procurar delinear o “Logos Sofístico”. Com esses elementos procuraremos mostrar em que esse logos convém ou não com o pensamento hermenêutico e com a Nova Imagem do Pensamento que se deriva da filosofia de Deleuze.


II – Imagens da Sofística

 

 

Há uma impressão bastante generalizada a propósito da sofística. Se sua instituição provém da filosofia platônica pode-se no entanto afirmar que ela predominou até à época contemporânea. De fato ainda hoje não deixa de se antepor como lugar comum sobre os propósitos no mínimo ambíguos dos sofistas.

Kerferd procurou detalhar a imagem platônica da sofística a partir de duas perspectivas. A característica que as reúne é a pressuposição de que nenhum sofista é filósofo. As duas perspectivas se enunciam então como justificativas desse pressuposto.

Por um lado o sofista não se preocupa com a verdade, mas apenas com os fenômenos, isto é, com a aparência. Não é que Platão pensasse que o que ocorria aí fosse ao modo de um engano, devido à ingenuidade, ao desconhecimento da verdade enquanto questão central do conhecimento. Inversamente, haveria uma real má fé sofística no sentido de recusa deliberada dessa questão central. Ao invés de querer a verdade os sofistas se instalavam num terreno “onde não podiam encontrar nenhuma verdade”, isto é, “o terreno dos fenômenos”, da aparência pura, conforme Kerferd.

Bréhier enuncia esse ponto com muita clareza, caracterizando a sofística não como uma doutrina mas como “maneira de ensinar” os “métodos para fazer triunfar alguma tese, qualquer que seja”. Assim torna-se óbvio que seu propósito não residia na “pesquisa e publicação da verdade” mas “ na busca do sucesso fundada sobre a arte de convencer, persuadir e seduzir”.

A outra perspectiva imbricada nessa imagem detratora da sofística tal como observado por Kerferd é aquela pela qual Platão não ignorava que havia alguma aplicação aproveitável nos procedimentos dos sofistas. Ele desejava assim desviar tais procedimentos dos seus maus propósitos canalizando-os para a filosofia. Por esse meio dever-se-ia transformar as técnicas de discurso em lógica, a causalidade puramente fenomênica em uma etiologia das formas e a retórica em dialética.

Platão compõe essa imagem detratora ao longo de sua obra, culminando no “Sofista” a série de fórmulas consagradas que a plasmaram. O caçador de jovens ricos, que cobra lições. O comerciante, pequeno aliás, dos saberes. O erístico mercenário. O refutador profissional.

Nestes dois últimos epítetos reside o cerne da censura. Trata-se da arte pela arte do disputar, sem se preocupar com a verdade, apenas pela exibição da técnica de convencer.

Mas como não deixa de transparecer no diálogo, tudo isso se exerce na sofística como o avesso de algo que afinal tem seu lado certo. Como tal, o avesso é dessa mesma coisa que precisa apenas ser retificada para que se veja pelo modo adequado, assim como deve ser. O jovem precisa ser educado na virtude e a refutação é o instrumento mais valioso a ser utilizado na tarefa mais básica da instrução que consiste na purificação das pré-concepções “que cerram as vias do ensino”.

O projeto platônico de conversão dos procedimentos sofísticos em filosóficos comparte essa analogia do avesso, que utilizei, com a selvageria do lobo em relação à domesticidade do cão conforme o exemplo de Sócrates no “Sofista”. A semelhança dos procedimentos sofísticos com os métodos filosóficos é nesse diálogo visado, como todas as semelhanças, algo com relação a que “é preciso mantermonos em constante guarda”.

A semelhança, “esse gênero extremamente escorregadio”, poderia fazer supor que a intenção filosófica já estava aí, germinando na sofística. Contudo, o que Platão quer mostrar é que não se trata disso de forma alguma. A sofística não seria uma boa intenção desviada pela insipiência de seus procedimentos inadequados. Trata-se, inversamente, de uma intenção má, servida por procedimentos altamente elaborados a que é preciso desmascarar para podermos, nós enquanto filósofos, melhor nos servir deles.

Confirmando assim a duplicidade da perspectiva platônica conforme observada por Kerferd, é possível que tenha sido esse o fator pelo qual a imagem detratora da sofística pôde, quando foi preciso, surgir com traços sutis.

Pois não seria difícil atenuar essa última parte e, mantendo a versão da sedução, inseri-la no contexto da época: a vida intelectual na Grécia havia tomado a forma de jogo, a partir do período clássico. Relacionada estreitamente a isso temos a transformação do exercício do pensamento, agora destinado pela via do endereçamento a um público. Portanto a erudição e a virtuosidade tornam-se os principais valores intelectuais e os sofistas surgem como esses técnicos que ensinam as artes úteis ao homem e esses retóricos que ensinam a conquistar a benevolência do público. Este é o caminho adotado por Bréhier.

No entanto, se tudo começa aí como já tendo se definido pela via do “seduzir”, não se deve estranhar a conclusão de Bréhier sobre a sofística. Cinismo político, virtuosidade vazia, eis no que havia redundado o movimento já no início do século IV, “malgrado os talentos superiores dos sofistas”, e isso devido a “uma concepção de vida intelectual orientada unicamente ao sucesso.” Mas se nada de positivo foi perdido, nem dos sofistas nem daquilo que os precedeu, isto se deve a que tudo foi recolhido afinal... “no mais prestigioso dos filósofos gregos, em Platão”.

Esse viés contemporizador se encontra, por exemplo, em Sciacca. Se a sofística é observada como crise do mundo pré-socrático, assim como toda crise deve ter algo de positivo. A mais curiosa dentre as atualizações de tal viés, porém, é a de Bernhardt escrevendo para a História da Filosofia de Chatelet. Propondo abster-se de tomar os sofistas “em bloco na fé dos retratos e caricaturas que Platão deles traçou” chega-se afinal à conclusão de que esses “vendedores ambulantes de sabedoria prática” são “precursores” da filosofia mesmo nisso pelo que se pode falar de um “desviamento constitutivo”: eles dão armas aos nobres, opositores dessa democracia ateniense que afinal foi o que possibilitou tudo, desde a própria sofística até Sócrates, Platão e a filosofia!

Mas se essas presentações conciliatórias da sofística não rompem de todo com a imagem detratora forjada por Platão, porque foram levadas assim a anunciar uma certa mudança de perspectiva? Não seria porque uma outra imagem da sofística desenhava-se no horizonte, com importância suficiente para que doravante de algum modo devêssemos ao menos leva-la em conta?

Guthrie afirma que até os anos trinta do século passado a imagem detratora era normalmente veiculada nos meios acadêmicos sem enfrentar qualquer contestação séria. Até aí era Platão o “verdadeiro amante da sabedoria”, o filósofo autêntico, sendo os sofistas sempre considerados “superficiais”, “destrutivos” e “mentirosos”. No entanto, com a onda de contestação ao nazismo o próprio sentido do platonismo começou a ser posto em dúvida uma vez que o objetivo principal do partido nazista, assim como alardeado no seu programa oficial, era produzir “guardiões no mais alto sentido platônico”. Sir Karl Popper, Havelock, Thorson, são autores que participaram desse movimento anti-platônico propiciando assim a constituição de uma nova imagem da sofística, não decorrente da impactante crítica de Platão.

É interessante observar como essa alternância se reflete na história. Assim a historiografia mais antiga de Baridon e Ellauri registram a importância da oratória e dos mestres retores na Pólis democrática, esses profissionais que “ensinavam a arte de falar com eloquência, de raciocinar e discutir, de adornar o discurso e expressar com clareza os pensamentos”. Contudo, conservando ainda algo do viés platônico, aduzem que se alguns sofistas permaneceram como ‘simples profissionais da discussão”, seu alarde de suficiência em saber defender tanto o pró quanto o contra de qualquer tese explica porque o termo “sofista” se tornou gradativamente sinônimo de “mal raciocinador, pérfido e enganoso”. Já Rostovtzeff considera os sofistas como “os pais da sociologia e da ciência política” enquanto Jaegger enfatiza o seu papel como criadores do conceito de cultura, o que ele afirma dever permitir caracteriza-los como verdadeiramente humanistas.

Guthrie chama a atenção para o fato de que uma reabilitação crítica da sofística não deixou de insistir mesmo no passado contra a esmagadora maioria de vozes a favor de Platão. É o caso de Grote, no século XIX, que em sua História da Grécia observou que aquela imagem detratora parecia por demais forjada e que havia afinal uma relação constitutiva entre sofística e democracia a qual era justamente o alvo das críticas daqueles para quem na verdade a democracia parecia de todo “não palatável”.

A obra de Grote despertou vivo interesse e alguma adesão na época mas comentadores como Sidwick e Grant costumavam mesclar sua aparente aprovação com censuras de base no sentido sempre de defender de algum modo o platonismo.

Temos assim três imagens da sofística. A detratora, de Platão; a tentativa de Grote, que redundou num tipo de presentação contemporizadora mas ainda conservando algo da visão platônica, se bem que não houvesse sido essa a intenção do próprio Grote. E finalmente a imagem reabilitadora, que se constituiu no contexto da Segunda guerra.

Quanto a essa imagem reabilitadora que surge no século XX, pode-se observar que foi constituída inicialmente pelo neopositivismo mas, conforme Karl Joël observou, ela encontrou algum suporte em Lewes tanto quanto em Grote, enquanto na Alemanha esse mesmo projeto ressoava em Laas, Nietzsche e Gomperz. Joël acrescentando ainda Hegel.

A relação entre reabilitação da sofística no século XX e a filosofia analítica do neopositivismo pode também ser evidenciada pelo interesse manifesto dessa escola pela depuração da linguagem. Assim torna-se compreensível a visão apresentada por L. Geymonat que contextualiza o manejo sofístico dos paradoxos como busca de linguagens “mais idôneas para a investigação científica”. O que estaria em marcha na sofística seria algo como aprender “ a conhecer a dificílima máquina do idioma, decompondo

e recompondo os raciocínios mais singulares, construindo as argumentações mais sutis e artificiosas, despedaçando os conceitos tradicionalmente mais sólidos”, assim como a criança ou o engenheiro desmontam um objeto ou instrumento para compreender como funciona.

Já examinamos a concepção de Appel sobre a relação da sofística com a filosofia secreta do humanismo ocidental. Lembrando que Appel se coloca em franca oposição à filosofia analítica, podemos afirmar que o intuito de reabilitação da sofística não compõe realmente uma imagem única mas delineia os perfis conforme motivações políticas (Grote, Popper), metodológicas (Geymonat) e filosófico-culturais (Appel, Jaeger) de modo a abranger resultados bastante variados que nem sempre podem ser coerentemente assimilados uns aos outros.

Mas é ainda importante notar um traço bem ressaltado por Guthrie. A polêmica envolvendo a sofística, onde quer que tenha surgido, abarca uma avaliação das questões a partir de uma perspectiva do presente, isto é, os problemas são analisados como se pudessem ser superpostos aos tópicos controvertidos peculiares à época dos próprios comentadores. Assim de um modo geral aqueles que se interessam por reabilitar a sofística situam-se como pensadores comprometidos com a causa da democracia ou de um tipo de “sociedade aberta” conforme a expressão de Popper. Se Appel pudesse, no entanto parecer uma exceção, não creio que o intuito de sua ética, ainda que universalista, possa ser realmente visado como totalitário.

Inevitavelmente a empresa de reabilitação da sofística envolve uma crítica do ideal platônico de sociedade como a descrita na “República” e mais detalhada nas “Leis”.

O ponto crucial do conflito entre essas imagens abrange a escolha entre duas possibilidades de organização social.

Conforme a platônica temos uma sociedade na qual há um programa solidamente implantado de modo que a única opção viável aos participantes é adaptar-se a ele ou ser excluído. O programa, naturalmente, foi concebido conforme aquilo que seus criadores afirmavam ser a única ordem correta, tudo o mais sendo rotulado como desvio ou aberração.

Sabe-se como na República tratava-se de uma sociedade de castas com a diferença de que nem mesmo havia a possibilidade de que algum membro da casta superior mudasse o sistema de modo a abolir a desigualdade instituída. Ao invés de hereditária a pertença à casta dominante envolvia provas no sentido de testar a adesão aos mandamentos do programa. Nas Leis os traços da sociedade ideal platônica se alteram mas conservando-se, conforme Rivaud, “sob o império da religião” admitindo assim a “eliminação dos indivíduos física e intelectualmente inaptos à vida social”, ou seja, todos os considerados anti-sociais ou subversivos.

A sociedade dos sofistas é aquela que, inversamente à proposta platônica, se considera como espaço de coexistência de indivíduos cujas condições e ideias podem não coincidir de todo mas que por sua pertença social são iguais, possuindo os mesmos direitos e os mesmos deveres uns para com os outros. Não seria difícil observar que os dois tipos de sociedade se baseiam em concepções diversas de Aretê.

O Estado platônico se inclina para a Aretê heróica mas modulada a ponto de se determinar como Aretê patriótica. O Estado democrático se orienta eticamente pela concepção da Aretê moral mas assim como historicamente modulada no ideal de Aretê política.

O confronto entre essas concepções éticas se relaciona a dois tópicos bastante relevantes. Um deles é que põem em cena o contraste entre vários influxos centrais à organização social do período clássico, envolvendo tanto a oposição dos Ethoi nobiliárquico e popular quanto os modelos políticos de Atenas e Sparta.

O outro aspecto é filosófico. Pois quando se afirma que por um lado há uma ética cujo ideal é a virtude heróico-patriótica e que se estende conforme um programa moral universal e por outro há uma ética da igualdade que instaura a organização social como espaço de coexistência, resta a pergunta: se essa virtude de igualdade só pode se prescrever negativamente, isto é, se ela só pode negar a legitimidade de um programa que se pretende universal, como poderia ainda se referendar propriamente como ética?

Em outras palavras, e isso se afirma como uma questão crucial de nossa própria época, enunciada, por exemplo, na polêmica de Appel com a escola popperiana: como se poderia pensar sem contradição uma ética de abrangência não universal? Como poderia fundamentar sua própria legitimidade se para ela todos os valores são humanos, relativos, provisórios?

A complexidade dos movimentos sofísticos se mede já por essa dupla via de aporte histórica e filosófica. Contudo, se como vimos, não se pode visar a perspectiva histórica, quando se trata da Grécia e principalmente nesse período clássico, a não ser pelo situamento geopolítico, e ainda uma vez que a geopolítica helênica se desdobra filosoficamente, há necessidade de repor a geofilosofia, o que sempre é o caso quando se trata da sofística.


 III – O Século V a. C.

 

O século V evolui como cenário de duas guerras decisivas quanto ao destino da Grécia, o que estará também irreversivelmente relacionado à destinação de todo o mundo antigo.

Inicialmente há a questão Persa (Guerras Médicas) e em seguida o confronto entre Atenas e Sparta (Guerra do Peloponeso).

A questão Persa subsistia já desde meados do século anterior. Quando a Pérsia substituiu a Lídia na borda ocidental do continente asiático, as cidades gregas da Ásia Menor subitamente viram-se obrigadas a mudar sua política para com o elemento estrangeiro vizinho.

Havia intensa rivalidade comercial entre lídios, gregos e assírios. Gradativamente o impulso expansionista lídio concentrou-se nas cidades costeiras gregas. Aí existia uma consciência de unidade cultural, étnica e religiosa, mas as Polis eram independentes, “cada uma com sua própria política e tradições” conforme Rostovtzeff.

A Lídia, impotente diante da Assíria, procurava forçar seu caminho para o mar através dessas cidades gregas e adotou uma estratégia de conciliação até ser admitida entre os Estados gregos independentes como se fosse um deles. A rivalidade latente entre vizinhos subsistia por sob o manto de intercâmbio de modo tão intenso, porém, que impedia a devida atenção ao que estava ocorrendo no mundo longínquo dos Impérios do Oriente.

Assim foi uma completa surpresa a tomada de Sardes pela Pérsia, derrotando Creso, o rei da Lídia. A Grécia ainda tentou auxiliar a antiga potência comercial contra a Pérsia com o envio de parte do exército de Sparta, mas nada deteve o avanço de Ciro. Logo as cidades gregas da Ásia Menor estavam também sob a dominação persa ainda que lhes fosse permitido pelo Grande Rei manter suas próprias instituições e hábitos comerciais. A dominação envolvia basicamente o pagamento de um tributo e o envio de soldados.

A conquista da Ásia Menor pelos persas ocorre na metade do século VI. Já no alvorecer do século V a Jônia se rebela, iniciando uma ofensiva militar contra a dominação estrangeira. A Grécia continental subestimava a ambição do Império Persa. Parece que apenas a cidade de Atenas, conforme Baridon e Ellauri, enviou um reforço de 20 barcos à Mileto que liderava a revolta. Rostovtzeff menciona ainda a Erétria. Mas essas tentativas de apoio foram débeis e a Pérsia conservou seu domínio.

Logo Dario havia tomado a Trácia e a Macedônia, de modo que a intenção de conquistar a Grécia continental tornava-se cada vez mais óbvia. O pretexto inicial era punir a região do continente que havia colaborado com a Jônia e consistiu ao que parece na exigência de um valor de restituição. Assim, se as outras cidades gregas não pressentiam mesmo agora o perigo, consentindo nas exigências feitas à Ática, a intenção da Pérsia era utilizar essa região como trampolim da conquista de todo o continente helênico.

Atenas lutou praticamente sozinha contra o grande império e sua vitória em Maratona “é de importância capital na história do mundo”, conforme Rostovtzeff, pois representou uma falha no movimento de expansão da Pérsia, até aí incontestável. A nova ofensiva persa, já agora efetivada por Xerxes, uniu a Grécia continental na batalha de Salamina, igualmente vencida pelos gregos. Rostovzeff prefere enfatizar o papel de Sparta apenas no confronto final, em Platéias e Mícales (479 ac.). Em todo caso a guerra havia terminado. Havia dois resultados importantes: a vitória da Grécia e a nova situação de Atenas.

A penetração da Pérsia no continente ainda que militarmente impossibilitada, não deixou de se exercer por meios não de todo bélicos, que não cessaram de todo sempre que a ocasião se apresentava propícia. Havia assim toda uma política de influência por meio de suborno e propaganda, cujo alvo era a democracia de Atenas.

A Pérsia pressentia que seu modelo monárquico poderia não inspirar tanta rejeição nas regiões afeitas à autonomia da Polis grega, mas regidas internamente por uma constituição oligárquica. E como Sparta hesitasse muito no envio de tropas ou na adoção dos planos de combate ateniense, houve até mesmo a possibilidade de uma paz em separado com Atenas, o que não poderia jamais ocorrer sob governo democrático. Assim a tenacidade de Atenas em rejeitar toda rendição à Pérsia, mais o fato incontestável de que seus planos de campanha prevaleciam na condução das coisas, redundou na supremacia democrática ateniense quando a guerra findou. A democracia consolidava-se internamente ao mesmo tempo em que se impunha externamente como modelo político viável.

O interregno entre Platéias e a celebração definitiva da paz (448 ac.) foi marcado pela presença da Pérsia ainda na Ásia Menor. Sparta retirou-se do conflito tão logo a autonomia do continente pareceu assegurada. Atenas organizou a Liga de Delos, confederando-se com as cidades das ilhas e do Egeu, dando prosseguimento ao confronto com a Pérsia a fim de libertar as cidades gregas costeiras.

Contudo, aquilo que inicialmente se organizou como uma associação de interesse comum sob a liderança de Atenas, gradativamente tomava a feição de um instrumento de sua hegemonia. A grande prosperidade comercial e industrial da cidade e o seu poderio naval permitiram importantes iniciativas nesse sentido. Assim o tesouro comum que devia ser depositado em Dellos foi transferido para Atenas em meados do século V. Ainda assim pode-se afirmar que os elementos culturais mais importantes até aí dispersos se concentram nessa época em Atenas.

Jaeger observa por exemplo que é como se a produção intelectual que havia estado concentrada na Jônia se tornasse inteiramente centrada agora em Atenas. A pintura mural desloca-se de Corinto e atinge a culminância com Polignoto e Mikon, Zêuxis e Parrásios. Especialmente Polignoto é designado o “etógrafo” por sua habilidade em fazer as figuras expressarem detalhes da emoção ou do “feeling” relacionado às situações figuradas. A preocupação com a compreensão do sentimento humano nesse período é preponderante em Atenas.

Quanto à cerâmica, também ocorre a transferência das técnicas e mesmo da centralidade da produção de Corinto, mas progressivamente os artífices atenienses logram desenvolver seu estilo próprio. Inicialmente a decoração dos vasos prossegue no sentido da superação do geométrico, sob a influência de Corinto, tornando-se bastante típica com figuras negras, desenho inciso e detalhes em vermelho como no vaso François atualmente no Museu Arqueológico de Florença. O século V singulariza a produção ateniense, contudo, com a introdução dos vasos com figuras vermelhas e a produção de artífices consagrados como Epictetos, Eutímedes e Eufrônios, este último autor da cratera em que se retrata o combate entre Hércules e Anteu, atualmente no Louvre.

A hegemonia ateniense surgia como a preponderância do modelo democrático enquanto realidade singular grega naquele mundo marcado pelos regimes monárquicos orientais cuja versão no interior da Grécia permanecia ainda como exercício do poder dos nobres. As questões políticas e sociais que surgiam em Atenas agora abarcavam portanto uma região inteiramente nova de problemas que não tinha paralelo com nada do que ocorria no resto do mundo e que se impunha ao pensamento tanto quanto à realidade cotidiana do confronto entre classes e concepções de existência.

Visões de mundo agora estavam contrapostas de modo que algumas se auto-visavam como o que sempre havia sido e devia ser o mundo fazendo frente a essas doutrinas novas e anárquicas, revolucionárias. Assim, havia a superposição da querela de antigos e modernos com a rivalidade crescente entre os modelos políticos e a prosperidade comercial das Polis. Sparta surgia inevitavelmente como a potência mais apta a desempenhar o papel da epítome do conservadorismo, ou da concorrência de mercados, por ser o Estado mais forte depois de Atenas.

Assim, após a expulsão definitiva dos Persas, a Grécia se encontrou repartida em duas grandes zonas de influência: o Império marítimo comercial da Atenas democrática e a Liga do Peloponeso liderada pela Sparta agrícola e oligárquica. A guerra desenrolou-se na segunda metade do século V. A vitória de Sparta não consolidou uma pax grega pois logo foi contestada por outras cidades que cresceram nesse interregno desgastante para as duas potências principais.

O fracionamento interno da Hélade correspondeu ao expansionismo macedônio que substituiu a Pérsia como a grande monarquia da época. Logo a autonomia das Polis deixava de ser uma realidade política. A Grécia antiga que resistiu à Pérsia foi finalmente dominada pela Macedônia.

O interregno da supremacia ateniense constitui assim um ponto singular em toda a história do mundo antigo. Por um momento pareceu possível uma Grécia unida, por um momento pareceu real uma via democrática já na Antiguidade. Como a expansão colonial havia proporcionado uma ampla região de influência grega, podemos imaginar que uma Grécia unida sob hegemonia democrática ateniense representava efetivamente essa possibilidade de uma potência de tipo ocidental já naquela época. E se a profusão inigualável da atividade intelectual desse período em Atenas, de que a sofística é um dos produtos acabados, pode oferecer uma noção do que aí já se desenvolvia em termos de crítica e autocompreensão humana, pode-se conjeturar sobre a que poderia levar essa “modernidade” antiga.

Contudo não se pode deixar de observar que a ofensiva de Sparta vinha bem a propósito na perspectiva geral da antiguidade. Assim se sua ofensiva visando o partido democrático ateniense se exercia não só militarmente como também de dentro, financiando todo tipo de oposição, parece que, conforme Rostovtzeff, contava com o apoio do “ouro persa”.

Já a singularidade ateniense permaneceu historialmente votada ao futuro. É por isso que a recolocação de suas questões é de tão grande importância hoje, em que as teses que lá se confrontavam ainda informam orientações básicas do espírito. Não sem razão Foucault observou, por exemplo, que todo Nietzsche se constituiu como “exegese de alguns vocábulos gregos”.

Seria preciso então figurar esse espaço ateniense em seu apogeu. Reconstituir a cidade e ver por ali circular essas figuras imponentes dos mestres da retórica, esses self-made-men que pelo poder do Logos se alçaram da simples condição de estrangeiros sem direitos políticos à celebridade de homens que fizeram fortuna com sua sabedoria.

Esses “Sophós”, “sábios” que ensinam e encantam os ouvintes, personificando a Polis democrática como a possibilidade de auto-realização estendendo-se a todos que põem em prática as suas lições. Mas de que eles falam, o que é que eles ensinam? Quem pode ouvi-los, a quem eles visam como seu público? Em que reside o fundamento de suas promessas, o que garantem por fim?

 

IV – O Paradoxo Clássico

 

O propósito de uma indagação abrangente acerca das possibilidades de uma inteligibilidade própria às ciências humanas envolve questões como a de saber, em caso afirmativo, desde quando se pode dela captar os traços.

Desde sempre, como algo que acompanha o homem ao menos na forma da problematização de si mesmo e do sentido de suas ações – o falar, o socializar, o pensar, por exemplo? Ou sua invenção no tempo é algo de bem assinalável, relacionando-se a circunstâncias plenamente descritíveis?

Sob esse enfoque, que não é estritamente o de uma história das ciências, pertencendo bem mais ao âmbito da filosofia, a análise não apenas do surgimento da sofística mas das próprias condições que situam o período clássico torna-se surpreendentemente fecundo. Efetivamente permite tanto responder a essa questão quanto compreender os limites da racionalidade antiga no contexto daquele mundo em que a Atenas democrática parece singularmente “miraculosa”.

Para situar essas transformações de tamanha importância em curso seria oportuno empreender uma comparação com o traço marcante do período anterior assim como podendo ser referenciado através da concepção de Aretê moral em Hesíodo. Pois trata-se aí de pensar a justiça na base da igualdade de direitos entre os homens, todos estanmdo igualmente sob o jugo desse poder que, sendo bom, é contudo sobre-humano.

Torna-se assim compreensível a transposição nos Erga pela qual o lugar central ao invés de estar ocupado por uma personalidade divina é visado mais através de uma força que rege o direito natural dos homens. Esse procedimento se integra na abrangência geral do período. Assim os logôgrafos dessa época se aplicam a manejar poeticamente os mitos com o mesmo intuito de neles encontrar o fundamento de uma ordem natural que a ciência jônia e a especulação pré-socrática estão descobrindo nos mais variados domínios de indagação.

A penetração do espírito clássico, por sua vez, vinculando-se ao ideal de Aretê política de Sólon, pode ser plenamente identificada através da transformação que afeta de modo radical os procedimentos da criação artística que designarei de maneira aproximativa, literária. Agora importa muito a peculiaridade geopolítica pois esse espírito e essa transformação não ocorre senão na Ática.

Por exemplo, um tipo de modulação patriótica de Aretê, como produzida com Tirteu, assinala a constituição da Isagoge, a educação total do cidadão espartano, mas ela permanece inteiramente compreensível no contexto arcaico. A distinção pessoal da nobreza garantida pelos laços de sangue encontra nesse período os canais culturais que se encarregam de estende-la agora como distinção social garantida pelos laços da cidade-Estado. Pode-se ainda configurar o processo na base de uma modulação do modelo homérico.

Mas ainda que a modulação de Hesíodo não possa, como vimos, ser reduzida no sentido de Tirteu, a Aretê moral tampouco tem necessidade de subversão social. Apenas pensa o Estado como instrumento de normalização das relações entre classes desde sempre constituídas.

Tanto em Sparta quanto em outras regiões da Grécia que permanecem na fase agrícola ou oligárquica da revolução econômica essa modulação operada no arcaico, a que responde a forma literária dos logôgrafos tanto quanto a especulação dos “meteorólogos” pré-socráticos, permanece como o máximo atingível em termos de evolução espiritual. O arcaico pode ser considerado o termo de evolução próprio do mundo antigo, um estágio a que ele chega como formalização possível de suas próprias premissas derivadas de um modelo imemorial de nobreza e uma concepção de ordem do mundo que se fundamenta pela transcendência divina.

Já o que ocorre na Ática, desde o final do século VI ac. é uma ruptura efetiva no contexto da Antiguidade. Pode-se observar com precisão esse fenômeno no âmbito da criação literária porque agora não se pode mais falar de “modulação” em relação a Homero. O contato com o clássico, para quem vem imbuído dessa atmosfera ao mesmo tempo lírica e racional do arcaico é, nesse sentido, chocante. Abandona-se por completo os princípios de composição da epopéia. Surgem as formas novas da Tragédia e da Comédia, o teatro ocupando o lugar da antiga poesia de fundo mítico derivada de Homero.

A poesia que subsiste no século V é uma forma de publicidade, como já mencionado, assim como pode ser verificado na produção de Simônides. E inaugura-se a nova era da prosa em que os mestres retores da sofística irão desempenhar um papel proeminente. Mas não é uma questão de mudança apenas formal, como se bastasse ao teatro ático a função de plasmar os mesmos ideais cívicos helênicos que havia fundamentado todo ideal de cultura até então. O que se encontra ao examinar essa produção teatral sancionada pelo Estado só pode ser traduzido por uma palavra bastante familiar à filosofia: o espanto. Mas o fundamento desse pathos reside nesse outro termo dessa vez bem próximo à sofística: paradoxo.

Pois o que se deriva da concepção de Aretê política de Sólon é na realidade algo que ao pensamento do homem antigo só poderia ser captado como fonte de paradoxos incontornáveis. Assim, como ressalta Jaeger, Sólon torna essencial em seus escritos a relação de culpa e destino humano visada através da necessidade, agora tornada problemática, da formulação de uma concepção coerente sobre a ordem de transcendência que, contudo, não pode ser de todo denegada.

Esse tema ressoa expressamente no teatro de Ésquilo, visivelmente influenciado pelas elegias de Sólon, em que se evidencia o problema do limite da virtude humana frente ao destino. Pois o que parece incomensurável ao homem desse tempo é o fato de que não se pode mais estabelecer uma relação direta entre a culpa e o mal nem pensar a Aretê como algo que se poderia contrapor de algum modo à Ate. Toda uma série de temas paradoxais devem assim derivar dessa vertente, que na poesia de Sólon pode ser designado como o problema teológico.

Por aí vemos que a existência do próprio Estado democrático de Atenas torna-se paradoxal naquele mundo antigo em que todo o meio circundante ecoa a redundância daquela mesma ordem de transcendência e de limitação do humano pelo divino.

Nesse Estado democrático trata-se da igualdade mas não como termo de uma força daquele tipo que se poderia ainda caracterizar através de Hesíodo. Não se trata de uma força transcendente ou sobre-humana mas sim de igualdade como prática instaurada por e entre seres humanos conscientes da responsabilidade de suas ações.

A igualdade pode então parecer algo demasiado grande, transbordando os limites que no mundo antigo separavam não apenas as classes, no interior da sociedade, mas principalmente os povos, no exterior. “Humanidade” é o correlato dessa “igualdade” mas não se pode mais, a partir daí, excluir do seu âmbito quem quer que seja. E no entanto só os cidadãos decidem, só a eles compete votar. Ésquilo, por exemplo, põe em cena “Os Persas”, em que o acontecimento da derrota persa, vista de dentro pelos gregos, deve despertar compaixão pelos vencidos que no entanto são os inimigos.

Não me parece algo a ser passível de dúvida o fato de que restava na consciência ateniense o resíduo da autoridade da tradição que afinal surgia como a realidade do mundo circundante – e se o exterior não devia importar tanto conforme a perspectiva dessa mesma tradição, não era certamente o caso com relação aos outros Estados gregos. Vê-se que no auge desse “iluminismo” ateniense ocorre a troca da moda jônica pela dória, no vestuário como no critério da elegância dos costumes.

Não obstante a cidade se orgulha de suas instituições democráticas, há um desprezo geral pelas antigas concepções da nobreza e uma nova oposição do campo versus a valorizada cultura urbana. Enquanto no teatro explodem as contradições a sofística surge como o fiel da balança nesse equilíbrio precário de forças. Encontra-se nela ao mesmo tempo o sentido positivo do que afinal essas contradições enunciam enquanto realidade existencial e os requisitos da manutenção das instituições democráticas.

A cultura do clássico é ela mesma o desenvolvimento das formas artísticas e especulativas adequadas à expressão desses paradoxos mas se afirmei que o espanto é o pathos que os fundamenta deve haver também o limiar de sua possibilidade como tal. Esse limiar existe como aquilo que permite compreender a transformação essencial em curso tanto no teatro, principalmente na tragédia, quanto na própria sofística.

Na medida em que o que aí se desenvolve alcança sua plenitude por uma compreensão que não pode ser assimilada àquele pensamento da Physis típico do arcaico, podemos afirmar que esse limiar opera também a inteligibilidade humana, como tal irredutível ao pensamento da natureza e nesse sentido Appel enunciou com acerto a vinculação originária do humanismo com a sofística.

O limiar se assinala assim pela consciência do caráter construído da instituição e da lei que até aí necessariamente deveriam ser sancionadas apenas a partir de uma ordem sobre-humana de transcendência. É esse o alcance da Bios politikós enunciada por Sólon e desse ponto de vista torna-se mais claro porque não se pode reduzi-la sem mais à antiga noção hesiódica de igualdade e justiça. Essa igualdade nova não estava a nada prévia. Não se justifica por um mandamento que, ao mesmo tempo que se institui pela transcendência de uma ordem eterna, se cumpre no desenrolar do funcionamento natural do mundo. É algo que o homem só deve ao homem e à sua tenacidade em manter.

Por si só as coisas não tendem para a Isonomia. Tampouco o puro conhecimento da ordem natural permite concluir pela sua necessidade de ser. A cidade democrática nasce pelo lento e contínuo proceder por tentativa e erro de modo que o ser humano, tendendo para o melhor mas premido pela imperfeição e pela contingência, pouco a pouco se torna capaz de perceber a inadequação das vias que se antepuseram como exequíveis mas que se revelaram improfíquas. Sua existência tampouco segue eternamente igual como as estações do ano ou os ciclos da natureza mas depende de contínua vigilância, aperfeiçoamento, cuidado e zelo.

Essa perspectiva se confirma, por exemplo, pelo mito de Protágoras de Abdera referente à constituição do mundo social humano. Protágoras foi o mais famoso e talvez o pioneiro dos sofistas profissionais, nascendo por volta de 490 ac. Parece fora de dúvida que seu prestígio e solidez moral não foram ignorados nem mesmo por Platão que em seus diálogos o trata “com mais justiça do que aos seus outros oponentes”, conforme a expressão de Von Fritz citada por Guthrie. Assim no “Protágoras” Platão o descreve, respondendo à dúvida socrática sobre a validez de sua pretensão de ensinar a Aretê política, e a despeito de seu agnosticismo, com uma “estória” ou “parábola” ao modo de mito.

Os homens, ele assevera, esses seres desprovidos de garras ou outros apetrechos de defesa dos animais, conheciam a natureza por certo mas esse conhecimento técnico, exemplificado pela dádiva de Prometeu e do domínio do fogo, não impediria de todos se lançarem sobre todos aniquilando-se por completo uns aos outros, se não fosse o dom que Zeus encarrega Hermes de conceder à humanidade e que provê a justiça (diké) e o pudor, modéstia ou respeito alheio (aidós). As verdadeiras defesas do homem pois são as virtudes que permitem o desenvolvimento da vida em sociedade.

Nota-se aí a clara delimitação do conhecimento da natureza e da inteligibilidade própria à construção do sentido humano desse mundo social que é o seu. Em Protágoras encontra-se ainda, entre outros temas importantes, a célebre introdução do seu tratado “Sobre a Verdade”: “o homem é o padrão (metron) de todas as coisas (...)”. Ainda que subsistindo a controvérsia sobre qual seria a tradução mais apropriada desses termos, por exemplo, se “homem” se refere ao ser singular ou à humanidade em geral, penso que se pode contextualizar a asserção como compreensão expressa do caráter construído do mundo humano por contraposição à concepção tradicional de ordenação social “natural” ou transcendentemente instituída, sem com isso exaurir as suas possibilidades de leitura e aplicação.

Jaegger destaca assim que a posição central que em Protágoras se assinala à educação humana caracteriza-se como o propósito espiritual do humanismo por excelência pois consiste na separação fundamental entre poder e saber técnico e a cultura que se poderia designar como própria das “humanidades”, logo também distinta da religião.

Constata-se que o alcance da noção de “Paidéia do homem adulto”, isto é, tal como enunciado por Protágoras, a noção de que a educação não acaba com a conclusão da escola mas, em certo sentido, é aí que ela verdadeiramente começa, não se limita apenas à necessidade imperiosa que tem o Estado democrático de representantes idôneos e competentes na condução de processos, na apresentação de questões e resolução de litígios.

É certo que aquilo que distinguia um nobre se caracterizava pela sua capacidade de pronunciar a palavra certa, conforme a conveniência, na ocasião adequada e era esse o cerne da Tekhné política ensinada pelos sofistas. Contudo sua concepção de inteligibilidade humana abrange a realização do espírito que não se prende apenas a esse sentido de “utilidade” mas, inversamente, o relaciona à própria noção do que é a existência do homem.

Assim também se encontra a noção, enunciada claramente em Plutarco mas corrente na sofística como sua “trindade pedagógica” de natureza, ensino e hábito, pelo que se exemplifica o alcance histórico da constatação na Ática desse caráter humanamente construído do mundo pelo qual a virtude, tal como o regime, depende de cuidados constantes, não se reproduzindo naturalmente por si só como os ciclos naturais. Trata-se do exemplo, registrado por Plutarco, da agricultura como metáfora do cultivo. A natureza do homem, o seu espírito, é a fertilidade do terreno. O agricultor competente é o educador e as sementes são as doutrinas e preceitos que ele transmite.

Na medida em que penso o clássico como algo que se desdobra, desde o contexto sofístico ainda por analisar mais detidamente, no século IV do platonismo em que se terá que enfrentar a questão do destino desse movimento e mais geralmente de toda a concepção trágica e paradoxal do “século de Péricles”, seria oportuno estabelecer um paralelo com o que ocorre no início da modernidade ocidental, aproximadamente dois mil anos depois.

Aí se constata também um desdobramento, desde a instituição do humanismo que abrange ainda o tempo de Descartes até a emergência das ciências humanas efetivamente destacadas, feito o corte epistemológico a partir do qual torna-se impossível a inserção de noções pertencentes a momentos e domínios anteriores.

Não pretendo obviamente reduzir um desdobramento ao outro, pois inversamente eles se estabelecem como as possibilidades mais opostas de deriva a partir de um estabelecimento de caráter humanista. Mas o que há de comum em ambos os casos é que desse estabelecimento o que se segue é uma ausência. Na Antiguidade, da consciência própria de uma inteligibilidade humana correlata à constatação do caráter construído do mundo, e depois, na contemporaneidade, daquilo mesmo que se enunciava como o atributo dessas ciências, tal como observado por Foucault.

O que ocorre na transição do absolutismo à democracia moderna é de tal modo complexo que já não se pode desconhecer aquele caráter construído do mundo, rompendo assim com a imagem teocêntrica do cosmo fechado medieval. O “homem lobo do homem” é mais profundamente o homem produtor do homem e o paradoxo é que o que ele produz se reflete como outro de si mesmo para si mesmo, estabelecendo-se como lei de modo que o duplo sentido desse termo se torna incontornável. A lei moral não se aplica de modo menos coercitivo do que a lei da natureza mas já não se confunde com ela, já não se pode pensar ambas na mesma abrangência do Deus legislador por mais que se queira ainda justificar pelo divino aquilo que é humano.

O fosso tornou-se de direito irredutível. O que se produz então naquilo que Foucault designa como o postulado da “modernidade” é essa reduplicação de empírico e transcendental que se encarrega de estender à própria natureza o que o homem já havia descoberto sobre si mesmo enquanto ser social: aquilo que é mundo só está para o homem enquanto foi posto pelo homem.

O sentido precede o fato na medida em que constitui a coisa, será a conclusão de Nietzsche a respeito das relações doravante legítimas entre fatos e interpretações. Mas precisamente Foucault pretende instituir uma profunda cisão entre essa assunção de Nietzsche e aquele período em que a reduplicação de empírico e transcendental fazia-se ainda à maneira de Kant, isto é, ao modo do espelho da natureza.

Foucault observa que a constituição dos saberes que rompe a representação clássica de tipo “quadro” no qual se desenvolvia a elaboração do discurso, corresponde ao surgimento das ciências humanas constituídas no seu sentido autêntico, feito o corte. Mas se a originalidade da tese de Foucault consiste nisso pelo que ele constata aí uma solene ausência – do “sujeito” tornado objeto dessas “ciências humanas” – não se poderia observar que isso não poderia deixar de se fazer uma vez que o que instaurava essa possibilidade de inteligibilidade autônoma paradoxalmente desaparece no momento mesmo em que faculta o surgimento independente do que ela assim condiciona?

Pois o que configurou o corte foi a consecução dessas regiões separadas, dotadas de grande independência, a tal ponto que se afiguram agora não mais como produtos do homem pelo homem mas sim como novas naturezas extensíveis à sua intelecção: as estruturas linguísticas e a historicidade da língua, independente do falante, conforme a linguística e a filologia. As relações de produção, conforme a economia. Os mecanismos inconscientes da psicologia e as leis do corpo, na biologia.

Esse “homem” permaneceu o impensado no período clássico de Kant e Descartes. Mas se aquilo, como proponho, que fundamenta o humanismo moderno reside na vinculação da constituição do duplo empírico-transcendental com a impossibilidade de sustentar algo diverso da construção humana do mundo, a indagação de Foucault não parece realmente tão “aberrante”.

Pois o que fundou a ambiência de uma inteligibilidade humana se choca agora paradoxalmente com o que, por fim, essa inteligibilidade foi levada a descobrir: que a construção também não era uma “causalidade livre”, que o homem é esse ser lançado na irredutibilidade de sua própria pré-estrutura que é o compreender e por aí é a linguagem, conforme a visão de Heidegger, ou que ele é apenas a possibilidade de um outro vir a ser, o do super-homem, pelo que o devir se libera do pensamento de suas pré-constituições e pode via a conceber-se como puro criar, conforme a filosofia de Nietzsche.

Mas não são só os desdobramentos que não coincidem, comparando os dois clássicos, o antigo e o moderno, apesar daquele fator comum observado. Podemos notar que o paralelo entre os humanismos deixa de ser legítimo no ponto em que notamos o fato de que se a construção do mundo pelo homem é o imperativo “universal” da modernidade, no clássico antigo ela permanece o paradoxo do Estado Ateniense, dolorosamente assimilado como tal na criação dramatúrgica e triunfalmente assimilada pela sofística como “sua” visão de mundo: impermanente, sempre em devir, mas plenamente habitável pelo homem consciente da constituição mais própria do seu espírito.

Assim a refração pela qual se instaura o irredutível dessa inteligibilidade permanece na base empírica da oposição Physis versus Nomos, jamais atingindo o estatuto do transcendental. Seria oportuno agora proceder a um exame mais detalhado da concepção humanista antiga de modo que, através da sofística, logramos uma noção mais abrangente desse humanismo antigo a partir de que devemos analisar o desdobramento que inevitavelmente se sucedeu.

VII – O Exercício da Sofística

 

Em sua carta a Jean Beaufret “Sobre o Humanismo” Heidegger sugere uma nova imagem detratora da sofística. O notável nisso é que fazendo intervir uma série de noções bastante banais sobre os tópicos que podem efetivamente se associar ao exercício da sofística, Heidegger inclui Aristóteles e Platão nessas mesmas práticas designando-as como horizonte futuro do pensamento grego em relação àquilo que teria sido a aurora do pensamento autêntico. O “notável” no caso é que as práticas criticadas como sendo também precipuamente as de Platão só são descritas pelo viés, que considero anacrônico, de que o próprio platonismo costuma ser responsável no julgamento dos sofistas.

A noção mesma de anacronismo é importante no que se refere à compreensão da sofística em geral. Pois quanto às questões que nela se constituem, talvez mais do que qualquer outro movimento de pensamento antigo, exigem um encaminhamento no sentido expresso por H. Arendt, citada por Cassin. É preciso empreender uma escuta da antiguidade de modo que, com relação ao que ela pode nos dizer, “ninguém ainda teve ouvidos”.

A tradição, conforme Arendt, sempre atuou como a cadeia de transmissão opaca pela qual cada geração sucessiva ligava o que se recolhia do passado a um aspecto predeterminado. Quanto à sofística penso que esse aspecto ocultante que ainda opera na preservação mesma de sua memória pode ser visado ao modo de falsificação da origem ou do contexto de suas questões que se relacionam, contudo, a situações e realidades comuns que não existiam já à época de Platão.

Mas pode-se pensar que devido à proximidade temporal, Platão tinha ao menos condições de reconstituir o sentido original. Sem nos limitar ao painel de profundas transformações entre os séculos da sofística e de Platão, seria oportuno indagar como poderia ele tê-lo feito se sua motivação mais genuína residia em garantir a transição fundamentando-a por todos os meios de modo que tal reconstituição era o que ele efetivamente pretendia evitar.

Assim uma pista importante desse longo desviamento consiste na observação do caráter anacrônico que sempre surge de um modo ou outro na constituição das imagens detratoras da sofística. O sentido desse caráter pode ser esclarecedor quanto às intenções do próprio pensamento que as forja ou as conserva.

A partir de Platão uma série de estereótipos se torna corrente como “saber comum” sobre a sofística. O sentido dos anacronismos da apresentação própria de Platão só poderá ser evidenciado ao longo do exame do exercício dos sofistas no século V e pela análise do desdobramento produzido no contexto clássico a partir do século IV. Já a utilização Heideggeriana não rompe com esses estereótipos mas não conserva o mesmo sentido daquele que se relaciona a esse desdobramento, prendendo-se a motivações internas ao próprio pensamento de Heidegger.

Examinando o que ocorre no início do texto “Sobre o Humanismo”, a “interpretação técnica do pensar” aparece como aquilo de que devemos nos “libertar”. Esse negativo se contrapõe à positividade do “pensar” autêntico que por enquanto se designa apenas “l’engagement através e em favor da verdade do ser”. Mas trata-se agora de compor a imagem negativa para saber bem do que é preciso se afastar.

É´ nessa composição que reside o anacronismo. Pois ao caracterizar o que é propriamente “tekcné” naquela interpretação trata-se de ver que por ela o pensamento se adestra como teoria contraposta à prática mas subordinando-se assim ao agir e produzir. O pensamento assujeita-se à lógica, a linguagem à gramática. Este processo de sujeição teria seu início na sofística e em Platão.

Mas assim teríamos que interpretar o exercício dialético e retórico da sofística como tendo por base a mesma intenção de sistematização lógica de Aristóteles. Já quanto ao exercício socrático podemos observar o quanto se distancia do regime sofístico porque nele, menos do que uma tentativa balbuciante de constituição lógica penso que o que se insere é uma captura fundacional do pensamento ao elemento de transcendência ao modo do retorno do reprimido mítico, mágico-religioso.

Aubenque observou bem a modulação do termo “dialética” perpretada por Platão em relação ao seu uso corrente na Grécia assim como por exemplo é utilizado por Aristóteles. Platão não tinha, portanto, necessidade de transpor o gênero diálogo, tão praticado desde o século V através da extensão da dialética ao domínio público. Tratava-se apenas de reconduzir esse instrumento através de seu aspecto puramente técnico, a um outro regime de utilização de modo que, ao invés de servir à ocasião, ele seria o meio de fundação da verdade transcendente a que todo pensamento devia dogmaticamente se endereçar.

Quanto à gramática, é possível integrá-la ao elenco do que se segue da exposição heideggeriana. Assim o termo humanismo, conforme o texto, nasce em Roma para possibilitar a contraposição ao “barbarus” pela posse da Paidéia “herdada dos gregos”. Logo, aquilo que aí se apresenta anteriormente à exposição da humanitas nascente, encontra sua síntese nessa palavra nova, a Paidéia, pois tratava-se ali de ver que a auto-compensação do pensar tékhné pelo seu afastamento da autenticidade é considerar-se “instrumento de formação” ou “atividade cultural”, o que inclui o “uso cultivado da linguagem”.

A Paidéia, esse termo que Jaeger não hesita em atribuir enquanto noção conscientemente formalizada aos sofistas, se enraiza, conforme Heidegger, no endereçamento ao público e a defesa dos “ismos” evolui agora como “filosofia” no elemento da publicidade, ela se subjuga a si e à linguagem à “opinião pública” ao mesmo tempo em que reparte o que era pensamento nos domínios variados de lógica, ética e física.

Mas com isso novamente o que incide é o anacronismo pois a “etiquetagem” e mesmo a compartimentação das regiões de interesse não se joga no mesmo terreno que a sofística estando ligada a questões bem posteriores. Já a inserção do elemento de publicidade se poderia afirmar, inversamente, que pertence só à sofística, não tendo nenhum papel preponderante nesse terreno subsequente em que se jogam essas mesmas questões.

Contudo, a compreensão do papel desse elemento não pode ser resultado de uma simples equalização da sofística com o fato de “se dirigir a” um público, mas atua como fator de inserção dos movimentos sofísticos profundamente enraizados na ambientação mais ampla do próprio século V de modo que a relação publicidade – cultura, nesse período tem uma importância e uma abrangência específica que não se reduz como algo que pudesse ser destacado ao modo de um desvio do pensamento mas é constitutivo de sua evolução.

A compreensão do exercício dialético-retórico através do empreendimento lógico, seja como antítese que engaja a sua superação na síntese, seja como propedêutica; a noção abrangente de cultura ou formação visada apenas como atividade comercial banalizadora do que pertencia até aí ao espírito, o assujeitamento do discurso à opinião e à coação lógica, tudo isso se repete como balanço da sofística desde gerações não posicionadas numa ambientação de provável fidelidade ao conteúdo da escuta de suas mensagens.

Mas se, para utilizar ainda a expressão de Heidegger, “conservar algo em seu elemento” é o poder inerente ao querer, ao amar e encarregar-se de, penso que no que se relaciona à filosofia grega só se pode avaliar se de fato isso ocorre pela constatação de sua compreensão mais ampla – de modo algum pela oclusão dos processos mais fundamentais na pretensão de restringi-la a algum dos seus aspectos. O que não significa a asserção de uma neutralidade ou indiferença e sim o cuidado em evitar ao menos aquela alternativa do trilema de Munchhausen que consiste na interrupção gratuita da marcha do raciocínio apenas para impedir o fundamento de deslizar sobre aquilo mesmo que deveria estar, imóvel, a sustentar – já que uma dessas alternativas pode ter se tornado inevitável e é bem possível que tenha envolvido o próprio trilema no seu círculo.

É necessário portanto reconduzir ao seu elemento autêntico os pressupostos do exercício da sofística no cenário cultural da Atenas do século V. Ao proceder deste modo, como já observamos, descobre-se que ao invés de surgir como ‘técnicas” a serviço de uma nova ocupação comercial as formas de que se reveste o exercício da sofística estão profundamente enraizadas na evolução espiritual helênica. Isso pode ser constatável a tal ponto que sugere um outro meio de tratar os movimentos sofísticos.

Costuma-se misturar a prática, o exercício da sofística e os meios pelos quais é conduzido, a saber a retórica e a dialética, e o pensamento que se pode atribuir aos sofistas como se aqueles meios dependessem desse aporte teórico. Esse é o pressuposto platônico.

Assim a “antilogiké teckné”, em Platão, conforme Kerferd, é descrita como “método ou técnica de argumentação precisa consistindo seja em opor um logos a um outro, seja a descobrir e apresentar uma oposição deste tipo em um argumento, em uma coisa ou em uma situação”. Já a “eristiké” consiste em uma técnica de argumentação cujo escopo é a vitória sobre o que sustenta o argumento oposto.

A originalidade da tese de Kerferd, de que ele confessa não ter conseguido convencer sua “querida colega”, a professora Sprague, parece-me subsumir a asserção de que a antilogiké, em Platão não se confunde de todo com o procedimento erístico mas pode embasar também a refutação autêntica, isto é, filosófica. Assim, para Platão, a antilogiké tanto pode servir à eristiké, como ocorre na sofística, como pode embasar o “elenchus”, isto é, o procedimento de refutação socrático pelo qual Platão se apropria da “dialética” tal como praticada pelos sofistas, para transforma-la no meio de chegar a conhecimentos supostos verdadeiros.

A forma pela qual Platão empreende essa transformação, conforme Kerferd, consiste em introduzir a realidade estável das idéias como ponto fixo da verdade a balizar o emprego da antilogiké tornando-a instrumento de refutação daquilo que se opõe seja à proposição dessa realidade, seja a qualquer asserção que deriva da sua contemplação.

Fica estabelecido desse modo que lá onde a antilogiké se põe a serviço da erística, não há nenhum ponto fixo, nenhum interesse pela verdade. Mas poderia parecer que o procedimento assim criticado fosse apenas técnico e Platão estivesse exigindo um engajamento ético. Na verdade Platão aponta, mais do que isso, um comprometimento teórico da antilogiké erística praticada pelos sofistas com a doutrina oposta à da realidade das idéias, isto é, aquela pela qual “não existe nas coisas (pragmata) assim como nas palavras (logoi) absolutamente nada que seja sensato nem bastante estável”, conforme expresso no Fédon.

A retórica do século V, e especialmente a dialética sofística que se gaba de sustentar igualmente bem tanto uma tese quanto o seu oposto, seria assim, mais do que um negócio de manipulação formal dos argumentos dentro de um espaço de jogo agonístico, uma forma de linguagem considerada como o meio mais fiel de reflexão da natureza contraditória do próprio real.

Seria esse o fundamento da pretensão sofística de possuir sabedoria, ou seja, o que ela considera sabedoria é o conhecimento paradoxal da incognoscibilidade do real. Mas seria também a possibilidade de sua refutação como movimento de pensamento se fosse exequível a demonstração da cognoscibilidade. A ausência de fundamento para a sofística, ou a sua consistência para Platão, em todo caso teria que se localizar nos pragmata, no terreno das coisas ou fenômenos, e encontrar nos logoi, isto é, na linguagem, o termo exato de sua demonstração.

Por aí seria interessante evocar a antiga questão de saber se Sócrates não era ele mesmo um sofista, uma vez que começa por afirmar que é o mais sábio por nada saber ainda que chegue a uma dogmática das idéias puras. Mas parece mais oportuno observar como essa mesma questão raspa de leve nisso que afirmei como possibilidade de tratar de outro modo os movimentos sofísticos, ambientando-os no século V como um todo de cultura. Pois o próprio Sócrates também se instala aí e de nenhum modo pode subtrair-se ao enraizamento epistemológico do seu próprio tempo, o que Platão é obrigado a figurar de alguma maneira em sua caracterização do personagem.

Assim, pela ambientação, podemos considerar não apenas procedimentos misturados a concepções mas sim que há a necessidade de duas frentes de análise. Compreender o exercício da sofística acarreta a análise das formas que revestem esse exercício percebendo a sua inserção na evolução espiritual da Grécia, isto é, tratando da geofilosofia. Já empreender a exposição do pensamento sofístico em seus desdobramentos próprios, isto é, tanto do seu pensamento do ser quanto suas teorias da linguagem, ética, estética, por exemplo, isso já depende preliminarmente de estabelecer se há realmente unidade ou se ocorrem oposições no próprio interior do movimento como um todo, quais suas ramificações e assim por diante.

Quanto à compreensão do exercício da sofística, é preciso então inicialmente desligar o circuito platônico tornado lugar comum que associa retórica e dialética-erística a fluxo heraclítico. Observada como forma cultural a retórica e a dialética surgem no prolongamento de práticas bem antigas, mas tal prolongamento só se faz através de mutações que, conservando as formas, as fazem mudar de sentido.

Na origem está o enigma. O período arcaico registra essa forma praticada nos meios místicos através do episódio da esfinge no Édipo. O enigma costumava ser proposto por uma criatura de concepção mítica que poderia ser um deus e sua resolução envolvia a atribuição do herói, ou talvez representasse uma prova iniciática. A evolução dessa forma antiga derivou, da sua circunscrição a um contexto religioso de iniciação, ao contexto humano de “ágon” ou seja de “disputa” ou “discussão” entre contendores sobre certo problema.

O fundo religioso do enigma se tipifica em Delfos, a forma da pergunta envolvendo a exaltação ou mania pítica. Sua transposição ao contexto agonístico puramente humano se caracteriza como exercício dialético que nesse período inicial se restringe a grupos fechados cujo acesso se reservava àqueles que demonstravam certa habilidade erística. Assim no início persiste algo do elemento iniciático conservado nas formas da prova a enfrentar como acesso e da natureza fechada ou privada do círculo dialético de que é provável que o tipo de pensador pré-socrático tenha participado.

Esse gênero de jogo agonístico-dialético se desenvolve como esquema fixo pelo qual o “Interrogante” propõe uma alternativa como uma tese e sua antítese. O “Respondente” adota um dos termos como aquele que deverá sustentar. O interrogante se responsabiliza pela alternativa oposta, qualquer que seja e o jogo evolui como “Demonstração” exclusivamente através de suas perguntas propostas ao respondente.

Observa-se assim que se o Interrogante tiver sucessivamente dois respondentes sobre a mesma questão ele tem que ser igualmente hábil em sustentar uma tese e o seu oposto. Em todo caso, com suas questões o Interrogante tenciona induzir o respondente à contradição. Esse é o escopo do curso da “demonstração” e o Interrogante faz frequentemente perguntas que nada tem aparentemente a ver com o objeto em questão, tantos rodeios quanto lhe parecer estrategicamente necessário para que o respondente afirme algo que se configure formalmente como contraditório com o que ele já admitiu enquanto condição da tese que defende. O jogo é ganho se esse objetivo é atingido ou se o Interrogante desiste ao final da contenda.

Vemos assim que para o Interrogante é indiferente a tese que ele deve “refutar” no conjunto das alternativas. Portanto a asserção sofística de sustentar uma tese e seu oposto não ocorre propriamente como uma “invenção” ou prova da desonestidade cinicamente declarada dos sofistas mas provavelmente aquilo que eles enunciavam assim era que, enquanto professores, conheciam as técnicas e poderiam adestras os participantes do ágon dialético que já no século V não se restringe aos círculos fechados como ocorria anteriormente.

A transição inicial do enigma ao ágon dos círculos privados se insere de modo plenamente coerente no domínio de transição do arcaico em que à antiga palavra-verdade do contexto mágico-religioso, monologada e emitida como que por decretos, se substituem as práticas de linguagem que pressupõem a interlocução e o diálogo. Observa-se que essa é a época de emergência das Polis organizadas como Estados, isto é, já na circunscrição do jurídico em que a asserção no tribunal depende da administração racional da prova. Tudo isso se relaciona exemplarmente com o tema da origem da filosofia e agora podemos observar que os círculos agonísticos-dialéticos privados são contemporâneos deste contexto de transformações.

Mas quanto já se pode falar do exercício filosófico instituído e do cenário clássico por excelência do século V, há inicialmente dois registros pelos quais se pode também constatar a evolução do ágon dialético desde esses círculos privados até o âmbito de publicidade em que se instalará a sofística.

Um desses registros se insere no interior da filosofia e abrange a produção escrita de Zenão de Eléia. Laércio cita Apolodoros, como tendo afirmado que ele foi “adotado” por Parmênides, e ainda Tímon que atribuía a Zenão a habilidade em “defender uma tese e seu oposto”. Pertencendo assim à escola eleática, a relação do exercício dialético de Zenão com alguma doutrina do fluxo se torna insustentável.

A atribuição de ser ele o “descobridor da dialética” utilizada por Hegel em relação a Zenão é visada como duvidosa pelo próprio Hegel que a atenua concedendo que pelos menos “é quem está em seu começo”. Vemos que esse começo na verdade pertence a uma transformação. O que se inicia com Zenão é a utilização da antiga dialética agonística nesse domínio novo do registro filosófico no qual ao invés de um jogo entre participantes efetivamente presentes ocorre a destinação à publicidade através da forma escrita, do livro.

O que Zenão introduz de realmente novo é a argumentação por “redução ao absurdo” pelo que, aceitando-se uma tese que se quer refutar, conclui-se pela demonstração da impossibilidade de afirmação. Hegel observa ainda que através do fundamento eleático de que o nada não é e que só o ser é, o que se desdobra é o processo de confrontação com o que poderia ser dado como o inverso dessa asserção. A origem da filosofia apreende assim a necessidade de refutação da antítese em si mesma, não apenas como denegação automática da tese, de modo que, conforme a expressão de Hegel, “o falso não deve ser apresentado como falso porque o oposto é verdadeiro, mas em si mesmo”.

Podemos observar com isso que o encontro da dialética agonística com a filosofia não ocorre apenas em Platão. Kerferd não errou, ao que parece, ao mostrar que Platão distinguia erística e antilogiké. Contudo, a compreensão adequada desse fato ultrapassa o contexto do platonismo, remetendo ao processo de transformação desde os círculos privados ao domínio público, no século V. Assim a sua utilização pela filosofia tem a ver com essa transformação que deverá ser consolidada plenamente na sofística.

Esse esquema é portanto oposto ao que se depreende de Platão pelo qual a sofística, sustentando a doutrina do fluxo e com ela justificando uma utilização irresponsável da palavra através das práticas erísticas, teria no entanto introduzido, como a característica mais própria do seu método, a antilogiké que Sócrates e a filosofia puderam então posteriormente utilizar depurando-a de sua intenção inicial, conforme o “Sofista” 226 a 6 – 231 b 8.

O outro registro de evolução da dialética agonística ao domínio público é o teatro. Jaeger observa muito oportunamente que a tragédia ática é “uma criação tão rica de facetas” que se pode aborda-la através de muitos pontos de vista. Sobretudo ocorre que aí atinge-se a maior realização de uma humanidade “para a qual a religião, a arte e a filosofia formam uma unidade”. Atingir o âmbito dessa unidade torna-se assim o critério de superação das “histórias” de religião, filosofia ou literatura que persistem no tratamento compartimentado desses domínios que na cultura grega do século V estão intimamente amalgamados como se pode observar no teatro.

O que se verifica é que a representação teatral se torna nesse período clássico “responsável pelo espírito da comunidade” sendo a função dos dramaturgos visada pelo povo como de liderança mais acentuadamente do que a dos governantes políticos mesmos. Esse poder de penetração do teatro enquanto meio de uma cultura que não dissocia suas formas proeminentes de expressão deve ser o elemento que nos permite avaliar a importância do que aí se manifesta.

Sem nos ocupar especialmente do problema das origens da tragédia e da comédia basta observar o fato de que sua evolução das formas rústicas, seja de um tipo de drama coral (tragédia), seja dos Komos constituídos por blocos de foliões com cantos, danças e burla com os espectadores (comédia), em todo caso o que assinala a sua transformação para a forma teatral instituída é a introdução do ator que se singulariza em relação ao coro. Com o tempo o número de atores aumenta. Ésquilo introduziu o segundo ator e à época de Sófocles o drama se articulava com três papéis bem demarcados.

Examinando a estrutura desses dois gêneros vemos que a introdução dos atores não estabelece um tipo de divisão de trabalho apenas como se entre o coro e seus papéis individualizados não houvesse uma relação constitutiva. O que ocorre é que a forma de diálogo que se introduz entre os atores e o coro aparece como um tipo de confrontação de certa forma argumentativa, como se figurassem as formas da agonística.

Ambos os gêneros se iniciam com um prólogo no qual se apresenta, na forma de monólogo ou diálogo o assunto ou a situação inicial. Na estrutura da tragédia após a entrada do coro (“párodos”) as cenas se alternam de modo que a cada confronto dos atores individualizados com o coro (“episódios”) se sucede um canto coral (“stásima”) no qual são expressas as emoções causadas pelo episódio até que após o último stásima sobrevém o “êxodos” ou cena final. Já na comédia após o “párodos” surge o “ágon”, em que dois atores se posicionam como adversários debatendo o assunto da peça, a que se segue a parábasis na qual o coro fala aos espectadores. Ocorrem alguns episódios separados por intervenções do coro até o êxodo ou cena final que, conforme Harvey, é de alegria “culminando geralmente numa festa ou casamento”.

O que se torna preponderante para nossa análise é esse aspecto dialogado da participação do ator, tanto em relação ao coro quanto em relação a outro ator ou atores. Parece que o mesmo influxo percorre o todo da vida cultural helênica, como se a entrada no racional estivesse profundamente relacionada com uma estrutura de pensamento interlocutivo pelo qual a oposição e a contraposição antitética de idéias e posições se torna fundamental. Mais do que isso, a alternância entre as opções possíveis, a liberdade da argumentação enquanto tal relativamente a qualquer que seja o conteúdo, parece embasar a autoconsciência desse caráter interlocutivo enquanto constitutiva do racional visado como potência formal.

Algo a ressaltar com relação à confrontação do coro com o ator é o fato de que, como vimos anteriormente, a individualidade surge como problema no meio democrático. Enquanto a instituição mágica da palavra permanecia na unilateralidade do decreto, a desigualdade de castas não se traduzia como individualidade porque o ser humano não tinha aí expressão por si mesmo a não ser por feitos que poderiam se inserir na tradição como espelho “da raça”. Só subsiste a identidade de pertença étnica ou à casta. Já a democracia institui a igualdade como senso de humanidade que abole as diferenças de origem mas com isso introduz-se a singularidade do indivíduo responsável perante a lei.

Mas essa responsabilidade se choca com a ordenação do cosmos visada ao modo antigo, isto é, como destino. O indivíduo, enquanto forma singular da pessoa, está confrontado ao coro não apenas enquanto representação da totalidade social mas também como registro da tensão do que nele se revela, a imperfeição, o limite humano, frente à totalidade cósmica perfeitamente ordenada pelos deuses. É essa a parte do destino, cosmicamente ordenada, a que o ser humano não pode se furtar por mais sábio ou talentoso que seja.

O ágon não se estabelece apenas formalmente no espaço reservado entre dois atores mas é a estrutura imanente que dá sentido ao esquema todo do teatro antigo e se institui assim entre a consciência nascente do “eu” e a impossibilidade de sua pretensão, como paradoxo cotidiano vivenciado pelos cidadãos da antiga Atenas democrática. A partir de Eurípedes já são cenas da vida comum que se representa nos palcos e personagens como Prometeu ou Palamedes são designados como “sofistas”, isto é, “sábios”, mas são apresentados como seres humanos confrontados pelo destino. Como assinala Jaeger “o desenvolvimento da autoconsciência humana realiza-se no sentido da progressiva autodeterminação do conhecimento e da vontade em face dos poderes superiores”.

É importante ainda ressaltar, quanto a isso, que o teatro grego assegura nesse período em Atenas também “a unidade entre o Estado e o povo”, conforme Jaeger. Trata-se da necessidade de uma nova educação nacional que possa superar a oposição entre cultura, que até aí havia sido o apanágio da nobreza, e vida, isto é, a esfera da prática cotidiana em que se instala o povo. A “Paidéia”, a educação no mais alto sentido, se torna ideal popular em Atenas e o teatro se põe ao serviço desse objetivo expresso do Estado. As peças são objeto de concursos públicos, realizados em períodos constantes, o Estado concedendo prêmios aos vencedores, e são os próprios cidadãos que participam eventualmente do coro.

O que decorre daí é que também a concepção corrente de cultura que a sofística integra conceitualmente, como podemos observar, está de modo coerente relacionada com o processo espiritual em curso na época, ao invés de fazer derivar de um propósito meramente “técnico” de formação conforme a sugestão de Heidegger. Na verdade, devemos lembrar aqui o que já examinamos quanto à concepção sofística pela qual a cultura se inicia justamente onde a formação técnica, isto é, profissional e setorizada, já está completa ou ao menos se situa num outro aporte em relação a ela.

Se estes dois registros, a argumentação filosófico-eleática de Zenão e o teatro ático, são bastante adequados para observar a transposição da dialética do ágon dos círculos privados ao elemento da publicidade, na sofística o processo se consolida atingindo a culminância. Assim pode-se considerar desse ponto de vista tanto o exercício da retórica quanto o novo uso instituído da dialética sofística.

A retórica se torna assim uma adaptação da prática dialética ao gênero expositivo. Se o retor não dialoga com um interlocutor e apenas ministra uma palestra, conferência ou “exibição” (epídeixis) à frente do seu público, a este fica reservado o papel de juiz, podendo aprovar ou não o discurso pronunciado e por aí permanece o sentido do ágon. É interessante fazer intervir aqui algo já entrevisto sobre as origens sicilianas da retórica, confrontando-o com a apresentação banal da sofística como uma prática desonesta do logos com intuito meramente de “seduzir” o ouvinte.

Pois essa origem, como vimos, remonta tanto aos círculos pitagóricos ou a Empédocles e se enraíza assim, na expressão de Armando Plebe, como “retórica do irracional mais ou menos aparentada à magia”, quanto à tendência mais positiva de Córax e Tísias como sistematizadores de práticas de argumentação forense.

Considerada no aporte místico pitagórico a retórica é aparentada à música, como prática de terapia que deve seduzir “sentimentalmente com uma força médico-mágica as almas dos ouvintes”, conforme Plebe. Górgias, discípulo de Empédocles, definia essa força como “psichagogia”, e Parmênides parece ter sido pioneiro na designação dessa retórica como arte enganosa (apatélon) da palavra, isto é, enquanto prática de opinião distinta da afirmação verdadeira do conhecimento.

Já Córax e Tísias tratavam apenas de técnicas de demonstração que conferissem verossimilhança a uma proposição. A questão aí não era a de supressão ou indiferença à verdade mas do problema da deficiência persuasiva do verdadeiro enquanto tal. Assim as técnicas visadas por Córax e Tísias deveriam prover a sustentação do discurso perante os ouvintes e se a ênfase estava mais na verossimilhança então se relacionava mais com o pronunciamento do que com o seu conteúdo. Por esse viés o conteúdo só importa por sua relação com a forma que deve ser convenientemente tratada para que o pronunciamento seja adequado àquele que ouve e deve julgar sobre a sua eficácia. O que se visa assim é a influência da argumentação perante o tribunal.

A “invenção” retórica por Córax e Tísias está, conforme observa Guthrie, relacionada ao contexto da introdução da lei escrita e se designa no sentido do apelo à probabilidade ao invés do fato por si mesmo. Há argumentos preservados como amostras do ensino de Córax e Tísias como o seguinte, transcrito de Guthrie: “se um homem é acusado de roubo e pode apresentar fatos mostrando de modo incontroverso que ele não o cometeu, ele não precisa da arte retórica. Mas se ele não pode apresenta-los, ele tem que invocar algum argumento a partir da probabilidade. Se ele é menor e mais fraco do que sua pretensa vítima, ele argumentará: ‘olhe para mim; é provável que alguém como eu pudesse atacar alguém tão grande e forte como ele”? Se, contudo, ele é um Sansão, então argumentará: ‘seria eu tão tolo a ponto de ataca-lo quando eu seria o primeiro suspeito de tê-lo feito?”

Já no âmbito pitagórico tratava-se de conservar na retórica, ao lado de procedimentos técnicos que podiam ser ensinados, a atribuição encantatória como dom místico e sobrenatural, visando principalmente a cura. Os tópicos da retórica siciliana dos círculos pitagóricos enumerados por Plebe consistem na Politropia, no Kairós e na Orthoépeia, na concepção de Harmonia e nas Antilogias.

A politropia se opõe à monotropia. Por monotropia se entende uma forma única de discurso independente das particularidades da audiência. Essa forma é adequada apenas a um público amplo e indiferenciado. Já a politropia deve ser observada como o princípio retórico pelo qual para cada tipo de ouvinte, assim como crianças ou idosos, homens ou mulheres, jovens ou pessoas de autoridade como o arconte, existe um modo de falar apropriado. Quanto ao Kairós, trata-se do conceito de “oportunidade” pelo qual se delibera sobre qual a aplicação adequada a cada caso, seja da monotropia ou dos modos da politropia. A isso se relaciona a Orthoépeia como correção intrínseca a cada um desses modos, cujo critério em geral é a Harmonia do discurso como um todo.

Quanto às antilogias, trata-se do princípio retórico pelo qual “em torno de cada questão há sempre dois modos de considerar que são reciprocamente opostos”.

Protágoras parece ter sido o pioneiro na adaptação dessa retórica pitagórica aos propósitos pedagógicos da sofística. Transpondo assim o âmbito da motivação, ele de algum modo opera a fusão das perspectivas dos círculos pitagóricos e de Córax e Tísias, purgando os elementos de doutrina moral ou de misticismo e encaminhando a elaboração no sentido do estudo das técnicas do discurso por si mesmas.

Vemos assim que várias etiquetas atribuídas à retórica sofística, intuito de sedução, mera captação de benevolência, etc. são na realidade oriundas do contexto pitagórico.

O julgamento moral do platonismo se relaciona a uma vontade deliberada de enganar quanto à posse da verdade, quando só o que se sustenta é a doxa ou opinião, quando no seu contexto próprio correspondem a uma intenção terapêutica que na sofística vai se revestir de um interesse pedagógico sem abandonar de todo essa intenção básica. Assim o sofista Ântifon pretendia curar pelo logos qualquer perturbação da alma e a propósito dele já se falou como de um “analista” da Antiguidade. Mas em geral o traço comum da sofística é que nela o elemento do misticismo não ocorre e as técnicas parecem ser utilizadas num viés pragmático e mais positivo.

Protágoras amplia as noções conexas de Kairós e Ortoépeia à questões de concisão e de aplicação discursiva. As antilogias podem ser relacionadas à sua famosa asserção de ser capaz de tornar mais potente o logos menos válido, já que este logos mais fraco se inseria por si mesmo como a oposição presente em qualquer questão. Aí se pode observar também que a apropriação sofística do logos pitagórico se opera, como já assinalei, no sentido da dialética pois trata-se também da capacidade de defender os dois lados da questão. A Tekhné antilogiké de Protágoras deriva assim das antilogias como técnica de contradição e se torna o fundamento da retórica sofística.

Quanto a Górgias, apesar da controvérsia nesse sentido, parece que, conforme Plebe, ele distinguia entre retórica e poética. A poética devia ser assim uma arte de engano que induz o ouvinte a aceitar como real o que é ficção, ou melhor, que instaura a ficcionalidade pelo fato do poeta lograr o consentimento do ouvinte na suspensão da descrença. Lembrando o papel mântico, exclusivamente revelador da Aletheia, da palavra poética no período arcaico, podemos avaliar a importância dessa teoria de Górgias no contexto da Antiguidade assim como a transposição aí da própria prática da poesia, a que já fizemos menção através da obra de Simônides a quem, em alguns contextos, atribui-se também o epíteto de sofista.

Já a retórica é visada por Górgias como técnica de persuasão que não induz a concordar com a existência do que é fictício mas inclina o julgamento em um ou em outro sentido, conforme a intenção do orador. Ele enfatiza que não há um conteúdo de ensino retórico. Trata-se, sim, de práticas formais que visam à adequação da expressão e à eficácia do proferimento tanto quanto à compreensão do que ocorre nos processos de persuasão.

Górgias estabelece o âmbito da retórica por exclusão do discurso dos “metereólogos”, os filósofos naturalistas de tipo jônio. Assim a esfera de atribuição retórica se restringe à prática argumentativa judiciária dos tribunais e assembléias populares ou às discussões filosóficas. Ele preserva importantes noções pitagóricas como a de oportunidade e visa as antilogias conforme a figura da antítese na sua propriedade de ser especialmente adequada às discussões filosóficas.

Plebe observa assim que Górgias, por esse meio, transforma a retórica no sentido da dialética, pois conduz a expressão a uma forma lógica. Contudo, já pela inserção das antilogias na origem pitagórica ou da verossimilhança como critério do discurso endereçado, sujeito à confrontação pelo outro, se poderia pensar a retórica como uma forma cultural derivada da dialética agonística.

Assim, em todo caso pode-se afirmar que a retórica sofística está em íntima conexão com o processo de vulgarização da dialética e é nesse sentido que observamos em Protágoras e Górgias a modulação de suas premissas sicilianas. Com efeito, não se trata apenas de fazer convergir misticismo pitagórico e legalidade forense de Córax e Tísias mas de modular as técnicas de modo que a preleção retórica se funde na prática com práticas de interlocução conforme o pensamento do século V que se desenvolvia num sentido fortemente social.

Por esse meio podemos compreender a descrição de Guthrie. Os sofistas ministravam seus cursos tanto em pequenos círculos ou seminários quanto em conferências públicas. Frequentemente o ambiente era a casa de pessoas abastadas que os hospedavam, como Callias, “o homem mais rico de Atenas”. Mas também se exibiam nos jogos olímpicos. Aí sua epídeixis se inseria como forma análoga à recitação pública de livros escritos – a forma de divulgação da época.

Enquanto poetas e filósofos escritores apresentavam suas obras, recitadas por eles mesmos ou por um rapsodo, a epídeixis sofística obedecia as mesmas regras e vemos em Platão que Hippias e Gorgias usam o manto púrpura dos poetas e rapsodos nos festivais pan-helênicos ou de alguma das cidades. Mas como não se tratava de uma recitação e sim de uma conferência havia espaço para introduzir alguma participação do público sob a forma de perguntas. Isso ocorria também nas palestras em cursos particulares.

A participação sofística nos jogos olímpicos ou píticos tomou a forma agonística de uma competição por prêmios assim como entre os poetas dramaturgos, os literatos, os músicos e atletas, na qual a multidão devia aclamar os vencedores. Ser “imbatível” aí não se apresentava como uma questão de vaidade conforme o viés platônico da questão, mas como credencial do mestre retor, isto é, uma espécie de qualificação ou habilitação profissional.

Esses tópicos referentes à retórica e à dialética mostram, como já assinalamos, que o exercício da sofística estava profundamente enraizado na cultura peculiar ao século V. O traço mais importante dessa cultura talvez seja aquele observado por Jaeger de formar um todo espiritual encontrando o seu sentido na própria organização social do Estado. Mas observa-se assim também que esses gêneros estão relacionados com a evolução cultural helênica de modo que se o exercício da sofística corresponde ao momento em que o círculo se abre no sentido da publicidade e a própria filosofia também pôde ser visada como a faceta escrita desse mesmo processo.

Muito do que é atribuído de forma banal à sofística surge como pertencendo a realidade do mundo helênico em sua configuração geofilosófica Ática. Esses temas correspondem a processos culturais imanentes que não podem ser julgados, conforme o procedimento platônico, de modo anacrônico como intervenções com propósitos desonestos atribuídos unicamente aos sofistas. Mas quanto ao que deve ser efetivamente atribuído a eles, é algo que abrange as questões bem mais complexas que devemos tratar agora.


VIII – Introdução ao Pensamento Retórico

 

 

A questão apresentada no diálogo platônico “Os Rivais ou Sobre a Filosofia” é enunciada por Aubenque nos seguintes termos: “trata-se de saber o que é filosofar”. Seria a filosofia a competência em uma matéria única, o bem do homem? Ou seria uma competência mais abrangente, configurando algo assim como a totalidade dos saberes? Mas há ainda um outro aporte. Não se poderia afirmar que a filosofia não é nem “ciência das ciências” nem “ciência de si mesmo” mas a cultura geral do “homem livre e cultivado”?

Surgem assim no “Rivais” três personagens. O adepto da polimatia, ao modo pitagórico, aquele que cultiva os saberes especializados. O filósofo de tipo platônico que começa pelo “saber” de Sócrates, ou seja, pela ironia do não saber mas que chega à dialética modulada por Platão como ciência “arquitetônica”, instrumento em geral de todo saber possível. E o homem cultivado, que tem também um instrumento de acesso geral, a retórica, mas cujo endereçamento não se reporta às coisas ou a seus paradigmas ideais e sim à compreensão entre os seres humanos.

Esses três personagens compartem assim, a meu ver, o meio epistemológico que surge somente com o exercício da sofística. Na verdade eles podem ser visados como momentos conceituais da geofilosofia grega de modo que através da compreensão do que se transforma de um ao outro podemos ter uma noção mais acurada daquilo que é inerente à sofística e ao mesmo tempo o acesso adequado ao exame do desdobramento, a partir do século IV, com as obras de Aristóteles e Platão

As posições enunciadas poderiam ser designadas como científica, dialética no sentido platônico e retórica no sentido sofístico. Pois com Platão o termo dialética se modula, como vimos, para se tornar, ao invés de uma disputa entre contendores, um diálogo entre amigos que se unem na pesquisa da verdade. Como encontrar a verdade para Platão significa vislumbrar a essência ou idéia da coisa em questão, a dialética assim cultivada se torna instrumento de contemplação das idéias, método racional de acesso à verdade. E o tipo do filósofo pré-socrático pode ser, como já observamos em Sagan, o do filósofo jônio, o investigador da natureza, aquele cuja motivação se visa de algum modo como científica.

Mas ambos visam uma verdade que já está constituída ao modo de um objeto cuja apreensão pelo sujeito se realiza por uma relação perceptiva. Com efeito ao analisar o conceito de Logos no parágrafo 7 de Ser e tempo, Heidegger enfatiza o sentido propriamente grego desse termo por sua conexão com o puro noein (noéin), a percepção das “determinações mais simples do ser dos entes”.

A função do logos no sentido grego mais originário seria o “puro deixar e fazer ver”. Assim tanto no pensar racional quanto na linguagem há logos, pois há o ser que se mostra como o ente que é. Mas confirmando o sentido de A-lethéia Heidegger pensa o termo fenômeno, fainómenon, como derivado do verbo faínestai, isto é, mostrar ou revelar. Como aquilo que se mostra ou se revela o fenômeno se constitui como a totalidade dos entes, aquilo que pode se mostrar por várias maneiras conforme o seu modo de acesso, o que inclui se fazer ver assim como mero “parecer”, como aquilo que não é. O fenômeno pode ser mera aparência, mas em si mesmo é o que se mostra. Portanto não se define como mera aparência e sim como o mostrar da coisa tal como a coisa pode aparecer no encontro em que a percepção acontece.

Analisando este trecho Cassin propõe que a aproximação heideggeriana do termo grego phainómenon à sua raiz phaíno se estabeleceu com o intuito de jogar fenomenologicamente a etimologia. Pois a raiz viria de “phos”, a “luz”, mas também como se utiliza em Homero, o “homem”. Se fosse possível estender a raiz grega phos ao radical sânscrito bha o étimo se tornaria ideal como inspiração da fenomenologia, pois sintetiza, como acesso ao dasein, o aparecer (fenômeno), o dizer (linguagem) e o homem (existencialidade do ser-aí).

A partir dessa análise Cassin sugere a leitura do De Interpretatione de Aristóteles como “carta”, isto é, “constituição” fenomenológica pois a transitividade do fenômeno que “se mostra na linguagem” se reduplica na alma e no lógos como condição do verdadeiro. Sobretudo ocorre nessa análise de Cassin a codeterminação do conceito de fenomenologia com o caráter apofântico do lógos, isto é, assim como observada por Heidegger, com a teoria aristotélica da linguagem na medida em que sua condição de autenticidade é o fazer ver do fenômeno naquilo que se enuncia.

Ocorre que algumas páginas à frente ainda no parágrafo 7, Heidegger define o “logos da fenomenologia do dasein” como possuidor do caráter de Ermeneúein, isto é, como “interpretação”. É nesse sentido que “o ser e a estrutura ontológica”, em Heidegger, não se reduzem de modo algum a qualquer determinação ôntica, ou seja, ao nível dos entes. O ser é transcendens – pura e simplesmente. Isso impossibilita a identificação da teoria categorial aristotélica com o sentido propriamente hermenêutico da fenomenologia.

Como observa Appel, na origem a hermenêutica se relaciona à arte poética. Nesse sentido “interpretar”, já em Platão, é um termo usado correntemente em dois sentidos. Aquele pelo qual o rapsodo interpreta o texto poético, que se aproxima do que faz o ator em relação ao seu papel. Mas também aquele pelo qual a própria construção do autor é já interpretação do sentido linguístico compreensível concomitante à apreensão do objeto. Observa-se assim que este aporte não se confunde com o ato posterior de crítica, com a interpretação do texto enquanto busca do sentido do discurso construído.

O que se depreende dessa irredutibilidade enfatizada por Appel é que aquilo que está mais intimamente relacionado ao intuito hermenêutico pode ser visado a partir da oposição entre percepção e concepção. Pois “a concepção não pode ser atribuída à percepção de dados objetivos, ela é sempre, e desde o princípio, ‘interpretação’ no âmbito intersubjetivo da comunidade linguística enquanto ‘comunidade interpretativa’”.

Utilizando essa oposição básica torna-se exequível a condução da análise de Appel das tradições opostas da “Hermenêutica” e da “Crítica do Sentido”. Assim, se encontramos o mesmo termo Ermenéia tanto na Hermenêutica como “procedimento de interpretação a quem caberia empreender uma mediação intersubjetiva de sentido à maneira de tradição” quanto na Crítica do Sentido como “estrutura ontológica da linguagem que firma de uma vez por todas a condição de possibilidade da significação e do sentido”, é bem claro o viés igualmente irredutível desses dois usos do termo.

Ermenéia como “estrutura ontológica da linguagem” é precisamento o termo utilizado como título original do De Interpretatione. A tradução exata, conforme Appel, seria “enunciado” e a obra abrange uma teoria da linguagem embasada na “abstração da dimensão pragmática do discurso”. Já o Ermeneúein fenomenológico-hermenêutico está no âmbito propriamente interpretativo que opera no sentido inverso da possibilidade dessa abstração. ippHi9iiHhHhhHHHHgggg

A “apódeixis” ou “demonstração” não se maneja do mesmo modo conforme o aporte científico ou retórico, na teoria aristotélica. Pois se no âmbito da ciência há progressão contínua no movimento de conversão do fenômeno em objeto científico, no âmbito retórico incide um espaçamento a ser preenchido oportunamente, conforme a ocasião, isto é, um lugar de escolha conforme a situação com o fim de persuadir. Entre ambos incide o traço teofrástico do logos pelo qual a verdade não é da circunscrição da relação do logos com os ouvintes mas sim com as coisas, como vimos anteriormente. A teoria aristotélica sempre supõe os entes como a garantia do sentido e o objeto do pensar.

Já na concepção hermenêutica ocorre o questionamento do compreender historicamente mediado pela tradição de modo que o sujeito do conhecimento “não pode ser apreendido como uma consciência pura, que determina coisas-em-si (...)”. É por isso que a Als Struktur heideggeriana tampouco poderia ser dada como já estando “na concepção tradicional de verdade não somente como semelhança, mas como adequação”, conforme a expressão de Cassin. O que é propriamente hermenêutico e fenomenológico no logos não está no dizer do “fenômeno como ele aparece” sem que aí se jogue também o que não aparece, a possibilidade do fenômeno não aparecer. Em Heidegger a dupla estruturação do logos des-cobrir e en-cobrir não se esgota como pura “possibilidade do pseudos” no dizer de Cassin.

O encobrir é tão estruturante quanto o descobrir uma vez que a teoria da linguagem heideggeriana não se fez de maneira a tombar novamente na relação convencional de signo e significado mas sim de modo que nela a linguagem “não é uma característica de uma proposição conforme, enunciada por um ‘sujeito’ relativamente a um ‘objeto’” mas sim “o desvelamento do ente” sendo o seu âmbito aquele em que se desenvolve “todo o comportamento, toda tomada de posição do homem”.

Assim observado poderíamos suspeitar de que a relação essencial da fala com o pensamento não se estabelece do mesmo modo conforme seja o pensamento figurado ao modo de um referir à coisa e adequar-se ao dado ou como clareação do ser-aí pelo que o acordo não pertence, como referência, à coisa mas sim é possibilidade entre a presença e a apreensão. Nesse modo de ver à linguagem “soar, entoar, oscilar, vibrar, são tão próprios” como “o fato de o que se diz ter sentido”, como afirma Heidegger. Já conforme a tradição da Crítica do Sentido esses elementos precisam poder ser depurados para que se possa concluir sobre se o que se diz tem de fato sentido ou não. Se não pudesse haver tal depuração seria possível concluir que não. Assim me parece tangível a defasagem entre as teorias da linguagem que se desenvolvem desde Aristóteles e a Crítica do Sentido, abrangendo a semântica lógica, e a hermenêutica de Heidegger.

Não há como reduzir Heidegger à semântica, assim como vimos também não ser exeq6uível com relação ao pensamento de Appel. Mas sem dúvida o pensamento heideggeriano localiza a possibilidade mesma da semântica a partir de uma experiência originária do fenômeno como clareação a que se procurou progressivamente restringir no sentido de nela se ater apenas ao que poderia se aproximar de um ato de referência. Mas isso não é o mesmo que reduzir qualquer desses aportes ao outro e sim de mostrar ou tentar estabelecer a originariedade da hermenêutica.

Em certo sentido talvez se pudesse visar de um outro modo o texto de Cassin. Assim as análises heideggerianas que pretenderam encontrar o sentido originário de Logos como Noein na experiência grega conduziriam finalmente à teoria da linguagem do Organon pois em todo caso trata-se de mostrar, logo de perceber e portanto de uma teoria da adequação. Contudo, se sabemos todos que Heidegger não pretendeu constituir tal percurso, a manobra torna-se redutível ao absurdo. Mais do que isso, se fosse o caso de pensar o laço do Logos com o Noein sem a via da adequação a conclusão seria algo como o inverso, isto é, a fenomenologia estaria no tratado do não-ser de Gorgias, justamente lá onde nada na linguagem permite transitividade e o termo estaca, por assim dizer, na materialidade pura dos “sensíveis próprios” que atomizam o fenômeno sendo a linguagem mesma também um “fenômeno entre outros”. Mas se isso tampouco poderia ser aceitável pela fenomenologia, esta só tem vigência, conforme a argumentação de Cassin, se não permanecer nela mesma, se o que enuncia for de algum modo contornado pelo que pratica.

Com isso parece-me que o texto de Cassim pretende mostrar que o inverso da redução ao absurdo seria outra redução ao absurdo de modo que a análise fenomenológico-heideggeriana dos gregos equivale ao impossível, na prática tornando-se mais uma teoria do significado como adequação coisa-intelecto, mesmo se pudesse inverter a fórmula no sentido intelecto-coisa pois, como vimos, para Cassin seria cabível mostrar que a exclusão do logos aos que negam o princípio de contradição é ela mesma transcendental.

A fórmula basilar da argumentação de Cassin seria sempre a possível redução de todo aporte pragmático-hermenêutico-fenomenológico a uma espécie de logro pois sua constituição é só superficialmente pragmática sendo mais profundamente uma falsificação do verdadeiro alcance da revolução pragmática como por exemplo verificada na sofística. A falsificação opera no sentido de constituir a pragmática à imagem da semântica de modo que o que se preserva é o universal do liberalismo, sustentado pela referência como mecanismo último do consenso.

Quanto a essa possibilidade de leitura do texto de Cassin, penso que seria muito qustionável procurar mostrar que a interpretação hermenêutica se baseia finalmente no tipo de relação semântica de adequação. Quanto ao procedimento heideggeriano, sem dúvida sua leitura da sofística mostra que a observação dos gregos orientada apenas pelo viés de “uma” experiência que seria essencial permanece deficiente.

Contudo, o que é interessante nessa leitura heideggeriana dos gregos é que há uma constatação de percurso. Pois à medida que se verifica o afastamento do que no mostrar também é ocultar, isto é, na medida em que a apropriação semântica evolui constituindo-se de modo pioneiro na teoria da significação o que se constata é a formação do Ocidente, a humanização tão criticada por Heidegger na Carta a Jean Beaufret, pela qual a “humanitas do homo humanus é determinada a partir de uma interpretação fixa da natureza, da história, do mundo, do fundamento do mundo, e isto significa, desde o ponto de vista do ente em sua totalidade”. Assim o “elemento mais próprio de toda metafísica” reside no fato de ser “humanística” uma vez que pensa o homem como animal racional, ou seja, aquele que é apto a definir os entes assim como eles são.

Sob esse aspecto penso que a leitura dos gregos por Heidegger não se fez no sentido de erigir um modelo pré-metafísico único mas se desenvolveu como busca, justamente, de uma liberação do pensamento de seus modelos constituídos pela filosofia grega metafisicamente destinada. Assim ele teria procurado um caminho de pensamento que pudesse romper com a ocidentalização e europeização da humanitas sem tombar no misticismo ingênuo ou no despotismo do pensamento religioso oriental. Através da experiência dos pensadores da physis Heidegger conservava o intuito de encontrar aquilo mesmo que havia estado na essência do termo Tao ou na concepção originária do étimo exato da língua japonesa para a linguagem.

O pensamento liberado da metafísica, se ele pertence ao homem como o mais essencial ao ser humano, deveria irromper, em todo caso de algum modo lá onde se pudesse constatar que há efetivamente pensamento. Em Heidegger, portanto, a leitura dos gregos se faz a caminho da “essencial apatridade do homem”.

Haveria então um outro humanismo, não metafísico, mas aquele do dasein reencontrado por Appel. Por esse meio poderíamos pensar um humanismo “de natureza singular”, conforme a expressão de Heidegger na Carta. “Humanismo significa, agora, caso nos decidamos a manter a palavra: a essência do homem é essencial para a verdade do ser, mas de tal modo que, em consequência disso,precisamente não concerne ao homem simplesmente como tal”.

O homem se encarrega do ser, ele cuida do céu e da terra, dos viventes e dos deuses, mas não o determina, não o esgota na mera definição objetivadora. Isso se relaciona com a questão proposta por Schérer: esse novo conceito heideggeriano de “homem” não coincide com a proposta da Ecologia? Schérer pensa, sem dúvida, que a Ecologia tem necessidade de teóricos e pensadores para que a conexão com o pensamento de Heidegger pudesse se tornar teoricamente segura. Mas tudo isso requer observações mais detalhadas e por agora devemos voltar à questão da sofística.


 Retornando assim ao problema dos “Rivais” pode-se enunciar aquilo que une polimatia e dialética platônica. Trata-se do pensamento como captação do modo de ser do objeto, relação objetiva de percepção por um sujeito. A percepção aí não oferece problema, se ela ocorre. A questão platônica não se faz nesse sentido, de pôr em dúvida a percepção mas sim de que aquela que se dirige ao objeto material não ocorre de fato enquanto real mas apenas como ilusória.

A percepção do que é real não poderia de modo algum, portanto induzir ao falso. Mas a contemplação da idéia seria, para Platão, o objetivo de que a dialética é o método adequado. A contemplação ou teoria é o modo de percepção possível nesse mundo material de ídolos, cópias e reflexos mais ou menos afastados da essência. A crítica de Sócrates à polimatia consiste em dizer: vocês ainda não têm o método, não podem decidir o que é verdadeiro ou não. Que a Arché é água ou fogo ou consiste nos quatro elementos, como se poderia garantir? Sócrates surge assim como o marco zero da dúvida para introduzir o fio condutor do método, a dialética, o conceito. Antes de Sócrates, pré-socrático...

Mas o viés mesmo pelo qual ele parece tê-lo feito provém da sofística. Com efeito costuma-se afirmar: a diferença de Sócrates a Platão é que aquele se ateve ao problema do homem,este ampliou o horizonte de aplicação do método. Mas a raiz comum a esses dois atos está no problema formulado com muita clareza pelos sofistas.

Conforme a expressão de Guthrie Protágoras estava “na vanguarda da reação humanista” contra os fisiólogos pré-socráticos que almejavam “possuir o segredo do universo” mas na verdade apenas contrastavam “uma opinião contra outra”, cada qual “mais inacreditável” que a anterior. Como se sabe o método experimental é bem posterior à especulação naturalista jônica. Assim todos estavam “caçando quimeras” ao passo que o efeito real de toda aquela especulação era a oposição entre as pessoas.

O objetivo de Protágoras enquanto mestre retor seria ensinar o que realmente importava ao bem viver, isto é, “como tomar conta de seus próprios afazeres e os negócios do Estado”. Mas desse modo o que se torna fundamental é o “liame retórico”, conforme a expressão de Cassin, que se em Protágoras pôde ser desfigurado por Platão como carente de fundamentação ética, no “Contra Platão” de Élio Aristides já se estabelece como fundamento daquilo mesmo que deveria sustentar eticamente a comunidade sob a forma da legislação. Sendo “o que liga o todo”, na expressão de Elio Aristides, a retórica “assegura a coesão e a ordenação das cidades”.

A retórica constitui o liame político, isto é, o da comunidade dos seres humanos, pelo qual a vida se torna vivível, ou melhor, convivível. Á selvageria se substitui a civilidade. Enquanto a fundamentação platônica pela ética supõe um código já desde sempre outorgado de valores sua derivação permanece teológica e metafísica. A moral deriva da percepção ou conhecimento da lei imutável. Já a retórica sofística lida com as concepções humanas, ela constitui valores e pode transvalorizar. Como observou Martin Kuch, a guinada de Gadamer em relação a Heidegger se pode notar pelo fato de que ele sustenta que se pode efetivamente, a partir do compreender hermenêutico, não se ater à tradição, pensar de outro modo, solver o preconceito.

Ainda que suas consequências se estendam no sentido da abrangência de questões que ainda são atuais, esse objetivo propriamente sofístico de ensinar a Aretê política só pode ter sentido completo na Atenas democrática em que a todos os cidadãos competia de algum modo “os negócios do Estado”. Mas observa-se assim que a crítica à falta de método dos fisiólogos aliada à intenção humanista autêntica, já pertence à sofística como uma de suas motivações fundamentais.

No entanto, o desenvolvimento desse fundamento é que revela a índole clássica do século V. Pois ao inverso de Sócrates, a atitude crítica de Protágoras se relacionava a uma prática alicerçada na retórica que não se exercia de modo algum como simples técnica a serviço de um propósito de seduzir mas abarcava uma atitude relacionada a uma inteira concepção das relações humanas e da constituição do mundo. Trata-se da noção de Bios Politikós como ser do humano, não apenas um “exterior” com o qual ele mantém relações mas aquilo em que ele é e se compreende em seu ser.

Quanto a isso é sintomática a atitude de Protágoras ao introduzir o mito de aidós e diké. Ele indaga se a assistência prefere que ele responda a Sócrates com argumentos ou com um relato, que os ouvintes escolhem como sendo o mais prazeroso. Creio que essa indagação, ao invés de exibicionismo, é o sintoma do verdadeiro alcance do que designarei pensamento retórico, isto é, aquele que se desenvolve inteiramente na esfera da preocupação com o outro, ou melhor, na pressuposição do outro.

Já Aubenque enfatiza que “para os retores e sofistas, falar, é menos falar ‘de’ que falar ‘a’” e Cassin complementa: “não se ocupar daquilo de que se fala (...) mas se ocupar daquele para quem se fala”. Esse intuito só se recupera no quadro de um pensamento inteiramente voltado ao significado, como o de Platão, no sentido de influenciar ou enganar, o “seduzir”, e se o outro é o amigo, então se o considera como o mesmo, na mesma destinação ao objeto.

Mas no pensamento sofístico a contraposição dos lados da questão não é apenas um problema de como convencer melhor mas a abrangência pelo pensamento da existência da verdade do outro, a partir da aceitação da igualdade como atributo humano – principalmente com o outro enquanto outro, não redutível ao mesmo.

Isso se expressa por exemplo no critério de Ãntifon sobre a oposição Nomos – Physis, que já observamos anteriormente. Utilizo aqui apenas o conteúdo de “Sobre a Verdade” pois a produção escrita antiga ligada ao nome de Antifon é tão heterogênea, compreendendo por exemplo obras de índole oligárquica e democrática, que subsiste a polêmica, de que me abstenho, sobre se houve um só ou vários Ântifon.

No “Sobre a Verdade” costuma-se enfatizar dois itens como emblemáticos do pensamento, ou do desviamento, sofístico. Desviamento, porque nesses dois itens costuma-se observar o cúmulo do egotismo cinicamente enunciado. Ântifon observa aí que, inversamente ao que ocorre na esfera do Nomos, não se pode burlar as leis da Physis, mesmo sem testemunhas, sem sofrer todas as consequências do deleito. Já a penalidade da transgressão ao Nomos depende da existência de testemunhas para ser aplicada.

Não creio que a partir daí se possa deduzir um viés sádico de concepção democrática, como faz Cassin sem o condenar. Pois muito inversamente a “minar os fundamentos de toda a moral pública da Atenas do século V”, penso que se pode afirmar que Ântifon fundamenta com sua retórica a ética da democracia ateniense. Isso se depreende da ligação que se pode estabelecer entre essa asserção e aquela pela qual todos são “tão bárbaros quanto gregos”, o que inclui os escravos, pois biologicamente ou segundo a physis, todos os seres humanos são iguais no sentido de que participam das mesmas funções vitais, por exemplo.

É oportuno, quanto a isso, observar que a origem da oposição Nomos – Physius parece provir, conforme Heiniman citado por Guthrie, do contexto da medicina com a indagação de Arquelaus sobre se a heterogeneidade étnica ocorre por natureza ou é apenas questão de convenção. Assim a combinação dessa questão da origem da vida com o aspecto social humano dever-se-ia a Protágoras e a partir daí se estenderia ao panorama do século V e da sofística em geral. Porém quanto a iso não há ainda consenso.

Na formulação de Ãntifon, o que realmente distingue o bárbaro é desconhecer essa igualdade de natureza, enquanto o homem livre e cultivado grego sabe que a heterogeneidade existente entre os homens é devida ao Nomos. Aquilo que une as asserções parece-me provir de algo já salientado em Guthrie. A experiência colonizadora e comercial favoreceu a ampliação dos horizontes culturais dos gregos de modo que puderam considerar o incrível multimorfismo dos costumes. Esse patrimônio “etnográfico” acumulado por Hecateu, Heródoto e Tucidides foi a colhido por uma mentalidade naturalista igualitária e, inversamente ao que faria o não-grego, ao invés de condenar simplesmente o costume alheio como não-humano ou ímpio, os gregos assimilarem a heterogeneidade como fator de alteridade constitutiva da organização social.

Assim o que pertence ao Nomos é variável, à physis, é invariável. Se pensarmos na infração sem testemunhas como a contingência da observância de um outro Nomos em um outro lugar – lá onde não haveria quem o julgasse como uma infração – nenhuma consequência se seguiria.

Este é na verdade o cerne da revolução democrática ateniense na medida em que põe em jogo um conceito de lei simetricamente oposto à concepção oligárquica dos nobres pela qual a verdadeira lei não é escrita pois deriva dos deuses, de uma ordenação eterna do mundo. Observe-se a co-extensão dessa concepção nobiliárquica com o epíteto usual de ‘ímpio” aplicado pelos não-gregos antigos ao costume não sancionado pela lei local. O termo se associa à impiedade, isto é, tem uma conotação religiosa. Esta concepção de lei não poderia ser pensada como dependendo de testemunhas para ser eficaz.

Já como observa Guthrie, para um ateniense do século V a expressão “lei não escrita” poderia ter uma conotação sinistra. Sendo matéria do Nomos a lei se faz pelo consenso e se constitui portanto pela retórica, como resultado de argumentação entre os cidadãos. O pensamento retórico está assim relacionado intimamente ao Bios Politikós e à democracia. O que se pode afirmar também de algumas perspectivas gerais da sofística na medida em que expressam a vinculação do movimento com a face democrática da geofilosofia grega ateniense cuja hegemonia no século V chegou a ser inquestionável.

Contudo nunca ocorreu de ser essa face a única vertente do pensamento grego nem mesmo na Atenas do século V. Continuava a haver a especulação de índole oligárquica, antidemocrática, e a unidade de cultura ressaltada por Jaeger na observação da evolução do teatro deve também ser pensada como ágon, isto é, como expressão do contínuo processo de confronto de posições divergentes. Mas a sofística se mantinha como posição emblemática dos valores ligados à emergência da democracia. E nesse ponto não se pode deixar de convergir as posições democráticas teoricamente formuladas pela retórica sofística com questões de alcance mais filosófico.

Pois se a lei é meramente convenção humana, como isso se relaciona com a concepção da ordenação teológica do mundo? Como se pode sustentar algo independente da natureza se esta é teologicamente ordenada? Ocorre então que se afirma a origem puramente eventual do mundo? E quanto à alteridade, se ela é constitutiva da organização social humana, que fazer das noções de certo e errado em si? Nega-las como tais simplesmente não seria o mesmo que infirmar toda autoridade religiosa? Na consideração dessas indagações procurarei delinear algo do pensamento retórico dos sofistas e penso que é possível encontrar assim também o nexo de sua teoria da linguagem.


IX – Pensamento e Linguagem

 

 

→ “O homem é o critério de todas as coisas, das que são enquanto são, das que não são enquanto não são”.

A verdade é relativa a cada um..

Protágoras

→ Tudo o que se fala é verdadeiro, pois aquele que fala afirma alguma coisa e quem afirma algo afirma o que é e o que afirma o que é fala a verdade. Logo é impossível dizer o falso.

A refutação é impossível.

Protágoras e Antístenes

→ Não se pode afirmar o homem é bom, mas sim o homem é homem, o bom é bom.

Não se pode definir o que uma coisa é e só se pode afirmar aquilo com que ela se parece.

A cada objeto pertence apenas um discurso que é apropriado, aquele que afirma o que ele é nomeando os elementos de que ele se compõe. Se nenhum elemento pode ser aplicado, não há discurso.

Antístenes

→ A definição da essência de uma coisa é impossível, pois não se pode listar todos os seus elementos e estes, não sujeitos a posteriores análises, são indefiníveis, e só podem ser descritos por analogia.

Antístenes e provavelmente Lícofron

→ Os nomes tem uma afinidade natural com seus objetos. Um nome que não apresenta suficiente afinidade não está errado, mas simplesmente não se constitui de todo como um nome.

Antístenes, Lícofron e Crátilo

 

→ O uso do verbo ser para unir sujeito e predicado é ilegítimo por fazer uma coisa una ser múltipla, pois com isso se percebe e afirma o sujeito e seu atributo como uma unidade.

Lícofron

→ Aristóteles afirma na “Metafísica” que Crátilo, sustentando a doutrina de Heráclito, se recusava a falar e apenas apontava com o dedo.

 

 

→ Nada existe. Se existisse não poderia ser pensado. Se pudesse ser pensado não poderia ser dito.

O Logos é o mais poderoso déspota.

Górgias de Leontini

 

→ Tudo é falso; toda impressão e opinião é falsa. Tudo o que vem a ser, provém do que não existe e tudo o que se destrói, se destrói pelo que não existe.

Xeníades de Corinto

 

→ Quando um homem afirma alguma coisa singular não há significado singular correspondente nem é o objeto de seu discurso alguma coisa que o mais poderoso vidente possa ver ou o mais poderoso sábio possa conhecer com sua mente

 

Aqueles que se preocupam com os logoi pensam ser conveniente cunhar expressões novas, em consonância com o que eles tencionam expressar, pois os nomes de uso comum não têm um só significado e utilizam noções que não se baseiam na natureza.

Ântifon

 

 

A confrontação desse pout – pourri sofístico sugere que as perspectivas aí expressas podem ser distribuídas em três áreas. Uma relativa ao ser; conexa a essa, aquela relativa à possibilidade da linguagem em geral; e ainda a que se refere apenas à natureza dos nomes.

Mas seguramente se pode ver que há um nexo entre as áreas tornando-as interdependentes. Poderíamos então propor a questão: esse nexo é o ser ou é o homem?

Aparentemente trata-se do ser. O homem é seu critério. Assim há algo no ser que permite haver critério, e é porque compreendemos esse algo, talvez como indiferença, talvez como irredutibilidade à razão, que podemos afirmar como se dá o critério. Essa ontologia negativa parece fundamentar contudo tanto teorias positivas do critério humano, como em Protágoras, quanto teorias elas mesmas negativas de qualquer possibilidade, seja de linguagem definidora, seja de critério. Mas assim pode se apresentar, como opondo-se a essas perspectivas sofísticas, também outra teoria do ser pela qual a linguagem se torna uma possibilidade ainda mais positiva, sem depender do critério humano.

No entanto poder-se-ia objetar que seria mais conveniente instituir o traçado entre ontologia e antropologia e situar assim as teorias conforme operam nas bases do ser ou do homem. Nesse caso não haveria propriamente um único nexo a promover a interdependência das áreas mas um certo modo de conceber a sua integração conforme a decisão teórica envolvida entre esses dois aportes.

Mas uma hipótese ainda não considerada é jogar toda a articulação dessas oposições sobre a esfera da linguagem. Assim teríamos por um lado, conforme a orientação de Appel, as doutrinas de tipo pitagórico-eleático e por outro, as de tipo heraclítico.

As pitagórico-eleáticas reduzem a possibilidade última da linguagem ao sim/não adequado ao objeto. Podemos observar que a ontologia correspondente pode variar no sentido, por exemplo, da superação de Parmênides por Platão. Mas o que permanece comum é a noção estável da Physis. Contudo a ênfase não se situa nessa estabilidade por si mesma e sim no modo pelo qual ela se relaciona, no melhor dos mundos que é esse nosso, com essa outra estrutura estável, a razão que ordena sempre do mesmo modo a atribuição linguística. O que há de defasagem a incidir sobre esse “sempre” pode ser creditado à matéria ou à opinião dos homens bicéfalos.

A questão é que já na Antiguidade se propunha a concepção de linguagem como estrutura universal, capaz, por exemplo, de recobrir todas as línguas assim como todas as falas garantindo a tradutibilidade completa de todos os logoi, se dotados de sentido. Conforme a expressão de Appel “todas as estruturas concretas de todas as línguas poderiam ser eleático-pitagoricamente transformáveis umas nas outras, caso se calculassem os pontos de observação e as perspectiva subjacentes à sua constituição”.

Mas, como Appel observou, o que se encobriu nessa visão – que foi porém saudada por muitos séculos como a verdadeira contribuição perene do clássico – foram os fatores de destino e engajamento decisivos no desempenho real da fala e já envolvidos na própria efetividade da linguagem.

Mais atentas a esses fatores estariam as teorias de índole heraclítica, incluindo a sofística, que pensam a efetividade da linguagem na abrangência do “mundo comum aos seres humanos despertos”. Nesse caso não há dualismo entre a estrutura universal e o conteúdo particular, mas a estrutura mesma se funda a partir da imagem de mundo que a ela concerne em cada caso. O exemplo do livro de Zinsli é bastante oportuno. Os habitantes dos Alpes teuto-suíços constituem uma linguagem conforme suas estratégias de sobrevivência na região. Esse critério de nomeação se torna então nitidamente oposto ao que norteia o repertório vocabular formado pelo montanhista visitante. Assim enquanto o turista vê a região de uma perspectiva “romântica”, não registra detalhes que para o habitante são essenciais e, inversamente, verbaliza coisas que este mantém inomeadas.

Appel não nega uma universalidade do Logos que torna possível a comunicação humana em geral e a tradução entre as línguas particulares, na medida que o pensamento sempre distingue o ente factual do ente já interpretado “como algo”. Mas ele a pensa no âmbito de uma integração com as cosmovisões humanas vinculadas ao ponto de vista e à corporalidade. Esse modo de ser integrado do logos é o que faculta o “mundo comum” de uma comunidade de falantes, o in-der-welt-sein ou ser-no-mundo, corpóreo e histórico dessa comunidade.

Appel utiliza aqui dois conceitos, o de excentricidade e o de centro-referencialidade. O pensamento excêntrico transgride o ponto de vista corpóreo e lançado do ser humano, ele se volta ao fato, ao universal. A centro-referencialidade é relativa ao in-der-welt-sein, aos destinos temporais da comunidade. A integração entre esses dois modos é então a possibilidade da linguagem efetiva.

Isso poderia conduzir apressadamente à conclusão de que a excentricidade já permite uma redução semântica da teoria de Appel. Contudo ele prevê essa possibilidade como a “impressão de que no fundo a substância da verdade da língua esteja representada apenas no arcabouço estrutural e portanto apenas na lógica”. Contudo, se ele argumenta que a hipótese desse arcabouço estrutural como fundamento não pode ser “refutada enquanto especulação” isso é complementado pela observação de que ela tampouco pode ser concretamente demonstrada quando “aplicada ao contínuo das imagens de mundo, que é histórico e antropologicamente centrado”.

A chave teórica aí é, portanto, a integração à centro-referencialidade e algumas páginas à frente Appel confronta o “corretismo lógico” que “brota a partir do ponto de vista excêntrico do pensamento puro” com a “verdade que se descobre na linguagem viva”. Essa verdade existe de modo que face à ela “não há qualquer refutação, nem tampouco verificação ou falsificação no sentido de uma observação dos fatos”.

Aqui é inevitável recordar Protágoras e sua asserção de que é impossível refutar. Na verdade uma comparação dos argumentos sofísticos com a linguística contemporânea também se poderia mostrar frutífera. A hipótese Sapir –Whorf, por exemplo, que enuncia as línguas como cosmovisões irredutíveis umas às outras parece de algum modo em consonância com a visão hermenêutica da centro-referencialidade e com a concepção do critério humano do ser.

Também a texto –linguística quando enfatiza que o critério de sentido textual sempre está integrado de maneira que a qualquer enunciado sempre é possível encontrar um contexto em que ele se torna aceitável ressoa na afirmação de Antístenes de que é impossível dizer o falso.

Aubenque parece ver nessa asserção de Antístenes, e também as suas teses de impossibilidade da predicação e da atribuição, não tanto uma questão de situamento discursivo do enunciado, mas uma relação sem transitividade da linguagem com o fenômeno, como também afirmado por Cassin. Na sofística, a linguagem “faz corpo com o que ela expressa”, conforme Aubenque, ela “busca manter imediatamente juntos” o fenômeno e o Logos, assim como Cassin interpreta a atitude de Crátilo e o enunciado de Protágoras.

Tanto Aubenque quanto Cassin chamam a atenção para o fato de que na sofística o discurso aparece como uma realidade sensível, um fenômeno entre outros. Mas Cassin ressalta que a retórica sofística se constitui pelo manejo desse fenômeno-linguagem de modo tal que ao invés de uma reflexão do referente teríamos a ficção de uma realidade conforme a intenção do orador. Assim, quanto à polêmica já examinada por Armando Plebe, Cassin parece inclinar-se pela opinião de que Górgias não separava realmente poética e retórica. Se a contraposição reflexiva é o pseudos, a falsidade da pertença dessa imagem dada ao que ela afirma ser o seu referente, o elemento retórico é o plasma, pois ela forma aquilo mesmo que deseja fazer ver. E o que deseja fazer ver suprime o que no presente constrange ou fere, dotando assim o logos com o dom de ser phármakon, remédio, terapia e cura.

Assim até aqui encontrei dois tópicos que me parecem pertinentes ao pensamento retórico. Um é o seu aporte hermenêutico. Penso que não há melhor meio para a compreensão do ‘critério” de Protágoras e para a localização do nexo sofístico entre linguagem e ser subjacente a essa sua asserção. Pois a dependência do ser ao aí, a centro-referencialidade constitutiva da enunciação, me parecem estar de algum modo implícita nessa proposição. Mas esse tópico se relaciona à teoria da linguagem sofística enquanto que o plasma se efetiva como elemento na prática de uma retórica voltada à interlocução, isto é, evoluindo inteiramente no elemento pragmático.

Contudo a “aderência” do logos ao fenômeno não me parece bem demonstrada. Quanto a isso penso que a concepção do caráter ficcional do discurso retórico, o que não precisa significar fictício, se relaciona com as impossibilidades constantemente apontadas, de falar o falso, de definir, de atribuir. Pois todas essas interdições testemunham, inversamente à colagem do discurso, a sua irredutibilidade à pura excentricidade como possibilidade de ligação adequada entre realidades distintas porém afins uma à outra pelo viés do verdadeiro.

A definição por si mesma só pode ser feita a partir de uma excentricidade pura, isto é, que aboliu idealmente a sua distância, mas toda linguagem é integrada. A atribuição, ironicamente, supõe que se posa já ter definido para que dessas definições de sujeito e objeto se possa extrair uma propriedade comum a fim de metaforizar uma relação atributiva. Ironicamente, porque pareceria que a atribuição só poderia ser já referencializada quando o que ocorre é que ela supõe a reduplicação do processo de definição.

Assim também o dedo de Crátilo não seria uma ironia? Se a linguagem fosse apenas atributiva, predicação adequada, questão de ortotés onomáton ou certitude, não seria mais simples apontar com o dedo ao invés de falar? É certo que esse gesto surge no contexto da mais extrema afirmação do devir, mas justamente a retórica se instala entre o devir e o homem, de modo inverso à lógica que se estabelece como relação neutra de significação entre linguagem e ser.

A linguagem não faz continuun com o fenômeno mas, inversamente, no século V aquelas três instâncias que o arcaico hierarquizava, o sopro ou a voz, o corpo e a linguagem, se tornam autônomas ou encontram novas possibilidades de relação, uma nova estesia. Nesse aporte talvez se pudesse ler a proposição de Aubenque do seguinte modo: a linguagem, que no arcaico devia se subsumir à voz, se subverte na sofística porque se relaciona agora só com a materialidade do corpo. Contudo, preserva-se a concepção de sua materialidade própria de linguagem e por aí se compreende a ambiguidade dessa explicação que diz ao mesmo tempo que a linguagem faz corpo com o fenômeno e que ela é fenômeno entre outros.

Mas se os sofistas pensavam a linguagem – e esse é o cerne do pensamento retórico – algo assim como um meio universal de sentido de que seria impossível se situar exteriormente, concomitantemente a uma noção da irredutibilidade do destino – o que é para alguém não pode deixar de ser para esse alguém – muitas de suas proposições se tornam compreensíveis hoje.

A linguagem é materialmente independente – como a écriture – mas justamente por isso ela está na situcionalidade – acarreta o corpo, estende o mundo, engendra a voz. A linguagem não se separa do fenômeno realmente, mas nisso pelo que ela é constitutiva não porque não haja transitividade. O que não há é pura atribuição ou adequação isenta de pressupostos humanos situados, de modo que talvez fosse mais oportuno afirmar que é o fenômeno que não se separa da linguagem.

Mas com isso não considero que a sofística se defina como um todo. Na verdade penso que o Tratado do Não-Ser de Górgias deve tanto ser lido pelo embasamento hermenêutico quanto exige um tratamento da questão do devir.

Sabemos que enquanto analítica existencial o dasein não conserva a distinção tradicional de Ser-Devir. Já o pensamento platônico parece ter insistido principalmente nisso para opor essência e aparência e por aí desacreditar a sofística. Não seria, portanto, a partir de uma visão forçada do dasein que penso ser possível faze-lo de algum modo

co-incidir com o pensamento deleuziano do devir.

A diferença ontológica heideggeriana realmente foi pensada por Deleuze como horizonte de unidade na caracterização do heterogêneo e por aí considerada irredutível à perspectiva da multiplicidade. Poderíamos também enfatizar o enraizamento histórico do aporte pragmático-hermenêutico, mais seu instalar-se no elemento de transcendentalidade para reduzir qualquer convergência desses pensadores à impossibilidade. Mas minha intenção é mais de mostrar, a partir da sofística, como de uma teorização necessária do Compreender hermenêutico, que se baseia em Heidegger e se desenvolve com Gadamer e com Appel, se segue a exigência de um pensamento do devir que se efetiva em Deleuze.

Pois entre a excentricidade e a centro-referencialidade, qual o lugar da apatridade nomeada na Carta Sobre o Humanismo? Aqui convergem vários temas. Quanto ao que é pensar, o que é se orientar no pensamento. Quanto à necessidade da sofística no âmbito de um pensar que se encontra, na contemporaneidade, entre o compreender hermenêutico e a liberação do devir, da multiplicidade, da criação, não apenas como uma”tarefa” nem tanto como um significado mas engajamento e destino, o impensável.

Quanto à inclusão da oposição de aparência e essência, na argumentação platônica presa do intuito de refutar a sofística. Porque assim o que se forneceu ao pensamento foi uma vinculação metafísica ideal, objetiva, como se desde sempre houvesse um pensável exemplar a que toda tentativa de se esquivar deveria ser visada como desvirtuamento – por incúria ou desonestidade. Contudo, o que o Tratado do Não-Ser exige é que se volte a lembrar da Physis como o Impensável, o horizonte mesmo para que tende todo pensamento na atitude natural como limite impossível.

O limite que está sempre contra a tendência à redução do pensar ao objeto, a retórica jogando-se na variação desse limite, o pensamento constituindo-se como o movimento de variação dessa heterogeneidade impossível de se reduzir à identificação absoluta porque a destinação do compreender faz círculo com a linguagem mas não sem liberar uma reta – labirinto, o Aion, o tempo que está sempre se esquivando ao presente do dado presumido como percebido, no eterno passado-futuro do sentido.

O círculo ainda é orientação no presente, ele se faz mesmo como o movimento em torno,da Als Struktur, pressupondo o que nele circula. Não creio que se possa achatar essa compreensão do dasein como função do mesmo, o “eu” ou o “outro”, o aí do ser exigindo que se o pense como já abrigando o mundo na ec-sistência. Mas o que temporaliza o faz como presentificação, de que o historial testemunha, dobrando o tempo sob o império de Cronos.

Contudo o inapreensível resta, não no limite do excêntrico como a forma pura, a lógica do mundo vazio de sentido histórico, se fosse isso algo que não apenas uma abstração, miragem de muitos séculos, a ilusão inevitável da razão. Mas o que é preciso é conceber o limite, não ao modo comum do não-além mas ao modo matemático do que ocorre entre. Não se pensa por um ato decisório, como diante de uma escolha ou porque chegou o momento da lição de casa. Acontece o pensar pelo choque desse não-ser. Não é uma experiência “conceitual”. Nem há garantia de que isso não vai afinal mudar nada.

Inversamente o mais provável é que pensar seja uma ação muito rara, e se ocorre tudo se transforma. Mas estamos acostumados a “pensar” como “raciocinar” e nem mesmo o se dar conta do pensado ocorre com muita frequência. Reserva-se à rubrica da ficção, tolera-se como o espirituoso ou subsume-se às perturbações do espírito ocioso. Quando não se o designa simplesmente como a impostura. Ocorre mesmo que se tenha a lembrança: “não o faças, é perigoso”. Pensar pode ter conotações indesejáveis.

Trata-se apenas de que a advertência se endereça à possibilidade da inação, o pensar está onde agir seria o caso. Mas também: o pensar está onde se devia apenas obedecer. O que permanece como lembrança do limite e da variação, contudo, se recupera na referência à ordem. Pensar desafia a ordem, ou seja, a própria imagem do pensamento como acordo, adequação na pressuposição da existência do objeto. O objeto absoluto. Mais profundamente, a ordem em que o objeto se constitui desse modo. O tênue dessa linha que biunivociza a imagem do pensar na referência é paradoxalmente aquilo que há de mais forte – sustenta impérios e potestades. Pensar ocorre então ao caminhante solitário, ao estrangeiro, na apatridade, ou habita o silêncio de um encontro, de uma conversa. Mas não ocorre de um modo privado, assim como se pudesse alguém dizer que equivale a ter tido uma idéia. É bem mais como a escuta, escutar a voz do ser mas esse ser não deixa de ser o puro devir porque ele não conduz ao mesmo, ele lança no heterogêneo. Aqui seria importante considerar o risco que se fez sobre a palavra Ser.,”la derniére écriture d’une époque...”, conforme Derrida.

Considerando por exemplo o Historial, opõe-se inicialmente a resistência ao presente do Internal. Mas no presente aquilo que resiste está, como o próprio Deleuze afirma, voltado ao futuro : só se pode interpretar o passado a partir da mais alta força do presente, e a palavra do passado só pode se compreender pelos arquitetos do futuro, assim como Antonioli ressaltou com relação à concepção deleuziana de história da filosofia. Não seria tanto uma questão de convergência Heidegger-Deleuze, mas sim do “e” que se torna inevitável entre esses pensadores na atualidade do “entre” da teoria que se encontra plenamente no tratamento de temas como a sofística.

O Tratado do Não-Ser, de Górgias, parece-me assim bastante relacionado a um conjunto de temas enfocados por Aristóteles. Pois na teoria aristotélica utilizam-se dois conceitos de “Ser”, sendo um deles o da linguagem corrente e impróprio e o outro utilizado no âmbito da atribuição categorial. Assim não há apenas a distinção do que é essencial ou não, mas do ser enquanto existente e o ser que se declina pela linguagem. Esse existente é considerado impropriamente como ser pois o que é só se mantém fundamentalmente pela atribuição da cópula, fundamento de toda significação, e por isso se pode dizer em vários sentidos.

Contudo se em Aristóteles a questão do existente e sua relação com o ser reveste a amplitude da questão da “intenção significante”, parece-me mais certo atribuir ao Estagirista uma doutrina pela qual essa intenção só encontra aquilo que assim como é pode se afirmar que é. Já o Tratado do não-Ser de Górgias estabelece o limite entre o ser, linguisticamente ou como possibilidade de concepção qualquer, articulado, e o existente pensado ao modo do puro devir.

O tratado desenvolve as aporias que se derivam de toda a tentativa de formalizar o devir – isto é de declinar o ser – que não se concebe “hermeneuticamente” mediado, isto é, já na proximidade humana da habitação no mundo. Todas as categorias enumeradas por Gorgias formas antilogias: ser eterno, gerado ou ambos, ser um ou vários, assim como a irredutibilidade do logos à substância. Não há termo de percepção cabível para uma decisão entre essas antilogias, pois essa decisão já seria imanente ao sentido que ela mesma instaura e nisso reside o paradoxo.

No entanto o que Deleuze faz intervir e que me parece recuperável na sofística é que esse devir não “mediável” não é inapreensível. Ele é não-ser, não por que se opõe ao ser, conforme À dualidade platônica, mas porque se opõe ao logos, aí onde se joga qualquer atribuição do que é. Mas a consequência, uma vez que não dispomos mais do que de fragmentos, irrompe numa lógica do acontecimento como a dos Estóicos.

Quanto ao pensamento aristotélico, ocorre que nele tampouco surge a dualidade platônica, mas sim uma concepção muito original do devir, recuperável a meu ver através de Averroes, em que se tem uma inteligibilidade voltada ao singular já que a essência é existência na realidade em devir da substância. Porém isso requer uma elaboração bem mais elaborada. Mesmo o desenvolvimento das implicações dessa análise do tratado de Górgias exigiria desenvolvimentos mais aplicados no âmbito de uma pesquisa voltada ao pensamento sofístico que aqui estamos observando pelo viés de uma constituição das Ciências Humanas e assim apenas com o intuito de pensar a geofilosofia grega em conexão com o Compreender.

O que foi possível descobrir é que o relevo pelo qual a contribuição perene do clássico se identificou com a teorização da excentricidade lógica se revelou inaplicável a essa Compreensão. Mas, inversamente, também se descobriu que o clássico realmente contribuiu nesse sentido, o que ocorre no contexto do pensamento retórico dos sofistas.

É interessante quanto a isso observar ainda algo enfatizado por Cassin em relação à segunda sofística, já à época do helenismo. Pois ela aí opera no interior mesmo das Ciências Humanas, uma vez que, conforme observa Cassin, o termo da oposição ao pensamento retórico não é agora a filosofia, já plenamente estabelecida, mas sim a história visada ao modo de “decalque” do real – enquanto os sofistas instalam o logos no elemento do Plasma.

Novamente temos a confrontação do Compreender como inerente à problemática do pensamento “humano” frente à concepção que designarei naturalista enquanto tarefa histórica de meramente reportar. Assim caberia indagar: existe uma “ciência humana” antiga? A questão é complexa pois envolve a rubrica “ciência”. Podemos no entanto afirmar que no contexto epistemológico antigo – que não tem o mesmo recorte do moderno ou o contemporâneo e não deve ser definido portanto do mesmo modo – já existia uma compreensão da linguagem voltada ao conteúdo, conforme a expressão de Appel.

Havia na sofística seguramente uma exigência teórica da irredutibilidade do pensamento humano, enquanto retórico, à simples adequação ao objeto. Com isso nossa época se vê dotada de uma visão mais abrangente sobre a importância do período clássico. O que implica, nesse ponto, a análise do desdobramento, a partir do século IV, que levou à importante descoberta das possibilidades teóricas da pura excentricidade.


X – A Transição ao Helenismo

 

Há um conjunto de temas que se entrelaçam na compreensão das decisões efetivadas no século IV ac. Em geral optei por considerar esse período na extensão de sua continuidade com os acontecimentos que efetivaram o helenismo. Isso se deve principalmente ao fato de que associo aqui o clássico mais propriamente com o apogeu dos movimentos retóricos do século V.

Esse conjunto de temas pode ser orientado a partir de um exemplo concernente à conservação dos tratados médicos atribuídos a Hipócrates. Os escritos hipocráticos, que Bréhier afirma tratar-se de “uma série de quarenta e um tratados”, Harvey “cento e vinte obras” e Colin Ronan “uma coleção de cerca de sessenta textos importantes”, não são todos de sua autoria, indubitavelmente. O relevante aqui é o que Bréhier registra sobre o “importante conflito de método” que surge entre os autores reunidos sob o nome de Hipócrates. Contudo, e isso é o que me parece a orientação histórica geral devida às decisões que se operam no quarto século, esse conflito permanece ignorado na maioria dos registros sobre a medicina grega assim como ocorre em Harvey e Ronan.

A oposição observada por Bréhier envolve a relação de medicina e cosmologia. Enquanto alguns reservam a cosmologia apenas aos movimentos celestes “de que nada de seguro se pode afirmar”, à falta de meios de comprovação imediata, outros consideram que a compreensão do corpo depende do conhecimento da alma que, por sua vez, depende do conhecimento do universo. Se aqueles se reservam um método empírico, baseando-se na observação dos sintomas e na experiência acumulada de tratamentos aplicáveis, estes outros adotam a teoria dos quatro elementos ou qualidades, onipresente entre os pré-socráticos, frio e quente, seco e úmido, designando-os agora como princípios físicos do equilíbrio corpóreo fundamental, conforme a harmonia universal.

O que se costuma obliterar na descrição da medicina antiga é o aporte empírico, atribuindo-o exclusivamente ao cenário moderno e contemporâneo. E isto tanto mais facilmente, uma vez que a doutrina dos quatro elementos subsistiu na medicina ocidental como oficial até aproximadamente o século XVII. Mais geralmente esse é o sentido da conservação do passado que o século IV implementou: desvirtuamento das contribuições mais importantes da geofilosofia grega, que só podem se recuperar através da leitura ou escuta historial assim como a decifração de um palimpsesto. Mas o sentido desse desvirtuamento nada tem de fortuito. É bastante visível a coerência com que ele se entrelaça ao quadro de evolução da Antiguidade ao mundo feudal.

Quanto a isso a modernidade ocupa um lugar curioso. Pois se aparentemente ela deriva de um Renascimento que se debruça historialmente, ao menos na sua intenção manifesta, sobre uma Antiguidade que ela quer ver isenta dos preconceitos da “autoridade” medieval e eclesiástica, não seria esse o lugar em que se poderia recuperar os traços daquela geofilosofia, o que só se efetiva na contemporaneidade. Mas essa observação está em conexão com alguns dos temas do conjunto que ainda precisamos examinar para que seu alcance se esclareça, em relação a nossos propósitos, de modo mais amplo.

O resultado da Guerra do Peloponeso alterou não apenas o estado de coisas no interior da Polis ateniense mas influiu no evoluir dos acontecimentos no sentido de ter favorecido as forças de desagregação na Hélade, conforme Rostovtzeff acentuou. Atenas consolidou a democracia mas também representou o ideal pan-helênico que aglutinava as forças de agregação no multifacetado território grego. Sparta jamais havia feito seu esse ideal. Mesmo com a consecução da hegemonia mostrou-se incapaz de conservá-lo uma vez que carecia de bases culturais que lhe permitissem desenvolver as negociações entre as cidades sob um princípio mais abrangente do que o da simples força bruta. Assim a capitulação perante a Macedônia se tornou inevitável, como vimos.

Munford analisou o quadro de decadência da polis grega após o quinto século justamente a partir desse ponto de vista. Os dois fatores que ele aponta como responsáveis pela exaustão da cidade clássica se relacionam com o crescimento dos impérios vizinhos à Grécia. A expansão colonial tornava-se impossível sem conflitos com esses poderosos concorrentes e a proteção do território mesmo, contra eles, estava na dependência de uma “união política”, isto é, de algo como o ideal pan-helênico que se havia tornado impraticável nos quadros de uma hegemonia espartana.

Mas com relação estritamente a Atenas, os efeitos da Guerra do Peloponeso se relacionaram ao estatuto da democracia, não tanto no sentido de sua manutenção, afinal assegurada pela própria Sparta como uma concessão após o fracasso do governo dos tiranos, mas no sentido de sua influência enquanto pensamento político e social. Assim esses efeitos se estenderam a tudo que a democracia havia favorecido. Se, como penso, a democracia ateniense do século V traduziu o verdadeiro milagre grego, o apagamento de sua preponderância pelo recrudescimento das tendências de pensamento oligárquico redundou, por muito tempo, nesse deslocamento da perspectiva que verificamos no exemplo da recepção dos escritos de Hipócrates.

Pelo viés dessas tendências, a contribuição real do espírito grego devia ser observada alhures, conforme a índole do platonismo, tudo o mais aparecendo sob o signo do oportunismo cínico ou apenas como circunstancial, se chegasse a ser registrado. No entanto parece que algo muito mais profundo do que simplesmente a tendência oligárquica se encerra no sentido desse processo. Pois trata-se de uma Imagem de Pensamento que prevaleceu mesmo lá onde se tratou de reverter o platonismo, o que pode se constatar pela persistência das versões detratoras da sofística. Mesmo assim não se pode deixar de constatar a convergência dessa Imagem idealista com elementos oriundos da tendência antidemocrática na Grécia, isto é, ao menos lá onde ainda se pode falar de processo e decisões, onde a Imagem estava não formada mas sendo plasmada, por assim dizer.

Poderia-se usar o termo “influência”, quanto a isso. Mas para observar que sempre que a influência da preponderância oligárquica pode ser rastreada no desenvolvimento da filosofia do século IV, ela se institui sobre uma base ampla de diálogo com o que já se havia desenvolvido e continuava em marcha na transição ao helenismo em termos de pensamento. Tratava-se nesse diálogo então de certas decisões que precisamos resgatar agora. Pois o que estava em jogo aí era justamente o significado do pensar, o domínio daquilo que deveria se designar conhecimento, ou a questão: o que é a filosofia? Nesse momento mesmo em que ela estava nascendo.

A tarefa dessa resposta dominou o clima intelectual no século IV e sob esse ângulo a estreita correlação dos diálogos platônicos com a sofística parece bastante consequente, do mesmo modo que a recuperação, por Aristóteles, do pensamento pré-socrático, desenvolvendo-se como crítica.

Já examinamos algo do “Rivais”, em que três personagens se arvoram a legitimidade da resposta ao que é verdadeiramente o conhecimento mais fundamental. Mas o que parece estar assim inteiramente no mesmo plano, na realidade se joga sobre um real desnível. Pois não são as mesmas as condições de exercício do polímato, do filósofo e a do homem livre e cultivado.

Minha hipótese é que entre o polímato e o filósofo as condições do exercício não mudam ainda que se mantenha a diferença epistemológica apontada no diálogo platônico. Apenas o exercício de pensamento retórico, do homem livre e cultivado, depende, no contexto da Antiguidade, exclusivamente da pólis democrática ateniense. Mas isso não porque haja uma dependência do pensamento a algo extrínseco, por exemplo, como se pudesse ser demonstrado um vínculo necessário de determinada doutrina política com uma certa teoria do conhecimento. Na verdade deve-se mais pensar esse tópico no sentido das relações efetivas com o estado de coisas social, mas não como dependência unilateral ou sempre dada da mesma forma. É o exercício de pensamento retórico que se lança em uma série de pressupostos que já o determinam conforme um vínculo social, enquanto que a relação do pensamento pré-socrático com a emancipação da economia à agricultura se determina de modo não de todo semelhante.

O polímato, conforme o “Rivais”, vê a excelência do conhecimento como uma totalidade de saberes válidos enquanto o filósofo o circunscreve ao bem do ser humano. Contudo, ambos o concebem como independente do processo de negociação e acordo sobre o que seja o relevante no saber ou o propriamente humano no valor estabelecido como o bem.

Isso se torna particularmente oportuno se o relacionarmos a esse problema de estabelecer o alcance da influência da virada oligárquica na orientação do pensamento do século IV. Pois se, como Vernant, se pode afirmar que a origem do pensamento racional na Jônia é inseparável do regime dessacralizado da palavra interlocutiva, observamos também, com Sagan, o quanto esse processo está ligado à introdução de uma escala de valores que não deprecia o trabalho e a iniciativa pessoal de artesãos e comerciantes nessas cidades costeiras em que o multimorfismo de regimes não esconde um certo critério geral de liberdade e autonomia dos cidadãos.

No entanto, o pensamento platônico, em que sem dúvida aquela influência oligárquica pode ser apontada, não deixa de se estender num certo sentido de continuidade em relação ao pensamento pré-socrático, como se houvesse uma marcha linear teoricamente sustentável sob certo ponto de vista. Pois o tipo do filósofo platônico reúne Heráclito e Pitágoras num discurso racionalista baseado na ontologia do “eidos”, bastando para isso introduzir Sócrates e a exigência conceitual. Vernant, por exemplo, observa a continuidade de Empédocles a Platão quanto à concepção da alma e da valorização da memória no interior de uma doutrina da transmigração. Vernant acentua assim que a definição de filosofia em Platão se dá como tradição muito antiga de “melete”, “exercício” de purificação. Novamente o esquecimento se opõe à verdade: “a anamnésis platônica, por meio de exercícios de memória do pitagorismo, prolonga o velho tema mítico de Mnemosyne”, a memória, “fonte de vida inesgotável”, conforme a expressão de Vernant.

Podemos constatar também essa mesma pertença condicional do polímato e do filósofo pelo fato de que o saber único e fundamental que pertenceria ao filósofo só é alcançável no platonismo pelo exercício dialético. Mas a progressão da dialética platônica à lógica aristotélica já se joga no pressuposto de um instrumento de acesso a todo saber verdadeiro. Logo, serviria também ao polímato caso se convertesse, seja do desviamento dos sentidos, seja da ignorância dos processos causais e silogísticos. Trata-se portanto da filosofia como método que já se pressupõe na senda de uma articulação do real com o verdadeiro, daquilo que é com o saber enquanto o como desse conhecimento.

Mas o exercício do pensamento retórico do homem livre e cultivado não pressupõe como dada essa articulação. Assim o conflito dos “Rivais” não se faz tanto sobre três mas sobre dois caminhos. Munford por exemplo acentua a real singularidade da Polis do século V em que se desenvolve a sofística. É o fato de ser “encarnada”, isto é, ser efetivamente ordenada pelos cidadãos. Tudo aquilo que mais tarde se considerou institucional, restrito portanto à burocracia ou à especialização dos técnicos encarregados, de “inspetores e magistrados” a “secretárias permanentes”, conforme a expressão de Munford, era na polis atributo da cidadania.

A atividade do cidadão, na Atenas democrática, abarcava “o serviço no conselho ou nos tribunais” mais a atividade comercial e a “participação nas artes”: todo ano algo por volta de dois mil atenienses devia atuar no coro teatral. Havia um intercurso pleno entre o público e o privado, entre existência e cultura, de modo que “cada parte da cidade” vivia “na pessoa do cidadão”. O que Munford nomeia assim como componente essencial que define a pólis do século V é esse “praticamente desconhecido das culturas anteriores” – perigoso para qualquer sistema de autoridade baseada no arbítrio – o “cidadão livre”.

Não se trata, portanto, apenas de emancipação econômica ou mesmo de um certo conceito de liberdade política. Trata-se de participação social de modo que a formação desempenha agora um papel constitutivo, estabelecendo o pensamento retórico no âmbito pragmático cujo alcance se estenderá ao próprio estabelecimento do que vem a se constituir como conhecimento ou validez, distanciado do vínculo semântico exclusivo como a “falácia abstrativa” conforme a expressão de Appel para designar a divisão teofrástica que reserva o saber ao verdadeiro ou falso do discurso “filosófico”, isto é, referencial, excluindo o propriamente retórico.

A convergência do pensamento platônico, fortemente influenciado pela tendência oligárquica, com aquilo que nos pré-socráticos se estendia no sentido da “tradição” se torna assim bastante compreensível apesar da aparente dispersão de meios e de ambientação. Mesmo onde se trata de criar a retórica, como no pitagorismo, não se a considera senão como meio, os princípios cosmológicos e epistemológicos ignorando qualquer aporte constitutivo para se marcar como procura de instrumentos metódicos transparentes ou quase, no sentido de alcançar “a” verdade.

Na tarefa de caracterizar de modo algo panorâmico o século IV, podemos observar como Munford relaciona aqueles elementos de decadência da pólis, que já examinamos no contexto da expansão dos impérios vizinhos, com a transição do clima geral do século V a esse período. Ele destaca assim que o limite da cidade-estado clássica, a impossibilidade da expansão colonial ou da união política, teve como consequência a fuga para comunidades isoladas dentro da cidade, como a dos pitagóricos, e um novo gênero de literatura utópica com tendências comunistas.

Essas tendências utópicas são reencontradas na obra de Platão, ainda que eivadas de valores antidemocráticos, mas também se anunciam na iniciativa de Antístenes de construir um “ginásio de pobres” o “cinosargo”, acenando aí para uma acentuação realmente socialista dos valores. Munford enfatiza que já a comédia de Aristófanes glosa os aportes comunizantes das “várias proposições socialistas” que se “achavam no ar”, por exemplo em “As Aves”. Sobretudo a “Ecclesiasuzae”, que põe em cena uma revolução de mulheres, assinala a transição ao teatro do quarto século. Agora não se utiliza a parábase nem a virulência costumeira contra os políticos, minimiza-se o mais possível a participação do coro e há um novo tipo “calmo e espirituoso” de conversação substituindo o ágon das disputas característico do período anterior.

O diálogo platônico que desloca os exercícios de intensa interação da sofística está assim na conformidade desse período em geral. Mas a obra de Platão surge para Munford como uma “regressão” em relação aos aspectos participativos da cidadania real do século V. Já sua “perversão” reside, para ele, no fato de que Platão denega aquilo mesmo que torna possível o seu exercício de pensamento, assim como o socrático, isto é, a Polis democrática.

É interessante examinar essa asserção pois afirmei acima que o pensamento platônico, inversamente ao sofístico, independe de certo modo da polis ateniense. Não há, porém real oposição aqui. Munford argumenta que Sócrates era um homem do povo com um ofício braçal e seu caminho intelectual teria sido impensável numa República como a platônica onde as castas deviam ser inteiramente segregadas e aos trabalhadores interditava-se o cultivo do conhecimento como apanágio da classe dominante.

Nesse sentido pode-se assimilar esse aspecto que Munford ressalta em sua crítica a Platão ao cenário de transformação do pensamento mítico ao racional, isto é, à emancipação social em relação aos valores tradicionais da economia agrícola. Sócrates poderia ser pensável na Jônia? Talvez não se seu exercício de pensamento for muito mais relacionado à sofística do que Platão teria se esforçado para fazer ver. Mas o que é propriamente platônico parece se erguer em oposição direta a tudo que está na base do pensamento retórico, conforme já examinamos anteriormente.

Nesse sentido Jaeger informa que no interior das classes nobiliárquicas desde o início do século V as novas condições sociais impuseram séria reflexão sobre o que se devia fazer do antigo ideal da Aretê, agora encontrando obstáculos intransponíveis. Na medida em que os desdobramentos dessa reflexão informaram de dentro o platonismo e de modo geral eclodiram, ou encontraram seu escoadouro mais favorável, justamente no desdobramento do quarto século, será algo de interesse observa-las mais detidamente.

Jaeger situa o desenvolvimento do pensamento oligárquico nas obras de Teógnis e Píndaro. Ambos poderiam se caracterizar como elementos de representação do mundo continental, dórico e agrícola, exaltando valores que se contrapõem simetricamente àqueles do mundo marítimo, jônico e comercial.

O livro de Teógnis pode assim ser analisado como contraponto aos Erga de Hesíodo pois pretende, muito inversamente a fundamentar qualquer ideal de igualdade entre os seres humanos, ensinar a formação dos nobres, “aqueles preceitos sagrados que até agora só oralmente foram transmitidos de geração em geração”, conforme Jaeger, que assinala a convergência do Eros, como fator de ligação pedagógica de mestre a pupilo, entre a poesia de Teógnis e o Banquete de Platão.

Efetivamente esse tipo de ligação erótica com os efebos era comum nos círculos da nobreza grega mais antiga, especialmente dórica, o que já não ocorria entre jônios e áticos. O Eros, em Píndaro e Platão, funciona como fator de associação por segregação do “resto”, ou seja, contra o sentimento do “comum”, instituindo-se como possibilidade de não se confundir com a massa.

A ênfase desse pensamento oligárquico se concentra na noção de “justa desigualdade”. A poesia de Teógnis se expressa contra o “demos”, isto é, o “povo”, creditando à luta de classes todo o problema social do tempo que ele pensa ser resolúvel apenas pela restauração do governo dos nobres pois sua ascendência deveria, por força da excelência dos antepassados, deuses ou heróis, garantir a superioridade de sua Aretê.

Mas o empobrecimento da nobreza de sangue era já algo notório e a concepção de Arete heróica mostrava-se incompatível com escassez de recursos uma vez que abarcava a magnificência e a magnanimidade. Assim para conservar a ética oligárquica Teógnis interioriza a antiga Aretê e equipara agora as noções de nobre e justo. Só o justo é nobre mas só o nobre saberia ser justo.

Sabia-se também que a nobreza havia se tornado minoria. O objetivo de Teógnis seria evitar que ela se solvesse, por assim dizer, adotando os mesmos valores do demos. A educação do que outrora havia sido a classe superior, torna-se então a única via singular do nobre. E se ele a pratica sem desvio torna-se chefe do “povo sem cabeça”, conforme a expressão do poeta.

Conforme afirma Jaeger, o ideal nobre “da conservação da raça foi principalmente cultivado por Sparta e pelos grandes educadores do Estado do século IV”. Isso porque, como observou ele, o ideal da Aretê heróica assim modulado no sentido da nobreza confrontada pela luta de classes, torna-se uma fé na aristocracia em geral, seja por nascimento, seja por outro modo como a filiação a um credo, a uma filosofia ou a certos princípios de conduta.

Quanto a Píndaro, a vinculação da poesia à exaltação do vencedor olímpico é correlato da glorificação da Aretê, a excelência sendo o dom daquele que vence. O aristocrata se torna símbolo da extensão do significado da Aretê: vencedor é igual a nobre e este é o que tem a virtude, como que por definição. Certo canto de Píndaro expressa o seu desprezo pela noção de “aprender” a virtude: “a glória só tem pleno valor quanto é inata”. Esta deve ser pensada, como algo não adquirido pois “quem só tem o que aprendeu é um homem obscuro e indeciso”. A aproximação com a questão socrático-platônico de invectiva à sofística é bastante evidenciada. Nessa concepção há um abismo entre a nobreza que é por nascimento, logo algo inato, a qualquer saber ou poder que se pode aprender, o que Píndaro considera fundamentado pela “verdade e razão”. Logo a extensão de nobre a vencedor abrangerá a própria noção do fazer artístico do poeta, concebido também como dom inato. O símbolo dessa “consciência artística” em Píndaro é a águia que ele opõe como imagem à massa simbolizada pelos corvos.

Baridon e Ellauri enfatizam o acirramento da luta de classes desde o final da Guerra do Peloponeso. Com efeito, durante a guerra há evidências no sentido de que os nobres atenienses se organizavam no sentido de apoiar Sparta contra o regime democrático de modo a partilhar a condução das coisas após o confronto. Se isso não chegou a se concretizar o limite da polis grega tal como assinalado por Munford determinou uma transição de modo que a cidade se encaminhou para uma reforma de índole burocrática e estetizante que se consolidou plenamente no helenismo. Mesmo onde a democracia foi conservada houve em geral institucionalização das práticas de controle e funcionamento urbano. Assim a participação efetiva do cidadão numa cidade ainda “in progress”, com imperfeições, se tornou progressivamente sem sentido numa polis muito mais organizada, limpa e racionalizada, mas patrocinada pelos impérios de que se tornou dependente.

A tendência oligárquica contava assim com possibilidades de expressão enquanto pensamento social, não tanto como possibilidade real de hegemonia política. Contudo, no século IV ainda havia espaço de confronto no interior da pólis, antes da conquista macedônica. Isso se reflete mais na obra de Platão, pois Aristóteles já se encontra no âmbito dessa consolidação do poder macedônico.

Baridon e Ellauri reportam o quadro social e político da Grécia do quarto século. Os grupos populares e nobiliárquicos se opunham de tal modo que a própria organização social se tornava menos importante do que a intolerância para com o antagonista. As lutas dentro das cidades se complementavam com as guerras entre elas, aumentando o número de desterritorializados políticos que se tornavam soldados pagos no interior de exércitos de que os cidadãos estabelecidos se recusavam a participar preferindo contribuir com o soldo desses “combatentes da fortuna”. A concentração da riqueza aumentou, porém, e com isso a escravidão se tornou cada vez mais utilizada. Na Atenas do século IV mais da metade da população era composta de escravos que ofereciam mão de obra com a qual os trabalhadores livres não podiam competir, tornando cada vez mais complexa a situação social e o abismo entre as classes.

Quanto ao exercício da sofística, observa-se o declínio, como se a filosofia se tornasse tanto mais consolidada, quanto mais concentrava na retórica o seu contraponto. Mas ocorre algo intrigante se acompanharmos a descrição de Munford da vida do cidadão livre ateniense, estendendo-a como fator implícito de exercício da sofística, com a obra de Jean François Lyotard, “O Pós – Moderno”, em que se pode apontar vários elos entre os movimentos sofísticos e a descrição das condições epistemológicas da atualidade.

Pois o limite que Munford localiza para aquela cidade de cidadãos que é a Atenas do século V ac. seria tanto a racionalidade estetizante das cidades imponentes características do helenismo quanto a burocratização institucionalizada das cidades dessa nossa contemporaneidade que ele considera “quase totalitária”. Assim, como é possível que aqui se tenha historialmente recuperado a possibilidade mesma do pensamento retórico sofístico?

Mas o desenvolvimento dessa questão depende de uma compreensão mais abrangente da realidade epistemológica da Grécia antiga. Pois o que está em jogo na obra de Lyotard é a complexidade daquilo que hoje se pode considerar sob a rubrica de “ciência” enquanto que na Hélade tratava-se de plasmar a definição do que se poderia considerar conhecimento válido, isto é, tratava-se de definir, de modo muito pioneiro, os critérios pelos quais se devia assegurar a noção mesma do que quer significar “validez”.

Nesse sentido creio que ocorre também o limite do modelo platônico dos três tipos clássicos como definidores do quadro epistêmico antigo, do mesmo modo que alguns outros pressupostos sobre a filososfia “pré-socrática”, incluindo a sofística. Assim depois desse panorama introdutório da transição ao helenismo devemos centrar o exame desse quadro, tentando construir uma visibilidade de conjunto sobre o desenvolvimento dos conceitos de conhecimento e filosofia desde os milesianos até Aristóteles. O que se viabiliza então é a compreensão, tanto do sentido dessa transição quanto daquilo em que ela afeta os processos mesmos descritos por Lyotard, isto é, a problemática do saber atual em que termos importantes oriundos desse contexto antigo novamente se propõem.


A Metacrítica do Relato

 

a) Transformação da epistemologia

 

O esquema mais trivial sobre as origens, tal como amplamente praticado nos manuais de história da filosofia, apresenta uma progressão guiada pelo interesse especulativo, isto é, algo conforme o objeto. A física pré-socrática, a exigência do conceito e o problema do conhecimento com Sócrates e Platão, a filosofia como sistema onto-logico em Aristóteles.

Esse modo de ver está correto quanto à plenitude em Aristóteles. Mas o pensamento pré-socrático espera alguma compreensão mais adequada quanto ao seu exercício. Tem sido mostrado que Nietszche inaugurou e Heidegger desenvolveu, fundamentando a necessidade, a era dessa nova compreensão. Contudo isso se fez mais como a fundamentação de uma exigência do pensar, de uma tarefa que se impôs como necessária ao pensamento, não de modo extrínsico, apenas acrescentado, e sim como o reconhecimento daquilo que, devido aos caminhos que empreendeu e do modo como as coisas são, lhe compete, se lhe tornou devido.

A observação não se endereça ao modo de uma censura. Principalmente quanto a Heidegger, creio que sua contribuição é inestimável na senda dessa exigência tanto quanto no lançar aí de marcos doravante insubstituíveis. As observações de longo alcance de Nietzsche não são menos importantes ainda que de outro modo. Nietzsche teria contribuído assim menos pela minúcia ou exatidão dessa ou daquela afirmação do que pela delimitação ampla de um novo rumo destinado ao olhar, quase se poderia dizer que ele imprimiu vigorosamente os lineamentos de um novo método.

Agora as forças que compõem o espírito grego recebem o olhar de sua genealogia, a “história da filosofia” convertendo-se, enquanto objeto, de uma aquisição “universal” a uma criação bastante localizada, incompreensível na exterioridade de suas marcas de historicidade sendo a própria história algo outro do que a progressão canônica de fatos determinados para deixar entrever o intempestivo do eterno presente do espírito – mais aquilo que dele, para ser espírito, precisamente se furta, o Aion.

A observação se endereça como constatação de que desde Nietzsche e Heidegger são os meios que mais se tornam necessários aqui. Meios, no plural, significando um complexo de conceitos e práticas que efetivamente são possíveis por e tornam possível um meio, no singular. Podemos utilizar o termo “tempo” em relação a esse singular. Que utilizaríamos para o plural? Os meios permanecem na inerência do tempo.

Como filósofos Nietzsche e Heidegger criaram conceitos, inventaram meios, vias de acesso a esse novo olhar. Mas esses caminhos, essas trilhas, só poderiam conduzir até uma distância determinada a percorrer. Hoje a historicidade já avançou um pouco mais, poder-se-ia afirmar de modo algo metafórico. O tempo presentificou novas relações, as forças se transformaram devido a novos cenários de configuração. A nossa tarefa abrange agora pavimentar para mais longe as vias de acesso, construir meios novos para ver de modo ainda mais aproximado.

Entre essas novas relações a preocupação com a ciência e o conhecimento desponta como uma das mais favoráveia à consecução de meios no rumo da condução dessa tarefa. Mais especialmente a preocupação que abrange não apenas o que se conquistou, o conteúdo, nem só como se remodelaram os métodos, isto é, a forma. Trata-se do pensamento que visa esses fatores nas suas relações de poder, que lenta e pacientemente procura recuperar as forças que aí se expressam e atuam como forças, logo, na abrangência do político e do social.

Nesse âmbito poderiam ser lembrados os nomes de Foucault, Gadamer e Lyotard. A ênfase que orienta esses trabalhos não poderia ser caracterizada como “epistemologia” se por esse rótulo insistimos em reservar algo como o objeto intitulado o “problema do conhecimento” ou a história dos dados adquiridos, ou mesmo os processos de pensamento que se podem depreender estar envolvidos nas aquisições, isto é, um amálgama de ambos, como se pode encontrar em Molles e Bachelard.

A ênfase, naqueles autores – que não se hesitou em reunir sob a rotulação de pós-moderno – está nas relações de poder que se estabelecem entre ciência e sociedade sendo que é só por um viés já “epistemologicamente” orientado que esses dois termos puderam se tornar tão bem separados como se a ciência não fosse já e desde sempre um envolvimento social, algo que ocorre dentro, inseparável, da sociedade, isto é, não “como água dentro de um copo” mas como composições de forças de um mesmo corpo.

Assim se poderia talvez com propriedade falar de “transformação da epistemologia”. Se a linguagem é aqui, também, constitutiva isto se relaciona com a orientação genealógica que é originariamente Nietzsche – Heideggeriana de modo que não se torna demasiado extravagante buscar nesse campo os meios novos desejados na condução de nossa tarefa quanto ao pensamento grego.

O corte básico que Lyotard instituiu incide inicialmente entre os conceitos de ciência e saber. A ciência é assim um subconjunto do conhecimento, este sendo “o conjunto dos enunciados que denotam ou descrevem objetos”. Excluindo-se todos os outros enunciados, aqueles que pertencem ao conhecimento são igualmente suscetíveis de ser declarados falsos ou verdadeiros. Lyotard aponta como específicos do conceito de ciência, na abrangência do conhecimento, o fato de seus objetos serem acessíveis recursivamente, isto é, no modo de observações explícitas, e seus enunciados serem passíveis de decisão, quanto à pertinência, pelos especialistas (experts).

O saber extrapola a denotação. Abrange as performances do corpo (saber-fazer, saber-ouvir, saber-viver), a experiência em geral da pessoa que não se reduz aos processos cognitivos, mas também se relaciona com o gosto (saber avaliar) e com o costume.

A relação com o costume permite estabelecer um paralelismo entre ciência e saber estabelecendo-se conforme o critério da pertinência. A avaliação do que é ou não pertinente, no caso do saber, é uma competência do interlocutor como sujeito de cultura enquanto que no caso da ciência é o especialista, o expert, o cientista.

Esse corte básico se estende assim na direção de dois horizontes pragmáticos. Mas ao invés de estabelecer de saída uma oposição entre pensamento primitivo ou selvagem e civilizado ou científico observa-se uma identidade formal e mesmo uma certa superioridade do saber, relacionado aos costumes, sobre a “dispersão das competências” como traço geral da atualidade. O que se estabelece, ao invés disso, é a observação das pragmáticas do saber e da ciência.

A ciência evoluiu no âmbito das pragmáticas de ensino e pesquisa. Quanto ao saber tradicional, nele ocorre a preeminência da pragmática do relato, definindo-se como uma pragmática do saber narrativo. Lyotard estende as descrições dessas duas vias, em que o traço principal de oposição se relaciona aos processos de legitimação.

A forma narrativa é o que confere legitimação ao saber, os mitos e relatos que se constituem como a cultura de um povo. Mas o ensino e a pesquisa só podem legitimar a ciência através do desempenho que se relacina com os processoa de argumentação e administração de provas. A metalíngua que satisfaz a axiomática da linguagem científica foi tradicionalmente identificada como lógica, mas hoje substituiu-se a lógica por jogos de linguagem flexíveis que ampliam a idéia da razão de modo que o que era paralogismo ou paradoxo na ciência clássico-moderna é agora algo que pode encontrar em algum sistema formal e axiomático uma força de convicção obtendo assentimento na comunidade de especialistas.

Lyotard mostra como a pragmática do desempenho científico evoluiu de modo que na atualidade a administração da prova sai da esfera da pura argumentação (saber a verdade) para entrar na abrangência da competição nos meios de financiamento (aumentar o poder).

Mas o que intercepta o panorama do pensamento antigo é a possível captação dessas aquisições conceituais na compreensão do que realmente se desenvolveu na Grécia. Lyotard equaciona explicitamente o conceito pré-socrático de “opinião” e o modo de legitimação narrativo, não científico, dos enunciados. Nesse ponto ele faz referência ao comentário de Jean Beaufret sobre o poema de Parmênides. Assim torna-se oportuno introduzir a apreciação da questão pré-socrática a partir dessa perspectiva.

 

 

b) A Espistemologia Não – Platônica

 

Para introduzir esses temas político-epistemológicos já no interior do pensamento pré-socrático considero oportuna a reunião de três testemunhos: o fragmento 34 de Xenófanes de Colofão; vários fragmentos de Heráclito notadamente 2, 41, 46, 70, 72, 89, 108 e 112; e quanto ao poema de Parmênides especialmente o fragmento 1, versos 33 e 32 e o fragmento 8, versos 33 a 40.

O testemunho de Xenófanes é o mais antigo. Ele assim se pronuncia:

Ninguém jamais soube algo claro, nem jamais o saberá

Do que eu digo, tanto dos deuses como do universo,

Pois, mesmo que fosse bem sucedido e dissesse o mais perfeito

Ele mesmo não saberia, contudo; pois a tudo se cola a opinião.”

Hegel confronta duas possíveis vias de interpretação do trecho citado. Sexto Empírico expressa uma delas de modo que a ênfase se relaciona à construção “ a tudo” em que se cola a opinião. Assim Xenófanes teria adotado a opinião como critério, não a certeza.

Já o próprio Hegel vê, inversamente, que a ênfase deve ser relacionada a “mesmo que” e a “pois” sendo que essa conjunção não consta em todas as traduções. A interpretação resultante abarca portanto a explícita constatação, em Xenófanes, de uma oposição entre “episteme”, conhecimento, e “doxa”, o “saber da opinião”, conforme a expressão de Hegel, o critério pertencendo à episteme.

Concordo, quanto a isso, com Hegel. Mas ele prossegue identificando a visão de Xenófanes dessa episteme como algo capaz de suprassumir “tudo que é determinado”. A epistemê seria um conhecimento teo-lógico, pois se relaciona assim, em Xenófanes, apenas “à consciência do divino” enquanto “pura dialética”. Já isso me parece bastante duvidoso.

No entanto, no desenvolvimento das considerações atinentes a esse problema do critério, torna-se oportuno examinar agora o que ocorre em Heráclito e Parmênides. Utilizo como referência de base o texto dos Pensadores, assim como a tradução do fragmento de Xenófanes.

O fragmento 2 de Heráclito é particularmente conveniente pois define expressamente o Logos:

Por isso é preciso seguir o-que-é-com, (isto é, o comum; pois o comum é –que-é-com). Mas, o logos sendo o-que-é-com, vivem os homens como se tivessem uma inteligência particular”.

Também se traduz “comum” no sentido de “imparcial”. A introdução do parágrafo pode ser lida “por isso é preciso aderir ao que é comum. Pois o comum é imparcial”. O jogo de palavras de Heráclito é exemplar pois tratando-se de uma definição do “Logos”, isto é, tratando-se da questão da faculdade de conhecer, ele utiliza o termo xynós, que se toma habitualmente como sinônimo de koinós (comum), derivando provavelmente de xyn nói “o que compreende”.

O que compreende é tanto o que abrange quanto o que é abrangido, na frase de Heráclito. Não só o Logos compreende abrangendo nele o compreendido mas o Logos mesmo é a comunidade do abrangico, aquilo mesmo que se compreendeu. O Logos é o que supera a oposição ativo/passivo, sendo ele a própria abrangência.

Comum também é o que pertence a todos. Os homens porém não se comportam como a sua inclusão no todo, enquanto homens, deveria fazer supor. Quando o termo “os homens” surge na f rase, com ele surge também o “particular”. Mas a frase fica somente nisso e sua suspensão parece introduzir um silêncio, fazer ver um vazio por onde perpassa a opinião sem aderir propriamente a esse fundo tornado visível.

De onde vem que “os homens”, que supõem-se em todo lugar como sujeitos do Logos, vivem agora como se tivessem uma inteligência, um Logos particular? Como foi que o Logos se particularizou?

A cisão da essência parece assim ter surgido na introdução, não na conclusão da filosofia, entre os gregos, se Logos quer ter algo a ver com essência. Há cisão no logos. Ele que é o comum é vivido como o particular. A cisão, o vazio, não se deixa superar de nenhum modo no interior da sentença. Ela não deixa, porém, nada no exterior. O vazio é mostrado pelo estar suspenso da sentença.

Assim somos impelidos a procurar ainda, e algo incomodados por essa visão do vazio que atordoa, buscamos outras sentenças, como se ansiando por algo mais dessas palavras enigmáticas, obscuras. As palavras de Heráclito nos envolveram já, de todo.

Os fragmentos posteriores que selecionei podem se reunir em dois sentidos. 41,46, 80 e 112 se relacionam ao Logos; 70,71,72 e 89, com os homens. Convem iniciar a procura pelo fragmento 80, pois ele repete o termo xynón:

É´ preciso saber que o combate é o-que-é-com, e que justiça (é) discórdia e que todas (as coisas) vem a ser segundo discórdia e necessidade”.

Somos assim agora melhor informados sobre o Logos. O comum é o combate! Mas por que se surpreender ? Não sabemos todos que Heráclito falava da tensão dos opostos, harmonia do arco e da lira, de pólemos, o conflito, como o pai de todas as coisas (frg. 53)?

O que efetivamente surpreende é que se o combate é a origem de tudo e o Logos é combate, então é o Logos a origem de tudo. O “tudo” se insinua agora, porém, entre o homem e o Logos. Já o fragmento 41 expressa: “pois uma só é a (coisa) sábia, possuir o conhecimento que tudo dirige através de tudo”.

“Possuir o conhecimento” também se traduz “conhecer o desígnio”. Mas assim do vazio à mais completa surpresa da revelação viemos a nos encontrar em plena ambivalência. A frase se conserva na referência a uma só coisa, essa que é sábia. Mas essa coisa se define: possuir o conhecimento. Até aí tudo bastante simples, uma referência dotada da maior clareza, pois pode ser declinada como um predicativo: a coisa sábia é possuir o conhecimento. Tão manifesta é a atribuição que sua enunciação poderia ser nomeada tautologia. No entanto o complemento muda, ele revira, propriamente, essa conclusão. Pois o complemento se afirma do conhecimento. Mas como se afirma?

Ele diz que o conhecimento que se deve possuir é aquele, e só aquele, que a tudo conduz através de tudo? Ou ele afirma que o conhecimento é aquilo mesmo que guia a tudo através de tudo – e que esse é o verdadeiro conhecimento, ou seja, conhecer a natureza do conhecimento?

A ambivalência não poderia se expressar de modo mais conveniente, pois ela se endereça, por assim dizer, por meio do termo mais indeterminado, o termo “tudo”. Mas aqui ela parece se instalar de algum modo desafiando-se a si mesma, pois em todo caso resta algo a afirmar, ou deduzir ou compreender; tudo possui um desígnio que o dirige. Não é assim? Mas não seria uma ilusão?

Mais profundamente se poderia pensar: não, ela não se instala aí, ela apenas se mascara por meio da indeterminação. Ambivalência porém não se pode identificar como indeterminação. Sobretudo, eis o que nos confidencia a frase.

Indeterminação é ainda algo como o Logos: abrange todas as coisas. Mas de modo muito inverso ao Logos, indeterminação não permite distinguir a cada uma. A abrangência do Logos, lembramos, não se dá apenas como o abranger, o ativo, mas também como o abrangido, o passivo. Sua neutralidade, sendo o que é comum entre um e outro, permite recuperar o que cada um é, sendo “com”. O abranger do indeterminado é só atividade, um eterno justapor, ou, conservando a expressão de Heidegger, amontoar.

O sujeito da ambivalência não é o tudo, é aquele que deve conhecer. O desígnio, o conhecimento, é o que conduz o sábio em tudo através de tudo ou é o que o sábio deve conhecer como pertencendo ao conhecimento enquanto este se exerce sobre tudo através de tudo. Mas há movimento nesse verbo, dirigir, conduzir, o ser guiado do sábio é caminho pelo meio das coisas, entre todas as coisas sendo apenas esse verbo a coisa que se atribui ao sábio enquanto ele é sábio.

Entre todas as coisas amontoadas o Logos pode estabelecer uma comunidade dotando a cada uma do seu ser o que é com todas as outras. Igualdade e diferença se inter-relacionam na unidade do Logos mas agora uma via se estendeu por sobre o abismo, de algum modo endereçando e unindo o Logos ao homem como a efetividade de possuir, ou ser guiado por, conhecimento.

A ambivalência está precisamente nesse “entre” a passividade de se deixar conduzir e guiar e a atividade de possuir. Mas se a via se estende sobre o abismo a ambivalência expressa na frase não se retira pois se o Logos supera a seu modo a oposição do ativo e do passivo na abrangência, o homem que o recebe continua na contingência do possuir e do ser guiado através.

A ambivalência conserva o fato de que nada nos foi esclarecido sobre a opinião, que o fragmento 70 define como “jogos de crianças”. Pois se “é preciso lembrar-se também do que esquece por onde passa o caminho”, conforme o fragmento seguinte (71), não seria o caso daquele que se conservou na sua “inteligência particular”?

A sequência inclui o fragmento 72:

Do Logos com que mais constantemente convivem, deste divergem; e (as coisas) que encontram cada dia, estas lhes aparecem estranhas”.

Do vazio à revelação, desta à ambivalência que se instala finalmente na atribuição do homem enquanto sábio, nos confrontamos agora com o contraste entre o sábio que se deixa guiar possuindo o Logos e aqueles que dele, do Logos, divergem.

Mas desse modo parece que fizemos um círculo já que o contraste era aquilo mesmo que instaurava o vazio. Se o que assim se instaurava se propunha entre o imparcial e a parcialidade isso só se instituía como vazio entre o Logos comum e a inteligência particular, os homens dessa inteligência apresentando-se como enigma, figura do hiato impresso na compreensão da frase. Agora o contraste se inseriu de outro modo entre a coisa única sábia e o tudo, isto é, todas as coisas que por ela se deixam conduzir através de tudo, entre a episteme e a opinião, entre o sábio e o vulgar.

A unidade do que é sábio é ressaltada no fragmento 108:

De quantos ouvi dizer nenhum chega a esse ponto de conhecer que a (coisa) sábia é separada de todas”.

Quanto ao que não é sábio, ora se atribui à dispersão das coisas indeterminadas, ora à puerilidade, ora à presunção identificada a uma epilepsia, ora, o que é recorrente entre os fragmentos, à opinião no sentido da parcialidade.

O contraste parece se instituir entre o estático, o que se detém, e o movimento o que se pode conduzir através. Portanto entre o caminho e esquecimento dele, a parada. A culminância das figuras do contraste se expressa no fragmento 89, entre os adormecidos e os despertos. Enquanto que “para os despertos há um mundo comum, os que dormem se reviram cada um sobre o seu mundo próprio”.

Há alguns pontos de convergência entre esssa leitura de Heráclito e aquilo que encontramos em Parmênides.

O que se estende do vazio à revelação, da ambivalência ao contraste, em Heráclito, é uma concepção de conhecimento bastante conexa à noção axial do devir incessante. O fogo pelo qual “se trocam todas (as coisas)”, assim como mercadorias por ouro e ouro por mercadorias, sugere a imagem de um processo em constante atuação. O Logos é combate, ser sábio é poder ser conduzido por um caminho, os que dormem ou esquecem parecem não sair do lugar, mas essas metáforas parecem não se aplicar no sentido de um efetivo andar e sim no sentido do desenvolvimento do conceito, do caminho do pensamento. Em todo caso trata-se de um mundo comum, “o mesmo de todos os seres” que “nenhum deus, nenhum homem” fez, mas que é e será “fogo sempre vivo”.

O poema de Parmênides começa efetivamente como o deixar-se guiar do sábio pelo caminho. Este conduz às portas que a justiça abre. O caminho continua ate o acolhimento, o encontro com a deusa ou daímon. Mas então algo surpreendente ocorre. Tão surpreendente que até hoje a controvérsia subsiste sobre o seu sentido.

Pois ao invés de descerrarem-se, sem mais, as palavras da verdade, os versos 31 e 32 do fragmento 1 testemunham:

No entanto também isto aprenderás, como as aparências deviam validamente ser, tudo por tudo atravessando”.

Vemos desse modo que assim como em Heráclito, em Parmênides também há lugar para a caracterização da opinião. Em Heráclito essa caracterização se encontra aqui e ali, já em Parmênides o discurso sobre a opinião se anuncia como tal a partir do verso 50 do fragmento 8. Mas a questão é: porque se ocupar da opinião justamente aí onde se enuncia estar no caminho mesmo da verdade?

A expressão de Parmênides “ como as aparências deviam validamente ser, tudo por tudo atravessando” parece uma resposta a ressoar com as palavras de Xenófanes : “ pois a opinião em tudo se cola”. Mas será que esses versos são mesmo para ser lidos assim? Não se poderia ao invés, aproxima-los de Heráclito pelo uso do termo “tudo por tudo” de modo que é a procura ou o conhecimento que deve conduzir a tudo através de tudo?

Jean Beaufret se estende longamente sobre esse problema. Efetivamente assim traduziu do grego Diels, enquanto Wilamowitz se inclinará por ver na multiplicidade da aparência “uma presença que merece ser recebida” atravessando todas as coisas. Na consecução de seu estudo Beaufret citará ainda Karl Reinhardt como tendo assimilado mais corretamente o sentido dos versos de Parmênides, como afirmou também Heidegger.

Pois se para Diels a tradução sugere que a opinião deve ser assim exposta para ser desacreditada por uma pesquisa todo penetrante, isso ocorre porque a doxa pertence ao rival, logo deve ser apontada, negada, superada. Já Wilamowitz pensa que a doxa merece ser recebida a título de hipótese. Ela abarca tudo porque na qualidade de hipótese é inteiramente verossímil. Verossímil, mas não verdadeiro. Reinhardt contudo inclina-se por ver em Parmênides a necessidade de pensar a pressuposição recíproca de doxa e episteme.

Ora essa pressuposição é aquilo mesmo que Beaufret aceita como interior ao pensamento de Parmênides. Contudo a conclusão de Reinhardt, a partir daí, se torna francamente oposta aos propósitos de Beaufret.

Reinhardt sugere que a necessidade de pensar a doxa é aquela de pensar a queda, uma espécie de “petição de platonismo”, enquanto Beufret inicia sua reflexão pela contraposição entre a pluralidade dos dokounta, as aparências, e a unidade do éon, o ser, mas de modo que ambos os termos contrapostos se encontram no único e mesmo mundo dos homens. É inevitável aqui lembrar Heráclito que fazia o mesmo percurso, como vimos.

Há assim uma unidade do conhecer e uma pluralidade de opiniões. Essa unidade Heráclito nomeia conhecimento ou desígnio (Logos), Parmênides, Ser (Éon). Mas vimos que Logos, o-que-é-com, é combate e origem de todas as coisas, do mesmo modo que em parmênides o ser “ente a ente adere”.

Chega-se ao impasse que a estase do poema enuncia. Pois a opinião deve de algum modo validamente ser, em Parmênides, sendo ainda em Heráclito a estranheza das coisas que se encontra a cada dia quando há divergência do Logos. Mas o ser adere ente a ente assim como o desígnio que conduz tudo através de tudo, O que é então que faz a cisão do Logos, a indeterminação da opinião? A questão se encaminha para recolhimento. As coisas tal como se manifestam não podem ser recolhidas pois seu modo de manifestar, de aparecer, é o múltiplo, a multidão dos entes. Elas só podem ser justapostas, “tudo” é um amontoado, não uma reunião. Mas se a questão inaugura recolhimento é porque o Logos as reúne naquilo que elas são, o termo “todas” agora unificando-as em seu ser.

O ser não nomeado em cada nomeação do ente é a unidade ou via única que se estende, como assinalou Beaufret, como lugar decisivo onde todo caminho se reparte em três, ser, não-ser e aparência. Pois, que é comum a todos os entes senão que eles são, conforme só pode apreende-lo o Logos? Assim o “fazer segundo a natureza” da sabedoria, é: escutando, como afirma Heráclito (frg. 112). Escutando o Logos, o pensar sensato, o dizer verídico. A oposição dos planos funciona, tanto fragmentariamente em Heráclito quanto pela divisão das partes em Parmênides, como uma transposição a um lugar “outro”, isto é, não meramente outro lugar, mas a um plano de imanência onde há pensamento e pensar. Aqui o pensamento encontra o impensável, mas também se reencontra.

O que é impensável? Considerando o engano da visão, a epilepsia da presunção, que é essa presunção? A “doença sagrada” como se sabe, faz saltar, tremer, revirar a vista. Ora, qual é a pressuposição de toda opinião? É que ela é a própria coisa, como se saltasse fora de si, como se pudesse ultrapassar a condição de ter olhos e de pensar. Mas o conhecimento detecta que isso precisamente é a opinião. Crer nas coisas como se particularmente se as vivenciasse nelas mesmas assim como particularmente se as experimenta em nós. Essa entidade-em-si é porém impensável. O ser-em-si, não. O ser é o mesmo que o pensar.

Assim o pensamento se reencontra naquilo que ele pensa. O fragmento 3 do poema “pois o mesmo é pensar e ser” se complementa com os versos 34 a 36 do fragmento 8:

O mesmo é pensar e em vista de que é pensamento. Pois não sem o que é, no qual é revelado em palavra, acharás o pensar”.

Heidegger traduz: “o mesmo é a percepção e aquilo em virtude do qual a percepção se dá”. Aquilo “em virtude do qual” é o ser. Mas aquilo a que a percepção pertence é a physis, o vigor que impera e que impera igualmente na percepção. As palavras de Heráclito ressoam com as de Parmênides pois a Physis heraclítica se enunciou como o Hén (frg. 50), a unidade. Kant enunciu no sistema das categorias a fundamentação originária da percepção na unidade. O que se funda assim como transcendental é o que manifesta ou pode manifestar algo como Natureza.

Mas isso na medida em que a categoria de unidade se funda abstratamente como “razão” ou “forma pura”. Já o pensamento matinal dos gregos, em Heidegger, evolui no elemento do Logos que não se define formalmente e sim existencialmente. A propósito dessa observação podemos retomar o fragmento 108 de Heráclito conforme a leitura crítica de Heidegger, Istoé, conforme a qual a tradução habitual “de todas as palavras que ouvi, nenhuma chegou a reconhecer que o que é sábio é separado de todas as coisas”, está errada.

Sobre as palavras sofón e kekorisménon incide a crítica heideggeriada pois não se traduziria respectivamente por “sábio” ou (a coisa) “sábia”, nem de “separado”, mas do Logos como aquilo que é a saber e de khorizéin como derivação de he khóra – o território, o espaço ou o país natal.

A assimilação do conceito de espaço heideggeriano com o pensamento pré-socrático autêntico se encaminha no sentido de desfazer o prejulgamento moderno, derivado do platonismo, pelo qual o espaço se geometrizou como pura extensão. A Khora, na visão grega mais originária, é o espaço que acolhe, que recolhe, espaço concreto e qualificado ao invés da noção abstrata, físico-matemática. É o “lugar”, isto é, o aí do ser, nunca indiferente ao que nele é. O Logos sendo o que recolhe na unidade não se poderia assimilar a uma categoria abstrata ou simplesmente lógica e sim como lugar do des-velamento onde há verdade ec-stática, isto é, que só se clareia temporalizando-se.

Mas precisamente este vínculo do ser com a verdade que se apreende como o resíduo da identidade do pensar ao ser se desdobra, a meu ver, no pensamento pré-socrático, tanto no sentido do fundamento, quanto no sentido de critério.

Quanto ao fundamento, termo aqui apenas aproximado para uma noção de “como isso se dá”, as análises de Heidegger são concludentes. É o Logos que reúne o espaço do ser pelo qual há fenômeno, natureza, vir a ser dos entes como aquilo que eles são. Esse seria o conhecimento fundamental, ontológico.

Mas quanto ao critério considero-o não menos importante. Pois pode-se compreender os pré-socráticos como o movimento que, de modo pioneiro, empreendeu a crítica da legitimação pelo relato, que tornou expressa a necessidade de uma nova legitimação pavimentando a via do conhecimento científico.

Não se deve minimizar o aspecto de crítica à tradição de adesão ao discurso do mito, que se encontra nos fragmentos de Xenófanes e Heráclito, por exemplo. Mas não se pode antecipar assim que isso, para eles, significava “ciência” tal como se tornou viável a partir da instituição da metafísica ocidental. Nesse início há apenas o projeto de um conhecimento separado do saber do mito, da opinião.

À falta de um método sistematizado, ele mesmo já desenvolvendo-se no âmbito da metafísica instituída, não se pode contudo ignorar o papel da experiência nesse processo pioneiro de ruptura com o saber. O quadro epistêmico desde a transição do arcaico, na Grécia, até o apogeu clássico, isto é, abrangendo pré-socráticos e sofistas, parece não deixar dúvidas quanto a isso que Sagan ressaltou em sua análise das origens da ciência. As teorias cosmológicas não esgotam de modo algum a produção de conhecimentos que abrangem astronomia, matemática, geografia, física, medicina. A expressão de Xenófanes parece-me particularmente destinada a registrar a mudança no regime do enunciado.

O saber narrativo tradicional, consensual, legitimado pelos costumes, não se põe em questão, isto é, não há aí lugar para o problema da validade. Uma vez que se configurou sob a forma do relato, obtendo o consendo da veiculação, da repetição através dos processos trdicionais de divulgação como mito ou história sancionada como tal, ele se institui como verdade, isto é, como objeto do saber, objeto no sentido de aquisição de uma peça numa coleção de peças reunidas pelo mesmo princípio. Ainda que fosse verdadeiro o conteúdo, no sentido de que se pudesse comprovar, não haveria como estabelecer essa sua verdade pois o requisito da coleção é ser um objeto contado, um relato transmitido e aceito pelos ouvintes, não ser algo que se tenha que demonstrar fora desse domínio ritual.

A opinião é uma crença que se quer manter como crença, excluindo a prova. É verdade porque está escrito ou registrado na memória coletiva, não o inverso. Mas em todos aquelas esferas de conhecimento especializado resulta uma exigência de outro nível. Assim os dois domínios, que Lyotard apontou como pertencendo à pragmática do conhecimento enquanto ciência, já se podem encontrar entre os pré-socráticos de algum modo: desenvolvimento da argumentação, o ágon, e a administração da prova, como a confirmação de previsões na observação astronômica, a eficiência de instrumentos cuja invenção depende da aplicação de princípios ou o reconhecimento de sintomas e eventualmente a cura no âmbito terapêutico.

O Logos é combate, o ágon pertence como lugar ao Logos. Se a sofística depende da Atenas democrática e esta não se desenvolve do mesmo modo que as pequenas polis que já haviam adotado o mesmo regime é porque somente aí a democracia se incorporou como ideal do mundo inteiro, isto é, pan-helênico. A questão política torna o ágon central pois o consenso não se estabelece entre iguais sem que essa igualdade seja a reunião do singular. Na pequena cidade democrática a cidadania é um fenômeno local, ela não exclui o elemento apátrida de dentro, o escravo, o estrangeiro, mas do exterior, do outro demos.

Em Atenas a comunidade de cidadãos se estende como o mundo político, isto é, originado pelo Logos, fundado pelo direito não pelo acesso narrativo de um mesmo princípio mítico tradicional. A tensão entre lei e costume, fundamentação jurídica e fundamentação mítica ressoa exemplarmente na “Antígona” e sua exigência de cumprimento da regra do costume que esbarra na instituição legal do Estado.

Entre os pré-socráticos o critério e sua exigência já haviam lançado a ruptura com o saber narrativo. Na sofística essa ruptura se estatui, isto é, se torna princípio ético do Estado democrático ateniense. Contudo esse conhecimento resultante não se parece com isso que denominamos ciência. Heidegger desenvolveu longamente as bases do desacorda de visões, a metafísica e a originária. À idéia contrapõe-se a physis, à Khora platônica análoga à extensão cartesiana opõe-se o lugar qualificado da existência. De modo geral se pode constatar que a operação metafísico-platônica é a separação do elemento racional, do Logos, como incompatível com o aí do Ser.

Através dessa separação fundamental a verdade se apresenta como relação extrínsica de adequação entre as palavreas e os estados de coisas. Mas se o antagonismo de Platão se endereça aos sofistas de modo tão profundo que a maior parte de sua obra os constitui como interlocutores polêmicos indispensáveis, seria oportuno rever agora as relações entre sofistas e filósofos pré-socráticos. Que imagem desse conhecimento novo, que não se quer mais confundir com o saber, transita entre um e outro desses movimentos?

Anteriormente observei uma certa continuidade de ambientação entre o século VI pré-socrático e o século IV platônico. Essa convergência já se recupera, por exemplo, na descrição de Jaeger, através da retomada da ofensiva oligárquica. Isso é compreensível pois lá tratava-se de tentar impedir que a democracia se estabelecesse e depois tratava-se de tentar recuperar o espaço ambivalente de sua crise. Em meio a esses dois momentos o século V assemelha-se a um “plateau”, uma realidade singular que constituiu uma possibilidade completamente sem paralelo na história antiga. Mas agora trata-se de penetrar nesse espaço livre do plateau, observando o relevo e os processos reconstituíveis de suas estratificações, compor suas linhas, detectar as descontinuidades, fugas e rupturas.

Nesse sentido algo proveitoso seria ler os fragmentos sofísticos à luz dos fragmentos pré-socráticos como um grande corpo de escritos não – platônico. A recusa do termo pré-platônico relaciona-se ao fato de que esse corpo incluiria muito de pós-platonismo, como a segunda sofística, por exemplo. Mas a análise seria muito extensa. Aqui observarei a convergência de três textos. A frase “subjetivo-relativista” de Protágoras sobre o homem-metron, o tratado do não-ser de Górgias e a teoria dos nomes de Crátilo.

Seria bastante óbvio opor a formulação protagórica pela qual aquilo que é para cada um é assim como é para ele, com os fragmentos de Heráclito que criticam os dormentes que se inclinam cada um para o seu mundo particular. Não obstante a facilidade dessa solução, penso que há aí a mesma visão do Logos. Trata-se em Protágoras não de estatuir quanto ao fundamento ou mesmo quanto ao critério mas quanto ao que do fundamento se desdobra enquanto realidade perceptiva.

Assim essas formulações de Heráclito permitem compreender a physis na unidade do Logos, isto é, a natureza na abrangência do ser. Mas a partir daí a formulação de Parmênides, que vimos não ser oposta á de Heráclito, incide: “o mesmo é pensar e em vista de que é pensamento”. Jean Beaufret assinalou o sentido da questão que a frase enuncia. A relação de abertura até o objeto que se instaura na pré-compreensão que é a reunião do Ser pelo Logos. Intencionalidade, poder-se-ia utilizar o termo, ou o Bezienhung auf kantiano. Em todo caso trata-se daquilo que é para – aquilo que não se pode de cada um refutar ou demonstrar que seja de qualquer outro modo. Conserva-se o pensamento, em Protágoras como em Parmênides, no âmbito do desvelamento.

Mas conserva-se também o pensamento no mesmo âmbito em Górgias. Quanto a isso parece-me o mais oportuno o exame da “ Tese de Kant Sobre o Ser”, de Heidegger. No domínio do pensamento kantiano já está em pleno apogeu a metafísica. A análise de Heidegger mostra que os usos do ser já se desdobraram: há o lógico, pelo qual o ser se reduziu à cópula, a posição de sujeito e predicado, sua ligação. Há o existencial, que se pode apreender no sentido da “essência unificante-desvelante” do Logos, e há o transcendental que em Kant se designa como puras formas vazias, de tempo e espaço, e de que derivam ontologicamente as modalidades de ser-possível, ser-atual, ser-necessário.

A nota introdutória de E. Stein nos Pensadores já comenta que na análise dos três sentidos do ser a que o texto heideggeriano procede reside uma intenção de mostrar a impossibilidade da ontologia pois “não se dispõe de um conceito universal de ser”. Esses três sentidos, Stein rotula como existência, ser da predicação e ser da identidade.

O que Heidegger enuncia é que a reflexão, que elucida o caráter de ser posto do objeto (posição), e a reflexão da reflexão que se dirige ao próprio modo de pôr do pensamento, se designam respectivamente como horizonte e organon da interpretação do ser dos entes. A ambig|uidade permanece entre ser e pensar. Mas se a esse caráter da objetividade corresponde o horizonte do entendimento pode-se propor o ser em outro sentido, isto é, precisamente naquele que pertence ao pensamento originário dos gregos.

Agora propõem-se o Ser como a “presença que se ilumina e demora” daquilo que é sempre como é mas não desde o início como o que tem “caráter de ser-posto na posição pelo entendimento”. Heidegger utiliza então a expressão: “Ser não pode ser. Se fosse (ser) não mais permaneceria ser, mas seria um ente”. Nada poderia ser mais evocativo do tratado de Górgias.

Pode-se notar que a expressão joga com os múltiplos sentidos, já observados, da palavra ser. Pelo trecho em que consta pode-se deduzir que o que afirma é que o ser enquanto existência não pode ser o ser predicativo, isto é, não pode ser dado como constatação qualquer de um ente. Esse é o alcance da cisão operada pela progressão das negações de Górgias. Se algo fose não poderia ser pensado e se pudesse ser pensado não poderia ser dito, portanto nada se poderia afirmar como sendo o Ser. O que é pensado e dito não é o Ser e este se tornou correlato ao Nada. Mas o Nada se tornou assim, pela expressão do tratado, o que se ofereceu ao pensar – para lá do pensamento daquilo que se pode convenientemente dizer.

Contudo Parmênides também se pronuncia sobre a relação de pensamento e linguagem. As três vias propostas, do não-ser, do ser e da aparência apresentam-se também como possibilidades de linguagem. A do não-ser a interdita. A do ser e a da aparência a compreendem, mas não do mesmo modo.

A partir do verso 50 do fragmento 8, quanto se introduz o discurso sobre a opinião, este é anunciado como sendo uma lição a respeito da opinião. Deve ser recebida ouvindo-se “a ordem enganadora” das palavras que a revelam. O que se segue assemelha-se à paródia do discurso mítico tradicional. Assim a linguagem conserva a sua duplicidade, sua aliança ao mesmo tempo com Alethéia e Ápate.

É interessante notar que o poema não se traduziu “a ordem falsa”, pseudés. Pois não se trata, como já observamos anteriormente, no domínio da narrativa mítica, de uma oposição da verdade ao falso mas ao esquecimento ou ao engano. O esquecimento é ausência do discurso, sua impossibilidade de ser dito, mas o engano pode ser uma estratégia, funcionando de algum modo no âmbito da persuasão.

Assim o pema de Parmênides situa de modo cortante a ruptura com a pragmática narrativa ao mesmo tempo em que desmascara o seu mecanismo. Mas os versos 34 a 36 não são menos enigmáticos, o que se mostra na sequência, abrangendo o que vem após até o ponto em que começa a lição sobre a opinião. Pois o que se segue à enunciação do mesmo que une o pensar e aquilo de que é pensamento é a linguagem “pois não sem o que é, no qual é revelado em palavra, acharás o pensar”.

É´ no que é que o pensar se revela em palavra. Assim a palavra não revela o ser mas no ser ela revela o que é o pensar. Encontramos o pensar com-o-que-é. No que é, o pensar se revela em palavra.

Ocorre a entrada no regime da enunciação que se faz na via que é a do Ser. Mas então “tudo será nome” e entre os pares de opostos que se nomeiam está “ser e também não”. Como é que o não-ser se tornou nomeável se o não-ser se definiu como incognoscível e inacessível ao dizer?

Poderíamos resolver a questão pelo traçado entre o não-ser absoluto, o que não existe, o Nada, e o não-ser relativo, o ato de negar que algo determinado seja. Nesse caso o tudo que se estatui na conviccção de ser verdade será nome. A indeterminação do “tudo” se tornou a pluralidade dos entes que se nomeiam na clareza da linguagem verdadeira. Mas poderia se tratar de uma ilusão essa “convicção” já que ela pertence aos “mortais”.

Com efeito, o que os nomes nomeiam são processos de alternância entre pares de opostos, isto é, o que os nomes fazem é fixar momentos de uma mutação contínua. Mas o ser “nem era ou é ou será outro fora do que é”, sendo inteiro e imóvel. Nos versos 46 e 47 ainda se especifica: pois nem não ente é, que o impeça de chegar a ser igual, nem ente é que fosse a partir do ente aqui mais e ali menos, pois é todo inviolado”.

Interpretando desse modo Nietzsche caracterizou a ruptura de Parmênides com a opinião no sentido da reserva a apenas uma asserção como propriedade distintiva do conhecimento real, isto é, que o ser é, com seu correlato, o não-ser não é. No entanto creio que a “convicção” ainda que relacionada aos “entes” e partilhada por “mortais” não se estabelece no âmbito daquilo que vem após como lugar do enganoso.

Inversamente, o que ocorre é uma delimitação entre o Ser e os Entes. O que só se pode afirmar do ser é que ele é, mas sendo, e não se confundindo com os entes, é nele que os entes são. Assim pode haver “revelação”, logo pode haver discurso verdadeiro dos entes, isto é, conhecimento que não se confunde com o discurso enganoso da opinião.

O revelar do poema salta como a eclosão do desvelamento do que vigora na Physis, no vigorar. A pre-sença nesse pré-existir que só se endereça como tal ao ser humano, que existe no Logos. A tese do Crátilo se enuncia então: tudo será nome, nome é e será tudo aquilo que ele nomeia, não podendo deixar de ser, isto é, não podendo o ente deixar de se revelar, em palavra, no ser.

O pensamento retórico guarda o liame com a ontologia fundamental dos pré-socráticos e a prática dos sofistas dá continuidade, em certo sentido, à proliferação das pragmáticas do conhecimento pois se abandona as hipóteses cosmológicas, registra o interesse e o exercício em astronomia, medicina, matemática e outros campos de investigação especializados.

No entanto a relação de crítica e ruptura com a pragmática narraativa se faz de um modo que considero não de todo metafísico.

 

 

c) Transições epistemológicas – da fundação do platonismo à nova imagem do pensamento

 

 

Seria, com efeito, fácil propor que o retrocesso platônico abrange a legitimação pelo relato – mito da caverna, etc. No entanto o que ocorre no pensamento retórico e contra o que Platão se predispõe é não o abandono mas uma utilização do relato dentro da compreensão autêntica do Logos em seu estatuto poiético, ou seja, como destinação do Ser. Já a utilização platônica do relato se movimenta no sentido de desconsiderar o caráter de combate – fundamentalmente abertura, liberdade – do Logos, para determina-lo como verdade logicamente predicável sempre dada de uma vez por todas com seu pressuposto de moral correlato.

O que há de metafísico é que a mesma atitude de que há verdade sempre dada, resultante da audição do mito, se propõe como imagem do pensamento a ser adotada como ciência ou conhecimento – episteme por oposição à doxa, no patonismo.

Os meios mudam, da dialética ao método experimental, mas a atitude fundada como imagem de pensamento permaneceu a mesma. Assim o desenvolvimento da metafísica, desde o platonismo, redundou nessa oposição básica, apontada por Lyotard, entre as duas legitimações, pela narrativa ou pelo desempenho. Mas ambos se reúnem na história da metafísica ocidental por compartilharem a mesma expectativa de certeza ainda que não se contentando do mesmo modo com seus resultados já que uma precisa apenas do consenso da cultura e outra requer a demonstração no desdobramento dos processos de argumentação e prova.

Contudo Lyotard não se limita à descrição desses dois estatutos pragmáticos. Ele detecta, com efeito, na ruptura de Wittgenstein com o Círculo de Viena, ou ao menos em seu não comprometimento, “a perspectiva de um outro tipo de legitimação que não fosse o desempenho” relacionando-se ao mundo pós-moderno.

A novidade é que de modo algum se poderia contrapor o esgotamento das possibilidades de legitimação a partir das pragmáticas descritas, isto é, supor que daí resulta apenas a selvageria. E aqui Lyotard converge com Appel ao ancorar esse outro tipo de legitimação na prática de linguagem e na interação comunicacional.

A observação de Wittgenstein como o marco dessa realidade pós-moderna também é comum entre ambos. Mas enquanto Appel estabelece a rede de relações que desde a reação ao positivismo funda a tradição da hermenêutica contemporânea enraizada no desenvolvimento das ciências humanas, Lyotard descreve o abandono do paradigma da função derivada, logo da previsibilidade, do determinismo, a partir de trabalhos científicos que podem também ser apreciados em Gleick, algo que se pode portanto geralmente agrupar como as Ciências do Caos.

O interessante aqui é que se existe um claro situamento nas áreas de física e matemática as pesquisas evoluem num âmbito de complexidade “entre” os limites disciplinares anteriormente estabelecidos. Assim Lyotard aproxima explicitamente René Thom e Heráclito na redução do processo causativo ao conflito de modo que “o antagonismo catastrófico é a regra”, as séries em jogo regulando-se pela “agonística geral”. A paradoxologia será aplicada no estudo da esquizofrenia. O indeterminismo, a instabilidade, são a constante: a legitimação é pela paralogia, o que abrange os sistemas abertos, a localidade, o antimétodo.

O desacordo tornou-se mais fundamental, o consenso resultando na provisoriedade, como “ilhas de determinismo”. O que se torna muito proveitoso para os nossos propósitos é o estatuto do relato, a relação com o saber narrativo que se estabelece em cada caso.

A questão abrange o fato de que até aqui as legitimações do saber e da ciência foram resgatadas apenas para si mas não para o outro. Assim quando o conhecimento racional surge com o início da filosofia ele devém da descoberta do limite do saber narrativo uma vez que se coloquem circunstâncias não estipuladas pelas regras de seu exercício, como por exemplo a pergunta sobre o fundamento não mais relacionada ao sujeito que cauciona o dicurso e sim ao objeto em sua demonstrabilidade mesma. Pode-se então estabelecer esse processo de ruptura na significação da palavra “filosofia”.

 

d) Sofística e filosofia

Aristóteles afirmou por exemplo que a sofística “parece sabedoria mas não é”. Seu uso de termos é magistral já que a intenção crítica manifesta recobre a ambiguidade instalada no interior do próprio termo “sofística”.

Sophós, de que a palavra deriva, significa sábio mas, conforme uma expressão de Grynpas, “toda sabedoria é inicialmente de essência religiosa”. Na verdade a ambiguidade tampouco deixava de ser modulada intencionalmente desde o início pelos próprios sofistas,. pois esse sentido de sofós que designa a excelência do mestre retor já se pronuncia mais na proximidade de uma confluência entre os atributos de esperteza e sagacidade e a realização de uma competência epistêmica especializada.

O termo já não denota aquele sentido de autoridade sagrada do período mágico-religioso. No entanto ele conserva a extensão do maravilhoso por que ao vulgo o desempenho do sofista continua sendo algo espetacular. O que não ocorre de algum modo como contingente mas deriva de uma exploração consciente da aplicação do termo. Os sofistas não deixavam, como ainda os pré-socráticos, a ambiguidade do termo alcançar a própria imagem do exercício. Ao invés de taumaturgos seu espetáculo de brilhantismo devia ser de ordem puramente intelectual cuja grande ancoragem será o Logos, o poder da linguagem.

Platão pode surgir como o marco de uma exigência, não como a fundação mesma do que ela exige. Trata-se de opor já nesse começo àquilo que hoje se atinge seja pela tradição do humanismo seja pela via das Ciências da Complexidade, um ideal de desempenho modelado pela determinação, pela identidade como algo mais fundamental, anterior ao ágon. Deriva daí a modulação platônica da dialética. Ao invés de um instrumento erístico ela se põe a serviço da contemplação daquilo que sendo eternamente o mesmo permanece supostamente como critério do verdadeiro.

O que está “entre” os sofistas e Platão é porém a relação com o outro. “Filosofia”, amor à sabedoria, tampouco poderia ser a sabedoria mesma, aquele fundo de saber mítico que a partir do projeto de conhecimento racional havia sido abandonado já com os pré-socráticos. Os conhecimentos especializados são praticados por todos, pré-socráticos, sofistas, platônicos: matemática, astronomia, fisiologia... O tratamento pelo Logos dos conflitos ou dúvidas da alma também é comum à retórica e ao diálogo socrático. Mas o que a sofística deixa ao outro, isto é, que imagem ela deixa ser veiculada como conhecimento no meio mais amplo da cultura?

A questão envolve legitimação mas não no sentido de que critérios ela utiliza na avaliação do enunciado e sim como ela se prescreve culturalmente enquanto conhecimento. Poder-se-ia supor que ela institui uma quase-legitimação ao fazer circular a pedagogia como metaconhecimento. Mas a Paidiéia, pelas próprias condições peculiares à polis ateniense, é mais do que uma habilitação técnica somada a uma ilustração humanista. Ela é constituição de cidadania plena. Assim é a sofística, não Platão, quem efetiva desde o início o conhecimento – de fundo indeterminista, conflituoso, catastrófico, paradoxal – no âmbito político da negociação com o outro. O professor ou mestre retor cobra lições num meio de circulação comercial. O Logos pode ser ensinado como ciência ou conhecimento especializado, não depende de uma vinculação pela origem, mas da observação e sistematização do vínculo social.

Mas se o Logos é esse fundamento, e se o situamento cultural do conhecimento se processa como fenômeno político por excelência, a legitimação se faz nos dois sentidos, tanto pelo ensino da cidadania como pela compreensão dos relatos como processos constitutivos do conhecimento enquanto indissociáveis da linguagem como seu próprio meio. No entanto o estatuto do relato não se abrange como o grande relato fundador da verdade básica mas se produzem os pequenos relatos, as sagas que moram na origem dos termos, as histórias de conceitos, sempre localizadas na indefinição das margens.

A clássica idéia de que Sócrates teria fundado a exigência ética, portanto introduzido a questão social, torna-se um contrasenso. Na verdade o que o Platão socrático pretende é constituir uma pretensão de verdade independente de qualquer vínculo social, ou seja, de heterogeneidade, se possível tornando a fundar a própria sociedade numa base unilateral de domínio. Para isso melhor seria uma dialética contemplativa como pura ascese – do elemento retórico – para o acesso direto àquilo que se pensava como já desde sempre dado. Mas Platão não dispõe do instrumento por excelência. Sua ascese permanece na regiã impura da materialidade, do corpo.

Aquilo que ele observa, porém, o que Sócrates realmente exige, se relaciona com o fato de que uma vez que se tenha aceito a existência desse objeto puro a contemplar como o sempre lá da verdade então o hiato entre essa realidade inefável e o discurso reduplica aquele entre idéia e materialidade mas também se institui na cisão entre o ser e o dever, entre o conhecer da ciência e o prescrever da ética.

Se o objeto de conhecimento está apartado da matéria, o domínio da ciência não se pde legitimar culturalmente de modo intrínseco. Compreende-se assim que a necessidade que Sócrates objeta à sofística já estava suprida por esta no interior de uma imagem de pensamente para a qual o vínculo social é constitutivo. Mas do vínculo social o que é constitutivo é a heterogeneidade, a diferença, a negociação, a impermanência, a complexidade – tudo o que Sócrates pretendia banir de sua ciência como de sua República.

Platão reintroduz também o relato – o mito retorna aí com uma aplicação hierática. Para legitimar a ciência purgada de seu vínculo material-social seria preciso erigir uma imagem de pensamento dogmática, através de um novo tipo de narrativa, capaz de assegurar culturalmente uma sociedade na qual o conhecimento se incorpora no sistema geral das crenças desde sempre asseguradas. Lyotard mostra como esse problema ressurgiu no iluminismo engendrando os grandes relatos de legitimação do próprio conhecimento científico de modo a cobrir o hiato entre o jogo de linguagem expositivo-denotativo da ciência e os enunciados prescritivos que afinal é o que se exige da cultura.

A ciência só pode assegurar o verdadeiro. Enquanto conhecimento, porém, ela só pode se legitimar culturalmente se puder também prescrever o justo. Mas vimos como essa exigência se derivou de uma imagem do pensamento dogmática, que se instituiu finalmente no âmbito de uma dupla ruptura. Primeiro com a “sabedoria” mágico-religiosa, depois com o que se apresentava como o efetivo reverso dessa mentalidade arcaica, isto é, a imagem de pensamento que começou a se erguer no pensamento pré-socrático e sofístico, a ontologia fundamental desenvolvendo-se como pensamento retórico de que o vínculo social é constitutivo.

Já na Antiguidade se instalou a contraposição entre os prjetos de legitimação pelo desempenho e pela paralogia, no interior da episteme. Ocorre então a sistematização desse estado de coisas ambíguo em Aristóteles.

 

 

e) O projeto epistemológico aristotélico

 

Na obra de Aristóteles ocorre a fundamentação da imagem de pensamento que em Platão se propôs apenas como exigência. Mas a complexidade dos estudos em Aristóteles, sua própria intenção de abranger toda a instituição de conhecimento da época, torna sua teoria muito abrangente de modo que aquilo que ela possibilitou com relação à imagem de pensamento dogmática é inseparável dos desdobramentos históricos que conduziram à aplicação escolástica e mesmo moderna da teoria.

Aristóteles, a meu ver, instituiu de modo pioneiro a delimitação entre ciências da natureza e do espírito, entre exigências de explicação e compreensão, mesmo sem ter utilizado estes termos. Assim se ele instituiu a exigência do enunciado apofântico, suscetível de verdade ou falsidade, no sentido do conhecimento enquanto racionalidade, não deixa de instituir a retórica como presença do mundo na práxis.

Heidegger observou o enraizamento ontológico aristotélico na base da biologia –”investigação do ente que vive e de Biós, isto é, Dasein” –. Já a retórico seria “a hermenêutica do próprio Dasein”. Mas as relações de retórica e conhecimento verdadeiro em Aristóteles teriam permanecido na abrangência ontológica de uma compreensão do ser limitada à sentença teórica. Por esse motivo Heidegger se mantem ambivalente mostrando que na obra de Aristóteles há uma relação fundadora com a metafísica mas ao mesmo tempo nela o sentido originário do Ser é preservado, de algum modo, mantendo-se em continuidade com a ontologia dos pré-socráticos.

Essa ambivalência pode ser visada no âmbito maior da observação que Heidegger empreende de mdo geral sobre os gregos, a partir da premissa de sua copertinência originária com o sentido existencial de A-lethéia.

Assim há valorização da escolha aristotélica da vida e do alcance do seu pensamento que abrange tanto os processos formais do raciocínio silogístico quanto conserva a preocupação com o papel da eloquência no universo cultural e político da cidade – Estado, o que se pode deduzir de seus estudos em Retórica. O estudo da eloquência nesse caso, é conexa à valorização da prática.

Como ocorre também de modo geral no desenvolvimento da observação de Heidegger sobre os gregos, o que se mantém de originário está, porém, na abrangência de um processo histórico de natureza metafísica. Assim gradativamente, desde uma influência decisiva que determinou o próprio projeto ontológico heideggeriano pelo estudo dos significados do Ser em Aristóteles, ocorre a depuração das linhas de orientação de modo que a natureza apofântica de que se depreende os significados do Ser é aquilo em que se pode localizar o viés metafísico que se reencontra, conforme Heidegger, em Husserl e nos neokantianos.

É interessante observar o quanto essa relação de influência de Aristóteles sobre Heidegger, tal como descrita na obra de Martin Kuch, ocorre de modo totalmente inverso daquele sugerido por Cassin. Aí tratava-se de localizar o De Interpretatione como carta fenomenológica a partir da leitura do capítulo sete de Sein und Zeit, e desse modo, assimilar a Als Struktur de Heidegger à atribuição predicativa das categorias.

Ocorre que, inicialmente, a influência dos estudos aristotélicos em Heidegger favoreceu a sua própria aproximação com Husserl. Heidegger viu na intuição categorial de Husserl justamente o tipo de objeção que ele fazia à localização do Ser no juízo. Assim se mostra que Heidegger não atribuía de modo algum a Aristóteles uma compreensão do ser implícita nas relações intensionais a objetos do mundo, ou seja, ele não considerava fenomenologicamente o texto do De Interpretatione mas conforme o seu procedimento habitual procurava na utilização grega das palavras o seu sentido mais originário, e assim com o termo “fenômeno” em sua relação com o desvelamento.

Isso pode ser observado pelo fato de que muito inversamente a qualquer possibilidade de assimilação da Als Struktur ao De Interpretatione, Heidegger pensa que a conceituação aristotélica de ato e potência pode ser sempre estabelecida no sentido da presença constante e que na teoria do juízo o que se torna explícito é unicamente a atribuição predicativa, isto é, derivada, pelo que algo está na perceptibilidade do estar-à-mão como tal na forma do discurso categorial.

Heidegger descreve assim duas estruturas-como. A aristotélica, como-apofântica, e a sua própria, como-hermenêutica. Nesse âmbito hermenêutico a interpretação não se faz no domínio da predicação mas anteriormente a qualquer atribuição discursiva possível, isto é, na intencionalidade, na interpretação, já implícita em todo fazer e ver.

O que, em seguida, vai determinar a separação de Heidegger com relação a Husserl é o fato de que na descrição do intencional Husserl permanece na pressuposição de uma oposição básica de sujeito e objeto, o que o mantém na tradição metafísica que, compreende o Ser como cópula, no esquema atributivo de objeto a sujeito. A linguagem assim tornada modelo não permite uma real transformação, como a que propôs Appel. Ela se mostra modelo atributivo e intensional mas derivada de processos que fundamentalmente são da consciência frente ao, separada do, mundo de objetos.

A observação de formas de linguagem que não se deixam analisar pela estrutura sujeito-predicado, como a poesia, e de que o ser da linguagem não pode ser assimilado ao ser de um objeto no mundo, é aquilo que conduz Heidegger no desenvolvimento do pensamento hermenêutico, da linguagem como meio em que sempre se já está, o que o faz singularizar-se em relação a Husserl como à toda tradição metafísica.

Assim, como vimos, o De Interpretatione continua isento de uma leitura fenomenológica no sentido da intencionalidade. Aristóteles pensa, efetivamente, a atribuição como aplicação racional da linguagem a uma realidade que é independente do homem, recuperável pelos sentidos e pelos processos racionais de abstração.

Quanto a Husserl, se localiza a intencionalidade previamente a essa aplicação, contudo o ser “de” algo, da consciência, permanece na pressuposição de uma cisão fundamental consciência-objeto.

Em geral o alcance da iniciativa aristotélica parece-me não se limitar por si ao projeto dogmático platônico. É interessante observar que certas constatações de Aristóteles em biologia como por exemplo sobre a hectocotilização, tiveram que esperar até o século XIX para ser confirmadas. Em filosofia há uma intensa produção relacionada aos estudos aristotélicos, mas devido às predisposições de cada época não se pode só por isso afirmar que determinadas conclusões sejam indubitáveis. Assim se a lógica contribuiu para a caracterização dogmática de sua epistemologia os trabalhos mais recentes de Perelman relacionaram argumentação retórica e aristotelismo de uma nova maneira acentuando aspectos até então negligenciados da teoria. / 1 /

Quanto a isso é interessante obervar que a influência de Aristóteles na atualidade se exerce precisamente na via inversa da imagem tradicional que privilegiava o seu investimento, no domínio da linguagem e da prova, unicamente no sentido da lógica formal.

O universo de Aristóteles é bem mais amplo, contudo, o que se pode observar pelo fato de que ele estabelece uma corrente que investiga a comprovação racional de tipo argumentativo ou persuasivo. A Retórica aristotélica pode assim ser visada no desenvolvimento da sofística uma vez tendo se transformado as circunstâncias históricas que haviam permitido a esta conduzir a aplicação da antiga retórica, forense ou mística, no âmbito prático da democracia ateniense.

Os trabalhos de Perelman constituíram a assim designada “Nova Retórica”. Como mostra Umberto Eco, os discursos apodíticos agora se limitam apenas aos sistemas axiomatizados. Assim o filosófico, como o político, e mais geralmente “todos os raciocínios humanos a respeito de fatos, decisões, crenças, opiniões e valores” se constituem na abrangência da retórica. Essa corrente, iniciada por Aristóteles, volta-se para a linguagem informal, de uso comum, observando os requisitos da persuasão.

Os processos argumentativos são visados no seu comprometimento com “elementos afetivos, avaliações históricas e motivações práticas”. É interessante observar que não no De Interpretatione, mas sim no âmbito da Retórica, Aristóteles se aproxima de uma concepção hermenêutica de linguagem. Mas conforme o que se pôde depurar até aqui, parece que no âmbito geral da teoria aristotélica, a retórica permaneceu como algo aplicável a um domínio específico, não como a essência do processo racional de que se pode, por exemplo, depreender uma conexão com a epistemologia. Continua porém sendo uma questão a considerar se realmente se pode deduzir assim.

Aubenque, por exemplo, inclinou-se por ver na fragmentação da ontologia – a declinação do ser em vários sentidos– uma real impossibilidade do projeto ontológico em favor de uma antropologia geral, isto é, no mundo sublunar apenas a argumentação retórica se torna efetiva ao invés de um discurso único sobre o Ser. Heidegger oferecia a mesma decução de impossibilidade quanto ao projeto ontológico de Kant uma vez que se havia estabelecido na cisão do existencial, do predicativo e do transcendental. Abstenho-me aqui de opinar sobre essas conclusões no domínio da ontologia, pois penso que seria necessário um estudo muito mais amplo para desenvolver essa questão.

Mas quanto à possibillidade da inserção de uma compreensão mais abrangente sobre o papel da Retórica, já presente na teoria aristotélica mesma, isso me parece bem plausível, o que pode aproximar significativamente sua teoria com a sofística na visão de conjunto da atualidade, o que implica porém, a questão da crítica aristotélica aos sofistas.

Essa questão me parece poder se estabelecer no âmbito do projeto epistemológico aristotélico. A crítica da sofística se tornava consequente pelo fato de que as condições haviam mudado no Estado ateniense, de modo que um exercício de tipo puramente sofístico se tornava problemático. Mas Aristóteles não considerava a fragmentação da ontologia como obstáculo ou impossibilidade em sim na positividade de sua constituição mesma. É´ assim que ele a afirmou como refutação, que considerava definitiva, do argumento megárico quanto à impossibilidade de atribuição.

Aristóteles se propõe então um projeto epistemológico mais vasto, integrando o que se poderia utilizar da sofística no âmbito de uma repartição de saberes ontologicamente, mas também praticamente, orientado.

Em todo caso sabemos que o influxo da sociedade feudal utilizou o que pôde da antiguidade conforme seus propósitos. Contudo as possibilidades de leitura da teoria aristotélica se renovam na atualidade de modo que, se certas conclusões se tornam impraticáveis, há margem para aplicação em muitos domínios e de modo geral uma gama de questões que permanecem na contingência de ser mais amplamente desenvolvidas.

Que o projeto epistemológico aristotélico é irredutível ao do platonismo me parece bastante claro, sobretudo pela importância, que já se pode atualmente apreciar, do âmbito prático em sua teoria. Mas precisar o sentido exato dessa importância, de modo a especificar se a teoria aristotélica autêntica se inclina mais no sentido do desempenho ou da paralogia, ou se pode ser adequadamente visada nessa oposição, isso me parece depender de uma consideração bem mais ampla, envolvendo a ontologia, pois se a repartição teofrástica estabeleceu a aplicação dos domínios, permanece a questão de como se os avalia no âmbito da efetividade, ou principalmente como essa aplicação se encontra estabelecida no pensamento de Aristóteles. Em todo caso na consideração dessa questão o papel da Retórica, como já assinalei, me parece preponderante.

Heidegger não errou, portanto, ao relacionar o platonismo com a aurora iluminista da técnica contra todas as aparências de ruptura de empirismo e racionalismo, materialismo e idealismo. A imagem de pensamento dogmática, que se legitimizou para si como desempenho, se legitimou culturalmente, isto é, para o outro, desde a grande época da universidade na Europa, de Humboldt a Hegel, na tradição dos grandes relatos da Vida e do Espírito, conforme Lyotard. Isso nos faz recolocar a questão de nossa proximidade com os sofistas.

Pois na atualidade os registros mais antagônicos detectam esse novo aporte que Lyotard designou como legitimação por paralogia. O fenômeno da sociedade ocidental ter se tornado democrática, apesar de todas as limitações do quase-totalitarismo da era da técnica, mais a complexidade interna ao desenvolvimento científico e cultural são fatores que confluem na resposta. Mas a localização do compreender, no âmbito da hermenêutica, fornece uma contribuição precisa ao situar no âmbito da linguagem, já ontologicamente visada por Heidegger, algo de fundamental a esse processo.

A crítica se desenvolveu ora acentuando a dependência da legitimação cultural da ciência pelos grandes relatos de fundação, ora no sentido de uma transformação da filosofia trazendo o âmbito da epistemologia tradicional para o campo da linguagem inseparável das problemáticas ligadas à vinculação social, ao mundo – e uma vez que isso se processou, como crítica, sobre a crítica de estilo kantiano, moldada na consciência, eu a designei metacrítica.

Considero assim que o domínio do Logos na Antiguidade se encontra aproximadamente descrito. Vimos como a geofilosofia grega ambientou a ontologia fundamental intimamente relacionada ao desenvolvimento do pensamento retórico, erigindo algo como uma imagem de pensamento “sem imagem”, isto é, sem as ilusões de fundação e representação mas sempre constituindo-se na imanência social mais heterogênea. Vimos também como essa mesma geofilosofia possuía elementos culturais bastante amadurecidos de modo a tornar-se aptos a constituir uma imagem de pensamento inteiramente fundada na recognição, que designei dogmática. Agora devemos observar a marcha desse outro processo, aquele pelo qual numa aparente mas ilusória continuidade essas imagens de pensamento tornaram a se enfrentar, agora no cenário instituído de nossa contemporaneidade.


 Ilustrações:


Colunas do vestíbulo do palácio de Knossos


Interior do palácio de Knossos – A sala do trono

Cerâmica cretense

Copa micênica

A Acrópole

Vaso François – 570 a. c. Klítias (pintor) e Ergótimos (oleiro)


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